Nota biográfica

A primeira página de grandes obras da literatura.

“Pantagruel” de, Rabelais

24.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Françhois Rabelaiche (Chinon, 1494 — Paris, 9 de abril de 1553) escritor, padre e médico francês do Renascimento, que usou, também, o pseudónimo Alcofribas Nasier (um anagrama de seu verdadeiro nome).
Ficou para a posteridade como o autor das obras primas cómicas Pantagruel e Gargântua, que exploravam lendas populares, farsas, romances, bem como obras clássicas. O escatologismo é usado para condenação humorística. A exuberância da sua criatividade, do seu colorido e da sua variedade literária asseguram a sua popularidade.

Já que nos sobeja o tempo, não será de todo inútil nem ocioso revelar a origem e extracção do bom Pantagruel. Foi assim que, nas suas crónicas, procederam todos os bons historiógrafos, não só árabes, bárbaros e latinos, mas também gregos, que foram borrachos de primeira, e os autores das Santas Escrituras, S. Lucas e S. Mateus.
Sabei pois que, nos alvores do mundo (quer dizer há mais de quarenta quarentenas de noites, se contarmos como os antigos druidas), pouco depois de Abel ter sido morto por seu irmão Caim, a terra, regada com o sangue do justo, vicejou e floresceu como um vero paraíso. Dos seus flancos, cresciam todas as árvores e havia fruta a dar com um pau. Sobretudo nêsperas. Dessa época ficou o dizer-se «ano das nêsperas gordas», porque três pesavam um alqueire.
Nesse ano também se descobriram as calendas nos breviários dos gregos, e viu-se então que Março calhava na quaresma e os meados de Agosto em pleno mês de Maio. Em Outubro, se bem me lembro, ou em Setembro, se não me engano (Deus me livre!) correu a semana ditosa entre as ditosas, tão afamada nos anais e hoje conhecida pela semana dos nove dias, porque o ano era bissexto: o sol desandou da direita para a canhota, a lua mudou de cinco toesas o seu curso e viu-se perfeitamente o tremelicar das estrelas fixas no firmamento. Foi então que uma das Três Marias, mandando as outras à fava, deu uma carreirinha até o Equinócio e a Espiga deixou a Virgem para se encafuar na Balança. Foram coisas tão pasmosas, tão terríveis e difíceis que os astrólogos quedaram estarrecidos, sem poderem meter o dente em tão especiosa matéria. De resto, só com dentes de cavalo chegariam até lá.
Sabei pois que o mundo inteiro apanhava grandes barrigadas de nêsperas, porque eram lindas de se verem e gostosas ao paladar. Mas, tal como Noé, santo entre os santos a quem devemos a plantação da vinha de onde nos vem este licor deleitável, delicioso, precioso, celestial e divino que se chama vinho, foi enganado ao bebê-lo, ignorante da sua virtude e força, as mulheres e os homens desse tempo empanzinaram-se à porfia com esse belo e sumarento fruto. O que foi motivo de muitas e diversas moléstias, sendo a mais importante um horrível inchaço nas partes mais inesperadas do corpo.

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Jorge de Sena – “Envelhecer”

18.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
Nesta claridade silenciosa e pálida os vultos

deslizam como sombras no entanto nítidos e 

contornados por um brilho que entontece o 

olhar.

Há uma distância incomensurável entre nós. E 

dir-se-ia que nenhum gesto é bastante para os 

atingir. O tempo se fez distância.

Paralisado em transparência gélida eu não

mudei porém. Pelo contrário é como se

contido o ardor fosse maior.

E doloroso mais. Porque de antigamente o

não-ter e o perder ainda eram certeza de 

atingir, senão de amor.
II
De amor eu nunca amei senão desejo visto ou 

pressentido. Um corpo. Um rosto. Um gesto. E

nunca de paixão sujei o meu prazer ou o de 

alguém. Por isso posso

mesmo as audácias recordar sem culpa. 

Tudo o que fiz ou quis que me fizessem o

paguei comigo ou com dinheiro. E só 

lamento as vezes que perdi

retido por algum respeito. Errei

por certo — mas foi nisso. O que me dói

não é tristeza de quem dissipou

no puro estéril quanto esperma pôde gastar
assim. O que me mata agora é este frio que

não está em mim.

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“Ensaio sobre a lucidez” de José Saramago.

18.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Num país qualquer, num dia chuvoso, poucos eleitores compareceram para votar, durante a manhã. As autoridades eleitorais, preocupadas, chegaram a supor que haveria uma abstenção gigantesca. À tarde, quase no encerramento da votação, centenas de milhares de eleitores compareceram aos locais de votação. Formaram-se filas quilométricas, e tudo pareceu normal. Mas, para desespero das autoridades eleitorais, houve quase setenta por cento de votos em branco. Uma catástrofe. Evidentemente que as instituições, partidos políticos e autoridades, haviam perdido a credibilidade da população. O voto em branco fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.(Wikipédia)

Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembleia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências.

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Sofia de Mello B. Andresen – “Quando”

17.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

panteao

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 

Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje 

igualmente hão-de bailar As quatro estações à 

minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar Em

que eu tantas vezes passei, Haverá 

longos poentes sobre o mar, Outros 

amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 

Será o mesmo jardim à minha porta, E 

os cabelos doirados da floresta, Como 

se eu não estivesse morta.

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Jorge de Sena – “A cidade feliz”

14.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
e que não existe para sempre mesmo depois das palavras?

Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras…
De longe se não vê que toda a gente luta, se
devora e desvairadamente contempla que a sua
flor, lindíssima, resista.

Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?

Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor? O Sol e o
ar sobre a cidade passam. Do alto as pombas na
cidade pousam. Como te chamo flor? Por que te
chamo flor? Como até nisto eu posso atraiçoar-te?

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Vitorino Nemésio – “Canção do búzio velho.”

13.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixem-me ouvir no búzio velho, 

Que me ofereceram por escárnio,

O grito da ave que no espelho Do 

longo mar partiu a asa: E meu 

coração — descarne-o Seu bico 

ardente como uma brasa.


Deixem-me ouvir nesse antigo

Búzio de sala (que agora Os

sobrados são o mar) As vozes que 

ele traz consigo Como o relógio dá a

hora Sem a gente lhe tocar.

Búzio ridículo, malhado, Casa onde 

nunca entro, Assim torcido,

conservado Com frio e barulho 

dentro: Se me falasses em voz alta 

Todos ouviam o que eu ouço 

Quando uma simples areia salta No

bafo estreito do teu poço, Búzio

velho, Meu começo e meu destroço.
Já que ninguém te aproveita,

Búzio de bicho comido,



Sejas meu

Aqui e em todo o lugar

Onde a minha mão te deita

Com o que soube e esqueceu,

Como um pouco de céu velho,

Búzio relho,

Minha boca e meu ouvido.

Ai!
Esta canção do búzio desusado,

Como a posso acabar dentro de mim,

Se eu sou o bicho dele despegado?

Talvez só cante lá para o fim,

Como o cisne agoniado…

Antes mais tarde, antes assim!

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Pedro Mexia – “Funerais”

12.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos funerais encontramos a família.
Nunca fomos tão claros
como no luto
e nas memórias anedóticas
que amenizam o morto.
Que sangue é o teu
para que o meu se assemelhe?
Alguns velhos trazem flores
que já ofereceram nos casamentos
e entre eles decidem
que somos uma família,
conhecem os primos que não
conheço, lamentam a sorte
daqueles cuja sorte é conhecida,
são ainda mais graves
do que nós, e usam
diminutivos carinhosos.
O meu nome far-se-á pó
com o meu corpo, pensa
uma mulher que já é viúva,
há irmãos completamente mudos
e as crianças jogam à cabra-cega.
Seguimos em cortejo
compondo as gravatas,
o vento não percebe que morreu gente.
Dez pessoas acompanham o padre,
os outros já não se lembram
das orações,
dez pessoas pensam
no que têm pela frente,
os outros acompanham o caixão.
O coveiro mais novo
dentro de pouco tempo
enterrará o mais velho.



in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, 2011


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“Naná” de Émile Zola

11.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Integrante de um ciclo de vinte romances, “Naná” descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.

Às nove horas a plateia do Teatro das Variedades estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do tecto onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu voo num céu averdungado pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um falazar contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas.
Por momentos aparecia uma arrumadora, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo na sua frente um cavalheiro acompanhado de uma senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, olhando a sala com lentidão. Na orquestra, apareceram dois jovens. Conservaram-se de pé, observando.
— Não te dizia eu, Heitor — exclamou o mais velho dos dois, um rapagão de bigode negro — que chegávamos muito cedo?… Mais valera que me tivesses deixado acabar o meu charuto.
Passava uma arrumadora.
Oh! senhor Fauchery — disse ela familiarmente. — Isto não vem a principiar antes de meia hora.
Nesse caso, porque anunciam eles para as nove horas? — murmurou o Heitor, cujo rosto magro e comprido tomou uma expressão aborrecida. — Ainda esta manhã, a Clarisse, que entra na peça, me garantiu que principiaria às nove em ponto.
Calaram-se um momento, levantando a cabeça e perscrutando a sombra dos camarotes.

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Mário de Sá-Carneiro – “Cinco horas”

07.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto… A garrida

Toda de pedra brunida 

Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio 

E, ao seu lado, a fosforeira

Diante ao meu copo cheio

Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores

Que acho pouco ornamentais: 

Os xaropes têm cores

Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever 

Os meus versos prateados, 

Com estranheza dos criados

Que me olham sem perceber..

Sobre ela descanso os braços 

Numa atitude alheada,

Buscando pelo ar os traços 

Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,

— Pois há um ano que fumo
-
Imaginário presumo

Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente

Uma linda mulher brilha,

O fumo da cigarrilha

Vai beijá-la, claramente…).

Um novo freguês que entra

E novo actor no tablado, 

Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca

Que ao fundo descubro, triste,

Na minha ideia persiste 

E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades

A minha recordação,
E destes vislumbres são

As minhas maiores saudades…

(Que história d’Oiro tão bela

Na minha vida abortou:

Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou…).

Nos Cafés espero a vida

Que nunca vem ter comigo:

— Não me faz nenhum castigo,

Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito, 

Ideal que só me resta: 

Pra mim não há melhor festa, 

Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,

Sois hoje — que galardão!
— 
Todo o meu campo de acção

E toda a minha cobiça.

Paris – Setembro 1915

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Fernando Pessoa – “Súbita mão…”

06.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão nocturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.

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Mário de Sá-Carneiro – “Como eu não possuo”

04.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olho em volta de mim. Todos possuem -

Um afecto, um sorriso ou um abraço. 

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria 

Dos espasmos golfados ruivamente; 

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…

Não posso afeiçoar-me nem ser eu: 

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir 

Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me, 

Tarde a tarde na minha dor me afundo… 

– Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?.

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor… 

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia, 

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada, 

Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria.



Eu vibraria só agonizante 

Sobre o seu corpo d’êxtases dourados, 

Se fosse aqueles seios transtornados, 

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo: 

E que eu teria só, sentindo e sendo 

Aquilo que estrebucho e não possuo.

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“As Mil e Uma Noites”

03.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites – as mil e uma do título – ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
(Wikipédia)

Conta-se — mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom — que, quando decorria a antiguidade do tempo e o passado da idade e do momento, havia nas ilhas da índia e da China, um rei dos reis de Sássan. Era senhor de muitos exércitos, ministros, servidores, e numeroso séquito. Tinha dois filhos, um mais velho e outro mais novo. Eram ambos heróicos cavaleiros; mas o mais velho era mais valoroso que o mais novo. Reinou este mais velho naqueles países, governando os homens com justiça; por isso os habitantes daquele país e reino o estimavam. E o nome dele era rei Schahriar. Quanto a seu irmão mais novo, o seu nome era rei Schahzaman e reinava em Samarcanda.
Mantendo-se este dito estado de coisas, ambos residiam em seus países; e, cada um em seu reino, foram os dois justos governantes de suas greis pelo espaço de vinte anos. E ambos o foram até ao limite do mais dilatado desenvolvimento.
E deste jeito se mantiveram ambos até ao dia em que o mais velho desejou ardentemente visitar o irmão mais novo. Ordenou então ao vizir que se pusesse a caminho e ali lhe trouxesse seu irmão. Ao que lhe respondeu o vizir: «Escuto e obedeço!»
E assim partiu, e com a graça de Alá, chegou em bem: entrou em casa do outro irmão e saudou-o com o saiam. Informou-o de que o rei Schahriar desejava ardentemente vê-lo e que o fim daquela sua viagem tinha como finalidade convidá-lo a visitar seu irmão mais velho. Tendo o rei Schahzaman respondido: «Escuto e obedeço!» Ordenou os preparativos da viagem, mandando que se aprontassem tendas, camelos, machos, servidores e ministros. Elevou depois o seu próprio vizir a governante do país e partiu em demanda das terras do irmão.
Mas ia a noite em meio, lembrou-se de uma coisa que no palácio lhe ficara esquecida e que vinha a ser o presente que destinava a seu irmão. E, voltando atrás, entrou no palácio. E achou a esposa deitada em sua cama, muito abraçada a um preto retinto, seu escravo.

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Humor – “Os noivos”

31.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Autor desconhecido

O noivo escreveu um poema para noiva pouco antes do casamento:
 
Que feliz sou, meu amor!
Domingo estaremos casados,
O café da manhã na cama,
Um bom sumo e pães torrados
 
Com ovos bem mexidinhos
Antes de ir p’ ró trabalho
Tudo pronto bem cedinho
P’ra inda ires ao mercado
 
Depois regressas a casa
Rapidinho arrumas tudo
E corres pro teu trabalho
Para começares o teu turno
 
Tu sabes bem que, de noite
Gosto de jantar bem cedo
De te ver toda bonita
Com sorriso ledo e quedo
 
Pela noite mini-séries
Cineminhas dos baratos
E nada, nada de shoppings
Nem de restaurantes caros
 
E vais cozinhar p’ra mim
Comidinhas bem caseiras
Pois não sou dessas pessoas
Que só comem baboseiras…
 
Já pensaste minha querida
Que dias gloriosos?
Não te esqueças, meu amor
Qu’em breve seremos esposos!
 
Como resposta, a noiva escreveu um poema para o noivo
 
Que sincero meu amor!
Que linguagem bem usada!
Esperas tanto de mim
Que me sinto intimidada
 
Não sei de ovos mexidos
Como tua mãe adorada,
Meu pão torrado se queima
De cozinha não sei nada!
 
Gosto muito de dormir
Até tarde, relaxada
Ir ao shopping fazer compras
de Visa, tarjeta dourada
 
Sair com minhas amigas,
Comprar roupa da melhor
Sapatos só exclusivos
E as lingeries p’ró amor
 
Pensa bem… ainda há tempo
A igreja não está paga
Eu devolvo o meu vestido
E tu o fato de gala
 
E domingo bem cedinho
Em vez de andar aos “AIS”,
Ponho aviso no jornal
Com letras bem garrafais:
 
HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
PORQUE A EX-FUTURA ESPOSA
DECIDIU MANDÁ-LO À MERDA!

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Mito da Criação – segundo o povo Fulani

30.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fulani, grupo pastoral que habita o oeste da África (Mali)

No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.

Trad.: Vasco David

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“O Nome da Rosa” de Umberto Eco

29.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Umberto Eco sugere n’O Nome da Rosa, um ambiente no qual as contradições, oposições, querelas e inquisições, no início do século XIV, justificam ações humanas, as virtudes e os crimes dos personagens, monges copistas de uma abadia cuja maior riqueza é o conhecimento de sua biblioteca. Para as personagens, a discussão do essencial e do particular, do espiritual e da realidade material, do poder secular e da insurreição, dos conceitos e das palavras entranham pelo mundo uma teia de inter-relações das mais conflituosas. A representação, a palavra e o texto escrito passam a ter uma importância vital na organização da abadia beneditina, gestando o microcosmo do narrador.

Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. Esta era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura perfeitíssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da Cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam crescer das próprias faldas do monte, nas quais se encaixavam a pique. Digo que em certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava para o céu, sem solução de tons nem de matéria, e se tornava a certa altura um maciço torreão (obra de gigantes que tivessem grande familiaridade com a terra e com o céu). Três ordens de janelas diziam o ritmo ternário da sua elevação, de modo que aquilo que era fisicamente quadrado sobre a terra era espiritualmente triangular no céu. Ao aproximarmo-nos mais, percebia-se que a forma quadrangular gerava, em cada um dos seus ângulos, um torreão heptagonal, cujos cinco lados se adiantavam para o exterior — quatro portanto dos oito lados do octógono maior, gerando quatro heptágonos menores, que do exterior se manifestavam como pentágonos. E não há quem não veja a admirável concórdia de tantos números santos, revelando cada um um subtilíssimo sentido espiritual.

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António Gedeão – “Declaração de Amor”

28.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Excita-me a tua presença, ó Árvore – ó Árvores todas!

Desejo-te (desejo-vos) como se fosses Carne, e eu Desejo.

Como se eu fosse o vento que preside às tuas bodas,

e te cicia em redor, e te fecunda num aliciante beijo.
Ponho os olhos em ti e entretenho-me a pensar que sou mãos,

todo mãos que te envolvem o tronco e te sacodem convulsivamente.

Requebras-te com volúpia, e os teus emaranhados cabelos louçãos

fustigam o ar como látegos, com toda a força que este amor me consente.
Ó árvore minha débil! Ó prazer dos meus olhos extáticos!

Ó filtro da luz do Sol! Ó refresco dos sedentos!

Destila nos meus lábios as gotas dos teus ésteres aromáticos,

unge a minha epiderme com teus macios unguentos.
Desnuda-me a tua intimidade, ó Árvore! Diz-me a que segredos recorres

para te desenrolares em flores e em frutos num cíclico desvario.

Porque é que tudo morre à tua volta e tu não morres,

e aceitas sempre o Amor com renovado cio.
Inicia-me nos teus mistérios, ó feiticeira dos cabelos verdes!

Ensina-me a transformar um raio de Sol em suculenta carnadura,

e nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes,

prolongando o teu ser no ar que te emoldura.
É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza.

É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente.

É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza.

Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!

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Fernando Pessoa – “Terrível bebé” – carta a Ofélia.

27.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.

“Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queirós “ de Manuela Parreira da Silva – Assírio & Alvim

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Fernando Pessoa – “Deixa-me…” (Sem música)

23.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixa-me ouvir o que não ouço…

Não é a brisa ou o arvoredo;

É outra coisa intercalada…

É qualquer coisa que não posso

Ouvir senão em segredo,

E que talvez não seja nada…

Deixa-me ouvir…
Não fales alto!
Um momento…
Depois o amor,

Se quiseres…
Agora cala!

Ténue, longínquo sobressalto

Que substitui a dor,

Que inquieta e embala…

O quê? Só a brisa entre a folhagem?

Talvez…Só um canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois…

Sim, torna em mim, e a paisagem

E a verdadeira brisa, ruído…

Vejo-te, somos dois…

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Cecília Meireles – “Retrato de mulher triste”

21.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1942-1959)’

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Cecília Meireles – “A velhice pede desculpas”

21.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1958)’

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António Skármeta – “O carteiro de Pablo Neruda”

19.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Carteiro de Pablo Neruda deu origem a duas versões cinematográficas sendo a segunda um estrondoso êxito. Filme realizado por Michael Radford sobre a amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e um humilde carteiro que deseja aprender a fazer poesia.
Baseado no livro “Ardiente Paciencia” de Antonio Skármeta. O roteiro foi adaptado por Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi que também interpretou o carteiro. Uma primeira versão do roteiro, feita por Troisi já havia sido realizada em 1983. O livro e a primeira versão do roteiro passavam-se  no Chile, por volta de 1970, quando Neruda vivia na Ilha Negra. Na segunda versão passa-se na Itália nos anos 50.
O Carteiro de Pablo Neruda é vencedor de um Oscar® da academia em 1996 tendo sido nomeado para 5 estatuetas.
(Wikipédia)

Em Junho de 1969 dois motivos tão afortunados como triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Primeiro, o seu desamor pelas lides da pesca que o arrancavam da cama antes do amanhecer, e quase sempre quando sonhava com amores audaciosos, protagonizados por heroínas tão abrasadoras como as que via no écran do cinematógrafo de San António. Este talante, juntamente com a sua consequente simpatia pelas constipações, reais ou fingidas, com que se escusava em média todos os dias a preparar os apetrechos do bote do seu pai, permitia-lhe retouçar debaixo das nutridas mantas chilenas, aperfeiçoando os seus oníricos idílios, até o pescador José Jiménez voltar do mar, encharcado e faminto, e ele aliviava o seu complexo de culpa preparando-lhe um almoço de estaladiço pão, sediciosas saladas de tomate com cebola, mais salsa e coentros, e uma dramática aspirina que engolia quando o sarcasmo do seu progenitor o penetrava até aos ossos.
Arranja trabalho. – Era a concisa e feroz frase com que o homem concluía um olhar acusador, que podia durar até dez minutos, e que de qualquer modo nunca durou menos de cinco.
Sim, pai – respondia Mário, limpando as narinas com a manga do colete.
Se este motivo foi o trivial, o afortunado foi a posse de uma alegre bicicleta marca Legnano, valendo-se da qual Mário trocava todos os dias o diminuto horizonte da calheta dos pescadores pelo quase mínimo porto de San António, mas que em comparação com o seu casario o impressionava como faustoso e babilónico. A simples contemplação dos cartazes do cinema com mulheres de bocas turbulentas e duríssimos parentes de havanos mastigados entre dentes impecáveis, deixava-o num transe do qual só saía após duas horas de celulóide, para pedalar desconsolado de volta à sua rotina, às vezes sob uma chuva marítima que lhe inspirava épicas constipações. A generosidade do pai não chegava ao ponto de fomentar a moleza, de modo que vários dias da semana, falto de dinheiro, Mário Jiménez tinha de conformar-se com incursões às lojas de revistas usadas, onde ajudava a manusear as fotos das suas actrizes preferidas.
Foi num desses dias de desconsolada vagabundagem que descobriu um aviso na janela dos correios a que, apesar de estar escrito à mão e numa modesta folha de caderno de contas, matéria em que não se tinha distinguido durante a escola primária, não conseguiu resistir.
Mário Jiménez nunca tinha usado gravata, mas antes de entrar endireitou o colarinho da camisa como se tivesse uma e tentou, com algum êxito, disfarçar com duas passagens de pente a sua cabeleira, herdada de fotos dos Beatles.
– Venho pelo anúncio – declamou ao funcionário, com um sorriso que emulava o de Burt Lancaster.
– Tem bicicleta? – perguntou aborrecido o funcionário.
O seu coração e os lábios disseram em uníssono:
– Sim.
Bom – disse o empregado, limpando as lentes, – trata-se de um lugar de carteiro para a Ilha Negra.
– Que coincidência – disse Mário. – Eu vivo mesmo ao lado, na calheta.
– Ainda bem. Mas o que está mal é que só há um cliente.
– Um e mais ninguém?
– Sim, claro. Na calheta são todos analfabetos. Não sabem ler nem as contas.
– E quem é o cliente?
– Pablo Neruda.
Mário Jiménez engoliu o que lhe pareceu um litro de saliva.
– Mas esse é formidável.
– Formidável? Recebe quilos de correspondência todos os dias. Pedalar com a sacola às costas é o mesmo que levar um elefante aos ombros. O carteiro que o servia reformou-se marreco que nem um camelo.
– Mas eu tenho só dezassete anos.
– E és saudável?
– Eu? Sou de ferro. Nem uma constipação em toda a vida!
O funcionário deixou escorregar os óculos pela cana do nariz e fitou-o por cima do guichet.
– O salário é uma merda. Os outros carteiros ainda se arranjam com as gorjetas. Mas só com um cliente, mal te vai chegar para o cinema uma vez por semana.
– Quero o lugar.
– Está bem. Eu chamo-me Cosme.
– Cosme.
– Tens de dizer «Don Cosme».
– Sim, Don Cosme.
– Sou o teu chefe.

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Charles Baudelaire – “Hino à beleza” (sem música)

17.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Virás do céu profundo ou surges do abismo,


Beleza?! o teu olhar, infernal e divino, 


Gera confusamente o crime e o heroísmo, 


E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora; 


Expandes os teus odores qual noite de trovoada; 


Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca,


Tornando o herói cobarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros? 


Encantado, o Destino é um cão que te segue;


Semeias ao acaso alegrias, desastres, 


E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;


Das tuas joias, o Horror é das que mais fascina, 


E entre tais enfeites, o próprio Assassínio


Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O insecto, deslumbrado, procura-te a chama, 


Arde, crepita e diz: Benzamos esta luz! 


O apaixonado trémulo, aos pés da sua dama, 


Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa, 


Beleza! monstro ingénuo, assustador, excessivo! 


Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta 


De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou Deus, que importa? 


Anjo ou Sereia, Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,


Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! 


-Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

(Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

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Alberto Caeiro – “O guardador de rebanhos” (Sem música)

14.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se
diz E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
A sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansadas de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

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“Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago

14.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”). Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho e evidenciando o seu caráter frágil e vulnerável, Saramago coloca que a propagada histórica da crucificação de Jesus, “um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos”, resultou na imposição de “uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”, e que, “no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las”. Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país, e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica e por meio do então Subsecretário de Estado da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu por “atentar contra a moral cristã”.
Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias, onde permaneceu até à sua morte.
(Wikipédia)

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar.
Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias, ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico.
De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios, razão por que, inevitavelmente, está atraindo e retendo a mirada sôfrega dos homens que passam, com grave dano das almas.

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“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez

11.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

cem

Cem Anos de Solidão é uma obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e é considerada uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. Esta obra é das mais lidas e traduzidas de todo o mundo. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março de 2007, “Cem Anos de Solidão” foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de “Dom Quixote de la Mancha”. Utilizando o estilo conhecido como realismo mágico, “Cem Anos de Solidão” cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez.
A primeira edição foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em Maio de 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 8.000 exemplares.

(Wikipedia)

(Texto do excerto, não disponível. Leitura gravada em 9 de Setembro de 2005)

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“D. Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes.

10.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dom Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. É considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola. Em princípios de maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional.

Vivia, não há muito, numa aldeia da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, um fidalgo dos de lança em armeiro, escudo velho, pileca escanzelada e galgo veloz. Dissipavam-lhe três partes dos bens um cozido, de vaca um pouco mais que de carneiro; salpicão as mais das noites; rabugices e lazeiras aos sábados; lentilhas ás sexta-feiras; algum borracho, de melhoria, aos domingos. Saio de velarte, calças de veludo para as festas; pantufos do mesmo; velori do mais fino, com que se 
honrava nos dias de semana, davam-lhe cabo dos sobejos. Tinha em casa uma patroa que passava dos quarenta, uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um criado de fora e de dentro, que tanto lhe selava a besta, como manejava o podão. Calhava a idade do nosso fidalgo com os cinquenta anos; era de compleição robusta, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Querem dizer que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada (no que há alguma dife
rença nos autores que deste caso escrevem) ainda que por conjeturas verosímeis se deixe perceber que se chamava Quijana; porem isto pouco importa ao nosso conto; basta que a narração dele não saia um ponto da verdade. Nos espaços em que estava ocioso (que eram os mais do ano) é de saber que este sobredito fidalgo se ocupava em ler livros 
de cavalarias, com tanto gosto e a ferro, que olvidou quase totalmente o exercício da caça, e até o amanho da sua fazenda. E a tal ponto chegou a curiosidade e desvario que vendeu muitas nesgas de terra de semeadura, para comprar livros de cavalaria em que ler, e assim levou para casa quantos pôde encontrar. E a nenhuns achava tão bem como aos que compôs o famoso Feliciano de Silva: porque a clareza da prosa, e aquelas intrincadas razões lhe pareciam de pérolas; e mais quando chegava a ler aqueles requebros e carteis, onde em muitas partes achava escrito: «a razão da sem-razão que á minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece que com razão me queixo da vossa formosura»; e também quando lia: «os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam, e vos fazem merecedora do merecimento que merece a vossa grandeza».
Perdia o juízo o pobre cavaleiro com estas e semelhantes razões, e disvelava-se em compreende-las e decifrar-lhes o sentido, que não lhes arrancara o próprio Aristóteles, nem as percebera se para isso ressuscitasse.

(Texto retirado de uma edição de 1905 da Guimarães & Cª com atualizações de algumas palavras)

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Boris Vian – “Se os poetas fossem menos patetas”

07.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz.
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves,
De mirliflautas e licores,
De melfiarufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina.
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro.
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão.

Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas

Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como ela sob os dedos.

Mas os poetas são uns patetas.
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar.
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto.
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia.
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois.

Boris Vian, in “Não Queria Patear”
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martin

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Golgona Anghel – “Vim porque me pagavam…”

02.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vim porque me pagavam,

e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas

ou de armas de destruição em massa.

Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,

metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras

de lata.

A bordo, alguém falou de justiça

(não, não era o Marx).

A bordo, falavam também de liberdade.

Quantos mais morríamos,

mais liberdade tínhamos para matar.

Matava porque estavas perto,

porque os outros ficaram na esquina do supermercado

a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira

com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?

Eu só penso em como regressar a casa;

e que bonito me fica a esperança

enquanto apresento em directo

a autópsia da minha glória.

[in Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011]

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Eugénio de Andrade – “Poesia” (Sem música)

25.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

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Edson Bueno de Camargo – “Gelo entre os dedos”

23.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

aqui enterrei meus mortos
nesta cidade de telhas claras
e a linha o céu não se define no cinza
onde o oco da terra abriga
coleções de esqueletos brancos

ali plantei uma árvore de carne
(em homenagem ao pai mais antigo que o outro)
que serviu de suporte a meus ossos parcos
e nela jaz enforcado um cão ainda em agonia
todo o sangue obliquo de crianças vingadas
e cabelos de cascatas de cometas

há um grito surdo de mortes precoces
inocências imoladas em campos de batalha
aqueles que carregam pedras de gelo entre os dedos
e uma agonia antiga e intacta entre os dentes

um barril repleto de braços amputados, mãos
e orelhas e narizes decepados a facão
ampulhetas de linfa coagulada e reduzida a pó
pedras de peixe ( fortuna escondida no porão)
retratos de lordes emoldurados com pele humana.

há um urro indolente de tesouras de aço enferrujado
prata e ouro enredados em fina tapeçaria
um coro de choros incontroláveis de mães em praça pública
em cidades sitiadas
em muros de vergonha
e campos sem cultivo
que na falta de justiça se referem a vingança com graça e apreço
há um rio que corre destes olhos
água agourenta e salgada
que devora como ácido
toda a alegria e esperança

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