Nota biográfica

Mário Dionísio (Lisboa, 16 de Julho de 1916 - Lisboa, 17 de Novembro de 1993) foi um escritor e pintor português do século XX.

Mário Dionísio – “Para Ser Lido Mais Tarde”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um dia
quando já não vieres dizer-me  Vem
jantar
 
quando já não tiveres dificuldade
em chegar ao puxador
da porta  quando
 
já não vieres dizer-me  Pai
vem ver os meus deveres
 
quando esta luz que trazes nos cabelos
já não escorrer nos papéis em que trabalho
 
para ti será o começo de tudo
 
Um outro dia haverá talvez para os teus sonhos
um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
 
Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo
Ouvirás com encanto alguém que não conheço
nem talvez ainda exista neste instante
 
Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
 
E nem mesmo uma lembrança amarga
ou doce ficará
desta hora redonda
em que ninguém repara

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Mário Dionísio – “Ode”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Oh tempo de hoje
a tua face
é odiada
por milhões

Quem não te amaldiçoou
ao menos uma vez?
e não crispou
as mãos e o rosto ao menos uma vez
ao remoinho impiedoso
das tuas contradições?

Meu tempo meu tempo
feito de braços decepados
com gritos reprimidos
tua poesia de dentes cariados
teus sonhos desmentidos
e ainda sempre amados

Vêem-te o esgar
Vivem-te o bafo pestilento
todos te odeiam Sim

Mas eu amo-te tempo
dos meus dias
e dou-te com fervor
a toda a hora
o mais profundo e mais inolvidável
que há em mim

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Mário Dionísio – “Mil Anos Que Viva”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Mil anos que viva não se apaga
a imagem sombria e vacilante
dum homem desconhecido numa esquina
com um lenço na mão manchado de sangue

uma imagem sombria e vacilante
cambaleante no regresso instável
das zonas baças onde o tempo pára
com um lenço na mão manchado de sangue

cambaleante no regresso instável
sem se lembrar da rua onde morou
só com uma ténue sombra do passado
no lenço na mão manchado de sangue

ninguém sabia a sua história
ninguém ouvira a sua voz
de seu só tinha bem pesado
um lenço na mão manchado de sangue

não tinha voz não tinha nome
não tinha pais não tinha amigos
não tinha lar só tinha um lenço
na mão manchado de sangue

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Mário Dionísio – “A poesia está na vida”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A poesia está na vida,
nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes, na bicha de automóveis
rápidos de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.

A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vaivém de milhões de pessoas
conversando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
– e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas do comboio a caminho, a caminho, a caminho
das terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos abertos para amanhã.

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Mário Dionísio – “Os Amigos Desconhecidos”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando ouvi onde ouvi este rosto vulgar e fatigado
estes olhos brilhantes lá no fundo
e este ar abandonado e inconformado
que aproxima?

Quando ouvi esta voz
que se eleva em surdina em meu ouvido e diz
frases tão conhecidas?

Quando foi que senti
estes dedos amigos nos meus dedos
este aperto de mão
tão comovidamente prolongado?

Não somos nós dois homens estranhos que se cruzam
com o mesmo passado
e com a mesma féria?

Ah dois amigos velhos que se encontram
pela primeira vez

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Otília Martel – “Voz na Noite”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Falas-me
com os olhos
das palavras
rios
que rasgam horizontes
em verdes prados
nascidos
na tua voz
feita de desafios

Voz da noite
inquietante,
entre o tom e o som
subindo mais alto
aromas vibrantes
de seiva húmida,
em fúrias de desejo.

Oh, Momento
de estranha sinfonia,
um cântico de amor,
na Voz do horizonte
névoa
do infinito
reminiscência pálida
de um grito
que sai rouco,
vibrante,
da tua Voz

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Otília Martel – “Se tudo isto…”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se tudo isto é banal, onde existe o divino?
É material a dor, supérfluo o sofrimento?
Onde encontrar razão, finalidade, alento,
Por resignar-se o destino em triste desatino?

E se há uma estrela, além, marcando-nos o destino,
é esforço vão fugir ao perigo dum momento!
E se uma folha move, foi em pensamento
Sacudida por Deus! Não é livre o caminho!

E, porque a carne é impura e, nos arrasta e prende,
é sacrilégio, o amor…o amor que nos ascende,
ao sublime e à renúncia e permanece eterno

Existe o bem e o mal? E a dor que nos tortura?
Não deve, além da morte, haver mais amargura!
Que viver, não pode haver maior inferno!

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Otília Martel – “Sonhos”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Alegra-se a paisagem em beleza,
vendo sonhos a elevarem-se em oração
parecendo que a própria natureza
tem como nós, um coração.

As tardes são de límpida tranquilidade
há doçura e paz na solidão
recordações plenas de saudade
transformadas em sonho e ilusão.

Bailam as folhas, bailam lentamente
voando para longe a renascerem,
levadas pela força da aragem

O céu transporta-nos ao poente,
chegando o pôr-do-sol ao anoitecer
e as sombras adormecem na paisagem

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Otilia Martel – “Horizontes Infinitos”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vejo nos teus olhos
a tentação do mar

– horizontes infinitos
onde vogam tormentas –

erguem-se clarões
de sonho e de luar,
em carícias subtis,
em harmonias lentas.

E não sei bem porquê,
eu sinto que me leva
a estranha tentação
de palavras e clamores

nesta viagem de retorno
e de espera
sentindo, sem cessar,

o perfume das flores.

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Otília Martel – “Silêncio e ternura”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entre nós
Há palavras
Desenhadas no
Silêncio da noite.
Entre nós
Há desejos
E carícias
Em cada palavra
Que se não
Pronuncia
Entre nós
Há muros de silêncios
Derrubados
Em cada maré
Que se adivinha

Entre nós
Permanecemos.

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Otília Martel – “Sentires”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Saboreia o mesclado do meu sentir
como romã rubra deixada na tua boca,
acordando sentidos em êxtase peregrinos
como sol em dias quentes de Agosto.

Do meu peito apreende essa canção suprema
que, sempre bela, tem ao tempo resistido.
O amor é um poema
que só poetas sabem seu sentido.

Minhas palavras, porém, ficam aquém do pensamento.

Palavras que ainda não foram gastas
(podem-se gastar as palavras?)
em vidas vividas de sóis nascidos,
alados em caminhos de pedra polida,
brilhando no rasgar do sol-pôr.
Ecos esdrúxulos ouço em silvo estrídulo
roçando por mim em lúcido sonho.

Porque na vida vivida sem gosto e sem sal,
não escorre do corpo a seiva que estonteia
numa estranha volúpia como cordas de violino,
sopros que a brisa calmamente adivinha
em teu olhar que, fulgurante, reluz.

Trazes no corpo o fruto fecundo,
na alma a doçura das marés por descobrir,
feita de aromas inebriantes e falaz luz
que, deslumbrada, em sonhos hipnóticos me traz
uma visão alada, incorpórea, fugaz.

Trazes na voz a força do trovão,
a fragrância da terra molhada,
o suspiro das folhas que se libertam
na loucura de um instante
povoando de sonhos os jardins da quimera.

Trazes em ti a doçura das mulheres que amaste –
fruto amadurecido que tua semente germinou –
o teu olhar condensa o mar habitado
num fogo sentido que não se apagou

(Do livro “Menina Marota – Um desnudar de alma”)

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Otília Martel – “O Poeta”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando o Poeta escreve,
solta a alma,
os sentimentos,
a sensibilidade.

Ele pressente no mar
as ondas que o vêem beijar.

Sente, no raiar
de cada manhã,
o arco-íris
da esperança
que lhe dá alento
e lhe traz bonança.

Quando o Poeta escreve,
abraça o Mundo
em cada instante
que a sua alma alcança.

Vê, em cada sol,
nascer
o crepúsculo do Amanhã.
Entrega-se
corpo alma desejo
e
habita o Poema
por inteiro.

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Otília Martel – “Ondas”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixo-me embalar pela música.
Fecho os olhos e sinto
o teu rosto mergulhar nas ondas do meu
cabelo.

As tuas mãos como plumas
percorrendo meu corpo.
Encostas-me à janela
e pressionas o teu corpo no meu.

Sinto uma volúpia quente
subir e fundir-se em mim.
Uma a uma, as peças vão desaparecendo
e eu estou ali,
nua, faminta, com as ondas
do meu corpo a chamarem-te …

E tu vens, qual trovão em dias de
tempestade.
Para lá da janela, nada mais existe.
Somos nós, um só corpo
possuídos pelo mesmo desejo:
Amar …

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Manuela Nogueira – “Sem tempo para esperar”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

fui encontrando farrapos de alma
em caminhos obscuros
na miragem de espantosos poentes
engravidei de muitas esperanças.
Quase uni pedaços desavindos
quase soltei vivos demónios
com amigos e inimigos fiz alianças.
Travei o precipício do efémero
e nesse instante acordei só.
Sem cordão umbilical à terra
sem âncora e sem religião
– meus olhos já viram demais
meus ouvidos estão cerrados
– o corpo tropeça na gravidade
sou virgem de uma verdade.

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Manuela Nogueira – “Encruzilhada”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No fim da estrada há uma encruzilhada tremenda.
O passado é um caleidoscópio de interrogações,
o presente, o restrito momento de um pensamento,
o futuro, uma nódoa onde o sangue se transmuda
se volatiliza e sobe ao céu em frágil renda.
Todo o axioma entrou em coma.
A lei agora é escapar, sobreviver.
O casamento deu-se, sem boda.
Faz-se amor como se clica o computador,
só tem fascínio o proibido.
O plantel actua no estádio vibrante,
a banda electriza de gestos e metais.
Esquecem-se os mortos da estrada
das guerras, epidemias, fomes.
Abre-se meia porta ao emigrante
que rasteja pela fresta errada.
Já não há encruzilhada nenhuma
nem pensamento a considerar
nem sentimento de culpa a arder
nem projecto a aquecer
nem raiva a crescer em amor.
Há sim a pressa de viver
num mundo que se dissolve em bruma.

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Manuela Nogueira – “Ilha”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um oceano de gente a minha
volta um palrar de coisas ditas,
promessas vãs de políticos,
becos, caminhos sem rota.
Paz só no meu jardim
onde oiço o cantar dos pássaros,
vejo a cor das borboletas,
o desabrochar das flores;
mesmo com os olhos cerrados
conheço os sons, as cores,
o cheiro e os limites.
Elegi meu derradeiro refugio:
é o castelo feudal sem gentios,
meu trono é degrau de escada.
Vejo o Sol nascer e pôr-se
a calmaria e a ventania
poupam-me da monotonia.
No ninho dos rouxinóis
há novos bicos famintos,
os melros estão menos tímidos.
Sou apenas uma outra personagem
que chegou de um mundo louco
e parou ou desistiu da viagem.

Casa Belos Ares, Estoril

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Manuel da Fonseca – “Mataram a tuna”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

ramada

Nos domingos antigos do bibe e pião
saía a Tuna do Zé Jacinto
tangendo violas e bandolins
tocando a marcha Almadanim.
Abriam janelas meninas sorrindo
parava o comércio pelas portas
e os campaniços de vir à vila
tolhendo os passos escutando em grupo.
Moços da rua tinham pé leve
o burro da nora da Quinta Nova
espetava orelhas apreensivo
Manuel da Água punha gravata!
Tudo mexia como acordado
ao som da marcha Almadanim
cantando a marcha Almadanim.
Quem não sabia aquilo de cor?
A gente cantava assobiava aquilo de cor …
(só a Marianita se enganava
ai só a Marianita se enganava
e eu matava-me a ensinar … )
que eu sabia de cor
inteirinha de cor
e para mim domingo não era domingo
era a marcha Almadanim!
Entanto as senhoras não gostavam
faziam troça dizendo coisas
e os senhores também não gostavam
faziam má cara para a Tuna:
– que era indecente aquela marcha parecia
até coisa de doidos:
não era música era raiva
aquela marcha Almadanim.
Mas Zé Jacinto não desistia.
Vinha domingo e a Tuna na rua
enchendo a rua enchendo as casas.
Voavam fitas coloridas
raspavam notas violentas
rasgava a Tuna o quebranto da vila
tangendo nas violas e bandolins
a heróica marcha Almadanim!
Meus companheiros antigos do bibe e pião
agora empregados no comércio
desenrolando fazenda medindo chita
agora sentados
dobrados nas secretárias do comércio
cabeças pendidas jovens-velhinhos
escrevendo no Deve e Haver somando somando
na vila quieta
sem vida
sem nada
mais que o sossego das falas brandas …
– onde estão os domingos amarelos verdes azuis encarnados
vibrantes tangidos bandolins fitas violas gritos
da heróica marcha Almadanim?!
Ó meus amigos desgraçados
se a vida é curta e a morte infinita despertemos e vamos
eia!
vamos fazer qualquer coisa de louco e heróico como era a Tuna do Zé Jacinto
tocando a marcha Almadanim!

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Manuel da Fonseca – “Poema de Domingo”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando chega o domingo,
faço tenção de todas as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida.

Há quem vá para o pé das águas
deitar-se na areia e não pensar…
E há os que vão para o campo
cheios de grandes sentimentos bucólicos
porque leram, de véspera, no boletim do jornal:
« Bom tempo para amanhã»…
Mas uma maioria sai para as ruas pedindo,
pois nesse dia
aqueles que passeiam com a mulher e os filhos
são mais generosos.
Um rapaz que era pintor
não disse nada a ninguém
e escolheu o domingo para se matar.
Ainda hoje a família e os amigos
andam pensando porque seria.
Só não relacionam que se matou num domingo!
Mariazinha Santos
(aquela que um dia se quis entregar,
que era o que a família desejava,
para que o seu futuro ficasse resolvido),
Mariazinha Santos
quando chega domingo,
vai com uma amiga para o cinema.

Deixa que lhe apalpem as coxas
e abafa os suspiros mordendo um lencinho que sua mãe lhe bor­

dou,
quando ela era ainda muito menina…
Para eu contar isto
é que conheço todas as horas que fazem um dia de domingo!
À hora negra das noites frias e longas
sei duma hora numa escada
onde uma velha põe sua neta
e vem sorrir aos homens que passam!
E a costureirinha mais honesta que eu namorei
vendeu a virgindade num domingo
—porque é o dia em que estão fechadas as casas de penhores!

Há mais amargura nisto
que em toda a História das Guerras.

Partindo deste princípio.
que os economistas desconhecem ou fingem desconhecer,
eu podia destruir esta civilização capitalista, que inventou o domingo.
E esta era uma das coisas mais belas
que um homem podia fazer na vida!

Então,
todas as raparigas amariam no tempo próprio
e tudo seria natural
sem mendigos nas ruas nem casas de penhores…

Penso isto, e vou a grandes passadas…
E um domingo parei numa praça
e pus-me a gritar o que sentia,
mas todos acharam estranhos os meus modos
e estranha a minha voz…
Mariazinha Santos foi para o cinema
e outras menearam as ancas
—ao sol
como num ritual consagrado a um deus! —
até chegar o homem bem amado entre todos
com uma nota de cem na mão estendida…

Venha a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu fique rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras;
venha a ânsia do peito para os braços!

E vou a grandes passadas
como um louco maior que a sua loucura…
O rapaz que era pintor
aconchegou-se sobre a linha férrea
para que a morte o desfigurasse
e o seu corpo anónimo fosse uma bandeira trágica
de revolta contra o mundo.
Mas como o rosto lhe estava intacto
vai a família ao necrotério e ficou aterrada!
Conheci-o numa noite de bebedeira
e acho tudo aquilo natural.
A costureirinha que eu namorei
deixava-se ir para as ruas escuras
sem nenhum receio.
Uma vez que chovia até entrámos numa escada.
Somente sequer um beijo trocámos…
E isto porque no momento próprio
olhava para mim com um propósito tão sereno
que eu, que dela só desejava o corpo bom feito,
me punha a observar o outro aspecto do seu rosto,
que era aquela serenidade
de pessoa que tem a vida cheia e inteira.
No entanto, ela nunca pôs obstáculo
que nesse instante as minhas mãos segurassem as suas.
Hoje encontramo-nos aí pelos cafés…
(ela está sempre com sujeitos decentes)
e quando nos fitamos nos olhos,
bem lá no fundo dos olhos,
eu que sou homem nascido
para fazer as coisas mais heróicas da vida
viro a cabeça para o lado e digo:
—rapaz, traz-me um café…
O meu amigo, que era pintor,
contou-me numa noite de bebedeira:
—Olha,
quando chega domingo,
não há nada melhor que ir para o futebol…
E como os olhos se me enevoassem de água,
continuou com uma voz
que deve ser igual à que se ouve nos sonhos:
—.… no entanto, conheço um homem
que ia para a beira do rio
e passava um dia inteirinho de domingo
segurando uma cana donde caia um fio para a água…
… um dia pescou um peixe,
e nunca mais lá voltou…
O pior é pensar:
que hei-de fazer hoje, que toda a gente anda alegre
como se fosse uma festa?… —
O rapaz que era pintor sabia uma ciência rara,
tão rara e certa e maravilhosa
que deslumbrado se matou.

Pago o café e saio a grandes passadas.
Hoje e depois e todos os dias que vierem,
amo a vida mais e mais
que aqueles que sabem que vão morrer amanhã!

Mariazinha Santos,
que vá para o cinema morder o lencinho que sua mãe lhe bordou…
E os senhores serenos, acompanhados da mulher e dos filhos,
que parem ao sol
e joguem um tostão na mão dos pedintes…
E a menina das horas longas e frias
continue pela mão de sua avó…
E tu, que só andas com cavalheiros decentes,
ó costureirinha honesta que eu namorei um dia,
fita-me bem no fundo dos olhos,
fita-me bem no fundo dos olhos!

Então,
virá a miséria maior que todas
secar o último restolho de moral que em mim resta;
e eu ficarei rude como o deserto
e agreste como o recorte das altas serras:
e virá a ânsia do peito para os braços!

Domingo que vem,
eu vou fazer as coisas mais belas
que um homem pode fazer na vida!

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Luiza Neto Jorge – “Poema quase epitáfio”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Violentamente só
desfeito em louco
– nem um gato lunar
te arranha um pouco

Morreram-te na família
irmãos mais velhos
Restam retratos de vidro
e espelhos

Entre as fêmeas bendita
não te quis
As outras mataste
(nem há sangue que te baste)

O chão do teu país
deu-te água e uma raiz
muitas pedras mas prisões

– Senhor demónio dos sós
Quando ele morrer
onde o pões?

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Luiza Neto Jorge – “A Casa do Mundo”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aquilo às vezes parece
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
Interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta.
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sanguíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida.

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Luiza Neto Jorge – “As casas vieram de noite”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As casas vieram de noite
De manhã são casas
À noite estendem os braços para o alto
fumegam vão partir

Fecham os olhos
percorrem grandes distâncias
como nuvens ou navios

As casas fluem de noite
sob a maré dos rios

São altamente mais dóceis
que as crianças
Dentro do estuque se fecham
pensativas

Tentam falar bem claro
no silêncio
com sua voz de telhas inclinadas

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Luiza Neto Jorge – “Soneto”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A silabar que o poema é estulto
o amado abre os dentes e eu deslizo;
sismos, orgasmos tremem-lhe no olhar
enquanto eu, quase a rimar, exulto.

Conheço toda a terra só de amar:
sem nós e sem desvãos, um corpo liso.
Tenho o mênstruo escondido num reduto
onde teoricamente chega o mar.

Nos desertos – íntimos, insuspeitos –
já caem com a calma as avestruzes
– ou a distância, com o oásis, finda;

à medida que nos arcaicos leitos
se vão molhando vozes e alcatruzes
ao descerem ao fundo pego, e à vinda

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Luiza Neto Jorge – “Perdida a face largada a pele”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Perdida a face largada a pele
oco o osso curva a espinha
apela se à grande concentração

São as primeiras letras
um vagido um balbucio de amor
não esperar mais escrevê-lo já
telefoná-lo
(a quanto o impulso?)

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Luiza Neto Jorge – “A cabeça em ambulância”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã

ou que de noite se abrem
e pela amanhã são pensadas
com todos os pensamentos
que os órgãos são hábeis
em inventar como pensos

ligaduras capacetes
sacramentos
com que se prende a cabeça
quando ela se nos afasta

quando ela nos pressente
em síncope ou desnudamento
ou num erro mais espaçoso
ou numa letra mais muda
ou na sala de tortura
na sala escura,de infância

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Kumaradadatta Smajarakarika

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Seu hálito é como mel aromatizado com cravo;
Sua boca, deliciosa como uma manga madura.
Beijar sua pela é como experimentar o lótuz.
A cavidade do seu umbigo oculta uma profusão de especiarias.
Que prazer repousar depois, a língua sabe,
mas não pode dizer.

(Século XII)

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Judith Teixeira – “Minha vida”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tu estás doente meu amor, porquê?
Falta-te o sol, a luz, o meu sabor?
Ou queres tu, que ainda eu te dê,
nos meus braços, mais ânsia, mais calor?

Se és tu o sol, a graça, essa mercê
divina que Deus trouxe à minha dor,
exige tudo, a minha vida e crê
que ta darei com alegria, amor!

Se perdes a alegria, minha vida,
perco-me eu a procurar a causa:
minha alegria é também perdida!

Beijemo-nos, meu bem, ardentemente
que venha a morte numa doce pausa
e que nos leve se não és contente!

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Judith Teixeira – “O meu chinês”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos olhos de seda
traçados em viés,
tem um ar tão sensual
o meu Chinês

Vive sobre uma almofada
de cetim bordada,
pintado a cores.

Às vezes
numa ânsia inquieta
que eu não mitigo,
e que me domina,
num sonho de poeta
ou de heroína,
fujo levando
o meu Chinês comigo!

E lá vamos!
Nem eu sei
para que alcovas orientais,
em que países distantes,
realizar
as horas sensuais,
as horas delirantes
com que eu sonhei

Eu e o meu Chinês
temos fugido tanta, tanta vez!

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Judith Teixeira – “Podes Ter os Amores que Quiseres”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Podes dizer que me não amas,
sim, podes dizê-lo,
e o mundo acreditar,
porque só eu saberei
que mentes!

Eu estou na tua alma
como a flama
que devora sob a cinza
as brasas dormentes…

Não creias no remorso
– o remorso não existe!
O que tu sentes
e o que em ti subsiste,
são o rubor da minha ternura
e a chama do meu amor
que em ti
nunca foram ausentes!…

Não julgues, não, que me esqueceste,
porque mentes a ti mesmo
se o disseres
Podes ter os amores que quiseres,
que o teu amor por mim,
como uma dor latente e compungida,
há-de acompanhar sempre
a tua e a minha vida!

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Judith Teixeira – “Quando, não sei”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há-de chegar o dia
em que a minha tristeza há-de acabar…
Tudo finda,.. renasce e recomeça…
E esta tristeza há-de ter fim!
E então minha alegria
há-de voltar!…

Só tenho medo
que, quando ela regressar
eu esteja tão cansada de viver,
que não chegue a festejar
esta ânsia enorme de vencer!,..

Sim, porque da tristeza sempre fica
um jeito desolado…
Mas não! Eu hei-de ser alegre,
e endoidecer cá dentro
toda a amargura do passado!

Mas não tardes
a realidade
do meu sonho!…
Porque há quem morra de saudade
e dor!
E eu não sei se terei vida
que chegue
se a tua demora
for mais longa, meu amor!

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Judith Teixeira – “Volúpia”

16.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era já tarde e tu continuavas
entre os meus braços trémulos, cansados…
E eu, sonolenta, já de olhos fechados,
bebia ainda os beijos que me davas!

Passaram horas!x Nossas bocas flavas,
Muito unidas, em haustos repousados,
Queimavam os meus sonhos macerados,
Como rescaldos de candentes lavas.

Veio a manhã e o sol, feroz, risonho,
entrou na minha alcova adormecida,
quebrando o lírio roxo do meu sonho…

Mas deslumbrou-se… e em rúbidos adejos
Ajoelhou-se… e numa luz vencida,
Sorveu, sorveu o mel dos nossos beijos!

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