Fiama Hasse Pais Brandão – “Canto dos Lugares”
06.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Fiama Hasse Pais Brandão (Lisboa, 15 de Agosto de 1938 — Lisboa, 19 de Janeiro de 2007) foi uma escritora, poetisa, dramaturga, ensaísta e tradutora portuguesa. Foi estudante de Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, tendo sido um dos fundadores do Grupo de Teatro de Letras. Foi casada com Gastão Cruz.
06.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tantas vezes os lugares habitam no Homem e
os homens tantas vezes habitam nos lugares que
os habitam, que podia dizer-se que o cárcere de
Sócrates, estando nele Sócrates, não o era, como
diz Séneca em epístola a Hélvia.
Por isso cada lugar nos mostra uma vida
clara e desmedida, enquanto o Tempo
oscila e nos oculta que é curto e ambíguo
porque nos dá a morte e a vida.
E os lugares somente acabam
porque é mortal cada homem
que houve em si algum lugar.
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05.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Solitário
por entre a gente eu vi o meu país.
Era um perfil
de sal
e abril.
Era um puro país azul e proletário.
Anónimo passava. E era Portugal
que passava por entre a gente e solitário
nas ruas de Paris.
Vi minha pátria derramada
na Gare de Austerlitz. Eram cestos
e cestos pelo chão. Pedaços
do meu país.
Restos.
Braços.
Minha pátria sem nada
sem nada
despejada nas ruas de Paris.
E o trigo?
E o mar?
Foi a terra que não te quis
ou alguém que roubou as flores de abril?
Solitário por entre a gente caminhei contigo
os olhos longe como o trigo e o mar.
Éramos cem duzentos mil?
E caminhávamos. Braços e mãos para alugar
meu Portugal nas ruas de Paris.
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04.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Oiça, vizinha: o melhor
É combinarmos o modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
Passo os meus dias a vê-la
Bordar ao pé da sacada.
Não me tiro da janela,
Não leio, não faço nada…
0 seu trabalho é mais brando,
Não lhe prende o pensamento,
Vai conversando, bordando,
E acirrando o meu tormento…
0 meu não: abro um artigo
De lei, mas nunca o acabo,
Pois dou de cara consigo
E mando as leis ao diabo.
Ao diabo mando as leis
Com excepção dum artigo:
0 mil e cinquenta e seis…
Quer conhecê-lo? Eu lhe digo:
«Casamento é um contrato
Perpétuo». Este adjectivo
Transmuda o mais lindo pacto
No assunto mais repulsivo.
«Perpétuo». Repare bem
Que artigo cheio de puas.
Ainda se não fosse além
Duma semana, ou de duas…
Olhe: tivesse eu mandato
De legislar e poria:
Casamento é um contrato
Duma hora – até um dia…
Mas não tenho. É pois melhor
Combinarmos algum modo
De acabar com este amor
Que me toma o tempo todo.
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03.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
A neta explora-me os dentes, Penteia-me
como quem carda. Terra da sua
experiência, Meu rosto diverte-a,
parda Imagem dada à inocência.
Finjo que lhe como os dedos, Fura-
me os olhos cansados, íntima aos
meus próprios medos Deixa-mos
sossegados.
E tira, tira puxando Coisas de mim,
divertida. Assim me vai
transformando Em tempo de sua
vida.
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02.02.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca.
A boneca ninguém sabia se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora também já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca arromba as portas de todos os armários.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
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30.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na minh’Alma há um balouço
Que está sempre a balouçar
Balouço à beira dum poço,
Bem difícil de montar…
– E um menino de bibe
Sobre ele sempre a brincar…
Se a corda se parte um dia,
(E já vai estando esgarçada),
Era uma vez a folia:
Morre a criança afogada…
– Cá por mim não mudo a corda,
Seria grande estopada…
Se o indez morre, deixá-lo…
Mais vale morrer de bibe
Que de casaca… Deixá-lo
Balouçar-se enquanto vive…
– Mudar a corda era fácil…
Tal ideia nunca tive…
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29.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem,
vento areias mastros lábios, tudo ardia.
[Querido Eugénio, que coragem a sua, tão esteta
e cultor do verso enxuto, em «ostinato rigore», escrever esta ode
a Vasco Gonçalves, representando o então quase comum
entusiasmo poético pela Revolução de Abril!
Contido, o poema comunica a intensidade dos discursos,
a aliança dos militares com o povo, a incandescência revolucionária
do Alentejo. Extraordinária concisão estética, a do poema, para o
fervor verbal transbordante das vivências comunitárias de então.
Maria Alzira Seixo in “Os poemas da minha vida” Ed. Jornal Público]
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28.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Por um país de pedra e vento duro Por um
país de luz perfeita e clara Pelo negro da
terra e pelo branco do muro
Pelos rostos de silêncio e de paciência Que a
miséria longamente desenhou Rente aos ossos
com toda a exactidão Dum longo relatório
irrecusável
E pelos rostos iguais ao sol e ao vento
E pela limpidez das tão amadas Palavras
sempre ditas com paixão Pela cor e pelo peso
das palavras Pelo concreto silêncio limpo das
palavras Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas
Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro
Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo
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27.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Floriram por engano as rosas bravas No Inverno:
veio o vento desfolhá-las… Em que cismas, meu
bem? Porque me calas As vozes com que há pouco
me enganavas?
Castelos doidos! Tão cedo caístes!… Onde vamos,
alheio o pensamento, De mãos dadas? Teus olhos,
que um momento Perscrutaram nos meus, como vão
tristes!
E sobre nós cai nupcial a neve, Surda, em
triunfo, pétalas, de leve Juncando o chão, na
acrópole de gelos…
Em redor do teu vulto é como um véu! Quem
as esparze – quanta flor! – do céu, Sobre nós
dois, sobre os nossos cabelos?
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22.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu canto porque o instante existe e a
minha vida está completa. Não sou
alegre nem sou triste: sou poeta.
Irmão das coisas fugidias, não sinto
gozo nem tormento. Atravesso noites
e dias no vento.
Se desmorono ou se edifico, se
permaneço ou me desfaço,
– não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
– mais nada.
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21.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, porque me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
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12.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eram, na rua, passos de mulher.
Era o meu coração que os soletrava.
Era, na jarra, além do malmequer,
espectral o espinho de uma rosa brava…
Era, no copo, além do gim, o gelo;
além do gelo, a roda de limão…
Era a mão de ninguém no meu cabelo.
Era a noite mais quente deste verão.
Era, no gira-discos, o Martírio
de São Sebastião, de Debussy…
Era, na jarra, de repente, um lírio!
Era a certeza de ficar sem ti.
Era o ladrar dos cães na vizinhança.
Era, na sombra, um choro de criança…
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05.01.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mãe
Não consigo adormecer
Já experimentei tudo. Até contar carneirinhos
Não consigo adormecer
Nem chorar
(Que maior tragédia poderá acontecer a um homem do
que a de já não ser
capaz de chorar?)
Mãe
Sabias que o cordão umbilical pode funcionar
como uma corda num enforcamento?
— tenho aprendido coisas bem singulares neste
convívio com os deuses —
Um dia destes regressarei a Tebas para ser coroado
Reservei hoje mesmo um lugar num avião das Linhas
Aéreas Gregas
Gostaria de brindar contigo com uma taça de orvalho
antes de partir
Mãe
Detesto coberturas de açúcar mesmo que levem limão
Isto é tão certo como o é tu não me compreenderes
Estava a sonhar que estava a sonhar e assim por aí adiante até ao infinito.
Depois
acordei. E fui descendo vertiginosamente de sonho
para sonho
Ainda não parei de acordar. E de sonhar
Mãe
Tenho uma surpresa para ti
um caramanchão para que te possas sentar todas as
tardes a catar estrelas
na minha cabeça
Mãe
Abriu um concurso para preencher uma vaga de
ascensorista no Paraíso e eu concorri
Achas que tenho alguma hipótese de ser admitido?
— tenho a boca cheia de formigas —
Mãe
um dia hei-de subir contigo
degrau
a degrau
o arco-íris
(in “Antologia Poétca”)
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29.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Os irmãos Grimm , Jacob (1785 – 1863) e Wilhelm (1786 – 1859), foram dois irmãos, ambos acadêmicos, linguistas, poetas e escritores que nasceram no então Condado de Hesse-Darmstadt, atual Alemanha. Os dois dedicaram-se ao registro de várias fábulas infantis, ganhando assim grande notoriedade, notoriedade essa que, gradativamente, tomou proporções globais.
“Os duendes e o sapateiro” dos Irmão Grimm
Era uma vez um sapateiro que ficou tão pobre que só lhe restava um pedaço de couro. Com este pedaço de couro só dava para fazer um par de sapatos. Uma noite cortou-os com a intenção de costurá-los e acabar no dia seguinte. Deitou-se sossegado e adormeceu rapidamente. De manhã ao acordar decidiu ir ao trabalho.
Quando entrou na sala viu sobre a mesa o par de sapatos completamente acabado. Ficou espantado e sem saber o que pensar. Pegou nos sapatos e examinou-os estavam uma obra de arte.
Dali um tempo entrou um comprador que gostou tanto deles que até pagou mais do que era costume. Assim, o sapateiro pode comprar couro para fazer dois pares. Cortou-os à noite disposto a terminá-los no dia seguinte, mas não foi preciso porque quando se levantou já estavam acabados e não faltaram clientes que lhes dessem dinheiro suficiente para comprar couro para quatro pares de sapatos.
Na manhã seguinte estavam os quatro pares acabados e, daí em diante tudo o que deixava cortado encontrava pronto ao acordar. Assim, o sapateiro ganhou muito dinheiro, podendo até se considerar um homem rico.
Antes da noite de Natal decidiu com a mulher de ficarem á espreita para verem quem é que os ajudava. Ao bater da meia-noite apareceram dois engraçados duendes , nuzinhos que se puseram a trabalhar com tamanha agilidade e velocidade que só pararam quando tudo estava terminado.
Reconhecidos pelo que os duendes lhes tinham feito o sapateiro e a mulher decidiram costurar para cada um deles, uma camisa, um casaco, uns calções e também um par de sapatinhos. Quando acabaram puseram tudo em cima da mesa e esconderam-se para ver como os duendes recebiam a oferta. Á meia-noite eles chegaram dispostos a trabalhar, mas em vez de couro encontraram as prendas. A princípio ficararam espantados, mas logo ficaram muito contentes com as roupas.
Puseram-se a cantar e a dançar sobre a mesa e os bancos do sapateiro até desaparecerm pela porta. Os duendezinhos nunca mais apareceram na oficina do sapateiro, mas também nunca mais tiveram dificuldades. Ele e a mulher foram muito felizes e tiveram sempre êxito em tudo o que fizeram.
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20.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há algumas semanas disparou, com alguma violência verbal, a questão: existe o Pai Natal?
Eu, estive sozinho na discussão ao defender a sua existência. Do outro lado, algumas pessoas, chegaram a troçar da minha convicção.
O momento sonoro que se segue vem, em definitivo, provar a existência do Santo e a sua atual forma de vida não vai deixar que ele seja considerado um bonacheirão bom, preocupado com o nosso bem estar. Podem os métodos não serem dos mais apropriados, mas que são confortáveis e redentores, são.
Aproveito a ocasião para desejar a todos os amigos que seguem esta página FESTAS FELIZES!
18.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
tudo no teu sorriso diz que só
te falta um pretexto para seres
feliz
uma querela talvez chegasse
ou um pequeno pastor que passasse
na estrada, com suas ovelhas
um riso, um pormenor
que no momento se pousasse
e o tornasse melhor
eu
vou pensando em coisas velhas
– sem sombra de desdém! –
na vida
naquele lampejo fugace
que o teu sorriso já não tem
e que é do passado
porque a nossa grande sabedoria
não soube tratar ente tão delicado
e declina, o dia
o pequeno pastor já não vem
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16.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
A Ana e o António trabalhavam
na mesma empresa.
Agora foram ambos despedidos.
Lá em casa, o silêncio sentou-se
em todas as cadeiras
em volta da mesa vazia.
“Neo-Realismo!” dirão os estetas
para quem ser despedido é o preço do progresso.
Os estetas, esses, nunca
serão despedidos.
Ou julgam isso, ou julgam isso.
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08.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, em que os
poetas são os próprios versos dos poemas e onde
cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar. Ninguém
teme as mordaças ou algemas. – O braço que
bater há-de cansar e os poetas são os próprios
versos dos poemas.
Versos brandos… Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: Sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada, onde
cada poema é uma bandeira desfraldada e os
poetas são os próprios versos dos poemas.
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03.12.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Romance do terceiro oficial de Finanças
Ah! As coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e
estrelas e a voz vagarosa como o andar da noite!
As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!…
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe o segredo dos grandes silêncios
– os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!…
(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus
cabelos quando eu ia namorar-te…)
Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada da vida!…
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!…
– isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!…
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27.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Em pensamento talmúdico alguns dizem
que Deus fez vinte e sete tentativas
para criar o mundo
e todas elas falharam.
Só à vigésima sétima conseguiu enfim
o seu divino intuito,
mas sem muita convicção exclamou:
“espero que isto funcione”.
Esta dúvida fez de Deus
o primeiro cientista
da humanidade
para grande desespero dos teólogos….
(in “Poesia reunida” Edições Colibri 2014)
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20.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força da maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.
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10.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Alma serena, a consciência pura,
assim eu quero a vida que me resta.
Saudade não é dor nem amargura,
dilui-se ao longe a derradeira festa.
Não me tentam as rotas da aventura,
agora sei que a minha estrada é esta:
difícil de subir, áspera e dura,
mas branca a urze, de oiro puro a giesta.
Assim meu canto fácil de entender,
como chuva a cair, planta a nascer,
como raiz na terra, água corrente.
Tão fácil o difícil verso obscuro!
Eu não canto, porém, atrás dum muro,
eu canto ao sol e para toda a gente.
Fernanda de Castro, in “Ronda das Horas Lentas”
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06.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nenhum prémio, por maior, vale
as dores da liberdade. Siga o seu
próprio pendor quem de segui-lo
se agrade. Ninguém chore um
bem perdido. Há muitos bens por
achar. Sonhos ocos de sentido
porque havemos de os sonhar?
A liberdade não é de se dar, mas
de tomar-se. Liberdade que se dê
é apenas um disfarce.
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05.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte.
Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.
Não me parece pois necessária
outra razão
– ou desejo
de arrancar o sol do chão –
para explicar
a reforma agrária
no Alentejo.
É apenas uma certa maneira de cantar.
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04.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
A ninguém faltava o pão,
se este dever se cumprisse:
ganharmos em relação
com o que se produzisse.
Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério.
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03.11.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Irene preta
Irene boa
Irene sempre de bom humor.
Imagino Irene entrando no céu:
Licença, meu branco! E
São Pedro bonacheirão:
Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.
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31.10.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cansado de ser homem durante o dia inteiro
chego à noite com os olhos rasos de água.
Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,
entrar dentro de ti como num bosque.
É a hora de fazer milagres: posso ressuscitar os
mortos e trazê-los a este quarto branco e
despovoado, onde entro sempre pela primeira
vez, para falarmos das grandes searas de trigo
afogadas na luz do amanhecer.
Posso prometer uma viagem ao paraíso a
quem se estender ao pé de mim, ou deixar
uma lágrima nos meus olhos ser toda a
nostalgia das areias.
É a hora de adormecer na tua boca,
como um marinheiro num barco naufragado,
o vento na margem das espigas.
[Póvoa de Atalaia, Fundão, 1923]
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20.10.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mel…mulher,
em ti…
na doce palavra que te veste…
moram todos os méis,
todos puros…
todos silvestres…
mel de sabores…
que nunca se esquecem…
bebido em noites..
que não amanhecem…
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14.10.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ó espírito de inquietos e cândidos sonhos
que buscas na intemperança e volúpia do desejo
o calor da alma pressentida no júbilo da razão.
Deitas-te na terra húmida entre musgo verde e
adormeces na tempestade que o céu serenou.
Na terra orvalhada em chão de prata
onde o amor lavra e a chuva perdura
em palavras amenas que o coração dita
embarcas no sonho e na magia
que a neve da frieza em rocha dura não matou.
Não iludas o que aprouvera dos teus sonhos.
Falsa a magia do momento.
Na natureza nunca nasce a mesma água de parecida fonte.
(Este poema foi retirado do livro “Olhos de Vida”, Edi. Monocromia e apresentado em Outubro de 2014)
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10.10.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vem construir felicidades
no segredo dos entendimentos
Vem com tuas mãos
tocar a música
que só tu consegues retirar
do meu corpo.
Vem trocar as voltas ao vento,
calar as ondas do mar!
Finge-te Deus
dum destino
que só a nós cabe ditar.
Saudade doi!
A dor do silêncio,
a distância…
o tormento dum corpo calado.
A orquestra que espera
O reinicio da sinfonia…
A sintonia
de quem domou as tempestades
Calamos vaidades
Sabemos a_mar
(Poema inserido ao abrigo do direito dos inscritos na Loja da Raposa, poderem propor para declamação um poema seu ou de um autor preferido)
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