Nota biográfica

Gibran Khalil Gibran ( 1883 – 1931), conhecido como Khalil Gibran, foi um ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público.

Kahlil Gibran – “Filhos”

01.03.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

filhos13

Vossos filhos não são vossos filhos,
são os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor,

mas não vossos pensamentos.

Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;

Pois suas almas moram na mansão do amanhã, 

que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, 

mas não podem fazê-los como vós,

Porque a vida não anda para trás

e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos 

são arremessados como flechas vivas. 

O Arqueiro mira o alvo na senda do infinito

e vos estica com toda a sua força

para que suas flechas se projetem rápido e para longe. 

Que vosso encurvamento na mão do Arqueiro seja vossa alegria;

Pois assim como Ele ama a flecha que voa, 

ama também o arco que permanece estável.

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Fernando Pessoa – “O dos Castelos”

27.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

bandeira13

A Europa jaz, posta nos cotovelos:
Do Oriente a Ocidente jaz, fitando,
E toldam-lhe românticos cabelos
Olhos gregos, lembrando.

O cotovelo esquerdo é recuado;
O direito é em ângulo disposto.
Aquele diz Itália onde é pousado;
Este diz Inglaterra onde, afastado,
A mão sustenta, em que se apoia o rosto.

Fita com olhar esfíngico e fatal,
O Ocidente, futuro do passado.

O rosto com que fita é Portugal.

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Bertolt Brecht – “Dificuldades de governar”

25.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

inteligente13

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

É também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
É se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?

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Afonso Duarte – “Rosas e Cantigas”

24.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

rosas13

Eu hei-de despedir-me desta lida,
Rosas? – Árvores! hei-de abrir-vos covas
E deixar-vos ainda quando novas?
Eu posso lá morrer, terra florida!

A palavra de adeus é a mais sentida
Deste meu coração cheio de trovas…
Só bens me dê o céu! eu tenho provas
Que não há bem que pague o desta vida.

E os cravos, manjerico, e limonete,
Oh! que perfume dão às raparigas!
Que lindos são nos seios do corpete!

Como és, nuvem dos céus, água do mar,
Flores que eu trato, rosas e cantigas,
Cá, do outro mundo, me fareis voltar.

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Jaime Cortesão – “Ode à Liberdade”

23.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

livre13

Quero-te, como quero ao ar e à luz
Porque não sou a ovelha do rebanho,
Nem vendi ao pastor alma e a grei;
E onde não haja mais do que o redil,
Es tu a minha pátria e a minha Lei.

Leva-me onde as estradas me pertençam.
Porque as vozes viris que me conduzem
Ninguém, melhor do que eu, sabe dizê-las;
Porque eu não temo as livres solidões,
Onde habitam os ventos e as estrelas.

Leva-me ao teu sopro, éter divino,
Porque me queima a sede das alturas
E o meu amor se oferece sem limite;
E és tu que abres as asas aos condores,
És tu que ergues os astros ao zénite.

Toma-me nas tuas mãos de Sagitário,
Faze de mim o arco retesado
Pelo teu braço e a tua força inquieta,

Pois, quando o meu desejo atinge o alvo,
És tu o impulso que dispara a seta.

E lá, sempre mais longe, além do Oceano,
Nos limites do mundo conhecido,
Em plena selva e onde há que abrir a senda,
Que eu quero devorar os frutos novos
E erguer à beira de água a minha tenda.

Torna-me ágil e ardente, alma do Fogo,
Porque tu és a inspiradora inquieta
Dos bailados da morte e da alegria;
E eu prefiro ao aprisco a vida heróica,
A que devora o ser, mas alumia.

Queima-ma, embora custes, quando negas,
Quer o ódio fanático dos bonzos,
Quer o ciúme vil dos fariseus.
Sou dos que amam demais a Divindade
Para poder acreditar num deus.

Não és a flor da beira do caminho.dos que amam
Bem sei que é preciso conquistar-te
A cada novo dia e duro preço.
Por ti tenho sofrido quanto os homens
Podem sofrer. Por isso te mereço.

Por ti sofri os transes da agonia,
Desde a fome da alma no deserto
Ao pão que, por amargo, se recusa.
E, náufrago da grande tempestade,
Cá vou sobre a jangada da Medusa!

Gerou-te, lentamente, com revolta
E dor, a consciência dos escravos;
Renasce mais perfeita a cada idade;
E, sempre, com as dores cruéis do parto,
Dá-te de novo à luz a Humanidade.

Querem mãos assassinas sufocar-te
Nas entranhas maternas. Mas em vão.
Virás como a torrente desprendida,
Porque és o sopro e a lei da Criação
E não há força que detenha a Vida.

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Gomes Leal – “Pregões matinais”

22.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

pregoes13

Passo às vezes na cama um dia inteiro
De papo para o ar, como um madraço…
Fumando qual filósofo ou palhaço,
– Sem mulher… sem cuidados… sem dinheiro!

É de manhã então que me é fagueiro
Ouvir trinar no cristalino espaço
Um pregão mais macio que um regaço,
Que se esvai a carpir… como um boieiro…

De manhã é que passa a leiteirinha,
Com seu pregão chilrado de andorinha,
Passam varinas de gargantas sãs…

E ao escutar tais cantantes semifusas,
Eu creio que oiço ao longe as frescas Musas,
– A vender uvas e a pregoar maçãs.

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Gonçalves Crespo – “Alguém”

20.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

mae13

Para alguém sou o lírio entre os abrolhos,
E tenho as formas ideais do Cristo;
Para alguém sou a vida e a luz dos olhos,
E, se na terra existe, é porque existo.

Esse alguém, que prefere ao namorado
Cantar das aves minha rude voz,
Não és tu, anjo meu idolatrado!
Nem, meus amigos, é nenhum de vós!

Quando, alta noite, me reclino e deito,
Melancólico, triste e fatigado,
Esse alguém abre as asas no meu leito,
E o meu sono desliza perfumado.

Chovam bênçãos de Deus sobre a que chora
Por mim além dos mares! Esse alguém
É de meus dias a esplendente aurora,
És tu, doce velhinha, oh minha mãe!

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João de Deus – “Mal dos pés”

18.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

pes13

Certo patrício nosso brasileiro,
Depois de ter corrido o mundo inteiro
Ao voltar de Paris desenganado
Dos médicos, que tinha consultado,
Achou-se num wagon com um inglês,
O desgraçado tinha mal de pés.
E a última palavra da ciência
Era ir vivendo e tendo paciência!

Mostrou-se o bife incomodado,
Fungando para um e outro lado…
Como quem busca o foco de infecção;
Diz-lhe o nosso infeliz compatriota,
A apontar-lhe com o dedo a bota
E exalando um suspiro de paixão:
– Eis a causa, senhor, eis o motivo!…
O que eu não sei é como ainda vivo!


Tenho gasto rios de dinheiro,
E sempre, sempre, sempre o mesmo cheiro!

E isto por ora vá!… mas alto dia
Quando aperta o calor… Virgem Maria!…
“E diga-me: em lavando os pés refina,
Ou sente algum alívio?”
– “Isso não sei,
Sei que tenho exaurido a medicina;
mas lavar é que nunca experimentei.”

Às vezes dá-se ao médico o dinheiro
Que se devia dar ao aguadeiro.

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Bocage – “Bojudo fradalhão de larga venta”

17.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

bocage13

Bojudo fradalhão de larga venta,
abismo imundo de tabaco esturro,
doutor na asneira, na ciência burro,
com barba hirsuta, que no peito assenta:

No púlpito um domingo se apresenta;
prega nas grades espantoso murro;
e acalmado do povo o grão sussurro
o dique das asneiras arrebenta.

Quatro putas mofavam de seus brados
não querendo que gritasse contra as modas
um pecador dos mais desaforados.

“Não (diz uma), tu padre não me engodas;
sempre me há-de lembrar por meus pecados
a noite, em que me deste nove fodas!”

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Bocage – “Liberdade querida e suspirada”

16.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

liberdade13

Liberdade querida, e suspirada, 

Que o despotismo acérrimo condena; 

Liberdade, a meus olhos mais serena

Que o sereno clarão da madrugada:

Atende à minha voz, que geme e brada

Por ver-te, por gozar-te a face amena; 

Liberdade gentil, desterra a pena 

Em que esta alma infeliz jaz sepultada.

Vem, oh deusa imortal, vem, maravilha,

Vem, oh consolação da humanidade,

Cujo semblante mais do que os astros brilha:

Vem, solta-me o grilhão de adversidade;

Dos céus descende, pois dos céus és filha, 

Mãe dos prazeres, doce Liberdade!

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Filinto Elísio – “Nasci – Logo a meus pais custou dinheiro”

11.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

filinto13

Nasci – logo a meus pais custou dinheiro
o baptismo, que Deus nos dá de graça.
Tive uso de razão – perdi a graça –
dei-me ao rol – chegou a Páscoa – dei dinheiro.

Quis casar com uma moça – mais dinheiro.
Brinquei com ela – não brinquei de graça: que aos
nove meses me custou a graça para o
Mergulhador capa e dinheiro.

Morreu minha mulher – não lhe achei graça e
menos graça no arbitral dinheiro da oferta; que o
prior não vai de graça.

Se o ser cristão requer sempre dinheiro,
como cumprem com dar graças de graça os
que as graças nos vendem por dinheiro?

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Fernando Pessoa – “Nevoeiro”

10.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

nevoeiro13

Nem rei nem lei, nem paz nem guerra,
Define com perfil e ser
Este fulgor baço da terra
Que é Portugal a entristecer –
Brilho sem luz e sem arder,
Como o que o fogo-fátuo encerra.

Ninguém sabe que coisa quer.
Ninguém conhece que alma tem,
Nem o que é mal nem o que é bem.
(Que ânsia distante perto chora?)
Tudo é incerto e derradeiro.
Tudo é disperso, nada é inteiro.
Ó Portugal, hoje és nevoeiro…

É a Hora!

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Manuel António Pina – “Todas as Palavras”

09.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

palavras13

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

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Fiama Hasse Pais Brandão – “Canto dos Lugares”

06.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

carcere13

Tantas vezes os lugares habitam no Homem e
os homens tantas vezes habitam nos lugares que
os habitam, que podia dizer-se que o cárcere de
Sócrates, estando nele Sócrates, não o era, como
diz Séneca em epístola a Hélvia.

Por isso cada lugar nos mostra uma vida
clara e desmedida, enquanto o Tempo
oscila e nos oculta que é curto e ambíguo
porque nos dá a morte e a vida.

E os lugares somente acabam
porque é mortal cada homem
que houve em si algum lugar.

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Manuel Alegre – “Portugal em Paris”

05.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

paris13

Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.

Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.

E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.

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Augusto Gil – “Artigo 1056º do Código Civil”

04.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

casamento13

Oiça, vizinha: o melhor
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.

Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada.
Não me tiro da janela,
Não leio, não faço nada…

0 seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando,
E acirrando o meu tormento…

0 meu não: abro um artigo
De lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de cara consigo
E mando as leis ao diabo.

Ao diabo mando as leis
Com excepção dum artigo:
0 mil e cinquenta e seis…
Quer conhecê-lo? Eu lhe digo:

«Casamento é um contrato
Perpétuo». Este adjectivo
Transmuda o mais lindo pacto
No assunto mais repulsivo.

«Perpétuo». Repare bem
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou de duas…

Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora – até um dia…

Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.

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Vitorino Nemésio – “O Futuro Perfeito.”

03.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

netos13

A neta explora-me os dentes, Penteia-me
como quem carda. Terra da sua
experiência, Meu rosto diverte-a,
parda Imagem dada à inocência.

Finjo que lhe como os dedos, Fura-
me os olhos cansados, íntima aos
meus próprios medos Deixa-mos
sossegados.

E tira, tira puxando Coisas de mim,
divertida. Assim me vai
transformando Em tempo de sua
vida.

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Carlos Queiroz – “Teatro de boneca”

02.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

boneca13

A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabia se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.

E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.

É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.

A boneca.
A boneca.

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Mário de Sá-Carneiro – “O Recreio”

30.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

balouco13

Na minh’Alma há um balouço

Que está sempre a balouçar

Balouço à beira dum poço,

Bem difícil de montar…

– E um menino de bibe

Sobre ele sempre a brincar…


Se a corda se parte um dia,

(E já vai estando esgarçada), 

Era uma vez a folia: 

Morre a criança afogada…

– Cá por mim não mudo a corda,

Seria grande estopada…

Se o indez morre, deixá-lo… 

Mais vale morrer de bibe 

Que de casaca… Deixá-lo

Balouçar-se enquanto vive…

– Mudar a corda era fácil…

Tal ideia nunca tive…

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Eugénio de Andrade – “O Comum da Terra” (Vasco Gonçalves)

29.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

25abril13

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.

[Querido Eugénio, que coragem a sua, tão esteta
e cultor do verso enxuto, em «ostinato rigore», escrever esta ode
a Vasco Gonçalves, representando o então quase comum
entusiasmo poético pela Revolução de Abril!
Contido, o poema comunica a intensidade dos discursos,
a aliança dos militares com o povo, a incandescência revolucionária
do Alentejo. Extraordinária concisão estética, a do poema, para o
fervor verbal transbordante das vivências comunitárias de então.
Maria Alzira Seixo in “Os poemas da minha vida” Ed. Jornal Público]

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Sophia de Mello B. Andresen – “Pátria”

28.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

patria13

Por um país de pedra e vento duro Por um
país de luz perfeita e clara Pelo negro da
terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência Que a
miséria longamente desenhou Rente aos ossos
com toda a exactidão Dum longo relatório
irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas Palavras
sempre ditas com paixão Pela cor e pelo peso
das palavras Pelo concreto silêncio limpo das
palavras Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo

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Camilo Pessanha – “Floriram por engano as rosas bravas”

27.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

rosas13

Floriram por engano as rosas bravas No Inverno:
veio o vento desfolhá-las… Em que cismas, meu
bem? Porque me calas As vozes com que há pouco
me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!… Onde vamos,
alheio o pensamento, De mãos dadas? Teus olhos,
que um momento Perscrutaram nos meus, como vão
tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, Surda, em
triunfo, pétalas, de leve Juncando o chão, na
acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu! Quem
as esparze – quanta flor! – do céu, Sobre nós
dois, sobre os nossos cabelos?

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Cecília Meireles – “Motivo”

22.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

poeta13

Eu canto porque o instante existe e a
minha vida está completa. Não sou
alegre nem sou triste: sou poeta.

Irmão das coisas fugidias, não sinto
gozo nem tormento. Atravesso noites
e dias no vento.

Se desmorono ou se edifico, se
permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.

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Carlos Drummond de Andrade – “Poema de sete faces”

21.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

diabo14


Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

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David Mourão-Ferreira – “Nocturno”

12.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

passos_de_mulher14

Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…

Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.

Era, no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy…
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.

Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…

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Jorge de Sousa Braga – “Mãe”

05.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

mae_sousa_braga14

Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do
que a de já não ser
capaz de chorar?)


Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar
como uma corda num enforcamento?
— tenho aprendido coisas bem singulares neste
convívio com os deuses —

Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado 

Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas 
Aéreas Gregas

Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho 
antes de partir

Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão 

Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes 

Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito.
Depois
 acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho 
para sonho 

Ainda não parei de acordar. E de sonhar

Mãe
Tenho uma surpresa para ti

um caramanchão para que te possas sentar todas as 

tardes a catar estrelas 
na minha cabeça

Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de

ascensorista no Paraíso e eu concorri

Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?

— tenho a boca cheia de formigas —

Mãe
um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris

(in “Antologia Poétca”)

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Mário Cesariny – “Ode doméstica”

18.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

passado14

tudo no teu sorriso diz que só
te falta um pretexto para seres
feliz

uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas

um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor

eu
vou pensando em coisas velhas
– sem sombra de desdém! –
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem

e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado

e declina, o dia

o pequeno pastor já não vem

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Mário Castrim – “Ana e António”

16.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

mesa_vazia14

A Ana e o António trabalhavam
na mesma empresa.
Agora foram ambos despedidos.
Lá em casa, o silêncio sentou-se
em todas as cadeiras
em volta da mesa vazia.

“Neo-Realismo!” dirão os estetas
para quem ser despedido é o preço do progresso.

Os estetas, esses, nunca
serão despedidos.

Ou julgam isso, ou julgam isso.

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Sidónio Muralha – “Soneto imperfeito.”

08.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

algemas14

Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.

Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.

Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas

que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.

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Manuel da Fonseca – “Romance do terceiro…”

03.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

funcionario14

Romance do terceiro oficial de Finanças

Ah! As coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e
estrelas e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
– os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!…
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus
cabelos quando eu ia namorar-te…)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!…
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
– isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!…

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