Carlos de Oliveira – “Carta a Ângela”
09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Carlos de Oliveira (Belém do Pará, 10 de agosto de 1921 — Lisboa, 1 de julho de 1981) foi um escritor português.
09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.
Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!
Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!
Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.
Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!
Carlos de Oliveira, in “Poesias”
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07.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História 177 – O Mocho e o Lobo
O lobo andava no mato e o mocho estava em cima de um pinheiro no ninho.
O lobo enroscou o rabo no pinheiro como quem o queria serrar. O mocho de cima disse-lhe:
— ó compadre, não me serres o pinheiro, senão os meus
filhos caem abaixo e morrem.
Responde o lobo:
— Pois se não queres que eu serre o pinheiro, anda tu cá
abaixo.
O mocho não queria, mas afinal sempre veio vindo de galho em galho, e depois disse para o lobo:
Lobo, o que queres de mim?
O lobo respondeu:
Anda cá mais abaixo, que quero dizer-te um recado.
O mocho respondeu:
Diz daí, que eu ouço bem.
O lobo tornou a dizer:
Anda cá, que eu não te faço mal.
O mocho descuidou-se e desceu, e o lobo passou-lhe os dentes e meteu-o na boca.
O mocho de dentro da boca do lobo disse:
— Eh! Compadre, não me comas, que eu quero fazer testamento!
O lobo disse-lhe:
— Não, mas agora no galheiro estás tu.
Diz o mocho:
— Então deixa-me ir despedir-me lá acima da árvore dos
meus filhos.
O lobo disse:
— Não, que, depois, nunca mais voltavas.
Disse então o mocho:
— Olha, ao menos hás-de dizer três vezes, que é para eles
saberem: Mocho comi.
O lobo disse muito baixinho, para não abrir a boca: Mocho comi.
O mocho disse-lhe:
— ó compadre, fala mais alto, senão não ouvem.
O lobo tornou a repetir: Mocho comi, já mais alto. Responde o mocho:
— Mais alto, senão eles não ouvem.
Nisto o lobo escachou a boca para gritar mais alto e dizer: Mocho comi.
O mocho, mal apanhou a boca aberta, abalou para cima do pinheiro e disse-lhe:
— Outro sim, que não a mim.
Ouvimos a História 177, o Mocho e o Lobo.
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02.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.
(in ‘Inéditos’)
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02.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela
»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol
coisa nenhuma
nada está escrito afinal
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01.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria “abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro …
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro…
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa …
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A planície já pôs sua roupagem
nocturna. Agora dorme, sem sentir,
um sono entre acordada e a dormir.
À noite, o Alentejo é a paisagem
dum brando sonho: a lua mira os olho
ao espelho nos pegos das ribeiras.
Há malteses deitados pelas eiras,
além, uma queimada nos restolhos.
Ouvem-se as rãs nos poços coaxar.
Um cão vigia os gados ao relento
e o pastor dorme à porta da cabana.
Cheio de vultos, grilos e luar
e de rumores e de encantamento,
oh, como é grande a noite alentejana!
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando nós éramos crianças e morria
alguém amigo ou de família, o avô, lembro,
punham-nos uma tarja preta na manga
verde-axadrezada do bibe mais bonito.
Era o fumo no braço – sinal de finados.
O distintivo, o rótulo para certo tempo de luto,
conforme o grau de parentesco, a proximidade.
Era proibido rir, cantar e assobiar,
como se a morte castrasse o sentimento,
ou as lágrimas da vontade despida de chorar.
Não se sabia que não há luto por um grande amigo.
Não se sabia que a dor pode vestir aliviado,
verde, de todas as cores, vermelho e azul,
e pode, naturalmente, chorando, apetecer cantar.
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29.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.
Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C’mo sem ninguém lhe tocar.
Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».
Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!
Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.
E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.
Bem sei: Muito pode vir
‘Té que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.
(in “Canções e Baladas”)
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22.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
Pablo Neruda, in “Poemas de Amor de Pablo Neruda
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Hoje acordei egípcia
e só ando de lado,
função que com perícia,
pratico há um bocado.
Ando de tanga às riscas,
sandálias de bambu,
um colar de ametistas,
o resto… tudo a nu.
Ao meu pequeno-almoço,
sentada num tripé,
bebi chá de tremoço
e papas de rapé.
Enquanto meu abutre
cantava no quintal,
dei banho a Tot-A-Mut,
minha cobra coral.
Sentei-me numa esteira
a estudar hieroglifos,
mas deu-me uma soneira
e sonhei com três grifos.
Chegou o meu amante,
que me trouxe do Nilo
um colar de diamante
e unhas de crocodilo.
Chamámos dois felás
p´ra nos levarem, às costas,
a casa de Al-Faissaz,
comer umas lagostas,
e, para terminar,
e como era Domingo,
salada de nenúfar,
e um bife de flamingo!
Voltámos para a sesta,
até ao pôr-do-sol,
mas foi tamanha a festa,
rasgámos o lençol…
Acordámos, enfim,
e fomos, num repente,
dançar para o jardim,
uma Dança do Ventre!
À hora em que Amon-Rá
se põe lá em Gizé,
degustámos maná,
fumámos narguilé.
Rezámos a Osiris,
cantámos a Horus,
tomámos banho de íris,
tomilho e alcaçuz.
Pusemos os unguentos
que fazem delirar:
ele, sândalo bento,
eu, rosa e almíscar,
enquanto a serva núbia,
nos ia embalando,
uma ária da Aida
numa lira ensaiando…
E assim aperaltados
lá fomos p´ró banquete,
por Cleópatra chamados
– pois fazia dezassete
aninhos, a menina…
E levámos, de prenda,
um escravo, uma ocarina
e um soutien de renda
todo em crepe da China !!!
Aspásia 99
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se quiseres dedicar
uma estrofe à namorada,
se quiseres (en)levar
a sogra, o primo, a criada…
não tens mais que encomendar:
sou poetisa encartada,
versifico qualquer tema,
faço trova, ode ou poema,
rimo por tudo e por nada.
Faço versos a granel,
ao litro, ao metro, ao quilate,
ternos bolinhos de mel,
bravos galos de combate…
Numa folha de papel,
escrevo tese ou disparate,
em letrinhas de hidromel,
de cicuta ou erva-mate…
Peço a Lili p´ró Manel,
trato divórcio ou engate,
do velho faço donzel,
fel transformo em chocolate…
Da choupana faço hotel;
do albardeiro, alfaiate;
o tolo armo em bacharel,
o recruta em coronel,
e ao Rei… dou xeque-mate.
(Tenho encomendas a rodos,
não posso fazer mais nada…
Poetas querem ser todos
que é casta mui ilustrada…
E lá lhes mostro bons modos,
para aumentar a mesada
à custa dos meus engodos
de poesia alugada…)
Amigo, amiga, não esperes,
deixa o teu nome e morada,
irei ter onde estiveres,
com a caneta afiada…
Se dinheiro não tiveres,
aceito a alma empenhada,
se os versos não entenderes,
faço versão ilustrada…
Ponho em verso o que quiseres,
cativo homens e mulheres,
arranjo empregos, mesteres,…
e não pagas quase nada!…
Leonor 1998
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Estava a sonhar, sabes?,
que éramos dois meninos aí da mesma idade,
de bibes azuis, joelhos esfolados,
e morávamos no mesmo bairro da grande cidade…
Um pouco tontos do sol da manhã,
brincávamos às escondidas e à apanhada
e lanchávamos, a meias, tarte de maçã.
Tu eras para o gorducho e pachorrento,
não eras assim lá muito de pressas…
e eu, magrizela e matreira,
ganhava quase sempre sem grandes chatices.
Então gostava de puxar-te os caracóis
e chamar-te “meu grande paspalhão”,
mas com um certo medo que tu descobrisses
que afinal já eras, entre os meus heróis,
o Principezinho do meu coração.
Às vezes, parecia que me olhavas desconfiado
com uns olhinhos doces por trás duns grandes óculos
e os caracóis colados à testa suada.
Aí, eu disfarçava, tirava o pente do bolso
e penteava-te dizendo: “Então que foi?”
E tu resmungavas: “Não foi nada. É do calor”,
com o teu arzinho sério e atrapalhado.
Então eu derretia, não tanto do calor,
talvez mais, se calhar,
da tua expressão de “homem cheio de azar”…
E murmurava-te ao ouvido, para te consolar,
a mais super-secreta declaração de amor:
“Deixa lá, meu pateta! Amanhã deixo-te ganhar.”
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14.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deixei as certezas na praia
Quando a última onda te levou
E as gaivotas choraram a perda.
Em cada grão de areia
Uma estrela te acolheu
No sal que deixaste preso a mim.
Foste a maré que me trouxe aqui
A saudade de quem parte para a tempestade.
Foste a minha plenitude, a minha verdade.
As marés não pararam o seu balanço.
As gaivotas continuam à tua procura
Na espuma de cada onda que beija a costa.
E eu fico sentado, ali, chorando cada lágrima
Como se mais uma memória tua me sorrisse
E me banhasse na nossa história.
Por fim viajo em mais uma fase da Lua
Regressando sempre ao mesmo lugar
Esta saudade minha e tua será sempre nossa
Seremos sempre nós a navegar.
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09.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
A mesma cara sem sombras, os graves da fala
em cantos, as palavras sem pressa,
inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como o dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música e cantava.
Que cantasse, era a natureza do sonho.
Que fosse alto e bonito o canto, era sua matéria.
Aconteciam na praça sol e pombos
de asa branca e marron que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha, os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza,
é o que mais punge.
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08.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
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08.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
ORIGEM DO UNIVERSO
Reinavam as trevas sobre o universo. Ocasionalmente, ouviam-se estrondos e ruídos. Certa vez, as cores branca, azul, vermelha e castanha envolveram-se numa espiral e uniram-se num ponto distante e imensurável do qual surgiu uma grande bola de fogo. Esta continuou a rodopiar sobre si até que se condensou numa placenta que se dividiu em dois embriões. O universo começava a agitar-se. Prematuramente, as crianças rasgaram o embrião e morreram, pelo que o universo voltou a contrair-se e a imobilizar-se.
As cores voltaram a juntar-se, repetiu-se o processo, mas, desta vez, as crianças sobreviveram. O universo, que então já respirava, cedo começou a ser disputado por duas crianças; Mukat e Temaiyauit combatiam entre si para decidirem quem era o mais velho e quem teria assim direito a governar sobre as coisas do cosmos. A disputa prometia durar eternamente, mas os dois irmãos acabaram por decidir separar-se e dividir a criação entre si. Porém, Temaiyauit quis levar consigo a terra e os céus, regiões estas que não estavam contempladas no acordo estabelecido. Mukat colocou então um joelho sobre a terra, segurando com uma mão o céu e com a outra as demais criaturas. Deste gesto nasceram os vales, as montanhas, as fendas dos rios e as águas que os enchem. Derrotado, Temaiyauit rasgou a superfície da terra de forma a levar para o mundo crónico os seres que criou. Desde então, a terra tem este aspecto acidentado e irregular.
Trad.: Manuel João Magalhães
Música de Luís Pedro Fonseca
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02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Olho em volta de mim. Todos possuem –
Um afecto, um sorriso ou um abraço.
Só para mim as ânsias se diluem
E não possuo mesmo quando enlaço.
Roça por mim, em longe, a teoria
Dos espasmos golfados ruivamente;
São êxtases da cor que eu fremiria,
Mas a minh’alma pára e não os sente!
Quero sentir. Não sei… perco-me todo…
Não posso afeiçoar-me nem ser eu:
Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.
Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir
Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,
E eu não logro nunca possuir!…
Castrado d’alma e sem saber fixar-me,
Tarde a tarde na minha dor me afundo…
– Serei um emigrado doutro mundo
Que nem na minha dor posso encontrar-me?.
Como eu desejo a que ali vai na rua,
Tão ágil, tão agreste, tão de amor…
Como eu quisera emaranhá-la nua,
Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…
Desejo errado… Se a tivera um dia,
Toda sem véus, a carne estilizada
Sob o meu corpo arfando transbordada,
Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria.
Eu vibraria só agonizante
Sobre o seu corpo d’êxtases dourados,
Se fosse aqueles seios transtornados,
Se fosse aquele sexo aglutinante…
De embate ao meu amor todo me ruo,
E vejo-me em destroço até vencendo:
E que eu teria só, sentindo e sendo
Aquilo que estrebucho e não possuo.
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02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ver-te despida é recordar a terra.
A terra lisa, limpa de cavalos.
A terra sem um junco, forma pura
ao futuro cerrada: confim de prata.
Ver-te despida é perceber a ânsia
da chuva a procurar um débil talo,
ou a febre do mar de rosto imenso
sem encontrar a luz da sua face.
O sangue soará pelas alcovas,
chegará com espada fulgurante,
porém tu não saberás onde se esconde
o coração do sapo ou a violeta.
O teu ventre é uma luta de raízes,
os teus lábios, aurora sem contorno,
sob as cálidas rosas duma cama
os mortos gemem esperando turno.
(Tradução de Eugénio de Andrade)
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02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.
Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.
Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.
Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?
Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.
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01.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.
Corria branda a noite e a vida era serena.
Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3.023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.
Vinte e oito por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)
Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.
Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.
Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.
Dessas 9 excelentes raprigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.
A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igeja.
Foi a minha mãezinha.
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30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, Lágrimas,
talvez o orvalho que escorre pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crónica de viagem,
conspirando contra os profetas de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham,
e gritar a idade circular de qualquer afecto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol na sedução do amanhecer,
e deixar, depois, que um azul extenuado me denuncie.
(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)
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30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
No meu país havia marinheiros
com braços de tempestade.
Havia um cais e um sonho
ateado em cada mastro.
E havia no vento o chamamento do mar.
Havia no meu país o voo antigo dos pássaros
para adivinhar a sina dos homens.
0 mistério do sangue e do parto
e o uivo das fêmeas em noites com Lua
havia também no meu país.
No meu país havia a terra e a memória
e os cantares de amigo
e a pressentida eternidade das palavras.
(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)
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30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
À noite vou por aí,
ociosamente.
Percorro um ritual lilás
feito de violetas de pedra
e traço cada pausa
no retorno da lua inicial.
Aqui a memória é lenta
como as angústias.
Muitas vezes vejo árvores
com frutos azuis,
ou animais em nudez perfeita
respirando o vento.
A escuridão é o subterfúgio
inesperado do coração
quando o olhar aquece
e o orvalho é de cetim.
Há máscaras de búzios e limos
na cara de quem passa.
Nas suas vozes ouço o itinerário
das manhãs siderais
e nasce nos meus passos
o rumo da via láctea.
Ninguém me conhece.
Venho do arco-íris
e trago nos dedos
o ângulo transparente da noite.
(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)
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14.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias acres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas
(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)
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14.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Olhá-los-ás sempre iluminados e partidos
aquele que te quer
e querendo te não quer
mesmo que queira
passareis assim num passeio ao longe
por tua altivez criados e ausentes
tal como uma luz certeira e crua
te ordena
à inclinação que as horas determinam
e no entanto suspendeste
por vezes a olhar como se
inquebrado
alguém irrompesse contra a luz:
a sua queda e sua ordenação
nunca e sempre será
um tempo sem baínha
quando ter-te e não te ter
tão perto e longe
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10.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A noite cai e o poeta parte para a cidade.
O alforge vai cheio de sedimentações, beringelas,
leiras de feijão, e um potente holofote,
para iluminar o tempo.
Recém-chegado da província, cabe-lhe
manusear o livro, o alfa, o ómega, ainda que
abomine tanto tumulto, tantos carros que
passam, tanto grito,
e se creia um centauro nas avenidas novas. Os
bairros, as áleas rectilíneas, ampliam a
indiferença, havendo em tudo um poder
infernal de crateras sobre os muros, destroços
nas janelas, marchas forçadas,
farpas.
(Do livro “Atlas das Circussntâncias” . Ed. “Lua de Marfim”)
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09.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A voz – mensageira virtual
em sua interioridade: lugar de enigmas.
E suas margens para o desconhecido
o exterior de si:
istmo que a conduz
ao mundo intermédio da audição
onde ela se revela ou clarifica
como o sol rompendo a região da sombra
até a aurora.
Por vezes é apenas um murmúrio de água
e pelo silêncio se reverte à contemplação.
(Do livro “Morada Recôndita” – Ed. Lua de Marfim)
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06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Acorda-me o chilrear primaveril
E a noite já passou
Mais uma que ficou guardada na prateleira de velharias dispersas e indiferentes
À deriva do tempo.
Dei voltas à cabeça
Em murmúrios inocentes
No céu, um balão de ar quente colorido, chama por mim
Mas as minhas asas estão estragadas
Tenho a esperança rasgada
E não acredito mais na força do vento
Acho que ficarei por aqui.
Nada mais faria sentido!
Amanhã, quando acordar de novo
Poderei ter algo mais para sonhar
Se sonhar contigo, terei certamente um sorriso a procurar…
Linhas arbitrárias de nuvens no céu
Dão voltas a um azul de fundo
Onde o esboço do teu semblante acontece
Acontece porque estou a olhar o céu
E o teu semblante, na verdade, está dentro de mim
Não está no céu nem nas nuvens,
Está em mim.
Porque é que existem linhas que nos desmontam em pedaços?
Para quê a força do muro ou o frio do betão?
Se existem fronteiras de impossível mais gélidas e sombrias…
Que nos impedem de existir.
De relance, fito o horizonte.
Ao fundo do céu azul há um jardim infantil com crianças a saltar e há cães a correr atrás de bolas, pássaros a esvoaçar com a delicadeza de uma bailado sublime e baloiços em movimento com almas em estridente harmonia… e a relva verde… brilhante… com a banda sonora de gritos felizes…
E eu… longe… não encontro limites à alegria…
A não ser em mim.
Ao menos, se eu pudesse ser de novo uma criança pequena e brincar livremente com os outros meninos
… Aprender a saltar, a dançar, a ser alegre como os outros meninos são.
E poder, quando caio do cavalinho de madeira,
Ir correr a chorar, ao encontro da paz tranquilizante do colo da minha mãe.
Gostava de ter sido como todos os outros são.
E agora, certamente estaria a dar-te a mão, a olhar para ti,
Em vez de ser um poeta isolado, diferente e vazio.
Amanhã, soltar-me-ei dessa fronteira impossível
Serei estrangeiro ainda
Mas só na memória dos sonhos.
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06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deslumbre
Em ti, sublime
Afasto-me ao aproximar-te de mim.
A cada cortina de vento
O esboço ondulante do teu cabelo
Contornos de tudo
E a paisagem do mundo
É o que encontro em ti.
Na boca invento uma janela
Nos olhos, a doçura selvagem do teu sentir
A pele é a fronteira
De um universo inteiro
Por descobrir
E as mãos
Sempre as tuas mãos
Divagantes, voadoras, agitando a alegria pelo ar vazio
Como asas
Como melodia
De um som
Impossível para mim…
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