Casimiro de Brito – “Poderei…”
14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Casimiro Cavaco Correia de Brito (Loulé - Algarve, 14 de Fevereiro de 1938) é um poeta, ensaísta e ficcionista português.
14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Poderei desnudar um pouco mais
o teu corpo nu? Poderei descalçar o teu pé
que pousa descalço?
Dizer-te outras mil vezes esta canção furtiva
que nunca mais acaba? Poderei dançar cantar
no chão onde me decantei noites inteiras? Amar-te
se não sei amar apenas derramar
as últimas sementes desta pedra
que tanto voou? Poderei escrever de novo
na tua pele, e apagar com lágrimas
o texto que vem de longe? Beber
na boca da tua boca
a dor que me trazes, a alegria
que não cessa de doer? Inscrever
o teu sangue nas nuvens que passam
dentro de mim? Ler reler
o arco-íris nos teus olhos,
o líquido sabor de argila
entre as tuas pernas? Poderei
oscilar entre a luz e a sombra
se mais não sou do que uma haste cega
dentro de ti? Poderei curvar-me
ainda mais
se abraço o chão e bebo na fonte? Escavar
o já escavado? Recolher a cinza
do coração enamorado? Elevar-me
se já toquei no céu?
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nu, na minha cama de hotel,
deixo-me invadir pela memória do mel.
E choro. Choro porque não posso beber
as tuas lágrimas. Choro
porque não podes lamber
o meu sal.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A luz trocada em olhos que ficaram
subitamente cegos, e depois as palavras,
cautelosas, dizendo a seda
dos nossos corpos sós. O desejo
foi polindo em silêncio
um fruto em busca da sua maturação.
A teu lado me deito e bebo a água
que tu me abres, obscura
e onde me perco e ardo e tudo.
Aqui tens o meu corpo cheio de mundo.
Amar-te é viagem que não se acaba
e contigo vou, para o alto e para o fundo.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Alto estou a teu lado
no verão deitado
Alto no esplendor de possuir-te
e trocarmos silenciosamente
os frutos mais fundos da morte
Como se navegasse um rio
por dentro
e na tua fragilidade encontrasse
a minha força
Um caminho rigoroso de
silêncio
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Entro paciente e afundo-me no reino
da mãe. O barro mais antigo
brilha no teu sexo que se abre escuro
ao meu desejo — à ternura, ao furor que busca
o caos. Só em ti, que não temes a noite nem a saudade,
me encontro. Abres a húmida concha
e salto para dentro do lume
da primeira casa. Deixo à entrada
a angústia de quem vai morrer.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Amando noite e dia num hotel de Madrid
cheguei à conclusão que só o amor pode
decifrar o segredo; que só no sexo
se aproximam a música e a música de corpos
habitados por essa poesia que vem do fundo.
O amor é a entrega assassina
que não se deixa fixar: a luz que vem do abismo
e que nunca poderei colher,
eu que já estou noutro lugar. Fodendo
até cair para o lado
curámos o que estava doente, o teu corpo menino
e o meu cadáver cansado. Exilados
da Via Láctea, e dentro dela,
deste vaso louco onde se misturam
os vivos e os mortos, todos em busca
da luz. A minha luz
foi vir-me quando me julgava
cego e vazio. A tua luz
foi quando abriste o que julgavas
para sempre fechado.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Passou?
Minúsculas eternidades
deglutidas por mínimos relógios
ressoam na mente cavernosa.
Não, ninguém morreu, ninguém foi infeliz.
A mão- a tua mão, nossas mãos-
rugosas, têm o antigo calor
de quando éramos vivos. Éramos?
Hoje somos mais vivos do que nunca.
Mentira, estarmos sós.
Nada, que eu sinta, passa realmente.
É tudo ilusão de ter passado.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
E agora, José ?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama protesta,
e agora, José ?
Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?
E agora, José ?
Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio e agora ?
Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora ?
Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse…
Mas você não morre,
você é duro, José !
Sozinho no escuro
qual bicho do mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope,
você marcha, José !
José, para onde ?
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se considero o triste abatimento
Em que me faz jazer minha desgraça,
A desesperação me despedaça,
No mesmo instante, o frágil sofrimento.
Mas súbito me diz o pensamento,
Para aplacar-me a dor que me traspassa,
Que Este que trouxe ao mundo a Lei da Graça,
Teve num vil presepe o nascimento.
Vejo na palha o Redentor chorando,
Ao lado a Mãe, prostrados os pastores,
A milagrosa estrela os reis guiando.
Vejo-O morrer depois, ó pecadores,
Por nós, e fecho os olhos, adorando
Os castigos do Céu como favores.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
(Há quem considere este poema apócrifo e muitos que o entendem como um dos melhores exemplos dos poemas mais populares e vernáculos do poeta. Aqui fica.)
Meus senhores eu sou a água,
que lava a cara, que lava os olhos
que lava a rata e os entrefolhos
que lava a nabiça e os agriões
que lava a piça e os colhões
que lava as damas e o que está vago
pois lava as mamas e por onde cago.
Meus senhores aqui está a água
que rega a salsa e o rabanete
que lava a língua a quem faz minete
que lava o chibo mesmo da rasca
tira o cheiro a bacalhau da lasca
que bebe o homem que bebe o cão
que lava a cona e o berbigão
Meus senhores aqui está a água
que lava os olhos e os grelinhos
que lava a cona e os paninhos
que lava o sangue das grandes lutas
que lava sérias e lava putas
apaga o lume e o borralho
e que lava as guelras ao caralho
Meus senhores aqui está a água
que rega as rosas e os manjericos
que lava o bidé, lava penicos
tira mau cheiro das algibeiras
dá de beber às fressureiras
lava a tromba a qualquer fantoche e
lava a boca depois de um broche.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Magro, de olhos azuis, carão moreno.
Bem servido de pés, meão na altura.
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio e não pequeno;
Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura:
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;
Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
E somente no altar amando os frades,
Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades,
Num dia em que se achou mais pachorrento.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu me ausento de ti, meu pátrio Sado.
Mansa corrente deleitosa, amena,
Em cuja praia o nome de Filena
Mil vezes tenho escrito e mil beijado.
Nunca mais me verás entre o meu gado.
Soprando a namorada e branda avena,
A cujo som descias mais serena,
Mais vagarosa para o mar salgado.
Devo, enfim, manejar, por lei da Sorte,
Cajados não, mortíferos alfanges,
Nos campos do colérico Mavorte;
E talvez entre impávidas falanges
Testemunhas farei da minha morte
Remotas margens, que humedece o Ganges.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vós, oh Franças, Semedos, Quintanilhas,
Macedos e outras pestes condenadas;
Vós, de cujas buzinas penduradas
Tremem de Jove as melindrosas filhas;
Vós, néscios, que mamais das vis quadrilhas
Do baixo vulgo insonsas gargalhadas,
Por versos maus, por trovas aleijadas,
De que engenhais as vossas maravilhas.
Deixai Elmano, que, inocente e honrado,
Nunca de vós se lembra, meditando
Em coisas sérias, de mais alto estado.
E se quereis, os olhos alongando,
Ei-Io ! Vede-o no Pindo recostado,
De perna erguida sobre vós mijando!
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Já Bocage não sou!… À cova escura
Meu estro vai parar desfeito em vento…
Eu aos Céus ultrajei! O meu tormento
Leve me torne sempre a terra dura.
Conheço agora já quão vã figura
Em prosa e verso fez meu louco intento.
Musa!… Tivera algum merecimento,
Se um raio da razão seguisse, pura!
Eu me arrependo; a língua quase fria
Brade em alto pregão à mocidade,
Que atrás do som fantástico corria:
Outro Aretino fui… A santidade
Manchei… Oh! se me creste, gente impia,
Rasga meus versos, crê na Eternidade!
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Esse cabra ou cabrão, que anda na berra,
Que mamou no Brasil surra e mais surra,
O vil estafador da vil bandurra,
O perro, que nas cordas nunca emperra;
O monstro vil, que produziste, oh terra,
Onde narizes Natureza esmurra,
Que os seus nadas harmónicos empurra,
Com parda voz, das paciências guerra;
O que sai no focinho à mãe cachorra,
O que néscias aplaudem mais que a «Mirra “,
O que nem veio de prosápia forra;
O que afina inda mais quando se espirra,
Merece à filosófica pachorra
Um corno, um passa-fora, um arre, um irra.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Já se afastou de nós o Inverno agreste
Envolto nos seus húmidos vapores,
A fértil Primavera, a mãe das flores
O Prado ameno de boninas veste.
Varrendo os ares o subtil Nordeste,
Os torna azuis: as aves de mil cores
Adejam entre Zéfiros e Amores,
E toma o fresco Tejo a cor celeste.
Vem, ó Marília, vem lograr comigo
Destes alegres campos a beleza,
Destas copadas árvores o abrigo.
Deixa louvar da corte a vã grandeza:
Quando me agrada mais estar contigo
Notando as perfeições da Natureza!
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Dizem que havia um pastor
antre Tejo e Odiana,
que era perdido de amor
per uma moça Joana.
Joana patas guardava
pela ribeira do Tejo,
seu pai acerca morava,
e o pastor, de Alentejo
era, e Jano se chamava.
Quando as fomes grandes foram,
que Alentejo foi perdido,
da aldea que chamam Terrão
foi este pastor fugido.
Levava um pouco de gado,
que lhe ficou doutro muito
que lhe morreu de cansado:
que Alentejo era enxuito d’ágoa
e mui seco de prado.
Toda a terra foi perdida;
no campo do Tejo só
achava o gado guarida:
ver Alentejo era um dó!
E Jano, para salvar
o gado que lhe ficou,
foi esta terra buscar;
e se um cuidado levou,
outro foi ele lá achar.
O dia que ali chegou
com seu gado e com seu fato,
com tudo se agasalhou
em uma bicada de um mato.
E levando-o a pascer,
o outro dia, à ribeira,
Joana acertou de ir ver
que se andava pela beira
do Tejo a flores colher.
Vestido branco trazia,
um pouco afrontada andava,
fermosa bem parecia
aos olhos de quem na olhava.
Jano, em vendo-a, foi pasmado;
mas, por ver que ela fazia,
escondeu-se antre um prado:
Joana flores colhia,
Jano colhia cuidado.
Despois que ela teve as flores
já colhidas e escolhidas
as desvairadas cores,
com rosas entremetidas,
fez delas uma capela,
e soltou os seus cabelos,
que eram tam longos como ela:
e de cada um a Jano em vê-los
lhe nascia uma querela.
E em quanto aquisto fazia
Joana, o seu gado andava
por dentro da água fria,
todo após quem o guiava.
Um pato grande era a guia,
e todo junto em carreira,
ora no a cima ia,
ora, em a mesma maneira,
o rio abaixo descia.
Joana como assentou
a capela, foi com a mão
à cabeça, e atentou
se estava em boa feição.
Não ficando satisfeita
do que da mão presumia,
partiu-se dali direita
para onde o rio fazia d’água
uma mansa colheita.
Chegando à beira do rio,
as patas logo vierom
todas uma e uma, em fio,
que toda a água moverom.
De quanto ela já folgou
com aquestes gasalhados
tanto entonces lhe pesou,
e com pedras e com brados
dali longe as enxotou.
Despois que elas foram idas
e que a água assossegou,
Joana, as abas erguidas,
entrar pel’água ordenou;
e assentando-se, então,
as sapatas descalçou,
e, pondo-as sobre o chão,
por dentro d’ água entrou
e a Jano pelo coração.
Em quanto, com passos quedos.
Joana pela água ia,
antre uns desejos e medos,
Jano, onde estava, ardia:
não sabia se falasse,
se saísse, se estivesse;
que o amor mandava que ousasse,
e, por que a não perdesse,
fazia que arreceasse.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Diz-se o silêncio,
Não são precisas palavras,
Fala-nos por si e no meio de tanta gente,
Faz-nos sentir quanto é premente,
Vencer as barreiras que nos aporta o tempo…
Diz-se o silêncio,
Impõe-se, belisca-nos, agita-nos…
Porque nos mexe na alma e nos morde o corpo
Ao trazer até nós a premência, a urgência,
que nos impele ao outro…
Diz-se o silêncio,
Ele é de ouro ou de prata,
Porque nos eleva,
Mesmo quando a saudade mata,
Sobe em nós a temperatura da consciência,
Ao penarmos pela ausência,
Mas sabemos que há uma memória que cura
e uma esperança que colmata…
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cheguei até ti de mansinho,
Como quem timidamente
Encontra a outra margem do seu rio,
Após uma longa caminhada.
Porque vi a tua mão estendida,
Uns olhos que me afagaram,
Que me fizeram sentir a vida,
Que vazia de sentido,
Já quase por si não dava.
De mansinho,
Abri as janelas de minha emoção,
Para me sentir mais viva,
Escancarei as portas do meu coração,
De forma não contida,
E, ganhei o mundo num instante,
Porque caminho agora,
Sempre de uma à outra margem
Em que me espraio,
No tempo e no espaço
Apenas porque já vou contigo…
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Invento-me neste desejo de te abraçar…
Invento-me hera, planta trepadeira,
agarro minhas gavinhas,
minhas expansões, com força,
em tuas estacas, para me poder à terra fixar…
Invento-me abelha, insecto,
Apenas para invadir a tua flor,
Que nasceu de meu desejo,
Para em teu mel, esse néctar,
a minha sede eu poder saciar ….
Invento-me leoa perdida de seu cio,
À procura de um trilho, um sinal, rasto teu,
Para que na floresta da vida,
Eu te possa encontrar…
Invento-me vento, Nortada, brisa, aragem,
Para de forma empolgada,
Agitar teu rio, ondular teu mar…
Invento-me, nestas todas metamorfoses
de ser eu própria, que trago silenciadas no meu espírito,
E ensaio-me assim, neste ser,
Nestas mil formas adoptadas,
Só porque te encontro ao inventar-me,
Mas porque te invento somente a ti!
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Anda, gata linda, descansa sobre o meu coração,
E deixa os meus olhos mergulharem nos frios
Poços em brasa dos teus olhos encantados que dardejam
Raios metálicos de verde e ouro.
As minhas mãos fascinadas acariciam à vontade
A tua cabeça e dorso flexível, e quando
O teu corpo eléctrico enche de prazer
Os meus dedos vibrantes e inebriados, então
Transformas-te na minha mulher; pois o olhar dela,
Tal como o teu, Ó mais adorável das criaturas,
É gelado, profundo e cortante como uma lança.
E em torno do seu cabelo e das feições esfíngicas,
Em torno da sua figura morena flutuam, levemente misturados,
Um ar subtil e um perfume perigoso.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tu que dormes a noite na calçada de relento
Numa cama de chuva com lençóis feitos de vento
Tu que tens o Natal da solidão, do sofrimento
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que dormes só no pesadelo do ciúme
Numa cama de raiva com lençóis feitos de lume
E sofres o Natal da solidão sem um queixume
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
Tu que inventas ternura e brinquedos para dar
Tu que inventas bonecas e comboios de luar
E mentes ao teu filho por não os poderes comprar
És meu irmão amigo
És meu irmão
E tu que vês na montra a tua fome que eu não sei
Fatias de tristeza em cada alegre bolo rei
Pões um sabor amargo em cada doce que eu comprei
És meu irmão amigo
És meu irmão
Natal é em Dezembro
Mas em Maio pode ser
Natal é em Setembro
É quando um homem quiser
Natal é quando nasce uma vida a amanhecer
Natal é sempre o fruto que há no ventre da Mulher
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Entrego-te o dia de ontem, o dia de hoje, o dia de amanhã: daqueles receberás a luz restante e deste uma claridade maior.
A mesa onde nos sentarmos acolherá a perenidade das alianças, a castidade dos enlaces e das lealdades, o perfume de nomes recolhidos.
Entrelaçaremos os dedos, tacteando com os olhos o perfil dos lábios, os joelhos afagando até ao encontro.
Na imensidade do nosso consentimento hão-de deambular trilados de prazer, um veleiro transportará canduras de euforias a flutuarem, a ondejarem sem preguiça.
Que eu te ofereça, pois, a intemporal proeza da minha peregrinação que não ressoa, não, como algo de sombreado ou de taciturno. E se a carne me afervora ainda, se o frémito do peito me chameja contínuo, se a largueza dos impulsos jubila de calor os lampejas das veias, que sejas tu, só tu, quem lenifique a dureza do passado.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ao ler teu nome gravado
na pedra branca em silêncio
não sei que estranho momento
é este que se desenha
entre eu estar ali e a lápide.
Uma súbita presença
de contornos definidos
dá calor à pedra fria
e a mim um certo arrepio
de quase contentamento.
Comunhão que nada apaga
nesse instante fugidio
ao ler com a boca fechada
na pedra inerme calada
um nome que é meu inscrito.
(Escrito para um concurso organizado pelo blogue Porosidade Etérea sobre o Dia do Pai.)
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mais que lutar me atrai a placidez
desta noite serena, do seu calmo
desenvolver-se: alheia a sobressaltos
como feita de um único sossego.
Talvez lá fora gritem os tumultos
de mil vozes sofridas magoadas
e haja manchas perdidas na calçada
de corpos que passaram inseguros.
E outras tristezas cobrem o silêncio,
sem prémio carregado de receio,
desta insónia vulgar que não me deixa
ver afinal que à noite o dia vem.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Escorro deste musgo as bátegas geminadas da chuva que, durante a noite, acetinaram os campos. As azinheiras, agora vejo, alegram-se robustecidas e quase voluptuosas; sublimam-se, dir-se-ia, na surdina das folhas, aclaram com maior insistência a viveza da atmosfera.
Aproveitarei este consentimento cintilante da natureza que me confidencia uma franja de tempo alheia a desencantos, a emboscadas, a ferezas: propícia enfim, e fecundamente, ao Canto. Vigiarei, apesar de tudo, com cautela, o estremecimento do coração, o percurso imponderado do pensamento.
Cada instante semeará agilidades e confianças, demoverá incertezas e letargias, modulará arabescos às entoações a surgirem.
Maravilhoso, apalpar nas mãos a água sobre o musgo da rocha a verter-se por ali abaixo, em silêncio, sem tumulto!.. ……..
Porém um dia as azinheiras perderão as folhas e hão-se chorar como feridas mulheres sem defesa, constrangidas, inibidas.
Até lá, que a presteza do Canto resplandeça no entanto, que as recatadas palavras vozeiem no poema, lá para o lado insubstituível da alma
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Prendes num dia o que desligas noutro,
e entre o não e o sim não há meio termo:
o passo dado em frente com desvelo
revolta após por pouco duradouro.
Negas agora mas depois afirmas
e quando afirmas saberás negar:
ponteiro de um relógio que não gira
e quando gira é como se parasse.
Um cão fiel à infidelidade:
um infiel fazendo a guerra santa
com tanta santidade e temperança
que se desdiz ao prosseguir p’ra trás.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar com um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.
A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas,
murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui no grande olhar eu vejo e anuncio
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.
Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.
Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio
Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração
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14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
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