Nota biográfica

Casimiro Cavaco Correia de Brito (Loulé - Algarve, 14 de Fevereiro de 1938) é um poeta, ensaísta e ficcionista português.

Casimiro de Brito – “Sento-me”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sento-me à beira da cama
que nos acolheu: um rio
que recebeu o músculo, o sangue rumoroso
e não partiu. Um lago azul de mais
e por demais queimado
onde, semi-acordada, dormes. Uma
feiticeira. Disseste ontem à noite,
Acorda-me quando acordares. Não tive
coragem. Mas o sol começou a trepar pelos lençóis
onde fomos espuma, excitação.
Minha boca não deixou que o sol
entrasse sozinho. Quando acordaste
já eu navegava
em nuvens perfumadas. As árvores de ti
sorriam, balançavam.

Facebooktwittermailby feather

Casimiro de Brito – “Quando”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
Quando já não se espera nada
a vida, cascata impetuosa, tem outro
sabor: é um grão de luz, uma gota
que nos inunda
e então esse que não esperava nada
abre os olhos e vê e ouve
e tudo em volta são ilhas que se levantam
a brilham.
II
Ando por aqui a ver o mundo
e só vejo buracos e ruínas. Pudesses tu regar
as folhas secas que me invadem o sexo
com o teu mel com as tuas lágrimas.
III
O amor: amêndoa clara
que tu mastigas, primeiro com os olhos,
depois com a boca
insaciável. Fomos tão belos,
tão frágeis e devastados
que os outros da barca nos lançaram
borda fora.
IV
Deuses haverá para quem
um rio e uma abelha
voam um pouco mais perto,
um pouco menos perdidos
na brisa. Deuses haverá.
Que talvez saibam um pouco mais
sobre as abelhas que revivem no sangue
da minha amada. Tal um pé que se aproxima
da sua morada.
V
Envelheci? Bebo a mesma gota de água
de quando mergulhei em ondas que me lembravam
bocas nómadas. Nómada sou eu agora,
descobrindo na minha amada
lagos e abismos e ilhas
que me reconhecem. Sou um deles.
Um cavalo
que pisa as uvas sagradas
que mais ninguém vê: a sede
não espera.
VI
Bebo águas tuas no vaso
que as contém. A gota comovida
vai transformar-se em rio.
Sorvo nas tuas mãos o osso
e a carícia, o cerne mais cru
e a solidão de quem sobrevive
ao sexo ardente. Também eu ardo
onde fui sede e palavras fatigadas.
VII
Eu posso beber um rio
afogar-me nele inundar-me inundá-lo
mas não posso queimá-lo não posso queimar o rio amado
e deixar-me dormir a seu lado —
eu posso beber um rio o teu rio
ou uma lágrima e cantá-la
o que não posso não sei não seria capaz
é afogar-me no rio amado e continuar
em paz.

Facebooktwittermailby feather

Casimiro de Brito – “Como se fosses um rio”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como se fosses um rio e esse rio
ascendesse, amo-te, quero dizer,
entro em tuas terras, eu que nunca
delas saí. Como se fôssemos
as duas primeiras gotas do primeiro rio
descemos lado a lado, olhamos um para o outro
e sorrimos. Românticos e perversos,
às vezes acontece. Bebo-te, embriago-me,
enquanto as montanhas fazem o que sempre
fizeram: curvam-se, complacentes,
sobre quem vai correndo por vales silenciosos.
Vamos com as nuvens, soletramos
os escolhos desta descida
entre a luz e a sombra. Dois rios
lado a lado, trocando águas, memórias,
emoções. O mundo em volta, uma casa
que se constrói a si própria
e por isso é vão invocar
o amor, a concórdia, as festas, a doce rotina
de quem, vagaroso, arde. O fogo
deixa-se purificar pelo silêncio
quando nos deitamos na luz que se deita
a nosso lado.

Facebooktwittermailby feather

Casimiro de Brito – “Escrevo com o teu sexo”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Escrevo com o teu sexo
nos olhos. Aproximo a língua do chão
onde uma flor de carne brilha.
O teu olhar derrama-se nas areias do meu corpo,
as tuas unhas na raiz dos meus cabelos,
a tua língua nos músculos mais íntimos.
Amo-te, mulher de sangue e mais leve
que mil galáxias; mais densa que ruínas
acabadas de nascer. Floresço em tuas terras
enquanto inteira te alojas
no meu sangue. Beber-te e ser bebido
por ti: aurora! Comer-te e ser comido por ti
em glória. Deixa-me ser o eterno adolescente
da tua noite; desfazer-me em conchas
onde a luz se aloja, e a sua sombra.

Facebooktwittermailby feather

Casimiro de Brito – “Amo-te porque…”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amo-te porque sou dependente do teu odor.
Amo-te porque balanças nos ventos futuros.
Porque sou uma árvore que se abriga à tua sombra.
Amo-te porque só sei respirar na cidade de Eros.
Amo as marcas indecifráveis de todas as etnias
que produziram a beleza do teu rosto.
Bebo nas tuas coxas o linho molhado da minha infância.
Amo-te porque és alucinação e no mesmo corpo mulher e pássaro.
Amo-te porque também de noite és o meu sol quotidiano.
Amando-te não preciso de correr por montes e vales em busca
da mãe primordial.
Amo-te porque és a irmã do meu corpo nómada.
Amo-te porque deixei de ter pressa.
Um poema infinito, uma cascata em cada sílaba.
Uma lua que me engole quando começo a ser sábio.
A vegetação no jardim que foi de pedra.
Conheci na tua carne a lama do meu reino luminoso.
Amo-te porque me fazes saltar o coração e lá vai ele a caminho
das tuas cores que são as cores
do teu corpo em flor. E assim renasço
no enigma da tua carne, que voa.

Facebooktwittermailby feather

Casimiro de Brito – “Acordo”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordo. Dormes ainda.
Que fazer se me apetece?
Pego na tua mão
e pouso-a onde estou vivo.
Respiras. Andantino.
As costas para mim. Não resisto.
Os dedos, leves, ensalivados,
vão à procura do grão, do seu
pólen. Vão e vêm, vou e venho.
Beijo-te no ombro. Sorris.
Dormes ainda? Subitamente
abres os olhos abres a boca
e debruças-te sobre mim.
O dia principia.

Facebooktwittermailby feather

Sérgio Jockymann – “Votos”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pois, desejo primeiro que você ame e que amando, seja também amado,

E que se não o for, seja breve em esquecer e esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo depois que não seja só, mas que se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos e que, mesmo maus e inconseqüentes, sejam corajosos e fiéis,

E que em pelo menos um deles você possa confiar, que confiando, não duvide de sua confiança.

E porque a vida é assim, desejo ainda que você tenha inimigos, nem muitos nem poucos,

Mas na medida exata para que, algumas vezes, você se interpele a respeito de suas próprias certezas

E que entre eles haja pelo menos um que seja justo, para que você não se sinta demasiadamente seguro.
Desejo, depois, que você seja útil, não insubstituivelmente útil,

Mas razoavelmente útil.
E que nos maus momentos, quando não restar mais nada,

Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,

não com os que erram pouco, porque isso é fácil, mas com aqueles que erram muito e irremediavelmente,

E que essa tolerância não se transforme em aplauso nem em permissividade,

Para que assim fazendo um bom uso dela, você dê também um exemplo para os outros.
Desejo que você, sendo jovem, não amadureça depressa demais e que, sendo maduro,

não insista em rejuvenescer e que, sendo velho, não se dedique a desesperar.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e

é preciso deixar que eles escorram dentro de nós.
Desejo, por sinal, que você seja triste, mas não o ano todo,

nem em um mês e muito menos numa semana, mas apenas por um dia.

Mas que nesse dia de tristeza, você descubra que o riso diário é bom,

o riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra com o máximo de urgência, acima e a despeito de tudo,

Talvez agora mesmo, mas se for impossível, amanhã de manhã, 
que existem oprimidos, injustiçados e infelizes,

e que estão à sua volta, porque seu pai aceitou conviver com eles.

E que eles continuarão à volta de seus filhos, se você achar a convivência inevitável.
Desejo ainda que você afague um gato, que alimente um cão

e ouça pelo menos um joão-de-barro erguer triunfante o seu canto matinal.

Porque assim você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,

por mais ridícula que seja, e acompanhe o seu crescimento dia-a-dia,

para que você saiba de quantas muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático.

E que, pelo menos uma vez por ano, você ponha uma porção dele na sua frente e diga:

Isso é meu.
Só para que fique bem claro quem é dono de quem.
Desejo ainda que você seja frugal, não inteiramente frugal,

não obcecadamente frugal, mas apenas usualmente frugal.

Mas que esse frugalismo não impeça você de abusar quando o abuso se impõe.
Desejo também que nenhum dos seus afetos morra, por ele e por você.

Mas que, se morrer, você possa chorar sem se culpar e sofrer sem se lamentar.
Desejo, por fim, que sendo mulher você tenha um bom homem,

E que sendo homem, tenha uma boa mulher.

E que se amem hoje, amanhã, depois, no dia seguinte, mais uma vez,

E novamente, de agora até o próximo ano acabar,

E que quando estiverem exaustos e sorridentes,

ainda tenham amor para recomeçar.
E se isso só acontecer, não tenho mais nada para desejar. ”

( Sergio Jockymann – 1978/*** )

Facebooktwittermailby feather

José Gomes Ferreira – “O Sol”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O sol é sempre o mesmo e o céu azul

ora é azul, nitidamente azul,

ora é cinza, negro, quase-verde…

Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.

As árvores dão flores,

folhas, frutos e pássaros

como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.

Não cai neve vermelha, 

não há flores que voem,

a lua não tem olhos

e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima, os homens são os homens.

Soluçam, bebem, riem e digerem

sem imaginação.

E há bairros miseráveis, sempre os mesmos,

discursos de Mussolini,

guerras, orgulhos em transe, automóveis de corrida…

E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano

morrer por um bocadinho,

de vez em quando,

e recomeçar depois,

achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,

morrer em cima de um divã

com a cabeça sobre uma almofada,

confiante e sereno por saber

que tu velavas por mim,
meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,

havias de dizer com o teu sorriso

onde arde um coração em melodia:

“Matou-se esta manhã.

Agora não o vou ressuscitar

por uma bagatela.”

E virias depois, suavemente,

velar por mim, subtil e cuidadosa,

pé ante pé, não fosses acordar

a Morte ainda menina no meu colo…
 

Facebooktwittermailby feather

Vinícius de Moraes – “Operário em construção”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo:
- Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.
E Jesus, respondendo, disse-lhe:
- Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e só a Ele servirás.
Lucas, cap. V, vs. 5-8.

Era ele que erguia casas

Onde antes só havia chão.

Como um pássaro sem asas

Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão.

Mas tudo desconhecia

De sua grande missão:

Não sabia, por exemplo

Que a casa de um homem é um templo

Um templo sem religião

Como tampouco sabia

Que a casa que ele fazia

Sendo a sua liberdade

Era a sua escravidão.
De fato, como podia

Um operário em construção

Compreender por que um tijolo

Valia mais do que um pão?

Tijolos ele empilhava

Com pá, cimento e esquadria

Quanto ao pão, ele o comia…

Mas fosse comer tijolo!

E assim o operário ia

Com suor e com cimento

Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento

Além uma igreja, à frente

Um quartel e uma prisão:

Prisão de que sofreria

Não fosse, eventualmente

Um operário em construção.
Mas ele desconhecia

Esse fato extraordinário:

Que o operário faz a coisa

E a coisa faz o operário.

De forma que, certo dia

À mesa, ao cortar o pão

O operário foi tomado

De uma súbita emoção

Ao constatar assombrado

Que tudo naquela mesa

– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário, 

Um operário em construção. 

Olhou em torno: gamela 

Banco, enxerga, caldeirão 

Vidro, parede, janela 

Casa, cidade, nação! 

Tudo, tudo o que existia 

Era ele quem o fazia 

Ele, um humilde operário

Um operário que sabia 

Exercer a profissão.
Ah, homens de pensamento 

Não sabereis nunca o quanto 

Aquele humilde operário 

Soube naquele momento! 

Naquela casa vazia

Que ele mesmo levantara 

Um mundo novo nascia 

De que sequer suspeitava. 

O operário emocionado 

Olhou sua própria mão 

Sua rude mão de operário

De operário em construção 

E olhando bem para ela 

Teve um segundo a impressão 

De que não havia no mundo 

Coisa que fosse mais bela.
Foi dentro da compreensão

Desse instante solitário

Que, tal sua construção

Cresceu também o operário.

Cresceu em alto e profundo

Em largo e no coração

E como tudo que cresce

Ele não cresceu em vão

Pois além do que sabia

– Exercer a profissão -

O operário adquiriu

Uma nova dimensão:

A dimensão da poesia.
E um fato novo se viu

Que a todos admirava:

O que o operário dizia

Outro operário escutava.
E foi assim que o operário

Do edifício em construção

Que sempre dizia sim

Começou a dizer não.

E aprendeu a notar coisas

A que não dava atenção:
Notou que sua marmita

Era o prato do patrão

Que sua cerveja preta

Era o uísque do patrão

Que seu macacão de zuarte

Era o terno do patrão

Que o casebre onde morava

Era a mansão do patrão

Que seus dois pés andarilhos

Eram as rodas do patrão

Que a dureza do seu dia

Era a noite do patrão

Que sua imensa fadiga

Era amiga do patrão.
E o operário disse:
Não!

E o operário fez-se forte

Na sua resolução.
Como era de se esperar

As bocas da delação

Começaram a dizer coisas

Aos ouvidos do patrão.

Mas o patrão não queria

Nenhuma preocupação

– “Convençam-no” do contrário -

Disse ele sobre o operário

E ao dizer isso sorria.
Dia seguinte, o operário

Ao sair da construção

Viu-se súbito cercado

Dos homens da delação

E sofreu, por destinado

Sua primeira agressão.

Teve seu rosto cuspido

Teve seu braço quebrado

Mas quando foi perguntado

O operário disse:
Não!
Em vão sofrera o operário

Sua primeira agressão

Muitas outras se seguiram

Muitas outras seguirão.

Porém, por imprescindível

Ao edifício em construção

Seu trabalho prosseguia

E todo o seu sofrimento

Misturava-se ao cimento

Da construção que crescia.
Sentindo que a violência

Não dobraria o operário

Um dia tentou o patrão

Dobrá-lo de modo vário.

De sorte que o foi levando

Ao alto da construção

E num momento de tempo

Mostrou-lhe toda a região

E apontando-a ao operário

Fez-lhe esta declaração:

– Dar-te-ei todo esse poder

E a sua satisfação

Porque a mim me foi entregue

E dou-o a quem bem quiser.

Dou-te tempo de lazer

Dou-te tempo de mulher.

Portanto, tudo o que vês

Será teu se me adorares

E, ainda mais, se abandonares

O que te faz dizer não.
Disse, e fitou o operário

Que olhava e que refletia

Mas o que via o operário

O patrão nunca veria.

O operário via as casas

E dentro das estruturas

Via coisas, objetos

Produtos, manufaturas.

Via tudo o que fazia

O lucro do seu patrão

E em cada coisa que via

Misteriosamente havia

A marca de sua mão.

E o operário disse: Não!
– Loucura! – gritou o patrão

Não vês o que te dou eu?

– Mentira! – disse o operário

Não podes dar-me o que é meu.
E um grande silêncio fez-se

Dentro do seu coração

Um silêncio de martírios

Um silêncio de prisão.

Um silêncio povoado

De pedidos de perdão

Um silêncio apavorado

Com o medo em solidão.
Um silêncio de torturas

E gritos de maldição

Um silêncio de fraturas

A se arrastarem no chão.

E o operário ouviu a voz

De todos os seus irmãos

Os seus irmãos que morreram

Por outros que viverão.

Uma esperança sincera

Cresceu no seu coração

E dentro da tarde mansa

Agigantou-se a razão

De um homem pobre e esquecido

Razão porém que fizera

Em operário construído

O operário em construção.

Facebooktwittermailby feather

George Brassens – “O malandro arrependido”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ela tinha uma cintura bem torneada

cadeiras cheias

e caçava os machos nos arredores da Madeleine.

pelo seu jeito de me dizer:
Meu anjo

te apeteço?

eu vi logo que se tratava de uma debutante.


Ela tinha talento, é verdade, eu o confesso.

Ela tinha gênio,

mas sem técnica um dom não é nada.

Certamente não é tão fácil ser puta como ser freira,

pelo menos é o que se reza em latim na Sorbonne.


Sentindo-me cheio de piedade pela donzela

ensinei-lhe os pequenos truques da sua profissão

e ensinei-lhe os meios para fazer logo fortuna

rebolando o lugar onde as costas se assemelham à lua,


Porque na arte de fazer o trottoir, confesso,

o difícil é saber mexer bem a bunda.

Não se mexe a bunda da mesma maneira

para um farmacêutico, um sacristão, um funcionário.


Rapidamente instruída por meus bons ofícios

ela cedeu-me uma parte de seus benefícios.

Ajudavamo-nos mutuamente, como diz o poeta:

ela era o corpo, naturalmente, e eu a cabeça.


Quando a coitada voltava para casa sem nada

dava-lhe umas porradas mais do que com razão.

Será que ela se lembra ainda do bidê com

que lhe rachei o crânio?


Uma noite, por causa de manobras duvidosas

ela caiu vítima de uma doença vergonhosa,

então, amigavelmente, como uma moça honesta

passou-me a metade de seus micróbios.


Depois de dolorosas injeções de antibióticos

desisti da profissão de cornudo sistemático.

Não adiantou que ela chorasse e gritasse feita louca

e, como eu era apenas um canalha, fiz-me honesto.


Privada logo de minha tutela, minha pobre amiga, 

correu a suportar as infâmias do bordel.

Dizem que ela se vendeu até aos tiras!

Que decadência!

Já não existe mais moralidade pública

na nossa França!
(de “Chansons”)

Facebooktwittermailby feather

António Gedeão – “Aos domingos…”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio algremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.”

de, António Gedeão in “Novos Poemas Póstumos”, “Poesia Completa”, pág. 188

Facebooktwittermailby feather

Álvaro de Campos – “Aniversário”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aniversário
Fernando Pessoa/Álvaro de Campos

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.
 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.
 
Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino.
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
 
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
 
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
 
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na louça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado —,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
 
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…
 
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…

Facebooktwittermailby feather

Fernando Pessoa – “É uma brisa leve…”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

É uma brisa leve
Que o ar um momento teve
E que passa sem ter
Quase por tudo ser.

Quem amo não existe.
Vivo indeciso e triste.
Quem quis ser já me esquece
Quem sou não me conheçe.

E em meio disto o aroma
Que a brisa traz me assoma
Um momento à consciência
Como uma confidência.

Facebooktwittermailby feather

Pedro Barroso – “O sexo comanda a vida”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os jogos começam cedo

no descobrir colectivo

no gesto subentendido

no procurar sem saber


Tanta falta, tão escondida

tanta mentira mentida

tanta busca de aprender

e a vontade a mandar,

e os adultos a não querer


e as coisas a acontecer…


Depois, vem o corpo e manda;


vem a sorte e o acaso

mais a vida convivida

que nos ensina sabores

preferências e valores

coisas que vão dar azo

a uma culpa indefinida…


Paixões, ímpetos, calores,

amores breves no recreio

aventuras sem ter freio


– E o sexo comanda a vida


E desculpa-me Gedeão

homem maior, professor,


há momentos em que creio

que mais que o sonho e o valor

mais que o talento ou a dor

mais que a vida acontecida

mais mesmo que o próprio amor

mérito, glória ou louvor.


Tem dias, secretos dias

tem horas, secretas horas

momentos acres, desejos.


Em que nos vem um ardor

uma razão cá de dentro

mais forte que o pensamento


Soprando mais do que o vento

na montanha mais subida.


Nesses momentos sabemos, 

neste modo em que vivemos,


que o sexo comanda a vida…


Não que não sonhe a justiça

sonho perfeito de mim;


Não que não busque valores

exegeses superiores.


Mas olhando à minha volta

o desejo que anda à solta

mais a raiva fratricida

não posso deixar de ver.


Na cupidez, nos negócios

nas promoções,
no valor

que faz subir e descer

esta bolsa do viver.


Nem certeza, nem verdade

nem riqueza garantida


Ai amigos! Ai cidade!


– O sexo comanda a vida.


Essa menina bonita

que rebenta de esplendor,


no rolar lento das ancas

no lamber sábio da boca

vai ter muito mais valor.


Que o valor que nada vale

dessa outra,
assustada, 

sabedora das matérias

competente e aplicada


Mas borbulhenta,
feiosa,

sem graça,
quase fanhosa

vinte valores no trabalho

mas negativa no jeito

sem lábios,

quase sem peito…


– Que lugar vai ter?

Que saída?


– Cientista,
tradutora?


– Excelente investigadora?


Ai, desculpa-me,
Gedeão
que injustiça tão sofrida

não há respeito sequer

é difícil ser mulher!

– Mas o sexo comanda a vida.



Mas cara amiga,

te digo


Se o jovem executivo

que te é apresentado

alto, composto, perfeito

elegante, bem vestido

encadernado a preceito


Apertar a tua mão

de um jeito mais que estudado

e te sorrir num bailado

e te falar no ouvido.


É mais que certo e sabido

perante um cantor de fado

não há norma na medida

nem recato nem respeito

nem olhar bem comportado


– Tu sentes calor no peito!…


– O sexo comanda a vida…


E se pensam que a razão
a
busca da tal subida

é a riqueza,

o dinheiro

ter carros,
poder,
fortuna

e a vida favorecida…


A mim, dá-me a sensação

que o sucesso financeiro

é só uma contribuição.


– Apenas mais um caminho

para servir na corrida

acessória à sedução.


Pois desculpa-me Gedeão

mais que o sonho a que presida,

por desgoverno,
paixão
loucura fútil,
pressão,

por estupidez animal…


Ditadura visual

ou pecado venial

da tal utopia querida

nada sobrou,

nem moral.


– O sexo comanda a vida!

Facebooktwittermailby feather

Carlos Drummond de Andrade – “Os amantes…”

07.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se veem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

Facebooktwittermailby feather

Adília Lopes – “Meteorológica” (para o José Bernardino)

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deus não me deu
um namorado
deu-me
o martírio branco
de não o ter
Vi namorados
possíveis
foram bois
foram porcos
e eu palácios
e pérolas
Não me queres
nunca me quiseste
(porquê, meu Deus?)
A vida
é livro
e o livro
não é livre
Choro
chove
mas isto é
Verlaine
Ou:
um dia
tão bonito
e eu
não fornico

Facebooktwittermailby feather

Adília Lopes – “Memórias das infâncias.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gostávamos muito de doce de framboesa
E deram-nos um prato com mais doce de framboesa
Do que era costume
Mas
A nossa criada a nossa tia-avó no doce de framboesa
Para nosso bem
Porque estávamos doentes
Esconderam colheres do remédio
Que sabia mal
O doce de framboesa não sabia à mesma coisa
E tinha fiapos brancos
Isso aconteceu-nos uma vez e chegou
Nunca mais demos pulos por ir haver
Doce de framboesa à sobremesa
Nunca mais demos pulos nenhuns
não podemos dizer
Como o remédio da nossa infância sabia mal!
Como era doce o doce de framboesa da nossa infância!
Ao descobrir a mistura
Do doce de framboesa com o remédio
ficámos calados
Depois ouvimos falar da entropia
Aprendemos que não se separa de graça
O doce de framboesa do remédio misturados
é assim nos livros
é assim nas infâncias
E os livros são como as infâncias
Que são como as pombinhas da Catrina
Uma é minha
Outra é tua
Outra é de outra pessoa

Facebooktwittermailby feather

Adília Lopes – “Três poemas.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sou
menos
que Einstein
nem que
Claudia Schiffer
não sou
mais
que uma osga
ou que uma barata
não sou mais
inteligente
que um mongolóide
tenho um Q. I.
no limite
superior
da média
todos diferentes
todos iguais
incluo também
os animais
o que nos separa
dos animais
é o pecado original
não é o reconhecimento
no espelho nem o complexo
de Édipo

*

Portugueses:
gente ousada
gente usada
Brandos usos:
abusos grandes
e pequenos

*

Fariseias
Gostam de ser cumprimentadas
nas praças
e de ter o primeiro lugar
à mesa dos banquetes
são calculistas
formigas carreiristas
cheias de sucesso
e tudo usam e tudo gastam
indistintamente
porque são altas as suas entropias
e depois não sabem dar
os bons-dias às mulheres-a-dias

Facebooktwittermailby feather

Adília Lopes – “A sereia das pernas tortas.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era uma vez uma mulher que tão depressa era feia como era bonita.
Quando era bonita, as pessoas diziam-lhe:
— Eu amo-te.
E iam com ela para a cama e para a mesa.
Quando era feia, as mesmas pessoas diziam-lhe:
— Não gosto de ti.
E atiravam-lhe com caroços de azeitona à cabeça.
A mulher pediu a Deus:
— Faz-me bonita ou feia de uma vez por todas e para sempre.
Então Deus fê-la feia.
A mulher chorou muito porque estava sempre a apanhar com caroços de azeitona e a ouvir coisas feias. Só os animais gostavam sempre dela, tanto quando era bonita como quando era feia como agora que era sempre feia. Mas o amor dos animais não lhe chegava. Por isso deitou-se a um poço. No poço, estava um peixe que comeu a mulher de um trago só, sem a mastigar.
Logo a seguir, passou pelo poço o criado do rei, que pescou o peixe.
Na cozinha do palácio, as criadas, a arranjarem o peixe, descobriram a mulher dentro do peixe. Como o peixe comeu a mulher mal a mulher se matou e o criado pescou o peixe mal o peixe comeu a mulher e as criadas abriram o peixe mal o peixe foi pescado pelo criado, a mulher não morreu e o peixe morreu.
As criadas e o rei eram muito bonitos. E a mulher ali era tão feia que não era feia. Por isso, quando as criadas foram chamar o rei e o rei entrou na cozinha e viu a mulher, o rei apaixonou-se pela mulher.
— Será uma sereia? — perguntaram em coro as criadas ao rei.
— Não, não é uma sereia porque tem duas pernas, muito tortas, uma mais curta do que a outra — respondeu o rei às criadas.
E o rei convidou a mulher para jantar.
Ao jantar, o rei e a mulher comeram o peixe. O rei disse à mulher quando as criadas se foram embora:
— Eu amo-te.
Quando o rei disse isto, sorriu à mulher e atirou-lhe com uma azeitona inteira à cabeça. A mulher apanhou a azeitona e comeu-a. Mas, antes de comer a azeitona, a mulher disse ao rei:
— Eu amo-te.
Depois comeu a azeitona. E casaram-se logo a seguir no tapete de Arraiolos da casa de jantar.

Facebooktwittermailby feather

Adélia Prado – “Casamento”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinhos na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.

Facebooktwittermailby feather

Adélia Prado – “Um corpo quer outro corpo.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um corpo quer outro corpo.
Uma alma quer outra alma e seu corpo.
Este excesso de realidade me confunde.
Jonathan falando:
parece que estou num filme.
Se eu lhe dissesse você é estúpido
ele diria sou mesmo.
Se ele dissesse vamos comigo ao inferno passear
eu iria.
As casas baixas, as pessoas pobres,
e o sol da tarde,
imaginai o que era o sol da tarde
sobre a nossa fragilidade.
Vinha com Jonathan
pela rua mais torta da cidade.
O Caminho do Céu.

Facebooktwittermailby feather

Adélia Prado – “No meio da noite.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordei meu bem pra lhe contar meu sonho:
sem apoio de mesa ou jarro eram
as buganvílias brancas destacadas de um escuro.
Não fosforesciam, nem cheiravam, nem eram alvas.
Eram brancas no ramo, brancas de leite grosso.
No quarto escuro, a única visível coisa, o próprio ato de ver.
Como se sente o gosto da comida eu senti o que falavam:
“A ressurreição já está sendo urdida, os tubérculos
da alegria estão inchando úmidos, vão brotar sinos.
” Doía como um prazer.
Vendo que eu não mentia ele falou:
as mulheres são complicadas. Homem é tão singelo.
Eu sou singelo. Fica singela também.
Respondi que queria ser singela e na mesma hora,
singela, singela, comecei a repetir singela.
A palavra destacou-se novíssima
como as buganvílias do sonho. Me atropelou.
O que foi? – ele disse.
– As buganvílias…
Como nenhum de nós podia ir mais além,
solucei alto e fui chorando, chorando,
até ficar singela e dormir de novo.

Facebooktwittermailby feather

Adélia Prado – Moça na sua Cama

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Papai tosse, dando aviso de si,
vem examinar as tramelas, uma a uma.
A cumeeira da casa é de peroba do campo,
posso dormir sossegada. Mamãe vem me cobrir,
omo a bênção e fujo atrás dos homens,
me contendo por usura, fazendo render o bom.
Se me tocar, desencadeio as chusmas,
os peixinhos cardumes.
Os topázios me ardem onde mamãe sabe,
por isso ela me diz com ciúmes:
dorme logo, que é tarde.
Sim, mamãe, já vou:
passear na praça em ninguém me ralhar.
Adeus, que me cuido, vou campear nos becos,
moa de moços no bar, violão e olhos
difíceis de sair de mim.
Quando esta nossa cidade ressonar em neblina,
os moços marianos vão me esperar na matriz.
O céu é aqui, mamãe.
Que bom não ser livro inspirado
o catecismo da doutrina cristã,
posso adiar meus escrúpulos
e cavalgar no torpor
dos monsenhores podados.
Posso sofrer amanhã
a linda nódoa de vinho
das flores murchas no chão.
As fábricas têm os seus pátios,
os muros tem seu atrás.
No quartel são gentis comigo.
Não quero chá, minha mãe,quero a mão do frei Crisóstomo
me ungindo com óleo santo.
Da vida quero a paixão.
E quero escravos, sou lassa
Com amor de zanga e momo
quero minha cama de catre,
o santo anjo do Senhor,
meu zeloso guardador.
Mas descansa, que ele é eunuco, mamãe.

Facebooktwittermailby feather

Affonso Romano – “É tão natural.”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

É tão natural
que eu te possua
é tão natural que tu me tenhas,
que eu não me compreendo
um tempo houvesse
em que eu não te possuísse
ou possa haver um outro
em que eu não te tomaria.
Venhas como venhas,
é tão natural que a vida
em nossos corpos se conflua,
que eu já não me consinto
que de mim tu te abstenhas
ou que meu corpo te recuse
venhas quando venhas.
E de ser tão natural
que eu me extasie
ao contemplar-te,
e de ser tão natural
que eu te possua,
em mim já não há como extasiar-me
tanto a minha forma
se integrou na forma tua.

Facebooktwittermailby feather

Adolfo Casais-Monteiro – “Vem, vento, varre” (A José Rodrigues Miguéis)

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vem, vento, varre
sonhos e mortos.
Vem, vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
nocturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só cobardia.

Que fique apenas
erecto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.

Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.

Vem, vento, varre!

Facebooktwittermailby feather

Adília Lopes – “Masturbação”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

secrisina13

Só depois de ler
Barthes
é que Camila
Ficou a saber
Que o dedo da masturbação
é o médio
até aí tinha usado
Sempre
O indicador
Experimentou também
O polegar
E viu que todos serviam
Meu menino
Seu vizinho
Pai de todos
Fura bolos
Mata piolhos
Depois de perder a virgindade
Experimentou
Com um tubo de Cecrisina
Metido num Durex Gossamer
também servia
Mas isto nada
Tem a ver com o amor
Tem a ver com o escrever
E com o pintar
E dá menos satisfação
A menos que Camila
Se lembre de Jénia
E da penetração
então usa
só os dedos
E serve
Para adormecer

Facebooktwittermailby feather

Adélia Prado – “Para o Zé”

06.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu te amo, homem, hoje como
Toda a vida quis e não sabia,
Eu que já amava de extremoso amor
O peixe, a mala velha, o papel de seda e os riscos
De bordado, onde tem
O desenho cómico de um peixe – os
Lábios carnudos como os de uma negra.
Divago quando o que quero é só dizer
Te amo. Teço as curvas, as mistas
E as quebradas, industriosa como uma abelha,Alegrinha como florinha amarela, desejando
As finuras, violoncelo, violino, menestrel
E fazendo o que sei, o ouvido no teu peito
Para escutar o que bate. Eu te amo, homem, amo
O teu coração, o que é, a carne de que é feito,
Amo sua matéria, fauna e flora,
Seu poder de perecer, as aparas de tuas unhas
Perdidas nas casas que habitamos, os fios
De tua barba. Esmero. Pego tua mão, me afasto, viajo
Pra ter saudade, me calo, falo em latim pra requintar meu gosto:
“Dize-me, ó amado da minha alma, onde apascentas
o teu gado, onde repousas ao meio-dia, para que eu não
ande vagueando atrás dos rebanhos de teus companheiros”.
Aprendo. Te aprendo, homem. O que a memória ama
Fica eterno. Te amo com a memória, imperecível.
Te alinho junto das coisas que falam
Uma coisa só: Deus é amor. Você me espicaça como
O desenho do peixe da guarnição de cozinha, você meguarnece,
Tira de mim o ar desnudo, me faz bonita
De olhar-me, me dá uma tarefa, me emprega,
Me dá um filho, comida, enche minhas mãos.
Eu te amo, homem, exatamente como amo o que
Acontece quando escuto oboé. Meu coração vai desdobrando
Os panos, se alargando aquecido, dando
A volta do mundo, estalando os dedos pra pessoa e bicho.
Amo até a barata, quando descubro que assim te amo,
O que não queria dizer amo também, o piolho. Assim,
Te amo do modo mais natural, vero-romântico,
Homem meu, particular homem universal.
Tudo o que não é mulher está em ti, maravilha.
Como grande senhora vou te amar, os alvos linhos,
A luz na cabeceira, o abajur de prata;
Como criada ama, vou te amar, o delicioso amor:
Com água tépida, toalha seca e sabonete cheiroso,
Me abaixo e lavo teus pés, o dorso e a planta deles
Eu beijo.

(Poema “Para o Zé” in Poesia Reunida, São Paulo: Siciliano, 1991)

Facebooktwittermailby feather