Manuel Bandeira – “Poética”

30.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

lirismo14

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente

protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor.

Estou farto do lirismo que para e vai averiguar no dicionário

o cunho vernáculo de um vocábulo.

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítico

De todo o lirismo que capitula ao que quer que seja

fora de si mesmo

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante

exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes

maneiras de agradar às mulheres, etc

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare
— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Bertolt Brecht – “Canção da Inocência Perdida”

26.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

roupa14

O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
       Se isto não vale pra a roupa
       Também não vale pra mim.
       Que o rio lhe passe por cima
       Breve fica branca, assim.

Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
       A roupa já estava parda,
       No rio a fui mergulhar.
       No cesto está virginal
       C’mo sem ninguém lhe tocar.

Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
       A roupa branca no rio
       Enxaguada à roda, à roda,
       Sente que as ondas a beijam:
       «Volta-me a brancura toda».

Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
      
Assim acontece à roupa
       E a mim acontecerá.
       A água corre depressa,
       Sujidade diz: Vem cá!

Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
       Com poupanças e jejuns
       Nenhuma mulher se acalma.
       Roupa guardada na arca,
       Na arca se não faz alva.

E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
       Mete-a na água e sacode-a!
       Há sol, cloreto e vento!
       Usa-a, dá-a de presente:
       Fica fresquinha a contento.

Bem sei: Muito pode vir
Até que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
       E uma vez que apodreça
       Nenhum rio a embranquece.
       Leva-a consigo em farrapos.
       Um dia assim te acontece.

Bertold Brecht, in “Canções e Baladas”

Alexandre O’Neill – “O ar do lisboeta”

25.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

caracois14

O AR DO LISBOETA (Lista a encurtar ou a acres-
centar pelo leitor)

o ar milonga do lisboeta
o ar mastronço do lisboeta
o ar activo do lisboeta
o ar coitado filha do lisboeta
o ar cabotino do lisboeta
o ar reservado do lisboeta
o ar dia oito do lisboeta
o ar missa da uma do lisboeta
o ar campdòrique do lisboeta
o ar queixudo do lisboeta
o ar ramona do lisboeta
o ar bichona do lisboeta
o ar pasma do lisboeta
o ar barrigatesta do lisboeta
o ar último olhar de jesus do lisboeta
o ar vilas boas do lisboeta
o ar estoril do lisboeta
o ar em princípio vou do lisboeta
o ar eu depois confirmo do lisboeta
o ar catarino do lisboeta
o ar daniel do lisboeta
o ar terilene do lisboeta
o ar jaguar do lisboeta
o ar poupar do lisboeta
o ar gastar do lisboeta
o ar solmar do lisboeta
o ar morrinhanha do lisboeta
o ar seminarista do lisboeta
o ar boçal do lisboeta
o ar servil do lisboeta
o ar por aqui me sirvo do lisboeta
o ar eu cá não vi nada do lisboeta
o ar portagem do lisboeta
o ar esnègabar do lisboeta
o ar jardim cinema do lisboeta
o ar crise de teatro do lisboeta
o ar é natal é natal do lisboeta
o ar estufa fria do lisboeta
o ar padre cruz do lisboeta
o ar mártires do lisboeta
o ar conjuntura do lisboeta
o ar ultramar do lisboeta
o ar tecnolírico do lisboeta
o ar você do lisboeta
o ar donamélia do lisboeta
o ar alentejano do lisboeta
o ar chico esperto do lisboeta
o ar sector um do lisboeta
o ar monsanto do lisboeta
o ar transístor do lisboeta
o ar trombudo do lisboeta
o ar lisbonudo do lisboeta
o ar matraquilhos do lisboeta
o ar agenda do lar do lisboeta
o ar et pluribus unum do lisboeta

Teresa Gonçalves – “Montanha da Noite.”

24.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

pensamento

Perfumei os lençóis de insónia
e acendi lâmpadas de silêncio
na montanha da noite
tentei remir o pensamento
torná-lo vadio sem submissa liberdade
para voar sem destino
no tempo e no espaço
mas… ele ficou a pairar
por entre nuvens de algodão
como uma ave assustada com a asa magoada
temendo morrer e não renascer
das cinzas feita Fénix
ignorando a minha vontade
de atravessar o céu
as estrelas
e o luar

regressou indeciso pelo mesmo caminho
para a montanha da noite
para os lençóis perfumados de insónia
para as lâmpadas de silêncio
e vestiu palavras não ditas
com isolamento de afectos

ah, pensamento! não voas por rebeldia.

(Do livro “Laços”, de Manuela Barroso e Teresa Gonçalves. Ed. Versbrava)

Alexandre O’Neill – “A Perna no Eucalipto”

24.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

braco14

Por entre as folhas, luzia a biqueira do sapato
como se fosse o sapato de alguém que, da varanda,
estivesse a ver passar cabeças militares.
Mas os capacetes tinham lá dentro cabeças de bombeiros
e estes trepavam, lestos, pela escada
para tirar a perna do eucalipto.
Uma perna errada abandonada pelo seu proprietário
como a um filho na roda?
Seria a mesma perna fantasmática
que já atemorizara João Soldado?
Diria que não com o dedo grande do pé
ao ser convidada a descer?
(Os elefantes humoristas «engasgam» os crocodilos nos ramos das árvores
para se verem livres deles).
Teria dito ele perna pra que te quero?
A esta perna no eucalipto poderá alguma vez chamar-se «fait-divers»?
Seria uma perna irrequieta
que, sem autorização do dono, subira àquela árvore
como um rapaz aos ninhos?
Enquanto a perna descia, era descida ao ombro dum bombeiro,
uma mulher extasiada explicou-me:
— Um velhote apanhado por uma mota…

Manuela Barroso – “Ante o silêncio”

24.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

flauta

No silêncio onde mergulhas a flor do pensamento verás
que nas pétalas da gente o vento não tem a força nem o
canto dele vence a eterna dança do Amor

No homem como na flor continua a valsa do vento
umas vezes
é trigo amargo
outras é mel onde trago
leve aragem ao pensamento

Na floreira da vida quando os ventos estremecem
o caule da flor tardia

os olhos escurecem perante a flor murchando
onde sem seiva fenecem os sonhos
que vão morrendo na flauta do vento.

(Do livro “Laços”, de Manuela Barroso e Teresa Gonçalves. Ed. Versbrava.)

Maria da Graça Varella Cid – “Insisto…”

23.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

deus14

Insisto em confirmar serenamente que
Não deves incluir-me já no teu percurso,
Nem na redonda noite imensa aberta ao meio,
Nos bancos de coral onde o teu sangue nasce,
Nem nos flancos de sal ou no interior dos músculos.

Insisto em te avisar que meus segredos múltiplos
Te expurgaram de vez de todos os circuitos
Em seu lugar deixando um vácuo que se expande
Desde o meu raciocínio à margem do crepúsculo.

Confesso no entanto que o teu eco duplo
Me persegue voraz logo que a lua chega.

E não obstante tu não mudas de silêncio,
Não voltas para trás onde as minhas mãos nuas
Em metal te esculpiam como a um deus nocturno

Leonard Cohen – “Velho demais”

22.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

bombas14

Estou velho demais

Para decorar os nomes

Dos novos assassinos.

Este aqui

Parece cansado e atraente

Devotado, profissional.

Ele parece-se muito comigo,

No tempo em que ensinava

Uma forma radical de Budismo,

Para os insanos sem salvação.

Em nome da velha

Mágica sagrada

Ele ordena

Que famílias sejam queimadas vivas,

E crianças mutiladas.

Ele provavelmente conhece

Uma ou duas das minhas canções.

Todas elas

Todos que banharam suas mãos em sangue

E os mastigadores de vísceras
E escalpeladores
Todos eles dançaram
Ao som dos Beatles
Todos adoraram a Bob Dylan.
Queridos amigos,
Poucos de nós restaram
Silenciados
Tremendo sem parar
Escondidos no meio do sangue –
Fanáticos chocados,
Enquanto testemunhamos uns aos outros
A velha atrocidade
A velha e obsoleta atrocidade
Que levou para longe
O apetite ardoroso do coração,
E envergonhou a evolução
E vomitou preces.

Natália Correia – “O deputado Morgado”

18.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

coito

O acto sexual é para ter filhos» – disse na Assembleia da República, no dia 3 de Abril de 1982, o então deputado do CDS, João Morgado, num debate sobre a legalização do aborto.
A resposta de Natália Correia – em poema, publicado depois pelo Diário de Lisboa em 5 de Abril desse ano – fez rir todas as bancadas parlamentares, sem excepção, tendo os trabalhos parlamentares sido interrompidos por isso:

Já que o coito – diz Morgado –
tem como fim cristalino,
preciso e imaculado
fazer menina ou menino;
de cada vez que o varão
sexual petisco manduca,
temos na procriação
prova de que houve truca-truca.
Sendo pai só de um rebento,
lógica é a conclusão
de que o viril instrumento
só usou – parca ração! –
uma vez. E se a função
faz o órgão – diz o ditado –
consumada essa excepção,
ficou capado o Morgado.

João Penha – “A Carne”

11.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

corpo

Carne mimosa, carne cor de rosa
Nada mais sois, oh anjos, na poesia
Dos vates dissolutos de hoje em dia,
Nos romances de amor, hedionda prosa.

A vossa alma gentil, ideal, mimosa,
Nestas idades de descrença ímpia,
Como escondida, numa estátua fria
Sonha e não voa, de voar medrosa!

Anjos chorai o Amor! Com voz dolente
Dizei-lhe adeus! Bronco recife
Se apruma entre ele e vós, cruel, ingente:

Que par mais que de vinhos o borrife,
Ninguém gosta de ver, continuadamente,
Diante de si, fatal, o mesmo bife!

in “Novas Rimas” a Cândido de Figueiredo.

José Henrique Azevedo – “Diário de Viagem”

10.09.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

horta2

Vivem em nove belas Ilhas no
meio do Oceano Atlântico.
Dizem ser o centro do Mundo, os últimos
picos da Atlântida — O Continente perdido,
a terra de Neptuno.
Falam de forma diferente.
Cozinham a comida em buracos
na terra, com o calor dos vulcões.
Fazem jogos com touros e perdem
quase sempre.
Nadam com golfinhos.
Mergulham com baleias que antes caçavam
em pequenos barcos e depois
gravavam-lhes os dentes.
Há 500 anos que resistem a tremores de
terra, a tempestades com ventos de 250 Km
por hora, a ondas do mar com 20 metros
Pescam os maiores peixes do
Mundo — espadartes e atuns.
Dividem os terrenos com flores
principalmente hortênsias.
Criam vacas e chamam-nas
pelo nome próprio.
Comem comida temperada com especiarias
vindas das índias, Áfricas e Américas.
Festejam o “Espirito Santo” que
dizem ser o seu “Senhor”.
Usam uma ave — Milhafre — como seu
símbolo mas chamam-se
Açorianos.
São uns estranhos e
simpáticos loucos.

“1984”, de George Orwell

14.08.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

1984

Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico.

Era um dia frio e ensolarado de Abril, e os relógios batiam treze horas. Winston Smith, com o queixo fincado no peito numa tentativa de fugir ao vento impiedoso, esgueirou-se rápido pelas portas de vidro do Edifício Vitória; não porém com rapidez suficiente para evitar que o acompanhasse uma onda de pó áspero.
O vestíbulo cheirava a repolho cozido e a capacho de trapos. Na parede do fundo fora pregado um cartaz colorido, grande demais para exibição interna. Representava apenas uma cara enorme, de mais de um metro de largura: o rosto de um homem de uns quarenta e cinco anos, com espesso bigode preto e traços rústicos mas atraentes. Winston encaminhou-se para a escada. Era inútil experimentar o elevador. Raramente funcionava, mesmo no tempo das vacas gordas, e agora a electricidade era desligada durante o dia. Fazia parte da campanha da economia, preparatória da Semana do Ódio. A casa dele ficava no sétimo andar, e Winston, que tinha trinta e nove anos e uma variz ulcerada no tornozelo direito, subiu devagar, descansando várias vezes no caminho. Em cada patamar, diante da porta do elevador, o cartaz da cara enorme fitava-o da parede. Era uma dessas figuras cujos olhos seguem a gente por toda a parte. «O Grande Irmão vela por ti», dizia a legenda.
Dentro de casa uma voz sonora lia uma lista de números relacionados com a produção de ferro gusa. A voz saía de uma placa metálica rectangular, semelhante a um espelho fosco, embutida na parede direita. Winston torceu um comutador e o som da voz diminuiu um pouco, embora as palavras ainda fossem audíveis. O aparelho (chamava-se teletela) podia ter o volume do som reduzido, mas era impossível desligá-lo de vez. Winston foi até à janela. Ele era uma figura miúda, frágil, a magreza do corpo ainda realçada pelo macacão azul que era o uniforme do Partido. O cabelo era muito louro, a face naturalmente sanguínea e a pele irritada pelo sabão ordinário, as gillettes sem corte e o rude Inverno, que mal terminara.

Orlando da Costa – “As mãos e as mãos” (sem música)

30.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

maos

A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira
Espero-a inteira
Como frutos à beira
Da fome de alguém
Espero-a inteira
Nesta fome que vem
Só das tuas para as minhas mãos

Minhas mãos geladas
Minhas mãos suadas
Em rebentos de cada esforço
Descarnadas mãos
De que já riu a ferrugem das grades

Minhas mãos abertas para que creias
Mãos suadas e novamente suadas
Mãos capazes de enxertar veias

A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira inteira

Olavo Bilac – “Dentro de mim”

29.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

fumo

“Vive dentro de mim, como num rio,
Uma linda mulher, esquiva e rara,
Num borbulhar de argênteos flocos, lara
De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninféias a namoro e espio
E ela, do espelho móbil da onda clara,
Com os verdes olhos húmidos me encara,
E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,
Na desesperação da glória suma,
Para a estreitar, louco de orgulho e gozo.

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma
E a mãe-d’água, exalando um ai piedoso,
Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.”

João de Deus – “O dinheiro”

28.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

salgado

O dinheiro é tão bonito,

Tão bonito, o maganão!

Tem tanta graça o maldito,

Tem tanto chiste o ladrão!

O falar, fala de um modo…

Todo ele, aquele todo…

E elas acham-no tão guapo!

Velhinha ou moça que veja,

Por mais esquiva que seja,

Tlim!

Papo.

E a cegueira da justiça

Como ele a tira num ai!

Sem lhe tocar com a pinça;

É só dizer-lhe: -Aí vai…

Operação melindrosa,

Que não é lá qualquer coisa;

Catarata, tome conta!

Pois não faz mais do que isto,

Diz-me um juiz que o tem visto

Tlim!

Pronta.

Nessas espécies de exames

Que a gente faz em rapaz, 

São milagres aos enxames 

O que aquele demo faz! 

Sem saber nem patavina

De gramática latina,

Quer-se um rapaz dali fora! 

Vai ele com tais falinhas, 

Tais gaifonas, tais coisinhas …

Tlim!

Ora…

Aquela fisionomia 

E lábia que o demo tem!

Mas numa secretaria

Aí é que é vê-lo bem! 

Quando ele de grande gala, 

Entra o ministro na sala, 

Aproveita a ocasião: 

“Conhece este amigo antigo?

- Oh meu tão antigo amigo!

(Tlim!)

Pois não!

Wislawa Szymborska- “Prefiro”

25.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

wislawa

Prefiro cinema.

Prefiro os gatos.

Prefiro os carvalhos nas margens do Warta.

Prefiro Dickens a Doistoievski.

Prefiro-me gostando dos homens

em vez de estar amando a humanidade.

Prefiro ter uma agulha preparada com a linha.

Prefiro a cor verde.

Prefiro não afirmar

que a razão é culpada de tudo.

Prefiro as exceções.

Prefiro sair mais cedo.

Prefiro conversar com os médicos sobre outra coisa.

Prefiro as velhas ilustrações listradas.

Prefiro o ridículo de escrever poemas

ao ridículo de não escrever.

No amor prefiro os aniversários não redondos

para serem comemorados cada dia.

Prefiro os moralistas,

que não prometem nada.

Prefiro a bondade esperta à bondade ingénua demais.

Prefiro a terra à paisana.

Prefiro os países conquistados
aos países conquistadores.

Prefiro ter abjecções.

Prefiro o inferno do caos ao inferno da ordem.

Prefiro contos de fada de Grimm às manchetes de jornais.

Prefiro as folhas sem flores às flores sem folhas.

Prefiro os cães com o rabo não cortado.

Prefiro os olhos claros porque os tenho escuros.

Prefiro as gavetas.

Prefiro muitas coisas que aqui não disse,

e outras tantas não mencionadas aqui.

Prefiro os zeros à solta
a tê-los numa fila junto ao algarismo.

Prefiro o tempo do insecto ao tempo das estrelas.

Prefiro isolar.

Prefiro não perguntar quanto tempo ainda e quando.

Prefiro levar em consideração até a possibilidade

do ser ter a sua razão.

Egito Gonçalves – “Notícias do bloqueio”

21.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

guerra

Aproveito a tua neutralidade,
o teu rosto oval, a tua beleza clara,
para enviar notícias do bloqueio
aos que no continente esperam ansiosos.

Tu lhes dirás do coração o que sofremos
nos dias que embranquecem os cabelos…
Tu lhes dirás a comoção e as palavras
que prendemos – contrabando – aos teus cabelos.

Tu lhes dirás o nosso ódio construído,
sustentando a defesa à nossa volta
– único acolchoado para a noite
florescida de fome e de tristezas.

Tua neutralidade passará
por sobre a barreira alfandegária
e a tua mala levará fotografias,
um mapa, duas cartas, uma lágrima…

Dirás como trabalhamos em silêncio, como
comemos silêncio, bebemos silêncio, nadamos
e morremos feridos de silêncio duro e violento.

Vai pois e noticia com um archote aos que
encontrares de fora das muralhas o mundo em
que nos vemos, poesia massacrada e medos à ilharga.

Vai pois e conta nos jornais diários
ou escreve com ácido nas paredes
o que viste, o que sabes, o que eu disse
entre dois bombardeamentos já esperados.

Mas diz-lhes que se mantém indevassável o
segredo das torres que nos erguem, e suspensa
delas uma flor em lume grita o seu nome
incandescente e puro.

Diz-lhes que se resiste na cidade desfigurada
por feridas de granadas e, enquanto a água e
os víveres escasseiam, aumenta a raiva
e a esperança reproduz-se.

“A casa do incesto”, de Anaïs Nin

18.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

sonho

Escrito em 1949, este pequeno livro (conto) gira em torno de Sabina, personagem que reaparecerá nos romances da escritora, por exemplo “Uma Espia na Casa do Amor”. Sabina é inspirada em June Miller, segunda mulher de Henry Miller, e que inspirou a este último a sua Mona, personagem de, entre outros, “Trópico de Câncer” e “Sexus”.
Esta enigmática mulher, corrupta e obscura em Miller, é, em Anaïs Nin uma heroína, autêntica beauty queen descrita e vivida com toda a beleza e sensibilidade.
(Do blogue, Camel & Coca Cola)

A minha primeira visão da terra foi através da água. Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são a cor da água.
Olhava com olhos de camaleão a face mutável do mundo e considerava anonimamente o meu ser incompleto.
Lembro o meu primeiro nascimento na água. À minha volta a transparência sulfurosa e os meus ossos moviam-se como se fossem de borracha. Oscilo e flutuo nas pontas sem ossos dos meus pés atenta aos sons distantes, sons para além do alcance de ouvidos humanos, vejo coisas que são para além do alcance dos olhos. Nasço cheia das memórias dos sinos da Atlântida. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguém perturbado por recordações, corto o ar a passo largo com largos golpes de barbatana e nado através de quartos sem paredes. Expulsadas de um paraíso de ausência de som, catedrais ondulam à passagem de um corpo, como música sem som.
Esta Atlântida só podia ser novamente encontrada à noite pelo caminho do sonho. Logo que o sono cobria a rígida cidade nova e a rigidez do novo mundo, abriam-se os portais mais pesados deslizando em gonzos oleados e entrava-se na ausência de voz que pertence ao sonho. Era o terror e a alegria de homicídios conseguidos em silêncio, um silêncio de calhas e de escovas. O lençol de água cobrindo tudo e abafando a voz. E um monstro trouxe-me, por acaso, à superfície.
Perdida dentro das cores da Atlântida, cores que vão dar a outras e se misturam sem fronteiras. Peixes feitos de veludo, de organdi com dentes de rendas, feitos de tafetá, recamados de lantejoulas, peixes de seda e penas e plumas, com flancos lacados e olhos de cristal de rocha, peixes de couro curtido com olhos de groselha, olhos como o branco de um ovo. Flores palpitando-lhes nas hastes como corações de mar. Nenhum deles sentindo o seu próprio peso, o cavalo marinho movendo-se como uma pena…
Era como um longo bocejo. Eu amava a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-nos através de obstáculos. A água estava ali para nos transportar como um abraço gigante; havia sempre a água para nos repousar, e que nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos.
Eu dormia muito abaixo do nível das tempestades. Movia-me dentro da cor e da música como dentro de um diamante-mar. Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-desejo misturando-se, tocando, afastando, vagueando — no abismo infinito da paz.
Não me lembro de ali estar frio, nem calor. Nenhuma dor provocada pelo frio ou pelo calor. A temperatura do sono, sem febre e sem arrepio. Não me lembro de ter tido fome. Era-se alimentado através de poros invisíveis. Não me lembro de ter chorado.
Sentia apenas a carícia de mover-me — de passar para um outro corpo — absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar de seda.
Amando sem consciência, movendo-me sem esforço, numa corrente branda de água e de desejo, respirando num êxtase de dissolução.
Acordei de madrugada, atirada para uma rocha, esqueleto de um barco sufocado nas suas próprias velas.
(Tradução de Isabel Hub Faria – Edição, Assírio & Alvim)

Manuel Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada”

11.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

pasargada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

Alberto Caeiro – “O Guardador de Rebanhos/V”

10.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

deus

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. E correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele.
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.