Pedro Barão de Campos – “Liberta-me de tudo”
06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pedro Barão Campos. Acaba de publicar "Intensidade - Reflexões Poéticas" (Edição do Autor)
06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Solta-te
Liberta-me de tudo
E deixa-me vazio…
Um recipiente abandonado
Numa estrada por onde a guerra já passou.
Solta-te
Deixa-te ir num fluir que já não há
Ser talvez o que já não podes ser
E acontecer-te nunca e sempre
Numa espera que não alcança.
O que faço aqui, a olhar para ti?
Foi sempre assim?
Percorri tantas vezes o caminho mais difícil para te encontrar
Escondi-me tantas vezes
Fugi…!
Para quê?
Porquê?
Talvez, na sombra, entenda melhor o efeito da luz sobre os corpos
Talvez, ao relento, com o vento a massajar-me o pensamento
Encontre o inevitável fascínio
De uma montanha em aguarela colorida
E a tua figura como medida
Da excitação fulgurante e febril…
Do teu sorriso sublime.
Mas, porquê?
Porquê, gostar assim tanto de ti?
Solta-me, pensamento cruel!
Liberta-me de tudo!
Deixa de existir em mim!
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21.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky
Muito se escreveu sobre o compositor Tchaikovsky nascido na Rússia no ano de 1840. Educado pelos modelos convencionais da classe média da época, cedo demonstrou aptidão para o piano tendo recebido – a par dos seus estudos na Faculdade de Direito – lições de música no Conservatório de São Petersburg até aos 22 anos de idade. Aos 25 anos realizou o seu primeiro concerto em público.
A música de Tchaikovsky não se identificava com quaisquer outras dos grandes compositores contemporâneos – Borodin, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov – e nos tempos de agora parte da sua obra podia considerar-se original.
A sua personalidade introvertida repudiava firmemente a ideia de qualquer contacto intimo com outras pessoas embora fosse propenso a estados apaixonados.
Durante treze anos correspondeu-se com uma viúva abastada, de meia idade, que lhe correspondia com grande paixão. A determinada altura passou a conceder-lhe uma pensão de 6000 rublos anuais (opcinal; algum ouvinte faça a conta de quanto podia equivaler esta fortuna nos dias de hoje) que dava e sobejava para o compositor viver folgadamente. Mas a viúva nunca conheceu pessoalmente o compositor nem este mostrou interesse numa relação com a sua mecenas.
Um dia Tchaikovsky já com 37 anos, recebeu uma carta de amor de uma sua aluna que tinha apenas 20 anos de idade; Antonina Milyukova. O compositor passou a ser bombardeado com cartas arrebatadores e Antonina não vendo da parte do músico qualquer reacção às suas suplicas de amor ameaçou suicidar-se. Casaram-se, mas o casamento foi um desastre; Tchaikovsky na primeira noite da lua-de-mel achou-a fisicamente repulsiva e abandonou-a.
Tempos mais tarde Antonina deu entrada num manicómio.
Falaremos mais sobre este músico em futuros programas, mas fiquemos hoje com o seu famoso Concerto nº 1 para piano, Op. 23, interpretado por Ida Czernecka, ao piano.
Ouvimos música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky
Orquestra do Festival de Londres conduzida por Laurance Siegel
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19.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pela estrada plana, toque, toque, toque,
Guia o jumentinho uma velhinha errante.
Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes
que anoiteça, toque, toque, toque, A
velhinha atrás, o jumentito adiante!…
Toque, toque, a velha vai para o moinho,
Tem oitenta anos, bem bonito rol!… E
contudo alegre como um passarinho, Toque,
toque, e fresca como o branco linho, De
manhã nas relvas a corar ao sol.
Vai sem cabeçada, em liberdade franca, O
jerico ruço duma linda cor; Nunca foi
ferrado, nunca usou retranca, Tange-o,
toque, toque, a moleirinha branca Com o
galho verde duma giesta em flor.
Vendo esta velhita, encarquilhada e benta,
Toque, toque, toque, que recordação! Minha
avó ceguinha se me representa… Tinha eu
seis anos, tinha ela oitenta, Quem me fez o
berço fez-lhe o seu caixão!…
Toque, toque, toque, lindo burriquito, Para
as minhas filhas quem mo dera a mim! Nada
mais gracioso, nada mais bonito! Quando a
virgem pura foi para o Egipto, Com certeza
ia num burrico assim.
Toque, toque, é tarde, moleirinha santa!
Nascem as estrelas, vivas em cardume…
Toque, toque, toque, e quando o galo canta,
Logo a moleirinha, toque, se levanta, Pra
vestir os netos, pra acender o lume…
Toque, toque, toque, como se espaneja, Lindo
jumentinho pela estrada chã! Tão ingénuo e
humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade
de o levar à igreja, Baptizar-lhe alma, prà
fazer cristã!
Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga,
Toda, toda branca, vai numa frescata… Foi
enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da
azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros
com luar de prata!…
Toque, toque, como o burriquito avança! Que
prazer doutrora para os olhos meus! Minha
avó contou-me quando fui criança, Que era
assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou
nas palhas o menino Deus…
Toque, toque, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,
Moleirinha branca, branca de luar!… Toque, toque,
e os astros abrem diamantinos, Como
estremunhados querubins divinos, Os olhitos
meigos para a ver passar…
Toque, toque, e vendo sideral tesoiro, Ente
os milhões d’astros o luar sem véu, O
burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem
será que mói estas farinhas d’oiro Com a
mó de jaspe que anda além no Céu!
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10.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP
Franz Liszt tinha apenas nove anos quando deu o seu primeiro concerto público, deixando a assistência aristocrática e melómana fascinada pelo menino prodígio.
Foi tal o êxito que criaram um fundo para financiar os estudos de Liszt. Seu pai – que tocava na perfeição vários instrumentos – abandonou a ocupação de administrador de uma grande herdade para viajar com o filho para Viena.
Chamavam-lhe “Mozart ressuscitado” pela extraordinária facilidade com que arrancava sons mágicos ao piano.
No final duma grande digressão pela Inglaterra, Liszt – de saúde débil – ficou esgotado e teve que cancelar alguns concertos para um merecido descanso, mas seria seu pai a falecer de febre tifóide numa viagem de “cura marítima” que quis proporcionar ao seu filho.
Frantz Liszt casa com Marie d’Agoult da qual veio a ter três filhos, mas a sua figura esbelta deu-lhe fama de irresistível, produzindo aquilo que se propagou pela Europa inteira; a “Lisztamania”
É dessa vida amorosa que falaremos num dos próximos programas.
Por hoje apreciem a Rapsódia Húngara nº 3 interpretada pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Ljubljana.
Ouvimos, música para quem gosta de POP. Hoje, Liszt.
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28.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP
Falemos hoje de Verdi, do grande Giuseppe Verdi.
Já aos 12 anos este génio tocava órgão numa igreja de Le Roncole pequena aldeia no norte de Itália, enquanto estudava flauta, clarinete baixo, trompa e piano.
Em 1839, no Teatro de La Scala estreou com grande êxito a sua primeira ópera “Oberto”.
Entretanto passou por terríveis contratempos; a morte dos seus dois filhos e da própria mulher que adorava.
A depressão abalou profundamente o compositor, mas o director do Scala encomenda-lhe uma ópera baseada num episódio bíblico relacionado com o cativeiro dos judeus nos tempos de Nabucodonosor. Assim nasceu “Nabuco” que o tornou famoso de um dia para o outro.
Giuseppe Verdi não brincava aos “corais” e nesse tema para coral e orquestra que hoje vamos ouvir (Vai, pensamento, sobre asas douradas), é bem audível a força brutal dum conjunto de 4 vozes (Sopranos, Mezzos, Tenores e Baixos) onde não existem estrelas; apenas muitas vozes que se complementam.
Falaremos ainda deste compositor numa próxima oportunidade para notarmos da importância do nome “VERDI” num grito nacionalista que levou à unificação da Itália.
Antes de morrer Giuseppe pediu a maior simplicidade nas suas exéquias, mas a multidão que invadiu o cemitério milanês entoou este comovente coro de Nabuco.
Fiquemos pois com “Va pensiero” interpretado pelo coro e orquestra de Budapeste.
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23.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tu procuras a sementeira que alguém rasgou pois esse é o sinal
de que chegarão as asas das aves quando o sol mourejar.
Então os estampidos traduzem os homens cujas bocas se abeiram dos regatos
para tomar em mãos o sangue da carnificina e então serás
o que há-de vir no percurso dos silêncios, o mesmo percurso das tectrizes
e das borboletas que, porque voam, navegam entre as papoilas
e as estevas. E então dirás que a liberdade também se esquece
como o furor aquece a linfa. E então estarás teso
como o eucalipto que já secou a fonte.
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19.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na década de 1840 vivia-se em Viena a febre da valsa e isto por culpa de um clã de músicos; a família Strauss.
Pai e filho rivalizavam-se cada um com a sua orquestra.
Parece consensual que a origem da valsa é alemã através da palavra waltzen equivalente ao latim volvere que sugere desde logo uma dança giratória.
E a valsa mandou às urtigas o estafado e aristocrático minueto; agora os pares dançavam bem agarradinhos ao som daquelas melodias que os Strauss compunham para escândalo da aristocracia conservadora.
Não se pense que as valsas são apenas dos Strauss. Grandes compositores como Mozart, Beethoven, Schubert e outros, criaram pequenas peças encantadoras e muito divertidas. Mas as de Johann Strauss Jr. tinham mais brilho e um primeiro tempo bem marcado.
Os grandes salões de baile como o Apolo e o Sperl (que podiam acolher 3000 pares de dançarinos apaixonados pelo rodopio) rapidamente perceberam que ao repúdio inicial por esta dança havia agora lugar à alegria esfuziante duma juventude renovada.
Esta Valsa que vamos ouvir (Vinho, Mulher e Canto) comenta com um sorriso as preocupações da sociedade vienense que frequentava os cafés.
(Wiener Wolksoper Orchestra. Cond.: Peter Falk)
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14.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
As águas calmas do rio Tamisa aguardavam o inicio da procissão régia e, na faustosa embarcação, Jorge I deliciava-se por aquele bonito dia de Julho de 1717.
E quando os primeiros acordes da solene abertura “Música Aquática” se fizeram ouvir, o soberano encostou-se num almofadão azul e disse:
– Silêncio, agora ouçam Haendel.
Precisamente o obeso compositor tinha concluído dias antes a suite “Música Aquática” e agradeceu com respeitosa vénia.
Ao lado da embarcação real seguia o barco da orquestra e os músicos, de grandes e enfarinhadas perucas, tocavam a preceito toda a partitura.
Jorge I reconhecia há muito não estar nada arrependido de se ter tornado patrono do famoso músico alemão e compositor da corte de Inglaterra.
Haendel o boémio, Haendel o homem de muitas mulheres, Heandel o +
+apreciador de boa mesa, tornou-se um verdadeiro especialista a compor a música das cerimónias oficiais.
Sete anos antes de morrer ficou quase cego depois duma operação à vista mal sucedida,
mas este estudante de direito que optou pela beleza dos sons, deixou-nos obras-primas que são ouvidas ainda hoje com redobrado interesse; oratórias, óperas, música de câmara…
… E a célebre “O Messias”. Na estreia desta oratória as senhoras tiveram de se apresentar sem as armações dos saiotes e os homens sem espadas para que a sala pudesse acolher o maior número de pessoas.
(Salzburg Consort)
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30.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Este poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) foi declamado por mim, pela primeira vez, no dia 28 de Abril de 2006, incluído no programa Palavras de Ouro nº 41. Volto a declama-lo agora, passados 6 anos.
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém
sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por
gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos
nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de
nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tomando-se esta casa e este lado
da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida
apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos
na ida.
Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei-de
pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode
haver tantos!
Génio?
Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas
certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos
certo?
Não, nem em mim …
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
–
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que
tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que
Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de
uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafisica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais do que
a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que
comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de
estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem
lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que
inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses
nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer
nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem
cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti,
e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha
tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos
também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como
gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo
de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de
mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem
outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo
o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência
de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira
das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafisica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono
da Tabacaria sorriu.
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26.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
dedos devorando pressa e tempo
urgência desejo, arfar, corrida
negação da paz esta guerra
fúria que exige ser combatida.
fechar os olhos ter-te onde o desejo queima mais perto
fonte generosa, drink indigesto
testa em brasa, beber-te
toco o orgasmo e esgoto o cio
apalpo o meu seio, ardente de frio
invento beijos, flagelo hemisférios
provoco-me, então, o doce arrepio
vibramos os dois, em camas diferentes,
no vazio do nosso leito
combato alguns dos teus medos, ainda sinto o teu coração correr
qual cavalo, no meu peito entre o lençol de algodão
e agora já calmos, os teus nos meus dedos.
masturbação.
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17.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!
Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!
Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!
Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”
Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!
Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!
Fora! Fu! Fora o bom burguês!…
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14.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ah os velhos como deitam contas aos dias
como lançam a danação de uma carta de sobrancelha
ao parceiro de jogada
como rebatem a vida sobre o tampo de uma mesa
como desaborrecem a morte
como só depois vem o poder de uma dor
combatida pelo ruído de uma máquina
pelos pássaros das gaiolas
pelos gatos nos beirais das janelas
ou na franquia dos muros
tudo o que lhes é silencioso é escuro
tudo o que ouvem já não pertence ao mundo
só a noite o sono o soporífero o amuo
Ah o gosto posto nos rituais nos festejos
o tiro que arremessam ao passado
contado até que adormeçam a morte
ou a criem transparente nos nossos olhos
publicado por poemarte
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14.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Carrego parco peso do silêncio
Ouço
É uma ave nocturna pousada no varadim
Veio com a noite fez-se escura
Cantou com dobras de sino e tábua
Festejou a lua ofereceu as asas
Quis-se inteira habitando o ar da casa
Mas eu sonho o distante e o inteiro da luz
E não consenti que viesse acender meu sangue
No rasgo de um dobrar de asas
Deixei que os pés me fossem chão
Que o corpo vogasse num barco defeso na água
Que a escuridão da noite
Fosse gesto consentido
Estreme na noite intíma só a casa
Deixei que uma gramática me assaltasse as horas
Escrevesse por ela o meu voo libertasse a minha asa
Não desiste de me chamar a ave
No varadim incendeia gutural a noite
Com os olhos de menino parto para longe
E trago uma infância aquecida a fogo posto
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12.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.
foste eterna até ao fim.
José Luís Peixoto, in “A Casa, A Escuridão”
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11.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pranto por Ignacio Sanches Mejias (Excerto)
Davam cinco da tarde.
Davam as cinco em ponto dessa tarde.
Um moço trouxe uma toalha branca
davam cinco da tarde.
Uma seira de cal já preparada
davam cinco da tarde.
Tudo o mais era a morte e só a morte
davam cinco da tarde.
O vento fez voar os algodões
davam cinco da tarde.
o óxido semeou cristal e níquel
davam cinco da tarde.
Já lutavam a pomba e o leopardo
davam cinco da tarde.
E a coxa com uma haste desolada
davam cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
davam cinco da tarde.
As campanas de arsénico e o fumo
davam cinco da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
davam cinco da tarde.
E o touro só de coração ao alto!
davam cinco da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
davam cinco da tarde.
e quando a praça se cobriu de iodo
davam cinco da tarde.
a morte pôs seus ovos na ferida
davam cinco da tarde.
Davam cinco da tarde.
Davam as cinco em ponto dessa tarde.
Um ataúde em rodas era a cama
davam cinco da tarde.
Ossos e flautas soavam-lhe no ouvido
davam cinco da tarde.
Já lhe mugia o touro pela fronte
davam cinco da tarde.
Irisava-se o quarto de agonia
davam cinco da tarde.
Ao longe aproximava-se a gangrena
davam cinco da tarde.
Tromba de lírio pelas verdes ínguas
davam cinco da tarde.
As feridas queimavam como sóis
davam cinco da tarde.
e a multidão a estilhaçar janelas
davam cinco da tarde.
Davam cinco da tarde.
Ai que terríveis cinco horas da tarde!
Davam as cinco em todos os relógios!
Davam as cinco em sombra dessa tarde!
(Trad. De Vasco Graça Moura)
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10.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando a terra e o céu ainda não eram dois, quando os animais podiam falar como os humanos, um espírito divino chamado Hwan-in, rei dos céus orientais, governava essa parte da terra onde nasce a cada dia a manhã. Nesses tempos áureos moravam ainda cinco monstros nos quatro cantos da terra; o Dragão Azul sobre o Oriente, o Tigre Branco a Ocidente, a Fénix Vermelha no Sul e a Tartaruga e a Serpente no Norte. O rei enviou o seu filho Hwang-ung para Oriente e deu-lhe ordens para que lá construísse um novo reino.
Hwang-ung desceu sobre a terra acompanhado de três Grandes Espíritos Divinos: o Professor, criador das nuvens, o General, condutor dos ventos, e o Governador, gestor das chuvas. Outros três mil espíritos desceram à terra e Hwang-ung fê-los reunir em torno de uma grande árvore que descansava sobre o cume de uma montanha ainda maior. Fundaram aí uma nova nação que Hwang-ung governaria a partir de Shinshi, a cidade celeste que o vira crescer desde tempos imemoriais. Era um rei justo e sensato. A população vivia alegremente e a nação prosperava.
Não muito longe de Shinshi, numa gruta enorme junto a T’aebaek-san, viviam pacificamente um urso e um tigre da Sibéria. Dormitando, uma vez sobre as ervas da montanha, o urso e o tigre conversaram, não sem alguma inveja, sobre a prosperidade da nação de Hwang-ung e da raça humana que aí nascera. «Como desejava ser um homem e um fiel súbdito de Hwang-ung», confessou o urso. O tigre concordou e sugeriu então que se dirigissem ao próprio Hwang-ung e que a ele pedissem conselho. O rei disse-lhes que teria todo o prazer em recebê-los no seu reino, mas disse também que, para se tornarem homens, teriam de sobreviver a uma dura e paciente provação. Deveriam assim comer vinte dentes de alho cada um e com eles sobreviver a cem dias de reclusão no interior da sua gruta. Caso o conseguissem, tornar-se-iam homens com a bênção do rei.
O tigre e o urso aceitaram o desafio, mas sendo animais selvagens, habituados a vaguear livremente pelas montanhas, não tardou que a reclusão se lhes tornasse insuportável.
A sua força de vontade decaía e ao vigésimo dia, o tigre perdeu definitivamente a paciência que o rei lhes aconselhara. O urso ainda pediu ao tigre que se concentrasse no seu objectivo e que esquecesse a fome, mas de nada valeu. Esfomeado, o tigre abandonou a gruta em busca de alimento e é, desde então, o maior inimigo do homem sobre a terra. O urso, por seu turno, esforçou-se por resistir mais do que o seu amigo tigre. Lembrou-se do seu enorme desejo de se tornar humano e pensou para si mesmo que, estando ele habituado a hibernar, a tarefa até não seria tão difícil. Ao centésimo dia, ocorreu uma transformação maravilhosa; à medida que nascia a aurora, uma bela e formosa mulher emergiu da gruta escura e ofereceu-se, nua, ao ar fresco, onde ainda parecia mais bela.
Dirigiu-se aos céus e agradeceu a oferenda, seguindo para Shinshi, onde agradeceria ao rei a sua bênção. Deslumbrado com a sua nua beleza, o rei casou de imediato com Ung-yo, a-mulher-vinda-do-urso. Uniram-se junto à árvore de T’aebaek-san e aí veio à vida uma criança. Senhor das Árvores, a criança Tangun era o deus-homem que completava a divina trindade com Hawn-in, o deus-pai, e Hwang-ung, o espírito. Quando este último abandonou definitivamente a terra, Tangun expandiu o reino, ensinou ao seu povo as leis do deus-pai e tornou-se o primeiro rei da Coreia.
Trad.: Manuel João Magalhães
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10.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não saberei nunca
dizer adeus
Afinal,
só os mortos sabem morrer
Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser
Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo
Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos
Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca
Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo
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09.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cinquentonas adiposas
homens de bigode problemático
duas angustiadas estéreis
outras duas parideiras
velhos parados na sua velhice
funcionários tão públicos
uma adolescente esburacada
a mãe catastrófica
o jovem lamentável casal
uma miúda que só olha
um avô despedaçado,
todos na mesma fila que eu
para os comprimidos.
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09.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios,
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.
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08.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
III
Vejo que não queres a equação de uma linha,
Os pontos compostos todos à sua volta,
Uma regra para dispor em cada caso
A ordenar por dentro o conjunto inteiro.
Não queres, dizes, a máquina funcional
Que calcula a posição de cada ponto –
Deixa-los expandir ao acaso, uma nebulosa
Que cresce sem limites num impulso variável.
Que linha é essa no entanto quando olhas
Sem ver nas partes um eixo dominante?
Em breve o horizonte esgota-se e o que fora
Uma explosão do sol é uma área trivial.
Extinto o cânon não distingues mais
Uma barra firme dum traço instável.
Por fim vibras com o intervalo subtil,
Voltas do nó orgânico à fuga poligonal.
Não se tocam as linhas de um compasso,
Deixam-se suspensas numa presença imóvel,
Perpendiculares ao fundo a bater o tempo,
Um guia silencioso no texto medieval.
Ficam a raiz do desenho, o arame da frase
Como um esqueleto de metro no meio do verso livre:
Soam no osso a respiração do bloco,
Um andaime dobrado numa fibra contínua.
Não há volumes de uma só faceta
Em movimento paralelo ao mesmo plano.
Não medimos só ponto contra ponto
Nas imagens discretas da mesma linha,
Mas também o acordo da figura vertical
Em que o bloco ressalta integrável.
A treva desce aos vapores do fundo:
A face sua oblíqua através do espelho.
(de Arte Combinatória, Moraes editores, 1971 – Círculo de Poesia)
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07.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A senhora tia alisa a toalha
põe sobre ela talheres muito antigos
herdados dos avós que a terra come
quantos anos passados deste dia
ainda estaremos como agora juntos
na cozinha de Sangalhos
entre o fumo da lenha seca
e o cheiro misturado
das carnes e das hortaliças
que acabam de ferver no fogo esperto
minha mãe diz um dito qualquer
seca a vista embaciada eu venho
do pátio certamente cantando
o tio – as urinas presas
no laço da bexiga –
conta uma história
da guerra de 14
do vizinho morto jovem
como ele Manuel sorte infeliz
ao tempo que isto foi
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06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O poema mais popular do autor, “No caminho, com Maiakóvski”, escrito na década de 1960 como manifestação de revolta à intolerância e violência impostas pela ditadura militar, foi envolvido numa série de equívocos quanto à atribuição de autoria. Para alguns, o texto era do poeta russo Vladimir Maiakóvski. Para outros, o verdadeiro autor era o dramaturgo alemão Bertold Brecht.
Foi graças à telenovela Mulheres Apaixonadas, originalmente exibida pela Rede Globo em 2003, numa cena em que a personagem de Christiane Torloni lê um trecho do poema, dando o crédito correto, que o mal-entendido foi desfeito.
Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.
Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.
Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça,
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.
Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.
Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.
E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!
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06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
José Agostinho de Macedo (Beja, 11 de Setembro de 1761 — Lisboa, 2 de Outubro de 1831) foi um escritor português. Escritor de estilo polêmico e agressivo, era adepto fervoroso do miguelismo. Escreveu sobre a maçonaria no livro Morais dos pedreiros livres e iluminados (1816).
Debaixo desta campa sepultado
Jaz um peito, um que etéreo fogo ardia,
Que da Lusa Eloquência, e da Poesia
Será por longos Evos lamentado.
Deixou à Pátria alto Padrão alçado,
Enfeitando co’ as flores a Harmonia
A austera fronte à sã Filosofia,
Com exemplo entre nós não praticado.
Não indagues, Viandante curioso,
Da larga vida sua erro, ou defeito,
Da Morte acata o manto tenebroso.
Ele Homem foi, Homem não há perfeito;
E, deixando este valer lacrimoso,
Foi piedade buscar de Deus no peito.
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06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ana Cristina César foi professora universitária, jornalista e poeta. Entre outros autores,traduziu Sylvia Plath.
Minha boca também
está seca
bebemos litros d’água
Brasília está tombada
iluminada
como o mundo real
pouso a mão no teu peito
mapa de navegação
desta varanda
hoje sou eu que
estou te livrando
da verdade
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06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudade que deles teremos…
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta rude, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos,
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!
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05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
estavam os apóstolos na paragem do 90
no rossio e jesus apareceu-lhes.
acima das cabeças elevou-se, sobre cada um,
uma língua de fogo, como que a mostrar-lhes
o caminho para o martinho da arcada,
onde estava combinada uma última ceia.
pedro ia em silêncio, a fumar um puro montecristo
nº. 3, enquanto que tomé pedia ao mestre
para ver as marcas do infortúnio
e tocar, ainda que ao de leve, as cicatrizes.
mateus levantou os olhos um momento
do financial times e ponderou
ser aquele um bom local
para abrir uma loja de câmbio.
joão persignou-se e olhou para maria
madalena, também presente,
carregada de sacos da fnac e do corte inglês,
tendo entrevisto, atrás de uma coluna,
o gang de pessoa, que de súbito fugiu,
por estar em menor número.
tiago, o maior, foi comprar
um braçado de rosas, que entregou
a maria, que, muito consternada,
pediu encarecidamente que a levassem
ao pavilhão chinês, no príncipe real,
para tomar um chá de folhas de jasmim.
felipe meditava, tirando apontamentos
sobre os efeitos nefastos de outra guerra
entre judeus e árabes. tadeu
mascava chiclets, para enganar
o martírio da ressaca, implorando a simão
cinquenta euros para dois gramas de pó,
pelo que foi admoestado com maus modos
por zebeu, que estava a seu lado,
a observar uma negra lindíssima que passava
com as calças muito justas, bordadas
a amarelo com ramagens e pássaros
e uma blusa transparente, toda aberta,
que lhe deixava visíveis, quase completamente,
os seios. andré seguia atrás, vociferando
contra o custo de vida e lembrando-se
do tempo em que era pescador e a abundância
de sardinha era tão grande
que nem sequer tinha cotação no mercado.
bartolomeu vinha no meio, a rogar pragas
pelo trânsito da cidade e a poluição,
e a pensar que, nas próximas eleições,
iria apresentar candidatura ao município
como independente, nas listas do partido.
a dada altura, notaram que judas
não estava no grupo e foram procurá-lo
à praça da figueira, onde andava às moedas,
a guardar carros. então, um transeunte,
reconhecendo o mestre, aproximou-se e disse
que só mesmo por milagre o poderia
encontrar ali e em almada vê-lo a abraçar
lisboa. ao que o mestre retorquiu, ó príncipe,
meu príncipe, não me tentes de novo.
eu faço corpo com a evanescência,
mas não há maior prodígio que escapar ileso
ao trânsito infernal da 24 de julho.
e, isto dito, partiu, de bicicleta.
Posteriormente à gravação, o Poeta procedeu a algumas alterações do texto que ficou com se segue:
Carta dos Coríntios
estavam os apóstolos na paragem do 90
no rossio e jesus apareceu-lhes.
acima das cabeças elevou-se, sobre cada um,
uma língua de fogo, a mostrar-lhes
o caminho para o martinho da arcada,
onde estava combinada uma última ceia.
pedro ia em silêncio, a fumar um puro montecristo
nº. 3, enquanto que tomé pedia ao mestre
para ver as marcas do infortúnio
e tocar, ainda que ao de leve, as cicatrizes.
mateus levantou os olhos um momento
do financial times e ponderou
ser aquele um bom local
para abrir uma loja de câmbio.
joão persignou-se e olhou para maria
madalena, também presente,
carregada de sacos da fnac e do corte inglês,
por ter entrevisto, atrás de uma coluna,
o gang de pessoa, que de súbito fugiu,
por estar em menor número.
tiago, the one, foi comprar
um braçado de rosas, que entregou
a maria, que, cansada da jornada,
pediu, encarecidamente, que a levassem
ao pavilhão chinês, no príncipe real,
para tomar um chá de folhas de jasmim.
felipe meditava, tirando apontamentos
sobre os efeitos nefastos de outra guerra
entre judeus e árabes. tadeu
mascava chiclets, para enganar
o martírio da ressaca, implorando a simão
cinquenta euros para dois gramas de pó,
pelo que foi admoestado com maus modos
por zebeu, que estava a seu lado,
a topar uma negra lindíssima que passava
com as calças muito justas, bordadas
a amarelo com ramagens e pássaros
e uma blusa transparente, toda aberta,
que lhe deixava visíveis os seios fartos.
andré seguia atrás, vociferando
contra o custo de vida e lembrando-se
do tempo em que era pescador e a abundância
de sardinha era tão grande
que nem sequer tinha cotação no mercado.
bartolomeu vinha no meio, a rogar pragas
pelo trânsito da cidade e a poluição,
e a pensar que, nas próximas eleições,
iria apresentar candidatura ao município
como independente, nas listas do partido.
a dada altura, notaram que judas
não estava no grupo e foram procurá-lo
à praça da figueira, onde andava às moedas,
a guardar carros. então, um transeunte,
reconhecendo o mestre, aproximou-se e disse
que só mesmo por milagre o poderia
encontrar ali e em almada vê-lo
a abraçar lisboa. ao que o mestre retorquiu
‘ó príncipe, meu príncipe, não me tentes de novo.
embora eu faça corpo com a evanescência,
mas não há maior prodígio que escapar ileso
ao trânsito infernal da 24 de julho’.
e, isto dito, partiu, de bicicleta.
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05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mais do que um sonho: comoção!
Sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.
E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.
Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço os melhores dias
do nosso amor.
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05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Podíamos saber um pouco mais
da morte. Mas não seria isso que nos faria
ter vontade de morrer mais
depressa.
Podíamos saber um pouco mais
da vida. Talvez não precisássemos de viver
tanto, quando só o que é preciso é saber
que temos de viver.
Podíamos saber um pouco mais
do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar
de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou
amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada
sabemos do amor.
(1949)
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05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando penso em vinho penso no avô
homem do campo arrostando com o sol
parcimonioso, assim como eu sou
afoito na vida e moderado c’o briol
Apenas bebia em ocasiões particulares
ao matar de bicho matinal
ao chegar cedo aos pomares
a meio da manhã, nalgum pinhal
Bebia bem ao almoço, lá p’rás treze
à tarde nem tanto, nada disso
só para matar a sede, várias vezes
e outras com uns nacos de chouriço
De regresso ao lar nada de excessos
Uma breve paragem na taberna
sorvendo de passagem dois canecos
e ala que se faz tarde pela berma
Na ceia farta – janta de trabalhador
permitia-se uma certa relaxação
comia bem, quase com amor
e despejava à vontade meio garrafão
Depois falava e era eloquente
Lembrando que o vinho era dádiva de Deus
sorvia um copinho de aguardente
e vituperava bêbados e ateus
Por fim ia recuperar de toda a canseira
ternamente à avó dando a mão
sabendo consolado que à cabeceira
repousava bem cheio um canjirão
Ah!, se todos fossem como o avô…
cumpria-se o velho desígnio da Nação
embora doendo a quem calhou
matava-se bem a fome a um milhão
(Poema que participou num concurso organizado pelo blogue Porosidade Etérea)
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05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Acordei
e alebantei-me.
Coxei-me.
Procurei
as chabes…
Encontrei.
Meti-as
à porta.
Em caja
entrei.
Na cojinha
o bagaxo
Busquei.
Olhei à bolta,
não encontrei.
Oubi a garrafa
Tombar
no roupeiro.
AH!
Ao quarto
rumei.
E cuidadojamente
entrei.
Não hoube
berreiro.
Estranhei…
A Maria
Taba
no xubeiro.
Ah, prontos,
lá xeguei.
Reparei
num pó axim branco no ar…
Huumm…
Neboeiro?
Abri
O roupeiro
Uma mão
paxa-me o bagaxo.
Era o padeiro.
Xaí de caja,
pelas escadas
rebolei.
Boltei
para a rua.
Jiguejaguei.
À porta da padaria
numa cuscubilheira
esbarrei.
Bia
Bar
Da
Mer
Da!
Recomendei.
A padaria
contornei.
Às boltas,
às trajeiras
lá xeguei.
À janela
de xima
um calhau
atirei.
No bidro
nem xei como
lá axertei.
A padeira
à janela
bei.
Abriu
as portadas
e me biu.
No peitoril
entre os bajos
Poujou
Xenxual
o xeu xeio.
E xorriu.
Tens o bagaxo?
Perguntou ela.
Tenho xim.
Respondi.
Atão xobe,
porra!
Dixe ela.
E xubi.
(Poema concorrente a um concurso de poesia organizado pelo blogue Porosidade Etérea)
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