Nota biográfica

Pedro Barão Campos. Acaba de publicar "Intensidade - Reflexões Poéticas" (Edição do Autor)

Pedro Barão de Campos – “Cavalinho de brincar”

06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No meu cavalo de brincar
Sempre em frente
Cavalgo sem parar
Não tem fome nem tem sede
Alimenta-se de pensar!
É assim…
O meu cavalinho de brincar.

No recreio da escola
Sempre de um lado ao outro
A galope, a galope
Impossível de parar
Acompanha-me o vento
Nesta corrida de sonhar!
É assim…
O meu cavalinho de brincar.

Perto da porta da tua sala
A trote, resguardo a dança no limite.
Crinas esvoaçando, orelhas caídas,
Deslumbrante o teu olhar.
É sorridente, o meu semblante,
Perto de ti, contornando barreiras invisíveis…
Sou assim, à tua porta,
No meu cavalinho de brincar.

Num salto imaginário
Até ao início do nada
Nuvens de algodão embelezam de claridade o teu lugar!
Corcel de arco-íris…
Percorre cada passada a relinchar
E eu, assim, só a procurar por ti, no silêncio…
Cavalgando… cavalgando…
No meu cavalinho de brincar.

Fruto da tua cor
Imerso no teu paraíso interior
Adormeço com esse passeio no meu pensamento!

Feito da tua imaginação
Um mensageiro atravessa reinos num teatro de alegria
Por bosques, riachos, desertos e montes,
Transpondo declives e rochedos
Com os seus cascos de ventania.

Sei que amanhã já não haverá cavalinho.
Amanhã, terei sofrido demasiado para poder brincar.
Amanhã, terá desaparecido a tua imaginação.
E longe, impossível de alcançar…
Caminharei apenas…
À frente da porta da sala onde antes estavas
Ficarei ali, imóvel, estarrecido, a procurar… e a sonhar
Que a pessoa imaginada, em frente ao quadro branco,
Eras tu a cuidar
Do nosso cavalinho de brincar.

Olhei em redor,
Procurei melhor,
Não, não eras tu,
Era só o passado a regressar.

Era só eu a acreditar.
Em ti.
Acabou.

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Tchaikovsky – “Concerto nº 1 para piano, OP. 23”

21.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky
Muito se escreveu sobre o compositor Tchaikovsky nascido na Rússia no ano de 1840. Educado pelos modelos convencionais da classe média da época, cedo demonstrou aptidão para o piano tendo recebido – a par dos seus estudos na Faculdade de Direito – lições de música no Conservatório de São Petersburg até aos 22 anos de idade. Aos 25 anos realizou o seu primeiro concerto em público.
A música de Tchaikovsky não se identificava com quaisquer outras dos grandes compositores contemporâneos – Borodin, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov – e nos tempos de agora parte da sua obra podia considerar-se original.
A sua personalidade introvertida repudiava firmemente a ideia de qualquer contacto intimo com outras pessoas embora fosse propenso a estados apaixonados.
Durante treze anos correspondeu-se com uma viúva abastada, de meia idade, que lhe correspondia com grande paixão. A determinada altura passou a conceder-lhe uma pensão de 6000 rublos anuais (opcinal; algum ouvinte faça a conta de quanto podia equivaler esta fortuna nos dias de hoje) que dava e sobejava para o compositor viver folgadamente. Mas a viúva nunca conheceu pessoalmente o compositor nem este mostrou interesse numa relação com a sua mecenas.
Um dia Tchaikovsky já com 37 anos, recebeu uma carta de amor de uma sua aluna que tinha apenas 20 anos de idade; Antonina Milyukova. O compositor passou a ser bombardeado com cartas arrebatadores e Antonina não vendo da parte do músico qualquer reacção às suas suplicas de amor ameaçou suicidar-se. Casaram-se, mas o casamento foi um desastre; Tchaikovsky na primeira noite da lua-de-mel achou-a fisicamente repulsiva e abandonou-a.
Tempos mais tarde Antonina deu entrada num manicómio.
Falaremos mais sobre este músico em futuros programas, mas fiquemos hoje com o seu famoso Concerto nº 1 para piano, Op. 23, interpretado por Ida Czernecka, ao piano.
Ouvimos música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky

Orquestra do Festival de Londres conduzida por Laurance Siegel

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Guerra Junqueiro – “A moleirinha”

19.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pela estrada plana, toque, toque, toque, 

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes 

que anoiteça, toque, toque, toque, A 

velhinha atrás, o jumentito adiante!…

Toque, toque, a velha vai para o moinho, 

Tem oitenta anos, bem bonito rol!… E 

contudo alegre como um passarinho, Toque, 

toque, e fresca como o branco linho, De 

manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca, O 

jerico ruço duma linda cor; Nunca foi
ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, 

toque, toque, a moleirinha branca Com o

galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, 

Toque, toque, toque, que recordação! Minha

avó ceguinha se me representa… Tinha eu 

seis anos, tinha ela oitenta, Quem me fez o 

berço fez-lhe o seu caixão!…

Toque, toque, toque, lindo burriquito, Para

as minhas filhas quem mo dera a mim! Nada

mais gracioso, nada mais bonito! Quando a 

virgem pura foi para o Egipto, Com certeza 

ia num burrico assim.

Toque, toque, é tarde, moleirinha santa!

Nascem as estrelas, vivas em cardume…

Toque, toque, toque, e quando o galo canta, 

Logo a moleirinha, toque, se levanta, Pra 

vestir os netos, pra acender o lume…

Toque, toque, toque, como se espaneja, Lindo 

jumentinho pela estrada chã! Tão ingénuo e

humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade 

de o levar à igreja, Baptizar-lhe alma, prà 

fazer cristã!

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga, 

Toda, toda branca, vai numa frescata… Foi 

enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da 

azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros 

com luar de prata!…

Toque, toque, como o burriquito avança! Que

prazer doutrora para os olhos meus! Minha 

avó contou-me quando fui criança, Que era

assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou

nas palhas o menino Deus…

Toque, toque, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,

Moleirinha branca, branca de luar!… Toque, toque,

e os astros abrem diamantinos, Como 

estremunhados querubins divinos, Os olhitos

meigos para a ver passar…

Toque, toque, e vendo sideral tesoiro, Ente 

os milhões d’astros o luar sem véu, O 

burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem 

será que mói estas farinhas d’oiro Com a 

mó de jaspe que anda além no Céu!

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Liszt – “Rapsódia Húngara nº 3”

10.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP

Franz Liszt tinha apenas nove anos quando deu o seu primeiro concerto público, deixando a assistência aristocrática e melómana fascinada pelo menino prodígio.
Foi tal o êxito que criaram um fundo para financiar os estudos de Liszt. Seu pai – que tocava na perfeição vários instrumentos – abandonou a ocupação de administrador de uma grande herdade para viajar com o filho para Viena.
Chamavam-lhe “Mozart ressuscitado” pela extraordinária facilidade com que arrancava sons mágicos ao piano.
No final duma grande digressão pela Inglaterra, Liszt – de saúde débil – ficou esgotado e teve que cancelar alguns concertos para um merecido descanso, mas seria seu pai a falecer de febre tifóide numa viagem de “cura marítima” que quis proporcionar ao seu filho.
Frantz Liszt casa com Marie d’Agoult da qual veio a ter três filhos, mas a sua figura esbelta deu-lhe fama de irresistível, produzindo aquilo que se propagou pela Europa inteira; a “Lisztamania”
É dessa vida amorosa que falaremos num dos próximos programas.
Por hoje apreciem a Rapsódia Húngara nº 3 interpretada pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Ljubljana.
Ouvimos, música para quem gosta de POP. Hoje, Liszt.

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História 176 – “As lebres e as rãs”

09.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 176 – “As lebres e as rãs”

Andando a passear um grupinho da família das Lebres, desencadeou-se uma tempestade tão repentinamente que todos os bichinhos que andavam fora das suas casas correram a abrigar-se, enquanto o céu escurecia, o vento sacudia as árvores e a chuva caía em torrentes.
Assustadiças como eram, as meninas Lebres gritaram e puseram-se a correr tão apavoradas, que nem sabiam para onde iam. Correndo como loucas, quase se afogaram numa poça enorme que havia num descampado e onde vivia uma família de rãs. Andavam elas cá fora, a dar uma volta para abrir o apetite para o jantar, quando viram as Lebres aproximar-se em grande correria. Julgaram que iam ser atacadas e tiveram tal medo que, de um salto, umas dezenas delas se atiraram para a água e foram esconder-se bem no fundo da poça.
À vista daquele quadro inesperado, as Lebres pararam e puseram-se a olhar umas para as outras, cheias de pena.
— Coitadas das rãs! — comentaram. — Tiveram tanto medo de nós, como se nós fizéssemos mal a alguém, e afogaram-se! Afinal, para metermos medo a alguém, é porque há quem seja mais medroso do que nós…
Entretanto, a tempestade passou, o sol brilhou no céu e as árvores começaram a agitar os ramos brandamente. Voltara a calma e, ao regressarem a casa, as meninas Lebres admiravam-se de se terem assustado com tão pouco.

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João Soares Coelho – “Luzia Sanchez”

27.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

João Soares Coelho (1200-1278) foi um Rico-homem e cavaleiro
medieval do Reino de Portugal e do conselho real do rei D. Afonso III.

Luzia Sánchez, estais em grande falta
comigo, que nom fodo mais nada senão
uma vez; e, pois fodo, se Deus me valer
fique disso afrontado bem por três dias.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Vejo-vos deitar comigo muito defraudada,
Luzia Sánchez, porque não fodo nada;
mas se eu com isso vos satisfizesse,
pois eu foder não posso, peidar-vos-ia.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deu-me o Demo esta pissuça cativa,
que já nem pode cuspir saíva
e, de certo, parece mais morta que viva,
e se lh’ardess’a casa, não s’ergueria.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deitaram-vos comigo para mal dos meus pecados
pensais de mi coisas tão desconcertadas,
cuidais dos colhões, que tragu’inchados,
porque o são com foder e é com doenças
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

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Jorge Aguiar – “Coração que repousavas”

27.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Alcaide-mor da fortaleza de Zagala, por carta de nomeação de
14/03/1478, Jorge de Aguiar foi capitão de uma armada que
partiu para a Índia, em 1508, e se perdeu nas ilhas Tristão da
Cunha.

Esforça meu coração,
não te mates, se quiseres:
lembra-te que são mulheres.
Lembra-te qu’está por nascer
uma que não errasse;
lembra-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
não vi quem dele gostasse.
Pois não te dês a paixão,
toma prazer, se puderes
lembra-te que são mulheres.
Descansa, triste, descansa,
que seus males são vinganças;
tuas lágrimas amansa,
deix’ as suas esperanças;
porque, pois nascem sem razão,
nunca por ela lh’ esperes;
lembra-te que são mulheres.

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Juan Garcia de Guilhade – “Ai, Dona Feia”

25.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ai, dona feia, foste-vos queixar
que nunca vos louvei no meu cantar;
mas agora quero fazer um cantar
em que vos louvarei sempre;
e vedes como vos quero louvar:
dona feia, velha e demente!

Dona feia, se Deus me perdoar,
pois tendes tão grande desejo
que vos eu louve, por este motivo
vos quero já louvar sempre;
e vedes qual será o louvar:
dona feia, velha e demente!

Dona feia, nunca vos eu louvei
no meu trovar, inda que muito trovei;
mas agora já un bom cantar farei,
em que vos louvarei sempre;
e vos direi como vos louvarei:
dona feia, velha e demente!

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Nuno Rebocho – “Tu procuras…!”

23.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tu procuras a sementeira que alguém rasgou pois esse é o sinal
de que chegarão as asas das aves quando o sol mourejar.
Então os estampidos traduzem os homens cujas bocas se abeiram dos regatos
para tomar em mãos o sangue da carnificina e então serás
o que há-de vir no percurso dos silêncios, o mesmo percurso das tectrizes
e das borboletas que, porque voam, navegam entre as papoilas
e as estevas. E então dirás que a liberdade também se esquece
como o furor aquece a linfa. E então estarás teso
como o eucalipto que já secou a fonte.

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Haendel – “Música Aquática”

14.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As águas calmas do rio Tamisa aguardavam o inicio da procissão régia e, na faustosa embarcação, Jorge I deliciava-se por aquele bonito dia de Julho de 1717.
E quando os primeiros acordes da solene abertura “Música Aquática” se fizeram ouvir, o soberano encostou-se num almofadão azul e disse:
– Silêncio, agora ouçam Haendel.
Precisamente o obeso compositor tinha concluído dias antes a suite “Música Aquática” e agradeceu com respeitosa vénia.
Ao lado da embarcação real seguia o barco da orquestra e os músicos, de grandes e enfarinhadas perucas, tocavam a preceito toda a partitura.
Jorge I reconhecia há muito não estar nada arrependido de se ter tornado patrono do famoso músico alemão e compositor da corte de Inglaterra.
Haendel o boémio, Haendel o homem de muitas mulheres, Heandel o +
+apreciador de boa mesa, tornou-se um verdadeiro especialista a compor a música das cerimónias oficiais.
Sete anos antes de morrer ficou quase cego depois duma operação à vista mal sucedida,
mas este estudante de direito que optou pela beleza dos sons, deixou-nos obras-primas que são ouvidas ainda hoje com redobrado interesse; oratórias, óperas, música de câmara…
… E a célebre “O Messias”. Na estreia desta oratória as senhoras tiveram de se apresentar sem as armações dos saiotes e os homens sem espadas para que a sala pudesse acolher o maior número de pessoas.

(Salzburg Consort)

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Álvaro de Campos – “A Tabacaria” (2)

30.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este poema de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa) foi declamado por mim, pela primeira vez, no dia 28 de Abril de 2006, incluído no programa Palavras de Ouro nº 41. Volto a declama-lo agora, passados 6 anos.

Não sou nada. 

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém 
sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por 
gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres, 

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos 
nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de 
nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tomando-se esta casa e este lado 
da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida 
apitada 

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos 
na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa, 

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei-de 
pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa! 

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode 
haver tantos!

Génio?
Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu, 

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas 
certezas! 

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos 
certo?

Não, nem em mim …


Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo 

Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
– 
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis, 

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que 
tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. 

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que 
Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu. 

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

Serei sempre o que não nasceu para isso; 

Serei sempre só o que tinha qualidades; 

Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de 
uma parede sem porta,

E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,

E ouviu a voz de Deus num poço tapado.

Crer em mim? Não, nem em nada.

Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo, 

E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha. 

Escravos cardíacos das estrelas,

Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama; 

Mas acordamos e ele é opaco,

Levantamo-nos e ele é alheio, 

Saímos de casa e ele é a terra inteira,

Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;

Come chocolates!

Olha que não há mais metafisica no mundo senão chocolates.

Olha que as religiões todas não ensinam mais do que 
a confeitaria.

Come, pequena suja, come!

Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que 
comes!

Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de 
estanho,

Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)


Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei 

A caligrafia rápida destes versos,

Pórtico partido para o Impossível.

Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem 
lágrimas,

Nobre ao menos no gesto largo com que atiro

A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,

E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,

Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,

Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida, 

Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,

Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,

Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -, 

Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que 
inspire!

Meu coração é um balde despejado.

Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco

A mim mesmo e não encontro nada.

Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta. 

Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,

Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam, 

Vejo os cães que também existem, 

E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,

E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri, 

E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.

Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,

E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses 
nem cresses 

(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer 
nada disso); 

Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem 
cortam o rabo 

E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,

E o que podia fazer de mim não o fiz. 

O dominó que vesti era errado.

Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, 
e perdi-me. 

Quando quis tirar a máscara,

Estava pegada à cara.

Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha 
tirado.

Deitei fora a máscara e dormi no vestiário

Como um cão tolerado pela gerência 

Por ser inofensivo

E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,

Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,

E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,

Calcando aos pés a consciência de estar existindo,

Como um tapete em que um bêbado tropeça

Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.

Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada 

E com o desconforto da alma mal-entendendo.

Ele morrerá e eu morrerei.

Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.

A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos 
também.

Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,

E a língua em que foram escritos os versos.

Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu. 


Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como 
gente

Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo 
de coisas como tabuletas, 

Sempre uma coisa defronte da outra,

Sempre uma coisa tão inútil como a outra, 

Sempre o impossível tão estúpido como o real,

Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de 
mistério da superfície,

Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem 
outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim. 

Semiergo-me enérgico, convencido, humano,

E vou tencionar escrever estes versos em que digo 
o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los

E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.

Sigo o fumo como uma rota própria,

E gozo, num momento sensitivo e competente,

A libertação de todas as especulações

E a consciência de que a metafísica é uma consequência 
de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira

E continuo fumando.

Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira 
Talvez fosse feliz.) 

Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira 
das calças?).

Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafisica. 

(O dono da Tabacaria chegou à porta.) 

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.

Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono 
da Tabacaria sorriu.

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Cristina Guedes – “Tocar-me te”

26.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

dedos devorando pressa e tempo

urgência desejo, arfar, corrida

negação da paz esta guerra

fúria que exige ser combatida.

fechar os olhos ter-te onde o desejo queima mais perto

fonte generosa, drink indigesto

testa em brasa, beber-te

toco o orgasmo e esgoto o cio

apalpo o meu seio, ardente de frio

invento beijos, flagelo hemisférios

provoco-me, então, o doce arrepio

vibramos os dois, em camas diferentes,
no vazio do nosso leito

combato alguns dos teus medos, ainda sinto o teu coração correr

qual cavalo, no meu peito entre o lençol de algodão

e agora já calmos, os teus nos meus dedos.

masturbação.

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Mário de Andrade – “Ode ao Burguês”

17.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os “Printemps” com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
“— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar… — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!”

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!…

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Palavras 163 – “Sétimo aniversário”

16.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nem sempre os aniversários do Estúdio Raposa foram comemorados, vá lá saber-se porquê. Alguns foram esquecidos, outros, quase que famosos, especialmente aquele em que se ouviu uma entrevista com o Pai Natal. Ou teria sido no Natal…bem, já não sei.
Pois, no dia 17 de Julho de 2005, três meses depois de aparecerem nos EUA, tinha de ser nos EUA, os áudio blogues, podcast ou podcasting, como quiserem, o Estúdio Raposa nasceu e estou em crer que foi o segundo em língua portuguesa. Falhou o primeiro lugar por dias.
Dezassete de Julho de 2005, 17 de Julho de 2012, sete anos, o que, em termos de Internet, já se pode considerar uma bela idade, durante os quais foi lida ou declamada uma quantidade de páginas de literatura e poesia, impossível de calcular.

Vou comemorar este 7º aniversário – atenção à simbologia do sete – em duas vertentes: confissões e gostos. Eu explico. Por confissões entendo meia dúzia de palavras que não têm sido ditas até agora. Como sabem, chegados a certa idade não se tem tanta necessidade de representar no palco da vida. Daí que, nesta idade, algumas das nossas facetas possam ser exibidas sem constrangimentos. Não, não vou chamar o padre. Vou, apenas responder a duas ou três questões importantes que me foram postas ao longo dos sete anos e às quais não respondi de peito aberto.
A outra vertente, a dos gostos, vai incluir a leitura de quatro textos, três poemas e um de prosa, que com a dificuldade que não podem imaginar, escolhi para reler, neste programa. Todos eles já estão disponíveis no Estúdio Raposa, mas vou lê-los de novo em homenagem aos autores.
Sairá melhor? Pior? Não sei. Será certamente, uma leitura diferente. Ouviremos dois poemas e um texto em prosa de Eugénio de Andrade e um poema de Fernando Pessoa.

Uma das questões que me foram colocadas e às quais não respondi, digamos, abertamente, foi de que forma escolho os textos que leio.
Então aqui vai:
Não tenho um critério para a escolha da poesia que leio e divulgo no Estúdio Raposa. Se há estratégia ela resume-se à estratégia do acaso.
Às vezes respondo a pedidos dos autores, outras às sugestões de amigos cujo bom gosto e competência reconheço, mas na maior parte das vezes, a escolha deve-se ao acaso, a um encontro não previsto com um livro, um jornal, um blogue, no Facebook…
Há poesia que não entendo. Tal como alguma pintura e música, entre outras artes. Às vezes, o não entender certa poesia, não é motivo para a não ler, mas prefiro perceber o que estou a dizer. Outras vezes percebo bem de mais e não gosto. Palavras como “peles que se tocam”, “suores partilhados”, “ávidas bocas”, “desejos insaciáveis”, “rios que correm para a foz”, “vento que sopra”, “bocas sorrindo”, “calor de verão”, “coração ardente”, “amo-te muito”, “só a ti enchergo”, “mãos que acariciam”, “sonos perdidos”, “auroras de luz”, “dedos atrevidos”, “suspiros profundos”, “seios altaneiros”, “afinal foi um sonho”, uff, chega – não me seduzem.
Alguns amigos, entendidos em poesia, acusam-me de dois pecados: leio, vezes de mais, poesia de baixa qualidade ou uso música de fundo que na opinião deles, “desvia” a atenção da palavra do poeta.
Quando leio poesia de autores já desaparecidos, não espero opiniões ou agradecimentos. Consta que, à nuvem onde residem, não chega a rede a que damos o nome de Internet. 
Quando leio poesia de autores vivos, alguns contactam-me com a tradicional “não tenho palavras…”, outros encontram algumas para manifestarem a sua satisfação e há os que “nem água vai”. Um obrigado não ficava mal.
Resumindo: na escolha dos textos que leio, não há critérios, há acasos.

E então, não tem colaboradores? – perguntam várias vezes.
Claro que tenho colaboradores. E os primeiros são aqueles que me escrevem a oferecer palavras de apreço pelo meu trabalho.
Não destaco entre estes, ninguém em particular porque vão do cidadão chinês que gostou de me ouvir apesar de, no início, não perceber que língua era aquela, só porque gostou da sua musicalidade, até ao desconhecido que diz apenas: obrigado pelo seu trabalho. Ainda uma referência a muitos outros colaboradores que usam o Estúdio Raposa para ensinarem os seus alunos a gostarem da sua língua.

Outra coisa são as três pessoa que tiveram grande importância no nascimento e desenvolvimento do Estúdio Raposa e que, talvez, eu nunca tenha destacado com o ênfase merecido.
Por ordem, no tempo, em primeiro lugar o João Rola, técnico de som, atualmente no estúdio Dizplay, que de há muito me vem construindo a estrutura técnica de que hoje disponho, conjunto de equipamentos que não receia meças com os estúdios profissionais. Já a utilização que faço das ferramentas de que disponho, é outra história. Pobre sonorizador e …pronto!
André Toscano o guru de informática que colocou on line a primeira edição do Estúdio Raposa e me apoiou nas seguintes, num tempo em que o podcasting estava a dar os primeiros passos.
Finalmente, Otília Martel, na altura conhecida como Menina Marota no apoio literário e procura dos novos valores surgidos na blogosfera. A sua ajuda só se reduziu quando o Estúdio Raposa deixou de divulgar os poetas que “ainda não tinham chegado às estrelas”, programa denominado “Lugar aos Outros” e que está suspenso há cerca de dois anos.
Muitos outros amigos me têm prestado uma ajuda preciosa e quase sempre sem cobrarem um tostão o que é de assinalar nos tempos que correm. Não os menciono porque são muitos e porque corria o risco de me esquecer de alguns. Talvez um dia, noutras circunstâncias venha a referi-los.

Mas, vamos à poesia.
Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa. O primeiro porque é o poeta cuja escrita melhor se adapta á minha voz e também, porque foi um dos grandes poetas que tiveram a amabilidade de me ouvir e de apoiarem na declamação das suas palavras.
Começo com Fernando Pessoa porque o poema que vou ler, “O Menino de sua Mãe”, foi um dos primeiros que gravei e em condições técnicas muito diferentes das de agora. Vale por ser Fernando Pessoa e pela comparação técnica.
Depois, de Eugénio de Andrade, “Adeus”, divulgado em inúmeros vídeos, “Mãe”, um dos seus poemas mais conhecidos e “As mães”, um dos mais belos textos em língua portuguesa, na opinião de quem sabe, no caso Manuel Hermínio Monteiro.
Ouviremos estes quatro fascinantes e faiscantes diamantes da língua portuguesa, sem interrupção.

No plaino abandonado

Que a morna brisa aquece,

De balas trespassado

Duas de lado a lado

Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.

De braços estendidos

Alvo, louro, exangue,

Fita com olhar langue

e cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!

(Agora que idade tem?)

Filho único, a mãe lhe dera

Um nome e o mantivera:

“o menino da sua mãe”

Caiu-lhe da algibeira

A cigarreira breve.

Dera-lha a mãe.

Está inteira

E boa a cigarreira.

Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada

Ponta a roçar o solo,

A brancura embaínhada

De um lenço…

Dera-lho a criada

Velha que o trouxe ao colo.

Lá longe, em casa, há prece:
“Que volte cedo e bem!”

(Malhas que o Império tece!)

Jaz morto, e apodrece,

O menino da sua mãe.

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor

e o que nos ficou não chega

para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,

gastámos as mãos à força de as apertarmos,

gastámos o relógio e as pedras das esquina
s
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras

e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!

Era como se todas as coisas fossem minhas:

quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos seio peixes verdes!

E eu acreditava.

Acreditava,

porque ao teu lado

todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.

Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.

Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.

É pouco, mas é verdade,

uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor…,

já se não passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,

tenho a certeza

de que todas as coisas estremeciam

só de murmurar o teu nome

no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.

Dentro de ti

Não há nada que me peça água.

O passado é inútil como um trapo.

E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

No mais fundo de ti.

eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos…

Mas tu esqueceste muita coisa!

Esqueceste que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu,

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos…

ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura..

ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal…

Mas – tu sabes! – a noite é enorme

e todo o meu corpo cresceu…

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas…

Boa noite. Eu vou com as aves!

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em roda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.
Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na rua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz.

Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo?
Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar.* E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte, mas certas da sua ressurreição.

Terminou o programa comemorativo do 7º aniversário do Estúdio Raposa. Nele ouvimos algumas palavras necessárias e poemas de Eugénio de Andrade e Fernando Pessoa pelos motivos já referidos. As minhas desculpas pelo tamanho do programa. Mandam as regras que deveria ser mais curto.
Mas, antes de terminar, uma palavra para o facto do Estúdio Raposa de há uns tempos a esta parte, ter passado a exibir um botão com o nome “Donativo”. Causou alguma estranheza, mas está lá não tanto à espera de contribuições financeiras, mas para lembrar que a ideia de que tudo o que está disponível na Internet deve ser de graça, é uma ideia, no mínimo…injusta e perigosa.
Obrigado por me ouvirem.

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José Ribeiro Marto – “Ah, os velhos como deitam contas aos dias.”

14.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ah os velhos como deitam contas aos dias
como lançam a danação de uma carta de sobrancelha
ao parceiro de jogada
como rebatem a vida sobre o tampo de uma mesa
como desaborrecem a morte
como só depois vem o poder de uma dor
combatida pelo ruído de uma máquina
pelos pássaros das gaiolas
pelos gatos nos beirais das janelas
ou na franquia dos muros
tudo o que lhes é silencioso é escuro
tudo o que ouvem já não pertence ao mundo
só a noite o sono o soporífero o amuo
Ah o gosto posto nos rituais nos festejos
o tiro que arremessam ao passado
contado até que adormeçam a morte
ou a criem transparente nos nossos olhos

publicado por poemarte

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José Ribeiro Marto – “De repente”

14.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Carrego parco peso do silêncio
Ouço
É uma ave nocturna pousada no varadim
Veio com a noite fez-se escura
Cantou com dobras de sino e tábua
Festejou a lua ofereceu as asas
Quis-se inteira habitando o ar da casa

Mas eu sonho o distante e o inteiro da luz
E não consenti que viesse acender meu sangue
No rasgo de um dobrar de asas

Deixei que os pés me fossem chão
Que o corpo vogasse num barco defeso na água
Que a escuridão da noite
Fosse gesto consentido
Estreme na noite intíma só a casa

Deixei que uma gramática me assaltasse as horas
Escrevesse por ela o meu voo libertasse a minha asa
Não desiste de me chamar a ave

No varadim incendeia gutural a noite
Com os olhos de menino parto para longe
E trago uma infância aquecida a fogo posto

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José Luís Peixoto – “Explicação da Eternidade”

12.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.

os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.

por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.

os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.

José Luís Peixoto, in “A Casa, A Escuridão”

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Federico Garcia Lorca – “A colhida e a morte”

11.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pranto por Ignacio Sanches Mejias (Excerto)

Davam cinco da tarde.
Davam as cinco em ponto dessa tarde.
Um moço trouxe uma toalha branca
davam cinco da tarde.
Uma seira de cal já preparada
davam cinco da tarde.
Tudo o mais era a morte e só a morte
davam cinco da tarde.

O vento fez voar os algodões
davam cinco da tarde.
o óxido semeou cristal e níquel
davam cinco da tarde.
Já lutavam a pomba e o leopardo
davam cinco da tarde.
E a coxa com uma haste desolada
davam cinco da tarde.
Começaram os dobres do bordão
davam cinco da tarde.
As campanas de arsénico e o fumo
davam cinco da tarde.
Pelas esquinas grupos de silêncio
davam cinco da tarde.
E o touro só de coração ao alto!
davam cinco da tarde.
Quando o suor de neve foi chegando
davam cinco da tarde.
e quando a praça se cobriu de iodo
davam cinco da tarde.
a morte pôs seus ovos na ferida
davam cinco da tarde.

Davam cinco da tarde.
Davam as cinco em ponto dessa tarde.

Um ataúde em rodas era a cama
davam cinco da tarde.
Ossos e flautas soavam-lhe no ouvido
davam cinco da tarde.
Já lhe mugia o touro pela fronte
davam cinco da tarde.
Irisava-se o quarto de agonia
davam cinco da tarde.
Ao longe aproximava-se a gangrena
davam cinco da tarde.
Tromba de lírio pelas verdes ínguas
davam cinco da tarde.
As feridas queimavam como sóis
davam cinco da tarde.
e a multidão a estilhaçar janelas
davam cinco da tarde.

Davam cinco da tarde.
Ai que terríveis cinco horas da tarde!
Davam as cinco em todos os relógios!
Davam as cinco em sombra dessa tarde!

(Trad. De Vasco Graça Moura)

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História 175 – “A águia, a gata e a porca”

11.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 175 – A águia, a gata e a porca.
D. Águia fizera a sua casa na ramaria mais alta de um carvalho.
Mais tarde, D. Gata Brava foi também habitar na mesma árvore, mas a meio dos troncos, e algum tempo depois foi a Sr.ª Porca que veio morar para a mesma árvore, instalando-se nas raízes, que cavou fundo, abrindo uma galeria.
D. Águia teve filhos, D. Gata também e as três famílias viviam satisfeitas e em paz no mesmo carvalho.
Um dia, porém, D. Gata Brava teve desejo de ser má e trepando pelos troncos chegou ao ponto mais alto da árvore onde morava a D. Águia e disse-lhe:
– Ó vizinha, eu não gosto de falar mal de ninguém, mas também não posso saber que está para acontecer mal a qualquer e não avisar.
– Mas diga, D. Gata – convidou a Águia.
– Sei que a Porca se instalou aqui na árvore com a ideia de ir roendo as raízes até que tudo venha abaixo, para depois assaltar as nossas casas e se banquetear com os nossos filhos. Venho avisar a D. Águia para se acautelar.
– Que marota, vizinha! Agora, já nem saio de casa, para defender os pequenos.
Mas, de casa da D. Águia, a Gata desceu a casa da Sr.” Porca.
– Ó vizinha!
– Que é, D. Gata?
– Ouvi agora uma conversa que me arrepiou e venho avisá-la.
– Então que há?
– A D. Águia, há bocado, estava a dizer aos filhos que os seus meninos são tão gordinhos e desenxovalhadinhos que se fazia com eles um bom jantar. Diz que logo que a senhora saia de casa…
– Ah! não me diga isso, D. Gata! Que horror!
– Pois é verdade, Srª Porca, acautele-se.
– Valha-me Deus! Nem eu saio de casa, para tomar conta dos miúdos…
– Eu vou fazer o mesmo com os meus filhos, vizinha, porque com gente desta na vizinhança não podemos estar sossegadas. Até logo!
– Até logo, D. Gata, e obrigado!
A Gata foi-se embora e a Porca ficou em casa, aflita, a pensar nas más intenções da Águia. Esta, por sua vez, ficou desesperada com a maldade da Porca, e, as duas, temendo-se uma à outra, nunca mais saíram de casa, para tomarem conta dos filhos.
Assim, não mais foram procurar comida e não mais puderam alimentar os filhos. Foram enfraquecendo todos até não se poderem mexer e, quando os apanhou assim, a Gata foi primeiro a casa de uma e depois a casa de outra e comeu a mãe e os filhos.
E, assim, a pobre D. Águia e a pobre Srª Porca foram vítimas da maldade da D. Gata, por terem acreditado nas suas mentiras.
Não há pior do que uma mentira!

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Lenda – “O Urso e o Tigre”

10.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Origem: Coreia

Quando a terra e o céu ainda não eram dois, quando os animais podiam falar como os humanos, um espírito divino chamado Hwan-in, rei dos céus orientais, governava essa parte da terra onde nasce a cada dia a manhã. Nesses tempos áureos moravam ainda cinco monstros nos quatro cantos da terra; o Dragão Azul sobre o Oriente, o Tigre Branco a Ocidente, a Fénix Vermelha no Sul e a Tartaruga e a Serpente no Norte. O rei enviou o seu filho Hwang-ung para Oriente e deu-lhe ordens para que lá construísse um novo reino.
Hwang-ung desceu sobre a terra acompanhado de três Grandes Espíritos Divinos: o Professor, criador das nuvens, o General, condutor dos ventos, e o Governador, gestor das chuvas. Outros três mil espíritos desceram à terra e Hwang-ung fê-los reunir em torno de uma grande árvore que descansava sobre o cume de uma montanha ainda maior. Fundaram aí uma nova nação que Hwang-ung governaria a partir de Shinshi, a cidade celeste que o vira crescer desde tempos imemoriais. Era um rei justo e sensato. A população vivia alegremente e a nação prosperava.
Não muito longe de Shinshi, numa gruta enorme junto a T’aebaek-san, viviam pacificamente um urso e um tigre da Sibéria. Dormitando, uma vez sobre as ervas da montanha, o urso e o tigre conversaram, não sem alguma inveja, sobre a prosperidade da nação de Hwang-ung e da raça humana que aí nascera. «Como desejava ser um homem e um fiel súbdito de Hwang-ung», confessou o urso. O tigre concordou e sugeriu então que se dirigissem ao próprio Hwang-ung e que a ele pedissem conselho. O rei disse-lhes que teria todo o prazer em recebê-los no seu reino, mas disse também que, para se tornarem homens, teriam de sobreviver a uma dura e paciente provação. Deveriam assim comer vinte dentes de alho cada um e com eles sobreviver a cem dias de reclusão no interior da sua gruta. Caso o conseguissem, tornar-se-iam homens com a bênção do rei.
O tigre e o urso aceitaram o desafio, mas sendo animais selvagens, habituados a vaguear livremente pelas montanhas, não tardou que a reclusão se lhes tornasse insuportável.
A sua força de vontade decaía e ao vigésimo dia, o tigre perdeu definitivamente a paciência que o rei lhes aconselhara. O urso ainda pediu ao tigre que se concentrasse no seu objectivo e que esquecesse a fome, mas de nada valeu. Esfomeado, o tigre abandonou a gruta em busca de alimento e é, desde então, o maior inimigo do homem sobre a terra. O urso, por seu turno, esforçou-se por resistir mais do que o seu amigo tigre. Lembrou-se do seu enorme desejo de se tornar humano e pensou para si mesmo que, estando ele habituado a hibernar, a tarefa até não seria tão difícil. Ao centésimo dia, ocorreu uma transformação maravilhosa; à medida que nascia a aurora, uma bela e formosa mulher emergiu da gruta escura e ofereceu-se, nua, ao ar fresco, onde ainda parecia mais bela.
Dirigiu-se aos céus e agradeceu a oferenda, seguindo para Shinshi, onde agradeceria ao rei a sua bênção. Deslumbrado com a sua nua beleza, o rei casou de imediato com Ung-yo, a-mulher-vinda-do-urso. Uniram-se junto à árvore de T’aebaek-san e aí veio à vida uma criança. Senhor das Árvores, a criança Tangun era o deus-homem que completava a divina trindade com Hawn-in, o deus-pai, e Hwang-ung, o espírito. Quando este último abandonou definitivamente a terra, Tangun expandiu o reino, ensinou ao seu povo as leis do deus-pai e tornou-se o primeiro rei da Coreia.

Trad.: Manuel João Magalhães

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Mia Couto – “Poema da despedida”

10.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo

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Pedro Mexia – “Duplo Império”

09.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Atravesso as pontes mas
(o que é incompreensível)
não atravesso os rios,
preso como uma seta
nos efeitos precários da vontade.
Apenas tenho esta contemplação
das copas das árvores
e dos seus prenúncios celestes,
mas não chego a desfazer
as flores brancas e amarelas
que se desprendem.
As estações não se conhecem,
como lhes fora ordenado,
mas tecem o duplo império
do amor e da obscuridade.

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M. S. Lourenço – “Vejo que não queres…”

08.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

III
Vejo que não queres a equação de uma linha,
Os pontos compostos todos à sua volta,
Uma regra para dispor em cada caso
A ordenar por dentro o conjunto inteiro.
Não queres, dizes, a máquina funcional
Que calcula a posição de cada ponto –
Deixa-los expandir ao acaso, uma nebulosa
Que cresce sem limites num impulso variável.

Que linha é essa no entanto quando olhas
Sem ver nas partes um eixo dominante?
Em breve o horizonte esgota-se e o que fora
Uma explosão do sol é uma área trivial.
Extinto o cânon não distingues mais
Uma barra firme dum traço instável.
Por fim vibras com o intervalo subtil,
Voltas do nó orgânico à fuga poligonal.

Não se tocam as linhas de um compasso,
Deixam-se suspensas numa presença imóvel,
Perpendiculares ao fundo a bater o tempo,
Um guia silencioso no texto medieval.
Ficam a raiz do desenho, o arame da frase
Como um esqueleto de metro no meio do verso livre:
Soam no osso a respiração do bloco,
Um andaime dobrado numa fibra contínua.

Não há volumes de uma só faceta
Em movimento paralelo ao mesmo plano.
Não medimos só ponto contra ponto
Nas imagens discretas da mesma linha,
Mas também o acordo da figura vertical
Em que o bloco ressalta integrável.
A treva desce aos vapores do fundo:
A face sua oblíqua através do espelho.

(de Arte Combinatória, Moraes editores, 1971 – Círculo de Poesia)

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Fernando Assis Pacheco – “Páscoa”

07.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A senhora tia alisa a toalha
põe sobre ela talheres muito antigos
herdados dos avós que a terra come

quantos anos passados deste dia
ainda estaremos como agora juntos
na cozinha de Sangalhos
entre o fumo da lenha seca
e o cheiro misturado
das carnes e das hortaliças
que acabam de ferver no fogo esperto

minha mãe diz um dito qualquer
seca a vista embaciada eu venho
do pátio certamente cantando

o tio – as urinas presas
no laço da bexiga –
conta uma história
da guerra de 14
do vizinho morto jovem
como ele Manuel sorte infeliz

ao tempo que isto foi

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Eduardo Alves da Costa – “Maiakovski”

06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O poema mais popular do autor, “No caminho, com Maiakóvski”, escrito na década de 1960 como manifestação de revolta à intolerância e violência impostas pela ditadura militar, foi envolvido numa série de equívocos quanto à atribuição de autoria. Para alguns, o texto era do poeta russo Vladimir Maiakóvski. Para outros, o verdadeiro autor era o dramaturgo alemão Bertold Brecht.
Foi graças à telenovela Mulheres Apaixonadas, originalmente exibida pela Rede Globo em 2003, numa cena em que a personagem de Christiane Torloni lê um trecho do poema, dando o crédito correto, que o mal-entendido foi desfeito.

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakóvski.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça,
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz;
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas manhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas ao tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo,
por temor aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita – MENTIRA!

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José Agostinho de Macedo – “Soneto”

06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

José Agostinho de Macedo (Beja, 11 de Setembro de 1761 — Lisboa, 2 de Outubro de 1831) foi um escritor português. Escritor de estilo polêmico e agressivo, era adepto fervoroso do miguelismo. Escreveu sobre a maçonaria no livro Morais dos pedreiros livres e iluminados (1816).

Debaixo desta campa sepultado
Jaz um peito, um que etéreo fogo ardia,
Que da Lusa Eloquência, e da Poesia
Será por longos Evos lamentado.

Deixou à Pátria alto Padrão alçado,
Enfeitando co’ as flores a Harmonia
A austera fronte à sã Filosofia,
Com exemplo entre nós não praticado.

Não indagues, Viandante curioso,
Da larga vida sua erro, ou defeito,
Da Morte acata o manto tenebroso.

Ele Homem foi, Homem não há perfeito;
E, deixando este valer lacrimoso,
Foi piedade buscar de Deus no peito.

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Ana Cristina César – “Minha boca…”

06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ana Cristina César foi professora universitária, jornalista e poeta. Entre outros autores,traduziu Sylvia Plath.


Minha boca também

está seca

bebemos litros d’água

Brasília está tombada

iluminada

como o mundo real

pouso a mão no teu peito

mapa de navegação

desta varanda

hoje sou eu que

estou te livrando

da verdade

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Almeida Garrett – “Estes sítios”

06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olha bem estes sítios queridos,
Vê-os bem neste olhar derradeiro…
Ai!, o negro dos montes erguidos,
Ai!, o verde do triste pinheiro!
Que saudade que deles teremos…
Que saudade! ai, amor, que saudade!
Pois não sentes, neste ar que bebemos,
No acre cheiro da agreste ramagem,
Estar-se alma a tragar liberdade
E a crescer de inocência e vigor!
Oh!, aqui, aqui só se engrinalda
Da pureza da rosa selvagem,
E contente aqui só vive Amor.
O ar queimado das salas lhe escalda
De suas asas o níveo candor,
E na frente arrugada lhe cresta
A inocência infantil do pudor.
E oh!, deixar tais delícias como esta!
E trocar este céu de ventura
Pelo inferno da escrava cidade!
Vender alma e razão à impostura,
Ir saudar a mentira em sua corte,
Ajoelhar em seu trono à vaidade,
Ter de rir nas angústias da morte,
Chamar vida ao terror da verdade…
Ai!, não, não… nossa vida acabou,
Nossa vida aqui toda ficou
Diz-lhe adeus neste olhar derradeiro,
Dize à sombra dos montes erguidos,
Dize-o ao verde do triste pinheiro,
Dize-o a todos os sítios queridos
Desta rude, feroz soledade,
Paraíso onde livres vivemos,
Oh!, saudades que dele teremos,
Que saudade! ai, amor, que saudade!

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História 174 – “O Cão e a Ovelha”

06.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 174 – O cão e a ovelha
Era de Inverno. A neve e as árvores perdiam as folhas com o frio, enquanto os animais tremiam.
O Cão Ruinzão foi chamar o Lobo, o Abutre e o Milhafre para servirem de juízes no caso de roubo de que ele acusava a Ovelha. Os três eram amigos do Cão Ruinzão e ainda não tinham ouvido contar o facto já davam a Ovelha como inteiramente culpada da acusação.
Foram para o local do julgamento e a discussão do caso principiou. A Ovelha, coitada, falou, protestou, afirmou mesmo que a acusação que lhe faziam era uma calúnia, mas os juízes, que apenas desejavam defender o Cão e condenar a Ovelha, declararam-na culpada.
— Senhora Ovelha — disseram eles — é escusado jurar e afirmar, porque basta a sua atitude para vermos que o Cão tem razão. Condenamo-la a despir a sua lã e a entregá-la toda ao Sr. Cão, para pagamento do que lhe deve!
A pobre Ovelhinha chorou e lastimou-se, mas teve de se deixar tosquiar em pleno Inverno, porque nada podia contra a força dos quatro inimigos que tinha na sua frente e que até seriam capazes de a matar se quisessem.
Ficou, pois, nuazinha, durante as neves do Inverno, como todos os que caem na mão de inimigos fortes e cruéis.

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Amadeu Baptista – “Jean Metzinger: na pista de ciclismo”

05.07.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

estavam os apóstolos na paragem do 90
no rossio e jesus apareceu-lhes.
acima das cabeças elevou-se, sobre cada um,
uma língua de fogo, como que a mostrar-lhes
o caminho para o martinho da arcada,
onde estava combinada uma última ceia.
pedro ia em silêncio, a fumar um puro montecristo
nº. 3, enquanto que tomé pedia ao mestre
para ver as marcas do infortúnio
e tocar, ainda que ao de leve, as cicatrizes.
mateus levantou os olhos um momento
do financial times e ponderou
ser aquele um bom local
para abrir uma loja de câmbio.
joão persignou-se e olhou para maria
madalena, também presente,
carregada de sacos da fnac e do corte inglês,
tendo entrevisto, atrás de uma coluna,
o gang de pessoa, que de súbito fugiu,
por estar em menor número.
tiago, o maior, foi comprar
um braçado de rosas, que entregou
a maria, que, muito consternada,
pediu encarecidamente que a levassem
ao pavilhão chinês, no príncipe real,
para tomar um chá de folhas de jasmim.
felipe meditava, tirando apontamentos
sobre os efeitos nefastos de outra guerra
entre judeus e árabes. tadeu
mascava chiclets, para enganar
o martírio da ressaca, implorando a simão
cinquenta euros para dois gramas de pó,
pelo que foi admoestado com maus modos
por zebeu, que estava a seu lado,
a observar uma negra lindíssima que passava
com as calças muito justas, bordadas
a amarelo com ramagens e pássaros
e uma blusa transparente, toda aberta,
que lhe deixava visíveis, quase completamente,
os seios. andré seguia atrás, vociferando
contra o custo de vida e lembrando-se
do tempo em que era pescador e a abundância
de sardinha era tão grande
que nem sequer tinha cotação no mercado.
bartolomeu vinha no meio, a rogar pragas
pelo trânsito da cidade e a poluição,
e a pensar que, nas próximas eleições,
iria apresentar candidatura ao município
como independente, nas listas do partido.
a dada altura, notaram que judas
não estava no grupo e foram procurá-lo
à praça da figueira, onde andava às moedas,
a guardar carros. então, um transeunte,
reconhecendo o mestre, aproximou-se e disse
que só mesmo por milagre o poderia
encontrar ali e em almada vê-lo a abraçar
lisboa. ao que o mestre retorquiu, ó príncipe,
meu príncipe, não me tentes de novo.
eu faço corpo com a evanescência,
mas não há maior prodígio que escapar ileso
ao trânsito infernal da 24 de julho.
e, isto dito, partiu, de bicicleta.

Posteriormente à gravação, o Poeta procedeu a algumas alterações do texto que ficou com se segue:

Carta dos Coríntios

estavam os apóstolos na paragem do 90
no rossio e jesus apareceu-lhes.
acima das cabeças elevou-se, sobre cada um,
uma língua de fogo, a mostrar-lhes
o caminho para o martinho da arcada,
onde estava combinada uma última ceia.
pedro ia em silêncio, a fumar um puro montecristo
nº. 3, enquanto que tomé pedia ao mestre
para ver as marcas do infortúnio
e tocar, ainda que ao de leve, as cicatrizes.
mateus levantou os olhos um momento
do financial times e ponderou
ser aquele um bom local
para abrir uma loja de câmbio.
joão persignou-se e olhou para maria
madalena, também presente,
carregada de sacos da fnac e do corte inglês,
por ter entrevisto, atrás de uma coluna,
o gang de pessoa, que de súbito fugiu,
por estar em menor número.
tiago, the one, foi comprar
um braçado de rosas, que entregou
a maria, que, cansada da jornada,
pediu, encarecidamente, que a levassem
ao pavilhão chinês, no príncipe real,
para tomar um chá de folhas de jasmim.
felipe meditava, tirando apontamentos
sobre os efeitos nefastos de outra guerra
entre judeus e árabes. tadeu
mascava chiclets, para enganar
o martírio da ressaca, implorando a simão
cinquenta euros para dois gramas de pó,
pelo que foi admoestado com maus modos
por zebeu, que estava a seu lado,
a topar uma negra lindíssima que passava
com as calças muito justas, bordadas
a amarelo com ramagens e pássaros
e uma blusa transparente, toda aberta,
que lhe deixava visíveis os seios fartos.
andré seguia atrás, vociferando
contra o custo de vida e lembrando-se
do tempo em que era pescador e a abundância
de sardinha era tão grande
que nem sequer tinha cotação no mercado.
bartolomeu vinha no meio, a rogar pragas
pelo trânsito da cidade e a poluição,
e a pensar que, nas próximas eleições,
iria apresentar candidatura ao município
como independente, nas listas do partido.
a dada altura, notaram que judas
não estava no grupo e foram procurá-lo
à praça da figueira, onde andava às moedas,
a guardar carros. então, um transeunte,
reconhecendo o mestre, aproximou-se e disse
que só mesmo por milagre o poderia
encontrar ali e em almada vê-lo
a abraçar lisboa. ao que o mestre retorquiu
‘ó príncipe, meu príncipe, não me tentes de novo.
embora eu faça corpo com a evanescência,
mas não há maior prodígio que escapar ileso
ao trânsito infernal da 24 de julho’.
e, isto dito, partiu, de bicicleta.

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