Cesário Verde – “Desastre”
10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
José Joaquim Cesário Verde (Lisboa, 25 de Fevereiro de 1855 — Lumiar, 19 de Julho de 1886) foi um poeta português, sendo considerado um dos precursores da poesia que seria feita em Portugal no século XX.
10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ele ia numa maca, em ânsias, contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.
A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.
Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: “Homem não desfaleça!”
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.
Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.
Viam-se os quarteirões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: “Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!” Ele já não gemia.
Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
“Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!”
Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!
Um fidalgote brada a duas prostitutas:
“Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!”
Bisonhos, devagar, passeiam recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.
Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.
Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.
Gastara o seu salário – oito vinténs ou menos-,
Ao longe o mar, que abismo! e o sol, que labareda!
“Os vultos, lá em baixo, oh! como são pequenos!”
E estremeceu, rolou nas atracções da queda.
O mísero a doença, as privações cruéis
Soubera repelir – ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.
Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: “Aonde irás, ministro!
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?”
E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
– Conservador, que esmaga o povo com impostos-,
Mandava arremessar – que gozo! estar solteiro!
Os filhos naturais à roda dos expostos …
Mas não, não pode ser… Deite-se um grande véu …
De resto, a dignidade e a corrupção … que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.
E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O Inverno estava à porta e as obras atrasadas.
E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
“Morreu! Pois não caísse! Alguma bebedeira!”
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Camilo Almeida Pessanha (Coimbra, 7 de Setembro de 1867 — Macau, 1 de Março de 1926) foi um poeta português.
É considerado o expoente máximo do simbolismo em língua portuguesa, além de antecipador do princípio modernista dafragmentação.
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno…
Mas sinto me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo…
Eu não sei que mudança a minha alma pressente…
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A dor, forte e imprevista,
Ferindo-me, imprevista,
De branca e de imprevista
Foi um deslumbramento,
Que me endoidou a vista,
Fez-me perder a vista,
Fez-me fugir a vista,
Num doce esvaimento.
Como um deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Fez-se em redor de mim.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso …
Que delícia sem fim!
Na inundação da luz
Banhando os céus a flux,
No êxtase da luz,
Vejo passar, desfila
(Seus pobres corpos nus
Que a distância reduz,
Amesquinha e reduz
No fundo da pupila)
Na areia imensa e plana,
Ao longe, a caravana
Sem fim, a caravana
Na linha do horizonte,
Da enorme dor humana,
Da insigne dor humana …
A inútil dor humana!
Marcha, curvada a fronte.
Até ao chão, curvados,
Exaustos e curvados,
Vão um a um, curvados,
Os seus magros perfis;
Escravos condenados,
No poente recortados,
Em negro recortados,
Magros, mesquinhos, vis.
A cada golpe tremem
Os que de medo tremem,
E as pálpebras me tremem
Quando o açoite vibra.
Estala! e apenas gemem,
Pavidamente gemem,
A cada golpe gemem,
Que os desequilibra.
Sob o açoite caem,
A cada golpe caem,
Erguem-se logo. Caem,
Soergue-os o terror …
Até que enfim desmaiem,
Por uma vez desmaiem!
Ei-Ios que enfim se esvaem,
Vencida, enfim, a dor …
E ali fiquem serenos,
De costas e serenos …
Beije-os a luz, serenos,
Nas amplas frontes calmas,
Ó céus claros e amenos,
Doces jardins amenos,
Onde se sofre menos,
Onde dormem as almas!
A dor, deserto imenso,
Branco deserto imenso,
Resplandecente e imenso,
Foi um deslumbramento.
Todo o meu ser suspenso,
Não sinto já, não penso,
Pairo na luz, suspenso
Num doce esvaimento.
Ó Morte, vem depressa,
Acorda, vem depressa,
Acode-me depressa,
Vem-me enxugar o suor,
Que o estertor começa.
É cumprir a promessa.
Já o sonho começa …
Tudo vermelho em flor …
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu vi o Mundo,
Que de muito contraste é feito…
Nos olhos de uma criança,
Nas asas de uma borboleta,
Numa praia deserta,
Numa cidade iluminada,
Numa boca amordaçada,
Num rosto com mágoa,
Nas linhas de um jornal diário,
Numa mensagem de correio,
Numa paragem do metro,
Num semáforo,
Numa esquina,
Num beco sem saída,
Algures no tempo e num lugar,
Eu vi o Mundo, eu vi .
De tanta coisa que eu já vi,
Uma lição eu aprendi,
Nada no Mundo é perfeito,
Mas valerá a pena, por certo,
Estar vivo e sentir-me um ser eleito,
Por viver com convicção,
Por sentir que a fé e a alegria
Não morrem no meu coração,
Por fazer alguém feliz,
Por ter uma família amiga,
Por ter saúde e lutar,
Por uma vida honesta e sadia,
Por uma noite bem dormida,
Ou simplesmente,
Por poder hoje espreitar a lua,
Da janela de meu quarto,
Numa noite de luar…
Basta-me apenas por isso,
Abrir os olhos e as portas da alma,
Deixar o sentido da vida,
Entrar por meus poros, bem desperto,
Saber-me num macrocosmos incompleto,
Mas saber e ter a certeza,
Que bem dentro do pequeno mundo que eu sou,
Vive a imagem de um Mundo melhor,
E que não quero este sonho jamais desfeito!
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O teu amor, querida,
Fez um dia de primavera
Neste começo de outono
Que é a minha vida.
E do ramo, de onde as primeiras folhas
Se soltavam pálidas, sem cor,
Surgiu uma flor imprevista:
O teu amor…
Teu amor chegou assim
Como uma coisa que no fundo se deseja
Mas não se espera,
Emocionando o coração, neste começo de outono
Como um dia de primavera!
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Gosto quando me falas de ti e te vou percorrendo
e vou descortinando a tua vida na paisagem sem nuvens,
cenário dos meus desejos tranquilos.
Gosto quando me falas de ti e então percebo
que antes mesmo de chegar, me adivinhas,
que ninguém te tocou, senão o vento
que não deixa vestígios, e se vai
desfeito em carícias vãs…
Gosto quando me falas de ti quando aos poucos a luz
vasculha todos os cantos de sombra, e eu só te encontro
e te reencontro em teus lábios, apenas pintados,
maduros,
mas nunca mordidos antes da minha audácia.
Gosto quando me falas de ti e muito mais adiantas
em teus olhos descampados, sem emboscadas,
e acenas a tua alma, sem dobras, como um lençol
distendido,
e descortino o teu destino, como um caminho certo, cuja
primeira curva
foi o nosso encontro.
Gosto quando me falas de ti porque percebo que te desnudas
como uma criança, sem maldade,
e que eu cheguei justamente para acordar tua vida
que se desenrola inútil como um novelo
que nos cai no chão…
(J.G. de Araújo Jorge,
do Livro “Quatro Damas”, 1a ed. 1965)
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quem me dera ser o vento:
tu, nua, receberias
nos teus seios meu alento.
Ou ser rosa:
a cortarias, no teu peito a deporias
como adereço opulento.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
Este homem que pensou
com uma pedra na mão
tranformá-la num pão
tranformá-la num beijo
Este homem que parou
no meio da sua vida
e se sentiu mais leve
que a sua própria sombra
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O João dorme … (Ó Maria,
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar … )
Tem só um palmo de altura
E nem meio de largura:
Para o amigo orangotango
O João seria … um morango!
Podia engoli-lo um leão
Quando nasce! As pombas são
Um poucochinho maiores …
Mas os outros são menores!
O João dorme … Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho …
E tu, Mãe! e tu, Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar …
O João dorme, o Inocente!
Dorme, dorme eternamente
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é …
Ó Mãe, canta-lhe a canção,
Os versos do teu Irmão:
«Na vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir …
Tudo vai sem se sentir».
Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho … até morrer!
E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo …
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João … ficarão menores!
Mas para isso, ó Maria!
Diz àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar…
E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem,
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio …
Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar …
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para o Mário Henrique
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra
Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos
Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Compraz-se Mariana com seu corpo.
O hábito despido, na cadeira, resvala para o chão onde as meias à pressa tiradas, parecem mais grossas e mais brancas.
As pernas, brandas e macias, de início estiradas sobre a cama, soerguem-se levemente, entreabertas, hesitantes; mas já os joelhos se levantam e os calcanhares se vincam nos lençóis; já os rins se arqueiam no gemido que aos poucos se tornará contínuo, entrecortado, retomado logo pelo silêncio da cela, bebido pela boca que o espera.
Que interessa então a Mariana as mãos que o encaminham? Se as suas que lhe descem lentas pelas ancas, se as dele que a largaram de improviso …
Quebra-se, pois, a clausura: pelos seios ele a tem segura a rasgar-lhe os mamilos com os dentes.
Quebra-se pois a clausura?
Recurva, tenso, o ventre: a língua entumescida. Dele a língua quente, áspera de saliva e o demorado sugar, rente, ritmado, a esvaziá-la devagar da vida.
Compraz-se Mariana com seu corpo, ensinada de si, esquecida dos motivos e lamentos que a levam às cartas e a inventam. – «Descobri que lhe queria menos do que à minha paixão (. .. ) – ei-Ia que se afunda em seu exercício. Exercício do corpo-paixão, exercício da paixão na sua causa.
Os olhos tem fixos, escancarados, no rosto dele presos, a inventá-lo em seus traços que de memória retém ou não sabe se os inventa, enquanto sobre o peito lhe descai, no movimento ritmado das coxas, a possuí-lo como macho – sente – e lhe vê os lábios crispados, se enterra mais nele, se empala num enorme prazer, no uivo de quem foge ou se dá. Dádiva em toda aquela obcecante conquista da dureza violenta do pénis: os dedos bem fundo perdidos na humidade viscosa da vagina, os ombros erguidos, a cabeça apoiada no travesseiro, os braços tensos como que para lhe reter os quadris estreitos que se movem na consenti da busca da voragem do útero.
«Sei como és daninha, mulher retomada do rio que esforças por calar nas veias, maligna. Na seda das nádegas, no odor abrasado das axilas. Terra, que a haustos respiro e formo com teu esperma, meu semen; tua amante-esposa não deixaste perdida nem lograda; eis como me entrego e me ofereço, me conduzo e te ensino até o jeito mais breve ou demorado para melhor gozo.
De pé agora te retomo, te cruzo, te possuo; minhas secreções já espessas, à mistura com as tuas, inundam-me as entranhas tão estéreis, herméticas, adormecidas.
Mariana deixa que os dedos retornem da vagina e procurem mais alto o fim do espasmo que lhe trepa de manso pelo corpo. A boca que a suga, a galga, é como um poço no qual se afoga consentida, ela mesmo a empurrar-se, enlouquecida, veloz.
Devagar meu amor, devagar o nosso orgasmo que contornas ou eu contorno com a língua. Devagar te perco de súbito, te esqueço, não sendo tudo mais que uma enorme vaga de vertigem.
E a noite devora, vigilante, o quarto onde Mariana está estendida. O suor acamado, colado à pele lisa, os dedos esquecidos no clítoris, entorpecido, dormente.
A paz voltou-lhe ao corpo distendido, todavia, como sempre, pronto a reacender-se, caso queira, com o corpo, Mariana se comprazer ainda.
Do livro “Novas Cartas Portuguesas” de autoria de Maria Isabel Barrento, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
de O Evangelho Segundo Jesus Cristo , Editorial Caminho, Lisboa, 1991.
[…]
como te chamas,
Jesus, foi o que respondeu, e não disse de Nazaré, porque já antes o tinha declarado,
como ela, por ser aqui que vivia, não disse de Magdala, quando, ao perguntar-lhe ele, por sua vez nome, respondeu que Maria.
Com tantos movimentos e observações, acabou Maria de Magdala de fazer o penso ao pé dorido de Jesus, rematando-o com uma sólida e pertinente atadura,
Aí tens, disse ela.
Como te devo agradecer, perguntou Jesus, e pela primeira vez os seus olhos tocaram os olhos dela, negros, brilhantes como carvões de pedra, mas onde trespassava, como uma água corresse, uma espécie de voluptuosa velatura que atingiu em cheio o corpo secreto de Jesus.
A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço,
e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais,
e Jesus, Não esquecerei a tua bondade,
e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti,
Porquê, sorriu a mulher,
Porque és bela,
Não me conheceste no tempo da minha beleza,
Conheço-te na beleza desta hora.
O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se,
Sabes quem sou, o que faço, de que vivo,
Sei,
Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo,
Não sei nada,
que sou prostituta,
Isso sei,
Que me deito com homens por dinheiro,
Sim,
Então é o que te digo, sabes tudo de mim,
Sei só isso,
A mulher sentou-se junto dele, passou-lhe suavemente a mão pela cabeça, tocou-lhe na boca com a ponta dos dedos,
Se queres agradecer-me, fica este dia comigo,
Não posso,
Porquê,
Não tenho com que pagar-te,
Grande novidade,
Não te rias de mim,
Talvez não creias, mas olha que mais facilmente me riria de um homem com a bolsa cheia,
Não é só a questão do dinheiro,
Que é, então.
Jesus calou-se e voltou a cara para o lado.
Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera.
Fez-se silêncio, tão denso e profundo, que parecia que apenas os dois corações soavam,
mais forte e rápido que o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação.
Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad.
A mulher sorriu e ficou calada.
Depois Jesus disse. Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim.
A mulher sorriu de novo, mas não falou.
Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher.
Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu,
Queres tu ensinar-me,
Para que tenhas de agradecer-me outra vez,
Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te,
E eu nunca acabarei de ensinar,
Maria levantou-se, foi trancar a porta do pátio, mas primeiro dependurou qualquer coisa do lado de fora, sinal que seria de entendimento, para os clientes que viessem por ela, de que se havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar,
Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio-dia, sopra no seu jardim e coma dos seus deliciosos frutos.
Depois, juntos, Jesus amparado, como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de Magdala que o curou e o vai receber na sua cama,
entraram em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco e limpo.
A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamono.
Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxilio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas anca, de um lado e do outro.
Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele.
Não tenhas medo, disse Maria de Magdala.
Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama,
Deita-te, eu volto já.
Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa,
o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua.
Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa.
Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse,
És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos.
Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão:
As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela,
mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro,
Aprende, aprende o meu corpo.
Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia,
Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.
Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção, uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento.
Não aprendeste nada, vai-te, dissera o Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida.
Agora Maria de Magdala ensinara-lhe,
Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, e ele ai o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia,
Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti,
então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando,
impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito.
[…]
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
“Le poète a fini sa tâche”
Paul Verlaine
O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.
A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.
O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.
O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
«The riches of the poet are equal to is poetry
Delmore Schwartz
A mão direita do poeta é pesada
mas flutua sobre as nossas cabeças
como a água que derrama
claridade sobre a mesa, a mão
direita do poeta é a sua riqueza.
A mão direita do poeta puxa
o mundo para cima, o poeta sonha
com a sua mão direita.
Quando o vento agita cortinas na janela
e põe gelo nos vidros, a mão direita
do poeta conta a mais pequena sílaba,
o gelo do vento nos vidros
é um gume de silêncio.
Não é frívola, preciosa, ou fraca
é apenas a mão direita
do poeta, poderosa
mão cega excepto para deter
a redonda ternura
de uma lágrima.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
As COISAS passaram-se assim: meu avô
teve um desgosto de amor, quis matar-se.
Atirou-se do Castelo de S. Filipe
mas não se marou, ficou ali, primeiro
a gemer e depois inconsciente, julgava
que rinha morrido. Um pastor de ovelhas
encontrou-o e levou-o para o hospital.
No hospital meu avô percebeu
que não rinha morrido, a irmã da regente
interessou-se por ele e casaram.
Do casamento nasceram três filhos,
meu pai foi um deles. Sou portanto neto
do acaso e o acaso é o meu pai.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.
a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.
há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali,
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: – morrer ou não morrer, darling, ah, sim.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista
tanto canário, tanto grilo,
tanto gorjeio, tanto trilo
que de promessas se guarnece:
um mundo e outro, isto e aquilo,
e o povo tem o que merece.
vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,
de galho em galho ser artista,
e armar o estado em crocodilo.
voracidade? era do estilo.
economia? ai que arrefece!
vi portugal vendido ao quilo
e o povo tem o que merece.
vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,
já sem alface nem alpista
e já sem grão dentro do silo,
secou a teta e o mamilo,
chegou a hora, chega o stress.
há vários anos que eu refilo,
e o povo tem o que merece.
senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse
e o povo tem o que merece.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Variações sobre um fado
Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
figas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar jornais,
ou cartas, de amizade um pouco
– tanto pó sobre os móveis tua ausência.
Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.
Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta … »
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.
Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.
Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Encontraram-se num jardim num dia aprazado
Um dia final, de um mês qualquer.
Ela riu:
– Estás ridículo nesse fato. Mas era o combinado.
Ele disse:
– E tu és só camisola e gola alta. Como tinhas prometido.
Sentaram-se num banco ao acaso
Porque o acaso os juntara
No acaso caminharam
E o acaso os levara àquele banco, áquele jardim
Onde trocando vidas riram dos sucessos e riram dos fracassos
E riram dos medos e das perdas
E das esperanças e das desilusões
Ele apertado num fato caro, a viola ao lado
Ela camisola de gola alta e caneta na mão.
Trocaram também silêncios porque a amizade
Não é só feita de palavras
Mas de compassos
De dar tempo ao tempo
De sabe esperar.
Ela disse:
– Anoiteceu, está lua cheia! Como tínhamos combinado.
Ele respondeu:
– Pedi hoje à lua o brilho como te tinha prometido.
E juntos caminharam até à ponte acordada
Onde entoaram trovas à lua
Cantos de vida
Gritos de revolta
Ele de fato novo e uma viola que ria
Ela de gola alta e caneta arma na mão.
E a noite era deles, porque única, prometida
Porque era a noite de rindo de si
Rir da vida
Porque era a noite de soltar pranto
Grito e voz.
E a cidade parou para ouvir o canto
E a cidade surpresa olhou com espanto
Quem ousava quebrar o silêncio da cidade morta
Quem se suspendia na ponte que separa as margens
Entre a vida igual e a vida prometida.
E em baixo o rio era corrente contínua
Nunca antes quebrada, inalterável, monótona.
E na ponte prometida olharam a corrente
E na ponte prometida deram um passo em frente
Ele de fato novo, ela de gola alta.
E no dia seguinte a cidade viu assombrada
No rio parado que separa as margens contínuas da vida
Um fato novo que tocava uma guitarra
E uma camisola cara empunhando uma caneta e dizendo palavras
inauditas.
Nunca se encontrou quem a roupa vestiu
Quem no banco do acaso ao acaso se sentou
Quem com um passo em frente ousou rindo da vida
Rindo de si
Parar o rio
Quebrar as correntes
Estender a mão
E guardar liberdade.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Podia escrever,
(Se para ai estivesse virada ou tal coisa me apetecesse).
As palavras de amor mais belas,
Que altaneiras como caravelas,
Vogariam no mar de encontros e desencontros que é o amor.
E ficar vendo da minha janela,
As minhas,
E outras palavras-caravela,
Tomando rumo e partir.
Ou poderia em vez disso inventar um novo desporto,
E tentar da minha janela
Ou de um local qualquer do porto,
De onde partem todas as palavras de amor,
(Que sei que existe mas não onde fica).
Todas as palavras têm um porto
Onde permanecem,
Até que prontas podem partir.
E eu escondida,
Á janela ou num canto do porto,
Dispararia para as velas das palavras-caravela
Com uma daquelas espingardas de chumbos com que brincava em criança,
E uma a uma vê-las-ia afundar.
E uma a uma vê-las-ia sucumbir.
Mas sei que por cada palavra que afundasse uma outra surgiria
E não teria mãos nem chumbos,
Para todas fazer naufragar.
Ah…. Tanta palavra de amor se sente e se escreve.
Que a única paisagem que vejo da minha janela,
São palavras-caravela
Procurando um rumo,
Procurando um nome.
O nome que sonha
Quem no mar as lançou.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Desarme suas queixas.
Seja forte!
Sufoque os medos
adjacentes.
Revele a mentira
verossímil
dos pensamentos
mórbidos.
Experimente o gosto
do seu gozo!
Sinta a carne trêmula
sob seu nervo teso.
Mostre seu sorriso
agridoce que saliva
veneno e fale…
Fale mentiras!!!
Preciso ouvir suas
verdadeiras mentiras…
para desvendar…
seu gosto.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Também as pedras morrem, disse Vieira
a pensar na eternidade do ser.
Aqui são mais humanas as pedras
no seu rosto inclinado para o sofisma
da água.
Miram-se nela mas não são seduzidas
pela sua passagem;
uma passagem volúvel de quem tem o mar à espera
como um sonho previsto
na loucura encrespada de algum barco.
Os homens servem-se delas para os seus aparatos;
não as deixam limpas no seu pensar
– terrível – e que obrigou Vieira
a dar-lhes sangue
para que nada faltasse ao sacrifício.
Trago de cor a sua vermelha companhia.
E obedeço.
Pisei-as como convém ao meu destino
de pequena coisa transumante.
Não me baixei para elas num beijo
de suborno.
Agora descrevo-as como posso e quero.
Pedras mortais
que se tornam mentais
e são a substância de um panorama surdo,
espessa melancolia,
a solidez da ausência que esmaga
o desespero.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
António Patrício (Porto, 7 de Março de 1878 – Macau, 4 de Junho de1930) foi um escritor e diplomata português.
Em 1908 conclui o curso de Medicina na Escola Médica do Porto. No ano de 1911 ingressa na carreira diplomática ao ser nomeado cônsul em Cantão, falecendo no ano de 1930, em Macau, quando ia tomar posse como ministro de Portugal emPequim. A sua obra foi profundamente marcada pelas influências de Nietzsche, Maeterlinck e D’Annunzio, bem como pelas correntes literárias do simbolismo, do decadentismo e do saudosismo.
Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma? …
Anda a saudade do teu corpo (sentes? .. )
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado … »
É o teu corpo em sombra esta saudade …
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios~sombra:
a luz do seu olhar é escuridade …
Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra …
Vês?! A saudade é um escultor antigo!
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para
o alto mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal
[sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando~as ao pescoço como cintos
[de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais
[e cada vez mais alto
até chegarem à orla do inferno chorarem
[as últimas lágrimas e partirem de vez.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Lobo das Estepes sou, errando, errando,
Em volta a neve, na vastidão do mundo,
O corvo na bétula abre as asas para voar
Mas nem lebre ou corça vejo para amar!
As corças trazem-me tão enamorado,
Uma que fosse, não mais, desejo ver!
Tomá-la-ia nas mãos, nos dentes,
Oh! maravilha sem fim, igual não pode haver.
Amá-la-ia de todo o coração,
A sua carne delicada seria meu alimento,
O seu sangue vermelho-vivo minha bebida
E depois ulularia solitário pela noita adentro.
Uma lebre só, não mais queria,
Como é doce a sua carne quente na noite fria
Ah! ter-se-ão apartado para longe de mim
As coisas que dão encanto e sabor à vida?
O pêlo da minha cauda vai sendo grisalho
Os olhos também já não me deixam ver bem
Já há muito morreu a minha esposa amada.
E agora, só e errante, com corças sonho,
Ando só e errante, com lebres sonho,
Ouço o vento soprar na noite de Inverno,
De neve sacio a minha goela ardente,
E a minha pobre alma ao diabo entrego.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Do berço ao esquife
distam cinquenta anos,
depois começa a morte.
Tornamo-nos imbecis, embrutecemos,
tornamo-nos labregos, desleixamo-nos
e os cabelos vão para o diabo.
Também os dentes damos por perdidos
e em vez de, em deleite,
apertarmos uma moça contra o peito,
lemos um livro de Goethe.
Mas uma vez mais, antes do fim,
quero ter uma dessas pequenas
de olhos claros e caracóis encrespados,
tomá-la nas minhas mãos,
beijar-lhe boca, seios e face,
despir-lhe saia e calcinhas.
E depois, em nome de Deus,
a morte pode levar-me. Ámen.
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Dizes que tudo é muito simples e interessante
Isso torna me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
Estou tão aborrecido
É quase como ver um mau filme
Se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
Valha nos deus que não é nada do coração
Nada relacionado com gente mais interessante do que eu
Yak yak
Que pensamento divertido
Como pode alguém ser mais divertido que o próprio
Como pode alguém não ser
Podes emprestar me o teu quarenta e cinco
Só preciso de uma bala de preferência de prata
Se não se pode ser interessante pelo menos que seja uma lenda
(mas odeio esta trampa toda)
(tradução de José Alberto Oliveira)
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO.
(Este poema encontra se hoje gravado em placa de bronze, na sede da ONU (Organização das Nações Unidas). Este mesmo poema foi publicado numa colectânea sobre a paz editada pela ONU e distribuída em todo mundo.)
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10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cálida,
a noite vem nos teus olhos
quando a lua se descobre
e a promessa dos teus beijos
me estremece.
As tuas mãos,
que não tocaram meu corpo nestes dias sem tempo,
viajam no sonho e nas palavras,
florescendo no corpo húmido que se agita no desejo.
Desvendo os sons sentidos no silêncio
e neles quebro meu olhar que se espraia no horizonte,
como nuvem em dia de chuva.
Embalo-me como estrela cadente
ritmada em suave toque,
onde te imagino
percorrendo-me, gota a gota,
sorvida calidamente no desejo dos
teus lábios sôfregos,
que circulam em cada pedaço da
[minha pele … ]
És.
Sou.
Imaginação
e
Fim.
(Do livro “Menina Marota – Um desnudar de alma”)
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