António Osório – “Os Loucos”
12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
António Osório (Setúbal, 1933 ), é um escritor e poeta português. É o poeta do amor e da fulguração, dos afectos e dos silêncios.
12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há vários tipos de louco.
O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.
O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.
O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.
E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.
Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
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12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A água que murmura espectros lentos
O que houve e não houve e não volta nunca mais
Os quartos sem esperança que os guardasse
As casas sem anjo da guarda
A luz intensa bela e dolorosa
A adolescência dilacerada
A ternura dezoito anos recusada
Na casa dos Átridas
O crime horroroso que não houve
Mas as feridas abriram manaram um sangue
Que penetra implacável as fendas do sono
E me deixa acordado à beira da estrada
Com lágrimas que percorrem
Trinta e quatro anos
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12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na escrita atual:
No mundo não conheço
ninguém igual a mim,
enquanto acontecer o
que me aconteceu,
pois eu morro por vós e ai!
Minha senhora alva e rosada,
quereis que vos lembre
que já vos vi na intimidade!
Em mau dia eu me levantei
Pois vi que não sois feia!
E, minha senhora
desde aquele dia, ai!
Venho sofrendo de um grande mal
enquanto vós, filha de dom Paio
Muniz, a julgar forçoso
que eu lhe cubra com o manto
pois eu, minha senhora
nunca recebi de vós
a coisa mais insignificante.
Na escrita da época.
No mundo non me sei parelha,
mentre me for’ como me vay,
ca já moiro por vos – e ay!
mia senhor branca e vermelha,
queredes que vos retraya
quando vus eu vi en saya!
Mao dia me levantei,
que vus enton non vi fea!
E, mia senhor, des aquel di’ay!
me foi a mi muyn mal,
e vos, filha de don Paay
Moniz, e ben vus semelha
d’aver eu por vos guarvaya,
pois eu, mia senhor, d’alfaya
nunca de vos ouve nen ei
valia d’a correa.
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12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me,
em teus braços,
mil beijos sussurrados
Sonho-te
e sonhando-me
amo-te
no rasgar da pele
buscando
carícias longas
entregando-me
Sonho-te
no abraço incontido
corpo entregue
vencido
em noites de vendaval
E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida, dá alento
mesmo que não passando
de ilusão,
que se desfaz em nada,
tal qual nuvem
em tarde de Verão.
Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me …
amando-te …
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11.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que ei alongado!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!
Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo!
Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!
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05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Com as mãos
construo
a saudade do teu corpo,
onde havia
uma porta,
um jardim suspenso,
um rio,
um cavalo espantado à desfilada.
Com as mãos
descrevo o limiar,
os aromas subtis,
os largos estuários,
as crinas ardentes
fustigando-me o rosto,
a vertigem do apelo nocturno,
o susto.
Com as mãos procuro
(ainda) colher o tempo
de cada movimento do teu corpo
em seu voo.
E por fim destruo
todos os vestígios (com as mãos):
Brusca-
mente.
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05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manhã
à espera do início
do seguinte espectáculo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mansões.
O unicórnio branco depôs sua cabeça
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas lãs
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba já cresceu desde o jantar.
«É a adoração dos magos» murmuras tu –
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.
O noctívago galgo
devora a escuridão às cegas no recinto.
Em breve a luz envolve
de opalinas unções as cabeleiras.
Iminentes desenham-se as saídas,
o croissant no prato, o garoto no copo,
o revestir a pele doutros fatos
a tragédia jazente nos horários.
Aquela noite a três foi sem remédio.
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05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Lázaro Inocêncio do Nascimento,
manobrador de gruas na auto-estrada
transmontana sai do túnel do Marão
para a negra luz do desemprego
e das carências em família. Manobrou
com perícia a cegonha de ferro no céu
da montanha, dialogou com Deus
e com os pássaros sociáveis; olhou
para o fundo de si e concluiu que na terra
ou nas nuvens a vida é sempre abismo
onde a altura é uma questão menor. Hoje
desceu de vez as escadas íngremes,
findou a concessão do troço e do capital,
agora está entregue a si que o mesmo é dizer
ao destino de ninguém. Lázaro do
Nascimento diz que com esta descida
à terra morreu um pouco, e assim à terra
descerá definitivamente em tempo certo
sem estranheza de maior. Não carece
pois o Mestre o ressuscitar por mais
que alastre o pranto das irmãs
e os direitos da quadra. Na ferrugem
definitiva dos materiais o sinal perene
de que não vale a pena o esforço
de retirar os panos uma e outra vez.
(Este poema foi publicado no Jornal “Público” em 25 de Fevereiro de 2012)
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04.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Muito sol
e a quitandeira
à sombra da mulemba.
Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca em corações aflitos
o jogo da cabra cega.
A quitandeira que vende fruta
Vende-se.
Minha senhora laranja,
laranjinha boa!
Compra laranja doces
Compra-me também o amargo
desta tortura da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
Entreguei-a aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
Compra laranjas!
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04.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Morri ontem meu amor…vesti de cinza o meu corpo noite
Percorri os farrapos dos meus sonhos…amordacei os gestos
Vesti o meu olhar de estrelas cadentes…tentei enganar a morte
Prendi nas mãos a penumbra…caminhei sobre os meus restos
Morri ontem meu amor…docemente fechei as mãos ao cansaço
Caminhei sem mim…serenamente deixei correr todas as lágrimas
Adormeci no esquecimento…perdida entre o tempo e o espaço
Despi da noite o luar…desfolhei as rosas…bebi todas as mágoas
Morri ontem meu amor…o crepúsculo venceu a madrugada
Meu olhar tocou a mágoa…o meu corpo frio afagou a morte
Enlaçou nas mãos a eternidade…caminhou rumo à alvorada
Despido de ternura…adormeceu sereno nos braços da noite
Morri ontem meu amor…tão cansada de ser…tão nua…tão noite
Tão perdida de estar…tão ausente de viver…tão despida de sentir
Folha solta ao vento…nuvem negra vagando na sombra da morte
Por entre rosas…por entre cardos…deixa-me meu amor partir
Morri ontem meu amor…despida da dor que me cobre o corpo
Perdida dos sonhos que teci…rasgando os silêncios que gritei
Num tanger de viola…num sussurro quase mudo…quase rouco
Na minha alma quase branca…na eternidade que chamei
Morri ontem meu amor…no aconchego do teu corpo ausente
Envolta na solidão…ficou a lembrança duma lágrima perdida
Poisa em mim a noite…a noite negra…tangendo um canto dolente
Num murmúrio em silêncio…chamo por mim…choro pela vida
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02.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Dos meus lábios
ao teu beijo,
vai um sorrir,
Do teu corpo
ao meu desejo,
uma carícia,
Da minha paixão
ao teu furor,
vai um olhar,
Um roçar que seja,
embebido de malícia,
chega para nos transbordar,
Chega para nos verter
na profunda delícia,
de sentir.
Do primeiro momento
à hora de te deixar,
vai um instante,
Fica-nos o passo
a ensaiar partidas,
curto e relutante, na despedida,
Do meu querer ao teu gostar,
vai um carinho, grande e sereno,
…sempre a partir,
Viaja entre nós,
calma,…a certeza,
de um amor feliz.
(Bósnia 1996)
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29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas é Natal.
Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.
Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.
Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.
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29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
trago dentro de mim um mar imenso
feito de vagas tristes
e sonhos vagos
o horizonte é uma manhã
que eu quis minha para ser eu
e para porto de abrigo escolhi uma tarde
que soubesses chorar a morte do sol
de Quando o Verão Acabar Vila Nova de Famalicão, Quasi edições 2002
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29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A morte é azul como o solstício de inverno.
Dizes: não hei-de sobreviver ao incêndio
dos celeiros. Mas nunca soubeste o nome
dos lírios nem o rumor que precede o dilúvio
no interior do teu ventre.
In “Para Morrer”
(Nocturnos, Parte 1)
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Escrevo-te:
mais uma carta de paixão.
Conto-te do desejo,
do incontornável calor
do teu corpo e do meu,
da saudade vincada de ti,
da cama, do suor, do orgasmo.
É: uma carta de paixão
(esta), a que te escrevo,
com palavras que escorrem
no envelope.
Vem hoje;
para que eu me venha, também.
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não deixes arrefecer,
aproveita a imaginação
e no vento frio,
que nos gela,
aquece comigo a noite.
Deixa que a madrugada
regresse a casa
e o calor se faça sentir,
como a memória,
agora ausente,
do que fomos;
nas entranhas
os únicos sobreviventes.
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sempre olhavas o relógio
E as horas marcadas
Para estar em casa
Quando começava
A despir-me
Olhavas-me cobiçoso
E tocavas-me
Onde sabias
As horas ficavam para trás
(Mas nunca te atrasavas
Em casa)
Atrasavas-te só em mim
No reboliço
Em que deixávamos
Metade de nós
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Gosto das canções de amor
Embaladas na tua voz
Como se a música
Chovesse prateada
Em torno do meu corpo
Emudecido
Gosto de te ouvir
Nas canções de amor
Que a tua vida não calou
E que cantas ainda
Sob um feixe de luz
Na madrugada aquecida
De um quarto de hotel
Adormeces-me em desvario
Quando assim me embalas
E a chuva é prateada
E o vento se torna poema
Na tua canção de amor.
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tanta palavra dita e redita
Esquecida e magoada
Falada no silêncio
Fechada no tempo
De não ser nada.
Palavras repetidas
Como se fossem verdade
Como se as quisesse ouvir
Só para que a minha voz
Ecoe e eu a escute
Para que as palavras
Sejam as da minha solidão
As da minha vontade
Aquelas que se entregam
Sem troca alguma.
Ditas e reditas
Enterradas no dia
Do tempo errado…
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos,
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
– o espaço que isso ocupa.
Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
(Analogia e Dedos, 2006)
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Íamos à Barca. Não que navegasse:
descia lentamente até ao rio
toda milho e marulhar de pássaros.
Lá perto as pedras recebiam
carícias de água fria coruscante
e verde. O sol crescia.
Não que navegasse: era campo
de pão bordado de latadas.
Vamos à Barca, dizia o meu avô.
E o tempo não tinha dimensão,
ou se a tinha não a tem agora:
foto quadrada a preto
e baço. Onde espreita porém
o brilho agudo que me pergunta ainda
se o que não esquece é fogo
quando aquece, mas que se apaga logo.
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
a mesa está posta de ervas
para dois, esperam-nos
melros e canteiros.
no jardim, sabem que fomos
com o musgo, com os grilos,
para o colo da terra,
somos agora parte
da primavera, nunca estivemos
tão chegados ao mundo
tão dentro de casa.
(in Revista de Poesia “Telhados de Vidro” n.º2 – Maio 2004)
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27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
em quantas dores se reparte
um corpo, o espaço
húmido de boca a boca,
centro exacto do fim
para onde apontas
a seta
és o teu arqueiro.
(in Revista de Poesia “Telhados de Vidro” n.º2 – Maio 2004)
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25.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morreramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro, gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos “nós outra vez crianças”
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte “nunca mais” pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maçãs no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
“orate fartes” ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casas em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão, adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte, herberto helder?
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22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um beijo despe a valentia,
afasta o medo que há em nós,
vagueia no desejo ardente que nos guia
que nos tira os pés do chão
e nos dá um nó na voz.
Um beijo afaga a alma incompleta
ampara as margens adormecidas na dor
penetra o íntimo amor que desperta
na pétala vadia de uma flor.
Um beijo rompe as ruas desertas
amansa o olhar que chora incerto
lambe as pingas da chuva e cava no pensamento
que rouba tempo ao tempo.
Um beijo adoça o vento leve que nos cobre o rosto
acorda a noite perdida de desgosto
e algures no meio do nada,
rompe uma estrada.
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22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Prefiro fingir que não vi o fim da humanidade,
esconder-me no sonho desumano de máscaras idolatradas,
perder-me no vento que sinto soprar em cada esquina da cidade,
naquele silêncio que se ilude e se arrasta pelos muros do disfarce
como que fingindo não sentir as dementes vertigens
que jorram sufocadas nos peitos virgens,
nos cemitérios urbanos que choram ironias aos soluços
e temem a morte que a mente humana um dia desenhou.
Prefiro balançar noutra sala mais selvagem,
suspender-me sob um feixe luminoso de esperança
num desafio carpido no prisma oculto de uma noite que se cansa
e que adormece o olhar lançado sobre o mar e suas chamas de cora
gem.
Prefiro vencer o ódio que tresanda em cada roupa,
em cada boca…louca,
e suspender os medos que passeiam nas ruas eternas do amanhã
aos empurrões, sem descanso, repetidamente a toda a hora no ecrã…
…que se diz mágico, dia após dia,
sempre que algo trágico principia!
Prefiro colocar a máscara e murmurar por gestos,
para não ferir o lado ignorante e inocente
desta ilusão que cabe na minha mão cheia de restos
escondidos numa fresta de caminhos rectos e pedras firmes.
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22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Que linda canção o mar está cantando
Bela melodia, correndo no ar
Parei um bocado e pus-me escutando
E sobre o penedo que eu estava pisando
Penedo de sonhos de histórias passadas
Ali fiquei, e pus-me pensando e pus-me a sonhar
Pensei na Rainha Isabel que aqui veio chorar
As mágoas que o Rei D. Diniz tanto a fez sofrer
Pensei em outras Rainhas que sem terem coroas
Tanto aqui choraram… tanto aqui passaram
Só para eu as ver.
Penedo da Saudade de sonhos vividos
De sonhos passados
Abre-me os teus braços, deixa-me ficar
E tu ó farol que estás a meu lado
Vai me iluminando para eu me guiar.
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22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
I
O Mar! O mar! Quem nunca viajasse…
Quem nunca dentre dúvidas sentisse
O coração e aí, nunca embarcasse…
Oh! quem do mar as cóleras punisse!
Ora o mar e sereno, e calmo, e manso,
As vagas são melódicos arpejos
Dando à embarcação leve balanço,
Como um afago maternal de beijos.
Ora o mar franco, livre e transparente,
Tão tranquilo que está, tão brando, rindo,
Que até parece, que até cuida a gente
Que os corações podem boiar, dormindo.
Ora ferve, rebenta, estoura, estala,
Rude, feroz, em convulsões; profundo,
Abrindo a corpos pavorosa vala
E mundos de agonia num só mundo!
II
Filho! Filho! Adeus, querido,
Vou viajar para além,
Sejas de Deus protegido…
Que sempre me queiras bem.
Vou deixar-te nesta terra,
Entregue aos destinos teus;
Filho, o que este adeus encerra
Só o pode saber Deus.
Levo as crenças em pedaços,
Como pedaços de céus.
Vou ver mar, vou ver espaços
Ver temporais, escarcéus.
Filho amado, vou deixar-te
Cá na terra, pelo mar;
Porem, crê, de qualquer parte,
Crê, meu filho, hei-de voltar.
III
Adeus, noiva, vou-me embora,
Vou-me com Deus, é preciso.
Que colhas em cada aurora
Muita messe de sorriso.
Sou soldado, o meu destino
É viver bem longe, é certo,
Longe do canto divino
Da tua voz, sol aberto.
Custa bem esta partida
A mim que entanto sou forte.
Ninguém sabe o que é a vida
Para quem vive da morte.
Da morte, sim, pomba amada;
Que as minhas crenças já mortas
Tu, com essa alma estrelada
Nem tu sequer me confortas.
Perdi pai, perdi carinhos
De mãe, de irmãos e de todos.
Eu sou como a flor de espinhos
Nascida por entre lodos.
Tu vieste, ó noiva, apenas,
Como um íris de esperanças,
Dar-me alvoradas serenas,
Encher-me de confianças.
Só em ti confio, espero
Com ardor, com fé veemente,
Pomba de luz que eu venero,
Doce Vésper do Oriente.
Adeus, pois chegou a hora,
Vou-me com Deus, minha filha;
Não chores, que o mar não chora:
Olha, vê que canta e brilha.
IV
Adeus, esposa estremosa,
Vou-me, não sei para quando
Voltar minh’alma saudosa
Por meus filhos vai chorando.
Ficam-te eles no entretanto
Pra tirarem-te os pesares,
Para enxugarem-te o pranto
Que há de ser maior que os mares.
Maior que os mares, não minto,
Não exagero tão pouco,
Porque ai, só tu e só eu sinto
O nosso amor como é louco.
Vou-me às viagens, aos dias
Passados entre horizontes
E mares e ventanias
Sem arvoredos, sem montes.
Os dias de céus eternos
E de mar ilimitado,
Com tempo de atroz infernos
Com tempo de sol doirado.
Adeus! Cá dentro do peito
Há dois corações unidos;
Sobre um o mar tem direito,
Sobre outro os filhos queridos.
V
Eis as canções e adeuses de saudade
Que as desgraçadas almas palpitantes
Soluçam na sombria imensidade
Desta vida de angústias lacerantes.
Ao mar! Ao mar! Frescas aragens puras
Afiam nas ondas maviosamente.
Que balada de plácidas venturas,
Que sinfonias, que gemer dolente!
Os céus abertos, claros, luminosos
Lembram a candidez branda das virgens.
Vítreos ares, magníficos, radiosos
Onde o sol arde em férvidas vertigens.
Lindíssimos painéis, bela paisagem
Abre na vista do viajante o ouro
Da luz que salta como uma homenagem
De oriental, esplêndido tesouro.
Vai bem, vai muito bem, mesmo, o navio.
As vagas desenrolam-se de leve.
Parece um berço por de sobre um rio
Manso, prateado, espúmeo, cor de neve.
Vive-se a bordo como em terra. As vagas
Nunca foram tão doces e tão meigas,
Como em desertas, viridentes plagas
É doce e meigo o mole chão das veigas.
Viver assim, na realidade, é gozo
Que até parece não haver na terra!
Tão belo é o mar, tão calmo e bonançoso,
Tal confiança nos semblantes erra!
Vogando assim a embarcação, quem pensa
Ir acordado afora pela Vida?!
Tudo é um sonho de esperança imensa
Um bom sonho de aurora indefinida.
VI
Súbito os ares enchem se de noite
E grita e zune, zargunchando o vento
Que esbraveja, morde com rijo acoite
O mar que espuma e empola num momento.
Não estrugem os raios pela treva
Não há trovões bravios rebentando
Como canhões que estouram, mas se eleva
Do oceano um vendaval que vai urrando
Com fúrias e com cóleras enormes
Como potros sanhudos relinchando
Em pinotes e berros desconformes.
Caiu talvez no mar o etéreo espaço,
Toda a cúpula azul tombou, quem sabe?
Céus! há lutas ali, de braço a braço.
Horror! Crível será que o mundo acabe?
Ninguém calcula o que será tudo isso…
Mas os ventos eléctricos, largados
Nas amplidões do mar antes submisso,
Rugindo vão como desesperados.
Deus, ó meu Deus, todas as bocas gritam,
E se afervora mais e mais a crença.
Mas, onde os astros muita vez palpitam
No céu, há noite cada vez mais densa.
Ah! que mudez de túmulo nos ares.
Nada responde, oh! nada então responde;
Mas onde está o grande Deus dos mares
E da terra, onde está, aonde, aonde?
Tudo está mudo a natureza inteira,
Tudo emudece e não responde nada;
E só os vendavais têm a maneira
De responder dando uma gargalhada.
Gargalhada de lágrimas atrozes,
De lágrimas de morte e de agonia
Que abafa e extingue na garganta as vozes,
Gera a coragem que é a luz do dia.
Ó valentes e rudes marinheiros
Vindos da pátria para pátria nova,
Que sepultais amores verdadeiros
Do tão profundo coração na cova;
Ó viajantes de longe, de países
Onde a vida cintila e canta alerta
Como um turbilhão de aves felizes
Numa campina de rosais, deserta;
Ó vós todos que vindes lá do oceano,
Entre as mais bruscas e hórridas tormentas.
Lá do mar, alto, a vela, a todo o pano,
Com as almas ansiosas e sedentas,
De chegar cedo ao porto desejado,
Calculai, calculai o quanto é triste
Ver dar à praia um pobre desgraçado
Em cuja carne a podridão existe!
À praia! À praia! Dai à praia, morto,
Rejeitado por ondas convulsivas,
Indo encontrar na sepultura o porto,
Deixando ao mundo as ilusões mais vivas.
O eterno amor de mãe, de filho, esposa,
Tanta fé, tanto riso de alegria,
Tanta coisa dourada, ai tanta coisa
Que ao recordar toda a nossa alma esfria.
Morrer no mar, os nervos contraídos,
Numa asfixia atroz, cerrando os dentes,
Num abismo de cores e gemidos,
De maldições e de uivos de descrentes;
Morrer no mar, sem o farol amigo,
Esse farol que os náufragos anima,
Fora de protecção, fora de abrigo,
Sem sequer uma luz no espaço, em cima;
Morrer no mar, sem astros no infinito,
Na solidão das águas, fria, imensa,
Enquanto a treva aura de granito,
Ri se de tudo, com indiferença;
Morrer no mar, só e desamparado
E num terror que não acaba nunca,
Vendo rasgar o corpo enregelado
O desespero como garra adunca.
É horrível! Bem sei! Mas ai daqueles
Que morrem mesmo assim lá no mar fundo
Sem ter alguém que ao menos neste mundo
Derrame uma só lágrima por eles!
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21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Havia séculos
e eram florestas sobre florestas escritas.
O canto cantava: era o incêndio do vento
folheando a memória da terra
essa maranha de raízes aéreas que nasciam enterrando
mais fundo as árvores anteriores;
essa teia nocturna de troncos e lianas, de ramos e folhas,
nervuras que os versos enervam irrespiráveis;
esse mapa em relevo lavrado pela paciência da luz
que atrasando-se recorta
estas estranhas esculturas do tempo:
os poemas selvagens
o máximo excesso de uma rosa aquática e frágil
sempre a nascer desfiladeiros
e falésias, fendas, quebradas, ravinas
vulcões que deflagram em écrans sucessivos
Havia séculos
e o cinema dos astros
acendia ampolas e bagas, campânulas, cápsulas, lâmpadas;
punha em música a infinita noite dos versos que longamente
escutam
aqueles que muito antes ou muito depois vieram ou virão
até estes anfiteatros que os desertos invadem.
Havia séculos
e / atravessando as ruínas dessa terra quente, as páginas
de água dessa rosa alucinada / havia esse:
o comum de nós que dos seus se dividindo, verso
a verso, procura ainda alguém. E assim
era de novo o início.
A grande migração das imagens — havia séculos —
desde há muito começara, desde sempre, já.
E sem cessar migrávamos nós, inquietos e perdidos
sem paz e sem lei, sem amos nem destino.
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21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O espelho está lá mas ninguém lá está
É uma cena deserta. O piano e a estante de música
estão vazios; são contornos da sombra
Do lado direito de quem olha daqui, há
uma ampla porta-janela que dava para
uma varanda que daria para uma selva imaginada.
A música que ouves não vem desta sala
Nasce e vem do maciço de árvores escuras
que brilham mais no escuro da noite ultramarina.
Vem do mar que está depois da selva que
está a seguir às árvores de um parque
que é uma memória de pedra que já começou a ruir.
É uma música poderosa mas lenta; feroz e densa
e voraz; selvagem mas não primitiva.
Nos arredores do império, num condomínio
colonial antigo e novíssimo, podes pela música
que sem resgate os dissolveu imaginá-los. Fora
pouco antes de desaparecerem
Eram já extremos conspiradores sem conspiração,
de si mesmo exilados, perdida a juventude,
perdidos dessa selva em que teriam sido feras
e fora já a sua própria memória. A maturidade
apodreceu-nos como uma floresta que se desfaz
na água nostálgica do desejo. A música
essa música num espelho longe foi o que sobrou
fala de um crime passional em que ninguém afinal
morreu, de um segredo partilhado e sem sentido
que ouves uma vez mais nessa voz abafada ou
rouca – como se diz? – nessa voz que te transporta
a essa cena deserta onde nunca terás estado.
No espelho longe num oriente extremo não podes ver-te:
não é a tua história; não é a história de ninguém. Mas
podes ver a música que através deles te envenena o sangue.
(Migrações do Fogo)
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