Nota biográfica

Florbela Espanca (Vila Viçosa, 8 de Dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de Dezembro de 1930), batizada como Flor Bela de Alma da Conceição Espanca, é uma conhecida e popular poetisa portuguesa. A sua vida, de apenas trinta e seis anos, foi tumultuosa, inquieta e cheia de sofrimentos íntimos que a autora soube transformar em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotismo, feminilidade e panteísmo.

Florbela Espanca – “Soneto VII”

01.11.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, entre doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

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António Gedeão – “Aurora Boreal”

15.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

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Mário de Sá-Carneiro – “Crise Lamentável”

13.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe…
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente.
Não ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força num dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai:
– Não mandar telegramas ao meu Pai,
– Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
– Pôr termo a isto de viver na lua,
– Perder a “frousse” das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada…

Paris-janeiro 1916


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Manuel da Fonseca – “Solidão”

12.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados 
os loucos:

meu abraço é cada vez mais largo 

envolve-os a todos!
Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

(Manuel da Fonseca, in “Poemas Dispersos”)

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Paulo Leminski – “Amar você é coisa de minutos…”

28.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amar você é coisa de minutos

A morte é menos que teu beijo

Tão bom ser teu que sou

Eu a teus pés derramado

Pouco resta do que fui

De ti depende ser bom ou ruim

Serei o que achares conveniente

Serei para ti mais que um cão

Uma sombra que te aquece

Um deus que não esquece

Um servo que não diz não

Morto teu pai serei teu irmão

Direi os versos que quiseres

Esquecerei todas as mulheres

Serei tanto e tudo e todos

Vais ter nojo de eu ser isso

E estarei a teu serviço

Enquanto durar meu corpo

Enquanto me correr nas veias

O rio vermelho que se inflama

Ao ver teu rosto feito tocha

Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha

Sim, eu estarei aqui

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David Mourão-Ferreira – “Fado de Peniche”

27.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.

“Levaram-te, era já noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite de
todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite, e
nunca mais se fez dia.

“Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio que
ficou em teu lugar.
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!”

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Angelo Lima – “Pára-me de repente…”

25.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pára-me de repente o Pensamento…
– Como se de repente sofreado
Na Doida Correria… em que, levado…
– Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento.

– Pára Surpreso… Escrutador…
Atento Como pára… um Cavalo
Alucinado
Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…
– Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

Vem trazido na Doida Correria Pára
à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noite, Escura e Fria Um
Olhar d’Aço, que na Noite explora…

– Mas a Espora da dor seu flanco estria…

– E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!

(A imagem é uma fotografia do poeta)

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Eugénio de Castro – “Clepsidra”

22.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…

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Manuel Bandeira – “Pensão Familiar”

21.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
 amarelo!
 resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçon de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

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Miguel Torga – “Ode à Beleza”

20.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói. 

És a essência dos anos, 

O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

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Jorge de Sena “A Canalha”

19.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo sem sequer prazer!

Como se querem reles e mesquinhos,

piolhosos, fétidos e promíscuos

na sarna vergonhosa e pustulenta!

Como se rabialçam de importantes,

fingindo-se de vítimas, vestais,

piedosas prostitutas delicadas!

Como se querem torpes e venais

palhaços pagos da miséria rasca

de seus cafés, popós e brilhantinas!

Há que esmagar a DDT, penicilina

e pau pelos costados tal canalha

de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,

tratá-los como lixo de oito séculos

de um povo que merece melhor gente

para salvá-lo de si mesmo e de outrem.

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Joaquim Pessoa – “Bom dia, meu amor”

17.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.

E sobre a tua pele que a minha adora,

navega o meu desejo, esse navio

que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.
E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.
Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

(Joaquim Pessoa, in “Os dias não andam satisfeitos”,Edições Esgotadas, Março 2017.)

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Fernando Reis Luís – “Ponto de Encontro”

10.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não é fácil
Continuar a esperar
Que os amigos voltem
Duma viagem sem fim

É assim que percebemos
Que o infinito
É o supremo destino
Do corpo voando nas nuvens

As pegadas que ficam marcadas no chão
Servirão o aço da memória
Continuando outra espera
Num lugar de sementes
Libertadas nas montanhas de origem
Como próximo ponto de encontro

(Do livro “A Alquimia das Metáforas” – Pinturas de Nunes Silva – Ed. arandis)

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Fernando Reis Luís – “A Voz Fraterna”

07.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

A vida é um rio
Mas não é um rio qualquer
É um curso de água continuada
Que nasce límpida na montanha
Entre medronhais e rododendros
E sobe nas escadas da memória
Sim
Porque descer seria fácil
Sobe gravada no sienito
Sem pedir asas às aves
Ou energia aos trovões
Depois apagam-se
As luzernas do luar
E o vapor da alma condensa-se
Tombando cansado na terra
Como neve granizo vento ou chuva
E volta a ser rio palpitante
Penetrando o chão com a voz fraterna
Para renascer nas fendas
Como flores silvestres
Nas madres montanhas da serra

(Do livro “Alquimia das Metáforas”. Ilustrações de Igor Nunes Silva. Ed. aramis)

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Manuel Alegre – “Abaixo el-rei Sebastião”

12.06.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.


É preciso quebrar na ideia e na canção


a guitarra fantástica e doente


que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na nossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.


Manuel Alegre – in «O Canto e as Armas», 1967

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Nuno Júdice – “Presente”

29.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.

Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.

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al berto – “Incêndio”

18.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

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Manuel António Pina – “Amor como em casa”

17.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

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Vasco Graça Moura- “Praias”

15.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias,
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
de antónio nobre a lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão,
que seria de nós, bucólicos, sem esses
indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios, antes
a rudeza atlântica do guincho, antes
a nortada, os surfistas
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

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Luiza Neto Jorge – “O poema ensina a cair”

11.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

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Luísa Ducla Soares – “Poesia”

28.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para mim poesia é
realismo e fantasia num
esquema hipertenso e eu
só me pertenço quando a
imaginação tem o
tamanho da minha mão.
Então
é prosa vivida em
circuito de acção.

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Fiama Hasse Pais Brandão – “Imagem Minha”

27.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ficas a ler comprazida diante das rosas
silhueta que vislumbrei, compus e reanimei.
Tinhas o perfil marcado cruamente pela luz,
as mãos claras no colo, os cabelos despojados
do brilho das cabeleiras soltas, mas juvenis
e sacudidos no início da tarde com alegria.
As páginas balonçavam do mesmo modo que as rosas
porque ao começar da tarde nos dias de Verão
brisas e vapores estendem-se desde o mar
até às margens floridas. No teu banco
adornado por festões de rosas trepadeiras
afastas os olhos do livro não absorta
mas para sempre atraída por inúmeras imagens.

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Pedro Tamen – “Não sei, amor, sequer, se te consinto”

26.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei, amor, sequer, se te consinto ou
se te inventas, brilhas, adormeces nas
palavras sem carne em que te minto a
verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão nos
lavam, veras, ou se trocam tintas dos
olhos ao cabelo ou coração de tudo e de
ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça; mas
só não sei, amor, se tu não sabes que sei
de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

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David Mourão-Ferreira – “Grito”

10.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a ‘spádua.
São os teus olhos.
Depois, o grito.
Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
do outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.
E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa!

(Do livro “Música de Cama”, na Editorial Presença)

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António Aleixo – “Não creio nesse Deus”

10.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

I

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d’outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p’ra ti o céu e a terra…
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P’ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?…
P’ra esses é o céu; porque o inferno
É p’ra quem vive a vida à custa alheia!

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Maria Teresa Horta – “Espanto”

09.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Saber que te perdi
é mais que
isto

é mais que este
sabor
contraditório

é mais que todo o espaço

é mais que agora

é mais do que o
teu corpo
já retido

e lento é este espanto
e tão parecido
com aquele prazer breve
antigo
que o rasto dos teus dentes
não desprende

ainda mais que dor
ou suicídio

saber que te perdi
é mais que isto

ainda mais que ferida
mais que morte

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Fernando Pessoa – “O amor, quando se revela”

08.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p’ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente…
Cala: parece esquecer…
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P’ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar…

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Florbela Espanca – “Folhas de Rosa”

07.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr-do-sol.
Eu vou falar com elas em segredo…

E falo-lhes d’amores e de ilusões,
Choro e rio com elas, mansamente…
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente…

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga,
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m’embriaga

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que reflectia outrora tantos risos,
E agora reflecte apenas pranto.

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Ruy Belo – “O Portugal Futuro”

30.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro

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Rui Knopfi – “Testamento”

29.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se por acaso morrer durante o sono
não quero que te preocupes inutilmente.
Será apenas uma noite sucedendo-se
a outra noite interminavelmente.

Se a doença me tolher na cama
e a morte aí me for buscar,
beija Amor, com a força de quem ama,
estes olhos cansados, no último instante.

Se, pela triste monotonia do entardecer,
me encontrarem estendido e morto,
quero que me venhas ver
e tocar o frio e sangue do corpo.

Se, pelo contrário, morrer na guerra
e ficar perdido no gelo de qualquer Coreia,
quero que saibas, Amor, quero que saibas,
pelo cérebro rebentado, pela seca veia,
pela pólvora e pelas balas entranhadas
na dura carne gelada,
que morri sim, que me não repito,
mas que ecoo inteiro na força do meu grito.

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