Nota biográfica

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Alexandre O’Neill – “Um Adeus Português” (sem música)

24.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora agora o mais rigoroso amor

a luz dos ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

E avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia a dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

à estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilado

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

em a moeda falsa do bem e do mal.

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.

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Fernando Assis Pacheco – “A Bela do Bairro”

23.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ela era muito bonita e benza-a Deus
muito puta que era sempre à espera
dos pagantes à janela do rés-do-chão
mas eu teso e pior que isso néscio desses amores
tenho o quê? quinze anos
tenho o quê uns olhos com que a vejo
que se debruçava mostrando os peitos
que a amei como se ama unicamente
uma vez um colo branco e até as jóias
que ela punha eram luzentes semelhando estrelas
eu bato o passeio à hora certa e amo-a
de cabelo solto e tudo não parece
senão o céu afinal um pechisbeque
ainda agora as minhas narinas fremem
turva-se o coração desmantelado
amando-a amei-a tanto e sem vergonha
oh pecar assim de jaquetão sport e um cigarro
nos queixos a admiração que eu fazia
entre a malta não é para esquecer nem lá ao fundo
como então puxo as abas da farpela
lentamente caminho para ela
a chuva cai miúda
e benza-a Deus que bonita e que puta
e que desvelos a gente
gastava em frente do amor

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Fernando Assis Pacheco – “Um Campo Batido pela Brisa”

22.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A tua nudez inquieta-me.

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

Fernando Assis Pacheco, in “A Musa Irregular”

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Eugénio de Carvalho Júnior – “Obesidade”

19.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dieta — só feita em versos,

Uma cliente exigiu, 

Pois, em prosa, já fêz muitas 

E ainda não conseguiu

Emagrecer um só quilo,

Dos muitos que acumulou,

Que já são mais de setenta 

E o seu corpo deformou.

Quer voltar à forma antiga, 

Em que seu corpo podia 

Servir de cartão postal 

De porta de livraria.

Eu não podia deixar 

De atender à imposição 

E aqui vai este regime

Mas com uma condição:

Que ela o siga bem à risca,

Embora seja cruel,

Pois a dieta não atua 

Quando fica no papel.

Se deseja, como diz, 

Ficar um pouco mais fina,

Pode comer, à vontade, 

Toda e qualquer proteína,

Pois elas, por sua ação 

Que é dinâmico-específica, 

Aumentam as combustões — 

Isto é cousa bem pacífica.

Pode abusar das verduras, 

Alimentos ideais, 

Tão ricos em celulose, 

Vitaminas, minerais,

Que vão encher seu estômago, 

Trazer-lhe saciedade, 

Sem aportar calorias

Que levam à obesidade.

Os muito ricos em glicídios:

O arroz, o pão, o macarrão,

A macaxeira, a farinha,

Coma com moderação.

Dois copos de leite puro

Você deverá tomar,

Para fornecer o cálcio

Que você vai precisar.

Mas se você, por acaso,

Do leite, assim, não gostar,

Uma fatia de queijo

Coma sempre em seu lugar.

Olhe, sempre, com desprezo,

Como se inimigo fosse,

O sorvete — que é seu fraco,

Ou qualquer tipo de doce.

Prefira, na sobremesa,

Uma fruta pequenina:

Uma banana ou laranja

Tão ricas em vitamina.

Obesidade é doença

Que deve ser combatida. 

Não somente nos enfeia. 

Como encurta nossa vida.

Diabetes, reumatismo, 

Às vezes, hipertensão, 

São doenças que começam 

À mesa da refeição.

Seguindo estes meus conselhos,

Eu posso lhe assegurar:

Você volta a ser um tipo

Que quem passa — tem que olhar!

(in “Medicina e Poesia” Edições ITAU – Imprensa Universitária – João Pessoa 1971)

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Machado de Assis – “A Carolina”

18.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Querida, ao pé do leito derradeiro
Em que descansas dessa longa vida,
Aqui venho e virei, pobre querida,
Trazer-te o coração do companheiro.

Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
Que, a despeito de toda a humana lida,
Fez a nossa existência apetecida
E num recanto pôs um mundo inteiro.

Trago-te flores, — restos arrancados
Da terra que nos viu passar unidos
E ora mortos nos deixa e separados.

Que eu, se tenho nos olhos malferidos
Pensamentos de vida formulados,
São pensamentos idos e vividos.

(Último poema de Machado Assis, dedicado a sua esposa após a sua morte.)

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Pablo Neruda – “Corpo de Mulher” (Sem música)

15.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Corpo de mulher, brancas colinas, coxas brancas,

assemelhas-te ao mundo no teu jeito de entrega.

O meu corpo de lavrador selvagem escava em ti

e faz saltar o filho do mais fundo da terra.
Fui só como um túnel. De mim fugiam os pássaros,

e em mim a noite forçava a sua invasão poderosa.

Para sobreviver forjei-te como uma arma,

como uma flecha no meu arco, como uma pedra na minha funda.

Mas desce a hora da vingança, e eu amo-te.

Corpo de pele, de musgo, de leite ávido e firme.

Ah os copos do peito! Ah os olhos de ausência!

Ah as rosas do púbis! Ah a tua voz lenta e triste!
Corpo de mulher minha, persistirei na tua graça.

Minha sede, minha ânsia sem limite, meu caminho indeciso!

Escuros regos onde a sede eterna continua,

e a fadiga continua, e a dor infinita.

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Mário Dionísio – “Um dia…”

15.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

menina

Um dia

quando já não vieres dizer-me  Vem

jantar
 


quando já não tiveres dificuldade

em chegar ao puxador

da porta  quando
 


já não vieres dizer-me  Pai

vem ver os meus deveres
 


quando esta luz que trazes nos cabelos

já não escorrer nos papéis em que trabalho
 


para ti será o começo de tudo
 


Um outro dia haverá talvez para os teus sonhos

um outro mundo acolherá talvez enfim a tua oferenda
 


Hás-de ter alguma impaciência enquanto falo

Ouvirás com encanto alguém que não conheço

nem talvez ainda exista neste instante
 


Mas para mim será já tão frio e já tão tarde
 


E nem mesmo uma lembrança amarga

ou doce ficará

desta hora redonda

em que ninguém repara

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Eugénio de Andrade – “Adeus” (Sem música)

12.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquinas

em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhos

eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas
.
Adeus.

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Cristovam Pavia – “Na noite da minha morte…”

11.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na noite da minha morte
Tudo voltará silenciosamente ao encanto antigo…
E os campos libertos enfim da sua mágoa
Serão tão surdos como o menino acabado de esquecer.

Na noite da minha morte
Ninguém sentirá o encanto antigo
Que voltou e anda no ar como um perfume…
Há-de haver velas pela casa
E chalés negros e um silêncio que eu
Poderia entender.

Mãe: talvez os teus olhos cansados de chorar
Vejam subitamente…
Talvez os teus ouvidos, só eles ouçam, no silêncio da casa velando,
Uma voz serena de infância, tão clara e tão longínqua…
E mesmo que não saibas de onde vem nem porque vem
Talvez só tu a não esqueças.

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Herberto Hélder – “Amor em visita” (versão sem música)

10.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas,
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele – imagem inacessível e casta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.

Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.
Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
– Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
A tona da sua face se moverão as águas.
Dentro da sua face estará a pedra da noite.
– Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeia o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
Imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
– Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra
e tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra – invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da rua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza partida,
os ombros violados,
o sangue penetrado de paredes nuas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar.
Teus olhos se transfiguram, tuas mãos descobrem
o sumo da minha face. Agarro ‘tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo-
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.
Então me sento à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua sombra e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ‘ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas crescerem como religião
sobre a vida – e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém,
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal. E tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira – para que tudo cante
por teu poder angélico e fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma Imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao
teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.
Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
– Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes!

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
– Começa o tempo onde se une a vida
à nossa gratidão.

Felizmente estás na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada ,em sua pungência e castidade!
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite,
– o que se perde de ti minha voz o renova
num estilo de angústia e prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra. E tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
– E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim, como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
– No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca. E serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no arco de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-1he para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
– Eu devo rasgar minha face, para que a tua
se encha de um minuto sobrenatural.
Devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo,
– aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso deserto, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto,
– no amor mais impossível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Corre em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde estará o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.

Em cada espasmo eu morrerei contigo.
E eu peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Ó amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, inponderável-
em cada espasmo eu morrerei comigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
horto e a água – e eu caminho pelas ruas frias com
lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.

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Camilo Pessanha – “Quem poluiu”

09.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, — meus tão castos lençóis? Do
meu jardim exíguo os altos girassóis Quem foi que os
arrancou e lançou no caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!) A
mesa de eu cear, — tábua tosca de pinho? E me
espalhou a lenha? E me entornou o vinho? — Da
minha vinha o vinho acidulado e fresco…

O minha pobre mãe!… Não te ergas mais da cova,
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova…
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais.
Alma da minha mãe… Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

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Álvaro de Campos – “Soneto já antigo”

08.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olha, Daisy: quando eu morrer tu hás-de
Dizer aos meus amigos aí de Londres,
Embora não o sintas, que tu escondes
A grande dor da minha morte. Irás de

Londres p’ra York, onde nasceste (dizes…
Que eu nada que tu digas acredito),
Contar àquele pobre rapazito
Que me deu tantas horas tão felizes,

Embora não o saibas, que morri…
Mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar,
Nada se importará… Depois vai dar

A notícia a essa estranha Cecily
Que acreditava que eu seria grande…
Raios partam a vida e quem lá ande!

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Camilo Pessanha – “Rosas brancas”

08.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Floriram por engano as rosas bravas No inverno:
veio o vento desfolhá-las… Em que cismas, meu
bem? Porque me calas As vozes com que há
pouco me enganavas?

Castelos doidos! Tão cedo caístes!…
Onde vamos, alheio o pensamento,
De mãos dadas? Teus olhos, que um momento
Perscrutaram nos meus, como vão tristes!

E sobre nós cai nupcial a neve, Surda, em
triunfo, pétalas, de leve Juncando o chão, na
acrópole de gelos…

Em redor do teu vulto é como um véu! Quem
as esparze — quanta flor! —, do céu, Sobre nós
dois, sobre os nossos cabelos?

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Fernando Pessoa – “A morte é a curva…”

08.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A morte é a curva da estrada,
Morrer é só não ser visto.
Se escuto, eu te oiço a passada
Existir como eu existo.

A terra é feita de céu.
A mentira não tem ninho.
Nunca ninguém se perdeu.
Tudo é verdade e caminho.

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Carlos de Oliveira – “Insónia”

07.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Penso que sonho. Se é dia, a luz não chega para alumiar o caminho pedregoso; se é noite, as estrelas derramam uma claridade desabituai.
Caminhamos e parece tudo morto: o tempo, ou se cansou já desta longa caminhada e adormeceu, ou morreu também. Esqueci a fisionomia familiar da paisagem e apenas vejo um trémulo ondular de deserto, a silhueta carnuda e torcida dos cactos, as pedras ásperas da estrada.
Chove? Qualquer coisa como isso. E caminhando sempre, há em redor de nós a terra cheia de silêncio.
Será da própria condição das coisas serem silenciosas agora?

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Jorge de Sena – “Uma pequenina luz”

06.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Uma pequenina luz bruxuleante
não na distância brilhando no extremo da estrada
aqui no meio de nós e a multidão em volta
une toute petite lumière
just a little light
una piccola… em todas as línguas do mundo
uma pequena luz bruxuleante
brilhando incerta mas brilhando
aqui no meio de nós
entre o bafo quente da multidão
a ventania dos cerros e a brisa dos mares
e o sopro azedo dos que a não vêem
só a adivinham e raivosamente assopram.
Uma pequena luz
que vacila exacta
que bruxuleia firme
que não ilumina apenas brilha.
Chamaram-lhe voz ouviram-na e é muda.
Muda como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Brilhando indefectível.
Silenciosa não crepita
não consome não custa dinheiro.
Não é ela que custa dinheiro.
Não aquece também os que de frio se juntam.
Não ilumina também os rostos que se curvam.
Apenas brilha bruxuleia ondeia
indefectível próxima dourada.
Tudo é incerto ou falso ou violento: brilha.
Tudo é terror vaidade orgulho teimosia: brilha.
Tudo é pensamento realidade sensação saber: brilha.
Tudo é treva ou claridade contra a mesma treva: brilha.
Desde sempre ou desde nunca para sempre ou não:
brilha.
Uma pequenina luz bruxuleante e muda
como a exactidão como a firmeza
como a justiça.
Apenas como elas.
Mas brilha.
Não na distância. Aqui
no meio de nós.
Brilha.

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Eugénio de Andrade – “Um rio te espera”

05.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estás só, e é de noite,
na cidade aberta ao vento leste.
Há muita coisa que não sabes
e é já tarde para perguntares.
Mas tu já tens palavras que te bastem,
as últimas,
pálidas, pesadas, ó abandonado.

Estás só
e ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
Olhas a água onde passaram barcos,
escura, densa, rumorosa
de lírios ou pássaros nocturnos.

Por um momento esqueces
a cidade e o seu comércio de fantasmas,
a multidão atarefada em construir
pequenos ataúdes para o desejo,
a cidade onde cães devoram,
com extrema piedade,
crianças cintilantes
e despidas.

Olhas o rio
como se fora o leito
da tua infância:
lembras-te da madressilva
no muro do quintal,
dos medronhos que colhias
e deitavas fora,
dos amigos a quem mandavas
palavras inocentes
que regressavam a sangrar,
lembras-te de tua mãe
que te esperava
com os olhos molhados de alegria.

Olhas a água, a ponte,
os candeeiros,
e outra vez a água;
a água;
água ou bosque,
sombra pura
nos grandes dias de verão.

Estás só.
Desolado e só.
E é de noite.

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Regina Gouveia – “Limites”

01.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ronrona o meu gato estirado no tapete.
Ao ritmo da respiração o dorso afunda-se e alteia.
O coração bate apressado,
duas vezes por segundo,
por isso a sua vida é breve.
Ronrona o meu gato estirado no tapete
indiferente a tudo o que o rodeia.
Ignora raios cósmicos, neutrinos, mesões e leptões,
que atravessam o seu corpo
em constante correria, noite e dia, noite e dia.
Não quer saber se o cosmos tem princípio ou fim
tão pouco o preocupam os seus mistérios
que o homem incessantemente tenta desvendar,
fazendo os limites do universo recuar.
O meu gato, tranquilamente a ronronar,
agita a cauda docemente.
Talvez sonhe com um pássaro a voar
batendo as asas ao de leve
ou talvez sonhe ultrapassar os muros do jardim,
fazendo recuar, assim, os limites do seu mundo.

(in “Entre Margens”- Edição Lua de Marfim)

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Vicente de Carvalho – “O dia seguinte do amor”

24.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aves fugidias que passais em bando

Pelo azul da tarde sobre o azul do mar,

Aves fugidias que passais cantando,

        que fazeis? Passar.

       

De repente surgis. No vasto céu

Um turbilhão de alvura de repente cresce;

Passa, afasta-se, e ao longe, e como apareceu

        Desaparece.



Brancura macia de plumas, rumor leve

        De asas que ruflam devagar,

        Passais como flocos de neve

Que sussurram no vento e se desfazem no ar.



De tudo isso que resta? Um quase nada: apenas

        Em meu olhar distraído

A vaga impressão de uma alvura de penas,

E o eco de um rumor cantando em meu ouvido.

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Sebastião da Gama – “Madrigal”

18.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:

“Era uma vez uma flor.
Nasceu à beira de um Poeta…”

Vês como é simples e linda?

(O resto conto depois;
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois).

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Sebastião da Gama – “Pelo sonho é que vamos”

18.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pelo sonho é que vamos,

Comovidos e mudos. 

Chegamos? Não chegamos? 

Haja ou não frutos,

Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo 

Que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

Com a mesma alegria,
ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

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António Ramos Rosa – “Creio nas palavras”

15.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

creio13

Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura

Aqui
no meu reduto
entre ramos de ar
entre a cintilante indolência da água
creio no que nos une
em ondas vagas
apaixonadamente lentas

Aqui
eu pertenço
ao centro da nudez
como uma gota de água
ao rés do solo
na sua imediata e nua felicidade

(in “Numa folha leve e livre” Ed. Lua de Marfim)

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Olívia Santos – “Aniversário de ausência”

13.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sei que voltas, porque voltas sempre.
Paredes meias com a noite e o sonho
repetem-se os teus passos lentos
anula-se a distância, a linha etérea
que separa a minha loucura
da minha lucidez.
Mas hoje, especialmente hoje,
não te esqueças, de voltar…
Acenderei as velas, como dantes,
vai soltar-se o fumo e através dele
inventaremos personagens e mistérios.
Como dantes, como sempre.
Depois irás… como agora, neste sempre.
Cai uma chuva miudinha dos meus olhos
o relógio enleia-se no tempo,
partem-se os copos de cristal vazios
revolta-se a alma,
em estilhaços de dor e de saudade.

(Poema em “Nos teus olhos a janela do tempo”, edição Lua de Marfim)

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Cardoso Pires – “De Profundis, Valsa Lenta” (excerto)

06.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Excerto do último livro de José Cardoso Pires, “ De Profundis, Valsa Lenta” onde escreve sobre o AVC que sofreu em 1996. Esta obra tem um prefácio do médico que o tratou, João Lobo Antunes, que dá a esta livro um significado invulgar.

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Alberto Caeiro – “Da mais alta janela…”

05.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Da mais alta janela da minha casa
Com um lenço branco digo adeus 

Aos meus versos que partem para a humanidade.

E não estou alegre nem triste. 

Esse é o destino dos versos. 

Escrevi-os e devo mostrá-los a todos 

Porque não posso fazer o contrário 

Como a flor não pode esconder a cor, 

Nem o rio esconder que corre,

Nem a árvore esconder que dá fruto.

Ei-los que vão já longe como que na diligência 

E eu sem querer sinto pena

Como uma dor no corpo.

Quem sabe quem os lerá?

Quem sabe a que mãos irão?

Flor, colheu-me o meu destino para os olhos.

Arvore, arrancaram-me os frutos para as bocas.

Rio, o destino da minha água era não ficar em mim.

Submeto-me e sinto-me quase alegre,

Quase alegre como quem se cansa de estar triste.

Ide, ide de mim!

Passa a árvore e fica dispersa pela Natureza.

Murcha a flor e o seu pó dura sempre.

Corre o rio e entra no mar e a sua água é sempre a que foi sua.

Passo e fico, como o Universo.

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Carlos de Oliveira – “Acusam-me…”

03.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

(in ‘Mãe Pobre’)

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António Gedeão – “Dez reis de esperança”

03.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos á boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

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Eugénio de Andrade – “Palavras interditas”

03.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os navios existem, e existe o teu rosto
encostado ao rosto dos navios.
Sem nenhum destino flutuam nas cidades,
partem no vento, regressam nos rios.

Na areia branca, onde o tempo começa,
uma criança passa de costas para o mar.
Anoitece. Não há dúvida, anoitece.
É preciso partir, é preciso ficar.

Os hospitais cobrem-se de cinza.
Ondas de sombra quebram nas esquinas.
Amo-te… E entram pela janela
as primeiras luzes das colinas.

As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

(in “Poesia e Prosa”)

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Ary dos Santos – “Kyrie”

02.06.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em nome dos que choram,
Dos que sofrem,
Dos que acendem na noite o facho da revolta
E que de noite morrem,
Com a esperança nos olhos e arames em volta.
Em nome dos que sonham com palavras
De amor e paz que nunca foram ditas,
Em nome dos que rezam em silêncio
E falam em silêncio
E estendem em silêncio as duas mãos aflitas.
Em nome dos que pedem em segredo
A esmola que os humilha e os destrói
E devoram as lágrimas e o medo
Quando a fome lhes dói.
Em nome dos que dormem ao relento
Numa cama de chuva com lençóis de vento
O sono da miséria, terrível e profundo.
Em nome dos teus filhos que esqueceste,
Filho de Deus que nunca mais nasceste,
Volta outra vez ao mundo!

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Fernando Pessoa – “Mar Português”

31.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!


Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma nao é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

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