Nota biográfica

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Alexandre O’Neill – “O cheiro a cera e a incenso”

07.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O cheiro a cera e a incenso sobe da infância e é recordado

pelo olfacto da memória. Há certos cheiros que persistem

vida fora. O cheiro da relva recém-cortada frente à casa, o

cheiro-maçã de esperma nos lençóis, o cheiro dos cavalos

depois duma caminhada, o cheiro-estalido da lenha na 

lareira, o cheiro de roupa de linho no estendal por detrás da 

casa, o cheiro silvestre da minha primeira namorada, o

cheiro dos velhos álbuns de fotografias (cheiro de morte,

mas com cheiro de vida lá dentro) sobretudo quando se sabe

que o almirante navega há muitos anos num mar para

colorir. Um avô almirante que eu nunca vi numa pose de 

leão dos mares para a fotografia (um cheiro a vaidade, que 

se perdoa tanto tempo depois,) o cheiro da catequista da 

igreja de S. Jorge de Arroios por quem eu estava

apaixonado, cheiro de castos lençóis, provavelmente os mesmos de
Camilo Pessanha. O cheiro de santidade, o cheiro de 

inveja que se desprende de certa gente malina e de certos lugares

aziago o cheiro a guarda-chuva molhado e abandonado 
como um
pássaro morto. O cheiro de flores apodrecidas
em 
amarelentos solitários. O cheiro a corpo queimado que 

anuncia a presença do demo esse que vem cheirar os cheiros

que são muito nossos para roubar a memória do que fomos

sendo nos laços e lacetes da existência.

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Alexandre O’Neill – “Dai-nos, meu Deus…”

07.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja.

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou
nenhuma. Nós queremos ser o aleijado nas ruas, a pedir esmola, a
a

bardalhar-se frente aos nossos olhos. Queremos ser o pai


desempregado que não sabe que NatalDai-nos, meu Deus…
há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.

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Alberto Silva – “La petite mort”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pincelava-te o corpo com o meu beijo. Ao de leve, suave.
Percorria-te o peito com o olhar.
Deixava deslizar, lentamente, a ponta dos meus dedos.
A pele que estendias húmida, ardente, indefesa, arrepiava-se
a cada toque, a cada brisa, a cada beijo.
Sentias suavemente as carícias dos meus lábios em teu
manto. Percorriam cada espaço descoberto.
Lentamente, sentias o corpo acendendo-se. Começavam os
suores, os gemidos, os olhares furtivos. O corpo começava-
-se-te a contorcer, sem controlo, sem regra, sem caminho.
A medida que ias sentindo a pele na pele, o som com
som, o ritmo com movimento, ias perdendo o sentido, ias
deixando-te fugir. Partias.
As coxas apertavam-se-te em conjunto, sufocavas-me as
mãos, não permitias que saísse.
A força do teu sufoco deixava antecipar a rápida chegada.
Apertavas-me as mãos, como quem não permitia que
partisse. Agora não era tempo de voltar atrás.
Deixavas-te chegar com a força de um suspiro.

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Alberto Silva – “Fome”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vejo-te em fragmentos soltos de peças quebradas
em derrotas de batalhas nunca ganhas
nem vontades de lutas diferentes
ou construções de verdadeiras vontades.
Sei-te ainda dentro dos teus ais
por eles fui-te dando o meu ter
enquanto desistias e perdias mais de ti.
Medos de passados já quebrados
despedaçaram-te vontades e quereres
navegando-te em sonhos desfeitos e moribundos
em pedaços mortos de futuros risonhos.
Ergue-te hoje em bases sólidas
de fome e vontade de viver
a vida que com quem deves saber viver
e dá-te à vontade de querer.

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Alberto Silva – “Vielas”

01.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Afagam-se incertezas em viagens matinais
por ruas e avenidas de alcatrão posto
em ritmos despertos de sonhos brandos
enquanto se espera o infinito
além da dor da tua espera.
Colam-se retalhos velhos a novos rumos
na esperança de novos horizontes
mas a esquina que vem dobrando
não acompanha o que é preciso.
Fogem-se as vielas por nossas solas
gastas e rotas das calçadas
em breves passos já cansados
até ao próximo pouso na estrada.

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História 170 – “O conselho dos Ratos”

30.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 170 – O conselho dos ratos
O Sr. Gato Caçador fazia uma tal destruição na família dos ratos que eles andavam alarmadíssimos e apavorados.
– Por este andar não escapa nenhum de nós; nem um fica para amostra! Vamos todos parar ao bucho do Gato… – diziam uns para os outros em voz baixa, escondidos pelos cantos. – Que desgraçada situação a
nossa! Temos de tomar uma resolução.
E uma noite todos se reuniram em conselho, numa grande assembleia.
Caros amigos e companheiros de trabalho — começou o que tomara a presidência da mesa. – Encontramo-nos aqui reunidos para discutirmos um assunto de importância vital para a nossa existência. Trata-se da chacina que o Gato da casa anda a fazer em nós desde que veio
para cá. Temos de defender-nos dele, seja como for, e para trocarmos impressões a este respeito, para debatermos opiniões e apresentar sugestões, aqui nos reunimos hoje. Está aberta a sessão e vou dar a palavra a quem a pedir.
Todos os ratos e ratinhos começaram a falar, querendo ter a palavra ao mesmo tempo para apresentarem as suas ideias e os seus planos de defesa, que cada um supunha o melhor. O barulho e a confusão eram grandes e o presidente da assembleia teve que tocar a campainha várias vezes e de gritar para se fazer ouvir. Por fim estabeleceu-se a ordem e todos voltaram aos seus lugares, principiando, então, a apresentação e a defesa das ideias de cada um deles. Mas não havia maneira de aparecer um plano que merecesse a aprovação de todos. Em todos os planos havia uma falta ou um imprevisto, que os mais prudentes notavam e condenavam. Já começavam a desanimar de encontrar uma solução, quando o mais velho dos ratos, um grande rato quase calvo e tendo brancos ou poucos cabelos que lhe restavam, de óculos no nariz e boca desdentada, disse solenemente:
– Peço a palavra, Sr. Presidente!
– Queira falar, Sr. Rato Velho.
– Tenho um plano que me parece o melhor. Penduremos um guizo ao pescoço desse assassino Gato Caçador, e sempre que ele ande a rondar-nos, nós ouvimos tilintar o guizo e pomo-nos em fuga.
– Boa ideia! Boa ideia, Sr. Rato Velho! É o primeiro plano com jeito que aí aparece! – gritaram todos entusiasmados -.Bravo! Apoiado.
Esta ideia foi aprovada por unanimidade e todos retiraram para suas casas.
Iam todos andando pelos corredores a comentar e a discutir a ideia.
Uma coisa tão simples! E ainda não nos tinha ocorrido.
É verdade!
Mas olhem lá – disse o ratinho mais novo – vocês já pensaram qual de nós irá pôr-lhe o guizo ao pescoço?
É verdade! – exclamaram todos, parando, desanimados. Ainda não tínhamos pensado nisso! Quem se atreverá a aproximar-se do Gato e a pôr-lhe uma fita ao pescoço com o guizo!
Reconhecendo a sua fraqueza, os ratos lá foram indo, encolhidos, para as suas tocas, pensando que aquilo que é fácil de dizer é muitas vezes difícil de fazer.
E o Gato Caçador continuou a papá-los livremente.
E aqui acaba a história

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O soneto das cadeiras

30.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles deixam os Bancos e entram no Governo.
Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles deixam os Bancos e entram no Governo.

Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles deixam os Bancos e entram no Governo.
Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles deixam os Bancos e entram no Governo.

Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles deixam os Bancos e entram no Governo.
Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.

Eles deixam os Bancos e entram no Governo.
Eles deixam o Governo e entram nos Bancos.
Eles saem, eles entram. Como na cama, um casal.

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Eugénio de Andrade – “Havia vento”

28.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era um mês incerto, havia vento,
eu não teria nascido ainda,
ou já teria morrido.
A fronteira entre luz e sombra
era muito difusa. Então
estranhamente o sol pousou
naquele corpo. Corpo que nunca
vira despido, que cheirava
a maçãs maduras,
com brilhos que desciam
às negras sementes da vida.
Estranhamente o sol demorou-se
nos seus ombros. Um último
brilho, ou suspiro, desprendeu-se.
O ar tremia — apesar disso eu era feliz,
tinha dez ou mil anos, já não sei.

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“Pan Gu e a Origem do Homem”

22.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No céu, o deus que reinava sobre a terra, o Rei Gao Xin, tinha um belo cão sarapintado a quem chamava de Pan Gu. O Rei Gao Xin e o seu irmão, o Rei Fang, eram inimigos mortais. Gao Xin prometeu um dia a mão da sua filha a quem lhe trouxesse a cabeça do seu irmão, mas ninguém aceitou o desafio receando o poderoso exército do Rei Fang. Mas Pan Gu, o cão, não se amedrontou e correu em busca do Rei Fang. Este, quando o viu, deu uma gargalhada e disse: «Vejam. Gao Xin está tão próximo do seu fim que até o cão o abandonou.» Certo da vitória, ofereceu nessa noite um gigantesco banquete, sentando-se o cão, convidado de honra, a seu lado. Porém, à meia-noite, quando tudo estava silencioso e Fang dormia embriagado, Pan Gu saltou para a cama do Rei, arrancou-lhe a cabeça e correu de volta para Gao Xin.
O Rei ficou feliz por saber do feito heróico do seu cão e ofereceu um banquete em sua honra. Ordenou que lhe fosse servida carne fresca, mas Pan Gu recusou-se a comer. «Porque não comes tu?», perguntou o Rei: «Será por não oferecer a mão da minha filha a um cão?» Para sua surpresa, Pan Gu falou e disse que bastaria que Gao Xin o cobrisse com o seu sino dourado durante sete dias e sete noites para que se fizesse homem. O Rei assim fez. Porém, pensando que, ao sexto dia, Pan Gu estaria a morrer de fome, a princesa levantou ansiosamente o sino dourado. Uma vez levantado o sino, a magia parou. O corpo de Pan Gu era já o de um homem mas a sua cabeça pertencia ainda ao cão.
Pan Gu casou com a princesa, mas envergonhados de serem assim vistos pelos deuses, vieram morar na terra. Instalaram-se nas montanhas do Sul da China e tiveram três filhos e uma filha que vieram dar início à humanidade.

Trad.: Manuel João Magalhães

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História 169 – “O Lobo e o Cordeiro”

22.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Num dia quente de Verão o Lobo saiu do covil e foi ao ribeiro beber, porque estava cheio de calor. O Cordeiro, que andava ali perto, atrás da mãe, teve sede e também foi ao ribeiro, colocando-se da parte de baixo, para onde a água corria.
– Sai daí! – gritou-lhe o Lobo, de mau humor. – Estás a sujar-me a água.
Eu, Sr. Lobo?! —respondeu-lhe o Cordeiro humildemente. – Como pode ser isso, se eu estou da parte de baixo da corrente?
– Pois se não me estás sujando a água agora, há já seis meses que me estragas as relvas e os prados onde eu costumo descansar depois das minhas caçadas.
– Isso também não é possível – tornou o Cordeirinho, a tremer – porque há seis meses não era eu nascido; nem dentes tenho ainda…
– Pois então, se não foste tu, foi o teu pai, o que no fim de contas vem a dar no mesmo.
E atirando-se ferozmente ao pobre Cordeirinho, o Lobo matou-o e comeu-o.
Quando a mãe Ovelha deu por falta do filho e soube do que se passara, baliu angustiadamente para as companheiras.
– Para os mal-intencionados como o lobo, nunca há inocentes como o meu filho. E a sua maior inocência foi tê-lo deixado roubar-lhe a vida por querer dar-lhe explicações. Aprendam, amigas, e quando virem um lobo não tentem chamá-lo à razão, porque perdem o tempo e se arriscam a morrer. Fujam!
E aqui acaba a história.

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João Penha – “A Carne”

21.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

João Penha (1838-1919) 
Poeta português, natural de Braga, também jurista e magistrado. Introduziu o parnasianismo em Portugal.

A CARNE
[A Cândido de Figueiredo]

Carne mimosa, carne cor de rosa
Nada mais sois, oh anjos, na poesia
Dos vates dissolutos de hoje em dia,
Nos romances de amor, hedionda prosa.

A vossa alma gentil, ideal, mimosa,
Nestas idades de descrença ímpia,
Como escondida, numa estátua fria
Sonha e não voa, de voar medrosa!

Anjos chorai o Amor! Com voz dolente
Dizei-lhe adeus! Bronco recife
Se apruma entre ele e vós, cruel, ingente:

Que par mais que de vinhos o borrife,
Ninguém gosta de ver, continuadamente,
Diante de si, fatal, o mesmo bife!

in “Novas Rimas”

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“A Origem da Noite”

21.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tupis, da Amazónia.

Antigamente, a noite não existia no céu. O dia era eterno. A noite dormia no fundo das águas. E os animais também não existiam, e os objectos falavam.
A filha da Grande Serpente casou com um homem, que tinha três criados fiéis. Ele disse-lhes uma vez: «Afastem-se, porque a minha mulher quer copular comigo.» Mas não era a presença dos criados que incomodava a jovem. Ela não queria fazer amor senão na escuridão. Explicou ao seu marido que o seu pai detinha a noite, e que ele devia enviar os seus criados buscá-la.
Quando estes chegaram, numa piroga, junto da Grande Serpente este deu-lhes uma noz de palmeira tucuman bem fechada, e recomendou-lhes que não a abrissem sob nenhum pretexto. Os criados voltaram a embarcar e, pouco depois, ficaram surpreendidos com um ruído que vinha do interior da noz: ten, ten ten, cri…ten, ten ten, cri, semelhante ao ruído que os grilos e as rãs fazem durante a noite. Um dos criados quis abrir a noz, mas os outros opuseram-se. Depois de muitas discussões, e quando já estavam muito longe da morada da Grande Serpente, reuniram-se finalmente no meio da piroga, fizeram uma pequena fogueira, e fizeram fundir a resina que mantinha a noz fechada.
Mal a noz se abriu, a noite surgiu, e todas as coisas que havia na floresta, se transformaram em quadrúpedes e pássaros, e todas as coisas que havia no rio, transformaram-se em patos e peixes. O cesto transformou-se em jaguar, o pescador e a sua piroga tornaram-se patos: na cabeça do homem surgiu um bico, a piroga tornou-se o corpo, os remos as patas…
A filha da Grande Serpente compreendeu a razão da obscuridade que reinava agora. Quando a estrela da manhã surgiu, a jovem decidiu separar a noite do dia. Para o conseguir, transformou duas bolas de fio nos pássaros curubim e inhambu (que anunciam a aurora). Para punir os criados, transformou-os em macacos.

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“A Origem da Terra e dos Homens”

20.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Povo Chukchees da América do Norte

Era o princípio dos tempos e da criação. Conhecida pelos seus maus humores, a mulher do Corvo pediu-lhe um dia que criasse a terra, ao que o Corvo protestou dizendo-se incapaz de tal feito. Enfurecida pelo facto de o marido não satisfazer de imediato o seu pedido, a mulher informou-o então que tentaria criar um «companheiro de mau humor» durante o sono e adormeceu. Durante a noite, o Corvo olhou para a sua esposa e notou que o seu abdómen tinha inchado de forma assustadora. Sem qualquer esforço, a mulher criou durante o sono um ser com o qual se uniu de imediato; o Corvo, assustado, virou o rosto e procurou não assistir ao espectáculo.
Na manhã seguinte, a mulher deu à luz dois gémeos, o primeiro casal de que toda a humanidade viria a descender. Envergonhado pela sua impotência criadora, o Corvo, enfurecido, afirmou: «Já criaste os homens, agora terei de criar a terra.» Lançou-se então num alto voo e batendo as asas começou a defecar. As fezes caíram então sobre as águas, incharam e transformaram-se em pedaços de terra que, uma vez juntos, deram origem à Terra. Assim, os homens receberam o lar onde viver.

Trad.: Manuel João Magalhães

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“A origem da terra, do trabalho e da gravidez”

19.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Povo Jugulares da Amazónia

Ainda a terra não existia e uma jovem virgem vivia sozinha no espaço vazio. Chamava-se Coadidop, a Avó dos Dias. Um dia, Coadidop resolveu fazer tabaco a partir do seu corpo; repousou-o sobre o chão, espremeu leite dos seus seios e fê-lo verter sobre o tabaco. Não só era o primeiro charuto do universo como era também a primeira das coisas criadas. Acendeu então o charuto e do fumo resultaram o raio e o trovão. Surgiu ainda a silhueta de um homem, mas desapareceu de imediato. Fumou de novo e a cena repetiu-se. Porém, ao terceiro charuto, o fumo transformou-se por fim num homem. Surpresa, Coadidop disse-lhe: «Es o filho do Trovão, és o Trovão; és o meu neto. Possuirás todos os poderes e farás o que quiseres. Chamar-te-ás Enu, o Trovão.» Acrescentou ainda que Enu, enquanto homem, deveria usar os seus poderes para criar para si uma multitude de companheiros.
Assim, Enu criou um homem do fumo do seu charuto, a quem resolveu chamar de filho e de irmão. Fumou outra vez e surgiram pela sua frente raios e trovões. Fumou uma outra vez e do fumo saíram outros dois homens, seus filhos e irmãos. Os Irmãos Trovão jun-taram-se e disseram à Virgem Avó dos Dias: «Nossa mãe, nossa mãe, nossa tia, faremos o que desejares.» Coadidop respondeu-lhes que, enquanto homens, não poderiam permanecer com ela. Pelo contrário, Coadidop necessitava de mulheres a seu lado. A Virgem acendeu então um charuto e criou a primeira mulher. Chamou-lhe Caiçaro e, insatisfeita com a companhia, acendeu outro charuto e criou uma terceira mulher. Havia agora quatro Trovões para três mulheres. Viviam todos juntos numa casa de pedra suspensa sob o firmamento.
Chegara a altura da primeira menstruação das três Virgens. Os Trovões, que mais não faziam senão fumar charutos e mascar coca, não percebiam a situação e tomavam as virgens por doentes. O Trovão mais novo dirigiu-se à Avó e perguntou-lhe o que fazer, ao que esta respondeu: «Tu és o último; o último de cada geração será sempre o mais sensato. Ensinar-te-ei a fazer um pari onde ficarei reclusa.» Passados alguns dias, as Virgens estavam recuperadas mas quei-xavam-se de fome. A Avó dos Dias disse-lhes que, de então em diante, a sua vida teria de mudar: «Vocês vão trabalhar e não vão ficar como os Trovões. Dar-vos-ei a terra e trabalhá-la-ão para que consigam dela os alimentos de que necessitarem.»
Coadidop pegou então numa corda e enrolou-a à volta da sua cabeça. Retirou depois a corda e pô-la no chão, desenhando assim um circulo sobre o qual lançou leite dos seus seios: nasceu deste gesto a terra. No dia seguinte, a Avó dos Dias ofereceu a terra às duas Virgens e disse: «Agora, trabalhai.» As mulheres desceram à terra mas os Trovões deixaram-se ficar pelo ar; só faziam trovoada.
As Virgens decidiram povoar a terra e os Trovões, invejosos, tentaram criar um quinto Trovão. Queriam engravidar e tt ntaram colocar a sua barriga nas pernas e nos braços. Porém, tal n.-o funcionou e as Virgens gozaram por vários dias com os Trovões, dizendo que eram loucos e feios. Feridos no seu orgulho, os trovões responderam: «Então deixem-nos a nós o trabalho e fiquem vocês com a gravidez.» E assim foi.

Trad.: Manuel João Magalhães

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Vinícius de Moraes – “Menina como uma flor”

18.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

menina_flor

Porque és uma menina como uma flor e tens uma voz que não sai do ouvido, eu prometo-te amor eterno, salvo se murchares, o que, aliás, não vais nunca porque acordas tarde, tens um ar acanhado e gostas de brigadeiros: quero dizer, doces feitos com leite condensado.
E porque és uma menina como uma flor e choraste na estação de Roma porque as nossas malas seguiram sozinhas para Paris, e morreste de pena delas que partiam assim, no meio de todas aquelas malas estrangeiras.
E porque sonhas que estou a deixar-te p’ra trás, transferes o teu t.p.m. para o meu quotidiano, e implicas comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de seres assim, tão subliminar.
E porque quando começaste a gostar de mim procuravas saber por todos os meus modos, com que camisola desportiva ia sair para fazer mimetismo de amor, só para te vestires de forma parecida.
E porque tens um rosto que está sempre um brinco, mesmo quando apanhas o cabelo, e pareces-te com uma santa moderna, e andas lentamente, e falas em 33 rotações mas sem aborreceres.
E porque és uma menina como uma flor, eu te predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma escapadinha marota para olhar para o lado, aí sim podes ir embora, eu compreendo.
E porque és uma menina como uma flor e tens um andar de pajem medieval; e porque quando cantas nem um mosquito ouve a tua voz, e desafinas tão bem que logo de seguida consertas, e às vezes acordas no meio da noite para cantar, feito uma doida.
E tens um ursinho chamado Nounouse e falas-lhe mal de mim, e ele escuta e não concorda porque é muito meu amigo, e quando te sentes perdida e sozinha no mundo deitas-te agarrada a ele, choras como um bebé e fazes um beicinho deste tamanho. 


E porque és uma menina que não pisca nunca e os teus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e és capaz de ficar horas a olhar-me.
E porque és uma menina que tem medo de ver a cara ao espelho, e quando te olho por muito tempo, começas a ficar nervosa até eu jurar-te que estou a brincar.
E porque és uma menina como uma flor e cativaste o meu coração e adoras puré de batata, eu te peço que me consagres teu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo tu uma menina como uma flor, peço-te também que nunca mais me deixes sozinho, como neste último mês em Paris; fica tudo como uma rua silenciosa e escura que não vai dar a lugar nenhum; os móveis ficam parados, olham-me com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam amar-me porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê.
E porque tu és a única menina como uma flor que conheço, escrevi uma canção tão bonita para ti, “Minha namorada”, afim de que, quando morrer, tu, se por acaso não morreres também, fiques deitadinha abraçada ao Nounouse a cantar sem voz aquela parte em que digo que tens de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que és uma menina como uma flor e eu estou agora a ver-te subir – tão pura entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que te traz ao nosso ninho, aqui nestas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando disseste que me amavas, desata a bater cada vez mais depressa.
E porque me levanto para recolher-te no meu abraço, e o mato à nossa volta faz-se murmuroso e enche-se de vaga-lumes enquanto a noite desce com os seus segredos, as suas mortes, os seus espantos – eu sei, eu sei que o meu amor por ti é feito de todos os amores que já tive, e tu és a filha predilecta de todas as mulheres que amei; e que todas as mulheres que amei, como tristes estátuas ao longo da álea de um jardim nocturno, foram de mão em mão passando-te até mim, cuspindo-te no rosto e enfrentando a tua fronte de grinaldas; foram passando-te até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque tu és linda, porque tu és meiga e sobretudo… porque és uma menina como uma flor.

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“O Rei Lua e a Serpente”

18.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Povo Karanga do Zimbabwe

O primeiro homem criado por Mwari vivia inicialmente no fundo da terra. O seu nome era Mwetsi. Apesar dos avisos do seu criador, quis viver sobre a terra, que era nesse tempo seca e estéril. Não havia aí ervas, nem arbustos, nem árvores.
Mwetsi começou a lamentar-se da solidão, e Mwari enviou-lhe uma esposa, Estrela da Manhã. Esta mostrou a Mwetsi como fazer fogo. Deitaram-se de cada um dos lados da chama. Ao chegar a noite, Mwetsi introduziu o seu dedo num copo cheio de óleo e ungiu o corpo da Estrela da Manhã. O ventre da mulher inchou-se e, na manhã seguinte, ela concebeu as ervas, os arbustos e as árvores que se expandiram sobre a terra. As árvores cresceram até que as suas copas tocaram no céu. Então, começou a chover. O par viveu em abundância. Mwetsi construiu uma casa, fabricou enxadas e cultivou a terra.
Mas, ao fim de dois anos, Mwari que criar Mwetsi veio procurar Estrela da Manhã e levou-a para a lagoa primordial. Mwetsi lamentou-se durante oito dias e Mwari concedeu-lhe outra esposa, Estrela da Tarde, predizendo-lhe que ela iria levar à sua perda. Com a chegada da noite, Mwetsi deitou-se, como era seu hábito, do outro lado do fogo.
Mas Estrela da Tarde insistiu para que ele dormisse na sua cama. Insistiu também para que lhe afagasse o ventre e os seios com o óleo. Copularam. De madrugada, Estrela da Tarde concebeu galinhas, carneiros e cabras. Na manhã seguinte, foi a vez dos búfalos e antílopes virem à luz. No quarto dia, apareceram os rapazes e raparigas. Nascidos de manhã, os rapazes tornavam-se adultos à tarde. Na tarde do quarto dia, sobreveio uma violenta tempestade.
Estrela da Tarde advertiu o seu marido que corria perigo de morte. No entanto, este quis ainda assim copular com ela, e na manhã seguinte deu à luz leões, leopardos, serpentes e escorpiões. Na tarde do quinto dia, Estrela da Tarde recusou-se a copular com o seu marido; propôs-lhe que copulasse com as filhas, tornadas núbeis. Estas deram à luz filhos que, nascidos de manhã, se tornavam adultos à tarde. Mwetsi tornou-se o rei de um povo numeroso.
Mais tarde, Estrela da Tarde copulou com Serpente e passou a viver com ele. Tornou-se estéril. Mwetsi tentou recuperá-la, mas ela recusou-se a deixá-lo aproximar-se. No momento em que ele se deitou na sua cama, Serpente surgiu e mordeu-o. Mwetsi ficou doente. A chuva deixou de cair, as águas ficaram insalubres e a morte instalou-se entre os homens. Os filhos de Mwetsi estrangularam o seu pai e enterraram-no com Estrela da Tarde. Escolheram outro rei.

Trad.: Manuel João Ramos

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Lenda – “A Origem do Homem”

17.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Povo Selk’nam da Terra do Fogo

Chegado à terra depois de percorrer os recantos do universo, Kenos descansou. Na altura, era um ser só e a própria terra não conhecera ainda outra criatura que não Kenos. Olhou em seu redor e notou que toda a terra era um enorme terreno pantanoso. Tomou então um punhado de terra húmida e com ela esculpiu o sexo masculino. Satisfeito com o resultado, tomou de imediato outro pedaço de terra e esculpiu o sexo feminino. Exausto, deixou as suas criações lado a lado para que secassem durante a noite e foi dormir. Durante a noite, as esculturas de areia uniram-se e engendraram qualquer coisa como um ser humano. Este ser cresceu rapidamente e fez-se adulto num só dia. Afastados durante o dia, os dois sexos voltaram a unir-se na noite seguinte e daqui nasceu o segundo homem. Assim foi durante muitos dias; as esculturas de terra húmida separavam-se durante o dia e voltavam a unir-se à noite, trazendo à vida novas criaturas.
Chegou uma altura em que a terra estava já povoada de seres humanos e os homens haviam finalmente aprendido a fecundar as mulheres. A partir de então, os seres humanos pareciam não querer outra coisa senão reproduzir-se e a terra cedo ficou sobrepovoada. Então, Kenos, o Pai do homem, resolveu intervir. Inquietado com a situação, o criador perguntava-se o que fazer. Surgiram-lhe apenas duas opções. Ou privava os seres humanos do poder da auto procriação ou teria de arranjar forma de lhes dar um espaço maior. Decidiu então usar as suas forças para erguer o céu que pesava sobre a terra. Assim fez e é a Kenos que os homens devem o espaço que hoje têm para se mover e a liberdade de procriar.

Trad.: Manuel João Magalhães

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“A Mulher que criou a Terra”

16.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

América do Norte – Iroqueses
(Mito da criação)

No início não existia terra para se viver, mas lá em cima, no grande azul, habitava uma mulher sonhadora. Uma noite sonhou com uma árvore coberta de rebentos brancos, que iluminava o céu quando as suas flores se abriam, mas que trazia uma terrível escuridão quando elas se voltavam a fechar. O sonho assustou-a, de modo que foi ter com os sábios homens velhos que viviam com ela, na sua aldeia no céu, e contou-lhes.
«Puxem esta árvore mais para cima», implorou-lhes, mas eles não entendiam. Tudo o que faziam era escavar à volta das raízes, tentando arranjar espaço para haver mais luz. Então a árvore caiu no buraco que eles fizeram e desapareceu. Depois disso, deixou de haver luz, apenas escuridão.
Os homens velhos começaram a ter medo das mulheres e dos seus sonhos. Era dela a culpa da luz se ter ido para sempre.
Então puxaram-na até ao buraco e empurraram-na. Sentiu-se a cair, para o fundo, em direcção ao grande vazio. Debaixo dela não existia nada para além de uma terrível quantidade de água. Esta estranha mulher sonhadora do grande azul, certamente teria ficado desfeita em mil bocados, não fosse um peixe-águia que veio em seu socorro. As suas penas formaram uma almofada que permitiu à mulher uma aterragem suave por cima das ondas.
Entretanto, o peixe-águia não conseguia sozinho mantê-la. Ele precisava de ajuda. Chamou pelas criaturas das profundidades. «Temos que encontrar alguma coisa sólida onde esta mulher possa descansar», disse ansiosamente. Só que não existia nenhum pedaço sólido, apenas as águas tormentosas e sem fim.
Um mergulhão desceu na água, para baixo, até ao fundo do mar e trouxe de lá um pouco de lama no seu bico. Encontrou uma tartaruga, espalhou a lama no seu casco e mergulhou outra vez para trazer mais lama.
Então os patos juntaram-se-lhe. Eles gostavam de se sujar com lama e portanto ajudaram a trazer mais alguma nos seus bicos, espalhando-a por cima da tartaruga. Os castores também ajudaram – eles eram grandes construtores – e trabalharam muito, tornando a carapaça da tartaruga cada vez maior.
Agora toda a gente estava muito ocupada e entusiasmada. Este mundo que eles estavam a construir começava a ficar enorme! Os pássaros e os animais apressavam-se, construindo países, continentes, até que por fim tinham construído toda a terra. Durante todo esse tempo, a mulher do céu esteve sempre calmamente sentada nas costas da tartaruga.
Ela ainda aguenta a terra até hoje.

Trad.: Vasco David

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“As Mulheres dos Astros”

15.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Canadá – Povo Snuqualmi

Quando a terra era ainda jovem e com poucas plantas, não existia nem sol nem lua: reinava um claro-escuro eterno, e os homens e animais falavam a mesma língua. Duas mulheres, ocupadas a extrair do solo raízes comestíveis, discutiram certa vez para decidir se era melhor casar com pescadores ou com caçadores, e se as raízes que colhiam ficariam mais apetitosas com carne ou com peixe. Finalmente, desejaram casar com estrelas. Assim fizeram; mudaram-se para o céu com os seus novos maridos; estes traziam-lhes muita caça.
O mundo celeste assemelhava-se à terra, excepto no facto de o vento, a tempestade e a chuva serem aí desconhecidos. Os homens-estrelas permitiram às suas esposas continuar a extrair raízes com a condição de elas não cavarem muito fundo. A mais velha deu à luz um filho a que chamou Lua. Como as duas mulheres se aborreciam, decidiram violar a interdição e fizeram um buraco no manto celeste: o vento entrou no mundo celeste pelo orifício, e elas viram a sua terra natal em baixo.
As mulheres confeccionaram uma longa escada de corda e fugiram. Quando chegaram à aldeia, os aldeãos saudaram-nas, e todos
quiseram ir ver a escada celeste. Por brincadeira, fizeram um baloiço monumental que oscilava de uma montanha a outra, do norte ao sul, e do sul ao norte. Arrastando-se pelo chão, a extremidade da escada cavou as ravinas que existem hoje.
No meio da festa, a mulher que tinha tido o filho confiou-o à guarda de um sapo fêmea velha e cega. Mas as mulheres-salmão raptaram-no. Quando os aldeãos se aperceberam do rapto, deixaram imediatamente a brincadeira do baloiço para procurarem a criança. O rato ficou sozinho junto ao baloiço; roeu a corda e o baloiço caiu, formando um grande rochedo, que ainda hoje existe no vale do rio Snuqualmi.
Depois de diversas tentativas, o gaio-azul conseguiu voar sobre uma enorme muralha, cortada horizontalmente em dois, e cujas metades quase batiam uma na outra; esta muralha impedia o acesso à terra dos mortos, onde vivia a criança Lua, que entretanto tinha crescido. Lua prometeu regressar para junto dos seus; tornou-se célebre devido aos prodígios que realizava, tais como a criação de rios e de montanhas, a diferenciação dos animais, a invenção do fogo, a destruição dos monstros… Por fim, tornou-se na lua.

Trad.: Manuel João Ramos

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A Visita ao Céu

14.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Canadá – Povo Klallan

Nos primeiros tempos, não havia na terra senão uma única mulher, que vivia completamente só. Fez um marido a partir de um bloco de resina; mas, como nessa altura o sol era muito mais quente que actualmente, o homem acabou por fundir-se.
Por isso, os seus filhos odiavam o sol; um deles atirou uma flecha que se cravou no céu, e depois atirou um grande número de flechas que se encravavam umas nas outras, e com as quais construiu uma grande escada, que ele e os seus irmãos subiram até chegarem ao mundo celeste, o qual tinha o aspecto de uma grande pradaria.
Alguns gansos, que nessa altura ainda falavam, indicaram-lhes o caminho da morada do sol. Encontraram depois duas mulheres cegas. Um dos jovens roubou-lhes comida quando uma delas a estendia à outra. Perguntaram-lhes pela morada do sol; elas indicaram-lhes o caminho a seguir e deram-lhes um pequeno cesto contendo seis bagas silvestres.
Os irmãos chegaram à morada do sol, que era um velho que amontoava madeira resinosa num enorme braseiro – tão ardente que os jovens julgaram morrer, e de onde emanava o calor intenso que reinava então na terra.
Deram ao sol as seis bagas, que as comeu; estas multiplicaram-se no seu corpo de tal modo que o velho morreu. A violência do fogo começou a diminuir e, desde então, já não há tanto calor na terra.

Trad.: Manuel João Ramos

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Almada Negreiros – “Manifesto anti-Dantas e por extenso”

13.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este texto virulento do jovem Almada (que contava 23 anos) terá sido escrito entre Abril e Setembro de 1916, sendo, portanto, anterior à conferência de 1917, início oficial do movimento futurista em Portugal.
Saiu este folheto de 8 páginas impresso em papel de embrulho, ao preço de 100 reis, todo grafado em maiúsculas e utilizando aqui e além, para sublinhar a onomatopeia – PIM!-, uns ícones representando uma mão no gesto de apontar. Segundo se diz, terá esgotado nos primeiros dias, por obra do açambarcamento do próprio visado. Apesar disso, ou graças a isso, o escândalo rapidamente se propalou e a polémica causada teve uma grande intensidade. É que, no fundo, não é só a pessoa de Dantas que é atacada, mas toda uma geração de literatos, actores, escritores, jornalistas, etc, que ele personificava: “Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi”. Através da ironia e do sarcasmo, utilizando uma linguagem iconoclasta e insultuosa, abusando de exclamações, repetições e enumerações, Almada zurze o academismo instalado e os valores tradicionais que pretendia abalar.
Em suma, trata-se de um ataque implacável ao edifício cultural e artístico vigente que impedia a entrada e frutificação das novas correntes estéticas em Portugal. É Almada a abrir caminho ao Futurismo e a si próprio. A declamação é Almada.

Manifesto anti-Dantas e por extenso por José de Alamada-Negreiros, Poeta d’Orpheu, futurista e tudo!
Todos os meus livros devem ser lido pelo menos duas vezes para os muito inteligentes e daqui para baixo é sempre a dobrar.
Basta pum basta!!!
Uma geração que consente deixar-se representar por um Dantas é uma geração que nunca o foi. É um coio d’indigentes, d’indignos e de cegos! É uma resma de charlatães e de vendidos, e só pode parir a baixo de zero.
Abaixo a geração!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Uma geração com um Dantas a cavalo é um burro impotente!
Uma geração com um Dantas à proa é uma canoa em seco!
O Dantas é um cigano!
O Dantas é meio cigano!
O Dantas saberá gramática, saberá sintaxe, saberá medicina, saberá fazer ceias pra cardeais, saberá tudo menos escrever que é a única coisa que ele faz!
O Dantas pesca tanto de poesia que até faz sonetos com ligas de duquesas!
O Dantas é um habilidoso!
O Dantas veste-se mal!
O Dantas usa ceroulas de malha!
O Dantas especula e inocula os concubinos!
O Dantas é Dantas!
O Dantas é Júlio!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas fez uma soror Mariana que tanto o podia ser como a soror Inês ou a Inês de Castro, ou a Leonor Teles, ou o Mestre d’Avis, ou a Dona Constança, ou a Nau Catrineta, ou a Maria Rapaz!
E o Dantas teve claque! E o Dantas teve palmas! E o Dantas agradeceu!
O Dantas é um ciganão!
Não é preciso ir pró Rossio pra se ser pantomineiro, basta ser-se pantomineiro!
Não é preciso disfarçar-se pra se ser salteador, basta escrever como o Dantas! Basta não ter escrúpulos nem morais, nem artísticos, nem humanos! Basta andar com as modas, com as políticas e com as opiniões! Basta usar o tal sorrisinho, basta ser muito delicado, e usar coco e olhos meigos! Basta ser Judas! Basta ser Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever!
O Dantas é um autómato que deita pra fora o que a gente já sabe o que vai sair… Mas é preciso deitar dinheiro!
O Dantas é um soneto dele-próprio!
O Dantas em génio nem chega a pólvora seca e em talento é pim-pam-pum.
O Dantas nu é horroroso!
O Dantas cheira mal da boca!
Morra o Dantas, morra! Pim!
O Dantas é o escárnio da consciência!
Se o Dantas é português eu quero ser espanhol!
O Dantas é a vergonha da intelectualidade portuguesa!
O Dantas é a meta da decadência mental!
E ainda há quem não core quando diz admirar o Dantas!
E ainda há quem lhe estenda a mão!
E quem lhe lave a roupa!
E quem tenha dó do Dantas!
E ainda há quem duvide de que o Dantas não vale nada, e que não sabe nada, e que não é inteligente, nem decente, nem zero!
Vocês não sabem quem é a soror Mariana do Dantas? Eu vou-lhes contar:
A princípio, por cartazes, entrevistas e outras preparações com as quais nada temos que ver, pensei tratar-se de soror Mariana Alcoforado a pseudo autora daquelas cartas francesas que dois ilustres senhores desta terra não descansaram enquanto não estragaram pra português, quando subiu o pano também não fui capaz de distinguir porque era noite muito escura e só depois de meio acto é que descobri que era de madrugada porque o bispo de Beja disse que tinha estado à espera do nascer do Sol!
A Mariana vem descendo uma escada estreitíssima mas não vem só, traz também o Chamilly que eu não cheguei a ver, ouvindo apenas uma voz muito conhecida aqui na Brasileira do Chiado. Pouco depois o bispo de Beja é que me disse que ele trazia calções vermelhos.
A Mariana e o Chamilly estão sozinhos em cena, e às escuras, dando a entender perfeitamente que fizeram indecências no quarto. Depois o Chamilly, completamente satisfeito, despede-se e salta pela janela com grande mágoa da freira lacrimosa. E ainda hoje os turistas têm ocasião de observar as grades arrombadas da janela do quinto andar do Convento da Conceição de Beja na Rua do Touro, por onde se diz que fugiu o célebre capitão de cavalos em Paris e dentista em Lisboa.
A Mariana que é histérica começa a chorar desatinadamente nos braços da sua confidente e excelente pau de cabeleira soror Inês.
Vêm descendo pla dita estreitíssima escada, várias Marianas, todas iguais e de candeias acesas, menos uma que usa óculos e bengala e ainda toda curvada prá frente o que quer dizer que é abadessa.
E seria até uma excelente personificação das bruxas de Goya se quando falasse não tivesse aquela voz tão fresca e maviosa da Tia Felicidade da vizinha do lado. E reparando nos dois vultos interroga espaçadamente com cadência, austeridade e imensa falta de corda… Quem está aí?… E de candeias apagadas?
– Foi o vento, dizem as pobres inocentes varadas de terror… E a abadessa que só é velha nos óculos, na bengala e em andar curvada prá frente manda tocar a sineta que é um dó d’alma o ouvi-la assim tão debilitada. Vão todas pró coro, mas eis que, de repente, batem no portão e sem se anunciar nem limpar-se da poeira, sobe a escada e entra plo salão um bispo de Beja que quando era novo fez brejeirices com a menina do chocolate.
Agora completamente emendado revela à abadessa que sabe por cartas que há homens que vão às mulheres do convento e que ainda há pouco vira um de cavalos a saltar pla janela. A abadessa diz que efectivamente já há tempos que vinha dando pela falta de galinhas e tão inocentinha, coitada, que naqueles oitenta anos ainda não teve tempo pra descobrir a razão da humanidade estar dividida em homens e mulheres. Depois de sérios embaraços do bispo é que ela deu com o atrevimento e mandou chamar as duas freiras de há pouco com as candeias apagadas. Nesta altura esta peça policial toma uma pedaço d’interesse porque o bispo ora parece um polícia da investigação disfarçado em bispo, ora um bispo com a falta de delicadeza de um polícia d’investigação, e tão perspicaz que descobre em menos de meio minuto o que o povo já está farto de saber – que a Mariana dormiu com o Noel. O pior é que a Mariana foi à serra com as indiscrições do bispo e desata a berrar, a berrar como quem se estava marimbando pra tudo aquilo. Esteve mesmo muito perto de se estrear com um par de murros na coroa do bispo no que se mostrou de um atrevimento, de uma insolência e de uma decisão refilona que excedeu todas as expectativas.
Ouve-se uma corneta tocar uma marcha de clarins e Mariana sentindo nas patas dos cavalos toda a alma do seu preferido foi qual pardalito engaiolado a correr até às grades da janela gritar desalmadamente plo seu Noel. Grita, assobia e rodopia e pia e rasga-se e magoa-se e cai de costas com um acidente, do que já previamente tinha avisado o público e o pano também cai e o espectador também cai da paciência abaixo e desata numa destas pateadas tão enormes e tão monumentais que todos os jornais de Lisboa no dia seguinte foram unânimes naquele êxito teatral do Dantas.
A única consolação que os espectadores decentes tiveram foi a certeza de que aquilo não era a soror Mariana Alcoforado mas sim uma merdariana-aldantascufurado que tinha cheliques e exageros sexuais.
Continue o senhor Dantas a escrever assim que há-de ganhar muito com o Alcufurado e há-de ver que ainda apanha uma estátua de prata por um ourives do Porto, e uma exposição das maquetes pró seu monumento erecto por subscrição nacional do “Século” a favor dos feridos da guerra, e a Praça de Camões mudada em Praça Dr. Júlio Dantas, e com festas da cidade plos aniversários, e sabonetes em conta “Júlio Dantas” e pasta Dantas prós dentes, e graxa Dantas prás botas e Niveína Dantas, e comprimidos Dantas, e autoclismos Dantas e Dantas, Dantas, Dantas, Dantas… E limonadas Dantas- Magnésia.
E fique sabendo o Dantas que se um dia houver justiça em Portugal todo o mundo saberá que o autor de Os Lusíadas é o Dantas que num rasgo memorável de modéstia só consentiu a glória do seu pseudónimo Camões.
E fique sabendo o Dantas que se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.
Mas julgais que nisto se resume a literatura portuguesa? Não Mil vezes não!
Temos, além disto o Chianca que já fez rimas prá Aljubarrota que deixou de ser a derrota dos Castelhanos pra ser a derrota do Chianca.
E as pinoquices de Vasco Mendonça Alves passadas no tempo da avózinha! E as infelicidades de Ramada Curto! E o talento insólito de Urbano Rodrigues! E as gaitadas do Brun! E as traduções só pra homem do ilustríssimos excelentíssimo senhor Mello Barreto! Embaixador de Portugal em Madrid. E o frei Matta Nunes Moxo! E a Inês Sifilítica do Faustino! E as imbecelidades de Sousa Costa! E mais pedantices do Dantas! E Alberto Sousa, o Dantas do desenho! E os jornalistas do Século e da Capital e do Notícias e do Paiz e do Dia e da Nação e da República e da Lucta e de todos, todos os jornais! E os actores de todos os teatros! E todos os pintores das Belas-Artes e todos os artistas de Portugal que eu não gosto. E os da Águia do Porto e os palermas de Coimbra! E a estupidez do Oldemiro César e o Dr. José de Figueiredo Amante do Museu e ah oh os Sousa Pintos hu hi e os burros de Cacilhas e os menos do Alfredo Guisado! E o raquítico Albino Forjaz de Sampaio, crítico da Lucta a quem Fialho com imensa piada intrujou de que tinha talento! E todos os que são políticos e artistas! E as exposições anuais das Belas-Arte(s)! E todas as maquetas do Marquês de Pombal! E as de Camões em Paris; e os Vaz, os Estrela, os Lacerda, os Lucena, os Rosa, os Costa, os Almeida, os Camacho, os Cunha, os Carneiro, os Barros, os Silva, os Gomes, os velhos, os idiotas, os arranjistas, os impotentes, os celerados, os vendidos, os imbecis, os párias, os ascetas, os Lopes, os Peixotos, os Motta, os Godinho, os Teixeira, os Câmara, os diabo que os leve, os Constantino, os Tertuliano, os Grave, os Mântua, os Bahia, os Mendonça, os Brazão, os Matos, os Alves, os Albuquerques, os Sousas e todos os Dantas que houver por aí!!!!!!!!!
E as convicções urgentes do homem Cristo Pai e as convicções catitas do homem Cristo Filho!…
E os concertos do Blanch! E as estátuas ao leme, ao Eça e ao despertar e a tudo! E tudo o que seja arte em Portugal! E tudo! Tudo por causa do Dantas!
Morra o Dantas, morra! Pim!
Portugal que com todos estes senhores conseguiu a classificação do país mas atrasado da Europa e de todo o Mundo! O país mais selvagem de todas as Áfricas! O exílio dos degredados e dos indiferentes! A África reclusa dos europeus! O entulho das desvantagens e dos sobejos! Portugal inteiro há-de abrir os olhos um dia – se é que a sua cegueira não é incurável e então gritará comigo, a meu lado, a necessidade que Portugal tem de ser qualquer coisa de asseado!
Morra o Dantas, morra! Pim!
José de Almada-Negreiros
Poeta d’Orpheu
Futurista e tudo!

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“Origem das Estações e dos Orifícios”

13.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nova Guiné. Baruya

No princípio, Sol e Lua confundiam-se com a Terra. Tudo era pardo e cinzento. Homens, espíritos, animais e plantas viviam juntos e falavam a mesma língua. Mas os homens não eram como hoje os conhecemos; o pénis do homem não tinha qualquer orifício e a vagina da mulher estava completamente fechada.
Certa vez, Sol e Lua decidiram afastar-se da Terra e tomarem o céu como lar. Olhando os homens lá do alto, Sol decidiu que havia alguma coisa a fazer pelo ser humano. Combinou então com Lua que, enquanto estivesse no céu, esta teria de descer à Terra. Quando Sol desejasse repousar, Lua tomaria o seu lugar e governaria os céus. Conseguiram assim alternar o dia e a noite, a chuva e o calor e pouco tardou para que criassem as estações. Na Terra, os animais separaram-se dos humanos para irem viver na floresta e com eles levaram os espíritos que, para sempre, se tornariam inimigos do homem. A língua comum desapareceu e não mais os homens comunicaram com os animais, excepto com os cães.
Sempre observador e perspicaz, Sol apercebeu-se então que o homem e a mulher ainda se encontravam desprovidos de quaisquer orifícios: não poderiam multiplicar-se e construir uma sociedade suficientemente grande para que pudessem sobreviver sem a ajudados espíritos e dos animais. Lançou então uma pedra, «como a lua», sobre uma fogueira. A pedra explodiu e as lascas acabaram por perfurar o homem e a mulher que agora podiam copular e reproduzir-se. Os primeiros Baruya obedeceram assim à vontade de Sol, multiplicando-se e povoando a Terra. Ainda por perfurar, não tardou para que os cães começassem a dizer mal dos homens. Enfurecidos, os Baruya organizaram-se, perseguiram os cães e alvejaram-nos com flechas que acabaram por lhes perfurar o sexo. Desde então, os cães deixaram de falar e hoje apenas uivam à Lua.

Trad.: Manuel João Magalhães

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“A Criação”

12.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

(América do Norte – Povo Diguenhos)

Quando Tu-chai-pai criou o mundo, a terra era a mulher e o céu o homem. Um dia, tomado pelo desejo, o céu desceu sobre a terra e não mais quis voltar. Sentados junto ao lago que era a terra, Tu-chai-pai e o seu irmão sentiam-se a sufocar com o peso do céu que lhes caía sobre a cabeça. «E agora, o que fazemos?», perguntou o demiurgo. «Não faço ideia», respondeu de imediato o irmão. «Vamos dar um passeio», sugeriu Tu-chai-pai.
Passearam por uns momentos e sentaram-se a descansar. «E agora, que fazemos nós?», perguntou de novo o Criador. O seu irmão voltou a responder que não sabia. Então Tu-chai-pai sussurrou a palavra mágica we-hicht por três vezes, pegou em tabaco, enrolou-o e fumou três vezes. A cada trago de fumo, o céu erguia-se sobre as suas cabeças. O irmão também fumou e o céu distanciava-se cada vez mais. Quando fumaram juntos, mandaram o céu para tão longe que este tomou a forma côncava que hoje se lhe conhece.
De seguida, os irmãos resolveram colocar Norte, Sul, Levante e Poente nos seus respectivos pousos e desenharam sobre a terra duas linhas perpendiculares. Tu-chai-pai explicou então ao seu irmão que viriam de cada um destes pontos três ou quatro homens e disse-lhe que era hora de partir e criar rios, vales e montanhas. «Mas porque te dás tu a todo este trabalho?», perguntou o irmão ao Criador. Tu-chai-pai explicou então que, quando chegassem os homens, estes procurariam em vão comida e água bebível; o oceano estava já feito, mas faltavam ainda os rios. Foi depois fazer as florestas e o irmão voltou a perguntar: «Mas que fazes tu, grande tolo?» Infinitamente paciente, Tu-chai-pai respondeu que não tardaria que os homens sentissem frio e que era necessário criar algo que os pudesse aquecer.
Tu-chai-pai voltou a perguntar: «E o que fazemos agora?» O irmão voltou a responder que não sabia e que estava já a ficar cansado da Criação. O demiurgo disse-lhe então que era já hora de fazerem o homem. Tomou um pouco de lama nas mãos e fez os primeiros homens, os índios. De seguida, fez os Mexicanos. Foi fácil fazer o homem mas, quando chegou à altura de desenhar a mulher, Tu-chai-pai achou que deveria empenhar-se um pouco mais; demorou mais tempo a moldar a mulher do que a erguer os vales e as montanhas do mundo. Ordenou aos homens que viajassem para o Levante, de onde nascia, pela primeira vez, o sol. Os índios procuraram luz e, quando a encontraram, ficaram tão felizes e emocionados com a sua beleza que prometeram prestar culto a Tu-chai-pai por tão maravilhosa criação. O demiurgo avisou o seu irmão de que o sol não poderia ficar só e que era já hora de criar a lua. Esta, avisou, deveria partilhar o céu com o sol mas morreria regularmente. Quando a lua começasse a decrescer e a decrescer, os homens deveriam fazer corridas para tentar manter a lua viva. Os homens cumpriram a sua parte e os irmãos criadores, cansados de tanto trabalho, não voltaram a criar nada. Hoje, mais não fazem do que fumar tabaco enquanto se divertem com as mesquinhices do homem.

Trad.: Manuel João Magalhães
(As “gralhas” na leitura não foram corrigidas)

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História 168 – “A Raposa e o Camponês”

10.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Algum tempo depois a Sra Raposa viu-se nos mesmos trabalhos: uma matilha de cães de caça perseguia-a e desta vez, nem uma moita de espinheiro lhe aparecia para se esconder. Sentia-se já a cair de cansada por ter corrido tanto, quando teve a sorte de ver um camponês à porta de sua casa:
Bom homem! – pediu ela aflita – tenha pena de mim, que venho a correr há tanto tempo, perseguida por uns cães. Deixe-me esconder no seu celeiro!
Esconde-te à vontade, Raposa! – consentiu o camponês.
A Raposa entrou logo no celeiro e ocultou-se bem, debaixo de uns sacos, atrás dos montes de trigo. Os cães vieram a ladrar e atrás deles os caçadores, que perguntaram ao dono do celeiro:
– Não viu passar por aqui a Raposa?
Ouvindo a pergunta, a Sra. Raposa pôs-se a espreitar para ver o que eles faziam. E ouviu o Camponês responder: – Ná, não senhor, não vi passar nenhuma raposa por aqui.
Mas ao mesmo tempo indicava o celeiro com a mão, fazendo um gesto que significava:
– Está ali dentro do celeiro. Se quiserem vão lá apanhá-la.
Os caçadores é que não entenderam ou não repararam no gesto e seguiram para diante. A Raposa, então, saiu do seu esconderijo e pôs-se a andar a caminho da mata.
– Pst! Pst! ó Sra. Raposa — chamou o Camponês.- Que uso é esse de receber um favor tão grande como o que eu lhe fiz agora e pôr-se a andar sem ao menos dizer obrigada?!
A Raposa pôs-se a rir.
– Boa ideia, amigo! Tenho a agradecer-lhe as palavras que disse, é certo, mas como nada lhe devo pelo gesto que fez, estamos pagos!
E a Raposa, espertalhona, lá foi a correr para a mata, onde se escondeu.

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Daniel D. Dias – “Glória ao mundo digital”

10.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estou aqui,
sentado,
nesta cave obscura,
no centro do mundo
Lá fora
há cheias, nevões, secas, corrupções, golpes de estado, burlas, revoluções
mas nada se agita no meu corpo,
nada perturba a minha mente
Existirá mesmo alguma coisa lá fora?
Estou aqui sentado em pleno mundo digital
e posso decidir
o que existe
o que é verdadeiro
o que é importante
Agora
neste fascinante mundo
fratalizado, bip-mapizado, pixelizado
posso apagar ou guardar
num qualquer limbo impoluto e reservado,
sem risco de castigo ou penitencia
tudo o que quero…
Até o inferno, agora, está ao alcance dum clique
Ah como é fácil comunicar
reunir todos os amigos numa só página da internet
confraternizar com eles
sem ter de lhes abrir a porta
ou oferecer-lhes um copo de vinho
O que não é digital pode ignorar-se:
a realidade tornou-se matéria negra
que nem o scâner e os telescópios podem detetar
Salvé!
Bem hajas abençoada tecnologia!
Finalmente posso ser um deus verdadeiro
e abandonar a realidade analógica do meu corpo
ao cuidado desses senhores de bata branca
que na ponta dos seus dedos fininhos
reduzem tudo a nomes estranhos
(Sei que eles tudo farão para que o meu traseiro sensível
não fique dormente de estar sentado.
Sei que se for necessário,
digitalizarão as minhas nádegas
para que se tornem virtuais e não me incomodem…)
Salvé!
Bem hajas, mundo digital!
Finalmente posso tratar a minha vida desfocada e triste
Num qualquer programa de Photoshop
E melhorá-la, dar-lhe brilho, acrescentar-lhe fantasia
O meu passado
revisto e melhorado
ficará depositado para memória futura
para que todos possam consultá-lo
e prestar-me a homenagem há muito devida
Salvé!
Posso finalmente correr mundo
Percorrer as rotas de migração das aves e das baleias
Viajar no espaço cósmico ou no tempo
e tudo isso sem asas nem motores
e posso entrar onde quiser,
sem nada pagar, sem correr riscos
nos templos da arte e da ciência,
nos teatros de guerra e fóruns mundiais
nos hospícios e lupanares,
nos lugares mais sagrados do bem e do mal…
Agora
posso ser benemérito sem limites,
e corajoso e intrépido como sempre sonhei
Posso proteger as espécies ameaçadas
combater a desertificação, o trabalho infantil
lutar contra ditaduras, a exploração capitalista e a violência doméstica
fazer companhia a doentes, velhos e sem abrigo…
Posso contribuir até para derrubar ditaduras…
E, tudo isto, sem sair daqui
Sentado,
nesta cave obscura
no centro do mundo!
(Só há uma coisa que me está interdito fazer
deixar de pagar a electricidade…)

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Daniel D. Dias – “Eu sou tu”

10.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu sou tu,
desconchavado mas sou
Talvez não te pareça, porque agora uso óculos de aro fino
Mas acredita, sou tu
Tenho estado aqui parado
À espera que eu próprio me reconheça
Mas os olhos e as pernas que se atravessam no caminho
Não me dão um minuto de concentração
Sei que sou tu
Não porque alguém me dissesse
(Afinal sempre tive a genética do teu nariz, o pénis curvado
A maçã de adão dorida da angústia)
Mas porque não é matematicamente possível ser eu
Porque não tenho arcaboiço para ser eu próprio
Esta porra de viver a teogonia dos outros
E cavalgar projetos herdados há tantas gerações
Não é própria para quem está aqui de passagem
O sideral espaço da minha mente está vazio
E as minhas mãos estão crispadas
de tanto agarrar essa solidão grotesca
que o relojoeiro louco a quem chamam deus
espalhou por aí

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Daniel D. Dias – “Marinheiro”

10.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Percorro a vida como um barco sem rumo
Oiço o vento, as gaivotas e o marulhar das ondas e gosto da música que compõem
E nunca tenho medo porque sinto o olhar do pai por perto, mesmo não estando lá
Acosto em qualquer porto ignoto sem receio
porque ganho coragem no regaço doce da minha mãe água
Estou só, mas a solidão não me aflige
porque um canto de sereias amigas me acompanha
E nem me importo de ficar triste porque gosto da minha tristeza que não é triste
Sei que a minha viagem não terminará e não me aflige que seja eterna
O que receio é nada ter que fazer ou parar de pensar,
Ou que os golfinhos e os peixes voadores me abandonem

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Daniel Dias – “Os melhores poemas”

10.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os melhores poemas?
Não cheguei a escrever
Podia tê-lo feito, mas não fiz
Alguns perdi
Outros não cheguei a encontrar
Que importância tem isso?
Para que servem afinal os poemas
mesmo quando são os melhores poemas?
Vale a pena perder tempo com coisas óbvias?
memorizar pensamentos que ganham asas?
Decorar o canto das aves esquivas?
coleccionar as cores da natureza?
Porque se insiste em acender velas
tendo à mão a abundante luz do sol?

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Cardenal Martinez – “Salmo do homem…”

03.05.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Salmo do homem que vê a realidade e não se cala.

Ouve, Senhor, estes versos que te rezo

Ao contemplar a realidade em que vivo.

Maldito seja o sistema que não deixa sonhar os poetas

Nem permite dizer a verdade a quem pensa.

Serão seus dias de luto e de lamento,

Porque matou no Homem o mais digno.



Maldito o sistema que não pratica a justiça

E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.

Terá que justificar sua conduta ante a história

E não encontrará nenhuma palavra de defesa.



Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza

Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;

Do mesmo modo que progrediu cairá,

Porque construiu seus alicerces

Sobre corpos vivos e sangues inocentes.



Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência

E coloca no seu lugar o “deus dinheiro” , o “deus sexo”, e “deus progresso”,

Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,

Porque o coração do homem foi bem feito

E ninguém pode matar em nós

Esta sede de infinito que nos queima.



Feliz será, porém,

O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,

Não terá motivos para se envergonhar de nada,

Nem terá que baixar os olhos 

Ante qualquer homem honesto.



Feliz o homem que à força de interiorizar 

Se fez livre por dentro

E não se importa já com a denúncia dos fortes,

Serão seus dias como o trigo da terra.

Cheios de sol e esperança partilhada

E o seguirão os povos da terra.



Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes

Nem acredita nos discursos do governo;

Feliz o homem que assim pensa,

Porque terá sempre tranquila a sua consciência.

Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.

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Cristina Guedes – “Não há dia nenhum”

30.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quantos segundos contados pelo marcar do pulso
ora apressados, ora descontentes
no vagar que todas as memórias têm e na dor
que muitas arrastam
 
 
Não há dia nenhum que detenha a memória viva
nem leis nem regras
que afinem e encaixem sentimentos
no politicamente correcto
 
Não há dia nenhum em que o teu rosto não surja do nada
pra me sacrificar ou as tuas palavras mordazes pra me sangrar
 
Não há e nem vai haver forma de conter o rio
de dor que ficou quando decidiste esconder e mentir
omitir ou devassar sentidos e vidas
 
Sabes, não sabes?
Que dia nenhum passará
sem que estejas presente neste rio!
Não haverá dia nenhum e nem isso podes impedir.

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