Nota biográfica

António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924 - Lisboa, 23 de Setembro de 2013), poeta português, ainda reconhecido como desenhador. Fez parte do MUD Juvenil. O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro.

António Ramos Rosa – “Um caminho de palavras…”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sem dizer fogo – vou para ele. Sem enunciar as pedras, sei que as piso – duramente, são pedras e não são ervas. O vento é fresco: sei que é vento, mas sabe-me a fresco ao mesmo tempo que a vento. Tudo o que eu sei, já lá está, mas não estão os meus passos e os meus braços. Por isso caminho, caminho porque há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo, caminho e descubro o meu caminho.
Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também: então invento os meus passos e o meu próprio caminho. E com as palavras de vento e de pedra, invento o vento e as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.

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António Ramos Rosa – “Teu corpo principia”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dou-te um nome de água
para que cresças no silêncio.

Invento a alegria
da terra que habito
porque nela moro.

Invento do meu nada
esta pergunta.
(Nesta hora, aqui.)

Descubro esse contrário
que em si mesmo se abre:
ou alegria ou morte.

Silêncio e sol – verdade,
respiração apenas.

Amor, eu sei que vives
num breve país.

Os olhos imagino
e o beijo na cintura,
ó tão delgada.

Se é milagre existires,
teus pés nas minhas palmas.

O maravilha, existo
no mundo dos teus olhos.

O vida perfumada
cantando devagar.

Enleio-me na clara
dança do teu andar.

Por uma água tão pura
vale a pena viver.

Um teu joelho diz-me
a indizível paz.

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Benjamin Neukirch – “Silvia”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Porque praguejas, Sílvia, quando esta negra mão
       C’o teu seio quer brincar?
Era alva como tu, e o fogo da paixão
       Assim a fez ficar.
Se com teu fogo vens meu corpo incendiar,
De mármore nem neve pode minha mão ser.
Dizes-lhe que não busque e não faça o que faz.
       Tens razão. Há-de ser.
Mais não busca que a ti, mais não quer do que paz
       E seu jogo jogar.
De que te queixas, pois? E que razões ter julgas,
Já que favores iguais não os negas às pulgas?

Tradução de João Barrento

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António Nobre – “Viagens na minha terra”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ás vezes, passo horas inteiras
Olhos fitos n’estas brazeiras,
Sonhando o tempo que lá vae;
E jornadeio em phantazia
Essas jornadas que eu fazia
Ao velho Douro, mais meu Pae.

Que pittoresca era a jornada!
Logo, ao subir da madrugada,
Promptos os dois para partir:
-Adeus! adeus! é curta a auzencia,
Adeus – rodava a diligencia.
Com campainhas a tinir!

E, dia e noute, aurora a aurora,
Por essa doida terra fóra,
Cheia de Côr, de Luz, de Som,
Habituado á minha alcova
Em tudo eu via coiza nova,
Que bom era, meu Deus! que bom!
Moinhos ao vento! Eiras! Solares!
Antepassados! Rios! Luares!
Tudo isso eu guardo, aqui ficou:
Ó payzagem etherea e doce,
Depois do Ventre que me trouxe,
A ti devo eu tudo que sou!

No arame oscilante do Fio,
Amavam (era o mez do cio)
Lavandiscas e tentilhões …
Agoas do rio vão passando
Muito mansinhas, mas, chegando
Ao Mar, transformam-se em leões!

Ao Sol, fulgura o Oiro dos milhos!
Os lavradores mail-os filhos
A terra estrumam, e depois
Os bois atrelam ao arado
E ouve-se além no descampado
N’um impeto, aos berros: – Eh! bois!

E, em quanto a velha mala-posta,
A custo vae subindo a encosta
Em mira ao lar dos meus Avós,
Os aldeãos, de longe, álerta,
Olham pasmados, bocca aberta …
A gente segue e deixa-os sós.

Que pena faz ver os que ficam!
Pobres, humildes, não implicam,
Tiram com respeito o chapéu:
Outros, passando a nosso lado,
DIziam: «Deus seja louvado!,.
«Louvado seja!» dizia eu.

E, meiga, tombava a tardinha …
No chão, jogando a vermelhinha,
Outros vejo a discutir.
Carpiam, mysticas, as fontes …
Agoa fria de Traz-os-Montes
Que faz sede só de se ouvir!

E, na subida de Novellas,
O rubro e gordo Cabanellas
Dava-me as guias para a mão:
Isso … queriam os cavallos!
Que eu não podia chicoteal-osx
Era uma dôr de coração.

Depois, cançados da viagem,
Repoizavamos na estalagem
(Que era em Casaes, mesmo ao dobrar … )
Vinha a Sra. Anna das Dores
“ Que hão-de querer os meus Senhores?
Há pão e carne para assar x”

Oh! ingenuas mezas, honradas!
Toalhas brancas, marmeladas,
Vinho virgem no copo a rir …
O cuco da sala, cantando …
(Mas o Cabanellas, entrando,
Vendo a hora: «É preciso partir».)

Caia a noite. Eu ia fóra,
Vendo uma estrella que lá mora,
No Firmamento portuguez:
E ella traçava-me o meu fado
“Serás Poeta e desgraçado!»
Assim se disse, assim se fez.

Meu pobre Infante, em que scismavas,
Porque é que os olhos profundavas
No Céu sem par do teu Paiz?
Ias, talvez, moço troveiro,
A scismar n’um amor primeiro:
Por primeiro, logo infeliz …

E o carro ia aos solavancos.
Os passageiros, todos brancos,
Resonavam nos seus gabões:
E eu ia álerta, olhando a estrada,
Que em certo sitio, na Trovoada,
Costumavam sair ladrões.

Ladrões! Ó sonho! Ó maravilha!
Fazer parte d’uma quadrilha,
Rondar, á Lua, entre pinhaes!
Ser Capitão! trazer pistolas,
Mas não roubando, – dando esmolas
Dependuradas dos punhaes …

E a mala-posta ia indo, ia indo,
O luar, cada vez mais lindo,
Caia em lagrymas, – e, emfim,
Tão pontual, ás onze e meia,
Entrava, soberba, na aldeia
Cheia de guizos, tlim, tlim, tlim!

Lá vejo ainda a nossa Caza
Toda de lume, côr de braza,
Altiva, entre arvores, tão só!
Lá se abrem os portões gradeados,
Lá vêm com velas os criados,
Lá vem, sorrindo, a minha Avó.

E então, Jezus! quantos abraços!
Qu’é dos teus olhos, dos teus braços,
Valha-me Deus! como elle vem!
Toda admirada, de mãos juntas,
Toda me enchia de perguntas,
Como se eu viesse de Bethlem !

-E os teus estudos, tens-me andado?
Tomára eu ver-te formado!
Livre de Coimbra, minha flôr!
Mas vens tão magro, tão sumido …
Trazes tu no peito escondido,
E que eu não saiba, algum amor?

No entanto entrava no meu quarto:
Tudo tão bom, tudo tão farto!
Que leito aquelle! e a agoa, Jezus !
E os lençoes! rico cheiro a linho!
-Vá, dorme que vens cançadinho.
Não adormeças com a luz!

E eu deitava-me, mudo e triste.
(- Reza tambem o Terço, ouviste?)
Versos, bailando dentro em mim …
Não tinha tempo de ir na sala,
De novo: – Apaga a luz! – Que rala!
Descança, minha Avó, que sim!
Ora, ás occultas, eu trazia
No seio, um livro e lia, lia,
Garrett da minha paixão …
D’ahi a pouco a mesma reza:
– Não vás dormir de luz acceza,
Apaga a luz! (E eu ainda…não!)

E continuava, lendo, lendo …
O dia vinha já rompendo,
De novo: – Já dormes, diz?
– Bff! … e dormia com a ideia
N’aquella tia Dorotheia,
De que falla Julio Diniz.

Ó Portugal da minha infancia,
Não sei que é, amo-te a distancia,
Amo-te mais, quando estou só …
Qual de vós não teve na Vida
Uma jornada parecida,
Ou assim, como eu, uma Avó?

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António Nobre – “Purinha”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

o Espírito, a Nuvem, a Sombra, a Quimera,
Que (aonde ainda não sei) neste Mundo me espera;
Aquela que, um dia, mais leve que a bruma,
Toda cheia de véus, como uma Espuma,
O Senhor Padre me dará pra mim
E a seus pés me dirá, toda corada: Sim!
Há-de ser alta como a Torre de David,
Magrinha como um choupo onde se enlaça a vide
E seu cabelo em cachos, cachos de uvas,
E negro como a capa das viúvas …
(À maneira o trará das virgens de Belém
Que a Nossa Senhora ficava tão bem!)
E será uma espada a sua mão,
E branca como a neve do Marão,
E seus dedos serão como punhais,
Fusos de prata onde fiarei meus ais!
E os seus seios serão como dois ninhos,
E seus sonhos serão os passarinhos,
E será sua boca uma romã,

Seus olhos duas Estrelinhas da Manhã!
Seu corpo ligeiro, tão leve, tão leve,
Como um sonho, como a neve,
Que hei-de supor estar a ver, ao vê-la,
Cabrinhas-montesas da Serra da Estrela …
E há-de ser natural como as ervas dos montes
E as rolas das serras e as águas das fontes,
E há-de ser boa, excepcional, quase divina,
Mais pura, mais simples, que moça e menina.
Deus, pela voz dos rouxinóis há-de gabá-la

E os rios ao passar hão-de cantá-la.
Seu virgem coração há-de ser tão branquinho,
Que não há neste Mundo a que igualá-lo: o linho
Que, em roca de cristal, fiava a minha Avó
Parecerá de crepe, e a neve … far-me-á dó,
Mais a farinha do moleiro e a violeta,
E a Lua para mim será como uma Preta!

Mas em que Pátria, em que Nação é que me espera
Esta Torre, esta Lua, esta Quimera?
Fui ter com minha Fada e disse-lhe: “Madrinha!
Onde haverá na Terra assim uma Rainha?”
E a minha Fada, com sua vara de encantar,
Um reino me apontou, lá em baixo, ao pé do Mar …

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu Ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

E no dia do meu recebimento!
Manhã cedo, com luar ainda no Firmamento,
Quando ainda no Céu não bole uma Asa,
A minha Noiva sairá de casa
Maila sua Mãe, mailos seus Irmãos.
E há-de sorrir, e hão-de tremer-lhe as mãos …
E a sua Ama há-de segui-la até à porta,
E ficará, coitada! como morta!
E há-de ser triste vê-la, ao longe, ainda … olhando,
Com o avental seus olhos enxugando …
E hão-de cercá-la sete Madrinhas;
Que hão-de ser sete virgens pobrezinhas,
Todas contentes por estrear vestido novo!
E, ao vê-las, suas mães sorrirão dentre o Povo …
E o povo da freguesia
Esperará mais eu, no adro de Santa Iria.
E hão-de mirar-me com seu ar curioso,
E hão-de cercar-me, num silêncio respeitoso.
E eu hei-de-Ihes falar das colheitas, da chuva,
E dir-me-ão “que já vai pintando a uva … ”

E animados então (o Povo é uma criança!)
Porque o Sr. Doutor lhes deu confiança,
“Que Deus o ajude” dirá um, e o Regedor:
“Vá coa Graça de Nosso Senhor!”
E eu hei-de agradecer, sorrir, gostar.
Mas o Anjo, no entanto, não deve tardar …
E d’entre o grupo exclamará um Velho, então:
“Já nasce o dia!” eu olharei … mas não:
É a minha Noiva que parece dia,
Luzente como a cal de Santa Iria!
E ao vê-la tão branca, de branco vestida,
Ao longe, ao longe, hei-de cuidar ver uma Ermida!
E dirá o Pastor, com espanto tamanho,
Que é uma Ovelha que fugiu do seu rebanho!
E o João Maluco dirá que é o Luar de Janeiro!
E o Pescador explicará ao bom Moleiro
Que é tal-qualzinha a sua Lancha pelo Mar!
E o Moleiro dirá que é o seu Moinho a andar!
Que assim já foram as velhinhas cismarão,
E as netas, coitadas! que, um dia, o serão …
Mas o Anjo assomará, à porta da capela,
E eu branco e trémulo hei-de ir ter com ela.
E a estrela deitar-me-á a bênção dos seus olhos
E uma aldeã deitar-lhe-á violetas, aos molhos!
E a Bem-Amada entrar na igreja há-de …
E há-de casar-nos o Senhor Abade.
E, em seguida, será a nossa boda,
E festas haverá, na aldeia toda.
E as mais raparigas do sítio, solteiras,
Hão-de bailar bailados sobre as eiras,
Com trinta moedas de oiro sobre o peito!
E cantigas dirão a seu respeito
E a Noiva em glória, perpassando nas janelas,
Sorrirá com simplicidade para elas.
E a noite, pouco e pouco, descerá …
E tudo acabará.
E depois e depois, o Anjo há-de se ir deitar,
E a sua Mãe há-de a abraçar … E hão-de chorar!
E a sua alcova deitará sobre o jardim,
Onde uma fonte correrá, entre alecrim:
E, ao ouvi-la cantar, deitadinha na cama,
O Anjo adormecerá, cuidando que é a sua Ama …
Mas qual a vila, qual a aldeia, qual a serra
Que este Palácio de Ventura encerra?
Fui ter com minha fada e disse-lhe: “Madrinha!
Acaso nunca te mentiu tua varinha?”
E a minha fada com sua vara de condão
Nos ares escreveu com três estrelas: “Não!”

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu Ideal?
Meninas! lindas meninas
Do Reino de Portugal!

O nosso Lar!
Minha Madrinha!, ajuda-me a sonhar!
Que a nossa casa se erga d’ entre uma eminência,
Que seja tal qual uma residência,
Alegre, branca, rústica, por fora.
Que digam: “É o Senhor Abade que ali mora … ”
Mas no interior ela há-de ser sombria,
Como eu com esta melancolia:
E salas escuras, chorando saudades …
E velhos os móveis, de antigas idades …
(E, assim, me iluda e, assim, cuide viver
Noutro século em que eu deveria nascer.)
E nas paredes telas de Parentes …
E janelas abertas sobre os poentes …
(E a Quimera lerá o seu livro de rezas … )
E cravos vermelhos por cima das mesas …
E o relógio dará as horas devagar,
Como as palpitações de quem se vai finar …

E, o dia todo, neste claustro e solidão,
Passarei a esquecer, ao canto do fogão;
E a cismar e a cismar sem que me veja alguém
Na Dor, na Vida, em Deus, nos mistérios do Além?
E eu o Astrólogo, o Bruxo, o Aflito, o Médio,
Rogarei aos Espíritos remédio
E um bom Espírito virá tratar do Doente
E há-de fugir com susto a outra gente.
E a Noite descerá, pouco e pouco, no entanto,
E a Noite embrulhará o Aflito no seu manto!
Mas a Purinha, então, vindo da rua,
Toda de branco surgirá, como uma Lua!
E, ao vê-la, acordarei, meu Deus de França!
E pela mão me levará, como uma criança.
E eu pálido! e eu tremendo! e o Anjo pelo caminho,
“Não te aflijas … ” dirá, baixinho …

E, assim, será piedosa para os mais:
E há-de entrar na miséria dos casais,
Nos montes mais altos, nos sítios mais ermos,
E será a Saúde dos Enfermos!
E quando pela estrada encontrar um velhinho
Todo suado, carregadinho,
(Louvado seja Nosso Senhor!)
Há-de tirar seu lenço e ir enxugar-lhe o suor!
E às aves, em prisão, abrirá as gaiolas.
E aos sábados, o dia das esmolas,
A Santa descerá ao patamar da escada,
(Envolta, sem saber, numa capa estrelada)
Esmolas, distribuindo a este e àquele: e aos ceguinhos
E mais aos aleijadinhos,
Mais aos que deitam sangue pela boca,
Mais aos que vêm cantar, numa rabeca rouca,
Amores, naufrágios e A Nau Catrineta,
Mais aos Aflitos que andam no Planeta,
Mais às viúvas dos Degredados …
E tudo seja pelos meus pecados!
E há-de coser (serão os remendos de flores)
As velas rotas dos pescadores
E a luz do seu olhar benzerá essas velas
E nunca mais hão-de rasgar-lhas as procelas!
E acenderá os círios ao Senhor,
(Que sejam como ela no talhe e na cor)
Quando houver temporal… e eu vier prà sacada
Ver os relâmpagos, ouvir a trovoada!
E nisto só resumir-se-á a sua vida:
Vestir os Nus, aos Pobres dar guarida,
Falar à alma que na angústia se consome,
Dar de comer a quem tem fome,
Dar de beber a quem tem sede …

E, lá, do Alto, Jesus dirá aos Homens: “Vêde … ”
E eu hei-de em minhas obras imitá-la.
E amá-la como à Virgem e adorá-la.
E a Virgem há-de encher com a mesma paixão
As marés-vazas deste pobre coração
Que tanto teve e hoje nada tem,
Nem mesmo aquilo que vós tendes, Mãe.
E será a Mamã que me há-de vir criar,
Admirável Joaninha d’Arc,
Meu novo berço duma Vida nova!
E há-de ir comigo para a mesma cova,
Pois que no dia em que eu morrer
Veneno tomará, numa colher …
Mas em que sítio, aonde? aonde? é que se esconde
Esta Bandeira, esta Índia, este Castelo, aonde? aonde?
Fui ter com minha Fada, e disse-lhe: “Madrinha!
Mas pode haver, assim, na Terra uma Purinha?”
E a minha Fada com sua vara de marfim
Nos ares escreveu com três estrelas: “Sim!”

Meninas, lindas meninas!
Qual de vós é o meu Ideal?
Meninas, lindas meninas
Do Reino de Portugal!

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António Nobre – “Para as raparigas de Coimbra”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tristezas têm-nas os montes,
Tristezas têm-nas o Céu,
Tristezas têm-nas as fontes,
Tristezas tenho-as eu!

O choupo magro e velhinho,
Corcundinha, todo aos nós,
És tal qual meu Avôzinho:
Falta-te apenas a voz.

Minha capa vos acoite
Que é para vos agazalhar:
Se por fora é côr da noite,
Por dentro é côr do luar …

Ó sinos de Santa Clara,
Por quem dobraes, quem morreu?
Ah, foi-se a mais linda cara
Que houve debaixo do Céu!

A sereia é muito arisca,
Pescador, que estás ao Sol:
Não cae, tolinho, a essa isca …
Só pondo uma flor no anzol!

A Lua é a hostia branquinha,
Onde está Nosso Senhor:
É duma certa farinha
Que não apanha bolor.

Vou a encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei!
Mondego, q’ué da tua agoa,
Q’ué dos prantos que eu chorei?

No inverno não tens fadigas,
E tens agoa, para leões!
Mondego das raparjgas,
Estudantes e violões I

– É só porque o mundo zomba
Que pões luto? Importa lá!
Antes te vistas de pomba …
-Pombas pretas tambem ha!

Therezinhas I Ursulinas!
Tardes de novena, adeus!
Os corações ás batinas
Que diriam? sabe-o Deus.

Ó bôca dos meus dezejos”
Onde o padre não poz sal,
São morangos os teus beijos,
Melhores que os do Choupall

Manoel do Pio repoiza.
Todas as tardes, lá vou
Ver se quer alguma coiza,
Perguntar como passou.

Agora, são tudo amores
Á roda de mim, no Caes,
E, mal se apanham douctores,
Partem e não voltam mais ….

Aos olhos da minha fronte
Vinde os cantarao encher:
Não ha, assim, segunda fonte
Com duas bicas a correr.

Os teus peitos são dois ninhos
Muito brancos, muito novos,
Meus beijos os passarinhos
Mortinhos por pôrem ovos.

Nossa Senhora faz meia
Com linha branca de luz:
O novelho é a Lua-Cheia,
As meias são pr’a Jezus.

Meu violão é um cortiço,
Tem por abelhas os sons,
Que fabricam, valha-me isso,
Fadinhos de mel, tão bons.

Ó Fogueiras, ó cantigas,
Saudades! recordações!
Bailae, bailae, raparigas!
Batei, batei, corações!

Coimbra, 1890.

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António Nobre – “Canção da felicidade”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

felicidade

Felicidade! Felicidade!
Ai quem me dera na minha mão!
Não passar nunca da mesma idade,
Dos 25, do quarteirão.

Morar, mui simples, n’alguma caza
Toda caiada, defronte o Mar;
No lume, ao menos, ter uma braza
E uma sardinha p’ra n’ella assar ….

Não ter fortuna, não ter dinheiro,
Papeis no Banco, nada a render:
Guardar, podendo, n’um mialheiro
Economias p’r’o que vier.

Ir, pelas tardes, até á fonte
Ver as pequenas a encher e a rir,
E ver entre ellas o Zé da Ponte
Um pouco torto, quazi a cair.

Não ter chymeras, não ter cuidados
E contentar-se com o que é seu,
Não ter torturas, não ter peccados,
Que, em se morrendo, vai-se p’r’o Céu!

Não ter talento; suficiente
Para na Vida saber andar,
E quanto a estudos saber sómente
(Mas ai sómente!) ler e contar.

Mulher e filhos! A Mulherzinha
Tão loira e alegre, ]ezus! ]ezus!
E, em nove mezes, ve-la choquinha
Como uma pomba, dar outra á luz

Oh! grande vida, valha a verdade!
Oh! grande vida, mas que illuzão!
Felicidade! Felicidade!
Ai quem ma dera na minha mão!

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António Maria Lisboa – “Projecto de sucessão”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para o Mário Henrique

Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.

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António Maria Lisboa – “Vírgula”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu menino às onze horas e trinta minutos
a procurar o dia em que não te fale
feito de resistências e ameaças — Este mundo
compreende tanto no meio em que vive
tanto no que devemos pensar.

A experiência o contrário da raiz originária aliás
demasiado formal para que se possa acreditar
no mais rigoroso sentido da palavra.

Tanta metafísica eu e tu
que já não acreditamos como antes
diferentes daquilo que entendem os filósofos
— constitui uma realidade
que não consegue dominar (nem ele próprio)
as forças primitivas
quando já se tem pretendido ordens à vida humana
em conflito com outras surge agora
a necessidade dos Oásis Perdidos.

E vistas assim as coisas fragmentariamente é certo
e a custo na imensidão da desordem
a que terão de ser constantemente arrancadas
— são da máxima importância as Velhas Concepções
pois
a cada momento corremos grandes riscos
desconcertantes e de sinistra estranheza.

Resulta isto dum olhar rápido sobre a cidade desconhecida. Mais
E abstraindo dos versos que neste poema se referem ao mundo humano
vemos que ninguém até hoje se apossou do homem
como frágil véu que nos separa vedados e proibidos.

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António Maria Lisboa – “Uma vida esquecida”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para o Fernando Alves dos Santos

Eu conheço o vidro franja por franja
meticulosamente
à porta parado um homem oco
franja por franja no espaço
meticulosamente oco uma porta parada.

Um relógio dá dez badaladas ininterruptamente
dez badaladas por brincadeira dança
um homem com pernas de mulher
e um olhar devasso no Marte
passo por passo uma criança chora
uma águia e um vampiro recuados no tempo

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António Maria Lisboa – “Varech”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu estimo sobre tudo os teus olhos incolores
as tuas mãos inúteis, a tua boca verde

Eu falo somente dos relógios caídos, dos autocarros

Eu falo somente dos pés vermelhos

Eu falo… eu falo… eu falo…

No vigésimo século as nuvens são árvores
e os pássaros mais pequenos grandes paquidermes

Sim, é verdade, os cabelos loiros

Então, meia-noite!

Senhora, se me dá licença, este dia acabou
por este dia
simplesmente

A criança é porca, é inútil

Muito obrigado.

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Vera Silva – “Amante sensual”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Abre a boca
E devora-me a língua
Em gestos soltos e precisos
Como se não te chegasse o tempo
Para me amares com loucura.
Enrosca-te nas minhas coxas
E prova o meu néctar de mulher.
Deixa-me gritar
E leva-me ao céu,
Entra em mim
Profundo,
Em movimentos perfeitos
De amante sensual,
E no fim
Sacia-me a sede
Do teu vigor.

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Teixeira Pascoaes – “Elegia do amor”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti …
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos …
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória …
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos …
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim …
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste … Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos …
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia …
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve – sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
– Que incêndio!
– E eu, a rir, Disse-te:
– É a lua cheia! …
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu …
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

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Teixeira Pascoaes – “Deslumbramento”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos cal vários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousax
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade …
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!

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Sophia de Mello B. e Andresen – “Pátria”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

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Sidónio Muralha – “Menina fútil”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…

– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…

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Século de Ouro Espanhol – “Jardim”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem não sabe de amor e seus efeitos·
não se intrometa e cale o que vier,
pois aqui só falamos com discretos.

Qualquer que o seja, ou sê-lo quiser,
terá licença de olhar minhas flores
e delas escolher as que quiser.

Mas os escrupulosos grunhidores
não quero nem consinto que as vejam,
pois não são para néscios os amores.

As damas e donzelas que desejam,
bem que não sendo belas, ser amadas,
sempre este livro leiam e revejam.

E as que de formosura são dotadas,
porque não basta só a formosura,
aqui verão mil graças derramadas.

Aqui não há enigmas nem figura,
rodeios, circunlóquios, indirectas,
mas claridade inteligente e pura.

Espero contentar mesmo as discretas;
e se alguma fugir de minhas flores,
é uma das mofinas indiscretas.

Se não, mostre-nos ela outras melhores,
ou, ao menos, confesse se na cama
contente ficaria com piores.

Termino com dizer que eu é que chamo
Jardim de Vénus a este meu livrinho,
no qual não acharão nem um só ramo
que não tenha de gozo algum pouquinho.

Sec. XVI e XVII

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Sebastião da Gama – “Apareces tão pouco”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A pareces tão pouco nos meus sonhos
que quando os sonho chego a ter saudades tuas.

E entretanto tu és ainda a mesma continuas
a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato,
a idealizar uma casa ao rés das ondas
(mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos)
e a fazer da Vida precisamente a ideia
que fizeste de mim desde a primeira hora.

Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus [sonhos.
E como eu, pela minha, calculava a tua pressa,
fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.

O tempo era o das flores …
E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la
ao maior e melhor de todos os poetas.
Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas,
e era já acordado que beijava as tuas mãos,
pois desceras comigo do sonho e à minha volta
o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar
e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas
eram tua presença verdadeira …
Por que não vens agora?
Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas …
E tu pensas de mim o que pensaste sempre
e bordas nos lençóis as nossas iniciais.
Por que não vens?
Chegarias ainda rosada e ofegante.
Não virias molhar de lágrimas meus sonhos,
porque não sabes nada … Nem sequer
que até esqueci a cor e o corte do vestido
que tu estreaste (há quantas Primaveras?)
no último sonho em que sonhei contigo …

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Sebastião da Gama – “Companheira”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
que a meus olhos se deram com igual
simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero, o milagre
das fontes pelo Estio …
Vieste (O Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas … ). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.
E o Amor? E o Amor? E o Amor?
-Vieste.

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Sebastião da Gama – “Elegia para a minha campa”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Agora, só,
que é o meu corpo terra confundida
na terra desta Serra minha Mãe;
agora, só,
a minha voz que sempre cantou mal
ao Céu se eleva…
Agora, só,
que no ventre da Serra minha Mãe repousa
meu corpo de Poeta,
de Poeta mudo em vida, por ausente
do ventre maternal os nove meses;
agora, só, claríssima se eleva
a minha voz-louvor,
a minha voz-carícia a minha Mãe,
ao Céu…
Agora, só,
que os meus lábios são terra de onde nascem
as moitas de folhado e de alecrim,
a minha voz saudosa de cantar
se elevará
até aonde o Céu tem cor e fim.
Se elevará a minha voz, perfume
desprendido, suavíssimo, dos matos
que surgiram de mim…

Agora, só,
que sou terra na terra misturada,
que a minha voz é voz de rosmaninho, eu poderei tratar por tu
a meu Irmão Frei Agostinho… Agora, só, a meu Irmão,
que comigo nasceu naquele Dia
em que ao Céu se entregou,
ébria de Sol e Maresia,
nossa Mãe Serra…

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Sebastião da Gama – “Elegia para uma gaivota”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Morreu no mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas,
aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado. É
finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.

Cantos de pescadores, embalai-a! Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalai-a!

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.

Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.

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Salvador Pliego – “Beijar-te inteira”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Contarei trezentas e vinte vezes trezentos
para beijar-te toda.
Deslizarei do alto até os pés,
dos penhascos às grutas,
de asa em asa, de pluma em pluma,
à tua sombra e em teus odores,
e para além do que me disse a aurora
da qual nunca me acercara.

Começarei do Este para o Oeste,
fixando um ponto à frente.
Contarei, ponto a ponto,
lento e languidamente,
pois há beijos que valem ouro
e serão pousados quietos sobre teu dorso.
Há beijos que são de encanto
e estes os ponho juntinhos,
para que se amontoem
soprando leves sobre teu doce ventre.
Há beijos que se hipnotizam,
rodam tontos e depois caem como flechas,
perdem-se no teu seio e vibram.

Há beijos e muitos beijos.
Hei-de contá-los sem pressa.
E conto-os, conto-os infindáveis,
só para eriçar tua pele e que te agites.

E quando chego a duzentos e trinta,
sem que percebas,
finjo-me de louco para começar de novo
a partir do zero:
trezentos e vinte trezentas vezes.
De Oeste a Este para deter-me
e inundar de beijos esses vazios
que me escaparam de Este a Oeste.

Trezentas vezes para que sonhes.
Trezentas vezes para que vibres.
Trezentas vezes, pra que me beijes também.
De Este a Oeste, envolvendo-te inteira,
para alentar-te, e arrebatar-te,
a fim de que sintas a primavera
que brotará do teu ventre.
(Tradução: Maria José Limeira)

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Sá de Miranda – “Quando eu, senhora…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe,se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m’ espanto as vezes, outras m’ avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m’era mister tant’outr’ajuda,
de que me valerei, se alma não vaI?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em aI,
afronta o coração, a língua é muda.

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Algernon Charles Swinburne – “Deitado…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deitado a dormir entre os afagos da noite
Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito triste,
Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
De pele macia e escura, o pescoço nu para ser mordido,

Transparente de mais para corar, tão quente para ser branca,
Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram
Nem sei bem o quê, excepto uma palavra Deleite.

E a face dela era toda mel na minha boca,
E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
Os braços longos e lentos, as mãos quentes de fogo,

As ancas frementes, o cabelo a cheirar a Sul,
os pés leves luzentes, as coxas esplêndidas e dóceis
E as pálpebras fulgentes com o desejo da minha alma.

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Zuleika Lintz – “Só”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jamais alguém o amou. Jamais sua alma pura
Despertou vibrações na alma alheia extasiada …
Parecia que, ao vir ao mundo, alguma fada
Condenara sua alma à perpétua clausura.

Sem palavras de amor, sem risos de ternura
Dia a dia viveu. Sua ingrata jornada
Não teve a suavizá-la o encanto da pousada,
Nem tampouco a emoção da imprevista aventura

Foi em vão, sempre em vão, que sua alma de opala
Aos seres ofertou. Nenhum quis aceitá-la …
E, cansado afinal de uma inútil quimera,

Para a morte voltou-se em derradeiro instinto;
E a morte acalentou seu coração faminto,
Seu coração que a vida não quisera.

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Unno Ahl – “Nuvens”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

rapariga

Lá em cima
as nuvens da minha infância sobrevivem.

Ganhei e perdi.
Amei.
E aos trinta anos
sinto que sou o senhor do mundo.
Dia a dia contemplo as nuvens
e digo para mim:
só o desejo é eterno.

Sou feliz a meu modo.
Junto do muro branco
uma rapariga beija-me
os seus olhos parecem perguntar me
se o nosso amor vai durar
toda a vida.

Eu sorrio
mas não lhe digo
que só o desejo é eterno.
Todas as manhãs me olho no espelho:
para trás ficou a primavera da minha vida
mas ainda sou o dono do mundo.
E continuarei a sê lo
enquanto no céu
não se esfumarem as nuvens da minha infância
e não se apagarem
os velhos desejos.

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Nicolás Guillén – “Palavras fundamentais”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.

(Tradução de Albano Martins)

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Miguel Hernández – “Teu ventre”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Menos teu ventre,
tudo é confuso.
menos teu ventre,
tudo é futuro
fugaz, passado
baldio, turvo.
menos teu ventre,
tudo é oculto.
menos teu ventre,
tudo inseguro,
tudo já último
um pó sem mundo.
Menos teu ventre
tudo é escuro.
menos teu ventre
claro e profundo.

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Manuel Bandeira – “Poemeto erótico”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Teu corpo é tudo o que brilha
Teu corpo é tudo o que cheira
Rosa, flor de laranjeira
Teu corpo, claro e perfeito
Teu corpo de maravilha
Quero possui-lo no leito estreito da redondilha
Teu corpo, branco e macio
É como um véu de noivado.
Teu corpo é pomo doirado,
Rosal queimado de estio
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume
Teu corpo é a chama
E flameja como à tarde os horizontes
É puro como nas fontes a água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama, volúpia da água e da chama
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira.
A todo momento o vejo
Teu corpo, a única ilha no oceano do meu desejo.

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Luís Graça – “Semen de poeta…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há quem derrame prosa como sémen
ignorando a tesão da Literatura
pois a criação é casta como a neve

A esses beijo apenas a inocência
de não saber mais do que o banal
e nunca ejacular mais do que sílabas

São milhões como um exército de larvas
e bebem cálices de orgulho e preconceito
no luar tenebroso das certezas

Sabei, senhores, e digo-vos de borla
escrever assim não é raiz do amanhã
é somente parir monstros sem cabeça

Vós padeceis de mal muito antigo
ignorais sem maldade e por desleixo
que Literatura é mais do que punheta

O sémen verdadeiro dos poetas
bebe-se às taças como manjar de semi deuses
e frutifica em arco íris de ternura.

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