Nota biográfica

Cristina Miranda nasceu em Braga e lá vive. Fez o curso de História e Ciências Sociais, mas quis o destinio que seguisse a carreira de bancária. Porém, a poesia sempre a acompanhou e foi na blogosfera que as suas palavras de tornaram apreciadas.

Cristina Miranda – “Tilintar de orvalho”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não deixamos cair Outonos
Sobre as mãos
Nem adiamos Estios
Quando habitamos juntos
Acerco-me da maior janela
Para desfrutar da mais bela paisagem
A realidade a perder de vista…

E enquanto te procuro
Ouço a voz
O tilintar do orvalho sobre os pastos
O canto das flores em correrias
Cabriolando sobre carreiros verdes

E quando te vejo
Ainda com o aroma do acordar nos ombros
Estendo os meus olhos
Até te alcançar os passos
Até te tocar de leve
Até te acompanhar
Sentindo a frescura beliscar leve as nossas frontes

E quando já de volta
Me dás o braço
Trazendo ramos de satisfação
Que vens pôr
Como serenatas
Debaixo da nossa janela
Não deixamos cair Outonos
Nem adiamos Estios
Apenas nos sentamos
Calmos
Em bancos de Primaveras

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Cristina Miranda – “Saudade”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Foi depressa que devagar nos percorremos,
Foi devagar que depressa corremos o nosso corpo,
Cobrindo-nos da felicidade
Que ia caindo como fiapos de acalento,
Dos meus e dos teus dedos…

Ah, não somos capazes de mais,
A não ser gotejar anseios
Para enobrecer os gestos
Com que nos saciaremos,
Logo mais,
Quando de novo nos inventarmos!
Pensemos no bem-querer que teremos
Quando demorar a vontade,
Que pinga, em nós, açucarada

Sobrevoemos o prazer de estarmos,
De sentir o calor da arena da pele,
E então, sim,
Surpreendamo-nos com a extravagância:

Será depressa que devagar nos percorreremos
Será demorada a pressa de nos invadirmos,
Mas será tão notável o prazer que sempre teremos,
Quer seja ontem,
Quer seja hoje,
Ou amanhã,
De esvoaçar sobre o diadema do nosso desejo.

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Cristina Miranda – “Encanto”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tinha dito,
em jeito atabalhoado
que havia arrumado a palavra.
Mas vi-te usá-la com tal cuidado
que me escondi no silêncio.
Não te zangues,
nem deixes de me olhar
como só tu fazes,
com esses olhos juvenis,
ouso dizer, de criança,
de menina de tranças…

Olhei-te
enquanto a embalavas.
De ti,
guardo o aroma
este cheiro doce que me viste roubar
do ninho onde cuidas as palavras bonitas.
Mas não me basta,
sabes que não!
Por isso corro,
escondo-me aqui,
o mais próximo de que sou capaz,
para te poder ver,
sem que me vejas.

Não te escrevo…
Não sei escrever cartas de amor,
pois que te disse que não pegaria mais nas palavras.

Maternas as tuas mãos
Maternos os teus braços
Maternos teus beijos, teus sorrisos,
Maternas até tuas lágrimas,
quando por mim choras,
querendo por tudo tirar-me do caminho,
as palavras feias em que agora pego…

Tu és tão bonita!
Comovem-se as minhas mãos,
soluçam,
embarga-se-lhes a voz
a ponto de não conseguirem responder-te!

Pudesse eu escrever uma carta de amor!…
Pudesse eu embalar-te até que adormecesses!…
Pudesse eu, e, ao aroma que guardo de ti,
juntava uma cor, um olhar,
esse teu, que sei de cor!
Traria três palavras bonitas,
dessas que alimentas
sempre que me mimas.
Pudesse eu,
e faria uma frase
para ir por depois, de novo
No parapeito do teu abraço.

Mas eu vou
devagarinho…
sem que me vejas, eu vou!
Dorme, meu anjo.
São tuas, mas vou usá-las,
fazê-las minhas,
só por um instante,
suficiente para te dar uma espécie de flor.
Quando acordares,
promete que olharás a janela
que saberás que fui eu que ta adornei
com um raminho feito de uma frase.
Voltarei sempre para cuidar dela,
Prometo-te!

Não sei escrever cartas de amor,
sabes que não,
mas esta frase é como se o fosse,
enquanto me escondi no silêncio
para te olhar,
sem que me visses,
e este:
Gosto de Ti,
cor do que sinto
sempre que estou contigo,
fica tão belo no teu regaço!

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Cristina Miranda – “Triste forma de amar”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Noite após noite,

Colocaram-se nuvens no céu-da-boca.

Estudaram-se os segredos,

Enquanto sentíamos a chuva

Nas nossas línguas.

Imaginei os reflexos

Dos pirilampos que viriam

Servir-te de ponto,

Espalhando restos de luz,

Sobre a galeria de vidas que encenámos…

Conhecíamos a razão

Do pousio das palavras,

Da angústia de sentir descer 

Sobre elas o pano…

Os aplausos eram apenas o eco

De ver uma nova personagem surgir,

Sobre o horizonte da minha garganta.

Por isso decorei todos os silêncios,

Essa ante estreia de uma outra estação,

O escuro de um Inverno,

Sabendo dos reflexos de chuva

Que teria ainda de conhecer.

Tentámos fingir,

Mas não era esse o ponto forte!

O ponto alto?

Foram os obstáculos,

As sementes de tempestade

Escondidas nas nuvens

Do céu das nossas bocas,

Que fomos suportando.

Entrámos.

Eu sentei-me na primeira fila,

Para ter a absoluta certeza de que me verias,

Ainda que fosse eu, a tua única espectadora.

Não aplaudi, no fim.

Já sentia o lago de lágrimas, 

No meio de um público,

No meio de mim…

Esperei que todas as luzes se apagassem.

E, então, sim, 

Chorei, no escuro,

Para que nenhuma porção minha me visse.

E depois fugi 

Daquele lugar,

Fugi de mim,

Tropeçando nos soluços,

Chegando quase a cair,

Naquela tão triste forma de amar!

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Helena Maltez – “H2O”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

és símbolo químico
que brota da terra

água fresca tatuada na rocha
dás vida à vida

discreta quando habitas nas nuvens,
no horizonte és energia
e fonte do ser.

ouves-me nos desejos
da palavra que não é escrita

circulas no meu sangue e vibras,
deixas que te sinta no coração.

imóvel olho-te
mostras-te rainha no mar,
princesa encantada no rio
que aquece a alma, nos lagos

da tua voz escorrem
hesitantes ternas sombras

olho a tua tonalidade
sinto o desperdício da humanidade

hoje és lágrima
no meu rosto…

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Helena Maltez – “O momento”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

escutei a tua voz, dentro da melodia
chegou transparente, agarrada à emoção
foi arte pendida num mistério precioso
golfada fresca num trabalho de beleza
foi matéria atenta,
júbilo inesquecível.
potência da razão resplandecente

veio abraçada às palavras,
ritmada, pausada,
foi símbolo delicado que fez luz,
loucura desabrochada de esplendor
viajou triunfante nos textos
sem medos, onde a música se fundiu
até à dilatação no éter do fascínio

irrompeu ramificada
na inocência dos sentires.
debruçou-se inundada
sobre o leve peso dos sonhos,
reclamou à sabedoria
a teia dos gestos etéreos
foi profunda, misteriosa, tocante..

a tua voz vibrou
fez crescer a palavra dita!

(Este poema foi dedicado ao “Lugar aos Outros” do Estúdio Raposa)

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Helena Maltez – “Silêncio”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

bate à porta o silêncio, mando-o entrar,
nas paredes, as sombras reflectidas por um candeeiro
de mesa, tomam cor. arrepio-me, sinto frio. cinzento, o
silêncio senta-se ao meu lado, segura as minhas mãos
gélidas e roxas, sente o meu medo e acaricia-me.
descubro nas sombras, um rosto delineado, parece-me
o teu, com os olhos cheios de brilho, num tom esverdeado.
és tu o silêncio!
o silêncio que escuto e me abraça.
irrompem no meu corpo palavras tuas, misturadas com
o tilintar do frio que há dentro de mim.
entramos no nevoeiro dos sonhos, eu e o silêncio,
de mãos dadas perseguimos um rasto de luz, construído
de objectos de um tempo que cresce.
procuro esse tempo, a luz do teu olhar mostra-mo
murcho, disforme e carregado de sentires.
flutuamos unidos, no crepúsculo embriagado
das noites de ninguém. pressenti nos teus gestos o quanto amei
e embalamo-nos a dor sem medo de nos destruirmos.

fico para sempre ligada ao silêncio como um pacto de
sangue, alimentamo-nos de secretos desejos.

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Helena Maltez – “Sonho…”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

a noite entrou, encantada
adormeceu-me o corpo
envolveu-se nos meus sonhos
fez-me sentir-te em ti
tremer junto ao teu corpo
beijar teus lábios demoradamente
descobrir o teu gosto
com meu corpo inteiro

fomos sombras ocultas
cheias de movimento
desejos penetrantes e agitados
fomos nós num momento
da duvida que sonha a certeza
o desequilíbrio na infame consciência

a noite fez-nos sentir
o silêncio vestido de branco
a ausência irreal
em forma de sonho
viajámos juntos em sentimentos
e o teu corpo fundiu no meu

de alto a baixo
o suspiro violento
numa voraz paixão
que nos alimentou as veias
da noite que cresceu como louca,
brotavam palavras, nas entrelinhas
um intenso amo-te
no duelo de quem ama

a noite acordou-me
abandonou-me sem sonhos
tu não te encontravas lá
só a cama, branca, amarrotada…

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Fátima Fernandes – “Registos”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ouço-te num qualquer outro registo de dança
Onde pensares e sentires são devolvidos em contracapa
Nua, de cor única e vazia de espelhos

Olho-te e não te vejo
Só os esboços estudados da dança
Permanecem em meus ouvidos como inconstância
De desafios musicados
E de suspiros
E de muros levantados
E de búzios fendidos
Por onde se escapa o que nem a brisa alcança

Olho-te por entre o arvoredo de um mar salgado
Agitando formas de cotovelos apoiados nas águas
Numa outra de mim que o registo fez parte
Quando fendiam as paredes da casa
Agora brancas, imaculadas
Pelo silêncio sorridente e ameno das asas
Que descubro serenamente e destapo
Nas cores luzentes das sonoridades
Que enfeitam e alegram o espaço
No repouso cantante, suave
Do regaço que eleva e embala

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Fátima Fernandes – “E sobre a água…”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando amanhece

fecho os olhos serenos 

e no vazio procuro o som do silêncio 

que ansioso me aguarda

Mergulho nas águas tépidas e cristalinas do voo

e a voz que me canta 

acontece



Quão breve instante…

Que adianta!

Fogem as letras espavoridas

e se escondem tímidas

num espaço 

que para já não alcanço 

nem agarro



Desperto muda 

silenciada e crua

pelas vozes rodeantes que me falam

da atenção exigida 

da futilidade do dia

e do espanto



Então parto

para outra estória

outra vida

em breve-longa pausa



E sobre a água teço passos

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Fátima Fernandes – “Em rosa rubra”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura

Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos

Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura

Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra

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Fátima Fernandes – “Sob o azul da luz e o verde dos laços”

01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Poema dedicado à filha, grávida, de gémeos)

Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido

Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves

Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços

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Carlos Drummond de Andrade – “O que se passa…”

27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)
É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pénis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pénis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda húmidos de sémen,
estes segredos de cama.

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Carlos Drummond de Andrade – “No mármore..”

27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.

Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.

Tu a levaste contigo.

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Carlos Drummond de Andrade – “”No corpo…”

27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

No corpo feminino, esse retiro


— a doce bunda — é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento… Então, se ponho e tiro

a mão em concha — a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

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Carlos Drummond de Andrade – “Era bom…”

27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.

Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor do outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.

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Carlos Drummond de Andrade – “A bunda, que engraçada”

27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.

Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.

A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.

A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.

Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.

A bunda é a bunda
redunda.

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Ricardo Vercesi – “Amo-te”

20.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordo para mais um dia. Custa a respirar.

O sol já não brilha como dantes. O horizonte marca-se a cinza.

Já nada faz sentido. Os segundos arrastam-se no relógio. Até o tempo marca passo.

Não te vejo. Somos uma sombra do que fomos. Outrora…

Sempre fomos tão errados um para o outro. Água e azeite.

Mas fazes parte de mim. Como o Sol e a Lua, jogando às escondidas.

Talvez por isso, já não falamos. Já mal olhamos um para o outro

Como o Sol e a Lua somos eclipse. E mesmo assim…

És o meu mundo. Sem ti, nada funciona.

Os dias arrastam-se. Não vejo, Não ouço. Não sinto o gosto da vida.

Falta-me o equilibrio. Falta-me o ar. Faltam-me as palavras.

Falta-me a coragem para te abraçar, com medo que me rejeites.

E mesmo assim…amo-te.

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História 05 – “Cravo, Rosa e Jasmim”

19.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História tradicional Portuguesa gravada em 2 de Fevereiro de 2006.

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História 04 – “A Saia de Campainhas”

17.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História tradicional Portuguesa gravada em 23 de Janeiro de 2.006.

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História 03 – “O menino de Ouro”

16.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Repondo um a história gravada em 2.006.

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Verdi – “Ária da ópera O Trovador”

15.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP.

Já aqui falámos de Giuseppe Verdi quando transmitimos a ária “Va Pensiero” da ópera Nabuco.
Hoje voltamos a ouvir um dos maiores compositores do teatro lírico de todos os tempos.
Verdi veio ao mundo no dia 9 de Outubro de 1813 num lugarejo praticamente desconhecido no Ducado de Parma e, como a região ainda se encontrava dominada pela administração francesa, foi baptizado com um nome francês (Joseph Fortunin François). Às portas do seu primeiro ano de vida a sua existência foi seriamente abalada e, se não fora sua mãe esconder-se com ele no alto duma torre, tinha perecido às mãos da soldadesca áustro-russa que entrou de rompante na sua aldeia natal, expulsou os Franceses e dizimou a população civil.
Talvez este episódio tivesse incutido na criança um espírito de revolta. Havia que unificar a sua Itália e o compositor identificou-se com o “Movimento pela Unidade Italiana”.
O grito de guerra “VIVA VERDI” escreveu-se pelas paredes de todas as aldeias e cidades do norte de Itália dominado pelos Austríacos. Estes não se aperceberam que esta bonita frase não era propriamente para aclamar o compositor, mas o rei que Itália inteira queria no trono: Vittorio Emmanuele Re D’Italia – “V.E.R.D.I.”
Hoje vamos ouvir uma ária para coral da ópera “O Trovador”, estreada no Teatro Apolo de Roma em 19 de Janeiro de 1853. A estreia triunfal deste trabalho foi rodeada por um episódio quase absurdo. Os censores eclesiásticos alarmados histericamente com o suicídio de Leonora não se calavam; e foi retirada a cena onde a principal personagem feminina bebia o veneno muito bem guardado no seu anel. Remédio santo.

Ouvimos, Música para quem gosta de POP, hoje com Verdi.

(Coro e Orquestra de Budapeste, conduzida por Josif Conta)

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História 02 – “Outra história do Capuchinho Vermelho”

14.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Versão do “Capuchinho Vermelho” em história tradicional Portuguesa.
Gravada em 2006.

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História 01 – “A Cara de Boi”

12.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História tradicional Portuguesa, gravada e disponibilizada em 5 de Janeiro de 2006.

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Orlando da Costa – “Canto Civil 2”

10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Soldado raso

ao cimo da calçada
 
em guarda
 
de flor e farda
 
a flor que te damos
 
é pão da madrugada
  
É pão amassado
 
sem liberdade
 
é gesto de guerra
 
em nome da paz.
 
É flor de canção
 
em terra mar e ar
 
rubra flor popular
 
num só cano de espingarda
  
Soldado raso
  
em sentido na memória
 
lembra-te de novo e sempre
 
a flor que te damos
  
é da terra é do povo

é pão da madrugada.

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Orlando da Costa – “Canto civil 1”

10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

 Este é o meu canto civil
 
canto cívico graduado
 
desde um tempo antigo que vivi
 
entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio
 
Esse era o tempo do assalto às casernas
 
mas já então eu escrevia o que devia:
 
a cartilha da guerrilha do amor e da paz
 
para ser ensinada à luz das lanternas
 
nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis
   
Este é o meu canto civil
 
canto cívico desfardado
 
escrito a vinte e oito de Abril
 
do ano passado à noite
 
de punho cerrado com alegria e sem espanto
 
canto para ser cantado de dia

por todos por muitos por mim ou por ninguém

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Orlando da Costa – “As mãos e as mãos”

10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira
Espero-a inteira
Como frutos à beira
Da fome de alguém
Espero-a inteira
Nesta fome que vem
Só das tuas para as minhas mãos

Minhas mãos geladas
Minhas mãos suadas
Em rebentos de cada esforço
Descarnadas mãos
De que já riu a ferrugem das grades

Minhas mãos abertas para que creias
Mãos suadas e novamente suadas
Mãos capazes de enxertar veias

A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira inteira

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Carlos de Oliveira – “Tempo”

09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.

E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.

Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbedo de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.

Carlos de Oliveira, in “Colheita Perdida”

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Carlos de Oliveira – “Dentes”

09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os dentes, porque são dentes,
iniciais. Na espuma,
porque não são saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?

Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.

Só os dentes.
Duros, ácidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de fúria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.

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Carlos de Oliveira – “Sonetos do regresso 1”

09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:

procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó

é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas

abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

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