Nota biográfica

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.

“Imagem”, de Miguel Torga.

27.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Vila Nova, 4 de Abril de 1936
in Diário I

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“Lentos nos fomos esquecendo”, de Fernando Echevarría.

26.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.

Fernando Echevarría, in “Figuras”

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“Noite do silêncio”, poema de José Gomes Ferreira.

25.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

A Lua tece rendas de Bretanha
com linhas de luar, fibras de lírios,
enquanto amortalhadas em martírios
choram as coisas numa língua estranha.

A Noite é o fantasma que se entranha
na nossa própria alma entre delírios;
e as estrelas no Céu são como círios
a iluminar o Templo da Montanha.

Perpassa o Vento, a pobre alma penada
no mundo há tanto tempo condenada
p’lo crime de rasgar o arvoredo.

Na Noite há um silêncio-catedral.
A Lua estende um manto oriental
e a Vida é o sinónimo de Medo.

José Gomes Ferreira
De «Lírios do Monte», 1918

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“Jardim Perdido” de Sophia de Mello B. Andresen

24.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jardim em flor, jardim de impossessão,
Transbordante de imagens mas informe.
Em ti se dissolveu o mundo enorme,
Carregado de amor e solidão.

A verdura das árvores ardia,
O vermelho das rosas transbordava.
Alucinado cada ser subia
Num tumulto em que tudo germinava.

A luz trazia em si a agitação
De paraísos, deuses e de infernos,
E os instantes em ti eram eternos
De possibilidade e suspensão.

Mas cada gesto em ti se quebrou, denso
Dum gesto mais profundo em si contido,
Pois trazias em ti sempre suspenso
Outro jardim possível e perdido.

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“Outros terão um lar”, poema de Fernando Pessoa.

23.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Outros terão
Um lar, quem saiba, amor, paz, um amigo.
A inteira, negra e fria solidão
Está comigo.

A outros talvez
Há alguma coisa quente, igual, afim
No mundo real. Não chega nunca a vez
Para mim.

«Que importa?»
Digo, mas só Deus sabe que o não creio.
Nem um casual mendigo à minha porta
Sentar-se veio.

«Quem tem de ser?»
Não sofre menos quem o reconhece.
Sofre quem finge desprezar sofrer
pois não esquece.

Isso até quando?
Não sei. Só tenho consolação
Que os olhos se em vão acostumando
À escuridão.

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“À memória de Catarina Eufémia”, de Alexandre O´Neill

20.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Podes mudar de nome, carrajola
pôr umas asas brancas, arvorar
um ar contrito,
dizer que não, que não foi contigo,
disfarçar-te de andorinha, de sobreiro 
ou de velhinha,
podes mudar de nome, carrajola,
de aldeia, de vila ou de cidade
— és como um percevejo num lençol!

Quando tivermos Portugal nos braços
e pudermos amá-lo sem sofrer,
quando o Alentejo se puser a rir,
Catarina Eufémia, minha irmã,
então o teu filho há-de nascer!

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“Heroísmos”, poema de Cesário Verde.

18.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu temo muito o mar, o mar enorme, 

Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;

O mar sublime, o mar que nunca dorme.


Eu temo o largo mar, rebelde, informe, 

De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.


Contudo, num barquinho transparente, 

No ser dorso feroz vou blasonar,

Tufada a vela e nágua quase assente,

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,

Escarro, com desdém, no grande mar!

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“Viagem”, poema de Ary dos Santos.

17.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Persegue-me na noite a voz do impossível,
Rebentam-me aos ouvidos as ampolas de sangue.
Avanço devagar para a hidra intangível

Que dorme no horizonte do lado do levante.

Fascinam-me o mistério do seu rosto sem nome,

O muro de silêncio que a separa de mim,

A jornada no escuro, os perigos, os escombros, 

As barreiras de sombra a que vou pondo fim.

Avanço devagar para a hidra que dorme

O seu sono latente na véspera de mim.

E percorro países como esqueço palavras 

E atravesso rios como desprezo leis

E pairo nas alturas com as costas voltadas 

Aos séculos de pasmo que para trás deixei.

Avanço devagar para a hidra que dorme

O seu sono de pedra num abismo sem fundo.

É a hora em que a terra não gira,

Em que o vento não corre.

É o tempo do homem descobrir o mundo.

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“A paz sem vencedor nem vencido”, de Sophia de Mello B. Andresen.

16.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Que o tempo que nos deste seja um novo

Recomeço de esperança e de justiça

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência

Para podermos ler melhor a vida

Para entendermos vosso mandamento

Para que venha a nós o vosso reino

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos

Dai-nos a paz que nasce da verdade

Dai-nos a paz que nasce da justiça

Dai-nos a paz chamada liberdade

Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

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“Arte Poética” de Adília Lopes

13.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Escrever um poema,
é como apanhar um peixe,
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe,
mas posso falar assim!
sei que nem tudo o que vem às mãos,
é peixel
o peixe debate-se,
tenta escapar-se
escapa-se,
eu persisto,
luto corpo a corpo,
com o peixel
ou morremos os dois,
ou nos salvamos os dois |
tenho de estar atental
tenho medo de não chegar ao fiml
é uma questão de vida ou de mortel
quando chego ao fim,
descubro que precisei de apanhar o peixe,
para me livrar do peixel
livro-me do peixe com o alívio,
que não sei dizer

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“Estigma”, de Ary dos Santos.

12.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Filhos dum deus selvagem e secreto

E cobertos de lama, caminhamos Por cidades,

Por nuvens 

E desertos.

Ao vento semeamos

O que os homens não querem.

Ao vento arremessamos

As verdades que doem

E as palavras que ferem.

Da noite que nos gera, e nós amamos, 

Só os astros trazemos.

A treva ficou onde

Todos guardamos a certeza oculta

Do que nós não dizemos.

Mas que somos.

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“Sou um Guardador de Rebanhos”, de Alberto Caeiro.

11.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou um guardador de rebanhos.

O rebanho é os meus pensamentos

E os meus pensamentos são todos
sensações.

Penso com os olhos e com os ouvidos

E com as mãos e os pés

E com o nariz e a boca.

Pensar uma flor é vê-la e cheirá-la

E comer um fruto é saber-lhe o sentido.

Por isso quando num dia de calor

Me sinto triste de gozá-lo tanto.

E me deito ao comprido na erva, 

E fecho os olhos quentes,

Sinto todo o meu corpo deitado na realidade, 

Sei a verdade e sou feliz.

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“…do medo”, poema de Carlos Drummond de Andrade

10.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

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“Poema a Salgueiro Maia”, poema de Manuel Alegre.

05.04.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Ficaste na pureza inicial
do gesto que liberta e se desprende.
Havia em ti o símbolo e o sinal
havia em ti o herói que não se rende.
Outros jogaram o jogo viciado
para ti nem poder nem sua regra.
Conquistador do sonho inconquistado
havia em ti o herói que não se integra.
Por isso ficarás como quem vem
dar outro rosto ao rosto da cidade.
Diz-se o teu nome e sais de Santarém
trazendo a espada e a flor da liberdade.”
Honremos a sua memória!

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“Periclitam os Grilos”, poema de Alexandre O’Neill.

04.04.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Periclitam os grilos:
a noite é nada.
Quem tem filhos tem cadilhos.
(Que quadra tão bem rimada!)

Não espere, leitor, que eu diga:
«Debaixo daquela arcada…»
Não venho fazer intriga:
versejo só – e mais nada.

Assim o terceiro verso
desta tirada
(reparou que é um provérbio?)
não significa mais nada.

Se a noite é nada e os grilos
não estão de asa parada,
não vou puxar, só por isso,
o fio à sua meada,

leitor que me pede a história
que já traz engatilhada,
leitor que não se habitua
a que não aconteça nada

em poesia que comece
como esta foi começada
e acabe como esta
vai ser agora acabada…


Alexandre O’Neill
[de “Abandono Vigiado” 1960]
in «Poesias Completas», Assírio & Alvim, 2000
Introdução de Miguel Tamen

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“Num álbum”, poema de Cesário Verde.

01.04.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
És uma tentadora: o seu olhar amável
Contém perfeitamente um poço de maldade,
E o colo que te ondula, o colo inexorável
Não sabe o que é paixão, e ignora o que é bondade.
II
Quando me julgas preso a eróticas cadeias

Radia-te na fronte o céu das alvoradas,
E quando choro então é quando garganteias

As óperas de Verdi e as árias estimadas.
III
Mas eu hei-de afinal seguir-te a toda a parte,
E um dia quando eu for a sombra dos teus passos, 

Tantos crimes terás, que eu hei de processar-te,
E enfim hás de morrer na forca dos meus braços.

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“Estou tonto”, poema de Álvaro de Campos

31.03.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto …
Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto …
Sim, verdadeiramente tonto…
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou, a
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.
Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto…
Tonto.

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“Cai chuva”, poema de Fernando Pessoa.

03.03.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cai chuva. É noite. Uma pequena brisa
        Substitui o calor.
P’ra ser feliz tanta coisa é precisa.
        Este luzir é melhor.

O que é a vida? O espaço é alguém para mim.
        Sonhando sou eu só.
A luzir, em quem não tem fim
        E, sem querer, tem dó.

Extensa, leve, inútil passageira,
        Ao roçar por mim traz
Uma ilusão de sonho, em cuja esteira
        A minha vida jaz.

Barco indelével pelo espaço da alma,
        Luz da candeia além
Da eterna ausência da ansiada calma,
        Final do inútil bem.

Que se quer, e, se veio, se desconhece
        Que, se for, seria
O tédio de o haver… E a chuva cresce
        Na noite agora fria

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“Arte Poética”, poema de Adília Lopes.

01.03.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
nunca pesquei assim um peixe
mas posso falar assim
sei que nem tudo o que vem às mãos
é peixe
o peixe debate-se
tenta escapar-se
escapa-se
eu persisto
luto corpo a corpo
com o peixe
ou morremos os dois
ou nos salvamos os dois
tenho de estar atenta
tenho medo de não chegar ao fim
é uma questão de vida ou de morte
quando chego ao fim
descubro que precisei de apanhar o peixe
para me livrar do peixe
livro-me do peixe com o alívio
que não sei dizer

Adília Lopes, in ‘Um Jogo Bastante Perigoso’

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“O Jardim”, poema de Sophia de Mello B. Andresen.

28.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

O jardim está brilhante e florido,
Sobre as ervas, entre as folhagens,
O vento passa, sonhador e distraído.
Peregrino de mil romagens.

É Maio ácido e multicolor,
Devorado pelo próprio ardor,
Que nesta clara tarde de cristal
Avança pelos caminhos
Até os fantásticos desalinhos
Do meu bem e do meu mal.

E no seu bailado levada
Pelo jardim deliro e divago,
Ora espreitando debruçada
Os jardins do fundo do lago,
Ora perdendo o meu olhar
Na indizível verdura
Das folhas novas e tenras
Onde eu queria saciar
A minha longa sede de frescura.

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“Outono”, poema de David Mourão-Ferreira.

24.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono… Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)


E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…
Agora, nu, será feliz,
sob o afago do sol posto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?
Seria Outono…
Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

David Mourão-Ferreira, in “A secreta viagem”,
Obra Poética, 5ª ed., Editorial Presença, 2006

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“H”, poema de António Maria Lisboa.

23.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sei que dez anos nos separam de pedras
e raízes nos ouvidos

e ver-te, ó menina do quarto vermelho,
era ver a tua bondade, o teu olhar terno
de Borboleta no Infinito

e toda essa sucessão de pontos vermelhos no espaço
em que tu eras uma estrela que caiu
e incendiou a terra

lá longe numa fonte cheia de fogos-fátuos.

in “Ossóptico e Outros Poemas”

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“Amador sem coisa amada”, poema de António Gedeão.

22.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
sou amador da existência,
não chego a profissional.

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“Canção”, poema de Eugénio de Andrade.

18.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tinha um cravo no meu balcão:
Veio um rapaz e pediu-mo
– mãe, dou-lho ou não?


Sentada, bordava um lenço de mão
Veio um rapaz e pediu-mo
– mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,

Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
– mãe, dou-lho ou não?


Em “Primeiros Poemas”

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“Guerra e Paz”, poema de Luís Castro Mendes.

17.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Varrida pela chuva a álea rasa,
sai o inverno nesta primavera.
O Tempo quis negar-nos sua casa,
a História faz de farsa ou de quimera

prometida por doutos e por santos
que nos levam, de cegos ao abismo:
folheio pela noite fólios tantos,
que já não sei se sonho no que cismo.

Este tempo não sabe da desgraça,
repete sem cessar a ladaínha :
liberdade que nasce em cada praça,


alvorecer enfim que se avizinha!
Mas no amanhecer, entre destroços,
o tempo varre cinzas, restos, ossos.

“Outro Ulisses Regressa a Casa”, 2016

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“Dulcineia”, poema de José Gomes Ferreira.

16.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
— sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva…

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos…
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI…

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

(de A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim – 1º volume, Moraes editores, 1977 – Círculo de Poesia)

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“Dei-te o meu corpo”, poema de Maria do Rosário Pedreira.

15.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes da viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas, afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos – tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras,
muros e regressos – nem sequer feridas
ou ruínas. E, ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

in Poesia Reunida, Quetzal

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“A forca”, poema de Cesário Verde.

14.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Já que adorar-me dizes que não podes, 

Imperatriz serena, alva e discreta,
Ai, como no teu colo há muita seta
E o teu peito é peito dum Herodes,

Eu antes que encaneçam meus bigodes 

Ao meu mister de ama-te hei-de pôr meta,

O coração mo diz – feroz profeta,
Que anões faz dos colossos lá de Rodes.


E a vida depurada no cadinho 

Das eróticas dores do alvoroço,

Acabará na forca, num azinho,


Mas o que há-de apertar o meu pescoço 

Em lugar de ser corda de bom linho 

Será do teu cabelo um menos grosso.


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“Reinvenção”, poema de Cecília Meireles.

11.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

A vida só é possível

reinventada.



Anda o sol pelas campinas

e passeia a mão dourada

pelas águas, pelas folhas…

Ah! tudo bolhas

que vem de fundas piscinas

de ilusionismo… — mais nada.



Mas a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.



Vem a lua, vem, retira

as algemas dos meus braços.

Projeto-me por espaços

cheios da tua Figura.

Tudo mentira! Mentira

da lua, na noite escura.



Não te encontro, não te alcanço…

Só — no tempo equilibrada,

desprendo-me do balanço

que além do tempo me leva.

Só — na treva,

fico: recebida e dada.



Porque a vida, a vida, a vida,

a vida só é possível

reinventada.

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“Desespero”, poema de José Carlos Ary dos Santos

10.02.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti


Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.


Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu


A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.

em ‘Liturgia do Sangue’

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