Judith Teixeira – “A bailarina vermelha”
16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Judite dos Reis Ramos Teixeira ou Judith Teixeira (Viseu, 25 de Janeiro de 1880 - Lisboa, 17 de Maio de 1959) foi uma escritora portuguesa. Publicou três livros de poesia e um livro de contos, entre outros escritos. Em 1925 lançou a revista Europa, de que saíram três números. Exemplares do seu livro Decadência (1923) foram apreendidos, juntamente com os livros de António Botto (Canções) e Raul Leal (Sodoma Divinizada), e mandados queimar pelo Governo Civil de Lisboa na sequência de uma campanha contra "os artistas decadentes, os poetas de Sodoma, os editores, autores e vendedores de livros imorais".
16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ela passa,
a papoila rubra,
esvoaçando graça,
a sorrir…
Original tentação
de estranho sabor:
a sua boca – romã luzente,
a refulgir!…
As mãos pálidas, esguias,
dolorosas soluçando,
vão recortando
em ritmos de beleza
gestos de ave endoidecida…
Preces, blasfémias,
cálidas estesias
passam delirando!…
Mordendo-lhe o seio
túrgido e perfurante,
delira a flama sangrenta
dos rubis…
E a cinta verga, flexuosa,
na luxuria dominante
dos quadris…
Um jeito mais quebrado no andar…
Um pouco mais de sombra no olhar
bistrado de lilás…
E ela passa
entornando dor,
a agonizar beleza!…
Um sonho de volúpia
que logo se desfaz,
em ruivas gargalhadas
dispersas… desgrenhadas!…
Magoam-se os meus sentidos
num cálido rubor…
E nos seus braços endoidecem
as anilhas d’oiro refulgindo
num feérico clamor!…
E ela passa…
Fulva, esguia, incoerente…
Flor de vicio
esvoaçando graça
na noite tempestuosa
do meu olhar!…
Como uma brasa ardente,
e infernal e dolorosa,
… a bailar…
a bailar!…
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pálido, extático,
olhavas para mim.
E as tuas mãos raras,
de linhas estilizadas,
poisavam abandonadas
sobre os tons liriais do meu coxim
Os meus olhos de sonho
ficaram presos tristemente
às tuas mãos!…
– Mãos de doente,
mãos de asceta
E eu que amo e quero a rubra cor dos sãos,
tombei-me a contemplá-las
numa atitude cismadora e quieta
Depois aqueles beijos que lhe dei,
unindo-as, ansiosa, à minha boca
torturada e aflita,
tiveram a amargura
suavemente doce
duma dor bendita!
Mãos de renúncia! Mãos de amargor!
x E as tuas lindas mãos, nostálgicas e frias,
tristes cadáveres
de ilusão e dor,
não puderam entender
a febre exaltada
e torturante
que abrasava
as minhas mãos
delicadas,
– as minhas mãos de mulher!
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo,
seremos sempre CInCO.
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinza, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.
O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.
As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.
Tudo é igual, mecânico e exacto.
Ainda por cima, os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!
Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?
Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima de um divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas por mim, meu amor do Norte.
Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com o teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar
por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Todos nascemos nus
– condição dos vermes, dos punhais
e da luz.
Os filhos só têm a mais o terror das diferenças
das mães a vesti-los com os braços
– destinos feios
de mijo a chorar nas rendas
e violinos em trapos.
Todos nascemos nus
– condição dos seios, das açucenas
e dos sapos.
Mas até os seios das mães
são diferentes.
Uns cheiram a sedas quentes,
outros, a urina de cães.
Bem. Agora devia sofrer
cuspir nos espelhos
dos remorsos.
E esbofetear o céu
com gritos de mãos de ossos.
Mas não. Sorrio
Todos nascemos nus
– condição dos mortos
despidos pelo frio
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol
a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos
os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer: “Fulano de tal comunica
a V. Exa. que vai transformar-se em nuvem hoje
às 9 horas. Traje de passeio”.
E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos
escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir
a despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio.
“Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
(primeiro, os olhos… em seguida, os lábios… depois os cabelos… )
a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se
em fumo… tão leve… tão sutil… tão pólen…
como aquela nuvem além (vêem?) — nesta tarde de outono
ainda tocada por um vento de lábios azuis…
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ambição
minha e da Maria
foi termos uma casa nossa
onde nos contarmos os cabelos brancos.
Sonho realizado.
Casa definitiva já temos.
Lote 42.
Talhão 71883.
Fachada pintada a cal.
Clássica arquitectura rectangular.
Uma via asfaltada com um único sentido.
Tudo sito no derradeiro bairrismo
que e’ morar no bairro de Lhanguene.
Pelo menos envelhecer já não é problema.
O resto na altura mais propícia
surgirá por si.
Parece que está por pouco.
Na lista onde eu consto
É injusto que tarde
estarmos juntos.
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vovó
amanhã não precisa
ir ao hospital.
Ontem eles foram lá
deram maningue tiros
partiram tudo, tudo
mataram doentes
mutilaram o senhor enfermeiro
e violaram a senhora parteira.
Outros doentes privilegiados
foram carregar na cabeça
farinha açucar e arroz
da cooperativa
…
Foram.”
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O céu
é uma m´benga
onde todos os braços das mamanas
repisam os bagos de estrelas.
Amigos:
as palavras mesmo estranhas
se têm música verdadeira
só precisam de quem as toque
ao mesmo ritmo para serem
todas irmãs.
E eis que num espasmo
de harmonia como todas as coisas
palavras rongas e algarvias ganguissam
neste satanhoco papel
e recombinam em poema.
In Obra Poética I
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu sou carvão!
E tu arrancas-me brutalmente do chão
e fazes-me tua mina, patrão.
Eu sou carvão!
E tu acendes-me, patrão,
para te servir eternamente como força motriz
mas eternamente não, patrão.
Eu sou carvão
e tenho que arder sim;
queimar tudo com a força da minha combustão.
Eu sou carvão;
tenho que arder na exploração
arder até às cinzas da maldição
arder vivo como alcatrão, meu irmão,
até não ser mais a tua mina, patrão.
Eu sou carvão.
Tenho que arder
Queimar tudo com o fogo da minha combustão.
Sim!
Eu sou o teu carvão, patrão.
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a
pouca sorte de ter nascido nela.
Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.
Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu p’ró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra − museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser’s minha, não.
Jorge de Sena – Dezembro de 1961
in «Quarenta Anos de Servidão» Lisboa, 1979
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não sei, meus filhos, que mundo será o vosso.
É possível, tudo é possível, que ele seja
aquele que eu desejo para vós. Um simples mundo,
onde tudo tenha apenas a dificuldade que advém
de nada haver que não seja simples e natural.
Um mundo em que tudo seja permitido,
conforme o vosso gosto, o vosso anseio, o vosso prazer,
o vosso respeito pelos outros, o respeito dos outros por vós.
E é possível que não seja isto, nem seja sequer isto
o que vos interesse para viver. Tudo é possível,
ainda quando lutemos, como devemos lutar,
por quanto nos pareça a liberdade e a justiça,
ou mais que qualquer delas uma fiel
dedicação à honra de estar vivo.
Um dia sabereis que mais que a humanidade
não tem contra o número dos que pensaram assim,
amaram o seu semelhante no que ele tinha de único,
de insólito, de livre, de diferente,
e foram sacrificados, torturados, espancados,
e entregues hipocritamente à secular justiça,
para que os liquidasse “com suma piedade e sem efusão de sangue”.
Por serem fiéis a um deus, a um pensamento,
a uma pátria, uma esperança, ou muito apenas
à fome irrespondível que lhes roía as entranhas,
foram estripados, esfolados, queimados, gaseados,
e os seus corpos amontoados tão anonimamente quanto haviam vivido,
ou suas cinzas dispersas para que delas não restasse memória.
Às vezes, por serem de uma raça, outras
por serem de uma classe, expiaram todos
os erros que não tinham cometido ou não tinham consciência
de haver cometido. Mas também aconteceu
e acontece que não foram mortos.
Houve sempre infinitas maneiras de prevalecer,
aniquilando mansamente, delicadamente,
por ínvios caminhos quais se diz que são ínvios os de Deus.
Estes fuzilamentos, este heroísmo, este horror,
foi uma coisa, entre mil, acontecida em Espanha
há mais de um século e que por violenta e injusta
ofendeu o coração de um pintor chamado Goya,
que tinha um coração muito grande, cheio de fúria
e de amor. Mas isto nada é, meus filhos.
Apenas um episódio, um episódio breve,
nesta cadeia de que sois um elo (ou não sereis)
de ferro e de suor e sangue e algum sémen
a caminho do mundo que vos sonho.
Acreditai que nenhum mundo, que nada nem ninguém
vale mais que uma vida ou a alegria de tê la.
É isto o que mais importa – essa alegria.
Acreditai que a dignidade em que hão de falar-vos tanto
não é senão essa alegria que vem
de estar se vivo e sabendo que nenhuma vez
alguém está menos vivo ou sofre ou morre
para quem só de vós resista um pouco mais
à morte que é de todos e virá.
Que tudo isto sabereis serenamente,
sem culpas a ninguém, sem terror, sem ambição,
e sobretudo sem desapego ou indiferença,
ardentemente espero. Tanto sangue,
tanta dor, tanta angústia, um dia
– mesmo que o tédio de um mundo feliz vos persiga –
não hão-de ser em vão. Confesso que
muitas vezes, pensando no horror de tantos séculos
de opressão e crueldade, hesito por momentos
e uma amargura me submerge inconsolável.
Serão ou não em vão? Mas, mesmo que o não sejam,
quem ressuscita esses milhões, quem restitui
não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado?
Nenhum Juízo Final, meus filhos, pode dar-lhes
aquele instante que não viveram, aquele objecto
que não fruíram, aquele gesto
de amor, que fariam “amanhã”.
E, por isso, o mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo, com cuidado, como coisa
que não é só nossa, que nos é cedida
para a guardarmos respeitosamente
em memória do sangue que nos corre nas veias,
da nossa carne que foi outra, do amor que
outros não amaram porque lho roubaram.
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16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Diz-me devagar coisa nenhuma, assim
como a só presença com que me perdoas
esta fidelidade ao meu destino.
Quanto assim não digas é por mim
que o dizes. E os destinos vivem-se
como outra vida. Ou como solidão.
E quem lá entra? E quem lá pode estar
mais que o momento de estar só consigo?
Diz-me assim devagar coisa nenhuma:
o que à morte se diria, se ela ouvisse,
ou se diria aos mortos, se voltassem.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para ficar próximo do sempre
tens de decidir-te nos difíceis momentos em que,
acompanhado, permaneces só.
Cada um pode acreditar no que quiser, mas a vitória maior
é permanecer no coração de quem nos ama.
Neste cemitério que é a vida, tens de apelar
a uma energia que te supere, não àquilo que é divino
mas ao que permanece profundamente humano,
ao que te faz descobrir uma outra porta,
aquela por onde o amor não deixa de fluir,
porque o amor derrubará essa porta se a mantiveres fechada.
Não percas a noção de que és o motor da tua vida,
um impulsionador da realidade, nem
te envergonhes do que dela podes retirar.
Só assim poderás ou voltarás a amar.
Não te adornes com a mentira, com a ganância,
com o pouco que tens,
porque sempre terás pouco,
porque sempre o muito não fará de ti melhor,
a não ser que semeies para colher,
que dês para receber,
que saibas ensinar para aprender todos os dias.
Os momentos mais surpreendentes são
aqueles em que ofereces, não aqueles em que recebes.
Só desse modo poderás sentir-te maior
do que a distância. Só quando caminhares
por dentro de ti mesmo, em busca de ti mesmo,
poderás encontrar outros, e mais outros, e outros ainda,
em recantos, em ruas, nas praias que há em ti.
E verás como esses outros são iguais. E como estão
próximos daqueles que tu amas e daqueles que te amam.
Sorri. Já não estás só. Há coisas difíceis de abordar
mas que não são problemas. Nem talvez soluções.
Procura-te na luz que regressa às tuas mãos. E nela
invoca a moeda de três faces com que os pobres
compram os momentos que a vida nunca tem
para lhes dar.
Poema de Joaquim Pessoa in “O POUCO É PARA ONTEM”
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Obrigado, excelências.
Obrigado por nos destruírem o sonho e a oportunidade
de vivermos felizes e em paz.
Obrigado
pelo exemplo que se esforçam em nos dar
de como é possível viver sem vergonha, sem respeito e sem
dignidade.
Obrigado por nos roubarem. Por não nos perguntarem nada.
Por não nos darem explicações.
Obrigado por se orgulharem de nos tirar
as coisas por que lutámos e às quais temos direito.
Obrigado por nos tirarem até o sono. E a tranquilidade. E a alegria.
Obrigado pelo cinzentismo, pela depressão, pelo desespero.
Obrigado pela vossa mediocridade.
E obrigado por aquilo que podem e não querem fazer.
Obrigado por tudo o que não sabem e fingem saber.
Obrigado por transformarem o nosso coração numa sala de espera.
Obrigado por fazerem de cada um dos nossos dias
um dia menos interessante que o anterior.
Obrigado por nos exigirem mais do que podemos dar.
Obrigado por nos darem em troca quase nada.
Obrigado por não disfarçarem a cobiça, a corrupção, a indignidade.
Pelo chocante imerecimento da vossa comodidade
e da vossa felicidade adquirida a qualquer preço.
E pelo vosso vergonhoso descaramento.
Obrigado por nos ensinarem tudo o que nunca deveremos querer,
o que nunca deveremos fazer, o que nunca deveremos aceitar.
Obrigado por serem o que são.
Obrigado por serem como são.
Para que não sejamos também assim.
E para que possamos reconhecer facilmente
quem temos de rejeitar.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Onde estavas tu quando fiz vinte anos
e tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
para com elas fazer posters cinzentos e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
retalhados na Coreia e no Vietname
nem ouviste nenhuma das canções do Bob Dylan
virando também as costas quando arrasaram Wiriamu e
enterraram vivas
mulheres e crianças em
nome de uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
às chacinas do Esquadrão da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum?
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se barco fosse
Gostava de ter remos
Muitos remos
Muitos lemes
Muitos rumos
Gostava de ter proa
Muita proa
Muita ré
Muito mar
Muita maré
Se mastro fosse
Gostava de ter velas
Muitas velas
Muitas cordas
Muitos ventos contra elas
Se onda fosse
Gostava de ter mar
Muito mar
Muita praia p´ra espraiar
Muito estibordo luzente
Muito barco a baloiçar
Muitos sonhos
Muitos sonos
Muita gente
P´ra embalar
Se barco fosse
Havia muito partir
Havia muito aportar
Havia muitos encontros
Muita gente
P´ra casar
O longe tornava perto
Perto seria o lugar
Aonde me levariam as ondas
Sempre…Sempre a cantar!
Se barco fosse…
Todo o tempo era tempo
De velas a enfunar!
Todo o tempo era tempo
De dar sentido ao vento!
Todo o tempo era tempo
De unir
Terra Céu e Mar!
Todo o tempo era tempo futuro!…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Os círios da Páscoa
Estão acesos em todas as casas
Já não importa
A religião de quem lá mora
A luz que distingue o bem do mal
Tem uma origem só
A esperança de cada um
Tornou-se universal!
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há coisas eternas
como a luz.
Outras
a viver vão morrendo.
Outrora,
os ciprestes que ladeavam a casa
ofertavam-lhe a sombra
que amaciava o sol
ao entrar pelas janelas.
Hoje,
dos ciprestes já não há sombras.
Também já não há casa.
O sol continua lá.
A gritar
onde a casa é
a ausência dela.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na bruma modelam-se formas
Que adivinho sem saber porquê.
Da superfície das telas tingidas, uma, outra,
E outra ainda com cores da terra,
soltam-se segredos
Apontados em formas e cores,
Indizíveis senão do modo como o faço.
Indícios de mim presentes…
Outonos de vida passada…
Ao reconhecer-me neles
Trago à memória uma grande tela branca
Que ainda não pintei…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quero estar a dormir quando os teus dedos passearem na curva lateral das minhas nádegas…quero estar a dormir quando as tuas mãos se fecharem nas minhas ancas…quero estar a dormir…o meu corpo frio e os teus dedos quentes…quero acordar depois, apenas depois…depois da nossa temperatura ter igualado e ter voltado a separar-se…porque não existe realidade que traga o eterno calor da respiração e dos lábios macios a percorrerem-me a coluna…quero pensar que foi um sonho, traiçoeiro…o sonho que procuro, corpo após corpo, em que adormeço a realidade…rebolo, ostensivamente, mostro-te o sexo…descaradamente que também a censura dorme…despudor, alcoolizada da inconsequência de estar a delirar, ofereço-te os seios, puxo a tua cabeça contra eles…quero ser o pesadelo da tua vontade própria, da tua auto-estima, da tua insubmissão, quando tenho as pernas á volta das tuas costas e as subo aos teus ombros…quero ser o veneno da tua liberdade, as tuas grades aos meus gemidos, vampira da força que foge de ti…deita-te…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Resta a nódoa, um pequeno veio rosado,
no lençol, berra num branco imaculado
como outrora, um vermelho culpado;
que eu ainda consigo ver,
porque me lembro como era;
que eu ainda consigo cheirar,
porque me lembro como cheira;
que tu nunca mais irás tocar,
eu fiz do sulco uma fronteira;
E não, é verdade que não foste o primeiro,
talvez nem o segundo, ou sequer o terceiro;
mas, apenas tu, me desfloraste,
profano! Uma Messalina na ara,
como uma virgem que tu sangraste,
num lençol…
Resta a nódoa
Que eu ainda consigo ver.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Menina, menina, vem cá! – Disse o Lobo….E eu? Eu fui….e o Lobo? Papou-me! E depois? Foi-se embora…E eu? Eu chorei….Porque fugiu o lobo? Não sei, não sei…Se calhar não era um Lobo e dei-lhe uma congestão….entende-se? Diz-me um mágico que lobos só existem nas minhas fantasias…Então? E eu? Eu fui…Procurem-me…estarei no Mundo-Que-Imaginei….á procura do Lobo que não mais encontrei…entretanto…veio um Cabritinho que eu papei…e uma Porquinha que saboreei…que belo repasto preparei…mas á procura do Lobo é que eu andei, andei…e quando não fui, o Coração enviei…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sou taça…de gelado com banana…e chocolate liquido…e chantilly…devo atrever-me a contar-te o resto? Pode começar a derreter mais depressa e escorrer para todo o lado, aviso-te!!!…Esta demência que me anda a invadir…não, não foi o coração que me danificaste…foi o fígado, de tantas bebedeiras existenciais, a pureza etílica que escorria do suor do teu corpo e eu tragava…esse vinho agri-doce que lançavas em mim, bebi-te demais e fiquei zonza…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tenho tanto medo de ti…dessa tua doçura áspera, desses teus sussurros, que me puxam o cabelo, quando entram nos meus olhos…intimidas-me…as tuas mãos são francas e tentadoras…mas, as tuas garras, sempre de fora, extensões inseparáveis da tua personalidade, nesse eterno cerco em que vives, podem retalhar-me á mais leve carícia que me faças…E esse medo, e essa mansidão poderosa com que chegas, essa tua dimensão que enche tudo ao avançares para mim, esse porte de árvore gigante, infinitamente ramificada, inabalável, mais me submete á vontade de ti…de ser um bichinho que se esconde em ti, na pele que suavizas para roçar na minha…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Porque me ofertas esse teu labiozinho em fogo?
Não quero, não quero agora beijar-te, dura Neera,
mais dura do que a dureza do mármore.
Tanto caso farei eu desses teus beijos
inofensivos, ó minha soberba,
que com a verga enrijecida, em riste,
acabe por perfurar as minhas vestes e as tuas
e, enfurecido por um vão desejo,
me consuma, infeliz, com o meu pau em fogo?
Para onde foges? Espera, não me negues
esses olhos, nem esses lábios em fogo!
Agora sim quero beijar-te, minha ternura,
mais tema que a penugem de um ganso.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Que loucura, Ó Neera,
minha doida, te fez
assim atacar,
te fez assim atiçar a minha língua
com uma feroz mordidela?
Será que todas as aguçadas
flechas que de ti suporto sozinho,
por todo o meu peito,
te sabem ainda a pouco?
A não ser que com esses teus dentes lascivos
cometas algum crime
contra aquele membro nefando
com que tantas vezes, ao raiar do sol,
com que tantas vezes ao sol poente,
com que por longos dias
e amargas noites
eu cantava as tuas graças?
Esta é – não vês, Ó ignorante?
esta é aquela minha língua,
que os encaracolados cabelos,
que os cintilantes olhos,
que os seios cor de leite,
que o pescoço tão delicado
da minha adorável Neera
num doce verso levava às estrelas,
muito além das chamas de Júpiter,
para inveja do céu.
Ela que te chamava a minha saúde,
que te chamava a minha vida,
a flor da minha alma,
e te chamava meu amor,
e meu prazer,
e minha Díone,
e minha pomba,
minha branca rola,
para inveja de Vénus.
Por ventura é isso mesmo
que te agrada, na tua altivez:
desferir um golpe naquela
que por ferida alguma
– minha beleza – pode
inchar de tamanha raiva;
que para sempre esses teus olhos,
que para sempre esses teus lábios
e esses teus dentes de luxúria,
que me fizeram sofrer,
no meio do seu próprio sangue,
a balbuciar há-de cantar?
Ó, soberba força da beleza.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não sei que diga.
E a quem o dizer?
Não sei que pense.
Nada jamais soube.
Nem de mim, nem dos outros.
Nem do tempo, do céu e da terra, das coisas…
Seja do que for ou do que fosse.
Não sei que diga, não sei que pense.
Oiço os ralos queixosos, arrastados.
Ralos serão?
Horas da noite.
Noite começada ou adiantada, noite.
Como é bonito escrever!
Com este longo aparo, bonitas as letras e o gesto – o jeito.
Ao acaso, sem âncora, vago no tempo.
No tempo vago…
Ele vago e eu sem amparo.
Piam pássaros, trespassam o luto do espaço, este sereno luto das
horas. Mortas!
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade …
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda
que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa…
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa…
e sempre assim!
Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Escrever assim …
escrever sem arte,
sem cuidado,
sem estilo,
sem nobreza,
nem lindeza …
sem maior concentração,
sem grandes pensamentos,
sem belas comparações,
não será escrever!
Mas assim me apetece,
que o entendam ou não,
que o admitam ou não,
escrever …
estender
o delgado, estiado,
inoperante
pensamento.
Este pensar
não é actuar mentalmente,
sequer,
é descansar …
Estive deitada,
e agora estou sentada.
Deitada via as nuvens,
brancas do sol,
brilhantes,
enoveladas.
Tanta brancura
à frente dos meus olhos!
Afogava-me nela.
De que me lembrava?
Nem eu já sei.
As ideias do dia,
picadas sem dor,
a que sorria,
como apareciam, desapareciam …
Realmente,
só na hora,
no pleno instante
de nos assaltarem,
frescas e imprevistas,
têm o seu sabor.
Deitada,
com a luz nos olhos,
sonhava … sei que sonhava…
na única coisa em que se sonha,
na única em que se pensa,
naquela que é a trama,
o fundo ora baço,
ora vivo,
persistente e teimoso,
das nossas preocupações …
Antes ensaiei vestidos,
mas todos usados …
Vestidos do verão,
leves,
remoçantes,
que dá gosto ensaiar.
É uma experiência que se faz …
Vemo-nos ao espelho
e ele que nos diz?
Tudo o que desejamos
e também o que receamos …
Que me diz o espelho?
Fala-me dos olhos,
fala-me do corpo,
engana-me …
Mas também me diz,
tantas vezes!:
nada esperes,
és tola.
Ai que podem os vestidos,
que podem os espelhos?
Tempo!
Tu é que tens a última palavra!
Corres,
e, sem dó, tudo inutilizas.
Bem hajas!
Inutiliza! Mas não demores!
Destrói! Mata!
Que o pior mal,
de todos o pior,
é esperar,
sempre esperar.
(Arruda dos Vinhos, 1892-1958)
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