José Saramago – “Declaração”

08.07.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
Nem morto está o fruto que tombou: 

Dá-lhes vida o abraço dos meus dedos, 

Respiram na cadência do meu sangue,

Do bafo que os tocou.

Também um dia, quando esta mão secar, 

Na memória doutra mão perdurará, 

Como a boca guardará caladamente 

O sabor das bocas que beijou.

In Os Poemas Possíveis, 1966, p. 140.

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Mário Cláudio – “Três negativos…”

12.05.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

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TRÊS NEGATIVOS E UMA DISSONÂNCIA PARA EUGÉNIO DE ANDRADE

Não era o pampilho.
Mas ao acaso o poeta chama os amarelos da tarde, entre o silvo de dois
aviões, e o destino se cumpre das coisas. De todos, só ele ousará semear, frágeis assim de nome e de espécie,
minúsculas manchas de alegria no mais branco de seus cadernos.
Não trago ainda «A Vida das Abelhas».
Que mais fácil, pergunto, será o esquecer do que fazem em Maeterlinck
quantos enxames, que sentido têm seus sentidos? Leva-se o dia ocupado em descobrir da outra, da pequena vagabunda
italiana, a secreta receita para o fabrico do mel.
Não o de Domingos Peres das Eiras.
Através dele o rosto vem do poeta, erguido para a cidade essa que é uma
coroa dorida de navios encalhados. Já rio nenhum separa os dois rostos.
A voz a voz se juntou, e aos assaltantes um desafio apenas lançado: «Na cidade se está, se é. E nem mesmo o poema, por violento e de sangue,
detém a nortada de abril, o poeta, seu mês.»
Estas, as palavras, por aqui resvalam até o pó, pois que pó é o pó ou a luz?
Da cal de Tavira à bruma de agora encharcadas: insubmissas, ternas como
os animais de fogo. Um grito se pedia, nem de pomba nem de cabra, para que de palavra fosse,
sal da efémera palavra. E aí ficava também, nos versos do poeta. Quer dizer, neste tempo que temos: tão de fulgor, tão escasso.

Poema de Mário Cláudio, ilustração de Alfredo Luz, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

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Sebastião da Gama – “Quando eu nasci”

06.05.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais…
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém…

Para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe…

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Eduardo Galeano – “As guerras mentem”

26.03.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não é um poema, mas é como se fosse!
Diz, o escritor Eduardo Galeano:

Nenhuma guerra tem a honestidade de confessar: eu mato para roubar.
 As guerras invocam, sempre, motivos nobres, matam em nome da paz, em nome de Deus, em nome da civilização, em nome do progresso, em nome da democracia e se por via das dúvidas nenhuma dessas mentiras for suficiente, aí estão os grandes meios de comunicação dispostos a inventar novos inimigos imaginários para justificar a conversão do mundo num grande manicómio e um imenso matadouro.
Em Rei Lear, Shakespeare, escreveu que neste mundo os loucos guiam os cegos e quatro séculos mais tarde, os senhores do mundo estão loucamente apaixonados pela morte, que transformaram o mundo num lugar onde a cada minuto morrem de fome ou de doença curável dez crianças e a cada minuto se gastam três milhões de dólares, três milhões de dólares por minuto, na indústria militar que é uma fábrica de morte.
As armas exigem guerras e as guerras exigem armas, e os cinco países que dominam as Nações Unidas, que têm poder de veto nas Nações Unidas, acabam por ser também os cinco principais produtores de armas.
Alguém perguntará, “Até quando?”
Até quando a paz mundial estará nas mãos daqueles que fazem o negócio da guerra? Até quando vamos continuar a acreditar que nascemos para extermínio mútuo? E que o extermínio mútuo é o nosso destino?
Até quando?

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Nuno Júdice – “Isto é amor”

04.03.2018 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.

Nuno Júdice, in ‘Pedro, Lembrando Inês’

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António Botto – “Outra”

14.12.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se fosses luz serias a mais bela
De quantas há no mundo: – a luz do dia!
– Bendito seja o teu sorriso

Que desata a inspiração

Da minha fantasia!
Se fosses flor serias o perfume
Concentrado e divino que perturba
O sentir de quem nasce para amar!

– Se desejo o teu corpo é porque tenho 

Dentro de mim
A sede e a vibração de te beijar!
Se fosses água – música da terra,
Serias água pura e sempre calma!
– Mas de tudo que possas ser na vida,

Só quero, meu amor, que sejas alma!

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Nicolau Santos – “Hoje é um dia…”

13.12.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais e esta noite
uma cratera para boémios não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria é um dia a mais ou a menos na
alma como chumbo derretido na garganta um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras

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Florbela Espanca – “Soneto VII”

01.11.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

São mortos os que nunca acreditaram
Que esta vida é somente uma passagem,
Um atalho sombrio, uma paisagem
Onde os nossos sentidos se poisaram.

São mortos os que nunca alevantaram
De entre escombros a Torre de Menagem
Dos seus sonhos de orgulho e de coragem,
E os que não riram e os que não choraram.

Que Deus faça de mim, quando eu morrer,
Quando eu partir para o País da Luz,
A sombra calma de um entardecer,

Tombando, entre doces pregas de mortalha,
Sobre o teu corpo heróico, posto em cruz,
Na solidão dum campo de batalha!

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António Gedeão – “Aurora Boreal”

15.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho quarenta janelas
nas paredes do meu quarto.
Sem vidros nem bambinelas
posso ver através delas
o mundo em que me reparto.
Por uma entra a luz do Sol,
por outra a luz do luar,
por outra a luz das estrelas
que andam no céu a rolar.
Por esta entra a Via Láctea
como um vapor de algodão,
por aquela a luz dos homens,
pela outra a escuridão.
Pela maior entra o espanto,
pela menor a certeza,
pela da frente a beleza
que inunda de canto a canto.
Pela quadrada entra a esperança
de quatro lados iguais,
quatro arestas, quatro vértices,
quatro pontos cardeais.
Pela redonda entra o sonho,
que as vigias são redondas,
e o sonho afaga e embala
à semelhança das ondas.
Por além entra a tristeza,
por aquela entra a saudade,
e o desejo, e a humildade,
e o silêncio, e a surpresa,
e o amor dos homens, e o tédio,
e o medo, e a melancolia,
e essa fome sem remédio
a que se chama poesia,
e a inocência, e a bondade,
e a dor própria, e a dor alheia,
e a paixão que se incendeia,
e a viuvez, e a piedade,
e o grande pássaro branco,
e o grande pássaro negro
que se olham obliquamente,
arrepiados de medo,
todos os risos e choros,
todas as fomes e sedes,
tudo alonga a sua sombra
nas minhas quatro paredes.

Oh janelas do meu quarto,
quem vos pudesse rasgar!
Com tanta janela aberta
falta-me a luz e o ar.

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Mário de Sá-Carneiro – “Crise Lamentável”

13.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gostava tanto de mexer na vida,
De ser quem sou – mas de poder tocar-lhe…
E não há forma: cada vez perdida
Mais a destreza de saber pegar-lhe.

Viver em casa como toda a gente.
Não ter juízo nos meus livros – mas
Chegar ao fim do mês sempre com as
Despesas pagas religiosamente.

Não ter receio de seguir pequenas
E convidá-las para me pôr nelas –
À minha Torre ebúrnea abrir janelas,
Numa palavra, e não fazer mais cenas.

Ter força num dia pra quebrar as roscas
Desta engrenagem que empenando vai:
– Não mandar telegramas ao meu Pai,
– Não andar por Paris, como ando, às moscas.

Levantar-me e sair – não precisar
De hora e meia antes de vir prà rua.
– Pôr termo a isto de viver na lua,
– Perder a “frousse” das correntes de ar.

Não estar sempre a bulir, a quebrar coisas
Por casa dos amigos que frequento –
Não me embrenhar por histórias melindrosas
Que em fantasia apenas argumento.

Que tudo em mim é fantasia alada,
Um crime ou bem que nunca se comete:
E sempre o Oiro em chumbo se derrete
Por meu Azar ou minha Zoina suada…

Paris-janeiro 1916


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Manuel da Fonseca – “Solidão”

12.10.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que venham todos os pobres da Terra
os ofendidos e humilhados
os torturados 
os loucos:

meu abraço é cada vez mais largo 

envolve-os a todos!
Ó minha vontade, ó meu desejo
— os pobres e os humilhados
todos
se quedaram de espanto!…
(A luz do Sol beija e fecunda
mas os místicos andaram pelos séculos
construindo noites
geladas solidões.)

(Manuel da Fonseca, in “Poemas Dispersos”)

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Paulo Leminski – “Amar você é coisa de minutos…”

28.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amar você é coisa de minutos

A morte é menos que teu beijo

Tão bom ser teu que sou

Eu a teus pés derramado

Pouco resta do que fui

De ti depende ser bom ou ruim

Serei o que achares conveniente

Serei para ti mais que um cão

Uma sombra que te aquece

Um deus que não esquece

Um servo que não diz não

Morto teu pai serei teu irmão

Direi os versos que quiseres

Esquecerei todas as mulheres

Serei tanto e tudo e todos

Vais ter nojo de eu ser isso

E estarei a teu serviço

Enquanto durar meu corpo

Enquanto me correr nas veias

O rio vermelho que se inflama

Ao ver teu rosto feito tocha

Serei teu rei teu pão tua coisa tua rocha

Sim, eu estarei aqui

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David Mourão-Ferreira – “Fado de Peniche”

27.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.

“Levaram-te, era já noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite de
todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite, e
nunca mais se fez dia.

“Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio que
ficou em teu lugar.
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!”

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Angelo Lima – “Pára-me de repente…”

25.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pára-me de repente o Pensamento…
– Como se de repente sofreado
Na Doida Correria… em que, levado…
– Anda em Busca… da Paz… do Esquecimento.

– Pára Surpreso… Escrutador…
Atento Como pára… um Cavalo
Alucinado
Ante um Abismo… ante seus pés rasgado…
– Pára… e Fica… e Demora-se um Momento…

Vem trazido na Doida Correria Pára
à beira do Abismo e se demora

E Mergulha na Noite, Escura e Fria Um
Olhar d’Aço, que na Noite explora…

– Mas a Espora da dor seu flanco estria…

– E Ele Galga… e Prossegue… sob a Espora!

(A imagem é uma fotografia do poeta)

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Eugénio de Castro – “Clepsidra”

22.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Murmúrio de água na clepsidra gotejante,
Lentas gotas de som no relógio da torre,
Fio de areia na ampulheta vigilante,
Leve sombra azulando a pedra do quadrante,
Assim se escoa a hora, assim se vive e morre…

Homem, que fazes tu? Para quê tanta lida,
Tão doidas ambições, tanto ódio e tanta ameaça?
Procuremos somente a Beleza, que a vida
É um punhado infantil de areia ressequida,
Um som de água ou de bronze e uma sombra que passa…

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Manuel Bandeira – “Pensão Familiar”

21.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar os gosmilhos que murcharam.
Os girassóis
 amarelo!
 resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebeias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçon de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

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Miguel Torga – “Ode à Beleza”

20.09.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não tens corpo, nem pátria, nem família,
Não te curvas ao jugo dos tiranos.
Não tens preço na terra dos humanos,

Nem o tempo te rói. 

És a essência dos anos, 

O que vem e o que foi.

És a carne dos deuses,
O sorriso das pedras,
E a candura do instinto.
És aquele alimento
De quem, farto de pão, anda faminto.

És a graça da vida em toda a parte,
Ou em arte,
Ou em simples verdade.
És o cravo vermelho,
Ou a moça no espelho,
Que depois de te ver se persuade.
És um verso perfeito
Que traz consigo a força do que diz.
És o jeito
Que tem, antes de mestre, o aprendiz.
És a beleza, enfim. És o teu nome.
Um milagre, uma luz, uma harmonia,
Uma linha sem traço…
Mas sem corpo, sem pátria e sem família,
Tudo repousa em paz no teu regaço.

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Jorge de Sena “A Canalha”

19.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como esta gente odeia, como espuma
por entre os dentes podres a sua baba
de tudo sujo sem sequer prazer!

Como se querem reles e mesquinhos,

piolhosos, fétidos e promíscuos

na sarna vergonhosa e pustulenta!

Como se rabialçam de importantes,

fingindo-se de vítimas, vestais,

piedosas prostitutas delicadas!

Como se querem torpes e venais

palhaços pagos da miséria rasca

de seus cafés, popós e brilhantinas!

Há que esmagar a DDT, penicilina

e pau pelos costados tal canalha

de coxos, vesgos, e ladrões e pulhas,

tratá-los como lixo de oito séculos

de um povo que merece melhor gente

para salvá-lo de si mesmo e de outrem.

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Joaquim Pessoa – “Bom dia, meu amor”

17.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.

E sobre a tua pele que a minha adora,

navega o meu desejo, esse navio

que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.
E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.
Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

(Joaquim Pessoa, in “Os dias não andam satisfeitos”,Edições Esgotadas, Março 2017.)

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Fernando Reis Luís – “Ponto de Encontro”

10.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não é fácil
Continuar a esperar
Que os amigos voltem
Duma viagem sem fim

É assim que percebemos
Que o infinito
É o supremo destino
Do corpo voando nas nuvens

As pegadas que ficam marcadas no chão
Servirão o aço da memória
Continuando outra espera
Num lugar de sementes
Libertadas nas montanhas de origem
Como próximo ponto de encontro

(Do livro “A Alquimia das Metáforas” – Pinturas de Nunes Silva – Ed. arandis)

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Fernando Reis Luís – “A Voz Fraterna”

07.07.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

A vida é um rio
Mas não é um rio qualquer
É um curso de água continuada
Que nasce límpida na montanha
Entre medronhais e rododendros
E sobe nas escadas da memória
Sim
Porque descer seria fácil
Sobe gravada no sienito
Sem pedir asas às aves
Ou energia aos trovões
Depois apagam-se
As luzernas do luar
E o vapor da alma condensa-se
Tombando cansado na terra
Como neve granizo vento ou chuva
E volta a ser rio palpitante
Penetrando o chão com a voz fraterna
Para renascer nas fendas
Como flores silvestres
Nas madres montanhas da serra

(Do livro “Alquimia das Metáforas”. Ilustrações de Igor Nunes Silva. Ed. aramis)

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Manuel Alegre – “Abaixo el-rei Sebastião”

12.06.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.


É preciso quebrar na ideia e na canção


a guitarra fantástica e doente


que alguém trouxe de Alcácer Quibir.

Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair do porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.

Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na nossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.

Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.


Manuel Alegre – in «O Canto e as Armas», 1967

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Nuno Júdice – “Presente”

29.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Queria neste poema a cor dos teus olhos
e queria em cada verso o som da tua voz:
depois, queria que o poema tivesse a forma
do teu corpo, e que ao contar cada sílaba
os meus dedos encontrassem os teus,
fazendo a soma que acaba no amor.

Queria juntar as palavras como os corpos
se juntam, e obedecer à única sintaxe
que dá um sentido à vida; depois,
repetiria todas as palavras que juntei
até perderem o sentido, nesse confuso
murmúrio em que termina o amor.

E queria que a cor dos teus olhos e o som
da tua voz saíssem dos meus versos,
dando-me a forma do teu corpo; depois,
dir-te-ia que já não é preciso contar
as sílabas nem repetir as palavras do poema,
para saber o que significa o amor.

Então, dar-te-ia o poema de onde saíste,
como a caixa vazia da memória, e levar-te-ia
pela mão, contando os passos do amor.

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al berto – “Incêndio”

18.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes

são os teus antepassados que por um momento
se levantaram da inércia dos séculos e vêm
visitar-te

diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão

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Manuel António Pina – “Amor como em casa”

17.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Regresso devagar ao teu
sorriso como quem volta a casa. Faço de conta que
não é nada comigo. Distraidíssimo percorro
o caminho familiar da saudade,
pequeninas coisas me prendem,
uma tarde no café, um livro. Devagar
te amo e às vezes depressa,
meu amor, e às vezes faço coisas que não devo,
regresso devagar a tua casa,
compro um livro, entro no
amor como em casa.

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Vasco Graça Moura- “Praias”

15.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

na praia lá do guincho as velas
de windsurf saltam sobre as ondas
e o meu olhar, equestre,
pula nos peitos das banhistas, enquanto
um cachorro tenta agarrar a cauda.

nos feriados tudo é insuportável
menos o sol e o mar
apesar das famílias,
e sustendo as gaivotas na mais alta
imaginação, porque hoje não vi nenhuma,

o vento traz de tudo
de antónio nobre a lorca às pandas roupas
que modelam os corpos em míticas figuras
com o seu drapejado esvoaçante,
entre dunas e lixo e vendedores de gelados.

restaria o campo, mas
«no campo não há bicas nem paperbacks»
diz uma amiga minha e tem razão,
que seria de nós, bucólicos, sem esses
indicadores da alma? dou

lume a uma italiana e enquanto
ela agradece ocorre-me que despi-la já não é
cosa mentale; faz-me lembrar o algarve, mas no verão
o algarve é a continuação
da política por outros meios, antes
a rudeza atlântica do guincho, antes
a nortada, os surfistas
na crista da onda, a areia que entra no poema,
e o regresso mais cedo, quando já não se
aguenta.

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Luiza Neto Jorge – “O poema ensina a cair”

11.05.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.

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Luísa Ducla Soares – “Poesia”

28.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para mim poesia é
realismo e fantasia num
esquema hipertenso e eu
só me pertenço quando a
imaginação tem o
tamanho da minha mão.
Então
é prosa vivida em
circuito de acção.

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Fiama Hasse Pais Brandão – “Imagem Minha”

27.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ficas a ler comprazida diante das rosas
silhueta que vislumbrei, compus e reanimei.
Tinhas o perfil marcado cruamente pela luz,
as mãos claras no colo, os cabelos despojados
do brilho das cabeleiras soltas, mas juvenis
e sacudidos no início da tarde com alegria.
As páginas balonçavam do mesmo modo que as rosas
porque ao começar da tarde nos dias de Verão
brisas e vapores estendem-se desde o mar
até às margens floridas. No teu banco
adornado por festões de rosas trepadeiras
afastas os olhos do livro não absorta
mas para sempre atraída por inúmeras imagens.

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Pedro Tamen – “Não sei, amor, sequer, se te consinto”

26.04.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei, amor, sequer, se te consinto ou
se te inventas, brilhas, adormeces nas
palavras sem carne em que te minto a
verdade intemida em que me esqueces.

Não sei, amor, se as lavas do vulcão nos
lavam, veras, ou se trocam tintas dos
olhos ao cabelo ou coração de tudo e de
ti mesma. Não que sintas

outra coisa de mais que nos feneça; mas
só não sei, amor, se tu não sabes que sei
de certo a malha que nos teça,

o vento que nos leves ou nos traves,
a mão que te nos dê ou te nos peça,
o princípio de sol que nos acabes.

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