Palavras 163 – “Sétimo aniversário”

16.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nem sempre os aniversários do Estúdio Raposa foram comemorados, vá lá saber-se porquê. Alguns foram esquecidos, outros, quase que famosos, especialmente aquele em que se ouviu uma entrevista com o Pai Natal. Ou teria sido no Natal…bem, já não sei.
Pois, no dia 17 de Julho de 2005, três meses depois de aparecerem nos EUA, tinha de ser nos EUA, os áudio blogues, podcast ou podcasting, como quiserem, o Estúdio Raposa nasceu e estou em crer que foi o segundo em língua portuguesa. Falhou o primeiro lugar por dias.
Dezassete de Julho de 2005, 17 de Julho de 2012, sete anos, o que, em termos de Internet, já se pode considerar uma bela idade, durante os quais foi lida ou declamada uma quantidade de páginas de literatura e poesia, impossível de calcular.

Vou comemorar este 7º aniversário – atenção à simbologia do sete – em duas vertentes: confissões e gostos. Eu explico. Por confissões entendo meia dúzia de palavras que não têm sido ditas até agora. Como sabem, chegados a certa idade não se tem tanta necessidade de representar no palco da vida. Daí que, nesta idade, algumas das nossas facetas possam ser exibidas sem constrangimentos. Não, não vou chamar o padre. Vou, apenas responder a duas ou três questões importantes que me foram postas ao longo dos sete anos e às quais não respondi de peito aberto.
A outra vertente, a dos gostos, vai incluir a leitura de quatro textos, três poemas e um de prosa, que com a dificuldade que não podem imaginar, escolhi para reler, neste programa. Todos eles já estão disponíveis no Estúdio Raposa, mas vou lê-los de novo em homenagem aos autores.
Sairá melhor? Pior? Não sei. Será certamente, uma leitura diferente. Ouviremos dois poemas e um texto em prosa de Eugénio de Andrade e um poema de Fernando Pessoa.

Uma das questões que me foram colocadas e às quais não respondi, digamos, abertamente, foi de que forma escolho os textos que leio.
Então aqui vai:
Não tenho um critério para a escolha da poesia que leio e divulgo no Estúdio Raposa. Se há estratégia ela resume-se à estratégia do acaso.
Às vezes respondo a pedidos dos autores, outras às sugestões de amigos cujo bom gosto e competência reconheço, mas na maior parte das vezes, a escolha deve-se ao acaso, a um encontro não previsto com um livro, um jornal, um blogue, no Facebook…
Há poesia que não entendo. Tal como alguma pintura e música, entre outras artes. Às vezes, o não entender certa poesia, não é motivo para a não ler, mas prefiro perceber o que estou a dizer. Outras vezes percebo bem de mais e não gosto. Palavras como “peles que se tocam”, “suores partilhados”, “ávidas bocas”, “desejos insaciáveis”, “rios que correm para a foz”, “vento que sopra”, “bocas sorrindo”, “calor de verão”, “coração ardente”, “amo-te muito”, “só a ti enchergo”, “mãos que acariciam”, “sonos perdidos”, “auroras de luz”, “dedos atrevidos”, “suspiros profundos”, “seios altaneiros”, “afinal foi um sonho”, uff, chega – não me seduzem.
Alguns amigos, entendidos em poesia, acusam-me de dois pecados: leio, vezes de mais, poesia de baixa qualidade ou uso música de fundo que na opinião deles, “desvia” a atenção da palavra do poeta.
Quando leio poesia de autores já desaparecidos, não espero opiniões ou agradecimentos. Consta que, à nuvem onde residem, não chega a rede a que damos o nome de Internet. 
Quando leio poesia de autores vivos, alguns contactam-me com a tradicional “não tenho palavras…”, outros encontram algumas para manifestarem a sua satisfação e há os que “nem água vai”. Um obrigado não ficava mal.
Resumindo: na escolha dos textos que leio, não há critérios, há acasos.

E então, não tem colaboradores? – perguntam várias vezes.
Claro que tenho colaboradores. E os primeiros são aqueles que me escrevem a oferecer palavras de apreço pelo meu trabalho.
Não destaco entre estes, ninguém em particular porque vão do cidadão chinês que gostou de me ouvir apesar de, no início, não perceber que língua era aquela, só porque gostou da sua musicalidade, até ao desconhecido que diz apenas: obrigado pelo seu trabalho. Ainda uma referência a muitos outros colaboradores que usam o Estúdio Raposa para ensinarem os seus alunos a gostarem da sua língua.

Outra coisa são as três pessoa que tiveram grande importância no nascimento e desenvolvimento do Estúdio Raposa e que, talvez, eu nunca tenha destacado com o ênfase merecido.
Por ordem, no tempo, em primeiro lugar o João Rola, técnico de som, atualmente no estúdio Dizplay, que de há muito me vem construindo a estrutura técnica de que hoje disponho, conjunto de equipamentos que não receia meças com os estúdios profissionais. Já a utilização que faço das ferramentas de que disponho, é outra história. Pobre sonorizador e …pronto!
André Toscano o guru de informática que colocou on line a primeira edição do Estúdio Raposa e me apoiou nas seguintes, num tempo em que o podcasting estava a dar os primeiros passos.
Finalmente, Otília Martel, na altura conhecida como Menina Marota no apoio literário e procura dos novos valores surgidos na blogosfera. A sua ajuda só se reduziu quando o Estúdio Raposa deixou de divulgar os poetas que “ainda não tinham chegado às estrelas”, programa denominado “Lugar aos Outros” e que está suspenso há cerca de dois anos.
Muitos outros amigos me têm prestado uma ajuda preciosa e quase sempre sem cobrarem um tostão o que é de assinalar nos tempos que correm. Não os menciono porque são muitos e porque corria o risco de me esquecer de alguns. Talvez um dia, noutras circunstâncias venha a referi-los.

Mas, vamos à poesia.
Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa. O primeiro porque é o poeta cuja escrita melhor se adapta á minha voz e também, porque foi um dos grandes poetas que tiveram a amabilidade de me ouvir e de apoiarem na declamação das suas palavras.
Começo com Fernando Pessoa porque o poema que vou ler, “O Menino de sua Mãe”, foi um dos primeiros que gravei e em condições técnicas muito diferentes das de agora. Vale por ser Fernando Pessoa e pela comparação técnica.
Depois, de Eugénio de Andrade, “Adeus”, divulgado em inúmeros vídeos, “Mãe”, um dos seus poemas mais conhecidos e “As mães”, um dos mais belos textos em língua portuguesa, na opinião de quem sabe, no caso Manuel Hermínio Monteiro.
Ouviremos estes quatro fascinantes e faiscantes diamantes da língua portuguesa, sem interrupção.

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

Duas de lado a lado

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

e cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

“o menino da sua mãe”

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe.

Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embaínhada

De um lenço…

Dera-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há prece:
“Que volte cedo e bem!”

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquina
s
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos seio peixes verdes!

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

No mais fundo de ti.

eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos…

Mas tu esqueceste muita coisa!

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos…

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura..

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes! – a noite é enorme

e todo o meu corpo cresceu…

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas…

Boa noite. Eu vou com as aves!

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em roda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.
Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na rua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz.

Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo?
Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar.* E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte, mas certas da sua ressurreição.

Terminou o programa comemorativo do 7º aniversário do Estúdio Raposa. Nele ouvimos algumas palavras necessárias e poemas de Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa pelos motivos já referidos. As minhas desculpas pelo tamanho do programa. Mandam as regras que deveria ser mais curto.
Mas, antes de terminar, uma palavra para o facto do Estúdio Raposa de há uns tempos a esta parte, ter passado a exibir um botão com o nome “Donativo”. Causou alguma estranheza, mas está lá não tanto à espera de contribuições financeiras, mas para lembrar que a ideia de que tudo o que está disponível na Internet deve ser de graça, é uma ideia, no mínimo…injusta e perigosa.
Obrigado por me ouvirem.

Palavras 162 – Daniel de Sá

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Daniel de Sá, de nome completo, Daniel Augusto Raposo de Sá nasceu na Maia, S. Miguel, Açores, em Março de 1944. Autor com vasta obra, constituída por romances, crónicas, novelas, ensaios e contos.

Daniel de Sá foi professor do ensino primário. Estudou Filosofia e Teologia em Valência e Granada, exerceu vários cargos públicos, escreve em vários jornais e já publicou mais de uma dezena de livros.
Foi agraciado pelo Presidente da República num 10 de junho, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades, com o Grau de Oficial da Ordem Infante D. Henrique pela relevância de sua obra e por sua contribuição na expansão da cultura portuguesa.

Como acontece muitas vezes li, por acaso, um poema de Daniel de Sá. Ouviu-o, também certamente por acaso e teve a amabilidade de me enviar uma mensagem agradecendo a minha leitura e onde se pode ler: 
“Não me considero poeta, mas faço, às vezes, umas coisas por graça. Ofereci há meses a minha mulher um livrinho não comerciável. Mas penso publicá-lo em breve em edição bilingue, Português/Castelhano. Se ler alguma coisa do anexo, perceberá porquê. E, se algum dos poemas lhe interessar, terei muito gosto se o usar no Raposa.”

Pois, interessou sim, senhor e vamos ter neste “Palavras de Ouro” a poesia de Daniel de Sá. Começamos por ouvir as palavras que o poeta dedicou a Maria Alice, sua mulher, na introdução do tal “livrinho não comerciável” intitulado “As rosas de Granada” e onde ficamos a sentir e perceber a atmosfera onde se desenrolam os poemas.

“Nunca escrevi um poema para ti, Maria Alice. Porque sempre te julguei superior a toda a poesia. Pelo menos a minha. Mas, por um desses acasos que são mais criadores do que qualquer momento de inspiração, inventei um poeta árabe de Granada – Ahmed Ben Kassin. E fui-lhe dando vida pela voz que lhe dava.
A maior parte dos poemas de Ahmed Ben Kassin são dedicados à sua amada. Para os compor, imaginei que ele a amasse tanto como eu a ti. E assim, numa espécie de metempsicose consciente, ele foi eu ou eu fui ele em cada poema. Até um pouco também nos que dedicou a Granada, cidade que me fascina. Ou a Boabdil, o trágico e último rei dela. Ambos terão partido no mesmo dia para o exílio nas Alpujarras, a sul da Serra Nevada, e mais tarde para Marrocos. Ahmed Ben Kassin assistiu ao choro de Boabdil, ao voltar-se num último adeus à cidade que tanto amava. E também ao pranto do rei deposto quando, pouco tempo depois, perdeu Morayma, a outra imensa paixão da sua vida.
Não me perguntes nada mais acerca de Ahmed Ben Kassin e da sua amada. Da minha sei que vive comigo há trinta e sete anos. Dia a dia, que hoje, quando isto escrevo, se completam.
Por isso este livro te pertence. Não te é dedicado simplesmente, como os outros, mas é teu, teu fisicamente e não apenas em intenção. Todos os exemplares te são oferecidos.
Seguem-se, então, os meus poemas de Ahmed Ben Kassin. Ou teus, aliás.
Maia, na nossa casa, em 31 de Março de 2011
Daniel”

Morayma vendo partir Boabdil

Da mais alta torre de Granada
Vejo partir o meu amado para a batalha.
Choro, mas sem lágrimas,
Porque quero perceber até o último grão da poeira
Levantada pelos cascos do seu cavalo,
Forte como a morte
E belo como a vida.

Eu temo a coragem do meu amado.
Ele despreza a vida
Porque sabe que na sua morte
Eu o amarei mais ainda.
Mas amar mais do que eu amo já é só dor,
Já só é tristeza.

Boabdil chorando os filhos prisioneiros

Ó rei cristão, por que roubaste os meus cordeirinhos,
Nascidos para serem livres nos prados de Granada?
Eles foram amamentados pelos seios de sua mãe
E comeram à minha mesa.

Ainda tenho nas faces o calor dos seus beijos,
Sinto nos braços o doce peso dos seus corpos,
Nas mãos, a ternura das suas carícias,
E nos lábios o sabor das suas faces.

Por quantos palácios pode trocar-se um filho?
Quantas muralhas vale aquele que gerámos?

Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos.
Mas eu não posso dar aquela que outros construíram
E pela qual muitos morreram.
Em Granada há outros pais que amam
Como eu amo o dócil Yusuf e o meigo Ahmed.
E nenhum teria Granada para trocar pelos filhos.

Antes tomasses o meu escudo como troféu de guerra
E o meu cavalo como despojo de batalha,
Porque isso seria sinal de eu estar morto.

Ó rei cristão, ó príncipe de Castela,
A minha dor é imensa.
Se não me atiro sobre a ponta de um alfange,
É para que não haja mais um morto por quem chorar
Nem menos um vivo para chorar os mortos.

Granada em mãos infiéis

A minha amada desnudou-se e cobriu-se de vergonha.
Só a vergonha veste agora a minha amada.
A minha amada dormiu com o infiel,
Entregou-se nos seus braços e deitou-se na sua cama.
Esqueceu as juras de amor que eu lhe fizera
E deixou-se seduzir por falas mansas.

Como eu entendo que ele a tenha amado,
A ela, a mais amável de todas!

Oh, se eu pudesse tê-lo cegado antes que ele a contemplasse!
Mas não tocarei sequer um só dos seus cabelos,
Para não tornar mais infeliz ainda a minha amada.

Isabel e Fernando

Dois leões lutaram pela mesma corça,
E vieram dois leopardos e roubaram-na.
Por isso já Isabel pode lavar a camisa na água de Albaicín
E o rei pode beber das lágrimas de Aynadamar.

Vede, ó príncipes, com que cuidado foi posta cada pedra,
Em Granada, a esplêndida, e plantada cada rosa.
Uma mãe não veste a filha com mais carinho.
Contemplai os versos dos poetas
Que ornamentam as paredes da Alhambra,
E as palavras do Alcorão que as tornam veneráveis.
Granada curvou a cerviz perante a força das vossas armas.
Mas respeitai os vencidos e a memória dos que pereceram.
Perante as pedras e as rosas de Granada,
Dizei ao menos: “Como eles a amaram!”

Notas:
A luta dos dois leões refere-se à guerra entre El Zagal e Boabdil, seu sobrinho, que roubara o trono ao pai, Mulhacén (Muley Assam), que morrera em 1585 e contra o qual também lutara. Os dois leopardos são Isabel de Castela e Fernando de Aragão.
Aynadamar é um topónimo composto por “Ayn” (“olho”, com o significado de nascente), e “damar” (lágrimas), talvez como referência à maneira como surge a água nessas fontes que abastecem a zona alta de Granada, Albaicín, coração da cidade velha.

A minha amada

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Nada é comparável à minha amada.

Ouvimos, neste “Palavras de Ouro” o nº 162, poemas de Daniel de Sá e que fazem parte de um livro de poemas intitulado “As Rosas de Granada”.

Palavras 161 – Joaquim Namorado

06.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este programa usará, para falar de Joaquim Namorado, o texto disponibilizado no blogue “Outra Margem

Joaquim Namorado, Poeta de Incomodidade

“Metam O burro na gaiola

de doiradas grades
e
tratem-no a alpista
s
e quiserem
- é só um despropósito

Mas esperar dele o trinar

Do canário melodioso

É simplesmente tolo.”

Joaquim Namorado viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 30 de Junho.
Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, dedicando-se ao ensino. Exerceu durante dezenas de anos o professorado no ensino particular, já que o ensino oficial, durante o fascismo, lhe esteve vedado.
Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores da secção de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, etc. Obras poéticas: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945), A Poesia Necessária (1966). Ensaio: Uma Poética da Culutra (1994).)

Dizem que foi o Joaquim Namorado quem, para iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado “realismo socialista” apregoado pelo Jdanov…
Entre muitas outras actividades relevantes , foi redactor e director da Revista de cultura e arte Vértice, onde ficou célebre o episódio da publicação de pensamentos do Karl Marx, mas assinados com o pseudónimo Carlos Marques. Um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar: “ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, pois nós já estamos de olho nele”…

No concelho da Figueira da Foz– considerava-se um figueirense de coração e de acção – chegou a ser membro da Assembleia Municipal, eleito pela APU.
Teve uma modesta residência na vertente sul da Serra da Boa Viagem. Essa casa, aliás, serviu de local para reuniões preparatórias da fundação do jornal Barca Nova.
Muito mais poderia ser dito para recordar Joaquim Namorado, um Cidadão que teve uma vida integra, de sacrifício e de luta, sempre dedicada á total defesa dos interesses do Povo. 
Nos dias 28 e 29 de Janeiro de 1983, por iniciativa do jornal Barca Nova, a Figueira prestou-lhe uma significativa homenagem, que constituiu um acontecimento nacional de relevante envergadura, onde participaram vultos eminentes da cultura e da democracia portuguesa. 
Na sequência dessa homenagem, a Câmara Municipal da Figueira, durante anos, teve um prémio literário, que alcançou grande prestígio a nível nacional.
Santana Lopes, quando passou pela Figueira da Foz, como Presidente de Câmara, decidiu acabar com o “Prémio do Conto Joaquim Namorado”.

Vamos ouvir poemas publicados numa edição de autor e selecionado pela Vértice, em 1966, com o título “Poesia Necessária”.
“A voz que me dita os versos.”

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala
e é minha e das coisas que me cercam,
de quem encontrei na rua e não conheço
e dos amigos fiéis, de quanto ouvi disperso
na rua, nos cafés, onde estive,
dos livros que leio e dos jornais,
de quanto vejo e vivo como meu;
é tua, meu amor, de quanto é nosso,
só porque sentindo-o o partilhamos,
destas horas que se alongam tristes
e doutras que foram e hão-de ser
da luta, do tormento, da alegria
e da glória de vivê-las plenamente.

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala:
é a tua, amigo a quem não vejo há tanto
e cuja presença me não esquece,
cuja lembrança em toda a parte aquece
as esperanças comuns pra que vivemos;
é a tua, a quem nunca conheci,
apodrecendo não sei onde
em que distantes exílios e cemitérios secretos,
e de quem nos longos dias te chora
e nas longas noites te espera
Enganando-se que ainda vens
e de quem ouve os teus passos na rua
sabendo que isso é mentira
e fica à noite à janela olhando as esquinas desertas;
é dos teus companheiros resolutos
que as tuas armas empunham com a mesma decisão,
com aquela mão que se estende
para outra mão e a aperta
como se fosse o seu par…

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que tudo dizes e calas, de onde vens?
de que infância perdida me falas,
que soluçar de mães em ti acode
sob o doce ninar da minha mãe?
é da menina esfarrapada que na rua brinca
nas poças da rua com o sol e esquece
a vida triste lá de casa?
é dos meninos que só a loucura embala
mortos na guerra, mortos de fome e frio,
mortos queimados, de baionetas cravados,
nos fornos crematórios, nos ghettos de Varsóvia,
de Viena, de Belgrado, de qualquer cidade?
é dos meninos de escola da sua idade
aprendendo a ler?
é dos meninos operários da sua idade
aprendendo a trabalhar e a sofrer?
Fel que no sangue da vida se mistura,
amargo destino que se tece
da nossa vida futura.
Voz que tudo dizes e calas,
onde foi, onde?
Em Madrid, em Paris, em Praga?
Em Roma, em Londres, Buenos Aires?
De que pontos cardeais correndo livre vens?
Através de que mordaças me falas?
Em que prisões surdamente gemes e te calas?
É a tua voz clara, Gabriel?
A tua voz dentre dentes quebrados, Fucik?
O teu adeus de esperança, Zoia?
Ou é, Alexandre, o teu incitamento
que nos vem?
Em que língua humana me dizes
quanto é do mundo o sofrimento e a glória?
Em que estrofes os poetas te cantam?
Maja de Granada, inviolada e pura,
Federico ao nosso amor te deu;
de que amargo silêncio te fizeste
no exílio onde Machado morreu?
És a arma invicta e discreta,
voz que pelos homens clama,
és o aço puro e a chama
que para a luta os corações tempera.

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que me dita os versos segredada,
é do povo o canto e o choro que vem
do fundo desespero em que se move,
é de quanto espera o apagado canto,
epopeia que só a sua luta forja;
é a certeza em cada peito
com um facho de vida em vida transmitido
de que a noite imunda e mais comprida
tem segura madrugada que há-de vir.
Voz que me dita os versos
lentamente da vida dos dias se insinua:
é a voz das coisas e das gentes,
uma dor e um desespero suspenso,
e é a paixão e o grito que levanta,
é a praga que a nossa raiva activa,
o desafio que se lança,
o sofrimento que protesta,
a humildade que se não arrasta,
o orgulho que não fere,
a saudação fraterna, aberta e franca
- é o estalar do chicote
com o ódio que levanta.

É a tua voz, coração do mundo,
é a tua voz ansiosa, a tua voz vibrante,
a tua voz desesperada, a tua voz confiante.
Sejam meus versos a vogal precisa,
bata no meu pulso o coração do mundo.

Agora, sete pequenos poemas para uma obra de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), ilustrador, que exerceu influência determinante nas modernas artes gráficas portuguesas, quer através de capas, quer de ilustrações que realizou para obras de escritores seus contemporâneos

1
Um menino chora,
sem razão?!…
A mãe limpa com um lenço branco
as lágrimas e chora,
chora porque chora
o seu menino,
sem razão?!…

2
Manta de maltez: sol do
inverno e sombra do
estio, mortalha pronta,
dossel do amor, tecto e
sobrado de não ter casa.
Manto de um rei das
encruzilhadas, sudário
rasgado de dentes e cutiladas;
uma almofada sobre as ortigas…
uma bandeira de Liberdade.

3
Flor da terra, carne dos
homens, de papoilas
bravas entre searas
coroada. Agua da fonte
corrente do rio, pão
ainda quente haste do
trigo. Porto seguro na
vida incerta, paz dos
teus braços da luta
incerta. Esperança e
consolo, pano de linho
sobre as feridas ainda
abertas; bandeira ao
vento. A manhã
que nasce está
nos teus olhos.

4
Os calos da mão apertam cabos
de enxadas quebradas e os
ferros dos arados rasgam
caminhos abertos nas futuras
madrugadas.

5
Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.

6
Num mundo de maiorais, de
feitores, de cães de guarda,
icou no pó das estradas a
marca dos nossos passos
continuando outros passos. O
caminho é por aqui, dirá quem
vier depois olhando estes
sinais e disso estará tão certo
que o que ainda é distante lhe
será perto.

7
Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.

Ouviram o Palavras de Ouro 161 dedicado a Joaquim Namorado, o Poeta de Incomodidade.

Palavras 160 – “Ary dos Santos”

29.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Exagerado, provocador, forte, por vezes violento com as palavras,
grande declamador da sua poesia, era assim Ary dos Santos.

Foi publicitário, indústria onde deixou trabalhos ainda hoje recordados
(“Minha lã, meu amor”); viveu o mundo da canção popular a quem emprestou
muitas das suas vibrantes palavras (A Desfolhada, Menina do Alto da Serra,
Tourada, Invenção do Amor, Estrela da Tarde, Canção de Madrugar,
Quando um homem quiser, e tantas, tantas outras). Deu alimento a grandes
vedetas da música portuguesa, de Amália Rodrigues a Carlos do Carmo,
Tonicha, Simone de Oliveira, Fernando Tordo, etc., etc.

Ary dos santos deixou-nos há 28 anos, faleceu em Janeiro de 1984, e num
texto de Manuel Gusmão, num ensaio que acompanha a edição de oito dos
seus poemas, pode ler-se: “José Carlos Ary dos Santos tem 46 anos e
sabe que vai morrer. Sabendo-o, escreve: poemas, sonetos”.

Nos últimos meses de 1983, quando já se encontrava gravemente doente,
José Carlos Ary dos Santos decidiu trabalhar para a publicação de um
livro de 35 sonetos. Aos numerosos amigos que o visitaram durante a
doença deu duas razões para este projecto: por um lado, aproveitar o
tempo que a doença o forçava a passar em casa; por outro, ultrapassar
as limitações que por ela lhe eram impostas quanto a trabalho recorrendo
a uma forma poética — o soneto — que dominava e não exigia grande esforço
físico de escrita que lhe era já penoso.

Dos 35 sonetos previstos, apenas oito haviam sido completados à data da morte,
em 18 de Janeiro de 1984.

No 10º aniversário da Revolução de 25 de Abril, o Partido Comunista
Português publicou esses oito sonetos, num projeto gráfico de Rogério Ribeiro
e acompanhado de um ensaio, já referido, de Manuel Gusmão.
Numa homenagem ao grande poeta e ao companheiro de trabalho que acompanhei
durante anos, vou ler, de seguida, esses oito sonetos.

Ao meu falecido irmão


Meu sacana de versos! Meu vadio.

Fazes falta ao Rossio. Falta ao Nicola. 

Lisboa é uma sarjeta. E um vazio.

E é raro o poeta que entre nós faz escola.

Mastigam ruminando o desafio.

São uns merdosos que nos pedem esmola.

Aos vinte anos cheiram a bafio

têm joanetes culturais na tola.

Que diria Camões, nosso padrinho 

ou o Primo Fernando que acarinho

como Pessoa viva à cabeceira?

O que me vale é que não estou sozinho 

ainda se encontram alguns pés de linho 

crescendo não sei como na estrumeira!

Insónia

As noites — escorpiões suicidados 

Com o seu próprio veneno nas entranhas

ressuscitam depois em madrugadas

cada vez mais azuis e mais estranhas.

São insónias tecendo alucinadas

uma teia de horas e de aranhas 

patas tácteis peludas eriçadas 

com o peso latente das montanhas.

E por dentro dos olhos um perfil 

de ferro e fogo deixa-nos queimados 

selados como a chuva e como o vento.

Será possível que depois de Abril 

ainda adormeçamos acordados 

neste país-raiz de sofrimento?

Poesia-orgasmo

De sílabas de letras de fonemas 

se faz a escrita. Não se faz um verso. 

Tem de correr no corpo dos poemas 

o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito 

um murmúrio um gemido uma erecção

que transporte do humano ao infinito 

a dor o fogo a flor a vibração

A Poesia é de mel ou de cicuta? 

Quando um poeta se interroga e escuta

ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for

Fazer poemas é escrever amor

e poesia o que tem de ser é orgasmo.

Sonata de Outono

Inverno não ainda mas Outono
a
sonata que bate no meu peito

Poeta distraído cão sem dono

até na própria cama em que me deito.

Acordar é a forma de ter sono

O presente o pretérito imperfeito 

Mesmo eu de mim me abandono 

se o vigor que me devo não respeito.

Morro de pé, mas morro devagar. 

A vida é afinal o meu lugar

e só acaba quando eu quiser.

Não me deixo ficar. Não pode ser.

Peço meças ao Sol, ao Céu, ao Mar 

Pois viver é também acontecer.

Soneto de Inês

Dos olhos corre a água do Mondego

Os cabelos parecem os choupais 

Inês! Inês! Rainha sem sossego

dum rei que por amor não pode mais.

Amor imenso que também é cego 

Amor que torna os homens imortais. 

Inês! Inês! Distância a que não chego

Morta tão cedo por viver demais.

Os teus gestos são verdes os teus braços 

são gaivotas pousadas no regaço

dum mar azul turquesa intemporal.

As andorinhas seguem os teus passos

e tu morrendo com os olhos baços. 

Inês! Inês! Inês de Portugal.

Telegrama para Gomes Leal

Tia Maria Poesia a acabar. 

Stop. Vem depressa. Testamento incerto. 

É certo que não tinha que deixar 

mais que um saldo no banco a descoberto.

Anda a crítica toda a farejar.

Os enteados rondam muito perto.

Volta depressa ó meu. O teu lugar

é aqui ajudando neste aperto.

Toma a carreira Inferno-Portugal. 

Fizeste-a tantas vezes! E a viagem 

agora de caixão é mais barata.

Vem-me ajudar a consolar a tia. 

A Natália está lá. Não a Sofia

Cara-de-cu que sempre foi ingrata.

Memória de Adriano

Nas tuas mãos tomaste uma guitarra 

copo de vinho de alegria sã

sangria de suor e de cigarra 

que à noite canta a festa de amanhã.

Foste sempre o cantor que não se agarra 

o que à terra chamou amante e irmã 

mas também português que investe e marra

voz de alaúde rosto de maçã.

O teu coração de ouro veio do Douro 

num barco de vindimas de cantigas

tão generoso como a liberdade.

Resta de ti a ilha dum tesouro

a jóia com as pedras mais antigas.

Não é saudade, não! É amizade.

Infância

Não minha mãe. Não era ali que estava. 

Talvez noutra gaveta. Noutro quarto. 

Talvez dentro de mim que me apertava 

contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava

talhada no teu ventre de alabastro 

abria-se fechava dilatava.

Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala 

nem nenhum dos retratos de família 

nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala… 

… o meu berço enfeitado a buganvília…

Tenho tantas saudades, minha mãe!

Ouvimos o “Palavras de Ouro” 160, dedicado aos oito últimos poemas escritos por José Carlos Ary dos Santos.

Palavras 159 – “Em memória…”

23.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um “Palavras de Ouro” dedicado à memória que não se quer perdida dos atores António Silva, Vasco Santana e dos homens da rádio Igrejas Caeiro e Carlos Pinto Coelho. Memória a partir do trabalho de divulgação de Álvaro José Ferreira.

Palavras 158 – Adolfo Casais Monteiro

04.01.2011 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouviremos Palavras de Ouro neste programa com a poesia de Adolfo Casais Monteiro.
Adolfo Victor Casais Monteiro nasceu no Porto em 1908 e morreu em São Paulo em 1972.
A sua juventude foi típica de um filho da burguesia portuense ilustrada e liberal, cedo revelando propensão artística.
Se quiser ler o texto do programa enquanto o ouve ou copiar os poemas, clique AQUI.

Palavras 157 – Natércia Freire

15.12.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje, o brilho da poesia de Natércia Freire. Foi poeta, contista, jornalista e mulher solitária. Escritora durante os anos em que o Estado Novo queria a mulher em casa. Ostracizada pela Revolução de Abril, Natércia Freire acabou por cair num silêncio imerecido. Deixa um legado poético que merece ser (re)descoberto.

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Palavras 156- Alfredo Guisado

03.12.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Neste programa, a poesia de Alfredo Guisado, um autor um pouco esquecido.

Alfredo Guisado, poeta português de ascendência galega, nasceu em Lisboa a 30 de Outubro de 1891. Formou-se em 1921 na Faculdade de Direito de Lisboa e em 1922 entrou para a Associação dos Arqueólogos Portugueses. Foi militante do Partido Republicano Português, colaborou no jornal “O Debate” e foi subdiretor do jornal República, o órgão da oposição à ditadura de Salazar.


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Palavras 155 – Teófilo Braga

25.11.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouviremos, neste programa, as palavras de ouro de Teófilo Braga, autor que nos deixou uma obra monumental nos domínios da poesia, história e crítica literárias, historiografia, etnografia, filosofia e sociologia, política, ficção e tradução.
Teófilo Braga nasceu em Ponta Delgada, ilha de Santa Maria, Açores.
Depois de ter feito os primeiros estudos no liceu de Ponta Delgada, veio para o continente em 1861, seguindo para Coimbra, em cuja Universidade fez com distinção o curso de Direito, que completou em 1867, recebendo o grau de doutor em Julho do ano seguinte.
Se quiser lero otexto do programa enquanto o ouve, clique AQUI.

Palavras 154 – Al Berto

17.11.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Neste programa vamos ouvir poesia de Al Berto
Al Berto, de seu nome completo Alberto Raposa Pidwell Tavares nasceu em Coimbra a 11 de Janeiro de 1948 e morreu em Lisboa, com 49 anos.
Se quiser ler os texto do programa enquanto o ouve ou copiar alguns dos poemas, clique AQUI. 


Palavras 153 – Trindade Coelho

06.11.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este “Palavras de Ouro” com o número 153 será preenchido com as palavras douradas de Trindade Coelho.
Trindade Coelho, natural de Mogadouro, a sua obra reflete a infância passada em Trás-os-Montes, num ambiente tradicionalista que ele fielmente retrata. O seu estilo natural, a simplicidade e candura de algumas das suas personagens, fazem de Trindade Coelho um dos mestres do conto rústico português de que hoje vamos ouvir um exemplo.
Se deseja ler o texto enquanto o ouve, clique AQUI.

Palavras 152 – Carlos de Oliveira

14.10.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este programa vai ser preenchido com as palavras douradas de Carlos de Oliveira.
Carlos de Oliveira nasceu no Belém do Pará, a 10 de Agosto de 1921 e faleceu em Lisboa a 1 de Julho de 1981.
Filho de emigrantes portugueses, só viveu no Brasil os dois primeiros anos de vida: em 1923, os seus pais regressam a Portugal, acabando por se fixar na região de Cantanhede, mais precisamente na aldeia de Febres, onde seu pai exercia medicina.
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Palavras 151 – 5º Aniversário

06.07.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este programa foi gravado e vai estar disponível, hoje, dia 6 de Julho de 2010. Exatamente há cinco anos, neste mesmo dia podia ouvir-se na Internet o primeiro programa do Estúdio Raposa, já com o título de “Palavras de Ouro”. Poucos meses antes tinha nascido nos EUA o “podecasting” e o Estúdio Raposa era um dos primeiros a usar essa tecnologia em língua portuguesa.
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Palavras 150 – Egito Gonçalves

29.04.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vamos ouvir, neste programa, poesia de Egito Gonçalves, assim como uma pequena nota biográfica.
 José Egito de Oliveira Gonçalves nasceu em Matosinhos no dia 8 de Abril de 1920, foi poeta, editor e tradutor e faleceu com 81 anos, no Porto.
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Palavras 149 – Raul de Carvalho

01.04.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Neste programa mais um grande poeta, quase esquecido: Raul de Carvalho

Raul Maria de Carvalho nasceu em Alvito, Baixo Alentejo, a 4 de Setembro de 1920. As memórias da infância passadas nesse local manifestam-se em todos os seus livros de cunho autobiográfico. Chegou a Lisboa na década de 40 e tornou-se frequentador do café Martinho da Arcada, contactando com personalidades do meio literário.
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Palavras 148 – Pedro Homem de Mello

10.03.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vamos ouvir, neste programa, trabalhos de um poeta esquecido: Pedro Homem de Mello, poeta, professor, folclorista e uma personalidade da televisão.
Pedro Homem de Mello nasceu no seio de uma família fidalga, filho de António Homem de Mello e de Maria do Pilar da Cunha Pimentel, tendo, desde cedo, sido imbuído de ideais monárquicos, católicos e conservadores. Foi sempre um sincero amigo das arte popular e a sua poesia é disso reflexo. O seu pai, pertenceu ao círculo íntimo do poeta António Nobre.
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Palavras 147 – Camilo Castelo Branco

17.02.2010 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vamos hoje ouvir uma pequena nota biográfica de Camilo Castelo Branco e as primeiras páginas de uma das suas obras mais conhecidas: Eusébio Macário.
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Palavras 146 – Uma lenda, uma canção.

27.11.2009 | Produção e voz: Luís Gaspar

Retomo, neste programa, uma tradição que foi muito apreciada pelos ouvintes do Estúdio Raposa: a leitura de lendas. Escutaremos uma lenda judia. Depois, vamos ouvir a história de uma famosa canção saída do baú de memórias de Maria Odete Coutinho.
A música que acompanhará a lenda é de autoria de Luís Pedro Fonseca.
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Palavras 145 – Antero de Quental

16.10.2009 | Produção e voz: Luís Gaspar

O nome de Antero de Quental tornou-se no símbolo de uma geração (a Geração de 70 ou a Geração de Antero) e é referência obrigatória na poesia, no ensaio filosófico e literário, no jornalismo, mas também nas lutas pela liberdade de pensamento e pela justiça social, onde se afirmou como ideólogo destacado. Hoje, no Palavras de Ouro, falamos de Antero de Quental.
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Palavras 144 – António Feijó

23.09.2009 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vamos ouvir poesia do poeta parnasiano, António Feijó.
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