Nota biográfica

Alzira Guedes, nasceu em 21 de Julho de 1968. Psicóloga clínica e docente. Escreve porque, diz, “escrever é uma continuidade de respirar.”

Cristina Guedes – “Aqui jaz: saudade”

30.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Antigamente era fácil 
falar de rotinas ou de cansaços, 
de olheiras e de corpos partidos, 
porque nada disso me deixava mal. 
Na segurança do amor ou no escaldar 
da paixão não cabem queixas ou indagações. 

É um quebrar de corpos sem dor, 
um esgotar de horas nocturnas 
onde a rotina do teu suor na minha pele 
causava dependência do prazer, 
mamilos espetados furando a palma das tuas mãos, 
ancas viciadas no samba dos teus quadris, 
num ir e vir, beijos que caíam, 
desabavam por pescoços e bocas por coxas e olhos. 

Equiparava as tuas palavras sussurradas e 
sedutoras aos murmurios de fundo das conchas do mar, 
á brisa redentora do final da tarde na colina, 
antigamente eras o mel que me adoçava os dias.
 
É por isto que escrevo, com receio 
de que as minhas memórias se percam 
no fundo do mar que já não somos, 
numa demência de rituais e febres, 
num transladar de novas direcções e objectivos. 
Sou eu a praguejar, ainda viva, ainda presente 
nos meus deslumbramentos acerca de ti. 
Ainda presa a momentos de luxo 
nesse tal planeta de afectos onde o teu nome 
em neon ilumina corredores e salões, 
esquinas e ruas convexas. 
Se te doer o presente, grava-me editada em mp3, 
pra que possas continuar a viver do passado que já fomos, tu e eu. 
Mas nesse dia jorra-me pétalas em cima 
e beija o rosto já manchado de humidade, 
logo abaixo onde diz : Aqui jaz Saudade.

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Cristina Guedes – “Coroação”

30.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nas tuas mãos, o corpo nu, embriagado
bebe sequioso a poção que para mim
houveras preparado, 
e a valsa dos teus dedos continua,
na minha alma ganhando trono
depois de me beberes inteira,
branca e nua…
 
Qual semen desmaiado, ensaias novo tango,
passo doble e o meu sexo corresponde
ritmado, ás danças tântricas fazendo lei.
 
E a manhã nasce com a tua coroação,
clitóris e glande cansados,
poros e moléculas gritando:
– já és meu senhor, meu rei!

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Cristina Guedes – “No Carnaval dos teus braços”

30.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

abrir a boca ao beijo
abrir as pernas ao segredo
que me vais contar com a mão
abrir o sexo á palavra quente
abrir-me em copas, ardente
deitar as pálpebras no cobertor
da tua pele e beber mel

vou sentir-te distante
dentro de mim
abrir-te o desejo guardado
e provar de ti a noite,
o nosso ardor de tempo cozinhado
vou bordar um sem-nexo,
mastigar o poema revelado,
esgrimir esse teu sexo
Virás pedir-me pela manhã
o café e a nicotina
sussurrar o amor em surdina
espreguiçar-me ei no teu abraço e
sem grande estardalhaço
enroscar-me novamente

fazer do breve eternamente
e oferecer-me ao diálogo carnal
das nossas mãos urgentes
deslumbrar-me ás
com os mistérios do Sabugal e,
no teu sexo, eu, mascaro-me de gueixa
e serves-me uma e outra vez (até esgotar),
o Carnaval…

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Cristina Guedes – “A conjugação limitada”

30.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amas e dizes exijo e mostras intolerância.
Amar assim sai caro
Com juros, impostos e lucros,
que só o fazes até ao sinal vermelho
que depois deles já só odeias
e dizê-lo é feio. E desfeias o acto
Amar, verbo transitivo conjugado
no avesso em que te esqueço ou te possuo.
Eu que te não sei possuir mais do que amar é
não ser incondicional mas voluntário.
Já é bom sem magoar
este verbo, afinal
conjugado no singular.
Eu amo-te com reticências.

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Pedro Barão de Campos – “O Sonho”

28.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Às vezes, tenho um sonho 

Que de noite surge na minha 

almofada Como se fosse 

trazido por uma brisa doce Ou 

um beijo quente que me aconchega.

Ali acontece

Que de um instante ao outro, tudo

muda e fico sonho

Entre a realidade de estar a dormir e a 

ilusão do sonho que
me
invade e me transforma

E há uma linha ténue onde tudo se

mistura e cresce…

E eu sou turista breve entre um e outro

Mundo

No transcendente instante que se 

demora em mim.

De repente, sou todo sonho!

E o que era a cama é agora uma fresca

erva verde que me

cerca até ao arvoredo

E eu estou estendido nesse prado de

Encanto

Onde os sonhos são a forma das 

gaivotas e as copas das

árvores a dançar ao som de uma

melodia inconcebível…

Debaixo de um céu azul profundo

Sinto o vento a passar por mim e pelas

minhas mãos

quando as ergo em direcção ao Sol

Escuto a voz de um som que sopra por

entre a folhagem e

produz música…

Como um piano em que as teclas são 

as folhas e o pianista

é o pensamento

E vejo… a exaltação plena de uma 

tranquilidade nova

Vejo a natureza… e sou feliz.

De um lado há vacas a pastar

E as suas manchas que são pingos de 

tinta, deixados cair

por algum artista que conheci

Levam-me a subir a encosta até ao

topo do monte.

Pelo caminho, conheço aves de cores

Vivas

E revejo pedras que me falam ao 

passar.

Uma cabra da montanha fita-me
ao 
Longe

E um texugo do bosque ri-se da minha 

dificuldade em

caminhar.

Chego, finalmente, até um cipreste

E cumprimento-o ao chegar.

Do interior da casca, sinto um espírito

Pulsante

Que me responde sem falar.

Olho de relance…

Talvez tenha cem anos ou mais.

Falou-me do tempo e das coisas que 

Vira

Disse-me que ali, há mil anos atrás, 

havia um vulcão

Uma boca cheia de vento, fogo e 

Erupção

Onde a Terra se abria

Para extravasar a sua solidão.

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Pedro Barão de Campos – “Prisioneiro”

28.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vem, vem comigo

0 peito é quente

A madrugada é fria

E a saudade que tenho de um sonho

É toda a vida que me resta.

Sou apenas as mãos pintadas Sim, 

assim, estas mãos pintadas

Numa cor que tu não vês

Sou apenas o horizonte longe

Essa estonteante montanha 

De ilusões em neve fina Onde 

nunca irás

Sou esse firmamento de estrelas apagadas E

na verdade, a minha perdição é a liberdade

Que por querer ser livre 

Refém me torno em 

cada instante…!

Sou um prisioneiro faminto 

Num país feito de saudade.

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Pedro Barão de Campos – “Sou um pássaro”

28.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sabes,

Sou um pássaro.


Só hoje descobri

Por entre as arcadas do monumento alado em tua honra

Quando esticava os braços que eram asas à sombra

Olhei de relance para um espelho fixo

No outro lado da rua
E vi um corpo de pássaro…

Uma memória de pássaro…

Um levitar… de pássaro

Que não se escondia… nem calava.

Vi uma alma de pássaro…

Que não fugia nem se camuflava

No denso arvoredo que ainda haveria de existir

Junto ao lago sagrado do artista genuíno
Que compõe melodias feitas de si próprio
E se transforma… em breves instantes
Em instantes de si mesmo…

Nos pedaços da obra que inventa

Da escultura que molda

Do poema que escreve…

E ele a sua métrica… a sua regra…a sua forma… o seu

Sentido…

De sonhador…

De apaixonado…

De amante…
E crepita… luz! Crepita!

Cintila firmamento suave! Eu espero por ti… pela tua voz!

Espero… pelo teu sabor sumptuoso… febril… Quente…

Pelo teu silvo ardente…

Essa melodia divinamente harmoniosa

Que estipula… todos os limites do céu…

Aqui…

Ali…

No infinito…


Por dentro do vácuo ermo e sorridente

Desse lampejo de liberdade que é voar…

Assim…

Com as asas… Abanando…

Assim.…

Porque, sabes?

Sabes… meu bom amigo.. 

Hoje descobri…

Sou um pássaro!

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Daniel de Sá – “A minha amada”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Nada é comparável à minha amada.

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Daniel de Sá – “Isabel e Fernando”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dois leões lutaram pela mesma corça,
E vieram dois leopardos e roubaram-na.
Por isso já Isabel pode lavar a camisa na água de Albaicín
E o rei pode beber das lágrimas de Aynadamar.

Vede, ó príncipes, com que cuidado foi posta cada pedra,
Em Granada, a esplêndida, e plantada cada rosa.
Uma mãe não veste a filha com mais carinho.
Contemplai os versos dos poetas
Que ornamentam as paredes da Alhambra,
E as palavras do Alcorão que as tornam veneráveis.
Granada curvou a cerviz perante a força das vossas armas.
Mas respeitai os vencidos e a memória dos que pereceram.
Perante as pedras e as rosas de Granada,
Dizei ao menos: “Como eles a amaram!”

A luta dos dois leões refere-se à guerra entre El Zagal e Boabdil, seu sobrinho, que roubara o trono ao pai, Mulhacén (Muley Assam), que morrera em 1585 e contra o qual também lutara. Os dois leopardos são Isabel de Castela e Fernando de Aragão.
Aynadamar é um topónimo composto por “Ayn” (“olho”, com o significado de nascente), e “damar” (lágrimas), talvez como referência à maneira como surge a água nessas fontes que abastecem a zona alta de Granada, Albaicín, coração da cidade velha.

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Daniel de Sá – “Granada em mãos infiéis”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha amada desnudou-se e cobriu-se de vergonha.
Só a vergonha veste agora a minha amada.
A minha amada dormiu com o infiel,
Entregou-se nos seus braços e deitou-se na sua cama.
Esqueceu as juras de amor que eu lhe fizera
E deixou-se seduzir por falas mansas.

Como eu entendo que ele a tenha amado,
A ela, a mais amável de todas!

Oh, se eu pudesse tê-lo cegado antes que ele a contemplasse!
Mas não tocarei sequer um só dos seus cabelos,
Para não tornar mais infeliz ainda a minha amada.

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Daniel de Sá – “Boabdil…”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ó rei cristão, por que roubaste os meus cordeirinhos,
Nascidos para serem livres nos prados de Granada?
Eles foram amamentados pelos seios de sua mãe
E comeram à minha mesa.

Ainda tenho nas faces o calor dos seus beijos,
Sinto nos braços o doce peso dos seus corpos,
Nas mãos, a ternura das suas carícias,
E nos lábios o sabor das suas faces.

Por quantos palácios pode trocar-se um filho?
Quantas muralhas vale aquele que gerámos?

Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos.
Mas eu não posso dar aquela que outros construíram
E pela qual muitos morreram.
Em Granada há outros pais que amam
Como eu amo o dócil Yusuf e o meigo Ahmed.
E nenhum teria Granada para trocar pelos filhos.

Antes tomasses o meu escudo como troféu de guerra
E o meu cavalo como despojo de batalha,
Porque isso seria sinal de eu estar morto.

Ó rei cristão, ó príncipe de Castela,
A minha dor é imensa.
Se não me atiro sobre a ponta de um alfange,
É para que não haja mais um morto por quem chorar
Nem menos um vivo para chorar os mortos.

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Daniel de Sá – “Morayma…”

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Da mais alta torre de Granada
Vejo partir o meu amado para a batalha.
Choro, mas sem lágrimas,
Porque quero perceber até o último grão da poeira
Levantada pelos cascos do seu cavalo,
Forte como a morte
E belo como a vida.

Eu temo a coragem do meu amado.
Ele despreza a vida
Porque sabe que na sua morte
Eu o amarei mais ainda.
Mas amar mais do que eu amo já é só dor,
Já só é tristeza.

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Palavras 162 – Daniel de Sá

22.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Daniel de Sá, de nome completo, Daniel Augusto Raposo de Sá nasceu na Maia, S. Miguel, Açores, em Março de 1944. Autor com vasta obra, constituída por romances, crónicas, novelas, ensaios e contos.

Daniel de Sá foi professor do ensino primário. Estudou Filosofia e Teologia em Valência e Granada, exerceu vários cargos públicos, escreve em vários jornais e já publicou mais de uma dezena de livros.
Foi agraciado pelo Presidente da República num 10 de junho, Dia de Portugal, Camões e das Comunidades, com o Grau de Oficial da Ordem Infante D. Henrique pela relevância de sua obra e por sua contribuição na expansão da cultura portuguesa.

Como acontece muitas vezes li, por acaso, um poema de Daniel de Sá. Ouviu-o, também certamente por acaso e teve a amabilidade de me enviar uma mensagem agradecendo a minha leitura e onde se pode ler: 
“Não me considero poeta, mas faço, às vezes, umas coisas por graça. Ofereci há meses a minha mulher um livrinho não comerciável. Mas penso publicá-lo em breve em edição bilingue, Português/Castelhano. Se ler alguma coisa do anexo, perceberá porquê. E, se algum dos poemas lhe interessar, terei muito gosto se o usar no Raposa.”

Pois, interessou sim, senhor e vamos ter neste “Palavras de Ouro” a poesia de Daniel de Sá. Começamos por ouvir as palavras que o poeta dedicou a Maria Alice, sua mulher, na introdução do tal “livrinho não comerciável” intitulado “As rosas de Granada” e onde ficamos a sentir e perceber a atmosfera onde se desenrolam os poemas.

“Nunca escrevi um poema para ti, Maria Alice. Porque sempre te julguei superior a toda a poesia. Pelo menos a minha. Mas, por um desses acasos que são mais criadores do que qualquer momento de inspiração, inventei um poeta árabe de Granada – Ahmed Ben Kassin. E fui-lhe dando vida pela voz que lhe dava.
A maior parte dos poemas de Ahmed Ben Kassin são dedicados à sua amada. Para os compor, imaginei que ele a amasse tanto como eu a ti. E assim, numa espécie de metempsicose consciente, ele foi eu ou eu fui ele em cada poema. Até um pouco também nos que dedicou a Granada, cidade que me fascina. Ou a Boabdil, o trágico e último rei dela. Ambos terão partido no mesmo dia para o exílio nas Alpujarras, a sul da Serra Nevada, e mais tarde para Marrocos. Ahmed Ben Kassin assistiu ao choro de Boabdil, ao voltar-se num último adeus à cidade que tanto amava. E também ao pranto do rei deposto quando, pouco tempo depois, perdeu Morayma, a outra imensa paixão da sua vida.
Não me perguntes nada mais acerca de Ahmed Ben Kassin e da sua amada. Da minha sei que vive comigo há trinta e sete anos. Dia a dia, que hoje, quando isto escrevo, se completam.
Por isso este livro te pertence. Não te é dedicado simplesmente, como os outros, mas é teu, teu fisicamente e não apenas em intenção. Todos os exemplares te são oferecidos.
Seguem-se, então, os meus poemas de Ahmed Ben Kassin. Ou teus, aliás.
Maia, na nossa casa, em 31 de Março de 2011
Daniel”

Morayma vendo partir Boabdil

Da mais alta torre de Granada
Vejo partir o meu amado para a batalha.
Choro, mas sem lágrimas,
Porque quero perceber até o último grão da poeira
Levantada pelos cascos do seu cavalo,
Forte como a morte
E belo como a vida.

Eu temo a coragem do meu amado.
Ele despreza a vida
Porque sabe que na sua morte
Eu o amarei mais ainda.
Mas amar mais do que eu amo já é só dor,
Já só é tristeza.

Boabdil chorando os filhos prisioneiros

Ó rei cristão, por que roubaste os meus cordeirinhos,
Nascidos para serem livres nos prados de Granada?
Eles foram amamentados pelos seios de sua mãe
E comeram à minha mesa.

Ainda tenho nas faces o calor dos seus beijos,
Sinto nos braços o doce peso dos seus corpos,
Nas mãos, a ternura das suas carícias,
E nos lábios o sabor das suas faces.

Por quantos palácios pode trocar-se um filho?
Quantas muralhas vale aquele que gerámos?

Se eu tivesse o mundo, trocá-lo-ia pelos meus filhos.
Mas eu não posso dar aquela que outros construíram
E pela qual muitos morreram.
Em Granada há outros pais que amam
Como eu amo o dócil Yusuf e o meigo Ahmed.
E nenhum teria Granada para trocar pelos filhos.

Antes tomasses o meu escudo como troféu de guerra
E o meu cavalo como despojo de batalha,
Porque isso seria sinal de eu estar morto.

Ó rei cristão, ó príncipe de Castela,
A minha dor é imensa.
Se não me atiro sobre a ponta de um alfange,
É para que não haja mais um morto por quem chorar
Nem menos um vivo para chorar os mortos.

Granada em mãos infiéis

A minha amada desnudou-se e cobriu-se de vergonha.
Só a vergonha veste agora a minha amada.
A minha amada dormiu com o infiel,
Entregou-se nos seus braços e deitou-se na sua cama.
Esqueceu as juras de amor que eu lhe fizera
E deixou-se seduzir por falas mansas.

Como eu entendo que ele a tenha amado,
A ela, a mais amável de todas!

Oh, se eu pudesse tê-lo cegado antes que ele a contemplasse!
Mas não tocarei sequer um só dos seus cabelos,
Para não tornar mais infeliz ainda a minha amada.

Isabel e Fernando

Dois leões lutaram pela mesma corça,
E vieram dois leopardos e roubaram-na.
Por isso já Isabel pode lavar a camisa na água de Albaicín
E o rei pode beber das lágrimas de Aynadamar.

Vede, ó príncipes, com que cuidado foi posta cada pedra,
Em Granada, a esplêndida, e plantada cada rosa.
Uma mãe não veste a filha com mais carinho.
Contemplai os versos dos poetas
Que ornamentam as paredes da Alhambra,
E as palavras do Alcorão que as tornam veneráveis.
Granada curvou a cerviz perante a força das vossas armas.
Mas respeitai os vencidos e a memória dos que pereceram.
Perante as pedras e as rosas de Granada,
Dizei ao menos: “Como eles a amaram!”

Notas:
A luta dos dois leões refere-se à guerra entre El Zagal e Boabdil, seu sobrinho, que roubara o trono ao pai, Mulhacén (Muley Assam), que morrera em 1585 e contra o qual também lutara. Os dois leopardos são Isabel de Castela e Fernando de Aragão.
Aynadamar é um topónimo composto por “Ayn” (“olho”, com o significado de nascente), e “damar” (lágrimas), talvez como referência à maneira como surge a água nessas fontes que abastecem a zona alta de Granada, Albaicín, coração da cidade velha.

A minha amada

Os seios da minha amada são como duas romãs maduras;
O seu cabelo tem perfume de alfazema;
Os seus lábios são da cor do açafrão
E a sua boca tem o sabor do damasco;
Os seus olhos são como pedras preciosas
E a sua pele como o oiro da mesquita de Abd-Al-Rahman.

A visão da minha amada é a minha alegria;
As formas do seu corpo, a minha delícia;
O seu amor, a minha felicidade.

Nada é comparável à minha amada.

Ouvimos, neste “Palavras de Ouro” o nº 162, poemas de Daniel de Sá e que fazem parte de um livro de poemas intitulado “As Rosas de Granada”.

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História 167 – “O Cavalo e o Leão”

21.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Cavalo e o Leão.
Deitado, a meditar no jardim do seu palácio, rodeado de grandes e velhas árvores, o Sr. Leão recordava, cheio de cobiça, um belo cavalo que há já dias via a passear na campina.
«Quem me dera apanhá-lo! – pensava ele – gordo, desenxovalhado, bonito. Com ele eu fazia, pelo menos, dois jantares. Mas como hei-de conseguir aproximar-me, se ele foge logo que me vê?»
Tantas voltas deu à cabeça, a fim de achar uma solução para o caso, que lhe ocorreu um expediente, que lhe pareceu bom.
Levantou-se do seu descanso, saiu e ao primeiro vizinho que encontrou disse:
— Já sabe? Há dias que ando a aprender a tratar doenças e tanto tenho estudado que já sei fazer tudo quanto é preciso para curar um doente. Não tenho medo que me morra um doente na mão.
Ao segundo vizinho que encontrou contou a mesma história e a outro e a outro, até que em pouco tempo todos sabiam que o Sr. Leão tratava doenças e era já médico de fama.
E como só se falava daquele facto importante, o Cavalo depressa soube também, mas não acreditou na peta, como os outros, e tanto procurou a razão dela, que a encontrou: o Sr. Leão só queria aproximar-se dele, de forma que ele não fugisse. Jurou que se desforraria da manha do Leão e começou a andar sempre prevenido para tudo.
E uma bela tarde lá viu o Leão aproximar-se, muito vagaroso, cheio de majestade.
Boa tarde, amigo Cavalo – disse o Leão de longe. – Então como vai?
Menos mal, obrigado – respondeu o Cavalo.
Já deve saber que sou médico.
Já me disseram, já, e estou contentíssimo, porque há quase uma semana que trago um espinho num pé e gostaria que o Sr. Doutor mo tirasse o mais depressa possível.
Ora vamos lá ver isso, então – respondeu o médico feito à pressa, a pôr os óculos. – Mostre lá o pé.
É este – replicou o Cavalo voltando-se e estendendo-lhe uma das patas traseiras.
O médico improvisado agarrou-a e pôs-se a observá-la cuidadosamente, dizendo consigo: «Que rica ideia! Tenho-te na mão!»
Porém, ainda não tinham decorrido dois minutos, um tremendo coice do Cavalo assenta-lhe em cheio no nariz e fá-lo virar os pés pela cabeça.
Quando se refez do tombo e pôde entender o que se passara, já só viu o Cavalo ao longe, correndo à desfilada. Entretanto ele, o médico que sabia tratar todas as doenças, gemia com dores no nariz, de onde o sangue corria com abundância, e pensava que o culpado daquele valente coice fora só ele, porque o mau plano que fizera contra o Cavalo virara-se contra ele próprio.
E aqui acaba a história de “O Cavalo e o Leão”.

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Arnaldo Saldanha Abreu – “A Dama de Copas…”

20.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As últimas cartas em cima da mesa
Às de trunfo e joker preto
Nódoas de café
Olhos doridos e embaciados
Vapor de whiskey
Inala e evapora
Mini-saia em pernas longilíneas
Tatuagens de flores colhidas pela manhã
Beijos-pimenta
Línguas de sabor a hortelã
Dama de Copas
E Valete de Espadas

Banco traseiro de um carro
Vermelho debitando rock and roll
A mil de cilindrada
Chegamos aos 100 em menos de nada
Sobe a saia
Desce o soutien
Acelero
Nos Montes Golan
Travo
Atravesso a Faixa de Gaza
Avançamos
Vimos-nos na Terra Prometida
Que Deus nos perdoe!
É sinuosa a estrada
Sinalização transversal
Houve um derrame libidinoso
Não deu para evitar a derrapagem

Sirene da polícia
Encosto na berma
Mas tão cedo, não cedo passagem
Boa noite, Senhor Agente!
Não tenho identificação
Roubei o carro em segunda-mão
É ecológico
Amigo do ambiente
Sabe como é?!
Move-se aos solavancos
De trás para a frente
Ela é a Bonnie e eu sou o Clyde
E ainda temos dois bancos para assaltar
De dia somos Jekill
E à noite estamos Hyde
Lascivamente idolatramos o sexo
E desprezamos o amor
Esse miserável deus racional.

Como todos os meus textos, também este fica inacabado e receptivo a ser prostituído a troco de nada. Decidi que não escrevo mais poemas de amor a transbordarem de metáforas pirosas e piegas. O sexo não precisa de lamechices da treta.

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Cláudia Marczak – “O sexo é sagrado” (2ª versão)

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O sexo é sagrado, 

como salgadas são as gotas de suor 

que brotam dos meus poros 

e encharcam nossas peles. 

A noite é meu templo 

onde me torno uma deusa enlouquecida 

sentindo teus pelos sobre a minha pele. 

Neste instante já não sou nada, 

somente corpo, 

boca, 

pele, 

pêlos, 

línguas,

bocas. 

E a vida brota da semente, 

dos poucos segundos de êxtase. 

Tuas mãos como um brinquedo

passeiam pelo meu corpo. 

Não revelam segredos

desvendam apenas o pudor do mundo, 

descobrem a febre dos animais.

Então nos tornamos um

ao mesmo tempo em que 

a escuridão explode em festa.

A noite amanhece sem versos, 

com a música do seu hálito ofegante.

O sol brota de dentro de mim. 

Breves segundos. 

Por alguns instantes dispo-me do sofrimento. 

Eu fui feliz.

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Cláudia Marczak – “Não sou…”

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sou prisioneira do tempo
Nem ancoro meus sonhos
No solo árido da minha vida medíocre.
Deixo meus olhos flutuarem
Entre céus e infernos
Que a poesia me leva.
Procuro a jóia rara
De um sorriso único
Repleto de angústia e surpresa.
Navego obscura entre
meus medos e meus desejos
sem ter certeza de nada.
Que venha a vida, então,
E penetre em mim
Como um punhal
Rasgando minhas dúvidas
Cortando as amarras
Que me prendem ao possível.
Pertenço a quem me possuir,
Sou do mundo.
Sou minha vida.
Sou o espelho do que jamais serei.

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Cláudia Marczak – “Coração de Vidro”

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Moram em mim
outros olhos que me vêem.
Neles existo e não me enxergo.
Tenho os olhos de um animal,
arisco e selvagem.
Farejo minhas vontades,
sacio minha sede
nos rios que correm em outros corpos.
Todos únicos sem serem um;
verdadeiros sem serem reais.
Tenho os olhos do pecado que não existe,
e escorrem por eles
lágrimas do sangue da minha culpa.
Tenho os olhos de versos.
Olhos de alma
que mostram meu coração de vidro,
tão pequeno e frágil,
que brilha e lacera em meu peito
inúmeras feridas
da onde brotam palavras vazias,
palavras vãs,
que eu nunca conseguirei entender.

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Cláudia Marczak – “Sei o gosto…”

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sei o gosto do seu beijo,
Seu cheiro me guia
Na escuridão da noite.
Onde está você agora
Que seu espírito engoliu meu coração ?
Por que não o encontro,
Amanhecendo ao meu lado,
Quando meu corpo chora seu abraço…
Não tente me entender,
Apenas me toque,
Deixa seu suor inundar
Minha pele com seu prazer
Beija-me
Possua-me
Que na minha solidão
Já não cabe o tamanho da sua ausência,
Pois quando vi seus olhos
Repletos de luz
O breu da minha tristeza
Iluminou-se de festa
E fez da minha estrada
Um rio de águas mornas
Desaguando no seu mar.
Deixe-me gritar seu nome
Deixe-me sangrar seu coração
Deixe-me lamber em seus lábios
Toda a dor que eles tem
E beber sua saliva de fel.
Não deixe meus olhos se fecharem,
Pois eles possuem os sonhos frágeis
De quem ama demais.

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Cláudia Marczak – “Não vejo mais…”

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não vejo mais sentido
Naquilo que tenho sentido.
Não flutuo em águas rasas.
Mergulho.
A escuridão e o peso do oceano
Me fascinam e apavoram.
Até onde posso ir?
E se eu não souber como voltar?
Não há farol que me guie.
Não há razões.
A profundeza do oceano é meu abrigo.
Seguro e solitário.
Abissal sem fim.

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Poesia 52 – Cláudia Marczak

19.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Programa 52 – Cláudia Marczak

Poesia de Cláudia Marczak já se ouviu no Estúdio Raposa, exatamente no programa “Poesia Erótica 36”, intitulado “5poemas5”, ao lado de Affonso Romano de Sant’Anna, Salvador Pliego, Rosa Lobato Faria e Alexandre O’Neill.

Sobre Cláudia Marczak, dizia eu nessa altura, Março de 2.009: “Cláudia Marczak, poeta brasileira, é um caso curioso de internet. Se, no Google, fizermos uma busca pelo seu nome, encontramos dezenas de entradas, a maior parte com um seu famoso poema “O sexo é sagrado”, assim como referências à sua obra, mas e aqui a curiosidade, sem uma linha sobre a sua biografia. Nada. MÚSICA
Pois, passados três anos o Google cumpriu a sua mais apreciada missão: descobrir factos e encontrar pessoas. 
Cláudia Marczak descobriu a declamação do seu poema e escreveu-me acabando com o mistério, para mim, da sua biografia.
Eis o que a Cláudia me disse, sobre si.

“Luis, vou falar um pouco de mim e como a poesia, ou melhor as palavras (é que atualmente não é só a poesia que me basta) apareceram na minha vida. Eu tinha mais ou menos oito anos quando comecei a escrever. Primeiro porque vi alguns poemas de uma colega minha e achei aquilo bonito demais. Depois, porque achei um jeito muito interessante de eu me expressar. A poesia passou a ser um universo paralelo, no qual eu poderia ter acesso sempre que eu quisesse. Aos quinze anos, com ajuda dos meus pais, publiquei um livro com algumas poesias. Era algo muito amador e muito louco para uma adolescente ter várias pessoas a conhecendo de uma forma muito diferente.
A vida, então me levou para muitos outros caminhos, mas nunca parei de escrever. Em 96 o CAOS, uma coletânea de poemas meus, foi colocado na rede. Nele é que estão os poemas que você apresentou no Estúdio Raposa.
Muitas coisas interessantes aconteceram depois que o Caos tornou-se público. Tive poemas colocados em cardápios de um café, aí de Portugal; alguns foram usados em teses, blogs, páginas da rede e o meu poema “Quero um homem” participou de uma peça teatral, encenada no Rio de Janeiro. Em 2010, publiquei pela World Art and Friends, uma editora portuguesa, meu livro Lugar Algum, também de poemas,  No início desse ano o Caos saiu de seu modo virtual e ganhou uma roupagem real, sendo publicado por uma editora independente aqui do Brasil mesmo. Agora estou trabalhando no meu primeiro romance, que deve ser lançado entre maio e junho deste ano e irá participar da bienal do livro de São Paulo.
Sabe que falando assim até parece que o caminho tem sido fácil. Não foi e não é. Encontrar tempo para as minhas palavras, para que eu possa me deixar sentir tudo o que vivo é um desafio constante. Outro desafio é lançar essas palavras no mundo. Elas não são somente minhas. Se ficassem apenas em mim não faria sentido nenhum, elas têm que encontrar morada em outros olhos. Na verdade eu só consigo me entender através das palavras. É como eu falei para um amigo, eu não leio o mundo, eu o escrevo.
Bom,Luis, acho que deu pra saber um pouco de mim. Abaixo vai um poema do Lugar Algum de presente para você. Espero que goste.
Um grande abraço
Cláudia Marczak”

Vamos ouvir, cinco poemas de Cláudia Marczak, entre os quais aquele com que participou no Estúdio Raposa, há três anos. Começamos por esse.

O sexo é sagrado…
O sexo é sagrado, 
como salgadas são as gotas de suor 
que brotam dos meus poros 
e encharcam nossas peles. 
A noite é meu templo 
onde me torno uma deusa enlouquecida 
sentindo teus pelos sobre a minha pele. 
Neste instante já não sou nada, 
somente corpo, 
boca, 
pele, 
pêlos, 
línguas, 
bocas. 
E a vida brota da semente, 
dos poucos segundos de êxtase. 
Tuas mãos como um brinquedo 
passeiam pelo meu corpo. 
Não revelam segredos 
desvendam apenas o pudor do mundo, 
descobrem a febre dos animais. 
Então nos tornamos um 
ao mesmo tempo em que 
a escuridão explode em festa. 
A noite amanhece sem versos, 
com a música do seu hálito ofegante. 
O sol brota de dentro de mim. 
Breves segundos. 
Por alguns instantes dispo-me do sofrimento. 
Eu fui feliz.

Não vejo mais…
Não vejo mais sentido
Naquilo que tenho sentido.
Não flutuo em águas rasas.
Mergulho.
A escuridão e o peso do oceano
Me fascinam e apavoram.
Até onde posso ir?
E se eu não souber como voltar?
Não há farol que me guie.
Não há razões.
A profundeza do oceano é meu abrigo.
Seguro e solitário.
Abissal sem fim.

Sei o gosto…
Sei o gosto do seu beijo,
Seu cheiro me guia
Na escuridão da noite.
Onde está você agora
Que seu espírito engoliu meu coração ?
Por que não o encontro,
Amanhecendo ao meu lado,
Quando meu corpo chora seu abraço…
Não tente me entender,
Apenas me toque,
Deixa seu suor inundar
Minha pele com seu prazer
Beija-me
Possua-me
Que na minha solidão
Já não cabe o tamanho da sua ausência,
Pois quando vi seus olhos
Repletos de luz
O breu da minha tristeza
Iluminou-se de festa
E fez da minha estrada
Um rio de águas mornas
Desaguando no seu mar.
Deixe-me gritar seu nome
Deixe-me sangrar seu coração
Deixe-me lamber em seus lábios
Toda a dor que eles tem
E beber sua saliva de fel.
Não deixe meus olhos se fecharem,
Pois eles possuem os sonhos frágeis
De quem ama demais.

Coração de Vidro
Moram em mim
outros olhos que me vêem.
Neles existo e não me enxergo.
Tenho os olhos de um animal,
arisco e selvagem.
Farejo minhas vontades,
sacio minha sede
nos rios que correm em outros corpos.
Todos únicos sem serem um;
verdadeiros sem serem reais.
Tenho os olhos do pecado que não existe,
e escorrem por eles
lágrimas do sangue da minha culpa.
Tenho os olhos de versos.
Olhos de alma
que mostram meu coração de vidro,
tão pequeno e frágil,
que brilha e lacera em meu peito
inúmeras feridas
da onde brotam palavras vazias,
palavras vãs,
que eu nunca conseguirei entender.

Não sou…
Não sou prisioneira do tempo
Nem ancoro meus sonhos
No solo árido da minha vida medíocre.
Deixo meus olhos flutuarem
Entre céus e infernos
Que a poesia me leva.
Procuro a jóia rara
De um sorriso único
Repleto de angústia e surpresa.
Navego obscura entre
meus medos e meus desejos
sem ter certeza de nada.
Que venha a vida, então,
E penetre em mim
Como um punhal
Rasgando minhas dúvidas
Cortando as amarras
Que me prendem ao possível.
Pertenço a quem me possuir,
Sou do mundo.
Sou minha vida.
Sou o espelho do que jamais serei.

Ouvimos, no programa “Poesia Erótica” nº 52, poesia da poeta brasileira, Cláudio Marczak a quem envio um agradecimento pela disponibilidade na participação do “Poesia Erótica”

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História 167 – “O Leão e os 4 Touros”

14.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quatro Touros bons amigos tinham por hábito andar sempre juntos. Saíam juntos, pastavam juntos, divertiam-se juntos.
O Leão, que morava nas proximidades, dava tratos à cabeça a ver se descobria a maneira de os fazer andar separados, cada um para seu lado, porque aquela união forte dos quatro impedia-o de atacar qualquer deles.
Se eu conseguisse apanhar um a jeito, de cada vez – dizia ele com os seus pêlos – tinha comida para uns poucos de dias sem me ralar nada. Mas assim… Com os quatro ao mesmo tempo é que eu não posso; davam conta de mim. Mas quem é que separa esses sócios, e de que maneira?!
O Leão tanto pensou, tanto espremeu os miolos, até que um dia se lembrou de um meio que lhe pareceu ótimo para dividir os quatro amigos. Foi ter com a Raposa e disse-lhe:
Já sabe, comadre, que os nossos quatro vizinhos Touros se desentenderam?
Sim? —indagou a Raposa, toda interessada.
É verdade. Começaram ontem a discutir por causa do sítio onde iriam hoje almoçar e às duas por três puseram-se a questionar e acabaram por se insultar uns aos outros. O mais velho, então, diz tão mal dos companheiros!
A Raposa correu a contar o sucedido ao Leopardo e ao Urso, estes passaram a outros e dentro de pouco tempo toda a floresta dizia de boca em boca o que o Leão e a Raposa iam contando acerca dos vizinhos Touros.
Poucas horas depois isto chegava aos ouvidos dos Touros e os quatro amigos puseram-se a pedir satisfações uns aos outros. «Disseram-me que tu disseste… – Não disse nada… – Ah! isso é que disseste…»
Então é que os quatro amigos se desarmonizaram. Ralharam, gritaram, ofenderam-se uns aos outros e acabaram por ir cada qual para seu sítio, separados pela primeira vez na vida.
Ora isto e o que o Leão queria era precisamente o mesmo… Atacou o primeiro que encontrou só e papou-o, ao segundo fez o mesmo, ao terceiro outro tanto e o quarto foi pelo mesmo caminho.
E os quatro amigos Touros, que tão felizes e tão fortes tinham sido enquanto viveram unidos, acabaram assim, miseravelmente, logo que acreditaram em intrigas e se isolaram uns dos outros.
«A união faz a força».
E aqui acaba a história.

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Ana Paula Lavado – “Nenhum verso…”

10.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nenhum verso fala de mim
nem do que eu penso
nem do que eu sinto
nem do que eu sou.

Na realidade,
as palavras são apenas
um jogo de letras
mais ou menos cinzelado
ao gosto de cada um.
E poucos, muito poucos
fazem delas seres vivos e humanos.

Eu não lhes dou vida.
Trabalho-as com mais ou menos nexo
ou talvez sem nexo,
porque dele não sinto falta
nem faz falta o que sou!

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Ana Paula Lavado – “Cálice de Porto”

10.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje já não pergunto porque não voltas.
Apresso-me apenas para chegar a destino nenhum
e apagar as luzes que te vestiram.
Depois permaneço deste lado do palco. Este lado
que se mantém inalterável e escuro, onde a vida
não é mais que um reflexo isento de espelhos.
Quisera ter-te… mas não passei de um adereço
dispensável na representação.
Resta-me apenas o cenário onde ainda te revejo
e vou confundindo a realidade para que o sonho
não se suicide.
De alma nua, amo apenas o mar que nos uniu
e odeio o mar que nos afastou.

Havíamos ficado, noites inteiras depois de um brinde
onde jurámos eternidade. Perdidos no riso
ou exaustos na paixão, deixámos vazios, todos os cálices
daquele Porto que escolhias por amor.
As horas morriam no silêncio dos nossos corpos
emudecidos de prazer, numa cama
que ficou gravada pelas nossas mãos.

Se a morte chegasse, pediria apenas um cálice
de Porto dourado. E morreria bebendo cada beijo teu!

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Ana Paula Lavado – “Vem devagar…”

10.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vem devagar sobre meu leito
Entrega tuas mãos ao meu corpo
E desfolha-me lentamente
Numa doçura desdobrada.

Desliza entre o meu ventre
E navega entre pétalas cerradas
Onde o silêncio em vertigem
Me faz em água dilacerada.

E no desejo anoitecido
Adurirei o beijo da tua boca
Na minha boca queimada!

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Joaquim Namorado – “A voz que me dita…”

07.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala
e é minha e das coisas que me cercam,
de quem encontrei na rua e não conheço
e dos amigos fiéis, de quanto ouvi disperso
na rua, nos cafés, onde estive,
dos livros que leio e dos jornais,
de quanto vejo e vivo como meu;
é tua, meu amor, de quanto é nosso,
só porque sentindo-o o partilhamos,
destas horas que se alongam tristes
e doutras que foram e hão-de ser
da luta, do tormento, da alegria
e da glória de vivê-las plenamente.

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala:
é a tua, amigo a quem não vejo há tanto
e cuja presença me não esquece,
cuja lembrança em toda a parte aquece
as esperanças comuns pra que vivemos;
é a tua, a quem nunca conheci,
apodrecendo não sei onde
em que distantes exílios e cemitérios secretos,
e de quem nos longos dias te chora
e nas longas noites te espera
Enganando-se que ainda vens
e de quem ouve os teus passos na rua
sabendo que isso é mentira
e fica à noite à janela olhando as esquinas desertas;
é dos teus companheiros resolutos
que as tuas armas empunham com a mesma decisão,
com aquela mão que se estende
para outra mão e a aperta
como se fosse o seu par…

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que tudo dizes e calas, de onde vens?
de que infância perdida me falas,
que soluçar de mães em ti acode
sob o doce ninar da minha mãe?
é da menina esfarrapada que na rua brinca
nas poças da rua com o sol e esquece
a vida triste lá de casa?
é dos meninos que só a loucura embala
mortos na guerra, mortos de fome e frio,
mortos queimados, de baionetas cravados,
nos fornos crematórios, nos ghettos de Varsóvia,
de Viena, de Belgrado, de qualquer cidade?
é dos meninos de escola da sua idade
aprendendo a ler?
é dos meninos operários da sua idade
aprendendo a trabalhar e a sofrer?
Fel que no sangue da vida se mistura,
amargo destino que se tece
da nossa vida futura.
Voz que tudo dizes e calas,
onde foi, onde?
Em Madrid, em Paris, em Praga?
Em Roma, em Londres, Buenos Aires?
De que pontos cardeais correndo livre vens?
Através de que mordaças me falas?
Em que prisões surdamente gemes e te calas?
É a tua voz clara, Gabriel?
A tua voz dentre dentes quebrados, Fucik?
O teu adeus de esperança, Zoia?
Ou é, Alexandre, o teu incitamento
que nos vem?
Em que língua humana me dizes
quanto é do mundo o sofrimento e a glória?
Em que estrofes os poetas te cantam?
Maja de Granada, inviolada e pura,
Federico ao nosso amor te deu;
de que amargo silêncio te fizeste
no exílio onde Machado morreu?
És a arma invicta e discreta,
voz que pelos homens clama,
és o aço puro e a chama
que para a luta os corações tempera.

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que me dita os versos segredada,
é do povo o canto e o choro que vem
do fundo desespero em que se move,
é de quanto espera o apagado canto,
epopeia que só a sua luta forja;
é a certeza em cada peito
com um facho de vida em vida transmitido
de que a noite imunda e mais comprida
tem segura madrugada que há-de vir.
Voz que me dita os versos
lentamente da vida dos dias se insinua:
é a voz das coisas e das gentes,
uma dor e um desespero suspenso,
e é a paixão e o grito que levanta,
é a praga que a nossa raiva activa,
o desafio que se lança,
o sofrimento que protesta,
a humildade que se não arrasta,
o orgulho que não fere,
a saudação fraterna, aberta e franca
– é o estalar do chicote
com o ódio que levanta.

É a tua voz, coração do mundo,
é a tua voz ansiosa, a tua voz vibrante,
a tua voz desesperada, a tua voz confiante.
Sejam meus versos a vogal precisa,
bata no meu pulso o coração do mundo.

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Joaquim Namorado – “Sete poemas”

07.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sete pequenos poemas para uma obra de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), ilustrador, que exerceu influência determinante nas modernas artes gráficas portuguesas, quer através de capas, quer de ilustrações que realizou para obras de escritores seus contemporâneos

1
Um menino chora,
sem razão?!…
A mãe limpa com um lenço branco
as lágrimas e chora,
chora porque chora
o seu menino,
sem razão?!…

2
Manta de maltez: sol do
inverno e sombra do
estio, mortalha pronta,
dossel do amor, tecto e
sobrado de não ter casa.
Manto de um rei das
encruzilhadas, sudário
rasgado de dentes e cutiladas;
uma almofada sobre as ortigas…
uma bandeira de Liberdade.

3
Flor da terra, carne dos
homens, de papoilas
bravas entre searas
coroada. Agua da fonte
corrente do rio, pão
ainda quente haste do
trigo. Porto seguro na
vida incerta, paz dos
teus braços da luta
incerta. Esperança e
consolo, pano de linho
sobre as feridas ainda
abertas; bandeira ao
vento. A manhã
que nasce está
nos teus olhos.

4
Os calos da mão apertam cabos
de enxadas quebradas e os
ferros dos arados rasgam
caminhos abertos nas futuras
madrugadas.

5
Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.

6
Num mundo de maiorais, de
feitores, de cães de guarda,
ficou no pó das estradas a
marca dos nossos passos
continuando outros passos. O
caminho é por aqui, dirá quem
vier depois olhando estes
sinais e disso estará tão certo
que o que ainda é distante lhe
será perto.

7
Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.

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Palavras 161 – Joaquim Namorado

06.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este programa usará, para falar de Joaquim Namorado, o texto disponibilizado no blogue “Outra Margem

Joaquim Namorado, Poeta de Incomodidade

“Metam O burro na gaiola

de doiradas grades
e
tratem-no a alpista
s
e quiserem
- é só um despropósito

Mas esperar dele o trinar

Do canário melodioso

É simplesmente tolo.”

Joaquim Namorado viveu entre 1914 e 1986. Nasceu em Alter do Chão, Alentejo, em 30 de Junho.
Licenciou-se em Ciências Matemáticas pela Universidade de Coimbra, dedicando-se ao ensino. Exerceu durante dezenas de anos o professorado no ensino particular, já que o ensino oficial, durante o fascismo, lhe esteve vedado.
Depois do 25 de Abril, ingressou no quadro de professores da secção de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Notabilizou-se como poeta neo-realista, tendo colaborado nas revistas Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, etc. Obras poéticas: Aviso à Navegação (1941), Incomodidade (1945), A Poesia Necessária (1966). Ensaio: Uma Poética da Culutra (1994).)

Dizem que foi o Joaquim Namorado quem, para iludir a PIDE e a Censura, camuflou de “neo-realismo” o tão falado “realismo socialista” apregoado pelo Jdanov…
Entre muitas outras actividades relevantes , foi redactor e director da Revista de cultura e arte Vértice, onde ficou célebre o episódio da publicação de pensamentos do Karl Marx, mas assinados com o pseudónimo Carlos Marques. Um dia, apareceu na redacção um agente da PIDE a intimidar: “ó Senhor Doutor Joaquim Namorado, avise o Carlos Marques para ter cuidadinho, pois nós já estamos de olho nele”…

No concelho da Figueira da Foz– considerava-se um figueirense de coração e de acção – chegou a ser membro da Assembleia Municipal, eleito pela APU.
Teve uma modesta residência na vertente sul da Serra da Boa Viagem. Essa casa, aliás, serviu de local para reuniões preparatórias da fundação do jornal Barca Nova.
Muito mais poderia ser dito para recordar Joaquim Namorado, um Cidadão que teve uma vida integra, de sacrifício e de luta, sempre dedicada á total defesa dos interesses do Povo. 
Nos dias 28 e 29 de Janeiro de 1983, por iniciativa do jornal Barca Nova, a Figueira prestou-lhe uma significativa homenagem, que constituiu um acontecimento nacional de relevante envergadura, onde participaram vultos eminentes da cultura e da democracia portuguesa. 
Na sequência dessa homenagem, a Câmara Municipal da Figueira, durante anos, teve um prémio literário, que alcançou grande prestígio a nível nacional.
Santana Lopes, quando passou pela Figueira da Foz, como Presidente de Câmara, decidiu acabar com o “Prémio do Conto Joaquim Namorado”.

Vamos ouvir poemas publicados numa edição de autor e selecionado pela Vértice, em 1966, com o título “Poesia Necessária”.
“A voz que me dita os versos.”

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala
e é minha e das coisas que me cercam,
de quem encontrei na rua e não conheço
e dos amigos fiéis, de quanto ouvi disperso
na rua, nos cafés, onde estive,
dos livros que leio e dos jornais,
de quanto vejo e vivo como meu;
é tua, meu amor, de quanto é nosso,
só porque sentindo-o o partilhamos,
destas horas que se alongam tristes
e doutras que foram e hão-de ser
da luta, do tormento, da alegria
e da glória de vivê-las plenamente.

Sento-me à mesa e escrevo…
A voz que me dita os versos tudo diz e cala:
é a tua, amigo a quem não vejo há tanto
e cuja presença me não esquece,
cuja lembrança em toda a parte aquece
as esperanças comuns pra que vivemos;
é a tua, a quem nunca conheci,
apodrecendo não sei onde
em que distantes exílios e cemitérios secretos,
e de quem nos longos dias te chora
e nas longas noites te espera
Enganando-se que ainda vens
e de quem ouve os teus passos na rua
sabendo que isso é mentira
e fica à noite à janela olhando as esquinas desertas;
é dos teus companheiros resolutos
que as tuas armas empunham com a mesma decisão,
com aquela mão que se estende
para outra mão e a aperta
como se fosse o seu par…

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que tudo dizes e calas, de onde vens?
de que infância perdida me falas,
que soluçar de mães em ti acode
sob o doce ninar da minha mãe?
é da menina esfarrapada que na rua brinca
nas poças da rua com o sol e esquece
a vida triste lá de casa?
é dos meninos que só a loucura embala
mortos na guerra, mortos de fome e frio,
mortos queimados, de baionetas cravados,
nos fornos crematórios, nos ghettos de Varsóvia,
de Viena, de Belgrado, de qualquer cidade?
é dos meninos de escola da sua idade
aprendendo a ler?
é dos meninos operários da sua idade
aprendendo a trabalhar e a sofrer?
Fel que no sangue da vida se mistura,
amargo destino que se tece
da nossa vida futura.
Voz que tudo dizes e calas,
onde foi, onde?
Em Madrid, em Paris, em Praga?
Em Roma, em Londres, Buenos Aires?
De que pontos cardeais correndo livre vens?
Através de que mordaças me falas?
Em que prisões surdamente gemes e te calas?
É a tua voz clara, Gabriel?
A tua voz dentre dentes quebrados, Fucik?
O teu adeus de esperança, Zoia?
Ou é, Alexandre, o teu incitamento
que nos vem?
Em que língua humana me dizes
quanto é do mundo o sofrimento e a glória?
Em que estrofes os poetas te cantam?
Maja de Granada, inviolada e pura,
Federico ao nosso amor te deu;
de que amargo silêncio te fizeste
no exílio onde Machado morreu?
És a arma invicta e discreta,
voz que pelos homens clama,
és o aço puro e a chama
que para a luta os corações tempera.

Sento-me à mesa e escrevo…
Voz que me dita os versos segredada,
é do povo o canto e o choro que vem
do fundo desespero em que se move,
é de quanto espera o apagado canto,
epopeia que só a sua luta forja;
é a certeza em cada peito
com um facho de vida em vida transmitido
de que a noite imunda e mais comprida
tem segura madrugada que há-de vir.
Voz que me dita os versos
lentamente da vida dos dias se insinua:
é a voz das coisas e das gentes,
uma dor e um desespero suspenso,
e é a paixão e o grito que levanta,
é a praga que a nossa raiva activa,
o desafio que se lança,
o sofrimento que protesta,
a humildade que se não arrasta,
o orgulho que não fere,
a saudação fraterna, aberta e franca
– é o estalar do chicote
com o ódio que levanta.

É a tua voz, coração do mundo,
é a tua voz ansiosa, a tua voz vibrante,
a tua voz desesperada, a tua voz confiante.
Sejam meus versos a vogal precisa,
bata no meu pulso o coração do mundo.

Agora, sete pequenos poemas para uma obra de Manuel Ribeiro de Pavia (1907-1957), ilustrador, que exerceu influência determinante nas modernas artes gráficas portuguesas, quer através de capas, quer de ilustrações que realizou para obras de escritores seus contemporâneos

1
Um menino chora,
sem razão?!…
A mãe limpa com um lenço branco
as lágrimas e chora,
chora porque chora
o seu menino,
sem razão?!…

2
Manta de maltez: sol do
inverno e sombra do
estio, mortalha pronta,
dossel do amor, tecto e
sobrado de não ter casa.
Manto de um rei das
encruzilhadas, sudário
rasgado de dentes e cutiladas;
uma almofada sobre as ortigas…
uma bandeira de Liberdade.

3
Flor da terra, carne dos
homens, de papoilas
bravas entre searas
coroada. Agua da fonte
corrente do rio, pão
ainda quente haste do
trigo. Porto seguro na
vida incerta, paz dos
teus braços da luta
incerta. Esperança e
consolo, pano de linho
sobre as feridas ainda
abertas; bandeira ao
vento. A manhã
que nasce está
nos teus olhos.

4
Os calos da mão apertam cabos
de enxadas quebradas e os
ferros dos arados rasgam
caminhos abertos nas futuras
madrugadas.

5
Um traço largo e profundo
debrua um corpo cansado,
sob a forma rígida de um braço
desenha-se o músculo empedernido
dos trabalhos.
Mapa da vida o teu rosto.
lavrado pelo trabalho,
um pergaminho vincado
da cicatriz da amargura.
Mas no fundo dos teus olhos,
tão firmes e tão seguros,
raia a certa madrugada
dos mundos futuros.

6
Num mundo de maiorais, de
feitores, de cães de guarda,
icou no pó das estradas a
marca dos nossos passos
continuando outros passos. O
caminho é por aqui, dirá quem
vier depois olhando estes
sinais e disso estará tão certo
que o que ainda é distante lhe
será perto.

7
Sobre a planície cai
uma chuva de lume
do sol a prumo.
A solidão sem sombras
incendeia-se de estrelas
e o silêncio estala
como a pele de frenéticos tambores
batidos furiosamente.
Os homens dobrados para a terra levantam
as cabeças medindo os horizontes rasos e
distantes com olhos ávidos, sem piedade.

Ouviram o Palavras de Ouro 161 dedicado a Joaquim Namorado, o Poeta de Incomodidade.

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Valter José Guerreiro – “Os delírios da paixão”

05.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

És absolutamente transcendente, única e fabulosa
Ninguém é como tu, jamais alguém o foi ou o será
Nem és deste mundo de tão etérea, de tão formosa
Seres no meu peito, e no meu leito, e naquela rosa
Que não está ali, nunca lá esteve e nunca estará

Mas que eu invento no Olimpo do teu corpo
Onde há as flores e os mundos que eu quiser
E os mares, os ares e as fronteiras se dissipam
Porque tu mais do que deusa, és a mulher
Em que eu viajo até aos lugares onde ficam
Os crepúsculos e os poentes que eu souber

Imaginar nos silêncios que te levam p`ra tão longe
E me levam p`ra tão perto do melhor que sei amar
Levando-me p`ra tão longe, pr`a tão lá do horizonte
Que nos crepúsculos há luz e nos poentes há mar

De sereias, de duendes, de bacos e querubins
Que vêm em caravelas e trazem sacos de estrelas
P`ra incendiar o teu ventre entre plátanos e jasmins
Em que me queimo e perfumo, me deito e nunca durmo
Porque ao que vou é tão grande e tanto colho de ti
Que no regresso nem sei quem era quando parti

Eu regresso em granito e em nenúfares me deito
De nenúfares sou feito e de granito me couraço
Quando te abraço, no feminino, no masculino…
E te beijo como homem, como menino…
E em ti me sento…
Como complemento, como suplemento…
Porque te invento…
A partir de mim…
Tu não existes,
Eu sou assim…

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História 165 – “A Gralha e a Ovelha”

04.04.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Certo dia em que a Ovelha andava a pastar sossegadamente, pousou-lhe nas costas uma Gralha. Imediatamente a Gralha começou a pairar e a fazer barulho de tal maneira, que em pouco tempo a pobre Ovelha nem sabia onde tinha a cabeça.
– Ó menina Gralha – pediu ela delicadamente – se pudesse calar-se ou fazer um bocadinho menos de barulho… Está a incomodar-me tanto…
Em resposta, a Gralha pôs-se a tagarelar ainda mais alto e foi-se entretendo a debicar na lã da Ovelha, até lhe chegar à carne, que picou sem compaixão.
– Menina Gralha – queixou-se a Ovelha – está a fazer-me doer!
– Bem me rala isso…
– Ah! se eu fosse um cão – lastimou-se a Ovelha – já não se atrevia a incomodar-me, porque eu podia tirar-lhe a vida.
– Bem sei o que faço. Se fosses um cão não me divertia contigo. Mas és uma ovelha fraca e velha, que não faz mal a uma mosca…
E continuou a gralhar às costas da Ovelha, e a brincar-lhe com a lã e com a carne, toda destemida, como certas pessoas, que são valentes com os fracos e humildes com os fortes.
E aqui acaba a história

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