Jorge Luís Borges – “O Mar”

05.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo (Buenos Aires, 24 de agosto de 1899 — Genebra, 14 de junho de 1986) foi um escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta, argentino.

Antes que o sonho (ou o terror) tecera
mitologias e cosmogonias,
antes que o tempo se cunhasse em dias,
o mar, sempre o mar, já estava e era.
Quem é o mar? Quem é o violento
e antigo ser que destrói os pilares
da terra, e é só um e muitos mares,
e abismo e resplendor e azar e vento?
Quem o olha vê-o pela vez primeira,
sempre. Com o assombro tal que as coisas
elementares deixam, as formosas
tardes, a lua, o fogo da fogueira.
Quem é o mar, quem sou? Sei-o no dia
que virá logo após minha agonia.

(tradução de José Bento)

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Hélder Macedo – “Os laços…”

05.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hélder Malta Macedo (Krugersdorp, África do Sul, 30 de Novembro de 1935) é um poeta, romancista, ensaísta, crítico e investigador literário, português. A sua obra ficcional, destaca-se o romance Partes de África (1991).

Os laços lentamente deslaçados
ergo o meu canto sem razão nem regra
ao mundo sem fronteiras que me afronta.
O rosto que compus já não comporta
o fogo original que aprisionou.
Falso destino meu que me guiaste
além de onde é possível fingimento,
se a alma gretaste de raízes ocas,
às verdadeiras que já não comando,
deste o caminho que tinha vedado.
E sei agora, que me desconheço,
que só inteiro poderei voltar
ao fértil todo amorfo donde vim.

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Else Lasker-Schüler – “Uma canção”

05.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por detrás dos meus olhos há águas
Tenho de as chorar todas.

Tenho sempre um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

Respirar cores com os ventos
Nos grandes ares.

Oh, como estou triste…
O rosto da lua bem o sabe.

Por isso, à minha volta há muita devoção aveludada
E madrugada a aproximar-se.

Quando as minhas asas se quebraram
Contra o teu coração de pedra,

Caíram os melros, como rosas de luto,
Dos altos arbustos azuis.

Todo o chilreio reprimido
Quer jubilar de novo

E eu tenho um desejo de me elevar voando,
E de partir com as aves migratórias.

(1917)
(Tradução de João Barrento)

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Fernando Pessoa – “Acordo de noite subitamente”

03.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordo de noite subitamente.

E o meu relógio ocupa a noite toda.

Não sinto a Natureza lá fora,

O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.

Lá fora há um sossego como se nada existisse.

Só o relógio prossegue o seu ruído.

E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa

Abafa toda a existência da terra e do céu…

Quase que me perco a pensar o que isto significa,

Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,

Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa

É a curiosa sensação de encher a noite enorme

Com a sua pequenez… 



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Wislawa Szymborska – “Alguns Gostam de Poesia”

03.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Alguns gostam de poesia.
Alguns –
quer dizer nem todos.
Nem a maioria de todos, mas a minoria.
Excluindo escolas, onde se deve
e os próprios poetas,
serão talvez dois em mil.

Gostam –
mas também se gosta de canja de massa,
gosta-se da lisonja e da cor azul,
gosta-se de um velho cachecol,
gosta-se de levar a sua avante,
gosta-se de fazer festas a um cão.

De poesia –
mas o que é a poesia?
Algumas respostas vagas
já foram dadas,
mas eu não sei e não sei, e a isto me agarro
como a um corrimão providencial.

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Zila da Costa Mamede – “Banho (rural)”

26.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Zila da Costa Mamede (1928-1985) foi uma importante poeta e bibliotecária brasileira. Nasceu em Nova Palmeira, Paraíba, e viveu grande parte de sua vida no Rio Grande do Norte, onde desenvolveu o seu trabalho.

De cabaça na mão, céu nos cabelos
à tarde era que a moça desertava
dos arenzés de alcova. Caminhando

um passo brando pelas roças ia
nas vingas nem tocando; reesmagava
na areia os próprios passos, tinha o rio

com margens engolidas por tabocas,
feito mais de abandono que de estrada
e muito mais de estrada que de rio

onde em cacimba e lodo se assentava
água salobre rasa. Salitroso
era o também caminho da cacimba

e mais: o salitroso era deserto.
A moça ali perdia-se, afundava-se
enchendo o vasilhame, aventurava

por longo capinzal, cantarolando:
desfibrava os cabelos, a rodilha
e seus vestidos, presos nos tapumes

velando vales, curvas e ravinas
(a rosa de seu ventre, sóis no busto)
libertas nesse banho vesperal.

Moldava-se em sabão, estremecida,
cada vez que dos ombros escorrendo
o frio d’água era carícia antiga.

Secava-se no vento, recolhia
só noite e essências, mansa carregando-as
na morna geografia de seu corpo.

Depois, voltava lentamente os rastos
em deriva à cacimba, se encontrava
nas águas: infinita, liquefeita.

Então era a moça regressava
tendo nos olhos cânticos e aromas
apreendidos no entardecer rural.

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Fernando Esteves Pinto – “A ausência…”

25.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A ausência é um desejo do silêncio.
Um encontro incomunicável do corpo com as coisas.
Como escutar os sons do leite na profundidade dos seios.
Libertas o pensamento lentamente à espera do dia.
Vem das sombras crescendo o lugar da dúvida.
Dos olhos começa a distância do caminho.
Aqui nasce o tremor das pálpebras,
os anéis da claridade lenta.
A legibilidade fria do vazio.
Através do contacto físico do corpo
subsiste a impenetrável construção do poema.

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Fernando Esteves Pinto – “Começamos…”

25.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Começamos por abandonar as palavras,
mas nunca aquilo que pensamos.
O pensamento incendeia-se no silêncio, faz o seu trabalho.
Aceitamos e rejeitamos e é isso que constrói o pensamento.
É neste equilíbrio que permanecemos.
Estar imóvel é ir além do lugar onde estamos,
olharmo-nos de lá para cá, de dentro para dentro.
Abandonamos as palavras, mas nunca o pensamento

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Fernando Esteves Pinto – “Ele abre um livro”

25.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ele abre um livro
e com um sopro trémulo transforma as palavras
em lugares luminosos.
Ele faz caminhar o fértil desejo
por uma rua da sua cidade.
Ou fecha-se em casa como um bicho de contas
redondo e imóvel, desafiando lentamente
os tempos luxuriantes,
os largos silêncios que lhe fecham todas as portas.

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Judith Teixeira – “Outonais”

25.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No meu peito alvo, de neve,

as claras pétalas dos teus dedos,

finas e alongadas,

tombaram como rosas desfolhadas

à luz espásmica e fria

deste entardecer…

E o meu corpo sofre,

ébrio de luxúria, um mórbido prazer!

A cor viva dos teus beijos,

meu amor,

prolonga ainda mais o meu tormento,

na trágica dor

deste desvestir loiro e desolado

do Outono…

Repara agora, como o sol morre

num agónico sorrir

doloroso e lento!…
Noite… um abismo…

sombras de medo!

Tumultuam mais alto os teus desejos!

Sobe o clamor do meu delírio

e a brasa viva dos teus beijos,

num rúbido segredo,

vai-me abrindo a carne em sulcos de martírio!

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Victor Hugo – “O homem pensa…”

23.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Victor-Marie Hugo (1802 — 1885) foi um novelista, poeta, dramaturgo,ensaísta, artista, estadista e activista pelos direitos humanos francês de grande atuação política em seu país. É autor de “Les Misérables” e de “Notre-Dame de Paris”, entre diversas outras obras.

O homem pensa.
A mulher sonha.
Pensar é ter cérebro.
Sonhar é ter na fronte uma auréola.
O homem é um oceano.
A mulher é um lago.
O oceano tem a pérola que embeleza.
O lago tem a poesia que deslumbra.
O homem é a águia que voa.
A mulher, o rouxinol que canta.
Voar é dominar o espaço.
Cantar é conquistar a alma.
O homem tem um farol:
a consciência.
A mulher tem uma estrela:
a esperança.
O farol guia. A esperança salva.
Enfim, o homem está colocado
onde termina a terra.
A mulher, onde começa o céu!…

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Eduarda Chiote – “Os passos da Poesia”

20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deslizas pela delicadeza
com teus pés magoados.
Por que caminhas agora sobre vidros,
por que exiges de ti essa aguda cautela?
Os céus teriam sido a morada, as areias finas
do nosso desencontro?
Soubera-o eu e ter-te-ia ajudado a não descalçar os sapatos.
As meias também.
Deixar-te ficar com elas, durante o amor,
tem sido (foi sempre) um motivo de deleite.
De carinho.
Uma inclinação natural
de proteger-te.
Se te pintara, numa imensa e clara tela, começaria
por essa mancha: estremecida.
Estremecida!
Ia jurar que nunca te apercebeste de como posso,
em discrição, exceder-lhe os pormenores
– convocar o fascínio,
a cor, a textura; pressagiar-lhe os passos de um suor doloroso.
Por que permiti, então, o caminhares por lugares
penosos?
Não mo perdoo.
Agora que os aperfeiçoas na fuga, espero bem poder acolhê-los
como pombas,
lavar-tos com a imaginação perfumada
das nuvens,
o olhar atento ao delicado equilíbrio, no quadro,
da moldura.
Anunciavam já, no tempo em que ao meu encontro
corriam, esse enredo de minuciosas
dores? – Quais? As de viver? O competente espaço
onde os acolho para a frescura da relva
por nascer?

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Eduarda Chiote – “Cantiga de Amor”

20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

rosa_sete13

Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.

Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.

Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.

Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada
ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.

Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o Poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o Poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.

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António Manuel Couto Viana – “Confissão Pública”

20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24 de Janeiro de 1923 – Lisboa, 8 de Junho de 2010) foi um encenador, tradutor, poeta, dramaturgo e ensaísta português. Tem mais de uma centena de livros publicados e a sua poesia está traduzida em francês, inglês, espanhol e chinês.

Dizem de mim que sou poeta,
Que escrevo versos com pudor,
Sem revelar a voz secreta
Para ninguém a ter de cor.

Que me contento co’a discreta
Fama exigida plo censor
E uso a caneta do esteta
Pra disfarçar o amor e a dor.

Tudo é verdade e é mentira
(A vida é esta condição),
Embora a alma me prefira

Entre o pecado e o perdão,
Pra o singular da minha lira
Do lado oposto ao coração.

(foi meu “ensaiador” de Teatro na Escola Comercial Veiga Beirão)

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Rogério Martins Simões – “Em Sonho me Dependurei no Luar”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em sonho me dependurei no luar.
O luar quis acordar os nossos cios.
Ali estavas, desnudada no meu olhar,
Encandeando meus olhos luzidios.

Os sonhos soçobram ao acordar…
O luar distende o sonho em atavios.
Ai!, sereia espraiada no meu mar,
Esperando as águas dos meus rios…

Luar!, tapa-me os olhos e os dias:
Antes cego, que acordar e não ter,
Do que ver, e não ter o que vias….

Prendo, no sono, o sonho para te ver,
Fico cego se em mim não te sentir,
Fios de seda – não te deixem partir!

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Rogério Martins Simões – “Eternidade”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando tu e eu saltávamos em andamento,
Numa corrida estreita, para a existência,
Havia um brilho, intenso, que cegava a escuridão externa.
 
Falávamos em língua redonda,
Imperceptível,
Que nos deixava latejar à distância do universo das palavras.
Éramos nada!
Éramos tudo!
Frequentávamos os mesmos colégios ricos,
Onde a riqueza se media pelo contágio,
Em resultado das vidas passadas.
 
Fazíamos parte de um grupo,
Sem forma,
Grandes aos sentidos,
E sabíamos que iríamos viajar em busca da luz.
Éramos uma luz ténue…
E procurávamos um brilho permanente.
 
Entrámos por uma porta estreita
Onde formas sem luz
Reproduziam uma língua quadrada,
Sem nexo, herança de uma Torre de Babel,
Que tivemos de aprender.
 
Estamos a ficar cansados!
Não importa…
Tomámos o caminho recto e certo
E partiremos na luz…
 
Falta pouco meu amor.
Uma eternidade nos espera…
 
Lisboa, 30 de Abril de 2009

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Rogério Martins Simões – “Voltei”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Aparado em dado momento
No ventre de uma mulher!

Meu corpo é magistral!
Brutal! Perfeito! Soberbo!
De inicio não era verbo
Agora sou o verbo ser

Tenho comigo segredos
Segredos do Universo
Transporto no corpo recados
Escrevo em forma de versos.
Venho dos limites do tempo
Não sei o que fui e sou:
Deserto? Nascente?
Já fui Norte, já fui Sul
Pó astral, mar azul!
Luar, estrela cadente.

Eu vou-me.. vou partir!
Partirei num cometa qualquer
E serei novamente pôr-do-sol.
cor-de-rosa, aloendro, malmequer!

Voltei…Já cá estou
Agora sou pensamento
Nascido em dado momento
Do ventre de uma mulher!

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Rogério Martins Simões – “Quisera andar de Carrossel”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quisera andar de carrossel
Com um sorriso de criança que ri
Rosto rebuçado, melaços de mel
Laivos da festa que resta em ti…

Num dedo prendo o balão,
Com outro seguro o corcel
Soco a bola com a mão
As mãos, o rosto e a testa
Besunto-me todo com mel.

Solta-se dos dedos o balão
Que voa a caminho do céu
-Mãe! Vai-me apanhar
Um sorriso igual ao seu…

-Meu filho a mãe não sabe!
Ler, nunca aprendeu:
A mãe vai procurar
O balão que se perdeu…

-Mãe que sabe escutar,
Meus choros em seu coração
Abençoada o seja minha mãe
Por tudo o que foi e me deu!

Rodopiam as lembranças da festa
Pára o movimento ondulante
Sujo-me de novo a cada instante…
Sem rebuçados com sabor a mel
Mas… Brinquei tanto no carrossel….

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Afonso Duarte – “Campo”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este verde impossível de se ver,
Que alegre o camponês cultiva o prazo,
Não dá sequer para me aborrecer
Na extensão sem fim do campo raso.

Sem fim, a vida, deixa se correr
Lisa e fatal, serena, sem acaso.
E acontece o que tem de acontecer
Como quem já da vida não faz caso.

Nada se passa aqui de extraordinário:
Tudo assim, como peixe no aquário,
Sem relevo, sem isto, sem aquilo;

Muito bucólico a favor da besta,
O campo, sim, é esta coisa fresca…
Coaxar de rãs, a música do estilo.

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Ana Hatherly – “Balada do país que dói”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

doi13O barco vai

o barco vem

português vai
português vem

o corpo cai
o corpo dói

português vai
português cai

o barco vai
o barco vem

português vai
português vem

o país cai
o país dói

o tempo vai
o tempo dói

português cai
português vai
português sai
português dói

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Fernando Namora – “Veio o estio, Cacilda”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Chiar de bois,
milho amarelo,
suor na gente,
sestas na terra,
poços sem água,
os dias grandões!

Veio o estio, Cacilda!

Leva ao monte o almoço do teu home
e beija-lhe a testa suada
se ainda souberes!

Olha o campo doirado,
as espigas inchadas,
os pássaros no figo,
os moscardos no gado,
os meninos despidos!

Veio o estio, Cacilda!
Guarda o sono para o inverno
que é preciso encher o lar!

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Cláudio Neves – “O cão”

19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O cão que juntos vimos numa esquina.
O peixe que agonizava à nossa frente.
A onda na direção de nossas filhas,
a quem pedimos não quebrasse sobre elas.

O cacto que te comprei na feira
e que te faz sorrir
quando o entrego
ainda hoje nos meus pensamentos.

Tudo isso farei eterno,
se me confias teu corpo sem ruído,
se sufocas teu grito para que não nos ouçam
as crianças no quarto contíguo,
para que não descubra o tempo
o cão, a onda, o cacto,
teu corpo jugulado e inconsentido.

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Fang Tcheng Ta – “O Deus do Lar”

18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Poeta chinês (1128 – 1191)

No último dia da duodécima lua
o deus do Lar volta para o Céu
para contar o que viu cá na Terra.

Antes de o queimarem e em fumo o tornarem
toda a família lhe dá de comer
para que fique com o ventre farto.

Leitão bem assado, peixe mui gostoso,
bolos aloirados, frutos bem maduros,
o vinho um regalo, não se olha a despesas.

O deus do Lar esquece as querelas,
as palavras insolentes, as faltas de todos.
Sobe ao Céu bêbado e satisfeito.

O que é preciso depois é arranjar outro deus.

(tradução de António Ramos Rosa)

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Cristina Campo – “Teu nome…”

18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

tunica13

Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau…

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.

Ficou para trás, quente, a vida,
a marca colorida dos meus olhos, o tempo
em que ardiam no fundo de cada vento
mãos vivas, cercando-me…

Ficou a carícia que não encontro
senão entre dois sonos, a infinita
minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra
que transfiguravas o sangue em lágrimas.

Nem sequer um rosto trago
comigo, já traspassado em outro rosto
como esperança no vinho e consumado
em acesos silêncios…

Volto sozinha
entre dois sonos lá ’trás, vejo a oliveira
rósea nas talhas cheias de água e lua
do longo inverno. Torno a ti que gelas

na minha leve túnica de fogo.

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Egito Gonçalves – “Muda-se o tema”

18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Muda-se o tema, onde o mar começa.
A aventura é o mar ou essa forma
que se forma depois, que vai viver
na memória dos dias? De uma ilha lembro
onde o mar me levou e do conhecimento
várias portas me abriu. O oceano
começava antes, acabava depois, ali
só prosseguia, embalando-me em noites
de velame abatido, de fáceis ananases,
de alta mastreação tocada de saudade
lucilante como a esteira do luar.
Mais tarde soube que estava sem trabalho
pois não havia Índias nem de infantas
o prémio de um sorriso. Mas combates
havia para outros, torpedos e canhões
longe não andavam. Daquela guerra
eu só fingia ser. Ancorado veleiro
eu pensaria a ilha, verde como o slogan,
nela não enjoava como, sobre o mar,
me acontecia nos navios da Insulana.
Marinheiro, eu não era. O mundo antigo
vivia-se nos livros, reproduções offset
multiplicavam os atlas, alguns poetas
banhariam na Grécia os seus poemas. Eu,
estava ali, parado no tempo, onde
o mar começava e acabava, esperando
que na praça da Matriz o relógio do sono
badalasse o regresso.
A minha casa
estava a oriente, ali acabaria
para mim o mar, e só quando da praia
o visse, a imaginação poderia segredar-me
que os meus pés começava e da viagem
seria excluído. Um rosto sem segredos
que as marés negras adoecem, e me acena
quando o avião desce e os motores destroçam
um mar de nuvens que se desfaz e recomeça.

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Vitorino Nemésio – “Natal Chique”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
 
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
 
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado
Só esse pobre me pareceu Cristo.

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Vitorino de Nemésio – “Semântica Electrónica”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim … o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
… Mas … diz-me a ordenança …
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens…
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!

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Vitorino de Nemésio – “A Concha”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.

A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

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Vinícius de Moraes – “Mar”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.

Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.

E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.

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Vera Silva – “Voluptuosidade”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Invades-me a alma
Num beijo molhado
Que me aquece o corpo
E me leva à entrega absoluta.

Já não sei quem sou

Perco-me nas partículas
Que te cobrem, envolvem,
E abarco-te com volúpia
No íntimo de mim.

Já não sei onde estou

Em ondas uníssonas e ritmadas,
Entre gritos e gemidos,
Salivamos torrentes de amor
Que se quedam eternas.

Já não sei de mim

O colapso final surge
Entre ejaculações e contracções
E palavras de amor
No declínio da tensão.

Já não somos dois

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