Nota biográfica

António Tomás Botto (Concavada, Abrantes, 17 de Agosto de 1897 — Rio de Janeiro, 16 de Março de 1959) foi um poeta português. A sua obra mais conhecida, e também a mais polémica, é o livro de poesia "Canções" que, pelo seu carácter abertamente homossexual, causou grande agitação nos meios religiosamente conservadores da época.

António Botto – “À memória de Fernando Pessoa”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se eu pudesse fazer com que viesses
Todos os dias, como antigamente,
Falar-me nessa lúcida visão –
Estranha, sensualíssima, mordente;
Se eu pudesse contar-te e tu me ouvisses,
Meu pobre e grande e genial artista,
O que tem sido a vida – esta boémia
Coberta de farrapos e de estrelas,
Tristíssima, pedante, e contrafeita,
Desde que estes meus olhos numa névoa
De lágrimas te viram num caixão;
Se eu pudesse, Fernando, e tu me ouvisses,
Voltávamos à mesma: Tu, lá onde
Os astros e as divinas madrugadas
Noivam na luz eterna de um sorriso;
E eu, por aqui, vadio de descrença
Tirando o meu chapéu aos homens de juízo…
Isto por cá vai indo como dantes;
O mesmo arremelgado idiotismo
Nuns senhores que tu já conhecias
– Autênticos patifes bem falantes…
E a mesma intriga: as horas, os minutos,
As noites sempre iguais, os mesmos dias,
Tudo igual! Acordando e adormecendo
Na mesma cor, do mesmo lado, sempre
O mesmo ar e em tudo a mesma posição
De condenados, hirtos, a viver –
Sem estímulo, sem fé, sem convicção…
Poetas, escutai-me. Transformemos
A nossa natural angústia de pensar –
Num cântico de sonho!, e junto dele,
Do camarada raro que lembramos,
Fiquemos uns momentos a cantar!

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António Botto – “Tenho a certeza”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
– Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.

Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
– Vou deixar-te, vou partir!

E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!

Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!

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António Botto – “Canções – As cartas devolvidas”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Ainda bem que nos afastámos. Ainda bem que o fizemos. Eu não podia mais… Era impossível, acredita. Se continuássemos a viver como vivíamos — e mudar, dificílimo seria, — se nós desistíssemos desta separação ou dêste sacrifício, apartávamos, certamente, as nossas almas, e para sempre! Ainda bem que nos afastámos. Ainda bem que o fizemos. Dizes-me na tua carta relida já quatro vezes que a tranqüilidade da nossa vida vale mais que tôdas as paixões, que todos os desejos… Tu dás-lhe êsse nome; mas, para mim, tem outro: — sim; chamemos-lhe egoismo. O teu é sacrificar todos os prazeres para evitar uma dor; — és cobarde e comodista. O meu, tambem se chama egoismo, porém, é egoismo diferente, é egoismo ideal: — sacrificar tudo ainda que o sacrifício possa destruir a minha vida e essa destruïção entristeça para sempre a minha alma. Ah!, como nós somos opostos! Tu acabaste para esquecer ou pôr de parte a minha camaradagem; eu, acabei para te lembrar continuamente e para mais te pertencer. Tinha que ser: está bem. A vida é uma sucessão de imagens; se umas se apagam há outras que permanecem…

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Notícias da minha vida — para quê? O que tu possas imaginar dela talvez tenha mais encanto. Notícias minhas? Caberiam em três palavras: — Tento, apenas, esquecer-te!

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Eu não devia responder á tua carta; nem sei dizer porque o faço. Também de que servia dizer-te? A verdade parece traição àqueles que vivem da mentira. Tentei esclarecer-te, para meu sossêgo e minha tranqüilidade êsse desagradável mal entendido que deu origem á nossa frieza actual, tão firme, segundo parece. Não quizeste escutar-me. Pouco depois, saías, — sem me deixar sequer a esmola de uma palavra… Dias passaram, longos dias decorreram, e hoje, a tua carta de quatro linhas vem dizer-me que te arrependes da simpatia que me déste… E num tom sêco terminas: que eu que sou bem diferente daquele que tu julgaras… Nada respondo. Apenas te lembro que a vida é cruel, imensamente cruel; e a sua maior crueldade é não permitir que pessoas da nossa estima possam conhecer a verdade dos nossos pensamentos e a verdade do nosso sentir. Adeus. As grandes paixões são para as grandes almas.
(Foi respeitada a grafia original do autor)

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António Botto – “História breve de uma boneca de trapos “

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era uma vez uma boneca
Com meio metro de altura.
Insinuante, bonita,
Mas, pobremente vestida.

Um ar triste – uma amargura
Diluída no olhar …
Grandes olhos de safira,
E um sorriso combalido
Como flor que vai murchar.

Quase a meio da vitrine
Lá daquela capelista
Essa boneca de trapos
A ninguém dava na vista!

Ninguém via o seu sorriso!
Ninguém sequer perguntava:
Quanto vale a «marafona»?
Quanto querem pela «Princesa»? ..

Passaram anos. – Com eles,
Foi a minha mocidade
E cresce a minha tristeza.
– Quem é que dá p’la Boneca
Que os meus olhos descobriram
Lá naquela capelista
Quase à esquina do jardim? …
Quem dá por Ela? Ninguém.

E quantas almas assim!

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António Botto – “Se dúvidas que o teu corpo”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se duvidas que teu corpo
Possa estremecer comigo –
E sentir
O mesmo amplexo carnal,
– desnuda-o inteiramente,
Deixa-o cair nos meus braços,
E não me fales,
Não digas seja o que for,
Porque o silêncio das almas
Dá mais liberdade
às coisas do amor.

Se o que vês no meu olhar
Ainda é pouco
Para te dar a certeza
Deste desejo sentido,
Pede-me a vida,
Leva-me tudo que eu tenha –
Se tanto for necessário
Para ser compreendido.

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António Botto – “Ouve, meu anjo”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouve, meu anjo:
Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?

Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Mas aí!,
A carne do assassino
É como a do virtuoso.

Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Deu-me o seu corpo doirado
Que eu beijei quase febril.

Na vidraça da janela,
A chuva, leve, tinia…

Ele apertou-me cerrando
Os olhos para sonhar –
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!

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António Botto – “Beijemo-nos, apenas…”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda
Para um momento melhor
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde;
E a convivência contigo
Modificou-me – sou outro…

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos – És lindo!

A morte,
devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: – não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos apenas,
Que mais precisamos nós?

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António Botto – “Anda, vem…”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Anda vem…, porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha — rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
— Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!… Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos…
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

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António Aleixo – “Quadras”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As águias de hoje na guerra,
Com os seus golpes traiçoeiros,
Queimam os pastos da terra…
Morrem de fome os cordeiros.

Da guerra os grandes culpados,
Que espalham a dor na terra,
São os menos acusados
Como culpados da guerra.

o oiro, o cobre e a prata,
Que correm p’lo mundo fora,
Servem sempre de arreata
p’ra levar burros à nora.

Que o mundo está mal, dizemos,
E vai de mal a pior;
E, afinal, nada fazemos
p’ra que ele seja melhor.

Se os homens chegam a ver
Por que razão se consomem,
O homem deixa de ser
O lobo do outro homem.

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Antero de Quental – “Dá-me pois olhos e lábios…”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dá-me pois olhos e lábios;
Dá-me os seios, dá-me os braços;
Dá-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abraços!
Empresta-me a voz ingénua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!
Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!
Presta-me a tua inocência,
Para eu ir ao céu voar, ..
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!
Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Dá-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;
Por que, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Não posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!
Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Porque eu tenho um lírio d’ouro
Há três anos por abrir,

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Antero de Quental – “Solemnia verba”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos…

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.

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Antero de Quental – “O palácio da ventura”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas d’ouro com fragor
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão – e nada mais!

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Antero de Quental – “O convertido”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma ânsia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento
Só me falta saber se Deus existe!

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Antero de Quental – “Com os mortos”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos,
arrastados no giro dos tufões,
Levados, como em sonho, entre visões,
Na fuga, no ruir dos universos

E eu mesmo, com os pés também imersos
Na corrente e à mercê dos turbilhões,
Só vejo espuma lívida, em cachões,
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos

Mas se paro um momento, se consigo
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado
De novo, esses que amei vivem comigo,

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,
Juntos no antigo amor, no amor sagrado,
Na comunhão ideal do eterno Bem.

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Antero de Quental – “A um poeta”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

(surge et ambula)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções
Mas de guerra e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

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António Ramos Rosa – “Momento”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Introdução de Helena Domingues a quem este poema foi dedicado pelo Poeta.
“Ao homem, ao poeta, ao mestre, ao amigo que diz e põe em prática “Para um amigo tenho sempre um relógio no fundo da algibeira”.
Quantas vezes, esse relógio foi posto à minha disposição.
E que belas palavras me dedicou neste MOMENTO”

Momento

Nenhum sopro de ausência. Só a paixão
suave
de um sol íntimo
no seu ninho verde e alaranjado.
Simplicidade de substância volátil,
desejo no seu silêncio,
luxo indolente, frescura de vértebras solares.
intimidade perfeita
e que demora numa cândida estância.
Tudo se tornou interno neste espaço interior,
na delícia extrema de um sossego de folhas.
O que era fugaz converteu-se em tempo enamorado
e em tranquila doçura de hábitos.

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Otília Martel – “Momentos”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não me apetece dizer o que penso,
o que sinto, o que sou.
Não me apetece dizer-te
para onde vou, onde estou
o que senti.
Não me apetece manifestar meus afectos,
meus carinhos, pedir um beijo,
roçar teu corpo em mil desejos …
Não me apetece dizer
quantos orgasmos tive,
quando me possuías loucamente.
Não me apetece dizer o que sinto
quando o frenesim da tua boca
roça as minhas coxas
e me deixas louca de tesão.
Não me apetece!
E apetece-me tudo …

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Otília Martel – “Volúpia”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fecho os olhos e
ousadamente
os meus lábios
tecem o teu corpo
na volúpia da tua pele.
As minhas mãos percorrem
calmamente,
sem pressa,
em carícias incontidas
em desejos refreados
de mulher-fêmea que
se solta nos teus braços.
Um instante abrasador
de loucura.
Nossas peles colam-se
suadas,
frementes
num amor arrebatado
que já não conseguimos conter.
Chuva fina de amor em exaustão –
limites para além da nossa paixão –
eu me dou no teu corpo vivido
bebes-me
sugas-me
a alma dentro do sentimento
em lençóis vermelhos para lá da imaginação.
Sem medos nem pudor
nossos corpos conhecem o caminho …

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Otília Martel – “Como dizer-te””

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como dizer-te
que povoas
o meu sono
ao cair da noite,
quando o dia termina,
despertando sensações
há muito escondidas em mim.

Como dizer-te
que em sonhos
as tuas mãos afagam meus cabelos
e percorrem-me ondas de emoção.

Como dizer-te
que a tua voz
me possui, entrando
no meu ouvido, como seta
directa ao coração.

Como dizer-te
das sensações primeiras
coração aberto
sorriso franco
em sangue quente
que me inunda
e dá alento.

Como dizer-te
que és maré-alta
em noite de lua cheia.

Como dizer-te…

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António Lobo Antunes – “Bolero do coronel sensível que fez amor em Monsanto”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

puta13

Eu que me comovo
Por tudo e por nada
Deixei-te parada
Na berma da estrada
Usei o teu corpo
Paguei o teu preço
Esqueci o teu nome
Limpei-me com o lenço
Olhei-te a cintura
De pé no alcatrão
Levantei-te as saias
Deitei-te no banco
Num bosque de faias
De mala na mão
Nem sequer falaste
Nem sequer beijaste
Nem sequer gemeste,
Mordeste, abraçaste
Quinhentos escudos
Foi o que disseste
Tinhas quinze anos
Dezasseis, dezassete
Cheiravas a mato
À sopa dos pobres
A infância sem quarto
A suor, a chiclete
Saíste do carro
Alisando a blusa
Espiei da janela
Rosto de aguarela
Coxa em semifusa
Soltei o travão
Voltei para casa
De chaves na mão
Sobrancelha em asa
Disse: fiz serão
Ao filho e à mulher
Repeti a fruta
Acabei a ceia
Larguei o talher
Estendi-me na cama
De ouvido à escuta
E perna cruzada
Que de olhos em chama
Só tinha na ideia
Teu corpo parado
Na berma da estrada
Eu que me comovo
Por tudo e por nada

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António Lobo Antunes – “Homens quando estão com gripe”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas,. creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede me a febre, olha me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe me a Santinha à cabeceira,
Compõe me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisasna e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sózinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer.

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António Lobo Antunes – “Pescador da Marginal”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

o melhor da minha vida
é estar aqui na muralha
com uma cana estendida
para o negrume do rio
as vigias de um navio
e as ondas de fina talha.

Quando chega sexta-feira
despeço-me da mulher
beijo a criança na esteira
ponho um capuz de oleado’
e venho para este lado
no barquinho da carreira.

Vejo as luzes de Belém
reflectidas no alcatrão
milagres que a noite tem
namorados que se beijam
altas árvores que bocejam
e o búzio que as casas são.

Ó minha colcha de estrelas
neste mar cor de basalto
minhas loiras caravelas
navios de especiarias
vogando em ondas macias
num céu tão puro e tão alto.

Saltam infantes barbudos
das naus que vêm de Almada
grumetes frades miúdos
com gengivas de escorbuto
donzelas de triste luto
dançam na luz irisada.

Salta el-rei com seus alões
e as aias da princesa
bobos jograis e anões
escrivães e cardeais
saltam santas de vitrais
e o cronista à sua mesa.

D. João chegou de Diu
D. Pedro de Timor vem
e eu na muralha do rio
a ver os dois enforcados
que os corvos comem em estrados
junto à Torre de Belém.

Convosco esqueço o emprego
quando chega sexta-feira
fico surdo fico cego
não ligo à renda de casa
parado a ouvir uma asa
que me voa à cabeceira.

Meu rio tão negro e tão fundo
bacia do mar da Palha
quero lá saber do mundo
quero lá saber do peixe
quem me ama que me deixe
ficar aqui na muralha.

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Século de Ouro Espanhol – “Vilancico”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Porque me beijou Perico, 

porque me beijou o traidor.

Enquanto, mãe, eu dormia, 

do que muito me arrependo,

senti a mão dele que ia 

a camisola me erguendo; 

se bem que agora me ria, 

lembrá-lo me dá temor,

porque me beijou Perico,

porque me beijou o traidor.

Tão logo, como vos digo, 

adormecida me viu, 

pôs-se a apalpar, sob o umbigo, 

o com que Deus me supriu;

quereis que, por meu castigo,

ainda lhe tenha amor? 

Porque me beijou Perico,

porque me beijou o traidor.

E pouco depois lá vinha 

a sua perna atrevida 

introduzir-se entre as minhas

para me abrir a guarida;

juro que nunca na vida

padeci tamanha dor

porque me beijou Perico

porque me beijou o traidor

E quanto mais se agitava, 

mais ficavam deleitosos, 

dois mil gozos que me dava 

como açúcares cremosos. 

Deu-me beijos tão gostosos 

que deles guardo o sabor, 

porque me beijou Perico, 

porque me beijou o traidor.

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Século de Ouro Espanhol – “Soneto (2)”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Consentiu certa dama na porfia 

insistente do seu enamorado. 

Julgou, por seu nariz, estar provado 

que ele outro tanto alhures possuía.

Mas enganou-se nessa profecia: 

bem pouco o dele, e o dela demasiado, 

de sorte que ele, em sítio tão folgado, 

não sabia se entrava ou se saía.

Disse-lhe a dama perturbada e triste: 

“Vosso nariz pregou-me uma partida.”

Ao que ele respondeu com brejeirice:

“Que um defeito que tal não vos contriste; 

se pelo nariz meu fostes traída,

o vosso, dama, só verdade disse.”

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Século de Ouro Espanhol – “Soneto”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

À beira d’água estando certo dia, 

descuidada, uma dama primorosa, 

de mirar seu inferno desejosa 

e vendo-se ali só, sem companhia,

a saia ergueu, que vê-lo lhe impedia 

e, feliz de ver coisa tão preciosa,

disse, com doce voz de quem se goza,

e que de dentro d’alma lhe saía:

“Por vós eu sou de tantos requestada, 

por vós me dão colares e pulseira, 

sapatos, saia e manto para o frio.

“Um beijo quero dar-vos” e baixada 

para o dar escorregou na beira 

e de cabeça despencou no rio.

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Século de Ouro Espanhol – “Oitava”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entre delgada e gorda é a figura

que a dama deve ter quando formosa; 

e a meio da negrura e da brancura 

se põe a cor de todas mais graciosa; 

a meio da dureza e da brandura 

faz-se a carne da fêmea mais gostosa. 


Enfim há de ter tudo pelo meio, 

pois o melhor de tudo está no meio.

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Século de Ouro Espanhol – “Letrilha”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por terem argolas,

me pediu Teresa

sacar com presteza 

meu cajado e bolas.

Tirei de bom grado 

cajado e gabão.

Se me vissem, João, 

jogar com cajado! 

Libertou-se Inês 

da roupa e do afogo, 

começou o Jogo 

de um e dois e três.

Dois pontos então fiz, 

de enamorado. 

Se me vissem, 

João, jogar com cajado!

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Ana Luísa Amaral – “Silogismos”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

silogismo

A minha filha perguntou-me 

o que era para a vida inteira 

e eu disse-lhe que era para sempre.

Naturalmente, menti, 

mas também os conceitos de infinito 

são diferentes: é que ela perguntou depois 

o que era para sempre 

e eu não podia falar-lhe em universos 

paralelos, em conjunções e disjunções 

de espaço e tempo, 

nem sequer em morte.

A vida inteira é até morrer,

mas eu sabia ser inevitável a questão 

seguinte: o que é morrer?

Por isso respondi que para sempre 

era assim largo, abri muito os braços,

distraí-a com o jogo que ficara a meio.

(No fim do jogo todo, 

disse-me que amanhã 

queria estar comigo para a vida inteira)

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Amália Rodrigues – “Lágrima”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

lagrima13

Cheia de penas
Cheia de penas me deito
E com mais penas
Com mais penas me levanto
No meu peito
Já me ficou no meu peito
Este jeito
O jeito de te querer tanto

Desespero
Tenho por meu desespero
Dentro de mim
Dentro de mim um castigo
Não te quero
Eu digo que não te quero
E de noite
De noite sonho contigo

Se considero
Que um dia hei-de morrer
No desespero
Que tenho de te não ver
Estendo o meu xaile
Estendo o meu xaile no chão
Estendo o meu xaile
E deixo-me adormecer

Se eu soubesse
Se eu soubesse que morrendo
Tu me havias
Tu me havias de chorar
Uma lágrima
Por uma lágrima tua
Que alegria
Me deixaria matar

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Amália Rodrigues – “Grito”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Silêncio
Do silêncio faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco
De sombra a sombra
Há um céu tão recolhido
De sombra a sombra
Já lhe perdi o sentido
Ó céu
Aqui me falta a luz
Aqui me falta uma estrela
Chora-se mais
Quando se vive atrás d’ ela
E eu
A quem o céu esqueceu
Sou a que o mundo perdeu
Só choro agora
Que quem morre já não chora
Solidão
Que nem mesmo essa é inteira
Há sempre uma companheira
Uma profunda amargura
Ai solidão
Quem fora escorpião
Ai solidão
E se mordera a cabeça
Adeus
Já fui p’r’além da vida
Do que já fui tenho sede
Sou sombra triste
Encostada a uma parede
Adeus
Vida que tanto duras
Vem morte que tanto tardas
Ai como dói
A solidão quase loucura

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