Nota biográfica

Manuel Alegre de Melo Duarte (Águeda, Águeda, 12 de Maio de 1936) é um escritor e político português.

Manuel Alegre – “Resgate”

17.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Há qualquer coisa aqui de que não gostam
da terra das pessoas ou talvez
deles próprios
cortam isto e aquilo e sobretudo
cortam em nós
culpados sem sabermos de quê
transformados em números estatísticas
défices de vida e de sonho
dívida pública dívida
de alma
há qualquer coisa em nós de que não gostam
talvez o riso esse
desperdício.
Trazem palavras de outra língua
e quando falam a boca não tem lábios
trazem sermões e regras e dias sem futuro
nós pecadores do Sul nos confessamos
amamos a terra o vinho o sol o mar
amamos o amor e não pedimos desculpa.
Por isso podem cortar
punir
tirar a música às vogais
recrutar quem os sirva
não podem cortar o Verão
nem o azul que mora
aqui
não podem cortar quem somos.

(Manuel Alegre, ‘Resgate’, in “Bairro Ocidental”. Dom Quixote. 2015)

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Almeida Garrett – “Barca bela”

14.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
O pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
O pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela…
Mas cautela,
Ó pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo,
foge dela,
Foge dela
Ó pescador!

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Jorge de Sena – “Quem muito viu…”

12.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;
e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.
Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

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Vinícius de Moraes – “Soneto de separação”

10.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.

De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.

De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.

Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

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Petrarca – “Nem tenho paz nem como fazer guerra”

06.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Nem tenho paz nem como fazer guerra,
espero e temo e a arder gelo me faço,
voo acima do céu e jazo em terra,
e nada agarro e todo o mundo abraço.

Tem-me em prisão quem ma não abre ou cerra,
nem por seu me retém nem solta o laço,
e não me mata Amor, nem me desferra,
nem me quer vivo ou fora de embaraço.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,
anseio por morrer, peço socorro,
amo outrem e a mim tenho um ódio atroz,

nutro-me em dor, rio a chorar aflito,
despraz-me por igual se vivo ou morro.
Neste estado, Senhora, estou por vós.

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Luiza Neto Jorge – “A Magnólia”

05.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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A exaltação do mínimo, e o
magnífico relâmpago do
acontecimento mestre
restituem-me a forma o
meu resplendor.

Um diminuto berço me recolhe
onde a palavra se elide na
matéria – na metáfora –
necessária, e leve, a cada um
onde se ecoa e resvala.

A magnólia,
o som que se desenvolve nela
quando pronunciada,
é um exaltado aroma
perdido na tempestade,

um mínimo ente magnífico
desfolhando relâmpagos sobre
mim.

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Alexandre O’Neill – “Pois”

04.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê a elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.

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Octavio Paz – “A Margem”

29.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Tudo o que brilha na noite,
colares, olhos, astros,
serpentinas de fogos de cores,
brilha em teus braços de rio que se curva,
em teu pescoço de dia que desperta.

A fogueira que acendem na floresta,
o farol de pescoço de girafa,
O olho, girassol da insónia,
cansaram-se de esperar e perscrutar.

Apaga-te,
para brilhar não há como os olhos que nos vêem:
contempla-te em mim que te contemplo.
Dorme,
veludo de bosque,
musgo onde reclino a cabeça.

A noite com ondas azuis vai apagando estas palavras,
escritas com mão volúvel na palma do sonho.

(Tradução de Luís Pignatelli)

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Pablo Neruda – “A noite na ilha”

29.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Dormi contigo toda a noite
junto ao mar, na ilha.
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se
talvez muito tarde
no alto ou no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento agita,
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

O teu sono separou-se
talvez do meu
e andava à minha procura
pelo mar escuro
como dantes,
quando ainda não existias,
quando sem te avistar
naveguei a teu lado
e os teus olhos buscavam
o que agora
– pão, vinho, amor e cólera –
te dou às mãos cheias,
porque tu és a taça
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo
toda a noite enquanto
a terra escura gira
com os vivos e os mortos,
e ao acordar de repente
no meio da sombra
o meu braço cingia a tua cintura.
Nem a noite nem o sono
puderam separar-nos.

Dormi contigo
e, ao acordar, tua boca,
saída do teu sono,
trouxe-me o sabor da terra,
da água do mar, das algas,
do âmago da tua vida,
e recebi teu beijo,
molhado pela aurora,
como se me viesse
do mar que nos cerca.

(Tradução de Albano Martins)

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Paul Éluard – “O Beijo”

28.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Ainda toda quente da roupa tirada
Fechas os olhos e moves-te
Como se move um canto que nasce
Vagamente mas em toda a parte

Perfumada e saborosa
Ultrapassas sem te perder
As fronteiras do teu corpo

Passaste por cima do tempo
Eis-te uma nova mulher
Revelada até ao infinito.

(Tradução de Egito Gonçalves)

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António Ramos Rosa – “A Festa do Silêncio”

27.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.

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Manuel Barata – “O Tempo”

24.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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O tempo – essa coisa misteriosa que se conta em milénios, séculos, anos, meses, dias, horas e segundos -alguém saberá ao certo o que é? E no entanto, nada escraviza mais o Homem do que o tempo, que as gramáticas organizam em passado, presente e futuro, mas que, no fundo, é apenas passado e futuro.
O tempo – essa coisa estranha que dá alento aos tiranos e torna precárias as acções dos heróis, que destrói as verdades eternas dos teólogos e os sistemas infalíveis dos filósofos, que tudo e todos condena ao esquecimento – alguém saberá ao certo o que é?
No seu perpétuo fluir, o tempo é o tempo, como diria o delicioso Caeiro.
Para mim, que não sou poeta nem literato, mas simplesmente um amigo de poetas e literatos, o tempo é o sol a levantar-se preguiçosamente do Tejo – é assim que eu o vejo das janelas da casa onde habito- que depois sobe e roda e desce, devagarinho, para desaparecer por detrás das casas, para de novo se levantar das mansas águas do Tejo e subir e rodar e descer e desaparecer e de novo se levantar das mansas águas do Tejo.

(Do livro “Ao Sabor Dos Dias”, Ed. Alecrim)

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António Botto – “É difícil na vida achar alguém”

23.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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É difícil na vida achar alguém
Que seja na verdade um grande amigo;
E se assim penso – e com tristeza o digo,
É porque o sei, talvez, como ninguém.

Se a amizade é um bem – e se esse bem
Traz o conforto de um divino abrigo,
Por mim, direi que nunca mais consigo
Iludir-me nas graças que ele tem.

Afectos, sacrifícios, lealdade!,
Tudo se apaga ou fica na memória
Se a ilusão dá lugar à realidade.

E ai daqueles que pensam na excepção;
Acabam por ficar dentro da história
De que a vida é um sonho e uma traição.

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Alda Lara – “Revolta”

23.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Quero, e não quero!… Creio…
e Desespero!… Renego, mas
Aspiro, E em cada vira-volta,
Mais grito e mais me firo!…
Aonde esperei, não espero!…
Aonde Desejei, já não desejo,
E se algum dia Vi, Hoje não
Vejo!…

Deus,… ó Deus!…
Para que lado ficam os teus céus?!.

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Augusto Gil – “A fala de um cravo vermelho”

22.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Da braçada de cravos que trouxeste
Quando vieste,
Minha linda,
Há um – o mais vermelho e mais ardente –
Que espera ainda ansiosamente
Atua vinda…

Só ele resta agora, entre os irmãos
Já desfolhados…
Só ele espera que piedosas mãos
– As tuas lindas mãos e os teus cuidados –
Lhe dêem, numa pouca d’água clara
E enganadora,
Uma ilusão da vida que animara
O seu vigor d’outrora…

Mas que outro está, da hora em que o cortaste
Ainda em botão!
Murcham-lhe as pétalas e tem curva a haste,
Num grande ponto de interrogação…

Voltado para a porta em que surgiste,
Na noite perturbante em que o trazias,
Parece perguntar porque partiste …
E porque não voltaste, há tantos dias!?…

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Nuno Júdice – “Rosa com Espinhos”

21.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Abro a rosa com as pétalas viradas para dentro
de mim, sugando-me o ser com os seus lábios
de veludo. E quando estou dentro da rosa, ouvindo
a música que corre ao longo do caule, num êxtase
de seiva, troco em versos o que a rosa me diz,
sentindo que a rosa se fecha, em botão, para
que o meu ser não saia de dentro dela. Então,
sei que habito o próprio centro do efémero,
enquanto as pétalas vão caindo, uma a uma,
à medida que a rosa se abre, e o sol que entra
para dentro da rosa, empurrando o meu ser
para fora do seu centro, corre nas suas veias,
como seiva de fogo, até fazer com que outros
botões nasçam, para que me suguem o ser, até
entre mim e a rosa não haver senão a frágil
fronteira de um espinho, em que me pico,
sentindo que a gota de sangue do meu dedo
podia ser a seiva em que a rosa nasce do ser
que a deseja, no instante efémero do amor.

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Vasco Graça Moura – “salmo 136″

20.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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não são muitos, são muito poucos, os poetas
que inventam a poesia portuguesa
como radical abalo do mundo, ou metáfora
a estremecer que o refigura, ou como

crispação do destino e subversão,
no risco visceral da sua própria vida.
Assim, e porque toda a liberdade reenvia
ao necessário exílio, eles atrevem-se

a atravessar sem rede o vão por sobre o abismo:
prendem-se a quanto é neles explosão, remorso,
erros, desequilíbrios, amores, visões, enganos,
nuvens de forma humana, pela palavra queimam

contradições passadas e presentes, peregrinam
em sarça que arde, enovelada, a fogo escuro,
iluminando a fronteira dúplice: os reflexos intermitentes
entre os vultos amalgamados de uma greda pobre

e uma sua imagem a lo divino feita;
não são muitos os que enfrentam o real, retesando a
percepção no meio dos salgueiros, em desapego
crepuscular dos instrumentos bíblicos:

flautas e cítaras sobre a terra tão áspera,
que tocam e rejeitam e tocam,
entre a decepção e o declive, no fio bambo
sobre os rios que vão por babilónia.

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Armando Silva Carvalho – “Os óculos do sr. Pessoa”

17.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

oculos13

Ouvi hoje dizer que o poeta sr. Fernando
Pessoa operou uma ruptura
com a lírica tradicional.
Diziam também que pensou em inglês nirvânico
e fez do vocabulário lusitano
a sua pátria.
Tudo isso me parece perfídia
de quem não soube olhar na rua a sua voz.
O poeta sempre soube ser o máximo canibal
entre todos os homens.
Por vezes, o sr. Pessoa, sentava-se nas poltronas
da impotência e deixava arder o vidro
dos seus óculos.
À luz que se acendia sucumbia.
E todas as palavras tremiam a um canto do mundo
cansadas do seu baile de máscaras.
O fulgor da catástrofe
não ofuscava ainda a miopia sábia
dessa estranha – pessoa.
Digam e propaguem isto em memória sua.
Que eu nunca fiz de coisa alguma
a minha pátria.

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Pedro Tamen – “A minha morte, não ta dou”

16.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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A minha morte, não ta dou.
De resto, tiveste tudo
– a flor, a sesta, o lusco-fusco,
a inquietação do dia 8,
as órbitas das mães, das mãos,
das curiosas palavras de não dizer nadinha.
Tudo tiveste: estás contente?
Feliz assim por teres tudo o que sou?
Feliz por perderes tudo o que sei?
Só não te dou o que não serei.
Não, a minha morte, não ta dou.

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António Ramos Rosa – “Uma voz na pedra”

15.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Não sei se respondo ou se pergunto. Sou uma voz que
nasceu na penumbra do vazio. Estou um pouco ébria e
estou crescendo numa pedra. Não tenho a sabedoria do
mel ou a do vinho. De súbito ergo-me como uma torre de
sombra fulgurante. A minha ebriedade é a da sede e a da
chama. Com esta pequena centelha quero incendiar o
silêncio. O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.

Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim. Não
estou perdida, estou entre o vento e o olvido. Quero
conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível. Sou
alguém que espera ser aberto por uma palavra.

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Mário de Sá-Carneiro – “FIM”

13.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes –
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza…
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro…

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Carlos Queirós – “Amizade”

13.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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De mais ninguém, senão de ti, preciso:
Do teu sereno olhar, do teu sorriso,
Da tua mão pousada no meu ombro.
Ouvir-te murmurar:-“Espera confia!”
E sentir converter-se em harmonia,
O que era, dantes, confusão e assombro.

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Cecília Meireles – “Suavíssima”

10.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Os galos cantam, no crepúsculo dormente…
No céu de outono, anda um langor final de pluma
Que se desfaz por entre os dedos, vagamente…

Os galos cantam, no crepúsculo dormente…
Tudo se apaga, e se evapora, e perde, e esfuma…

Fica-se longe, quase morta, como ausente…
Sem ter certeza de ninguém… de coisa alguma…
Tem-se a impressão de estar bem doente, muito doente,

De um mal sem dor, que se não saiba nem resuma…
E os galos cantam, no crepúsculo dormente…

Os galos cantam, no crepúsculo dormente…
A alma das flores, suave e tácita, perfuma
A solitude nebulosa e irreal do ambiente…

Os galos cantam, no crepúsculo dormente…
Tão para lá!… No fim da tarde… além da bruma…

E silenciosos, como alguém que se acostuma
A caminhar sobre penumbras, mansamente,
Meus sonhos surgem, frágeis, leves como espuma…

Põem-se a tecer frases de amor, uma por uma…
E os galos cantam, no crepúsculo dormente…

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Teixeira de Pascoaes – “Canção de uma sombra”

09.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Ah, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela, onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das cousas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava,
E, como nós, cantava e que secou…
E este sol, que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse este luar, que chama
Os espectros à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
se não fosse o vento, que embalou
Meu coração e as nuvens, nos seus braços,
Eu não era o que sou.

Ah, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou,
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio,
Que ergue as asas e sobe, em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos,
Eu não era o que sou.

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António Gedeão – “Arma Secreta”

02.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Tenho uma arma secreta
ao serviço das nações.
Não tem carga nem espoleta
mas dispara em linha recta
mais longe que os foguetões.

Não é Júpiter, nem Thor,
nem Snark ou outros que tais.
É coisa muito melhor
que todo o vasto teor
dos Cabos Canaverais.

A potência destinada
às rotações da turbina
não vem da nafta queimada,
nem é de água oxigenada
nem de ergóis de furalina.

Erecta, na torre erguida,
em alerta permanente,
espera o sinal da partida.
Podia chamar-se VIDA.
Chama-se AMOR, simplesmente.

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Miguel Torga – “Voz”

01.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Era uma voz que doía,
Mas ensinava.
Descobria,
Mal o seu timbre se ouvia
No silêncio que escutava.

Paraísos, não havia.
Purgatórios, não mostrava.
Limbos, sim, é que dizia
Que os sentia,
Pesados de covardia,
Lá na terra onde morava.

E morava neste mundo
Aquela voz.
Morava mesmo no fundo
Dum poço dentro de nós.

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Sophia de Mello B. Andresen – “O Auriga”

31.03.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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A nudez dos pés que o escultor modelou com amor e minúcia
Mostra a pura nudez do teu estar na terra
A longa túnica em seu recto cair diz o austero
Aprumo de prumo da tua juventude
O pulso fino a concisa mão divina dizem
O pensamento rápido e subtil como Athena
E a vontade sensível e serena:
A ti mesmo te guias como a teus cavalos

Os beiços de seiva inchados como fruto
Dizem o teu amor da vida extasiado e grave
E sob as pestanas de bronze nos olhos de esmalte e de ónix
Fita-nos a tua paixão tranquila
O teu projecto
De em ti mesmo celebrares a ordem natural do divino
O número imanente

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António Gedeão – “Melodia proibida”

31.03.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Uma emoção pequenina
me vem do lado de lá.
Rompe através da cortina
que envolve o mundo de cá.

Chega ofegante e risonha
a escorrer gotas de orvalho.
Nuns farrapos de vergonha
tem todo o seu agasalho.

Dá-lhe o sol num de repente.
Fulge rápida, num grito.
Flor de silêncio estridente,
continente de infinito.

Gota de som, dedilhada
em fios de Sol, chispando
espirros de luz irisada
como guizos tilintando.

Chama do espírito vivo
a velar corpo de luto.
Essa é a onda que escuto
quando sorrio sem motivo.

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Eugénio de Andrade – “À memória de Ruy Belo”

30.03.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Provavelmente já te encontrarás à vontade
entre os anjos e, com esse sorriso onde a infância
tomava sempre o comboio para as férias grandes,
já terás feito amigos, sem saudades dos dias
onde passaste quase anónimo e leve
como o vento da praia e a rapariga de Cambridge,
que não deu por ti, ou se deu era de Vila do Conde.
A morte como a sede sempre te foi próxima,
sempre a vi a teu lado, em cada encontro nosso
ela aí estava, um pouco distraída, é certo,
mas estava, como estava o mar e a alegria
ou a chuva nos versos da tua juventude.

Só não esperava tão cedo vê-la assim, na quarta
página de um jornal trazido pelo vento,
nesse agosto de Caldelas, no calor do meio-dia,
jornal onde em primeira página também vinha
a promoção de um militar a general,
ou talvez dois, ou três, ou quatro, já não sei:
isto de militares custa a distingui-los,
feitos em forma como os galos de Barcelos,
igualmente bravos, igualmente inúteis,
passeando de cu melancólico pelas ruas
a saudade e a sífilis de um império,
e tão inimigos todos daquela festa
que em ti, em mim, e nas dunas principia.

Consola-me ao menos a ideia de te haverem
deixado em paz na morte; ninguém na assembleia
da república fingiu que te lera os versos,
ninguém, cheio de piedade por si próprio,
propôs funerais nacionais ou, a título póstumo,
te quis fazer visconde, cavaleiro, comendador,
qualquer coisa assim para estrumar os campos.
Eles não deram por ti, e a culpa é tua,
foste sempre discreto (até mesmo na morte),
não mandaste à merda o país, nem nenhum ministro,
não chateaste ninguém, nem sequer a tua lavadeira,
e foste a enterrar numa aldeia que não sei
onde fica, mas seja onde for será a tua.

Agrada-me que tudo assim fosse, e agora
que começaste a fazer corpo com a terra
a única evidência é crescer para o sol.

Eugénio de Andrade in, Poesia e Prosa (1987)
a págs. 43/44

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Ruy Belo – “A mão no arado”

27.03.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Feliz aquele que administra sabiamente a tristeza
e aprende a reparti-la pelos dias Podem passar os
meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
o equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro
É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que
montes conviver através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã

Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora

É muito triste andar por entre Deus ausente
Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

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