J. Caldas – “Se na mais profunda…”
05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se na mais profunda solidão se ouvem passos
Se na mais profunda escuridão se pressentem gestos
Se na mais profunda emoção se libertam sonhos
É porque há poetas que pairam espreitam vivem
Nos bosques nas sombras nas cidades adormecidas
Nas madrugadas mais frescas nas noites mais estreladas
Há poetas que inventam canções e melodias
As vozes que soletram canções que as árvores ondulam
Nas cidades das multidões enfurecidas
Por entre pernas esgares gritos e um imenso desespero
São poetas que com um olhar do tamanho do mundo
Procuram um sentido no emaranhado das palavras gritadas pelas ruas
São sempre os poetas os que estão nas paragens de todos os destinos
Os que estão para além de todas as correntes de todas as tempestades
São o elo invisível com o que está longe e é mistério
E esconde todos os segredos que lenta e subtilmente as palavras revelam.
(Este poema venceu um concurso organizado pelo blogue Porosidade Etérea)
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O que te dizer quando nos olhos, como lágrimas se desprende
o que sinto por ti?
O que te escrever quando as palavras estão enfermas de erros
e enganos, e não afastam esta solidão que cresce dentro de mim?
resta-me este silêncio que sei incapaz de me trair, e que colho às mãos
cheias como no verão o jasmim, escrevo-te longas cartas que rasgo
logo a seguir, nados mortos em envelopes azuis por abrir.
um anão de vão de escada sorri, e um mandarim de pau na mão
certifica-se que não adormeci na vida que se projecta diante de mim
na alva parede que se fecha sobre os sonhos da minha infância,
onde outrora pintei um sol amarelo graffiti confiante e sorridente.
refugiam-se nas tocas os coelhos, bolas de pêlo saltitante de nariz fremente
e hesitante, como se a cada instante fosse necessário abalar a fugir.
provavelmente terão a sua razão, e pelo sim pelo não
telefono ao tubarão que me guia pela noite, num deslizar de águas mansas
tépidas e límpidas como cristal, recolho então as estrelas
e os cristais que Neptuno me oferece
e sou feliz enquanto não amanhece
e o despertador me atira da cama com um grito de urgência
e sou eu de novo adulto responsável
incapaz de verter uma lágrima ou de soltar um sentimento que não seja
picar o ponto e bater num teclado qwert que diante de mim boceja.
e ainda há quem não veja, que a felicidade se esconde por detrás de um
funcionalismo público que de um prédio dos subúrbios espreita
e que o poder de compra se vende em quiosques, estampado em revistas
de fundo cor de rosa, recheados com conselhos de uma madame de Cascais
ou na tinta suja dos jornais em letras gordas e garrafais. e os lustrosos
senhores do capital dizem-nos que temos de viver mal
para que a engrenagem não emperre, e a vida avança por entre prateleiras
de hipermercado devidamente embalada e pronta a consumir, que o tempo
escasseia e é preciso produzir, sempre a sorrir, sempre satisfeito
que se o humano não é perfeito, as máquinas inventaram-se para o corrigir.
atribuo-te um número binário, um cálculo matemático e hermético
para aferir o quanto gosto de ti, mas o sistema encravou e é preciso
reiniciar para prosseguir, salva-se o que se pode e digo-te baixinho:
amo-te princesa dos contos de fadas da minha infância
e de armadura reluzente armo-me com a espada do rei Artur
e vou caçar dragões para me distrair, da doença do mundo
que consiste em não saber sonhar ou sequer sorrir.
(Este poema venceu um concurso organizado pelo blogue Porosidade Etérea)
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quero enfrentar a minha iniquidade
A minha elegia
A minha preguiça
Os meus desatinos
A minha fragilidade
A minha cobardia
Quero ser pessoa inteira,
Viver com confiança
Enfrentar com ousadia os meus medos
Quero ser feliz,
Viver abraçada pela esperança,
Mesmo que da minha alma prisioneira!
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Penélope fala a Ulisses, ou outras falas
Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar
Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora,
que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo
2.
Deixa-me que registe por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos em castelos de areia e labirintos
Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar
3-
Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
— rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei
Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual –
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Saint-Éxupery desejava
algo que se derramasse sobre o Homem
como um canto gregoriano, tão puro
como as vozes fluindo num claustro ou numa
sala abacial. Saint-Éxupery
no seu avião, entre o reflexo das estrelas
atravessando o deserto de Al-Aifa ou Djamila
sentia para além do odor do couro
persistentemente colado à sua figura
de pássaro desaparecido
na cabina que era a sua catedral
lunar e terrena
a luz das vozes como numa
manhã de Novembro: os vultos encapuçados
cruzando timbres, os tenores e os baixos
trocando o seu jogo simultaneamente
pesado e leve
que faz comunicar céu e terra
pela mesma escada sonora
(o mundo de baixo e o de cima
ligam-se pelas colcheias e semifusas)
que mais tarde iria fascinar Mozart
Haydn, Pierre-Henry, Johann Sebastian Bach.
Mas é fácil multiplicar os exemplos: José
ou Pedro, João ou António ou Gaspar, simples
cidadãos dos diferentes países dos continentes
onde a araucária ondula contra o vento
ou a oliveira tremula sob a chuva
numa vereda da montanha
num quarto ou numa sala ou pela rua
ligam serenamente um botão
distraidamente enquanto voltam as folhas dum livro
ou acendem um cigarro
e coçam um qualquer recanto do corpo
e levam copo ou chávena aos lábios
que antes murmuraram para alguém
“repara” ou “queres ouvir?”
ou simplesmente nada disseram
presos ao silêncio envolvente
da noite de Primavera
– e a grande onda salta através dos anos
singelamente
e rodeia os humildes objectos em torno
e flui delicadamente e consagra
ouvidos, olhos, mãos que repousam
subitamente serenas. O canto
cumprindo os mistérios que perpetuam
tardes e madrugadas
é junto de nós uma entidade que palpita
que ilumina como a brusca chama dum fósforo
e nos diz nos diz veladamente
os séculos e os momentos incomensuráveis.
(in “Flauta de Pan”)
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
o sovaco da cobra resguarda o saco dos segredos
à mistura com a mentira dos medos: guarda o que pode
e o que sobra sacode juntamente com os dedos.
é preciso dizer que a cobra engorda aos solavancos
da ira desfeita (olá cobra imprudente –
que como o ponche se ajeita) e à espreita
espoja-se no pó da terra branca. plasma-se a luz
que na acácia se espanta.
mas os segredos – meu deus quantos enredos
se burilam no canto do lobo e eu fico
pasmado como os rochedos resistem à dor
do mar. e eu fico especado perante a tarde
que se deixa cobrar. só a cobra engrena
os desvelos de ficar por aqui preso
pelos cabelos e ser a vontade guardada
na calma tempestade da achada.
salva-me o sovaco: o suor e a canseira
de ser outra ilha de outra maneira.
de ser barco ou ser vento ou ainda avião
numa viagem carpida por dentro. ou não
ou sim. ou talvez assim
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04.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
que mágoas lava a água quando me recolho? e que seixos
mancha quando me devolvo? e que entrementes correm
nos seus leitos os rios onde me não deito? e onde endurecem
as dores que escurecem as tardes do meu corpo feito
de saudades e liberdades? e que cidades vagueiam no esconso
pranto dos alardes consumidos e eu te olho e não decido
apenas da minha parte a parte dada
para outro recomeço
e novas águas e novo endereço
para uma ansiedade iniciada
no lugar da espera.
então ouvi as lágrimas do meu abandono
— outras águas, manos, outras mágoas —
e te vi no palco dos anúncios onde distante eras:
olhei e murei-me
e então me dei sem remédio à renúncia
no encerrado porto sem farol
porque aí me deposito e sorvo
nas roladas pedras os poucos bagos
encalhados entre estragos
de tanta água despejada e tanto estorvo.
mas sobre a ribeira seca as mãos em concha
ainda anseiam a chuva: ainda mexem
no suor dos desenganos enquanto as águas
dos milagres se evaporam e apodrecem.
assim me esqueço nas coisas que não acontecem.
(Poema premiado num concurso organizado pelo bloque Porosidade Etérea)
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03.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Bem sabes que não sou capaz
de dizer adeus
porque o amor tem sempre
a impossibilidade
da despedida
por não haver nele
nenhuma forma de morrer
como a luz do crepúsculo
que quando aqui se apaga
é para fazer dia noutro lugar.
E por isso não julgues
que tenha perdido
o norte
dentro da estátua de mármore
em que me transformaste
ao sul
dos teus olhos.
Como uma ostra no fundo do mar
vou depositando esta pérola no coração
para te deixar.
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03.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pejaram os caminhos de cobiça,
a lama da inveja languinhenta
cobre as pedras do chão: e de mãos dadas
encontrar-me na curva pressentida
e minam como cirro de doença
que droga alguma poderá sanar. »
Tiro da estante o livro. Abro ao acaso
fixando os olhos leio aquelas linhas
e volto a folha – sigo impressionado
a descobrir sentidos …….. em surdina
interrogando sortes e destinos
por que partiu ali em tantas páginas
o livro que busquei…….. no labirinto
de tal desordem…. tão desalinhada?
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03.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
(ou uma certa ideia de memória do país)
O desengonçado trânsito cavernícola.
A eterna crise com os dentes afiados.
Um país de paisagens marítimas e vinícolas,
em que uns são filhos e outros enteados.
O recorte da serra na distância.
Os pardais semoventes sobre as praças.
Alguns homens sombrios com a ânsia
de não serem roídos pelas traças.
O redil organizado como um caos.
Uns quantos menos bons e outros muito maus.
Uma planície, uma cidade, um chaparral.
E em volta disto o mar, sempre indiferente
do que queira ou não queira a sua gente.
E fica no soneto exposto Portugal.
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02.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
há uma poalha dourada
a escorrer pela fímbria do tempo
onde se desenham as volutas de corpos
atormentados de luxúria
na partilha das seivas vitais
sangue
sémen
saliva
e um restolhar doce
que pode ser o ruído arrastado dos passos de todos os espíritos
dançando um tango de Piazzolla no salão nobre dos dias
há um frémito que percorre o aposento
cheio de ausentes presenças
cheio de todos os nadas de tudo de que a vida é feita
e desfeita
contrafeita
um encontro furtivo de amantes
um estertor
ou um olhar repleto de pulsações
e quando a noite cai
ou o clima sossega
e as estrelas vogam no seu interminável
passeio pela eternidade
cada objecto reflecte um brilho único
que lhe é próprio e alheio
ao mesmo tempo
que lhe é próprio e alheio
porque assim é
porque assim se conjuga o intemporal presente
feito de tudo o que nos é próprio ou alheio
apenas por sermos
o que somos
e não qualquer outra coisa sem sentido.
(Poema que faz parte da banda sonora de um vídeo de Paulo Moura para divulgação da sua colecção de objectos eróticos)
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02.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Aqui um livro que não me deixavam ler; além um baralho de cartas que o pai guardava numa gaveta fechada a sete chaves; no armário da sala, por trás de copos, medalhas, e tralhas diversas, um cinzeiro metálico com uns relevos esquisitos; na arrecadação, numa velha caixa de cartão, um avental que só era usado em festas de amigos mais chegados e onde todos queriam meter a mão num bolso central que revelava uma conspícua protuberância…
O prazer estimulante de um sorriso brejeiro, a curiosidade avassaladora a que a vida vai dando mais perguntas e respostas, e tudo a pairar no sedimento dos objectos que nos vão rodeando, pelos degraus do nosso ser, altares de proibições sem sentido que, afinal, mais não são do que hinos, com redenção mais ou menos conseguida, à mesma vida que os sugeria.
Depois, guardar um objecto que se ri de nós e connosco, que lembra ou espicaça a aventura, que nasceu porventura das mãos de um sonho ansiado ou, muito ao contrário, de uma realidade degustada à exaustão.
Atrás desse, outro vem. O metal, o papel, o vidro, mas também a madeira, o plástico, o tecido, cúmplices e conluiados todos em estratagemas subversivos, perversos, amorais, para desinquietarem os espíritos ou para marcarem presença de troféu aventureiro, concretizado e irredutível.
Um a um se juntam os objectos como as lembranças, para edificarem o que queremos filtrar das vivências. E somos essa manta de retalhos, estranhamente unificada no edifício coerente, por onde correm os medos e as virtudes, as alegrias e os pecados, em suma o acto de coragem de se estar vivo.
Pode haver arte, com primores técnicos ou artesanalmente rupestre. Nada disso importa, para além do incontrolável sorriso que a gravura, o relato, a escultura, a pintura, o engenho projecta no material seleccionado pelas mãos para dar corpo ao que a mente anseia…
Levanta-te e caminha? Porque não, se está ali tão representada a força vital mais derradeira da Humanidade?
2 de Setembro de 2011
Texto escrito para um vídeo produzido por Paulo Moura para divulgação da sua colecção de objectos eróticos
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02.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Todos os dias entro no mesmo dia.
Igual ao de ontem, ao de anteontem,
Ao que amanhã há-de vir.
Sei exactamente o que farei amanhã às quatro da tarde,
Assim como sei o que farei às duas,
Ou às dez.
A vida agenda programada,
Calendário viciado,
Rotina,
Destino,
Fado.
Dê-se à vida o nome que se quiser!
Eu, quero mais do que isto.
Quero tudo!,
Mesmo não sabendo o que tudo é.
Quero um destino grande num tempo pequeno,
Quero partir o ponteiro que me marca a hora
E sentir!
Desregradamente,
Intemporalmente,
Excessivamente,
Toda e qualquer emoção.
Sentir!
Sem condicionantes, moralismos, ditames ditados,
Preconceitos, obstáculos, conceitos assimilados,
Sentir!
Baixar as defesas, cortar as mordaças,
Abrir os braços, rasgar carapaças.
E sentir!
Partir o ponteiro que me marca o tempo,
Que o pontua, regula e compassa:
Sina… Calendário…Destino …Farsa…
Farsa… Calendário…Destino …Vida…
E sentir!
Mesmo que parta a cara,
Mesmo que fique de rastos,
Mesmo que nunca mais reúna os pedaços,
Quero rasgar o peito e abrir os braços…
E sentir o pulsar, a explosão,
E viver pura, límpida, única a emoção,
E dá-la dizendo:
Esta, sou eu!
Este é o meu tempo, o meu calendário,
O meu objectivo e itinerário,
Recusar a vida, dia programado,
Viver a emoção sem tempo marcado,
E sentir a paixão que me corre nas veias
Sem limites
Sem regras
Sem pejo
Sem peias.
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28.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um pouco mais de sol – eu era brasa,
Um pouco mais de azul – eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
Assombro ou paz? Em vão… Tudo esvaído
Num grande mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho – ó dor! – quase vivido…
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim – quase a expansão…
Mas na minh’alma tudo se derrama…
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo … e tudo errou…
— Ai a dor de ser — quase, dor sem fim…
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou…
Momentos de alma que, desbaratei…
Templos aonde nunca pus um altar…
Rios que perdi sem os levar ao mar…
Ânsias que foram mas que não fixei…
Se me vagueio, encontro só indícios…
Ogivas para o sol — vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios…
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí…
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi…
Um pouco mais de sol — e fora brasa,
Um pouco mais de azul — e fora além.
Para atingir faltou-me um golpe de asa…
Se ao menos eu permanecesse aquém…
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28.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?…
… Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.
Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
e o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu…
Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!
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28.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
– Partimos. Vamos. Somos.
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28.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Só de restos se consagra o tempo, força
cerrada na inutilidade destas
cores campestres, quando o sol em Novembro
escurece os sobreiros. Só de restos me
espera a cerimónia de viver,
trânsito e transigência do silêncio
ocultado no meu corpo. Só de restos
o trespassa o tempo, máscara e manto. Morro
muito antes da morte, sem saber se os anjos
foram gaivotas hirtas no piedoso
musgo dos rios ou se hão-de ser maçãs
ou ciência, loendros ou lembrança,
inocentes, lúcidos sonos ou oblata
de seda, cedida a deus, pagamento
da paz. Só do que chega ao fim, se corrompe
e apodrece, se imagina o princípio,
a majestade das coisas, o silêncio
irrevelado que o corpo desconhece.
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27.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
No silêncio dos teus lábios
ecoa o meu medo
e sombras perseguem-me
gritando-me do teu desdém.
Rios descem dos meus olhos
naufragando em vestes
de versos quentes
que te sussurrei
num leito d’ âmbar.
Sufoca-me o tempo,
medida da saudade
do teu corpo.
Asfixia-me a demora
em ter teu beijo,
único alimento
da minh’alma.
Estremeço ausente,
mergulho no sonho
e morro nas memórias de Ti!
(Do livro “Bipolaridades”. Ed. Lua de Marfim.)
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27.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sou um corpo que deambula ao acaso, que
vive com medo todo o dia. Amostra de ser
mal amado sem conhecer felicidade e
alegria.
Uma mulher constantemente criticada que
chora apenas escondida consciente que
não vale nada e a imagem totalmente
denegrida.
Escondo os hematomas como sei.
Habituei-me há muito a mentir… Vivo
uma vida como nunca pensei com a maior
parte do tempo a fingir.
Esta mão, assim queimada, e a doer, é
porque sou tão distraída… Meti-a numa
panela a ferver e fiquei tão arrependida.
Tapo as nódoas negras com roupa
de Inverno, mesmo no Verão.
Apenas porque sou meia louca
passo a vida a cair ao chão.
A boca, assim cortada, foi
apenas porque sorri… Não sei
estar calada! Apanhei porque
mereci.
Quando parti o braço direito foi
porque me maquilhei nesse dia. Mas
afinal, foi bem feito, porque parecia
uma vadia.
0 meu corpo está tão cansado não
aprendo a me comportar para viver
bem com meu amado, que tudo faz
por me amar.
Farta dos meus erros e maldade subo
até ao vigésimo andar! Salto, enfim,
para a liberdade, e já sou feliz… a
voar!
(Do livro “Bipolaridades”. Ed. Lua de Marfim.)
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27.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ela chegou de vermelho.
Vermelho nos lábios, vermelho
na seda do vestido.
Ele beijou-a
e suavemente acariciou
o corpo macio.
Despiu-a
e era vermelho
o tom interior
daquela lingerie rendada.
Os sapatos,
de saltos altos,
vermelhos,
fizeram parte do momento
que cinicamente ele comprou.
Ela chegou de vermelho,
e saiu vermelha de nojo e de
raiva.
(Do livro “Bipolaridades”, Ed. Lua de Marfim)
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23.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História 172 – O Pastor feito Mercador

Era pastor desde menino. Conhecia o seu rebanho como os seus dedos e mal uma ovelha balia, já ele sabia o que ela queria. Queimado do sol, curtido pela neve no Inverno, atravessava as serras e os vales guiando o seu rebanho a caminho das sombras e das pastagens. Também as ovelhinhas o conheciam muito bem e, a um sinal seu, elas entendiam-no e obedeciam-lhe.
E numa tarde de Verão muito quente, quase ao anoitecer, desceu com o seu rebanho até à praia, e ovelhas e pastor deitaram-se na areia, à sombra dos pinheiros que havia à beira do mar. As ondas iam e vinham, muito mansas, como ovelhas de um rebanho, debruadas de espuma alva, que se rasgava aos bocados, como rendas leves, presas nas pedras e nas areias da praia. Mas o Pastor não dormia; pensava nas lebres do bosque e nas aves que chilreavam nas fontes e nas árvores, ouvia os sons doces e tristes da sua flauta de cana e sonhava com flores, com pastoras e com a felicidade. Não ser pastor… ser rico… não andar um dia inteiro, uma vida inteira atrás das ovelhas, a guiar o seu rebanho…
Por fim, a Lua apareceu no céu, a iluminar tudo de sombras misteriosas e de luzes fascinantes. À sua claridade tudo tomou um aspecto diferente e adquiriu uma forma fantástica. O mar era um espelho, mais brilhante e mais atraente, as ondas pareciam pedacinhos de luz,bocados da própria Lua caídos do céu, a rolar na enorme superfície…
E o Pastor começou a pensar:
— O mar é tão belo… o mar é tão poderoso… Ele leva-nos para terras distantes… Ele faz-nos conhecer outros mundos… Ele faz enriquecer os homens… Porque hei-de eu continuar a ser pastor?! Se eu vendesse o
meu rebanho podia comprar um barco e fazer-me mercador. Levava mercadorias de um lado para o outro do mundo e enriquecia, sem dúvida…
Levantou-se um pouco, de olhos no céu e no mar:
— Em pouco tempo seria um homem rico… rico…O mar é tão belo… e tão bom… Como ele está manso…como está bonito…
Seduzido pela beleza e pela bondade que ele via no mar, o Pastor fez o que pensara naquela noite: vendeu o rebanho das suas ovelhas mansas e bonitas, que baliam por ele, e comprou um barco, um belo navio, com mastros altos, velas brancas e largas, que, abertas, semelhavam asas a levarem o barco para longe, para muito longe…
O Pastor juntou todo o dinheiro que pôde, pediu algum emprestado, comprou um carregamento de tâmaras e fez-se ao mar, esperançoso e alegre, convencido de que voltaria rico logo na sua primeira viagem.
A meio do caminho, porém, tudo se modificou. Uma grande tempestade surgiu e o barco de velas brancas e largas foi impelido pelo vento e sacudido pelo mar, de tal maneira que oscilava ao de cima das ondas, como um brinquedo leve. O vento e o mar embravecidos, raivosos, rugindo e silvando medonhamente, partiram-lhe os mastros, rasgaram-lhe as velas e em pouco tempo o barco ficou arrombado, a meter água, e afundou-se, destruído. Dificilmente os homens salvaram a vida: tudo o resto se perdeu.
O Pastor, que sonhava ser um rico mercador, ficou mais pobre do que antes: agora nem um só cordeirinho tinha… Recordou o seu querido rebanho, que ele trocara por um desejo e por uma esperança, e foi pedir trabalho ao homem a quem o vendera, para voltar a ser pastor e não morrer de fome.
Depois, quando nas horas de sol se deitava à sombra das árvores com as suas ovelhas, dizia para elas:
— Nunca mais… nunca mais as deixo por uma coisa que eu não conheça. Aprendi à minha custa, mas as lições aprendidas assim são as que nunca mais esquecem.
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23.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História 173 – Os dois companheiros
Dois homens seguiam por uma estrada fora. Como se dirigiam para o mesmo sítio, tinham combinado ir juntos, para fazerem companhia um ao outro e para se ajudarem mutuamente nas surpresas da viagem.
A certa altura apareceu a um lado da estrada um machado abandonado, que o mais novo logo apanhou, dizendo muito contente:
Olha, achei um machado!
Não digas achei-a – conselhou o mais velho – diz achámos, uma vez que vimos juntos e que o que encontrarmos de bom ou de mau pelo caminho tem de ser para os dois.
Mas, isto é outra coisa – protestou o primeiro – porque quem viu o machado fui eu e eu é que o apanhei; portanto é meu e muito meu.
Estavam nisto quando viram na sua frente um homem muito mal-encarado. Era o dono do machado, e avançava para eles zangadíssimo.
Agora é que estamos mal – disse com medo o que tinha apanhado o machado.
Estamos, não —respondeu o outro – estás. Porque se quiseste só para ti o que era bom, também deves ficar sozinho com o que é mau. Os bons amigos conhecem-se por repartirem entre si tanto o mal como o bem. Adeus!
E afastou-se, deixando o outro sozinho na estrada.
E aqui termina a história dos dois companheiros
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22.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Indo a Dona Silvana
Pelo corredor acima
A tocar sua guitarra
(Oh, que tão bem a tangia!…)
Foi acordando seus pais
Que sua sesta dormiam.
— Tu que tens, Dona Silvana,
Tu que tens, ó filha minha?
— Ver minhas irmãs casadas
Vestidas à maravilha…
Eu, por ser a mais fermosa,
Por que razão ficaria?
— Não tenho com quem te case,
Senão bem te casaria…
Só se for conde Alberto…
(É casado e tem família…)
— Mande-mo aqui chamar
De sua parte e da minha.
Quero falar com ele
Dentro de uma Ave-Maria.
— Aqui estou, real senhor.
Que quer vossa senhoria?
— Quero que mates viscondessa
Pra casar com filha minha.
— Viscondessa não na mato
Que a morte não lhe é merecida.
— Mata, mata, conde Alberto,
Senão eu tiro-te a vida.
Indo o conde para casa
Mais triste que o mesmo dia,
Mandou fechar as janelas
Pra não ver que era dia;
Mandou pôr a sua mesa
Para fazer que comia.
As lágrimas eram tantas,
Já pela mesa corriam.
— Tu que tens, ó conde Alberto,
Tu que tens, ó meu amor?
— Manda o Rei que te matasse,
Manda o Rei e meu senhor.
Só se fosses pra um convento
Como freira recolhida…
— Darias-me o pão por onça
E a água por medida…
Ainda a palavra não era dita,
Já o Rei batia à porta:
Que lhe mandasse a cabeça,
Que era com pena de morte.
Que lha não desse trocada,
Que ele bem na conhecia.
— Adeus, moços, adeus, moças,
Adeus, espelho onde me eu via!
Adeus, jardins de flores,
Onde eu me advertia!
Anda cá, ó meu menino,
Que te quero abraçar!
Anda cá, ó meu menino,
Que te quero dar de mamar!
Mama, mama, meu menino,
Este leite de paixão:
Hoje, contigo nos braços,
Amanhã, já no caixão.
Mama, mama, meu menino,
Este leite de amargura:
Hoje, contigo nos braços,
Amanhã, na sepultura.
Toca o sino no palácio…
— Ó mamã, quem morreria?
— Morreu a Dona Silvana
Pela traição que fazia:
Descasar os bem casados,
Coisa que Deus não queria.
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21.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Lá vem a Nau Catrineta,
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia,
Que iam na volta do mar.
Deitaram sola de molho,
Para o outro dia jantar.
Mas a sola era tão rija,
Que a não puderam tragar.
Deitaram sortes ao fundo,
Qual se havia de matar.
Logo a sorte foi cair
No capitão general.
– Sobe, sobe, marujinho,
Àquele tope real,
Olha se enxergas Espanha,
Areias de Portugal.
– Alvíssaras, capitão,
Meu capitão-general!
Já vejo terras de Espanha,
Areias de Portugal.
Mais enxergo três meninas,
Debaixo de um laranjal.
Uma sentada a coser,
Outra na roca a fiar,
A mais formosa de todas,
está no meio a chorar.
– Todas três são minhas filhas,
Oh, quem mas dera abraçar!
A mais formosa de todas
Contigo a hei-de casar.
– A vossa filha não quero,
Que vos custou a criar.
– Dar-te-ei tanto dinheiro
Que o não possas contar.
– Não quero o vosso dinheiro
Pois vos custou a ganhar.
– Dou-te o meu cavalo branco,
Que nunca houve outro igual.
– Guardai o vosso cavalo,
Que vos custou a ensinar.
– Dar-te-ei a Nau Catrineta,
para nela navegar.
– Não quero a Nau Catrineta,
Que a não sei governar.
– Que queres tu, meu gajeiro,
Que alvíssaras te hei-de dar?
– Capitão, quero a tua alma,
Para comigo a levar.
– Renego de ti, demónio,
Que me estavas a tentar.
A minha alma é só de Deus,
O corpo dou-o eu ao mar.
Tomou-o um anjo nos braços,
Não no deixou afogar.
Deu um estouro o demónio,
Acalmaram vento e mar.
E à noite a Nau Catrineta,
Estava em terra a varar.
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20.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
– “Já se apregoam as guerras
Entre França e Aragão:
Ai de mim que já sou velho,
Não nas posso brigar, não!
De sete filhas que tenho
Sem nenhuma ser varão! …
”
Responde a filha mais velha
Com toda a resolução:
– “Venham armas e cavalo
Que eu serei filho varão.”
– “Tendes los olhos mui vivos,
Filha, conhecer-vos-ão.”
– “Quando passar pela armada
Porei os olhos no chão.”
- “Tendes los ombros mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venham armas bem pesadas,
Os ombros abaterão.”
- “Tendes los peitos mui altos
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venha gibão apertado,
Os peitos encolherão.”
– “Tendes las mãos pequeninas
Filha, conhecer-vos-ão.”
- “Venham já guantes de ferro,
E compridas ficarão.”
– “Tendes los pés delicados,
Filha, conhecer-vos-ão.”
– “Calçarei botas e esporas,
Nunca delas sairão.”
– “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
– “Convidai-o vós, meu filho,
Para ir convosco ao pomar,
Que se ele mulher for,
À maçã se há-de pegar.
”
A donzela por discreta,
O camoês foi apanhar,
– “Oh que belos camoeses
Para um homem cheirar!
Lindas maçãs para damas
Quem lhas pudera levar!”
- “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher de homem não.”
– “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco jantar;
Que, se ele mulher for
No estrado se há-de encruzar.
”
A donzela, por discreta,
Nos altos se foi sentar.
– “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
– “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco feirar;
Que, se ele mulher for,
Às fitas se há-de pegar.
”
A donzela, por discreta,
Uma adaga foi comprar.
– “Oh que bela adaga esta
Para com homens brigar!
Lindas fitas para damas:
Quem lhas pudera levar!”
– “Senhor pai, senhora mãe,
Grande dor de coração;
Que os olhos do conde Daros
São de mulher, de homem não.”
– “Convidai-o vós, meu filho,
Para convosco nadar;
Que, se ele mulher for,
O convite há-de escusar.
”
A donzela por discreta,
Começou-se a desnudar…
Traz-lhe o seu paje uma carta,
Pôs-se a ler, pôs-se a chorar;
– “Novas me chegam agora,
Novas de grande pesar;
De que minha mãe é morta,
Meu pai se está a finar.
Os sinos da minha terra
Os estou a ouvir dobrar;
E duas irmãs que eu tenho,
Daqui as oiço chorar.
Monta, monta, cavaleiro!
Se me quer acompanhar.
”
Chegavam a uns altos paços
Foram-se logo apear.
– “Senhor pai. trago-lhe um genro,
Se o quiser aceitar;
Foi meu capitão na guerra,
De amores me quis contar…
Se ainda me quer agora,
Com meu pai há-de falar.
”
Sete anos andei na guerra
E fiz de filho varão.
Ninguém me conheceu nunca
Senão o meu capitão;
Conheceu-me pelos olhos,
Que por outra coisa não.
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20.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Estava a bela infanta
No seu jardim assentada,
Com o pente de oiro fino
Seus cabelos penteava.
Deitou os olhos ao mar
Viu vir uma nobre armada;
Capitão que nela vinha,
Muito bem que a governava.
– “Dize-me, Ó capitão
Dessa tua nobre armada,
Se encontraste meu marido
Na terra que Deus pisava.”
– “Anda tanto cavaleiro
Naquela terra sagrada…
Dize-me tu, Ó senhora,
As senhas que ele levava.”
– “Levava cavalo branco,
Selim de prata doirada;
Na ponta da sua lança
A cruz de Cristo levava.”
– “Pelos sinais que me deste
Lá o vi numa estacada
Morrer morte de valente:
Eu sua morte vingava.”
– “Ai triste de mim viúva,
Ai triste de mim coitada!
De três filhinhas que tenho,
Sem nenhuma ser casada!…
– “Que darias tu, senhora,
A quem no trouxera aqui?”
- “Dera-lhe oiro e prata fina,
Quanta riqueza há por i.”
– “Não quero oiro nem prata,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?”
– “De três moinhos que tenho,
Todos três tos dera a ti;
Um mói o cravo e a canela,
Outro mói do gerzeli:
Rica farinha que fazem!
Tomara-os el-rei pra si.”
– “Os teus moinhos não quero,
Não nos quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem to trouxera aqui?”
– “As telhas do meu telhado
Que são de oiro e marfim.”
– “As telhas do teu telhado
Não nas quero para mi:
Que darias mais, senhora,
A quem no trouxera aqui?”
– “De três filhas que eu tenho,
Todas três te dera a ti:
Uma para te calçar.
Outra para te vestir,
A mais formosa de todas
Para contigo dormir.”
– “As tuas filhas, infanta,
Não são damas para mi:
Dá-me outra coisa, senhora,
Se queres que o traga aqui.
– “Não tenho mais que te dar,
Nem tu mais que me pedir.”
– “Tudo, não, senhora minha,
Que inda te não deste a ti.”
– “Cavaleiro que tal pede,
Que tão vilão é de si,
Por meus vilões arrastado
O farei andar aí
Ao rabo do meu cavalo,
À volta do meu jardim.
Vassalos, os meus vassalos,
Acudi-me agora aqui!”
– “Este anel de sete pedras
Que eu contigo reparti. ..
Que é dela a outra metade?
Pois a minha, vê-Ia aí!”
– “Tantos anos que chorei,
Tantos sustos que tremi!…
Deus te perdoe, marido,
Que me ias matando aqui.”
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08.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu cantei os cânticos da vingança em vermelho rasgada,
E cantei o silêncio do lago de baías arborizadas;
Mas ninguém se juntou a mim,
Íngreme, solitário
Como a cigarra se canta,
Cantei o meu canto para mim.
Os meus passos vão-se desvanecendo, extenuados
Na areia do meu esforço.
Os olhos caem-me de fadiga,
Estou cansado dos desconsolados vaus,
De atravessar rios, mulheres e ruas.
À beira do abismo, não penso
No escudo e na lança.
Assoprado pelas bétulas,
Ensombrado pelo vento,
Adormeço ao som da harpa
De outros,
Para quem ela escorre alegremente.
Não me mexo,
Porque todos os pensamentos e acções
Turvam a pureza do mundo.
(1916)
(tradução de João Barrento)
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08.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
( Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)
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08.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O mar voltou a chamar-me,
brando, azul;
ondulando
levemente de espuma e paz.
Eu regresso, de mansinho
(ao seu afago),
canto a tua canção
-num beijo inesgotável-
quando o mar me desperta
todas as ausências:
eu te chamo breve em nós.
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07.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História 171 – A Raposa sem rabo
A prima Raposa andava à caça. Era noite fechada e nenhum de nós veria um palmo adiante do nariz. Mas a prima Raposa sabia ver de noite e, por isso aproveitava essa hora para fazer as suas caçadas; de dia cuidava dos arranjos caseiros, do asseio da sua linda pele e sobretudo do seu lindo rabo. Tinha o maior orgulho nele, e, na verdade, a prima Raposa passava por ter uma das caudas mais bonitas da família e da vizinhança.
A caminho da capoeira próxima, a prima Raposa atravessou um quintal e outro e outro, e sem saber como, foi cair numa ratoeira de que ela nunca suspeitara e ficou presa pelo rabo.
— Isto só a mim me aconteceria! — começou ela a lamentar-se —. Mais me valia não ter rabo! Se aqui me deixo ficar é morte certa…
Mas, por mais que fizesse, nem o rabo se desprendia da ratoeira, nem esta vinha atrás do rabo. Porém, tanto puxou, na ânsia de se ver livre, que o ferro da ratoeira cortou-lhe o rabo e ela pôde fugir, sim, mas sem rabo: teve de lá deixá-lo.
Chegou a casa tristíssima, por se ver privada da coisa mais bela que possuía no seu corpo e ao ver as primas e os primos todos com o seu formoso complemento, ficou ainda mais triste e começou a sentir inveja. Todos tinham cauda — uma cauda tão linda! — menos ela! E além
disso passou a ser objecto de admiração: nunca tinham visto uma raposa sem rabo!
Mas então que foi isso?! — perguntavam eles —. Como foi que ficou sem cauda, prima?
Como foi que fiquei sem cauda, não! Porque é que a tirei! — emendou ela, resolvendo mentir, para não contar o que lhe acontecera.
Tirou-a?! — perguntaram todos espantados.
É a última moda — explicou ela —. É o que se usa agora entre as raposas distintas, da melhor sociedade. E vocês devem fazer o mesmo. Isso de rabo é uma moda antiga, que já só se vê entre os velhos…
Os primos e as primas mais jovens, zelosos da sua elegância, começaram a mirar-se com desgosto, convencidos de que a prima Raposa tinha razão. Mas uma parenta velha, que sabia perfeitamente como as coisas se tinham passado, falou no meio de todos à raposa der-rabada:
— Minha querida amiga, acredito na sua moda e nas conveniências dela, mas digo-lhe já que nós não cortaremos os nossos rabos. Se um dia nos encontrarmos na mesma situação em que a priminha se viu, então deitaremos fora o rabo, mas antes disso, não! Que os infelizes
como você queiram que os outros os acompanhem, compreende-se, mas que os outros se disponham a seguir a mesma sorte de um infeliz, é que não! Quando o mal por cá tocar, veremos… Fique lá sem o seu rabo, que nós tomaremos conta dos nossos, de forma a que continuem
bem inteirinhos…
É claro que a prima Raposa teve de calar-se e nunca mais quis convencer a família e os amigos de que o ideal era as raposas não usarem rabo.
E aqui termina a história da raposa que ficou sem rabo
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