Nota biográfica

Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005). Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».

Eugénio Andrade – “Pequena Elegia…”

23.03.2017 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

facebooktwittermailby feather

Wolfgang Bachler – “Porto, cidade velha”

12.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

Digitalização

Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa de janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.

Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literaturas dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,

enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul
até se desfazerem contra os muros
sombrios das casas.

[Tradução do alemão por João Barrento]

Poema de Wolfgang Bachler, ilustração de Jorge Pinheiro, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Virgílio Alberto Vieira – “Eugénio de Andrade”

10.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

julio_resende

Da luz refém

como Antinoos cada noite
assim chorou

em Delphos
pelo demorado dia

Poema de Virgílio Alberto Vieira ilustração de Júlio Resende, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Vasco Graça Moura – “Eugénio e os pintores”

08.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

albrto_pessimo

sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra,
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no

lento regresso a casa, as aves recolhiam e
eles sabiam que havia alguém para falar
das águas e das luas e da sombra
das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos

do silêncio, seria à mesa do café, numa
sala cheia de livros, num vão de escada a caminho
do atelier que lhe propunham essa
revisita das fontes, das perturbadas melancolias

que ele havia de dizer por palavras no papel,
mostravam-lhe os trabalhos, esperando as
justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever
a sua fome do real nas artes da pintura.

era o cruzar das solidões comovidas: tudo
seria reescrito, portuense, partilhado
com uma densa, irisada exactidão, lá onde
umas pétalas da música começam

a partir de uma cor ou de um murmúrio,
de um rosto ou de uma nuvem,
de uma explosão do sol, de uma agonia,
era nos anos sessenta, era em s. lázaro.

Poema de Vasco Graça Moura, ilustração de Alberto Péssimo, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Teresa Balté – “Para o Eugénio”

06.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

alvaro_siza

Criam as mãos os frutos e recolhem-nos –
Pousam na terra o ovo da ternura
Regam com riso e chuva e sol e lua
Com a paixão aquecem iluminam

Irradiante o caule rasga o perímetro
Abre-se em asa tinge-se de esperança
Revela então o coração da planta
Na flor da aliança o arco-lírio

E fecunda-se o rubro em ouro de alma
Em pomo em pedra em obra em plenitude
Da semente onde o tempo se confunde
E ternamente rola e ruge e canta –

Criam as mãos os frutos e deslumbram-se
Vertendo noutras mãos o rio de chama

Poema de Teresa Balté, ilustração de Álvaro Siza, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Ruy Cinatti – “Madrigal tão engraçadinho…”

06.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

carlos_marreiros

“Madrigal tão engraçadinho”, para Eugénio de Andrade

A tua poesia não sua,
É líquida, confessa.

Não treme, nem tropeça.

A tua poesia é um eco da lua.
Modula na cabeça.

É uma estátua de pedra
Nua.

Poeta!
Quero bem à tua poesia.

Poema de Ruy Cinatti, ilustração de Carlos Marreiros, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Rosa Alice Branco – “Tarde de Poesia”

05.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

carlos_marreiros

Tarde de Poesia. A Eugénio de Andrade


Estás sentado diante de nós
e o teu corpo soletra o amor
como um deus que não tem memória
e por isso não esquece, nem pode ser menos
do que é. As coisas e o nome que lhes deste
somam uma vida e nada divide ou subtrai
a melodia. Olho para ti com palavras que
tinha perdido e estão todas no teu corpo
a abrir quando estamos pobres e nos dão
ouvidos para a tua voz. A cadeira do tempo
está vazia. Tu preservas até o nome que
foi dado ao ar em que respiraste um amor antigo
ou o último adeus e por isso estás inteiro diante
de nós e é como se pedíssemos que guardes
o que perdemos todos os dias. Na tua voz
as coisas regressam e dói quando a luz
lhes bate nos olhos porque expulsámos a dor
do paraíso. Estás sentado diante de nós
e guardas os afectos que deitámos fora,
distraídos a separar o trigo do joio.

Terça, 15 de Fevereiro de 2000

Poema de Rosa Alice Branco, ilustração de Carlos Marreiros, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Pedro Homem de Melo – “Evocação” (De Eugénio de Andrade)

03.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

artur_bual

Ao café de S. Paulo, quantas vezes,
Outrora fui buscar-te!
Sentíamo-nos ambos portugueses
E ocidentais, em arte.

Do Jardim de S. Lázaro chegava
Um apelo de tília e de açucena
E aquele aroma, cálido, embalava
A carne, loira num, no outro, morena.

Roma, Londres, Paris (talvez Nínive…)
Cercavam-nos então.
E aquelas ilusões
que nunca tive
Poisavam-me na mão…

Ó lucidez da nossa inconsciência!
Voz que, no azul do ar, se diluía…
– Eugénio? – Pedro. (Eugénio – a inteligência;
Pedro – o instinto).
E despontava o dia!

Teus versos eram, sempre, madrugada
Diáfana, tão pura!
E eu dizia-te adeus, de alma lavada,
Mergulhando, depois, na noite escura…

Poema de Pedro Homem de Melo, ilustração de Artur Bual, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Nuno Júdice – “Lição”

01.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

emerenciano

Aprendíamos a amar, aprendíamos/a morrer


É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.

paris, l-XI-99

facebooktwittermailby feather

Eugénio de Andrade – “Três negativos…”

01.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

alfredo_luz

Três negativos e uma dissonância para Eugénio de Andrade

Não era o pampilho.
Mas ao acaso o poeta chama os amarelos da tarde, entre o silvo de dois
aviões, e o destino se cumpre das coisas. De todos, só ele ousará semear, frágeis assim de nome e de espécie,
minúsculas manchas de alegria no mais branco de seus cadernos.
Não trago ainda «A Vida das Abelhas».
Que mais fácil, pergunto, será o esquecer do que fazem em Maeterlinck
quantos enxames, que sentido têm seus sentidos? Leva-se o dia ocupado em descobrir da outra, da pequena vagabunda
italiana, a secreta receita para o fabrico do mel.
Não o de Domingos Peres das Eiras.
Através dele o rosto vem do poeta, erguido para a cidade essa que é uma
coroa dorida de navios encalhados. Já rio nenhum separa os dois rostos.
A voz a voz se juntou, e aos assaltantes um desafio apenas lançado: «Na cidade se está, se é. E nem mesmo o poema, por violento e de sangue,
detém a nortada de abril, o poeta, seu mês.»
Estas, as palavras, por aqui resvalam até o pó, pois que pó é o pó ou a luz?
Da cal de Tavira à bruma de agora encharcadas: insubmissas, ternas como
os animais de fogo. Um grito se pedia, nem de pomba nem de cabra, para que de palavra fosse,
sal da efémera palavra. E aí ficava também, nos versos do poeta. Quer dizer, neste tempo que temos: tão de fulgor, tão escasso.

Poema de Mário Cláudio, ilustração de Alfredo Luz, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Manuel António Pina – “A Eugénio de Andrade”

21.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

emerenciano

No sítio mais fundo
do teu nome
fala o que não se pode dizer.

Que ninguém chame pelo teu nome,
que ninguém acorde o teu nome que
dorme.

Porque é o nome do homem
e o do menino,
o da vítima e o do assassino.

Poema de Manuel António Pina, ilustração de Emerenciano, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Manuel Alegre – “Eugénio de Andrade”

14.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

fernando_lanhas

Há em Eugénio de Andrade
uma tensão extrema
substantivos e verbos trazem os elementos
respiração da terra no poema
a vida intensa a breve eternidade
e as sílabas do sul entre o verão e os ventos

Poema de Manuel Alegre, ilustração de Fernando Lanhas, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Luis Filipe Castro Mendes – “A Eugénio de Andrade depois de ler…”

11.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

francisco_simoes

A Eugénio de Andrade depois de ler “Os lugares do Lume”

Entre os lugares do lume acontecia que
a tua voz as músicas movia

e era outra paisagem de repente a
levantar-se como sarça ardente,

como se os prisioneiros da linguagem se
tornassem só lume, só passagem

e na terra que foi melancolia
ardesse a voz inteira da poesia.

(Mas nos lugares do lume que disseste
um pur si muove brilha e aparece.)

Poema de Luís Filipe Casreo Mendes, ilustração de Francisco Simões, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

José Tolentino Mendonça – “Setembro”

10.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jorge_ulisses

… quanto mais envelheço, mais pueril é a luz mas essa vai comigo.

Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada
experimentava uma exaltação—de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável

o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece com
certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros que
ladram não se percebe como à porta da velha casa

Poema de José Tolentino Mendonça, ilustração de Jorge Ulisses, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

José Fernandes Fafe – “A Eugénio de Andrade…”

08.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

mario_botas

A Eugénio de Andrade, agradecendo “Até Amanhã”

Lembras-te da primeira vigília que fizeste,
à espera, trémulo, da madrugada nova?

Deu o meio-dia, tilintava o oiro, e
anoiteceu-nos como se a nossa amada
fosse a descer à cova.

Depois, tu esperaste sempre a
madrugada, mas sempre a noite paria
nados-mortos, sempre a esperança
espancada cada dia: frágil, de luz e de
cristal, a tua fé embaciou-se de
melancolia…

Mas tu esperas ainda – porque os
teus versos ainda são os do rapaz
maravilhado pela afogueada cor
duma romã.
E vem dele a saúde a quem se cruza
contigo, no branco litoral: «Até
amanhã».

Poema de José Fernandes Fafe, ilustração de Mário Botas, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

José Bento – “Para um barco moliceiro…”

07.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jose_rodrigues

Para um barco moliceiro e para Eugénio de Andrade

É a hora que não consente sombras.
Dardos procuram o teu dorso, ou labaredas. Tudo
conheces da água, mas a sede é a corrente
insone que te fere e te impele.

Persistes em singrar, embora só: tua imagem não a
encontro senão em teu próprio reflexo. Porém, não
crias nunca solidão nem carência: quem te olha
decifra o esplendor do azul secreto.

Que destino, ser barco!: escrever ao magoar as
ondas com o sangue que sobre ti é o vento,
sabendo que as palavras agonizam nas sílabas
apenas brotam, e a espuma é o seu eco.

Uma noite extenuada, rente a um juncal ou um rosto,
já só tronco insubmisso, hás-de apagar-te, lento. Mas
em teu cerne o fogo que hoje te persegue continuará
a doer-nos, puríssimo, desperto.

Poema de José Bento, ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Jorge Sousa Braga – “Aniversário” (para o Eugénio)

04.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jorge_martins

Trouxe-te um ramo de frésias (não
eram essas as flores dos jardins de
Castelo Branco?)
embrulhadas em celofane por causa do
frio Trouxe-te um ramo de frésias já
que não te podia trazer um rio

Primavera 84

Poema de Jorge de Sousa Braga, ilustração de Jorge Martins, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Jorge de Sena – “A Eugénio de Andrade, por ‘Véspera da água'”

03.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

julio-resende

Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.

Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos,
correndo vai essa água transportando-os
a um mar que ondas recurva silenciosas.

Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.

Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.

Poema de Jorge de Sena, ilustração de Júlio Resende, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Joaquim Manuel Magalhães – “Já não fácil, Eugénio, um poema.”

02.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

gustavo_matos

Outrora várias vezes versos esperei
onde ficava fechada a amizade e vinham
num jogo de acalmia os instrumentos
de desenhar esse grão de penumbra. Enquanto
a casa e o corpo me protegiam.

Hoje tenho esta certeza de dizer-lhe
que nem a poesia é uma casa, nem faz senão
expor-nos ao banal num corpo já
entregue a bisturis, apenas o espera cada
cinza.

A claridade a que tento escrever-lhe
é tumefacta como um órgão ferido,
está sujeita numa cortina suja
e é à salgação da morte
que na janela adormecem os contornos.

Passámos na vida pelas nossas vidas
e, sabe que é raro, tudo esteve certo.
Agora é esperar o canto enfermo,
o banimento,
nem um abraço ficará
de nenhum de nada de nós.

Talvez nessa altura fogos presos nos
acendam em barcos as palavras,
estrondos surdos de luz cruzem a água
diante da qual por algum tempo a mão de
alguém fará lembrar esses focos da noite,
esquivos, impossíveis de tocar.

E nessas brasas de tanta cor outros
escutam o desaparecimento.

Poema de Joaquim Manuel Guimarães, ilustração de Gustavo Matos, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

João Miguel Fernandes Jorge – “Naufrágio…”

30.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jose_rodrigues

Naufrágio que le Prince Charmant sofreu ao tempo do
Livro de Navegações de São Brandão.

Procura ainda a vida que
podes viver quando reflecte
da floresta a sombria folha
que

no primeiro capítulo foi perdida.
Procura a proporção do que
cresce dentro e fora da casa –

o corpo,
no seu existir dia a dia
similiter tui domine
deus. Procura

a vibração do mar e da terra e
desce
na cavidade medida
o mais profundo golpe.

[Para Eugénio, o único poema que escrevi em 1999]

Poema de João Miguel Fernandes Jorge, ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Inês Lourenço – “Liturgia”

27.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

armando_alves

Intensamente te leio e reconheço
esplendor que me religa
para sempre aos teus olhos, adâmicos
e indemnes à usura
das palavras do mundo. Nessa nudez
celebras a fuga
de um corcel travestido de cinzas
no rito do poema nascido.

Poema de Inês Lourenço, ilustração de Armando Alves, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Gastão Cruz – “Escutamos o Porto”

25.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jose_rodrigues

Escutamos o Porto: os passos dados sobre lajes; vozes soltas, feridas; falas num português perdido.
Descemos da Sé para a Ribeira. Essas mulheres que gritam estão vivendo entre pedras ainda. Caminhamos no lixo. Vamos atentos à solidão das pedras, à forma destas casas que deveriam estar apodrecidas. A redução da luz conserva as suas tintas, embora mortas, vivas. Cores indecifráveis, vermelhos espessos, obscurecidos. Amparam cheiros fétidos, penumbras. E o rio resume tudo isto: mulheres lavam na água destruída: roupa, sabão e cascas de laranja; em torno, a água grande, verde e íntima.

Agua estreita, granito, como a Vila. Na Rua de Cimo de Vila começamos o caminho de Domingos Peres das Eiras. É esse o nome, o verdadeiro nome de Eugénio de Andrade? Que nos conduz na sordidez e no esplendor da Vila. Tu duca, tu segnore, e tu maestro.

Sem culto, a Igreja de São Francisco é uma gruta de talha onde se deslocam aves, as mesmas que Eugénio de Andrade vê junto ao cais, sobre barcaças negras. Depois, aquele muro branco, dele e de José Rodrigues, diverso dos muros brancos do sul, escuro, parede de uma rua onde vozes de crianças – tão exteriores ou interiores a nós, que são repentinamente as de William Blake – jogam.

E ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.

É de noite, de facto, mas não estás só. O frio sobe do Douro, a cidade expõe as suas luzes. Escutamo-nos.

Poema de Gastão Cruz, , ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Fiama Hasse Pais Brandão – “Poesia”

21.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

lagoa_enriques

… Os meus olhos, o espírito e as mãos
pegam em cada imagem de uma flor,
em cada dia de visão e ganho. Mas a
perda, enfim, virá somar tudo igual a
si mesmo, uno, passado. E, de
repente, uma flor de palavras muito
branca chega até mim, e é esta
estação, nesse florir de goivos. Uma
carta traz-me inscrita as palavras de
Eugénio, goivos, e o seu eflúvio. Esta
transcreve-a ele de Pessanha, diante
de tão nítidos canteiros. Grata,
prendo-me a esses elos vivos da
corrente de vozes, que se oferecem aos
ouvintes, depois de recolherem o real,
o findo, o que foi amado. […]

Poema de Fiama Hasse Pais Brandão, ilustração de Lagoa Henriques, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Fernando Pinto do Amaral – “Para um retrato de Eugénio”

20.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

jose_rodrigues

São coisas muito frágeis – uma sede
a transformar-se em água ou num sorriso
aberto à flor dos lábios,
a música de um corpo enquanto é verão
e sobretudo a chama de um olhar
que se entrega à primeira alegria,π
ao primeiro desejo.

Ele sabe, sempre soube que é difícil ser
fiel ao esplendor de tudo isso, à
melodia ou ao rumor do sangue. É um
segredo roubado à terra ou à infância
como se a voz dançasse.

Confidente das aves quando chegam
do sul
ou cúmplice da luz que se demora
à passagem do vento,
mal o vejo daqui
e a sombra que se move entre os seus olhos
é a lição do dia quando morre,
esse rasto de lume que o sol deixa
a arder no mar.

Poema de Fernando Pinto do Amaral, busto de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

Egito Gonçalves – “Eugénio”

18.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

lagoa-henriques

Trouxe para as névoas da cidade
o ouro dos trigais, a brancura da cal que
os mouros deixaram por herança,
como a nora que sempre deu água ao
seu moinho. Percorreu as ilhas da
história para britar a pedra, esmiuçar
os alicerces, começando a amar as
maresias, a areia suave, as luzes das
arribas, e quando o coração se lhe
partia escrevia um poema onde o sol
entrava pelos ossos, dourava a saudade
e punha as aves negras a voarem para
longe, estrelas do desgosto que as
nuvens arrastavam para fora do
horizonte. As cintilações de Setembro
reverdecem o que a memória decantou,
o mar a que a errância da memória
sempre volta. Folhas secas aparentes,
que formam um tornado luminoso que
bate à sua porta. E a porta abre-se… o
mar está ali.

Continuando a homenagem a Eugénio de Andrade por outros poetas… Poema de Egito Gonçalves, ilustração de Lagoa Henriques, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

António Ramos Rosa – “Eugénio de Andrade”

16.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

eugenio

A delicadeza tinha ainda outras teclas
que nós não conhecíamos
E era a paixão também de subtil intensidade
a sensualidade pura
entre veios de melancolia e o fulgor da cal
E os versos levantavam-se como hastes de um azul-claro
ou fulvos e vermelhos como pequenos frutos
envolvidos ainda pela areia das dunas
Neles o mar ressoava mas como um astro de veludo
e o claro clamor do silêncio do meio-dia
Cada verso vibrava numa perfeita melodia
que era sempre de um corpo branco e nu
e tão vegetal na sua indolência oferecida
que se sentia a sede dos seus poros
e o seu sopro de apaixonada melancolia adolescente.
Era Junho ou Setembro mas sempre um mar de pálpebras
perpassando na luz de um mundo recém-aberto
e nas sílabas de um verde-claro
Enquanto caminhava ao longo de um muro antigo
numa vereda silvestre ouvia-se o rumor de uma
pequena nascente, e os versos crepitavam como vimes
acesos e abriam as minúsculas corolas da sua ténue
transparência ou deslizavam como cisnes entre o júbilo e
a melancolia como se o mundo fosse o delicado esvoaçar
de um adolescente aéreo com um torso de trigo e o seu
hálito de cravo e o odor do seu púbis azul

Poema retirado do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA, com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. O autor do poema de hoje é António Ramos Rosa e a ilustração de Augusto Gomes.

facebooktwittermailby feather

Bruno Tolentino – “Uma voz da terra e do ar”

12.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

eugenio

a Eugénio de Andrade

O rosto entreaberto
pela madrugada, o
rebanho, a alada
fulguração.

O lábio tão perto do
silêncio; o calmo
balanço do tálamo; e a
canção.

Domínio obscuro
como o berço, como o
primeiro pomo, como
o alto mar.

A mão quer o duro
caroço; a semente quer
o corpo ausente; quero
louvar
o gesto perfeito na
página branca, o
duende, a dança no
precipício,

o cardo no peito, a voz
no princípio: a leve, a
difícil colheita no ar.

Londres, 1973
Poema recolhido do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. a ilustração deste poema é de Laureano Ribatua.

facebooktwittermailby feather

Armando Silva Carvalho – “Homem do Sul”

09.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

eugenio

Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.

Rigor obstinado, era o
que ele dizia. Ele, o
homem do sul, e
persistia.

Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.
Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora
o teu lamento.

“Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather

António Ramos Rosa – “A Eugénio de Andrade”

18.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

eugenio_carlos_carneiro

Conheces as palavras que amanhecem
na sombra quase lancinantes
e vegetais brancas com um leve rumor
de pulso tão próximas do mar
Doem-te as estrelas nas obscuras portas
ou na garganta da terra ou ainda nos ombros
do dia limpo Quase preciosas
têm a elegância da água e um segredo de espuma
Há nelas sempre o perfume que desce do crepúsculo das colinas
Têm o torso leve o peito aéreo e um branco aroma
e sabem a cal e a limão e a madeira verde
Não são sonhos mas é sempre a sede ou o amor
que rompe a pedra
ou ainda a solidão que busca a última estrela
Procuras sempre a luz e no sonho te acendes
e na luz germina a tua sombra
No fulgor das vogais ou já no seio da terra
encontras a alegria e o abandono das águas
Onde a chama canta paciente e alta
é o leve círculo o último e o primeiro
onde a luz desenha a inocência da nudez

Poema de António Ramos Rosa e ilustração de Carlos Carneiro retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. Patrocínio da BIAL.

facebooktwittermailby feather

António Osório ” Eugénio de Andrade”

16.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

eugénio-pomar

Poema de António Osório e ilustração de Júlio Pomar.

O que de seu tem,
o que tem de mais belo
é grego ou toscano.

A mesma forma
infrangível
de receber as nuvens,
alegria
de estar na terra lavrada,
de tê-la entre as mãos
friável,
de encontrar um corpo na noite.

O mesmo gosto de água soterrada, a mesma paixão pela vida.

Obstinada.

10 de Dezembro de 1972

Poema de António Osório e ilustração de Júlio Pomar retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.

facebooktwittermailby feather