Nota biográfica

Poeta e jornalista cabo-verdiano, Daniel Damásio Ascensão Filipe nasceu em 1925, na Ilha da Boavista, em Cabo Verde e morreu em 1964, em Lisboa. Na poesia destacou-se pela combatividade revolucionária, aliada a uma fina sensibilidade lírica que o levou à prisão e tortura no regime salazarista.


“Romance de Tomazinho Cara-Feia”, poema de Daniel Filipe.

23.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Farto de sol e de areia
Que é o mais que a terra dá,
Tomasinho Cara-Feia
vai prá pesca da baleia.
Quem sabe se tornará?

Torne ou não torne, que tem?
Vai cumprir o seu destino.
Só nha Fortunata, a mãe,
Que é velha e não tem ninguém,
Chora pelo seu menino.

Torne ou não torne, que importa?
Vai ser igual ao avô.
Não volta a bater-me à porta;
Deixou para sempre a horta,
que a longa seca matou.

Tomasinho Cara-Feia
(outro nome, quem lho dá?),
farto de sol e de areia,
foi prá pesca da baleia.

— E nunca mais voltará

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“Tudo quanto sonhei”, de Fernando Pessoa.

22.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tudo quanto sonhei tenho perdido
Antes de o ter.
Um verso ao menos fique do inobtido,
Música de perder.

Pobre criança a quem não deram nada,
Choras? É em vão.
Como tu choro à beira da erma estrada.
Perdi o coração.

A ti talvez, que não te têm dado,
Darão enfim…
A mim… Sei eu que duro e inato fado
Me espera de mim?

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“Tanto tempo sem nós”, poema de Samuel Costa Velho.

21.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deu tempo para lembrar tudo
enquanto o meu corpo embatia no chão.

Desde o primeiro olhar fresco que trocámos
até à ausência mútua,
revivi e desvivi, nesse instante.
Com os ossos a desistirem de resistir ao encontro
[com o chão suave que me abraçava
[e a dor/prazer/tu a começar a sentir-se.
Morri aos pedaços quando a queda acabou, quando
[todo eu me apaguei contra o teu peito.
[Deu tempo para um pensamento.

O amor ou a tua mão, pergunto-me com qual
[me abandonaste primeiro.


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“Fuzilaram um homem num país distante”, poema de José Gomes Ferreira

16.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proibo as deusas de dançarem nos olhos

das crianças! Proibo os corpos das mulheres de terem
outro
destino que a morte!

Sim, proibo!

E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo ordeno
aos homens 
que
venham para a rua descalços

para sentirem nos pés nus

o silêncio da terra

– e o terror de viverem num planeta

onde os fuzilados não ressuscitam,

nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras

mecânicas e este cheiro tão bom a mulheres novas
nas árvores

com cio

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“A frouxidão no amor é uma ofensa”, poema de Bocage.

14.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

A frouxidão no amor é uma ofensa,
Ofensa que se eleva a grau supremo;
Paixão requer paixão, fervor e extremo;
Com extremo e fervor se recompensa.

Vê qual sou, vê qual és, vê que diferença!
Eu descoro, eu praguejo, eu ardo, eu gemo;
Eu choro, eu desespero, eu clamo, eu tremo;
Em sombras a razão se me condensa.

Tu só tens gratidão, só tens brandura,
E antes que um coração pouco amoroso
Quisera ver-te uma alma ingrata e dura.

Talvez me enfadaria aspecto iroso,
Mas de teu peito a lânguida ternura
Tem-me cativo e não me faz ditoso.

em “Citações e Pensamentos de Bocage”

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“Piratas”, poema de Sophia de Mello B. Andresen.

13.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou o único homem a bordo do meu barco.
Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

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“Árvores do Alentejo”, poema de Cesário Verde.

12.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Horas mortas … Curvada aos pés do Monte

A planície é um brasido … e, torturadas,

As árvores sangrentas, revoltadas,

Gritam a Deus a bênção de uma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,

Esfíngicas, recortam desgrenhadas

Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores, corações, almas que choram,

Almas iguais à minha, almas que imploram

Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:

Também ando a gritar, morta de sede,

Pedindo a Deus a minha gota de água!

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“Carro para Campolide. Dia sexual”, poema de José Gomes Ferreira.

09.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Uma mulher de carne azul, semeadora de
luzes e de transes, atravessou o vidro

e veio, voadora

sentar-se ao meu colo

na nudez reclinada

dum desdém de espelhos.

(Mas que bom! Ninguém suspeita

que levo uma mulher nua nos joelhos.)

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“Noite Árvore”, poema de Luiza Neto Jorge.

08.09.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Noite única noite singular impressa
consagração das chuvas e das flores violadas

dos pássaros algemados pela fuga

dos silêncios nus prostituídos

das alcachofras indecisas alcachofras em
sangue das turbinas de aço onde as estrelas
escorrem

crescem árvores mais definitivas pálpebras
trémulas da noite

é o muro que eu recrio a cal sem vazios diários
todos de verdade nós todos férteis salvos
todos veias claras nós sementes

nós o susto fecundo de vivermos

nós os números e as letras e os desenhos

ah matem-me de noite punhais híbridos
sentinela das fronteiras extintas sentinela
última da noite

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“Invisível a meus olhos”, poema de Al-Mu Tamid

10.08.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Invisível a meus olhos,

Trago-te sempre no coração

Te envio um adeus feito paixão

E lágrimas de pena com insónia.

Inventaste como possuir-me

E eu, o indomável, que submisso vou
ficando! Meu desejo é estar contigo sempre

Oxalá se realize tal desejo!

Assegura-me que o juramento que nos une
Nunca a distância o fará quebrar.

Doce é o nome que é o teu

E aqui fica escrito no poema: Itimad.”

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“Quem vende a verdade?” de Fernando Pessoa.

29.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem vende a verdade, e a que esquina?
Quem dá a hortelã com que temperá-la?
Quem traz para casa a menina
E arruma as jarras da sala?

Quem interroga os baluartes
E conhece o nome dos navios?
Dividi o meu estudo inteiro em partes
E os títulos dos capítulos são vazios…

Meu pobre conhecimento ligeiro,
Andas buscando o estandarte eloquente
Da filarmónica de um Barreiro
Para que não há barco nem gente.

Tapeçarias de parte nenhuma
Quadros virados contra a parede…
Ninguém conhece, ninguém arruma
Ninguém dá nem pede.

Ó coração epitélico e macio,
Colcha de croché do anseio morto,
Grande prolixidade do navio
Que existe só para nunca chegar ao porto.

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“Velhinha”, poema de Florbela Espanca.

28.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
“Já ela é velha! Como o tempo passa!…”

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d’oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente…
Já murmuro orações… falo sozinha…

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente.
Como se fosse um bando de netinhos

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“As Mãos”, poema de Manuel Alegre.

27.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Com mãos se faz a paz se faz a guerra. 

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema – e são de terra.

Com mãos se faz a guerra – e são a paz.

Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.


E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.



De mãos é cada flor, cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.

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“Quimera” de Rosa Lobato Faria.

26.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu quis um violino no telhado
e uma arara exótica no banho.
Eu quis uma toalha de brocado
e um pavão real do meu tamanho.
Eu quis todos os cheiros do pecado
e toda a santidade que não tenho.
Eu quis uma pintura aos pés da cama
infinita de azul e perspectiva.
Eu quis ouvir ouvir a história de Mira Burana
na hora da orgia prometida.
Eu quis uma opulência de sultana
e a miséria amarga da mendiga.
Eu quis um vinho feito de medronho
de veneno, de beijos, de suspiros.
Eu quis a morte de viver dum sonho
eu quis a sorte de morrer dum tiro.
Eu quis chorar por ti durante o sono
eu quis ao acordar fugir contigo.
Mas tudo o que é excessivo é muito pouco.
Por isso fiquei só, com o meu corpo.

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“Soneto de separação” de Vinicius de Moraes.

25.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

De repente do riso fez-se pranto

Silencioso e branco como a bruma

E das bocas unidas fez-se a espuma

E das mãos espalmadas fez-se o espanto.



De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.


De repente, não mais que de repente

Fez-se de triste o que se fez amante

E de sozinho o que se fez contente.



Fez-se do amigo próximo o distante

Fez-se da vida uma aventura errante

De repente, não mais que de repente.

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“O brinco da tua orelha”, poema de António Boto.

22.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

O brinco da tua orelha

Sempre se vai meneando; Gostava de dar um
beijo

Onde o teu brinco o vai dando. Tem um
topázio dourado

Esse brinco de platina;

Um rubi muito encarnado

E uma outra pedra fina.

O que eu sofro quando o vejo Sempre airoso,
meneando! Dava tudo por um bejo

Onde o teu brinco os vai dando

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“A Mentira Está em Ti”, poema de Alberto Caeiro.

21.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Olá, guardador de rebanhos,
Aí à beira da estrada,
Que te diz o vento que passa?”
“Que é vento, e que passa,

E que já passou antes,
E que passará depois.
E a ti o que te diz?”
“Muita coisa mais do que isso.

Fala-me de muitas outras coisas.
De memórias e de saudades
E de coisas que nunca foram.
“Nunca ouviste passar o vento.

O vento só fala do vento.
O que lhe ouviste foi mentira,
E a mentira está em ti.”

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“Publicação do Corpo”, poema de Alberto Cunha Melo

20.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando distanciar-me das altas

nuvens, onde sempre habitei,

devo levar algumas delas

para que saibam minha pátria.

Após soltar de espaço a espaço

as cascas vivas da memória,

devo levar para a cidade

o corpo, esta palavra forte.

Só meu corpo vai realmente

pisar nos jardins e nos pátios

e com mãos novas sacudir

as grandes árvores por perto.

Vou conduzi-lo com o cuidado

de livro muito alvo na tarde:

É minha única esperança

de estar bem vivo entre vocês.

Só meu corpo sabe virar

todas as páginas do tempo

e só ele foi publicado

completo, para ser seguido.

Alberto Cunha Melo, Poesia completa



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“Não gosto tanto de livros”, poema de Adília Lopes.

19.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

NÃO GOSTO tanto 

como Mallarmé

parece que gostava

eu não sou um livro

e quando me dizem

gosto muito dos seus livros

gostava de poder dizer

como o poeta Cesariny

olha

eu gostava
é que tu gostasses de mim

os livros não são feitos

de carne e osso

e quando tenho

vontade de chorar

abrir um livro

não me chega

preciso de um abraço

mas graças a Deus

o mundo não é um livro

e o acaso não existe

no entanto gosto muito

de livros 
e acredito na Ressurreição

de livro e acredito que no Céu

haja bibliotecas

e se possa ler e escrever

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“Nona Sinfonia”, poema de Ary dos Santos

18.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

É por dentro de um homem que se ouve
o tom mais alto que tiver a vida
a glória de cantar que tudo move
a força de viver enraivecida.

Num palácio de sons erguem-se as traves
que seguram o tecto da alegria
pedras que são ao mesmo tempo as aves
mais livres que voaram na poesia.

Para o alto se voltam as volutas
hieráticas sagradas impolutas
dos sons que surgem rangem e se somem.

Mas de baixo é que irrompem absolutas
as humanas palavras resolutas.
Por deus não basta. É mais preciso o Homem.

Ary dos Santos, in ‘O Sangue das Palavras’

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“Alentejano”, de Florbela Espanca.

15.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deu agora meio-dia; o sol é quente

Beijando a urze triste dos outeiros.

Nas ravinas do monte andam ceifeiros,

Na faina, alegres, desde o sol nascente.

Cantam as raparigas meigamente.

Brilham os olhos negros, feiticeiros. 

E há perfis delicados e trigueiros

Entre as altas espigas d’oiro ardente.

A terra prende aos dedos sensuais 

A cabeleira loira dos trigais

Sob a bênção dulcíssima dos céus.

Há gritos arrastados de cantigas…
E eu sou uma daquelas raparigas…

E tu passas e dizes: «Salve-os Deus!»

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“Soneto da hora final” de Vinicius de Moraes

14.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Será assim, amiga: um certo dia
Estando nós a contemplar o poente
Sentiremos no rosto, de repente
O beijo leve de uma aragem fria.

Tu me olharás silenciosamente
E eu te olharei também, com nostalgia
E partiremos, tontos de poesia
Para a porta de treva aberta em frente.

Ao transpor as fronteiras do Segredo
Eu, calmo, te direi: – Não tenhas medo
E tu, tranquila, me dirás: – Sê forte.

E como dois antigos namorados
Noturnamente triste e enlaçados
Nós entraremos nos jardins da morte.

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“Há cidade acesas”, de Sophia de Mello B. Andresen

13.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há cidades acesas na distância,
Magnéticas e fundas como luas,
Descampados em flor e negras ruas
Cheias de exaltação e ressonância.

Há cidades acesas cujo lume
Destrói a insegurança dos meus passos,
E o anjo do real abre os seus braços
Em nardos que me matam de perfume.

E eu tenho de partir para saber
Quem sou, para saber qual é o nome
Do profundo existir que me consome
Neste país de névoa e de não ser.

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“Corpo Habitado”, poema de Eugénio de Andrade.

11.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Corpo num horizonte de água, corpo aberto

à lenta embriaguez dos dedos, corpo defendido pelo
fulgor das maçãs,

rendido de colina em colina, corpo amorosamente
humedecido pelo sol dócil da língua.

Corpo com gosto a erva rasa de secreto jardim,

corpo onde entro em casa, corpo onde me deito
para sugar o silêncio, ouvir 
a
música das espigas, respirar 

a doçura escuríssima das silvas.

Corpo de mil bocas,

e todas fulvas de alegria,

todas para sorver,

todas para morder até que um grito irrompa das
entranhas 
e
suba às torres,

e suplique um punhal.



Corpo para entregar às lágrimas.

Corpo para morrer.

Corpo para beber até ao fim – meu oceano breve

e branco,

minha secreta embarcação, meu vento favorável,

minha vária e sempre incerta navegação.

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“Auto-procura”, poema de Daniel Filipe.

08.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

O meu Eu, deixei-o abandonado

P’los caminhos da Dor e da Ilusão. 

Sou um cego, sem guia nem bordão… 

Um farrapo aos ventos atirado.

Todos os sonhos bons que hei sonhado 

Queimaram-se na chama da Paixão…

E onde havia, outrora, um coração

Há um abismo sem fundo de pecado.

Entre o que fui e o que sou, a cada instante,

Há em mim uma luta fatigante

Que a minha alma gasta não suporta…

Na ânsia de encontrar-ME (vão intento!),

Meus dias vou gastando, num tormento,

A procurar de MIM, de porta em porta!… 


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“Lágrimas” de Cesário Verde.

07.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ela chorava muito e muito, aos cantos,

Frenética, com gestos desabridos;

Nos cabelos, em ânsias desprendidos, 

Brilhavam como pérolas os prantos.

Ele, o amante, sereno como os santos,

Deitado no sofá, pés aquecidos,

Ao sentir-lhe os soluços consumidos,

Sorria-se cantando alegres cantos.

E dizia-lhe então, de olhos enxutos:

— Tu pareces nascida de rajada, 

Tens despeitos raivosos, resolutos;

Chora, chora, mulher arrenegada;

Lacrimeja por esses aquedutos…

Quero um banho tomar d’água salgada.

Porto, Diário da Tarde, 21 de Janeiro de 1874

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“Noite do Silêncio” de José Gomes Ferreira.

06.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

A Lua tece rendas de Bretanha
com linhas de luar, fibras de lírios,
enquanto amortalhadas em martírios
choram as coisas numa língua estranha.

A Noite é o fantasma que se entranha
na nossa própria alma entre delírios;
e as estrelas no Céu são como círios
a iluminar o Templo da Montanha.

Perpassa o Vento, a pobre alma penada
no mundo há tanto tempo condenada
p’lo crime de rasgar o arvoredo.

Na Noite há um silêncio-catedral.
A Lua estende um manto oriental
e a Vida é o sinónimo de Medo.

José Gomes Ferreira
De «Lírios do Monte», 1918

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“Desconfiai”, poema de Bertolt Brecht.

05.07.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Desconfie do mais trivial
na aparência do singelo
examine sobretudo
o que parece habitual.
Suplico expressamente
não aceite o que é de hábito
como coisa natural.
Pois em tempos de desordem
sangrenta
de confusão organizada
de arbitrariedade consciente
de humanidade desumanizada
nada deve parecer natural
ou impossível de mudar.”

Bertolt Brecht (1898-1956)
Leituras Livres

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“Imagem”, de Miguel Torga.

27.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este é o poema duma macieira.
Quem quiser lê-lo,
Quem quiser vê-lo,
Venha olhá-lo daqui a tarde inteira.

Floriu assim pela primeira vez.
Deu-lhe um sol de noivado,
E toda a virgindade se desfez
Neste lirismo fecundado.

São dois braços abertos de brancura;
Mas em redor
Não há coisa mais pura,
Nem promessa maior.

Vila Nova, 4 de Abril de 1936
in Diário I

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“Lentos nos fomos esquecendo”, de Fernando Echevarría.

26.05.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lentos nos fomos esquecendo. Quando
o tempo da velhice nos foi vindo
a tez apareceu amorenada de anos
e afeita ao espírito.
A lavoura sabia aos nossos passos.
Até os desperdícios
iluminavam debilmente o armário
e a penumbra dos rincões escritos.
Mas nós só estávamos
em nos havermos esquecido.
Ou, às vezes, a aura do trabalho
quase fazia com que na mesa o sítio
aparecesse coroado de anos
sobre a mão a mover-se pelo seu próprio espírito.

Fernando Echevarría, in “Figuras”

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