Rui Diniz – “Ode aos declamadores”
21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não há poesia sem declamador.
É o declamador que faz a poesia; é ele quem constrói o mito,
é ele que lê o Ouro nas palavras que uns lêem vulgares,
outros nem tanto, seja em voz alta para os outros
ou para si em pensamento…
sim, porque não se pode declamar no pensamento?
Nada o impede.
Na ligação que tudo une, um pensamento faz a diferença!
Destrinça-se dos outros, marca a cadeia quiçá infinita
de rolantes modas, media e medianas…
Mas só um pensamento, dito ou pensado,
na pureza da postura de quem se faz mártir por opção
e decide ser veículo para o que tanto embebedou o poeta
pode ser marcante, pode de facto ser divino!
O declamador é como um ourives.
Ele labuta dentro de si os fios da sua própria existência
fundindo-os com os da existência de outrem
em jóias caras distribuídas a troco de nada.
O poeta dá o ouro cru, a pedra lascada,
o declamador dá tudo, a vida,
a voz, o pensamento, a alma
e no fim é quem fica com nada.
Fica com nada porque já de seu tinha dado tudo…
ao poeta.
O poeta é o mineiro,
o declamador é o artista.
Bem ditos sejam os artistas!
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20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A poesia está guardada nas palavras – e é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Prepondero a sandeu.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias:
(do mundo e nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma
rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei
também sabedoria mineral.
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20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Porque vieste? – Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta…)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!
Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança…
– Não sejas como o Amor!
É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!
De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar…
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!
Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento…
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!
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20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
doses de amargo
quebram as pétalas das flores
em agridoce semelhança com a vida
(mas ainda assim desigual)
pagar o dízimo
das contas de vidro perdidas
entre os dentes
e caídas
dos dedos senis e trémulos
o amor é uma construção permanente
o cimento que une o universo
e há mais metafísica
em olhares adolescentes apaixonados
(e seu brilho doentio)
do que nos arcanos
das esferas orbitais de Júpiter
e contornos oculares de Galileu
(suas derradeiras ferramentas)
o ósculo da matéria
cinco segundos antes da destruição total
nos revelará de vez
a verdadeira verdade
mas ai será tarde
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19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quero um homem
que toque minha alma,
que entre pelos meus olhos
e invada meus sonhos.
Quero que me possua inteira,
corpo e alma,
fazendo dos meus desejos
breves segundos de êxtase
o prazer do encontro total.
Quero sentir seus braços longos
envolvendo meu abraço,
seus lábios mudos
calando o meu silêncio
sem precisar nada dizer…
apenas me olhando
com olhos negros e húmidos
e me tomando devagar,
como o mar avança na praia,
como eu sei que tem que ser
e sei que um dia será.
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19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Teci teu rosto em minha memória
durante imensas noites insones.
Chamei teu nome em sonhos,
vã tentativa de tornar-te real.
Sofri imensamente o adeus que não houve.
Padeci diante dos meus fracassos.
Estavas distante demais.
Miragem…
impossível te tocar.
Tornei-te um objeto inalcansável.
O nunca me parece tão longe…
será difícil te esquecer.
É tão real a solidão
e tão triste deixar de te amar
sabendo que tudo não passou de uma ilusão.
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19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
“Amor é fogo que arde sem se ver; E
ferida que dói e não se sente; É um
contentamento descontente; É dor que
desatina sem doer”
Ah Camões
Se vivesses hoje em dia
Tomavas uns anti-piréticos
Uns quantos analgésicos
E Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador
Consultavas a página do Murcon
E descobririas
Que essas dores que sentias
Esses calores que te abrasavam
Essas mudanças de humor repentinas
Esses desatinos sem nexo
Não eram feridas de amor
Mas somente falta de sexo.
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14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
No idioma quiché: Popol – reunião, comunidade, casa comum, junta a Vuh que significa livro. Popol Vuh é um dos poucos livros que restaram da civilização Maia. Trata-se de uma compilação de diversas lendas provenientes de grupos étnicos da atual Guatemala ao sul da península de Lucatã.
Esta é a história do princípio,
quando não existia nenhum pássaro,
nenhum peixe,
nenhuma montanha.
Apenas o céu.
Apenas o mar.
Não existia mais nada,
nenhum som, ou movimento.
Apenas o céu e o mar.
Apenas o Coração-do–Céu, sozinho.
E este era o seu nome: o modelador e criador,
Kukulkan, e o Tufão.
Todavia não existia ninguém para pronunciar o seu nome.
Não existia ninguém para louvar a sua glória.
Não existia ninguém para alimentar a sua grandeza.
Então, Coração-do-Céu pensava,
«Quem é que existe para me louvar?
como construirei a madrugada?»
Então ele apenas diz a palavra:
«Terra»,
e a terra ergue-se, como uma bruma vinda do oceano.
Ele apenas pensa nisso,
e aí está.
Pensa em montanhas,
e elas surgem, enormes.
Pensa em árvores,
e elas crescem da terra.
Então Coração-do-Céu diz:
«A nossa tarefa está a correr bem.»
Planeja então as criaturas da floresta
pássaros, veados, jaguares e cobras.
A cada um é dada uma casa.
«Tu veado, dormirás aqui ao pé dos rios.
Vocês os pássaros, os vossos ninhos estão nas árvores.
Multipliquem-se e espalhem-se»,
diz-lhes ele.
Depois, diz-lhes também:
«Falem, louvem-me.»
Mas as criaturas só podem grasnar.
Elas só conseguem uivar.
Elas não falam como os humanos
elas não louvam Coração-do-Céu.
Os animais destinam-se a ser submissos.
Eles servirão aqueles que venerarem Coração-do-Céu.
E ele tenta de novo.
Tenta criar alguém que o respeite.
Tenta criar alguém que o louve.
Aqui está a nova criação,
feita de lama e de terra.
Não parece grande coisa.
Ou fica mole, ou esmigalha-se.
Parece retorcido, pendente.
Não diz nada que faça sentido.
Não se consegue multiplicar.
Então Coração-do-Céu dissolve o que acabou de fazer.
Estabelece de novo outros planos.
O nosso Avô e a nossa Avó são convocados.
Eles são os espíritos mais sábios.
«Descubram se devemos esculpir as pessoas da madeira”,
diz Coração-do-Céu.
Eles passam as mãos pelos grãos de milho.
Passam as mãos pelas sementes de coral.
«O que é que podemos fazer que fale e louve?»
pergunta o nosso avô.
«O que é que podemos fazer que nos alimente e estime?»
pergunta a nossa avó.
Contam os dias,
em lotes de quatro,
esperando encontrar uma resposta para o Coração-do-Céu.
Dão então a resposta,
“E bom esculpir as pessoas em madeira.
Eles irão falar o teu nome.
Eles irão caminhar e multiplicar-se-ão.””
«Assim seja», responde Coração-do-Céu. –
E enquanto profere estas palavras,
assim se vai fazendo.
Os homens-bonecos são criados
com os rostos esculpidos em madeira.
Mas não possuem sangue,
nem têm suor.
Não têm nada na cabeça.
Não têm respeito por Coração-do-Céu.
Limitam-se a vaguear pela terra,
mas não realizam nada.
«Não era isto que eu tinha em mente»,
diz Coração-do-Céu.
Então decide destruir
esta gente de madeira.
O Tufão produz um dilúvio.
Chove dia e noite.
Surge uma enorme cheia
a terra fica escurecida.
As criaturas da floresta
abrigam-se nas casas dos homens de madeira.
«Perseguiram-nos nas nossas casas
por isso vamos ficar com as vossas»,
rugem eles.
E os cães e perus dizem,
«Abusaram de nós,
agora vamos comer-vos!»
Até os seus potes e as suas mós falavam,
«Vamos queimar-vos e moer-vos
como nos fizeram a nós!»
Os homens de madeira fogem para a floresta.
Os seus rostos são esmagados
e eles são transformados em macacos.
É por isto que os macacos são parecidos com os homens.
Eles são o que resta do que veio antes,
uma experiência na criação do homem.
(Tradução de Vasco David)
Música de Luís Pedro Fonseca
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14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
IV
Que louro o cabelo
Tão ouro por dentro
Azuis olhos verdes
de mar de arvoredo
Ó branca e vermelha
desde os tornozelos
até às alturas
dos ombros da nuca
Nem saia nem manto
Só te quero nua
Os teus e os meus dedos
do mesmo tamanho
algemas trocando
mais fortes que tudo
Ó branca no peito
vermelha na boca
Ó branca e vermelha
na rosa do corpo
de rubra incendeias
de branca me assombras
E branca e vermelha
deitada a meu lado
só nua desejas
vibrar no retrato
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14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Entre as duas nádegas
o pávido sulco
tem aroma de áfricas
e de uvas de outubro
Dirias que fora
um silvo de morte
a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas
Respira Não fales
Murmura Não grites
Que travo
de amoras
Que túnel escuro
Que paz no que sofres
por mais uns minutos
o pescoço vergas
submissa e frágil
tal o de uma
égua
que vai beber
água
mas encontra a
lua
E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede os meus dedos
sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje
Muito mais a
norte
os queixumes
calas
E nem gemes Gozas
enquanto te invade
o suco da vara
vertido no sulco
Vê como foi fácil
Respira mais
fundo
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14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser a pele da minha pele?
Cintilação de luas
assim que te desnudas
às escuras
Diante do teu ventre
como não dizer “sempre”
novamente.
Ó lâmina e bainha
de outra espada ainda
Tua língua
Ruge. Reprende. Arrasa
Desde que sempre o faças
com as asas
Vem dos arcanos de outro tempo
ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente
que só na cama as almas ganham
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14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sobre mim cavalgas
cingindo-me os flancos
Colhes à passagem
a luz do instante
De dentes cerrados
ondulas, avanças,
retesas os braços,
comprimes as ancas.
Depois para a
frente
inclinas-te olhando
o que entre dois ventres
ocorre entretanto,
e o próprio galope
em que vais lançada
Que lua te empolga
Que sol te embriaga
Lua e sol tu és
enquanto cavalgas
amazona e égua
de espora cravada
no centro do corpo
Centauresa alada
com os seios soltos
como feitos de água.
Queria bebê-los
quando mais te dobras
Os cabelos esses
sorvê-los agora
Mas de cada vez
que o rosto aproximas
já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos
tão perto dos meus
descobrir o modo
de beber o céu.
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13.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O “Cântico dos Cânticos” é composto por sete cânticos e no 4º, depois de uma intervenção do coro, diz o esposo à esposa:
“Oh, como és formosa, minha amada,
como és formosa!
Os teus olhos são como pombas,
por detrás do teu véu.
Os teus cabelos são como um rebanho de cabras
descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad.
Os teus dentes são como um rebanho de ovelhas
tosquiadas,
que sobem do lavadouro;
cada uma leva dois cordeirinhos gémeos,
e nenhuma há estéril entre elas.
Os teus lábios são como um fio de púrpura,
e o teu falar é doce.
A tua face é como um pedaço de romã
por detrás do teu véu.
O teu pescoço é semelhante à torre de David,
rodeada de troféus,
da qual pendem mil escudos,
todos os escudos dos heróis.
Os teus dois seios são como dois filhinhos gémeos
de uma gazela
que pastam entre os lírios.
Antes que refresque o dia e desapareçam as sombras,
irei ao monte da mirra,
e ao outeiro do incenso.
Toda és formosa, ó amiga
minha,
e não há mancha em ti.
Vem do Líbano, ó esposa,
vem do Líbano,
vem dos cumes de Amaná,
dos cumes de Senir e de Hermon,
das cavernas dos leões,
dos esconderijos dos leopardos.
Arrebataste o meu coração, minha irmã, minha esposa!
arrebataste o meu coração com um só dos teus olhares,
com uma só pérola do teu colar.
Como são deliciosas as tuas carícias,
minha irmã, minha esposa!
Mais deliciosos que o vinho são os teus amores!
O odor dos teus perfumes excede o de todos os aromas!
Os teus lábios, ó esposa,
destilam mel virgem;
e o mel e o leite estão sob a tua língua,
e o perfume dos teus vestidos
é como o odor do incenso do Líbano.
És jardim fechado, minha irmã, minha esposa,
nascente fechada, fonte selada.
As tuas plantas são como um bosquezinho de romãzeiras,
com frutos deliciosos,
com cipre e nardo,
nardo e açafrão,
canela e cinamomo,
com todas as árvores de incenso,
com mirra e aloés
e todos os balsameiros mais selectos.
És fonte que jorra a bobotões,
fonte de águas vivas,
que correm do Líbano.
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13.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deus sabe que ninguém tem
instrumento igual ao meu:
venham medi-lo e hão-de ver
o tesouro que EI’ me deu.
Tomai-o – isso! – na mão:
é meu timbre de valor.
Quem o gosto lhe descobre
sucumbe de terno ardor.
Tão alto como um pilar
(como um pilar não encolhe)
visto ao longe na distância
de qualquer lado que se olhe.
Venham pegar, e apertá-lo
com força na vossa mão.
E levai-o à vossa tenda,
entre onde os montes estão.
Sê-de vós a lá guardá-lo
com vossa mão cuidadosa.
Vê de quanto ergue a cabeça
como bandeira orgulhosa!
Nem dareis por sua entrada,
tão corajoso ele avança!
Jamais pende como a vela
quando o vento se descansa.
Que el’ seja asa da panela
entre as pernas escondida,
tão vazia desde o fundo
até à borda cingida.
Venham ver a maravilha
que logo se ergue tão pronta!
Tão rara e tão portentosa,
tão rica de bens sem conta!
E vejam como endurece
tão forte e tão magistral:
É coluna dura e longa
de uma força sem igual.
Se quereis pega segura,
ou colher que bem remexa,
outra melhor não tereis
para panelas sem queixa.
Pegai nesta – que ela esteja
na vossa panela ardente,
lá onde só um instrumento
haverá que vos contente!
Nem sonhais – amores – o gosto
que vos dará tal espada,
mesmo em panela de cobre
ou de prata chapeada.
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13.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
“Encandescente” é o pseudónimo de uma poeta de Setúbal cujo trabalho foi muito popular quando os blogues estavam no seu auge. Publicou três livros: Palavras Mutantes, Erotismo na Cidade e Encandescente. Subitamente, desapareceu, não voltando a publicar.
Vamos ouvir um trabalho de Encandescente classificado como “Cantigas de Seguir”, uma variante das “Cantigas de Escárnio e Mal-Dizer”.
Estava Encandescente pousada no seu descanso quando, ao acordar, a palavra vulva lhe apareceu e não a deixou mais. Daí que tenha nascido esta explicação em poema: Poema em redor da vulva
Acordo sempre com uma ou várias palavras na cabeça.
Geralmente sei como querem ser escritas
Apesar de já ter desistido de descobrir o porquê.
Um dia acordei com a palavra vulva a picar-me,
Desde esse dia não me larga
Acompanha-me para todo o lado,
E mesmo escrevendo outras palavras
Outros acordares,
A vulva está sempre presente
Desviando pensamentos e exigindo atenção.
Convenhamos que não é uma palavra poética
A vulva que me persegue,
E tem-me sido desagradável quer a companhia
Quer nela andar sempre a pensar.
Espero entender depressa porque me acordou
Como quer ser escrita
Para que quer ser escrita.
Para dar uso
Quer à vulva, quer à palavra.
A autora acabou por entender os desejos da palavra. Escreveu cinco “Cantigas de Seguir” usando Camões, Bocage, Florbela, Pessoa e Ary dos Santos.
Ouçamos a primeira: diria Camões à sua amada.
Como perdoar-me, minha amada, do rubor que o vosso rosto assolou?
Do tremor tão intenso que de vosso corpo se apossou,
Que vacilaste nos passos, e na relva fria caístes?
Como perdoar-me, minha amada, ter proferido a palavra, a indecência,
Que feriu mortalmente vossos ouvidos, e chocou vossa inocência?
Se indulgente, não fores, nem mais um verso escreverei.
Minha pena, minha amada, ante vós, eu quebrarei!
E nem mais um pato depenarei,
Se pena não tiverdes de minha alma penada.
A vossos pés, prostrado, a alma sangrando, vos rogo…
Ai minha amada!! Não me batais mais no cangote!!
Que eu perca já o outro olho se por baixo de vosso saiote,
Vossa vulva, eu espreitava ou intentava ver .
Diria Bocage entre folhos:
Eu, Bocage não seria, se ao vislumbrar uma vulva,
Não lhe descrevesse a forma, os eflúvios, o calor .
E não me caísse da mão a pena, e não me caísse a mão na vulva.
E não intentasse tomá-la, ser dono e senhor.
E à entrada do paraíso, eu Bocage, me postaria,
De porrete desembainhado, ajustando a pontaria,
E triunfante entraria na rubra vulva com meu porraz!
E assim, eu Bocage, aos outros mostraria, sem manos!
Do que um sadino é capaz!
Florbela suspiraria no canapé:
Ah… Meu amor…Vem com o vento…
Vem ligeiro e traz contigo o remédio, o unguento,
Para sarares este meu sofrimento….
Que o canapé já não aguento,
Se nele comigo, tu não te deitares…
Ah…. Meu amor… Souberas tu…
De como sem ti, a vulva não é vulva, mas brasa,
Que depressa chegarias,
Que voarias como o pensamento…
E nunca mais ninguém diria,
E nunca mais ninguém julgaria,
No trabalho… Um alentejano… Lento…
Pessoa questionar-se-ia:
Vi uma vulva.
Acho que era uma vulva….
Se não era uma vulva…Era uma vaca!
São muito traiçoeiros os nevoeiros na Dinamarca,
E as vacas parecem vulvas, e as vulvas parecem vacas.
Mas acho que era uma vulva a que vi no nevoeiro.
Mas se já vi mais vacas que vulvas,
Não estarei sonhando na vaca
A vulva que desejo….
E não tenho?
E, finalmente, um Ary arrebatado:
É na vulva que um homem mostra a força
E a rebeldia!
É na vulva que penetra a semente
E a anarquia!
É na vulva que o homem deixa
Orgasmo
E tesão!
É na vulva que começa a criação
Do operário!
É na vulva que começa a luta
Do proletário!
Vulva é revolução!
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12.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Manuel Machado, (1874-1947) poeta espanhol, de Sevilha.
É noite. A imensa
palavra é silêncio…
Há no arvoredo
um grave mistério…
Dormem os rumores,
a cor já morreu.
A fonte está louca,
mudo está o eco.
Recordas-te?… Em vão
quisémos sabê-lo…
Que estranho! Que escuro!
Crispa-me inda os nervos
passando nesta hora
somente a lembrança,
como se me houvesse
roçado um momento
a asa peluda
de horrível morcego!…
Vem, amada! Inclina
tua fronte em meu peito;
cerremos os olhos;
não oiçamos, silêncio…
Como dois meninos
que tremem de medo!
A lua aparece,
as nuvens rompendo…
A lua e a estátua
dão um grande beijo.
(Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea – tradução de José Bento)
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12.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Maria Teresa Horta (Lisboa, 20 de Maio de 1937) é uma escritora e poetisa portuguesa.
Oriunda, pelo lado materno, de uma família da alta aristocracia portuguesa, conta entre os seus antepassados a célebre poetisa Marquesa de Alorna
Estudou na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Modo de amar – I
Lambe-me os seios
desmancha-me a loucura
usa-me as coxas
devasta-me o umbigo
abre-me as pernas põe-nas
nos teus ombros
e lentamente faz o que te digo:
Modo de amar – II
Por-me-ás de borco,
assim inclinada …
a nuca a descoberto,
o corpo em movimento …
a testa a tocar
a almofada,
que os cabelos afloram,
tempo a tempo …
Por-me-ás de borco; Digo:
ajoelhada …
as pernas longas
firmadas no lençol ..
e não há nada, meu amor,
já nada, que não façamos
como quem consome …
(Por-me-ás de borco,
assim inclinada …
os meus seios pendentes
nas tuas mãos fechadas.)
Modo de amar III
É bom nadar assim
em cima do teu corpo
enquanto tu mergulhas
já dentro do meu
Ambos piscinas que a nado
atravessamos
de costas tu meu amor de bruços eu
Modo de amar – IV
Encostada de costas
ao teu peito
em leque as pernas
abertas
o ventre inclinado
ambos de pé
formando lentos gestos
as sombras brandas
tombadas
no soalho
Modo de amar – V
Docemente amor
ainda docemente
o tacto é pouco
e curvo sob os lábios
e se um anel no corpo é saliente
digamos que é da pedra em que se rasga
Opala enorme e morna
tão fremente
dália suposta
sob o calor da carne
lábios cedidos
de pétalas dormentes
Louca ametista
com odores de tarde
Avidamente amor
com desespero e calma
as mãos subindo
pela cintura dada
aos dedos puros numa aridez de praia
que a curvam loucos até ao chão da sala
Ferozmente amor com torpidez e raiva
as ancas descendo como cabras tão estreitas e duras
que desarmam
a tepidez das minhas que se abrem
E logo os ombros descaem
e os cabelos
desfalecem as coxas que retomam das tuas
o pecado
e o vencê-lo
em cada movimento em que se domam
Suavemente agora velozmente
os rins suspensos os pulsos
e as espáduas
o ventre erecto enquanto vai crescendo
planta viva entre as minhas nádegas
Modo de amar – VI
Inclina os ombros e deixa
que as minhas mãos avancem na branda madeira
Na densa madeixa do teu ventre
Deixa
que te entreabra as pernas docemente
Modo de amar – VII
Secreto o nó na curva do meu espasmo
E o cume mais claro dos joelhos
que desdobrados jorram dos espelhos
ou dos teus ombros os meus: flancos
na luz de maio
Modo de amar – VIII
Que macias as pernas na penumbra
e as ancas subidas
nos dedos que as desviam
Entreabro devagar a fenda – o fundo a febre
dos meus lábios
e a tua língua Vagarosa:
toma – morde lambe
essa humidade esguia
Modo de amar – IX
Enlaçam as pernas as pernas
e as ancas
o ar estagnado que se estende no quarto
As pernas que se deitam ao comprido
sob as pernas
E sobre as pernas vencem o gemido
Flor nascida no vagar do quarto
Modo de amar – X
A praia da memória
a sulcos feita
a partir da cintura:
a boca
os ombros
na tua mansa língua que caminha
a abrir-me devagar
a pouco e pouco
Globo onde a sede
se eterniza
Piscina onde o tempo se desmancha
a anca pousada
que inclinas
as pernas retesadas que levantas
E logo
são os dentes que limitam
mas logo
estão os lábios que adormentam
no quente retomar de uma saliva
que me penetra em vácuo
até ao ventre
o vínculo do vento
a vastidão do tempo
o vício dos dedos
no cabelo
E o rigor dos corpos
que já esquece
na mais lenta maneira de vencê-los
Modo de amar – XI (Teu Baixo Ventre)
Nunca adormece a boca
no teu peito
a minha boca no teu baixo
ventre
a beber devagar o que
é desfeito
Modo de amar – XII (Os Testículos)
Tenho nas mãos
teus testículos
e a boca já tão perto
que deles te sinto
o vício
num gosto de vinho aberto
Modo de amar – XIII
(As Pedras – As Pernas)
São as pedras
meus seios
São as pernas
pele e brandura no interior dos
lábios
rosa de leite
que sobe devagar
na doce pedra
do muco dos meus lábios
São as pedras
meus seios
São as pernas
Pêssegos nus
no corpo
descascados
Saliva acesa
que a língua vai cedendo
o gozo em cima … a pedra dos meus
lábios
Jogo do corpo
a roçar o tempo
que já passado só se de memória,
a mão dolente
como quem masturba entre os joelhos …
uma longa história …
Estrada ocupada
onde se vislumbra
(joelhos desviados na almofada)
assim aberta o fim de que desfruta
fruto do odor
fundo todo
do corpo já fechado.
Modo de amar – XIV (As Rosas nos Joelhos)
São grinaldas de rosas
à roda
dos joelhos
O ambar dos teus dentes
nos sentidos
O templo da boca
no côncavo do espelho
onde o meu corpo espia
os teus gemidos
É o gomo depois …
e em seguida a polpa …
o penetrar do dedo …
punho do punhal
que na carne enterras
docemente
como quem adormenta
o que é fatal
É a urze debaixo
e o lodo que acalenta
o peixe
que desliza no umbigo
piscina funda
na boca mais sedenta
bordada a cuspo
na pele do umbigo
E se desdigo a febre
dos teus olhos
logo me entrego à febre
do teu ventre
que vai vencendo
as rosas — os escolhos
à roda dos joelhos,
docemente.
Modo de amar XV (A Boca — A Rosa)
Entreabre-se a boca
na saliva da rosa
no raso da fenda
na finura das pernas
Entreabre-se a rosa
na boca que descerra
no topo do corpo
a rosa entreaberta
E prolonga-se a haste
a língua na fissura
na boca da rosa
na caverna das pernas
que aí se entre-curva
se afunda
se perde
se entreabre a rosa
entre a boca
das pétalas
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12.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Luis Buñuel Portolés; 22 de fevereiro de 1900 – 29 de julho de 1983) famoso cineasta espanhol – mais tarde um cidadão naturalizado do México – que trabalhou na Espanha, México , França e Estados Unidos.
Carneiro de 125 pesetas,
caracóis abundantes, manuais como o ventre da
mulher de 150 pesetas;
os pães que o pobre come
podem ser amassados desse ventre
e cozidos com fogo de polegares.
Quando cruzamos os polegares para formar uma harpa
renova-se o martírio de S. Bartolomeu,
que, souberam depois, era um diabo
ou um fauno
que se ria da cruz.
Ao morrer comeram-no umas formigas de ouro
que tinham carne de moura
e cu da bailadeira.
S. Bartolomeu e o fauno dançavam
enquanto as pedras saíam disparadas da terra
como beijos atirados com a ponta dos dedos.
Do túmulo de S. Bartolomeu sai uma espiga de bronze
por cada beijo que pôde e não quis roubar.
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11.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Wislawa Szymborska, Prémio Nobel de Literatura, faleceu no dia 1 de Fevereiro de 2012.
Morrer não é coisa que se faça a um gato.
Que há-de um gato fazer
num apartamento vazio?
Subir às paredes?
Roçar-se nos móveis?
Aparentemente não mudou nada
e no entanto está tudo mudado.
Continua tudo no seu lugar
e no entanto está tudo fora do sítio.
E à noite a lâmpada já não está acesa.
Ouvem-se passos nas escadas,
mas não são os mesmos.
A mão que põe o peixe no prato
também já não é a que o punha.
Há aqui qualquer coisa que já não começa
à hora do costume,
qualquer coisa que não se passa
como deveria passar-se.
Havia aqui alguém que há muito estava e estava
e que de repente desapareceu
e agora insistentemente não está.
Procurou-se em todos os armários,
revistaram-se as estantes,
espreitou-se para debaixo do tapete.
Violou-se até a proibição
de desarrumar os papéis.
Que mais se pode fazer?
Dormir e esperar.
Quando regressar, ele vai ver,
ele vai ver quando chegar.
Vai ficar a saber
que isto não é coisa que se faça a um gato.
Caminhar-se-á em direcção a ele
como que contrariado,
devagarinho,
com patas amuadas.
E nada de saltos ou mios. Pelo menos ao princípio.
(Tradução do poeta Manuel António Pina)
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09.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Lídia Jorge nasceu em Boliqueime, Algarve, em 1946. Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa. Como professora passou alguns anos em Angola e Moçambique, durante a Guerra Colonial. Vários romances publicados
Lua branca da madrugada
pousaste teu cinto na terra
e o mar te veio buscar.
Já lá estavas, de lá enviaste
as palavras que o tempo
fora do tempo te tinha dado
e nós à espera desse momento
alado, em que as tuas letras transformassem
linhas pretas num campo iluminado.
Agora estás lá dentro, agora desde que a lua
e o mar se unem e fazem as marés
mas só alguns o sabem, tu soubeste e
nisso és.
Voltaste à terra branca, e na cidade
um sino bate a hora como se o dia
de hoje apagasse um foco incendiário.
Teu fogo porém vivo, é de outra chama
e a cama onde te deitas, doutra cambraia
e a praia onde te banhas, de outra água.
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09.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
José Luis Cotrim da Silva Garcez nasceu em Dornes/Ferreira do Zezêre em 1954.
Foi em Dornes, durante as férias, ainda criança pequena que começou a escrever os primeiros poemas. Perde-se na música, funde-se com a poesia e passeia-se pela fotografia
É nos teus lábios
que começa o verão!
Esse sol abrasador
que me queima o corpo.
Suavemente, abandono-me
nas tuas águas.
Mergulho. Acalmo o corpo.
Descanso nas areias ainda mornas.
Espero outro verão!
(capítulo “Vértice de Água” do livro “Palavras do Silêncio”)
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09.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Permaneço!
Entre o real e o imaginário
há a distância
que não esqueço!
Medito!
Não permaneço nem fujo
na certeza porém
que aqui não fico.
Sonho!
Entre o real e o imaginário
há a distância
que transponho.
Permaneço. Medito. Sonho.
Permaneço no sonho.
Medito. Sonho.
Existo!
(capítulo “Palavras Tangentes” do livro “Palavras do Silêncio”)
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09.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não são estes braços
que me agitam,
nem estes espaços
que me limitam.
São de mar os meus braços
que nas areias
enleiam em ternos abraços
os corpos das sereias.
Os meus espaços
São os do pensamento:
são largos traços
ao sabor do vento.
No meu corpo
navegam navios,
sem forma nem rosto,
em busca de outros rios.
(capítulo “Palavras Tangentes” do livro “Palavras do Silêncio”)
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
José Bernardino Blanc de Portugal nasceu em Lisboa em 8 de Março de 1914 e faleceu em 2001. Licenciou-se em Ciências Geológicas pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa que lhe concedeu o título de Assistente-extraordinário.
Supõe que morri
(Aos mortos se escreve também algumas vezes).
Não sou de cá.
O que me dizem estranho
E ouço o que não há.
Assim, talvez, como estrangeiro,
Encontres palavras que me interessem,
Saibas dar-me o que me tarda…
coisas perdidas que procuro
e talvez se possam dar
aos que partiram e esqueceram
e, por isso,
se lhes oferece o resto de tudo
sem mesmo se saber
que alguma coisa é dada.
Supõe que morri e diz
todas as verdades que se dão aos mortos
o que se confessa a quem não ouve
e espera resposta de ninguém…
Dizem que os deuses morreram:
Sou da raça deles
à espera de Deus
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
“O poema é antes de tudo um inutensílio”
Manoel de Barros
E no entanto, Manoel, eu uso-o de nuvem,
faca, canário amarelo, escova de dentes,
papel de embrulho, rio sem foz,
búzio adejante,
chave de fendas, manteiga, mel.
Em vez de canivete suíço, o mais completo,
uso poema, Manoel, teu antes de tudo inutensílio,
poema todo serviço, remédio santo
contra dor, resfriado, picada de insecto,
poema pedra, ponte, rouxinol,
vento, veia, vício vário,
árvore no deserto, relógio de sol,
joelho feminino para um triste solitário.
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Jorge Velhote nasceu no Porto em 1954. Tem colaboração dispersa, desde 1978, por vários jornais, revistas, álbuns e antologias.
Os gatos da minha mãe caminham
sobre as margens das coisas simples.
Não vão à praia. Sinalizam
a preguiça invadindo silenciosos
o regaço das visitas. E escutam,
privilegiados, obscuras conversas
sobre desnecessidades ou
invasivas devassas alheias.
Olham soberanos o nosso
olhar onde passam
obrigatórios como sombras
ou luz – e quando regressam
com passinhos de veludo
dos seus desvairados lugares
traduzindo a nossa ignorância
instauram a evidência, o conhecimento
fortuito, os limites imputáveis
à ternura com que, sedosos
e felinos, se deixam afagar.
Apenas não arborescem.
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Jayme Kopke – Brasileiro radicado em Portugal – Profissional de Marketing
Subitamente, o coração ensanguentado
tirei do bolso e pus nas mãos da moça.
A moça ficou tão perplexa
quis logo chamar a polícia
mas quando viu pulsar em suas mãos
meu pobre ensanguentado coração
ficou com pena
fez um afago
nem se importou de manchar o vestido.
Ninou meu coração feito um menino
até que ele adormeceu.
A moça, então, muito quieta
bem devagar me deu de volta o coração e devagar se foi, e me deixou ali
com o adormecido coração na mão.
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Francisco Gómez de Quevedo y Santibáñez Villegas (Madrid, 14 de setembro de 1580 — Villanueva de los Infantes, 8 de Setembro de 1645) foi um escritor do Século de Ouro Espanhol.
Escrito em torre de Juan Abad
Retirado na paz destes desertos,
com bem poucos mas doutos livros juntos,
vivo dialogando co’os defuntos,
com os olhos escuto os mortos certos.
Se não sempre entendidos, sempre abertos,
emendam ou fecundam meus assuntos;
e em silentes, harmónicos conjuntos
ao sonho do viver falam despertos.
As grandes almas que a morte afugenta,
da injúria dos anos, vingadora,
livra a imprensa, e assim nos contenta.
Em fuga irrevogável foge a hora;
mas aquela a mais pura pedra atenta,
que em leitura e estudo nos melhora.
(Tradução de José Bento)
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
sou um poeta-militante de causas perdidas
um eterno exilado infante
porque não suporto novos campos de concentração
nem elevadores sociais – causam-me claustrofobia
e comigo estou sempre em guerra
podes não acreditar mas não me vendo
estou mesmo fora do mercado
mas se me deres rosas do cabo
talvez nas tormentas desse amor me dê e rende
mas não me interessa só comer os teus frutos
e limpar a minha boca amarga na tua
quero roubar a tua alma dulcineia
a galope contra novos moinhos de opressão
para resgatar quixote toda a minha militância
que reside renitente nesta pança de loucura.
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08.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
sei que já não estás em festa, pá
e é uma pena, pá
tanto mar, tanto mar
e ficámos tão atados ao cais do sodré
que caímos na real
agarrados a um ramo seco na rua do alecrim
diz-me chico, quem tem medo de navegar?
quem meteu medo à gente?
quem nos tirou a terra toda
furtou-nos fortuito o sonho virtual
e agora ficámos sem-mar?
nós navegadores atrevidos do medo
cavaleiros da terra-santa
templários de avis rent-a-car
em demanda do santo graal
bandeirantes dos confins da utopia
nós queremos é uma pátria perdida nunca vista
sob um Império de sangue, sal e conquista
nasça um montemor-novo-além-tejo em mato-grosso
e se cumpra um grande putogalp, pá!
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