João de Deus – “Dia de anos”
13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
João de Deus de Nogueira Ramos ( 8 de Março de 1830 — 11 de Janeiro de 1896), mais conhecido por João de Deus, foi um eminente poeta lírico, considerado à época o primeiro do seu tempo, e o proponente de um método de ensino da leitura, assente numa Cartilha Maternal por ele escrita, que teve grande aceitação popular, sendo ainda utilizado.
13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta feira
trinta e nove anos, que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!
Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!
Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.
Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há um anjo branco como algodão
que tem estado pendurado, até hoje, na despensa,
num cabide de metal. Graças a ele
nunca nada de mal, em todos estes anos,
me aconteceu — a mim ou, mais importante, à própria casa.
O raio é modesto, pode dizer se, mas a circunferência
está bem desenhada. Como não foram criados
à nossa imagem e semelhança
— são seres incorpóreos —, os anjos possuem
apenas cor e velocidade. Esta última permite lhes estar
em toda a parte. É por isso que ainda estás
comigo. As asas e as correias dos ombros
não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo
expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena
Califórnia.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se ergueis uma capela à água milagrosa,
Esse elixir divino,
Então erguei também um templo à caparrosa
E outro templo ao quinino.
Se a água faz milagres, o que eu vos não discuto,
E por isso a adorais,
Ajoelhemos então em face do bismuto
e doutras drogas mais.
Façamos da magnésia e clorofórmio e arnica
As hóstias do sacrário;
Transformemos o templo enfim numa botica,
E Deus num boticário
Que a vossa água opere imensas maravilhas
Eu não duvido nada:
É o Espírito Santo engarrafado em bilhas,
É o milagre à canada.
Desde que se espalhou pelo universo o eco
Do milagre feliz,
Tartufo nunca mais encheu o seu caneco
Em outro chafariz
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.
(1912)
(tradução de João Barrento)
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.
Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.
Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,
o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.
Tradução de Alexandre O’Neill
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória
Inseguras navegam:
barcos, beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
espirais cobrem meu corpo
despencam helicoidais
ideogramas/nanquim/pincéis
tatuagens
não breves sinais
rufar de tambores
febre cerebral/enxaquecas
furor
humor e tumor
dores fatais
não sei quanto tempo
sentado na praça
contando cachaça
bebendo desgraça
sem você
sou vazio e sem cenho
criança sem colo da mãe
me lembro quando amar
não doía
pérola na língua
vermelho carmim
agora carrego um olhar flutuante
choro lendo hai kais
chuva sobre bambuais
tensão de garoa
uma lata vazia flutua no ar
um dia ouvi alguém que esqueci
sussurrou
em japonês
amor
se diz “ai”
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A porta, aberta.
Veio calma e suave.
Nem matéria nem espírito. Trazia
uma ligeira inclinação de nave
e uma luz matinal de claro dia.
De ritmo não era, ou de harmonia,
nem de cor. O coração a sabe,
mas dizer como era não poderia
pois não é forma, nem na forma cabe.
Língua, barro mortal, cinzel inepto,
deixa a flor intacta do conceito
na clara noite desta minha boda,
e canta mansamente, humildemente,
a sensação, a sombra, o acidente,
enquanto Ela me enche a alma toda!.
(Tradução de José Bento)
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
DESCRIÇÃO DE MINHA ESPOSA COM ACOMPANHAMENTO DE TIMBALES
Ela é meu escaravelho sagrado
Ela é minha cripta de ametista
Ela é minha cidade lacustre
Ela é meu pombal de silêncio
Ela é minha cerca de jasmins
Ela é meu gafanhoto de ouro
Ela é meu caramanchão de música
Ela é meu leite de malaquite
Ela é minha medusa dourada
Ela é meu caracol de seda
Ela é meu quarto de rainúnculos
Ela é meu topázio amarelo
Ela é minha Anadiomena marinha
Ela é minha Ageronia atlantis
Ela é minha porta de auricalco
Ela é meu palanquim de folhas
Ela é minha sobremesa de ameixas
Ela é meu pentagrama de sangue
Ela é meu oráculo de beijos
Ela é minha estrela boreal.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Joan BoI’ anda mal desbaratado
e anda trist’ e faz muit’ aguisado,
ca perdeu quant’ avia guaanhado
e o que lhi leixou a madre sua:
um rapaz, que era seu criado,
levou-lh’ o rocin e leixou-lh’ a mua.
Se el a mua quisesse levar
a Joan BoI’ e o rocin leixar,
non Ihi pesara tant’, a meu cuidar,
nen ar semelhara cousa tan crua;
mais o rapaz, por lhi fazer pesar,
levou-lh’ o rocin e leixou-lh’ a mua.
Aquel rapaz que Ih’ o rocin levou,
se lhi levass’ a mua que lhi ficou
a Joan Bolo, como se queixou,
non se queixar’, andando pela rua;
mais o rapaz, por mal que lhi cuidou,
levou-lhe o rocin e leixou-lh’ a mua.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O Vosso tanque general
É um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
Sabe pensar.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Gosto de ti
Não por seres linda ou por seres feia.
Gosto de ti
Pela cor indefinida dos teus olhos
Na qual há uma mistura de todas as cores.
Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos
Mas gosto de ti,
Por seres a dona de tais olhos.
Gosto de ti
Pela cor garça dos teus olhos …
Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos …
Duma luz vaga, indefinida, incerta,
Como incerta e indefinida e vaga
É a minha vida
E a vida de toda a gente
Na hora que passa.
E é por isso,
Por essa identificação da minha vida
Com a cor incerta dos teus olhos,
Que eu gosto de ti.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.
Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.
Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
– o único que sei.
Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.
Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.
Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.
Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.
Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.
Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!
E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade,
para que se não fale
nem da paz nem da guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.
Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais úmida que a pele marítima do cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
Vem, serenidade,
para perto de mim e para nunca.
De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu te peço como quem pede amor:
Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à policia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade,
Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade,
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.
Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espetros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome.
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,
Serenidade, és minha.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tenho dentro do meu peito
duas escadas de flores
por uma descem saudades
por outra sobem amores
Quando eu morrer, meu amor
(há quem à noite resista?)
mesmo debaixo da terra
quero estar à tua vista.
Se o meu amor fora António
mandava-o engarrafar
em garrafinhas de vidro
para o sol o não queimar
Com um fio de retrós verde
quero, amor, que me cosais
o meu coração ao vosso,
que se não desate mais.
Meu amor, meu amorzinho,
quem te atirara mil tiros
com uma pistola de prata
carregada de suspiros!
Os olhos da minha amada
são biquinhos de alfinetes;
fechados são dois botões,
abertos dois ramalhetes.
O meu coração é sala
onde passeia a açucena;
amei-te com tanto gosto,
deixei-te com tanta pena.
No meio daquele mar
está uma cadeira de vidro
onde o meu amor se assenta
quando vem falar comigo.
Eu tenho dentro do peito
um canivete dourado
para cortar o pão da lua
no dia do meu noivado.
O meu coração é sala
onde passeia a açucena;
amei-te com tanto gosto,
deixei-te com tanta pena.
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Poesia erótica escrita há 1.000 anos atribuída a Bilhana, poeta que terá vivido no sec XI, em Caxemira.
Estes poemas têm atrás de si uma lenda. Diz-se que Bilhana os declamou enquanto subia para o cadafalso onde ia pagar com a vida a ousadia de se ter apaixonado pela filha do Rei
25·
Mesmo agora recordo o seu corpo
Ardendo de desejo a sua pele
Colada à minha como roupa molhada
Como poderia esquecê-la digna
Agora de compaixão privada do seu amante
26
Mesmo agora sonho com ela
A mais bela entre as mais belas
Filha de rei criada para ser o receptáculo do amor
Incapaz de suportar a separação
27
Mesmo agora sabendo que a cada
Instante a morte se aproxima
O meu espírito abandona o culto dos deuses
E persegue a minha amada
28
Mesmo agora assalta-me a recordação
Desses olhos de corça assustada
Dessa voz trémula das lágrimas que lhe invadiam
A face da cabeça vergada sob o peso da amargura
Quando escutou a minha sentença
29
Mesmo agora por mais que me esforce
Não me recordo de alguma vez ter contemplado
Um rosto como o seu
A sua beleza
Eclipsa a da deusa do amor e a da lua
30
Mesmo agora recordo o seu púbis
Os lábios dessa vulva que me protegiam
Da insolação do desejo Veneno
Na separação momentânea no reencontro
Uma taça cheia de néctar
31
Mesmo agora atormenta-me o espírito
Recordar como os soldados do rei
Semelhantes aos mensageiros da morte
Com braços terríveis me arrancaram do seu leito
E o que ela não fez para me defender
32
Mesmo agora o meu coração sofre noite
E dia por nunca mais poder voltar
A ver nem que seja por um instante
Esse rosto belo como a lua cheia
Cuja frescura faz empalidecer os jasmins
33
Mesmo agora o meu espírito vagueia
À procura da minha amada
Nunca ninguém colheu melhor
Os frutos dos seus verdes anos
Que
Ela me possua em cada nova reincarnação
34·
Mesmo agora ressoa com força no meu
Espírito o tilintar das suas pulseiras
Nuvens de abelhas cobriam-lhe o rosto
Atraídas pelo lótus em flor da sua boca
Recordo o modo como com os dedos
Tentava afastá-las dos cabelos
35·
Mesmo agora recordo a embriaguez
Causada pelo mel que a minha língua
Sorvia da sua boca e as marcas das
Minhas unhas nos seus seios eriçados de prazer
Que ela guardava como um tesouro
36·
Mesmo agora recordo o seu ar agastado
Perante a eminência da minha partida
A impaciência com que em silêncio
Me oferecia os lábios
Abraçava-a
E caía a seus pés como um escravo
37
Mesmo agora o meu espírito regressa
Ao seu leito Rio e danço entre as suas
Companheiras estreitando os seus corpos
Graciosos perdendo-me por fim
Entre as coxas da minha amada
38.
Mesmo agora ignoro se ela é parecida com Xiva
Ou alguma criatura criada pela maldição de lndra
Ou a esposa de Krisna ou se Brahma
Lhe deu vida para enfeitiçar o mundo
Ou para ver entre as jovens um clarão
39·
Mesmo agora ignoro se alguém neste mundo
Poderia descrever esse corpo
Que só a mim se desvendou
Quem
Quisesse descrever essas formas voluptuosas
Só se conhecesse alguém que a igualasse
40·
Mesmo agora vejo os seus olhos
Escurecidos pelo antimónio
Os lábios ardentes os brincos
Agitando-se nas orelhas o corpo
Curvado devido ao peso dos seios
Sem que eu a possa possuir
41
Mesmo agora se pudesse
Beijaria sem cessar esse rosto transparente
Como a lua de Ourono capaz de roubar
O coração dum eremita
Como não
De ter roubado o meu
42.
Mesmo agora sacrificaria tudo
Se me fosses permitido regressar
A esse santuário de prazer
Perfumado com essência de flores de lótus
Húmido ainda de esperma perante
O qual se prostrou o deus do amor
43·
Mesmo agora neste mundo
Onde os sinais de beleza se defrontam
Encarniçadamente o meu coração
Acredita que ninguém conseguirá
Eclipsar a beleza da minha amada
44·
Mesmo agora sobre as ondas frementes
Do rio do meu espírito a minha amada desliza
Como um cisne real imputando
Às carícias fugidias dos grãos de pólen
A sua ligeira fadiga
45·
Mesmo agora sonho com essa princesa
Filha do mais nobre dos reis
Com os seus olhos ardentes de desejo
Criança que um dia desceu dos céus
Filha dos músicos celestes dos génios dos cantores
Divinos dos deuses e da serpente-virgem
46.
Mesmo agora não consigo esquecê-la
Ao acordar curvando-se perante o altar
Os seios como cântaros cheios de néctar
O corpo com adornos coloridos
47·
Mesmo agora recordo a beleza doirada
Do seu corpo sugerindo fadiga
Para não parecer impudica
Perturbada pelos meus beijos apaixonados
E pelo contacto das nossas coxas
Ela deixava – como uma planta por onde
Sobe a seiva – que o desejo a possuísse
48.
Mesmo agora recordo como era implacável
Na batalha sem armas do amor
Como nós apesar de enlaçados
Nos conseguíamos levantar e deitar
Sem o apoio das mãos
Recordo
O sangue das mordeduras nos seus lábios
E dos arranhões nas suas coxas
49·
Mesmo agora não consigo imaginar
Como poderia suportar a dor da separação
Só a morte – que ela chegue depressa _
Poderá dissipar essa dor
50·
Mesmo agora Xiva não rejeita o negro veneno
A tartaruga transporta no dorso a terra
O mar alberga terríveis fogos
A mim só me resta cumprir o prometido
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!
Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!
Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!
Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!
Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!
Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!
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13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Querida,
Acordei agora e encontrei-te ao meu lado, senti um mesclado de alívio e saudade. Alívio por ver-te serena e bem juntinha a mim, saudade por terem passado algumas horas sem trocar qualquer palavra contigo, sem ver o teu sorriso, sem sentir a tua expressão afectiva e amiga. A noite foi longa, houve momentos que troquei o meu sono pela oportunidade de olhar para ti, bela adormecida, momentos de magia em que pensei agradecer a ARTÊMIS por tu existires, agradecer a AFRODITE por seres tão bela e cheia de amor, a APOLO pela luz que se fez na minha vida ao cruzar os nossos destinos e a HÉSTIA pela harmonia que existe no nosso lar. O meu agradecimento foi direccionado a ZEUS.
Quando acordares, não saberás destes meus rituais, nem tão pouco irei contar-te, não será de todo necessário, porque o importante é existir entre nós a química do sentimento e a telepatia da comunicação, como sinais de fumo ou as trocas de olhares, como as expressões faciais que tão bem conhecemos.
Querida, é tudo isto, e muito mais, que ambiciono dizer-te diariamente e que, por inúmeras razões, nunca te chego a dizer. Hoje decidi escrever-te esta carta para que não passe mais um dia. Tento, por gestos ou atitudes diárias, expressar-te tudo isto, espero que com sucesso.
Se quiseres resumir tudo isto, numa palavra, poderei dizer sempre AMO-TE.
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
(…)“…Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e, depois que devastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoç o. estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar…”
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
qual de nós dois se esquece qual isola
os arquivos do sonho contra a dor
qual se descobre e encobre noutro tempo
já sono e morte já despojamento
qual sente mais o frio qual de nós
resgata o vento com força maior
qual se reparte e parte na corrente
já combinado ao sangue do silêncio
qual sente o rosto intenso do desgosto
de nada e de ninguém vestindo as coisas
pulso nocturno a projectar o gesto
qual redesenha o fim qual de nós dois
prende o amor nos fachos da memória
qual de nós dois se esquece e se enternece
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior…Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto….
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base…
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos entre si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram-se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum…
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu
Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
É um adeus …
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus …
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos
Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina
Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores
Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada
Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente
Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes
Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos
Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar
Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã
Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã
Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã
Deitado para sempre às cinco da manhã
Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã
Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?
E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre
E era quase manhã
E era quase amanhã
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
As portas que batem 
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.
O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.
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12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sou mera ilusão de ótica
imagem virtual
formada atrás do espelho
em que te olhas.
Tu não me vês nunca.
Às vezes me adivinhas
pressentes
no teu quarto
no teu corpo
etérea.
E eu rio da
tua cara de bobo
olhando as tuas mãos vazias
que eu afago
e a tua boca
que eu beijo
todo dia
sem que me vejas.
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