Nota biográfica

Pero Garcia Burgalês foi um poeta trovador nascido em Burgos, Espanha. Frequentou a corte de Afonso X, rei de Castela e Leão de onde Burgaus provinha, portanto, o escritor possuía origem castelhana. Provavelmente também conviveu com a corte de D. Afonso III, em Portugal, onde teria mantido relações com os trovadores Lourenço e Rui Queimado, considerado seu rival, chegando a escrever uma cantiga de escárnio para ele: "Roi Queimado morreu con amor", que vamos ouvir.

Pedro Garcia Burgalês – “Rui Queimado”

27.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

guilhade

Português moderno

Rui Queimado morreu de amor
nos seus cantares, por Santa Maria,
por uma dona a quem muito queria:
e, para se mostrar melhor trovador,
porque ela não lhe quis bem fazer,
fez-s’ele em seus cantares morrer,
mas ressuscitou ao terceiro dia!

Isto fez ele pela sua senhora
a que quer grande bem, e mais vos diria:
como cuida que é mestre em trovar,
e nos cantares que faz, tem prazer
em morrer e logo voltar a viver;
isto faz ele que o pode fazer,
mas outro homem por nada o faria.

E não tem já de sua morte pavor,
senão a sua morte mais temeria,
mas sabe bem, por sua sabedoria,
que viverá, depois que morto for,
e faz em seu cantar prender a morte,
voltando logo à vida: vedes que poder
Deus lhe deu, mais do que se podia crer.

E, se me Deus a mim desse o poder
que ele hoje tem, de viver após morrer,
jamais a morte eu temeria.

Português antigo

Roi Queimado morreu con amor
en seus cantares, par Sancta Maria,
por ūa dona que gran ben queria:
e, por se meter por mais trobador,
porque lhe ela non quis ben fazer,
feze-s’el en seus cantares morrer,
mais resurgiu depois ao tercer dia!

Esto fez el por ūa sa senhor
que quer gran ben, e mais vos en diria:
por que cuida que faz i maestria,
enos cantares que faz, á sabor
de morrer i e des i d’ar viver;
esto faz el que x’o pode fazer,
mais outr’omem per ren’ nono faria.

E non á já de sa morte pavor,
senon sa morte mais la temeria,
mais sabe ben, per sa sabedoria,
que viverá, des quando morto for,
e faz-[s’] en seu cantar morte prender,
des i ar vive: vedes que poder
que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.

E, se mi Deus a mim desse poder
qual oj’el á, pois morrer, de viver,
já mais morte nunca temeria.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Otília Martel – “Sonho-te”

26.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

loira_dorme

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me,
em teus braços,
mil beijos sussurrados

Sonho-te
e sonhando-me
amo-te
no rasgar da pele
buscando
carícias longas
entregando-me

Sonho-te
no abraço incontido
corpo entregue
vencido
em noites de vendaval

E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida, dá alento
mesmo não passando
de ilusão,
que se desfaz em nada,
tal qual nuvem
em tarde de Verão.

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me …
amando-te …

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Pero da Ponte – “Senhora do corpo esbelto”

25.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno:

Senhora do corpo
esbelto, em má hora fui nascido!
que nunca perdi cuidado
nem afã desde que vos vi.
Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Com est’ afã tão alongado
em má hora fui nascido!
que vos amo contra vontade
e vos causo mágoa.

Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Ai eu, cativ’ e coitado,
Em má hora fui nascido!
que servi sempr’ em vão
onde bem nunca consegui.

Em má hora fui nascido,
senhora, por vós e por mim!

Português antigo

Senhor do corpo delgado,
en forte pont’ eu fuy nado!
que nunca perdi cuydado
nem afan des que uos ui.
En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

Con est’ afan tan longado
en forte pont’ eu fuy nado!
que uos amo sen meu grado
e faço a uós pesar y.

En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

Ay eu, cativ’ e coytado,
en forte pont’ eu fuy nado!
que serui sempr’ endõado
ond’ un ben nunca prendi.

En forte pont’ eu fuy nado,
senhor, por uós e por mi!

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Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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António Botto – “Se duvidas…”

24.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

homem

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

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Paio Soares Taveirós – “Ribeirinha”

23.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

No mundo não conheço
ninguém igual a mim,
enquanto acontecer o
que me aconteceu,
pois eu morro por vós e ai!
Minha senhora alva e rosada,
quereis que vos lembre
que já vos vi na intimidade!
Em mau dia eu me levantei
Pois vi que não sois feia!

E, minha senhora
desde aquele dia, ai!
Venho sofrendo de um grande mal
enquanto vós, filha de dom Paio
Muniz, a julgar forçoso
que eu lhe cubra com o manto
pois eu, minha senhora
nunca recebi de vós
a coisa mais insignificante.

Português antigo

No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me uay,
ca iá moiro por uos – e ay!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que uos retraya
quando us eu ui en saya!
Mao dia me leuantei,
que uus enton non ui fez!

E, mia senhor, des aquel di’ay!
me foi a mi muyn mal,
e uos, filha de don Paay
Moniz, e ben uus semelha
d’auer eu por uos guaruaya,
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de uos ouue nen ei
valia d’ua correr…

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Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Casimiro de Brito – “Entro…”

18.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

foder

Entro paciente e afundo-me no reino
da mãe. O barro mais antigo
brilha no teu sexo que se abre escuro
ao meu desejo — à ternura, ao furor que busca
o caos. Só em ti, que não temes a noite nem a saudade,
me encontro. Abres a húmida concha
e salto para dentro do lume
da primeira casa. Deixo à entrada
a angústia de quem vai morrer.

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Nuno Fernandes Torneol – “Vi eu, minha mãe…”

17.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

cogomilho

Português moderno

Vi eu, minha mãe, andar
as barcas no mar,
e morro d’amor!

Fui eu, mãe, ver
as barcas nas ondas,
e morro d’amor!

As barcas no mar,
e fui-as aguardar,
e morro d’amor!

As barcas nas ondas,
e fui-as esperar,
e morro d’amor!

E fui-as aguardar,
e não o pude achar,
e morro d’amor!

E fui-as esperar,
e non o pude aí ver,
e morro d’amor!

E non o achei aí,
o que por meu mal vi,
e morro d’amor!

E non o achei lá
o que vi por meu mal,
e morro d’amor!

Português antigo

Vy eu, mha madr’, andar
as barcas eno mar,
e moyro-me d’amor!

Foy eu, madre, veer
as barcas eno ler,
e moyro-me d’amor!

As barcas eno mar,
e foi-las aguardar,
e moyro-me d’amor!

As barcas eno ler,
e foi-las atender,
e moyro-me d’amor!

E foi-las aguardar,
e non o pud’achar,
e moyro-me d’amor!

E foi-las atender,
e non o pudi ueer,
e moyro-me d’amor!

E non o achey hy,
o que por meu mal ui,
e moyro-me d’amor!

E non o achey lá
o que ui por meu mal,
e moyro-me d’amor!

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Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Florbela Espanca – “Tardinha…”

16.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

fim_do_dia

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos
O teu riso de fonte … os teus abraços
Os teus beijos … a tua mão na minha .

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca …
Quando os olhos se me cerram de desejo
E os meus braços se estendem para ti.

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Martin Suarez – “Foi um dia…”

13.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

poesia

Português moderno

Foi um dia o jogral Lopo
a casa de um infanção cantar,
e mandou-lh’ ele em pago dar
três coices na garganta;
e foram escassos, cuido eu,
pelo modo como canta.

Escasso foi o infanção
em repartir os seus coices,
pois não deu a Lopo então
mais de três na garganta,
e mais merece o jogralão,
pelo modo como canta.

Português antigo

Foy um dia Lopo jograr
a casa duū infançon cantar,
e mandou-lh’ ele por don dar
três couces na garganta,
e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
segundo como el canta

Escasso foi o infançon
en seus couces partir’ enton,
ca non deu a Lopo enton
mais de três na garganta,
e mais merece o jograron,
segundo como el canta.

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Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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David Mourão-Ferreira – “Curtas”

12.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

ventre

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel

de mais que tua pele ser a pele da minha pele?

Cintilação de luas

assim que te desnudas

às escuras

Diante do teu ventre

como não dizer “sempre”

novamente.

Ó lâmina e bainha

de outra espada ainda

Tua língua

Ruge. Reprende. Arrasa

Desde que sempre o faças

com as asas

Vem dos arcanos de outro tempo

ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente

que só na cama as almas ganham

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Martin de Grijó – “Se me aprazer…”

11.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno:

Se vos aprazer, mãe, hoje este dia
irei hoje eu fazer oração,
e chorar muito em Santa Cecília
destes meus olhos e de coração
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo.

Se vos aprouver, mãe, deste modo
irei lá minhas candeias queimar
e com o meu manto e a minha camisa
a Santa Cecília ante o seu altar,
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo.

Se me deixardes, minha mãe, lá ir,
dir-vos-ei agora o que vos farei:
prometo sempre já de vos servir
e desta ida mui alegre virei,
pois morro eu, mãe, por meu amigo,
e ele morre por falar comigo

Português antigo

Se uos prouguer, madr’, oj’ este dia
hirey oj’ eu fazer oraçon,
e chorar muit’en Saneta Ceçília
destes meus olhos e de coraçon
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

Se uos prouguer, madre, desta guisa
hirei alá mhas candeas queimar
eno meu mant’ e na mha camisa
a Saneta Ceçilia ant’ o seu altar,
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

Se me leixardes, mha madr’, ala’ hir,
direi-uos ora o que uos farey:
punharey sempre já de uos seruir
e desta hida mui leda uerrey,
ca moyr’eu, madre, por meu amigo,
e el morre por falar comigo.

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António Botto – “Beijemo-nos, apenas”

10.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

beijemo-nos

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro…

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dosa teus cabelos – És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?

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Martin Codax – “Minha irmã”

09.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Minha irmã formosa, vinde comigo
à igreja de Vigo, onde o mar é agitado
e miraremos as ondas.

Minha irmã formosa, vinde de bom grado
à igreja de Vigo, onde o mar é levantado
e miraremos as ondas.

À igreja de Vigo, onde o mar é agitado,
e virá aí, minha mãe, o meu amigo
e miraremos as ondas.

À igreja de Vigo, onde o mar é levantado
e virá aí, minha mãe, o meu amado
e miraremos as ondas.

Português antigo

Mia yrmana fremosa, treides comigo
a la igreja de Vig’, u é o mar salido
e miraremo-las ondas.

Mia yrmana fremosa, treides de grado
a la igreja de Vig’, u é o mar levado
e miraremo-las ondas.

A la ygreja de Vig’, u é o mar salido,
e verrá hy, mia madre , o meu amigo
e miraremo-las ondas.

A la ygreja de Vig’, u é o mar levado,
e verrá hy, mia madre, o meu amado
e miraremo-las ondas.

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Otília Martel – “Ondas”

06.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

ondas

Deixo-me embalar pela música.
Fecho os olhos e sinto
o teu rosto mergulhar nas ondas do meu
cabelo.
As tuas mãos como plumas
percorrendo meu corpo.
Encostas-me à janela
e pressionas o teu corpo no meu.
Sinto uma volúpia quente
subir e fundir-se em mim.
Uma a uma, as peças vão desaparecendo
e eu estou ali,
nua, faminta, com as ondas
do meu corpo a chamarem-te …
E tu vens, qual trovão em dias de
tempestade.
Para lá da janela, nada mais existe.
Somos nós, um só corpo
possuídos pelo mesmo desejo:
Amar …

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Jorge Aguiar – “Coração já repousavas”

05.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Coração já repousavas,
Já não tinhas sujeição,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te subjugavas
Outra vez, meu coração?
Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como outra vez te perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeição;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coração!

Português antigo

Coraçam já repousavas,
Já não tinhas sujeiçam,
Já vivias, já folgavas;
Pois porque te sojigavas
Outra vez, meu coraçam?
Sofre, pois te não sofreste
Na vida que já vivias;
Sofre, pois te tu perdeste,
Sofre, pois não conheceste
Como te outra vez perdias;
Sofre, pois já livre estavas
E quiseste sujeiçam;
Sofre, pois te não lembravas
Das dores de que escapavas:
Sofre, sofre, coraçam!

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Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Casimiro de Brito – “Nu”

04.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

nu

Nu, na minha cama de hotel,
deixo-me invadir pela memória do mel.
E choro. Choro porque não posso beber
as tuas lágrimas. Choro
porque não podes lamber
o meu sal.

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Jorge Aguiar – “Esforça meu coração…”

03.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Esforça meu coração,
não te mates, se quiseres:
lembra-te que são mulheres.

Lembra-te qu’está por nascer
uma que não errasse;
lembra-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
não vi quem dele gostasse.
Pois não te dês a paixão,
toma prazer, se puderes
lembra-te que são mulheres.

Descansa, triste, descansa,
que seus males são vinganças;
tuas lágrimas amansa,
deix’ as suas esperanças;
porque, pois nascem sem razão,
nunca por ela lh’ esperes;
lembra-te que são mulheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais naturezas
causaram tuas tristezas,
Pois não te mates em vão,
que, quanto mais as quiseres,
lembra-te que são mulheres.

Que te presta padecer,
que t’ aproveita chorar,
pois nunc’ outras hão de ser,
nem são nunca de mudar?
Deixa-as com sua natureza,
seu amor nunca lho esperes:
lembra-te que são mulheres.

Não te mates cruamente
por quem fez tão grande falta,
que quem de si não sente,
por ti não lhe dará nada.
Vive, lançando pregão
por onde fores e vieres
que são mulheres, mulheres!

Português antigo

Esforça meu coraçam,
nom te mates, se quiseres:
lembre-te que sam mulheres.

Lembre-te qu’é por nacer
nenhua que nam errasse;
lembre-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
nam vi quem dele gostasse.
Pois nam te dês a paixam,
toma prazer, se puderes
lembre-te que sam mulheres
.
Descansa, triste, descansa,
que seus males sam vinganças;
tuas lágrimas amansa,
leix’ as suas esperanças;
ca, pois nacem sem rezam,
nunca por ela lh’ esperes;
lembre-te que sam mulheres.

Tuas mui grandes firmezas,
tuas grandes perdições,
suas desleais nações
causaram tuas tristezas,
Pois nam te mates em vão,
que, quanto mais as quiseres,
verás que sam as mulheres.

Que te presta padecer,
que t’ aproveita chorar,
pois nunc’ outras ham de ser,
nem sam nunca de mudar?
Deyx’ as com sua naçam,
seu bem nunca lho esperes:
lembre-te que sam mulheres.

Nam te mates cruamente
por quem fêz tam grande errada,
que quem de si nam sente,
por ti nam lhe dará nada.
Vive, lançando pregam
por u fores e vieres
que sam molheres, mulheres!

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António Botto – “Ouve”

02.05.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

beijo

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas ai!,
A carne do assasssino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misteriosa, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar –
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

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João Zorro – “Pela ribeira do rio”

29.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

besteiros

Português moderno

Pela ribeira do rio
vi remar o navio,
e tenho gosto na ribeira.

Pela ribeira do alto
vi remar o barco,
e tenho gosto na ribeira.

Vi remar o navio
onde vai o meu amigo,
e tenho gosto na ribeira.

Vi remar o barco
onde vai o meu amado,
e tenho gosto na ribeira.

Onde vai o meu amigo,
quer-me levar consigo,
e tenho gosto na ribeira.

Onde vai o meu amado,
quer-me levar de bom grado,
e tenho gosto na ribeira.

Português antigo

Per ribeira do rio
vi remar o navio,
e sabor ey da ribeira.

Per ribeyra do alto
vi remar o barco,
e sabor ey da ribeira.

Vy remar o nauio
u uay o meu amigo,
e sabor ey da ribeira.

Vy remar o barco
u uay o meu amado,
e sabor ey da ribeira.

U uay o meu amigo,
quer-me leuar consigo,
e sabor ey da ribeira.

U uay o meu amado,
quer-me levar de grado,
e sabor ey da ribeyra.

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Casimiro de Brito – “Poderei desnudar…”

28.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

casimiro

Poderei desnudar um pouco mais
o teu corpo nu? Poderei descalçar o teu pé
que pousa descalço?
Dizer-te outras mil vezes esta canção furtiva
que nunca mais acaba? Poderei dançar cantar
no chão onde me decantei noites inteiras? Amar-te
se não sei amar apenas derramar
as últimas sementes desta pedra
que tanto voou? Poderei escrever de novo
na tua pele, e apagar com lágrimas
o texto que vem de longe? Beber
na boca da tua boca
a dor que me trazes, a alegria
que não cessa de doer? Inscrever
o teu sangue nas nuvens que passam
dentro de mim? Ler reler
o arco-íris nos teus olhos,
o líquido sabor de argila
entre as tuas pernas? Poderei
oscilar entre a luz e a sombra
se mais não sou do que uma haste cega
dentro de ti? Poderei curvar-me
ainda mais
se abraço o chão e bebo na fonte? Escavar
o já escavado? Recolher a cinza
do coração enamorado? Elevar-me
se já toquei no céu?

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João Soares de Paiva – “Agora faz isso…”

27.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

guilhade

Português moderno

“Agora faz isso o senhor de Navarra,
pois em Provença é o rei de Aragão;
não têm medo, nem do seu pico, nem à sua Marra
em Tarazona, nem que está perto;
não têm medo de lhes colocar aríetes
e serão rir muito Inzura e Darren;
mas, se Deus traz o senhor de Monção
estou certo de que lhes destruirá a bacia.
Se o bom Rei lhes arrasa a Escudela,
que de Pamplona ouvistes chamar,
mal ficará o outro em Tudela,
não tem outra coisa de que se preocupar:
pois verá o bom Rei em acampamento
e destruir até o burgo de Estella:
verás sofrer os navarros e ao senhor
que a todos comanda.
Quando o senhor sai de Tudela, lança
ele a sua hoste e todo o seu poder;
bem sofrem aí de sacrifício e de pena,
pois saem para roubos e voltam correndo;
o Rei procura, como perito,
que não amanheça em terra alheia,
e de onde partiu, ele torna a dormir,
o almoço ou então o jantar.”

Português antigo

“Ora faz ost’o senhor de Navarra,
pois en Proenç’est’el-Rei d’Aragon;
non lh’an medo de pico nen de marrra
Tarraçona, pero vezinhos son;
nen an medo de lhis poer boçon
e riir-s’an muit’Endurra e Darra;
mais, se Deus traj’o senhor de Monçon
ben mi cuid’eu que a cunca lhis varra.
Se lh’o bon Rei varrê-la escudela
que de Pamplona oístes nomear,
mal ficará aquest’outr’en Todela,
que al non á a que olhos alçar:
ca verrá i o bon Rei sejornar
e destruir atá burgo d’Estela:
e veredes Navarros lazerar
e o senhor que os todos caudela.
Quand’el-Rei sal de Todela, estrëa
ele sa ost’e todo seu poder;
ben sofren i de trabalh’e de pëa,
ca van a furt’e tornan-s’en correr;
guarda-s’el-Rei, comde de bon saber,
que o non filhe a luz en terra alhëa,
e onde sal, i s’ar torn’a jazer
ao jantar ou se on aa cëa.”

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David Mourão-Ferreira – “Sobre mim cavalgas…”

26.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

sereia

Sobre mim cavalgas 

cingindo-me os flancos

Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados

ondulas, avanças, 

retesas os braços,

comprimes as ancas.

Depois para a frente 

inclinas-te olhando
o que entre dois ventres 

ocorre entretanto,
e o próprio galope

em que vais lançada 

Que lua te empolga 

Que sol te embriaga

Lua e sol tu és 

enquanto cavalgas 

amazona e égua

de espora cravada
no centro do corpo 


Centauresa alada 

com os seios soltos 

como feitos de água.

Queria bebê-los 

quando mais te dobras 

Os cabelos esses 

sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos 

tão perto dos meus
descobrir o modo

de beber o céu.

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João Soares Coelho – “Luzia Sanchez”

22.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

soares_coelho

Português moderno

Luzia Sánchez, estais em grande falta
comigo, que nom fodo mais nada senão
uma vez; e, pois fodo, se Deus me valer
fique disso afrontado bem por três dias.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Vejo-vos deitar comigo muito defraudada,
Luzia Sánchez, porque não fodo nada;
mas se eu com isso vos satisfizesse,
pois eu foder não posso, peidar-vos-ia.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deu-me o Demo esta pissuça cativa,
que já nem pode cuspir saíva
e, de certo, parece mais morta que viva,
e se lh’ardess’a casa, não s’ergueria.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deitaram-vos comigo para mal dos meus pecados
pensais de mi coisas tão desconcertadas,
cuidais dos colhões, que tragu’inchados,
porque o são com foder e é com doenças
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Português antigo

Luzia Sánchez, jazedes em gram falha
comigo, que nom fodo mais nemigalha
d’ua vez; e, pois fodo, se Deus mi valha
fiqu’end’afrontado bem por tercer dia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Vejo-vos jazer migo muit’aguada,
Luzia Sánchez, porque nom fodo nada;
mais se eu vos per i houvesse pagada,
pois eu foder nomposso, peer-vos-ia.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deu-mi o Demo esta pissuça cativa,
que já nom pode sol cospir saíva
e, de pram, semelha mais morta ca viva,
e se lh’ardess’a casa, nom s’ergeria.
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Deitarom-vos comigo os meus pecados;
cuidades de mi preitos tam desguisados,
cuidades dos colhões, que tragu’inchados,
ca o som com foder e é com maloutia
Par Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu foder-vos podesse, foder-vos-ia.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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Judith Teixeira – “Mais beijos”

20.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

beijo

Devagar…
outro beijo… ou ainda…
O teu olhar, misterioso e lento,
veio desgrenhar
a cálida tempestade
que me desvaira o pensamento!

Mais beijos!…
Deixa que eu, endoidecida,
incendeie a tua boca
e domine a tua vida!

Sim, amor..
deixa que se alongue mais
este momento breve!…
— que o meu desejo subindo
solte a rubra asa
e nos leve!

Maio – 1925

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João Garcia de Guilhade – “Reparastes…”

20.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

Captura de ecrã 2016-04-20, às 00.13.14

Português moderno

Reparastes, donas, que no outro dia
o meu namorado, comigo falou
Como se queixava? Tanto se queixou
que lhe dei o cinto.
Dei-lhe o que podia:
e pede-me agora o que não devia.

Vistes (antes nunca tal coisa se visse!)
que à força de muito, muito se queixar,
fez-me da camisa o cordão tirar:
o cordão lhe dei: no que fiz tolice:
e o que pede agora, antes não pedisse.

Das minhas ofertas, João de Guilhade,
enquanto as quiser, não o privarei,
que muitas e boas, já dele alcancei;
Nem lhe negarei, minha lealdade.
Mas… de outras loucuras, tem ele vontade!

Português antigo

Vistes, mias donas, quando noutro día
o meu amigo comigo falou,
foi mui queixos’e, pero se queixou,
dei-lh’eu entón a cinta que tragía,
mais el demanda-m’or’outra folha.

E vistes (que nunca, nunca tal visse!)
por s’ir queixar, mias donas, tan sen guisa,
fez-mi tirar a corda da camisa
e dei-lh’eu dela ben quanta m’el disse,
mais el demanda-mi al, que non pedisse.

Sempr’haverá don Joán de Guilhade,
mentr’el quiser, amigas, das mias dõas,
ca ja m’end’el muitas deu e mui bõas,
des i terrei-lhi sempre lealdade,
mais el demanda-m’outra torpidade.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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João Garcia de Guilhade – “Que esses meus olhos…”

18.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

cogomilho

Português moderno

Que esses meus olhos, minha senhora,
nunca viram tamanho desgosto que vivo,
E te digo minha bela senhora:
estes meus olhos apaixonados e com grande desgosto
choram e cegam quando te vêem.

Sorte tens de nunca perder
meus olhos apaixonados e meu coração
E esta paixão, minha senhora, são minhas.
Mas os meus olhos por ver alguém
choram e cegam quando estes não os vêem
e depois cegam por alguém que vêem.

E nunca poderei ficar bem,
pois nem o amor e nem Deus me quer.
Mas os meus olhos cativos
morrerão e cegarão, quando não forem vistos
e cegarão por serem vistos também

Português antigo

Estes meus olhos nunca perderán,
senhor, gran coita, mentr’eu vivo for.
E direi-vos, fremosa mia senhor,
destes meus olhos a coita que han:
choran e cegan quand’alguén non veen,
e ora cegan per alguén que veen.

Guisado tẽen de nunca perder
meus olhos coita e meu coraçón.
E estas coitas, senhor, minhas son;
mais-los meus olhos, per alguén veer,
choran e cegan quand’alguén non veen,
e ora cegan per alguén que veen.

E nunca ja poderei haver ben,
pois que Amor ja non quer, nen quer Deus.
Mais os cativos destes olhos meus
morrerán sempre por veer alguén:
choran e cegan quand’alguén non veen,
e ora cegan per alguén que veen.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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João Garcia de Guilhade – “Ai, dona feia”

14.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

guilhade

Português moderno

Ai, dona feia, foste-vos queixar
que nunca vos louvei no meu cantar;
mas agora quero fazer um cantar
em que vos louvarei sempre;
e vedes como vos quero louvar:
dona feia, velha e demente!

Dona feia, se Deus me perdoar,
pois tendes tão grande desejo
que vos eu louve, por este motivo
vos quero já louvar sempre;
e vedes qual será o louvar:
dona feia, velha e demente!

Dona feia, nunca vos eu louvei
no meu trovar, inda que muito trovei;
mas agora já un bom cantar farei,
em que vos louvarei sempre;
e vos direi como vos louvarei:
dona feia, velha e demente!

Português antigo

Ai, dona fea, foste-vos queixar
que vos nunca louv’en [o] meu cantar;
mais ora quero fazer um cantar
en que vos loarei toda via;
e vedes como vos quero loar:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, se Deus me perdon,
pois avedes [a] tan gran coraçon
que vos eu loe, en esta razon
vos quero já loar toda via;
e vedes qual será a loaçon:
dona fea, velha e sandia!

Dona fea, nunca vos eu loei
en meu trobar, pero muito trobei;
mais ora já un bon cantar farei,
en que vos loarei toda via;
e direi-vos como vos loarei:
dona fea, velha e sandia!

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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António Botto – “Pagem loiro”

13.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

pagem

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronze

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Placidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar…

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A linda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento…
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinho…, até cair.

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Fernan Rodriguez Calheiros – “Vedes, formosa senhora…”

12.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

poesia

Português moderno

Vedes, formosa senhora minha,
segurament’ o que farei:
enquanto eu vivo for,
nunca a minha dor vos direi,
pois não me haveis de crer,
ainda que me vejais morrer.
Por que vos hei de eu, senhora minha,
dizer nada do meu mal?
Pois disto sou sabedor,
seguramente, sem qualquer dúvida
pois não me haveis de crer,
ainda que me vejais morrer.
Servir-vos-ei eu, senhora minha,
quant’ eu poder, enquanto viver,
mas, pois de coita sofredor
sou, não vo-lo hei de dizer,
pois não me haveis de crer,
ainda que me vejais morrer.
Pois eu entendo, senhora minha,
quão pouco proveito me vem
de vos dizer quão grande amor
vos tenho, não vou falar disso,
pois não me haveis de crer,
ainda que me vejais morrer

Português antigo

Uedes, fremosa mha senhor,
segurantent’ o que farey:
en tanto com’ eu uyuo for,
nunca uos mha coyta direy,
ca non m’ auedes a creer,
macar me ueiades morrer.
Por que uos ei eu, mha senhor,
a dizer nada do meu mal?
Pois d’ esto sõo sabedor,
segurament’ u nõ iaz al,
que non m’ auedes a creer,
macar me ueiades morrer.
Seruyr-uos-ey eu, mha senhor,
quant’ eu poder, nientre uiuer,
mays, poys de coyta sofredor
sõo, non uo’ l’ ey a dizer,
ca non m’ auedes a creer,
maçar nue ueiades morrer.
Poys eu entendo, mha senhor,
quan pouco proueito me ten
de uos dizer quã grãd’ amor
uos ey, nõ uos falarei en,
ca non m’ auedes a creer,
maçar me ueiades morrer.

Este poema faz parte do iBook “Coletânea da Poesia Portuguesa – I Vol. Poesia Medieval”
disponível no iTunes.
Transcrição do Português antigo para o moderno de Deana Barroqueiro.

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T. S. Eliot – “A Terra Desolada”

11.04.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

eliot

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agónicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão; nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E ao sol caminhamos pelas áleas de Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Não sou Russa, sou da Lituânia, verdadeiramente alemã.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E encosta abaixo deslizámos.
Nas montanhas, lá, onde livre te sentes.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.
Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundice pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimar, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina ao teu encontro se elevando;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.
O vento sopra fresco
Em direcção à Pátria,
Minha criança irlandesa
Onde andas tu?
”Um ano faz agora que os primeiros jacintos me deste;
Chamavam-me a menina dos jacintos.”
– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos húmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram e eu não sabia
Se vivo ou morto estava, e tudo ignorava
Perplexo ante o coração da luz, o silêncio.
Deserto e vazio o mar.
Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu baralho manhoso. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em branco vês, é algo que ele às costas leva,
Mas que a mim proibiram-me de ver. Não acho
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que em círculos perambulam.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.
Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruira.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar, aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Conserva o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère

(Fundo musical: Schubert)

Trecho de ”Terra Desolada”, publicado pela Editora Nova Fronteira em ”T.S. Eliot – Poesia”
Tradução de Ivan Junqueira.

Este é um dos 10 poemas selecionados como sendo os melhores poemas de sempre, por Bula, uma revista literária do Brasil após consulta a 30 personalidades das letras brasileiras, entre as quais, escritores, críticos, professores e jornalistas

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