Nota biográfica

Jorge Cândido de Sena (Lisboa, 2 de Novembro de 1919 — Santa Barbara, Califórnia, 4 de Junho de 1978) foi poeta, crítico, ensaísta, ficcionista, dramaturgo, tradutor e professor universitário português.

Jorge de Sena – “A canalha”

15.04.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como esta gente odeia, como espuma

por entre os dentes podres a sua baba…

de tudo sujo sem sequer prazer!

Como se querem reles e mesquinhos,

piolhosos, fétidos e promíscuos

na sarna vergonhosa e pustulenta!

Como se rabialçam de importantes,

fingindo-se de vítimas, vestais,

piedosas prostitutas delicadas!

Como se querem torpes e venais

palhaços pagos da miséria rasca

de seus cafés, popós e brilhantinas!

Há que esmagar a DDT, penicilina

e pau pelos costados tal canalha

de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,

tratá-los como lixo de oito séculos

de um povo que merece melhor gente

para salvá-lo de si mesmo e de outrem.

Carlos Drummond de Andrade – “O medo”

11.04.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em verdade temos medo.

Nascemos escuro.

As existências são poucas:

Carteiro, ditador, soldado.

Nosso destino, incompleto.



E fomos educados para o medo.

Cheiramos flores de medo.

Vestimos panos de medo.

De medo, vermelhos rios
vadiamos.


Somos apenas uns homens

e a natureza traiu-nos.

Há as árvores, as fábricas,

Doenças galopantes, fomes.



Refugiamo-nos no amor,

este célebre sentimento,

e o amor faltou: chovia,

ventava, fazia frio em São Paulo.



Fazia frio em São Paulo…

Nevava.

O medo, com sua capa,

nos dissimula e nos berça.



Fiquei com medo de ti,

meu companheiro moreno,

De nós, de vós: e de tudo.

Estou com medo da honra.



Assim nos criam burgueses,

Nosso caminho: traçado.

Por que morrer em conjunto?

E se todos nós vivêssemos?



Vem, harmonia do medo,

vem, ó terror das estradas,

susto na noite, receio

de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,

lentos poderes do láudano.

Até a canção medrosa

se parte, se transe e cala-se.



Faremos casas de medo,

duros tijolos de medo,

medrosos caules, repuxos,

ruas só de medo e calma.



E com asas de prudência,

com resplendores covardes,

atingiremos o cimo

de nossa cauta subida.



O medo, com sua física,

tanto produz: carcereiros,

edifícios, escritores,

este poema; outras vidas.



Tenhamos o maior pavor,

Os mais velhos compreendem.

O medo cristalizou-os.

Estátuas sábias, adeus.



Adeus: vamos para a frente,

recuando de olhos acesos.

Nossos filhos tão felizes…

Fiéis herdeiros do medo,



eles povoam a cidade.

Depois da cidade, o mundo.

Depois do mundo, as estrelas,

dançando o baile do medo.

Carlos Drummond de Andrade – “Quadrilha”

10.04.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Sebastião da Gama – “Meu país desgraçado”

09.04.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meu país desgraçado!…
E no entanto há Sol a cada canto
e não há Mar tão lindo noutro lado.
Nem há céu mais alegre do que o nosso,
nem pássaros, nem águas…

Meu país desgraçado!…
Por que fatal engano?
Que malévolos crimes
teus direitos de berço violaram?

Meu Povo
de cabeça pendida, mãos caídas,
de olhos sem fé
- busca, dentro de ti, fora de ti, aonde
a causa da miséria se te esconde.

E em nome dos direitos
que te deram a terra, o Sol, o Mar,
fere-a sem dó
com o lume do teu antigo olhar.

Alevanta-te, Povo!
Ah!, visses tu, nos olhos das mulheres,
a calada censura
que te reclama filhos mais robustos!

Povo anémico e triste,
meu Pedro Sem sem forças, sem haveres!
- olha a censura muda das mulheres!
Vai-te de novo ao Mar!
Reganha tuas barcas, tuas forças
e o direito de amar e fecundar
as que só por Amor te não desprezam!

Alexandre O’Neill – “Portugal”

27.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã, não há
“papo-de-anjo” que seja o meu derriço, galo que
cante a cores na minha prateleira, alvura
arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro
marrado e sem narizes, sem perdizes, rocim
engraxado, feira cabisbaixa, meu remorso, meu
remorso de todos nós…

Manuel da Fonseca – “Amigo”

21.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amigo, 
tu que choras uma angústia qualquer 
e falas de coisas mansas como o luar 
e paradas 
como as águas de um lago adormecido, 
acorda! 
Deixa de vez 
as margens do regato solitário 
onde te miras 
como se fosses a tua namorada. 
Abandona o jardim sem flores 
desse país inventado 
onde tu és o único habitante. 
Deixa os desejos sem rumo 
de barco ao deus-dará 
e esse ar de renúncia 
às coisas do mundo. 
Acorda, amigo, 
liberta-te dessa paz podre de milagre 
que existe 
apenas na tua imaginação. 
Abre os olhos e olha, 
abre os braços e luta! 
Amigo, 
antes da morte vir 
nasce de vez para a vida. 

Arnaldo Saldanha Abreu – “Palavras”

17.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Rasgam-me a garganta.
As palavras soltam-se.
Como pombas da paz libertas de um tempo infértil
Voam, agora,
Esplêndidas
Precipitam-se a meus pés arfando vida num suicídio anunciado.
Esventradas,
Tingem-se com o sangue imaculado das palavras degoladas.
Decepam-me os dedos.
As palavras partem, desenleiam-se.
Renovo-me na carne decepada.
Com os dedos novos que me crescem
Teço reflexos de um reflexo oculto projectado no chão térreo
Viro as palmas das mãos para cima
Tento abarcar a pequenez do céu com a enormidade
de um abraço
Ajoelho-me na terra aquecida pelo sol breve que me trespassa
a espinha.
Curvo-me.
Nascemos para pequenos milagres.
Separam-me a língua.
As palavras desprendem-se, revoltam-se, personificam-se,
enleiam-se e fornicam
Indomáveis
Fazemos filhos,
Multiplicamos sangue,
Arrancamos a pele e gravamos na carne o tumulto ininterrupto
de um rio que saliva palavras.

(Do livro “Transparências e outros anexos”, editado em 2014 por “Euedito”.)

Fernando Pessoa – “A Tabacaria” (versão do CD “Os 10+”)

10.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Esta declamação faz parte do CD “Os 10+” que editei e que com outros 9 constitui, segundo uma revista literária Brasileira,os dez poemas mais importantes da língua Portuguesa.

Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é

(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada

De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa.

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira.

Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!

Gênio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?

Não, nem em mim…

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.

Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando.

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso;

Serei sempre só o que tinha qualidades;

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num paço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio,

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!

Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, sem rol, para o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,

Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,

Vejo os cães que também existem,

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz.

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho, já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.

Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra, sempre uma coisa tão inútil como a outra,

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira

Talvez fosse feliz.)

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou á janela.

0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.

(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

(Fundo musical: Shubert)

Ferreira Gullar – “Poema sujo”

05.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

turvo turvo

a turva

mão do sopro

contra o muro

escuro

menos menos

menos que escuro

menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo

escuro

mais que escuro:

claro

como água? como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma

e tudo

(ou quase)

um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas

azul

era o gato

azul

era o galo

azul

o cavalo

azul

teu cu

tua gengiva igual a tua bocetinha que parecia sorrir entre as folhas de

banana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como

uma boca do corpo (não como a tua boca de palavras) como uma

entrada para

eu não sabia tu

não sabias

fazer girar a vida

com seu montão de estrelas e oceano

entrando-nos em ti

bela bela

mais que bela

mas como era o nome dela?

Não era Helena nem Vera

nem Nara nem Gabriela

nem Tereza nem Maria

Seu nome seu nome era…

Perdeu-se na carne fria

perdeu na confusão de tanta noite e tanto dia

perdeu-se na profusão das coisas acontecidas

constelações de alfabeto

noites escritas a giz

pastilhas de aniversário

domingos de futebol

enterros corsos comícios

roleta bilhar baralho

mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa

e de tempo: mas está comigo está

perdido comigo

teu nome

em alguma gaveta

Que importa um nome a esta hora do anoitecer em São Luís

do Maranhão à mesa do jantar sob uma luz de febre entre irmãos

e pais dentro de um enigma?

mas que importa um nome

debaixo deste teto de telhas encardidas vigas à mostra entre

cadeiras e mesa entre uma cristaleira e um armário diante de

garfos e facas e pratos de louças que se quebraram já

um prato de louça ordinária não dura tanto

e as facas se perdem e os garfos

se perdem pela vida caem

pelas falhas do assoalho e vão conviver com ratos

e baratas ou enferrujam no quintal esquecidos entre os pés de erva-cidreira

e as grossas orelhas de hortelã

quanta coisa se perde

nesta vida

Como se perdeu o que eles falavam ali

mastigando

misturando feijão com farinha e nacos de carne assada

e diziam coisas tão reais como a toalha bordada

ou a tosse da tia no quarto

e o clarão do sol morrendo na platibanda em frente à nossa

janela

tão reais que

se apagaram para sempre

Ou não?

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem

que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás

e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,

ou dentro de um ônibus

ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico

acima do arco-íris

perfeitamente fora

do rigor cronológico

sonhando

Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas

balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas

cobertos de limo muros de musgos palavras ditas à mesa do

jantar,

voais comigo

sobre continentes e mares

E também rastejais comigo

pelos túneis das noites clandestinas

sob o céu constelado do país

entre fulgor e lepra

debaixo de lençóis de lama e de terror

vos esgueirais comigo, mesas velhas,

armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,

dobrais comigo as esquinas do susto
e esperais esperais

que o dia venha

E depois de tanto

que importa um nome?

Te cubro de flor, menina, e te dou todos os nomes do mundo:

te chamo aurora

te chamo água

te descubro nas pedras coloridas nas artistas de cinema

nas aparições do sonho
- E esta mulher a tossir dentro de casa!

Como se não bastasse o pouco dinheiro, a lâmpada fraca,

O perfume ordinário, o amor escasso, as goteiras no inverno.

E as formigas brotando aos milhões negras como golfadas de

dentro da parede (como se aquilo fosse a essência da casa)

E todos buscavam

num sorriso num gesto

nas conversas da esquina

no coito em pé na calçada escura do Quartel

no adultério

no roubo

a decifração do enigma
- Que faço entre coisas?
- De que me defendo?

Num cofo de quintal na terra preta cresciam plantas e rosas

(como pode o perfume 
nascer assim?)

Da lama à beira das calçadas, da água dos esgotos cresciam

pés de tomate

Nos beirais das casas sobre as telhas cresciam capins

mais verdes que a esperança

(ou o fogo
de teus olhos)

Era a vida a explodir por todas as fendas da cidade

sob as sombras da guerra:

a gestapo a wehrmacht a raf a feb a blitzkrieg

catalinas torpedeamentos a quinta-coluna os fascistas os nazistas os

comunistas o repórter Esso a discussão na quitanda a querosene o

sabão de andiroba o mercado negro o racionamento o blackout as

montanhas de metais velhos o italiano assassinado na Praça João

Lisboa o cheiro de pólvora os canhões alemães troando nas noites de

tempestade por cima da nossa casa. Stalingrado resiste.

Por meu pai que contrabandeava cigarros, por meu primo que passava

rifa, pelo tio que roubava estanho à Estrada de Ferro, por seu Neco

que fazia charutos ordinários, pelo sargento Gonzaga que tomava

tiquira com mel de abelha e trepava com a janela aberta,

pelo meu carneiro manso

por minha cidade azul

pelo Brasil salve salve,

Stalingrado resiste.

A cada nova manhã

nas janelas nas esquinas nas manchetes dos jornais

Mas a poesia não existia ainda.

Plantas. Bichos, Cheiros. Roupas.

Olhos. Braços. Seios. Bocas.

Vidraça verde, jasmim.

Bicicleta no domingo.

Papagaios de papel.

Retreta na praça.

Luto.

Homem morto no mercado

sangue humano nos legumes.

Mundo sem voz, coisa opaca.

Nem Bilac nem Raimundo. Tuba de alto clangor, lira singela?

Nem tuba nem lira grega. Soube depois: fala humana, voz de

gente, barulho escuro do corpo, intercortado de relâmpagos

Do corpo. Mas que é o corpo?

Meu corpo feito de carne e de osso.

Esse osso que não vejo, maxilares, costelas

flexível armação que me sustenta no espaço

que não me deixa desabar como um saco

vazio

que guarda as vísceras todas

funcionando
como retortas e tubos

fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras

e as mentiras

e os carinhos mais doces mais sacanas

mais sentidos

para explodir uma galáxia

de leite

no centro de tuas coxas no fundo

de tua noite ávida

cheiros de umbigo e de vagina

graves cheiros indecifráveis

como símbolos

do corpo

do teu corpo do meu corpo

corpo

que pode um sabre rasgar

um caco de vidro

uma navalha

meu corpo cheio de sangue

que o irriga como a um continente

ou um jardim

circulando por meus braços

por meus dedos

enquanto discuto caminho

lembro relembro

meu sangue feito de gases que aspiro

dos céus da cidade estrangeira

com a ajuda dos plátanos

e que pode – por um descuido – esvair-se por meu

pulso

aberto

Meu corpo

que deitado na cama vejo

como um objeto no espaço

que mede 1,70m

e que sou eu: essa coisa deitada

barriga pernas e pés

com cinco dedos cada um (por que
não seis?)

joelhos e tornozelos

para mover-se

sentar-se

levantar-se

meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo

meu corpo feito de água

e cinza

que me faz olhar Andrômeda, Sírius, Mercúrio
e me sentir misturado

a toda essa massa de hidrogênio e hélio

que se desintegra e reintegra

sem se saber pra quê

Corpo meu corpo corpo

que tem um nariz assim uma boca

dois olho
s
e um certo jeito de sorrir

de falar

que minha mãe identifica como sendo de seu filho

que meu filho identifica

como sendo de seu pai

corpo que se pára de funcionar provoca

um grave acontecimento na família:

sem ele não há José Ribamar Ferreira

não há Ferreira Gullar

e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta

estarão esquecidas para sempre

corpo-facho corpo-fátuo corpo-fato

atravessados de cheiros de galinheiros e rato
na quitanda ninho

de rato
cocô de gato
sal azinhavre sapato

brilhantina anel barato

língua no cu na boceta cavalo-de-crista chato

nos pentelhos

com meu corpo-falo

insondável incompreendido

meu cão doméstico meu dono

cheio de flor e de sono

meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio

de tudo como um monturo

de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias

sambas e frevos azuis

de Fra Angelico verdes

de Cézanne

matéria-sonho de Volpi

Mas sobretudo meu

corpo

nordestino

Mais que isso

maranhense

mais que isso
s
anluisense

mais que isso

ferreirense

newtoniense

alzirense

meu corpo nascido numa porta-e-janela da Rua dos Prazeres

ao lado de uma padaria sob o signo de Virgo

sob as balas do 24º BC

na revolução de 30

e que desde então segue pulsando como um relógio

num tic tac que não se ouve

(senão quando se cola o ouvido à altura do meu coração)

tic tac tic tac

enquanto vou entre automóveis e ônibus

entre vitrinas de roupas

nas livrarias

nos bares

tic tac tic tac

pulsando há 45 anos

esse coração oculto

pulsando no meio da noite, da neve, da chuva

debaixo da capa, do paletó, da camisa

debaixo da pele, da carne,

combatente clandestino aliado da classe operária

meu coração de menino.

Este poema faz parte do CD por mim editado, “Os 10+”. Contem 10 poemas de 10 poetas, considerados por uma revista literária brasileira, como os mais importantes da língua Portuguesa.

Thiago de Mello – “Os Estatutos do Homem”

04.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Artigo I 
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II 
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III 
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV 
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único: 
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V 
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI 
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII 
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX 
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X 
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI 
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII 
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único: 
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII 
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final. 
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

Santiago do Chile, abril de 1964
Este poema faz parte de um CD editado por mim e disponível na Loja da Raposa. Intitulado “Os 10+”, contém os 10 poemas que uma revista brasileira considera os melhores de sempre em língua portuguesa.

Fernando Pessoa – “Presságio”

03.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

O amor, quando se revela,

Não se sabe revelar.

Sabe bem olhar pra ela,

Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente

Não sabe o que há-de dizer.

Fala: parece que mente…

Cala: parece esquecer…

Ah, mas se ela adivinhasse,

Se pudesse ouvir o olhar,

E se um olhar lhe bastasse

Pra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;

Quem quer dizer quanto sente

Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe

O que não lhe ouso contar,

Já não terei que falar-lhe

Porque lhe estou a falar…

Edgar Allan Poe – “O Corvo” (Trad. Fernando Pessoa)

27.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este poema, com mais outros 9, foi considerado por uma revista brasileira os mais importantes de sempre. Faz parte de um CD produzido pelo Estudo Raposa e disponível, para aquisição, na Loja da Raposa.

Numa meia-noite agreste, quando eu lia, lento e triste,

Vagos, curiosos tomos de ciências ancestrais,

E já quase adormecia, ouvi o que parecia

O som de alguém que batia levemente a meus umbrais
«Uma visita», eu me disse, «está batendo a meus umbrais.
           
É só isso e nada mais.»

Ah, que bem disso me lembro! Era no frio Dezembro,

E o fogo, morrendo negro, urdia sombras desiguais.

Como eu qu’ria a madrugada, toda a noite aos livros dada

P’ra esquecer em vão a amada, hoje entre hostes celestiais —

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais,
           
Mas sem nome aqui jamais!

Como, a tremer frio e frouxo, cada reposteiro roxo

Me incutia, urdia estranhos terrores nunca antes tais!

Mas, a mim mesmo infundindo força, eu ia repetindo,

«É uma visita pedindo entrada aqui em meus umbrais;

Uma visita tardia pede entrada em meus umbrais.
           
É só isso e nada mais».

E, mais forte num instante, já nem tardo ou hesitante,

«Senhor», eu disse, «ou senhora, decerto me desculpais;

Mas eu ia adormecendo, quando viestes batendo,

Tão levemente batendo, batendo por meus umbrais,

Que mal ouvi…» E abri largos, franquendo-os, meus umbrais.
           
Noite, noite e nada mais.

A treva enorme fitando, fiquei perdido receando,

Dúbio e tais sonhos sonhando que os ninguém sonhou iguais.

Mas a noite era infinita, a paz profunda e maldita,

E a única palavra dita foi um nome cheio de ais —

Eu o disse, o nome dela, e o eco disse aos meus ais.
           
Isto só e nada mais.

Para dentro estão volvendo, toda a alma em mim ardendo,

Não tardou que ouvisse novo som batendo mais e mais.

«Por certo», disse eu, «aquela bulha é na minha janela.

Vamos ver o que está nela, e o que são estes sinais.
»
Meu coração se distraía pesquisando estes sinais.
           
«É o vento, e nada mais.
»
Abri então a vidraça, e eis que, com muita negaça,

Entrou grave e nobre um corvo dos bons tempos ancestrais.

Não fez nenhum cumprimento, não parou nem um momento,

Mas com ar solene e lento pousou sobre meus umbrais,

Num alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais.
           
Foi, pousou, e nada mais.

E esta ave estranha e escura fez sorrir minha amargura

Com o solene decoro de seus ares rituais.

«Tens o aspecto tosquiado», disse eu, «mas de nobre e ousado,

Ó velho corvo emigrado lá das trevas infernais!

Dize-me qual o teu nome lá nas trevas infernais.»
           
Disse-me o corvo, «Nunca mais».

Pasmei de ouvir este raro pássaro falar tão claro,

Inda que pouco sentido tivessem palavras tais.

Mas deve ser concedido que ninguém terá havido

Que uma ave tenha tido pousada nos seus umbrais,

Ave ou bicho sobre o busto que há por sobre seus umbrais,
           
Com o nome «Nunca mais»

Mas o corvo, sobre o busto, nada mais dissera, augusto,

Que essa frase, qual se nela a alma lhe ficasse em ais.

Nem mais voz nem movimento fez, e eu, em meu pensamento

Perdido, murmurei lento, «Amigo, sonhos — mortais

Todos — todos lá se foram. Amanhã também te vais».
           
Disse o corvo, «Nunca mais».

A alma súbito movida por frase tão bem cabida,

«Por certo», disse eu, «são estas vozes usuais.

Aprendeu-as de algum dono, que a desgraça e o abandono

Seguiram até que o entono da alma se quebrou em ais,

E o bordão de desesp’rança de seu canto cheio de ais
           
Era este «Nunca mais».

Mas, fazendo inda a ave escura sorrir a minha amargura,

Sentei-me defronte dela, do alvo busto e meus umbrais;

E, enterrado na cadeira, pensei de muita maneira

Que qu’ria esta ave agoureira dos maus tempos ancestrais,

Esta ave negra e agoureira de maus tempos ancestrais,
           
Com aquele «Nunca mais».

Comigo isto discorrendo, mas nem sílaba dizendo

À ave que na minha alma cravava os olhos fatais,

Isto e mais ia cismando, a cabeça reclinando

No veludo onde a luz punha vagas sombras desiguais,

Naquele veludo onde ela, entre as sombras desiguais,
           
Reclinar-se-á nunca mais!

Fez-me então o ar mais denso, como cheio dum incenso

Que anjos dessem, cujos leves passos soam musicais.

«Maldito!», a mim disse, «deu-te Deus, por anjos concedeu-te

O esquecimento; valeu-te. Toma-o, esquece, com teus ais,

O nome da que não esqueces, e que faz esses teus ais!»
           
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Profeta», disse eu, «profeta — ou demónio ou ave preta!

Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,

Dize a esta alma entristecida se no Éden de outra vida

Verá essa hoje perdida entre hostes celestiais,

Essa cujo nome sabem as hostes celestiais!»
           
Disse o corvo, «Nunca mais».

«Que esse grito nos aparte, ave ou diabo!, disse eu. «Parte!

Torna à noite e à tempestade! Torna às trevas infernais!

Não deixes pena que ateste a mentira que disseste!

Minha solidão me reste! Tira-te de meus umbrais!»
           
Disse o corvo, «Nunca mais».

E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda

No alvo busto de Atena que há por sobre os meus umbrais.

Seu olhar tem a medonha dor de um demónio que sonha,

E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,

E a minh’alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
           
Libertar-se-á… nunca mais!

(Tradução de Fernando Pessoa)

Carlos Drummond de Andrade – “A Máquina do Mundo”

26.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este poema, juntamente com 9 outros, faz parte de um CD que editei e que está disponível na Loja da Raposa para aquisição e a que dei o título de “Os 10+”. Estes poemas foram selecionados por uma revista brasileira como os mais importantes de sempre.

E como eu palmilhasse vagamente
uma estrada de Minas, pedregosa,
e no fecho da tarde um sino rouco

se misturasse ao som de meus sapatos
que era pausado e seco; e aves pairassem
no céu de chumbo, e suas formas pretas

lentamente se fossem diluindo
na escuridão maior, vinda dos montes
e de meu próprio ser desenganado,

a máquina do mundo se entreabriu
para quem de a romper já se esquivava
e só de o ter pensado se carpia.

Abriu-se majestosa e circunspecta,
sem emitir um som que fosse impuro
nem um clarão maior que o tolerável

pelas pupilas gastas na inspeção
contínua e dolorosa do deserto,
e pela mente exausta de mentar

toda uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.

Abriu-se em calma pura, e convidando
quantos sentidos e intuições restavam
a quem de os ter usado os já perdera

e nem desejaria recobrá-los,
se em vão e para sempre repetimos
os mesmos sem roteiro tristes périplos,

convidando-os a todos, em coorte,
a se aplicarem sobre o pasto inédito
da natureza mítica das coisas,

assim me disse, embora voz alguma
ou sopro ou eco ou simples percussão
atestasse que alguém, sobre a montanha,

a outro alguém, noturno e miserável,
em colóquio se estava dirigindo:
“O que procuraste em ti ou fora de

teu ser restrito e nunca se mostrou,
mesmo afetando dar-se ou se rendendo,
e a cada instante mais se retraindo,

olha, repara, ausculta: essa riqueza
sobrante a toda pérola, essa ciência
sublime e formidável, mas hermética,

essa total explicação da vida,
esse nexo primeiro e singular,
que nem concebes mais, pois tão esquivo

se revelou ante a pesquisa ardente
em que te consumiste… vê, contempla,
abre teu peito para agasalhá-lo.”

As mais soberbas pontes e edifícios,
o que nas oficinas se elabora,
o que pensado foi e logo atinge

distância superior ao pensamento,
os recursos da terra dominados,
e as paixões e os impulsos e os tormentos

e tudo que define o ser terrestre
ou se prolonga até nos animais
e chega às plantas para se embeber

no sono rancoroso dos minérios,
dá volta ao mundo e torna a se engolfar,
na estranha ordem geométrica de tudo,

e o absurdo original e seus enigmas,
suas verdades altas mais que todos
monumentos erguidos à verdade:

e a memória dos deuses, e o solene
sentimento de morte, que floresce
no caule da existência mais gloriosa,

tudo se apresentou nesse relance
e me chamou para seu reino augusto,
afinal submetido à vista humana.

Mas, como eu relutasse em responder
a tal apelo assim maravilhoso,
pois a fé se abrandara, e mesmo o anseio,

a esperança mais mínima — esse anelo
de ver desvanecida a treva espessa
que entre os raios do sol inda se filtra;

como defuntas crenças convocadas
presto e fremente não se produzissem
a de novo tingir a neutra face

que vou pelos caminhos demonstrando,
e como se outro ser, não mais aquele
habitante de mim há tantos anos,

passasse a comandar minha vontade
que, já de si volúvel, se cerrava
semelhante a essas flores reticentes

em si mesmas abertas e fechadas;
como se um dom tardio já não fora
apetecível, antes despiciendo,

baixei os olhos, incurioso, lasso,
desdenhando colher a coisa oferta
que se abria gratuita a meu engenho.

A treva mais estrita já pousara
sobre a estrada de Minas, pedregosa,
e a máquina do mundo, repelida,

se foi miudamente recompondo,
enquanto eu, avaliando o que perdera,
seguia vagaroso, de mãos pensas.

Este poema foi escolhido como o melhor poema brasileiro de todos os tempos por um grupo significativo de escritores e críticos, a pedido do caderno “MAIS” (edição de 02-01-2000), publicado aos domingos pelo jornal “Folha de São Paulo”. Publicado originalmente no livro “Claro Enigma”, o texto acima foi extraído do livro “Nova Reunião”, José Olympio Editora – Rio de Janeiro, 1985, pág. 300.

“Os Sensos Incomuns”, de Maria Isabel Barreno

24.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Publicado originalmente em 1993, este livro de contos foi galardoado no ano da sua publicação com o Grande Prémio do Conto Camilo Castelo Branco e Grande Prémio do Conto da Associação Portuguesa de Escritores, e, em 1994, com o Prémio P.E.N. Clube, na categoria de ficção.

Começou a ler o livro num sábado de manhã. Um amigo seu tinha-lho recomendado. Belíssimo, dissera, há uma personagem feminina comovente, linda, tão misteriosa que é uma presença quase ténue, no livro, um fio de existência feito só de indícios, e de súbito reparamos que a personagem se instalou em nós, no coração, no ar que respiramos. Como se tivesse saltado das páginas do livro, literalmente, repetia o amigo, como se tivesse saído do livro e o seu destino viesse fundir-se ao nosso quotidiano.
Ele confiava na opinião daquele amigo. Gostava de passar os fins-de-semana de Inverno em casa, estirado no sofá da sala, lendo. Por isso sexta-feira à tarde foi comprar o livro antevendo com volúpia todo o desenrolar do processo: sair da livraria sentindo o livro nas mãos (era absolutamente impossível pedir emprestado um livro quando se tratava de saboreá-lo), desfazer o embrulho em casa, devagar, cheirar o livro (adorava o cheiro dos livros novos), mirar a capa dum lado e do outro, ler as badanas, deixar o livro pousado em cima da mesa da sala enquanto ia à cozinha preparar e comer o seu jantar (ele vivia sozinho); voltar à sala, olhar o livro de longe, aguçando o desejo; quase ceder à tentação de começar imediatamente a ler; resistir, aguçar ainda mais o desejo, decidir não, hoje à noite vou sair, amanhã sim. E o sábado chegou com uma cor amarela, cor da alegria, apesar de estar um dia chuvoso.
Começou a ler o livro sábado de manhã. Leu as primeiras vinte páginas com avidez. Sim aí estava ela, a tal comovente e ténue personagem feminina, fio secreto de todo o enredo. Era uma obra de arte, finamente cinzelada nas entrelinhas, entrevista, prometida. Prometido o encontro, leu mais vinte páginas, a inevitável desvelação não se anunciava mais próxima. A mulher entrara na sua pele como a mais insidiosa das amantes, mas permanecia feita só de obcecantes indícios, ameaçadoramente esfíngica. As páginas seguintes foram-se tornando progressivamente torturantes, cansativas, frustrantes. Corpo feito de entrelinhas, a mulher nada oferecia, revelava-se, recusava-se. Um jogo, infindo de coqueteria, um baixar de olhos, de pálpebras.

Armindo Rodrigues – “Liberdade”

18.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ser livre é querer ir e ter um rumo
e ir sem medo,
mesmo que sejam vãos os passos.
É pensar e logo
transformar o fumo
do pensamento em braços.
É não ter pão nem vinho,
só ver portas fechadas e pessoas hostis
e arrancar teimosamente do caminho
sonhos de sol
com fúrias de raiz.
É estar atado, amordaçado, em sangue, exausto
e, mesmo assim,
só de pensar gritar
gritar
e só de pensar ir
ir e chegar ao fim.

João de Deus – “Beijo”

13.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Beijo na face
Pede-se e dá-se:
Dá?
Que custa um beijo?
Não tenha pejo:
Vá!

Um beijo é culpa,
Que se desculpa:
Dá?
A borboleta
Beija a violeta:
Vá!

Um beijo é graça,
Que a mais não passa:
Dá?
Teme que a tente?
É inocente…
Vá!

Guardo segredo,
Não tenha medo…
Vê?
Dê-me um beijinho,
Dê de mansinho,
Dê!

Como ele é doce!
Como ele trouxe,
Flor,
Paz a meu seio!
Saciar-me veio,
Amor!

Saciar-me? louco…
Um é tão pouco,
Flor!
Deixa, concede
Que eu mate a sede,
Amor!

Talvez te leve
O vento em breve,
Flor!
A vida foge,
A vida é hoje,
Amor!

Guardo segredo,
Não tenhas medo
Pois!
Um mais na face,
E a mais não passe!
Dois…

Oh! dois? piedade!
Coisas tão boas…
Vês?
Quantas pessoas
Tem a Trindade?
Três!

Três é a conta
Certinha e justa…
Vês?
E que te custa?
Não sejas tonta!
Três!

Três, sim: não cuides
Que te desgraças:
Vês?
Três são as Graças,
Três as Virtudes;
Três.

As folhas santas
Que o lírio fecham,
Vês?
E não o deixam
Manchar, são… quantas?
Três!

“O Vermelho e o Negro”, de Stendhal

12.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

A ação transcorre na França no tempo da Restauração antes da Revolução de 1830, supostamente entre 1826 e 1830, e trata das tentativas de um jovem de subir na vida, apesar do seu nascimento plebeu, através de uma combinação de talento, trabalho duro, engano e hipocrisia, apenas para encontrar-se traído por suas próprias paixões. Em ensaio de 1954, Somerset Maugham incluiu-o entre os dez maiores romances de todos os tempos.

Verrières pode ser considerada uma das mais lindas cidades do Franco Condado. As suas casas brancas, com os pontiagudos telhados vermelhos, estendem-se pelo declive de uma colina em que as sinuosidades são marcadas por maciços de vigorosos castanheiros. O Doubs corre a algumas dezenas de metros abaixo das suas fortificações, construídas outrora pelos Espanhóis e hoje em ruínas.
A pequena cidade está abrigada do norte por uma montanha alta, um dos contrafortes do Jura. Os cumes recortados do Verra cobrem-se de neve com os primeiros frios de Outubro. Uma torrente, que se precipita da montanha, atravessa Verrières, antes de se lançar no Doubs, e põe em movimento um grande número de serrações de madeira. É uma indústria simples e que proporciona um certo bem-estar à maior parte dos habitantes, mais campónios que citadinos. Contudo, não foi esta indústria que enriqueceu aquela cidadezita. À fábrica de chitas, chamadas de Mulhouse, se deve a abastança geral que, desde a queda de Napoleão, tornou possível a reconstrução das fachadas de quase todas as casas de Verrières.
Mal se entra na cidade fica-se aturdido pelo estrépito de uma máquina barulhenta e de aparência terrível. Vinte pesados martelos, tombando com um estrondo que faz tremer o pavimento, são erguidos por uma roda movida pela água da torrente. Cada um fabrica por dia não sei quantos milhares de pregos. São lindas e frescas raparigas quem coloca debaixo destes enormes martelos os bocaditos de ferro que são rapidamente transformados em pregos. Este trabalho, de aparência tão rude, é um dos que causam mais admiração ao viajante que vai pela primeira vez às montanhas que separam a França da Helvécia. 
Se, ao entrar em Verrières, perguntar a quem pertence a bela fábrica de pregos que ensurdece as pessoas que sobem a Grande Rua, responder-lhe-ão com uma entoação arrastada: «Ah! É do senhor presidente da Câmara.»

Beatriz Barroso – “A voz que me inventou”

12.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se tu pudesses chegar aqui,
E resgatar do meu peito,
As palavras tristes,
Que ele silencia,
Far-te-ia de seguida um poema,

Belo,
Perfeito,
Feliz,
Porque me aliviaste a alma,
Do peso que nela eu trazia.

Ai, se tu pudesses chegar aqui, E
emprestar-me a tua voz, Eu
ousaria novas palavras,
Neologismo audaz eu tentaria,
Para recriar o sentimento, Que há
tanto tempo, eu tento, E que no
modo, eu já esqueci.

Ai, se tu chegasses agora,
Não morria a minha poesia.
Empresta-me a voz que a inventou,
Para que descubra a melhor prosa de que sou
capaz…

(Este poema foi dedicado)

Paulo José Miranda – “O esconderijo”

11.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando não tenho onde esconder as dores
espreito pela janela, aguardo um carro passar. As
mulheres que vêm das compras

e discutem sobre o elevado preço das coisas.
O gesto mínimo traz em si todas as palavras
que não chegam para suspender este sufoco.
Coabitamos cada vez pior, eu e a memória.

Os prédios em construção, as barracas,
as escavadoras tirando terra daqui, colocando-a ali,
o ladrar dos cães àquilo que lhes é estranho. Em nada
encontro um antídoto para o sentido. Quando não
tenho onde esconder as dores espreito pela janela,
aguardo qualquer coisa passar.

(de A Voz Que Nos Trai)

Maria do Rosário Pedreira – “O verão…”

10.02.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

O verão deixa-me os olhos mais lentos sobre os livros. As 

tardes vão-se repetindo no terraço, onde as palavras são

pequenos lugares de memória. Estou divorciada dos

outros pelo tempo destas entrelinhas – longe de casa, 

tenho sonhos que não conto a ninguém, viro devagar
a primeira página: em fevereiro, eles ainda faziam amor à 

sexta-feira. De manhã, ela torrava pão e espremia laranjas 

numa cozinha fria. Havia mais toalhas para lavar ao domingo, 

cabelos curtos colados teimosamente ao espelho. Às vezes, 

chovia e ambos liam o jornal, dentro do carro, antes de se 

despedirem. Às vezes, repartiam sofregamente a infância,

postais antigos, o silêncio – nada
aconteceu entretanto. Regresso, pois, à primeira linha,
à 
verdade que remexe entre as minhas mãos. Talvez os olhos 

estivessem apenas desatentos sobre o livro; talvez as historias

se repitam mesmo, como as tardes passadas no terraço, longe 

de casa. Aqui tenho sonhos que não conto a ninguém.