Nota biográfica

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões.

(Sem título) Fernando Pessoa

21.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os críticos podem dizer que determinado
poema, longamente ritmado, não quer, afinal,
dizer senão que o dia está bom. Mas dizer que
o dia está bom é difícil, e o dia bom, ele
mesmo, passa. Temos pois que conservar o
dia bom em memória florida e prolixa, e assim
constelar de novas flores ou de novos astros
os campos ou os céus da exterioridade vazia e
passageira.

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“Soneto” de António Gedeão.

20.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não pode Amor por mais que as falas mude
exprimir quanto pesa ou quanto mede.
Se acaso a comoção falar concede
é tão mesquinho o tom que o desilude.

Busca no rosto a cor que mais o ajude,
magoado parecer aos olhos pede,
pois quando a fala a tudo o mais excede
não pode ser Amor com tal virtude.

Também eu das palavras me arreceio,
também sofro do mal sem saber onde
busque a expressão maior do meu anseio.

E acaso perde, o Amor que a fala esconde,
em verdade, em beleza, em doce enleio?
Olha bem os meus olhos, e responde.

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“Acusam-me de Mágoa e Desalento” poema de Carlos de Oliveira

17.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que me não cale:
até que o muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se quem confia a própria dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.

Carlos de Oliveira, in ‘Mãe Pobre’

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“Poema (sem título) de Egito Gonçalves.

16.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Recebo-te em cada manhã com o mesmo espanto, deixo-me

banhar por essas folhas dobradas onde me entregas a

serenidade e a alegria.

Decoro a lenta sedimentação do teu passado, dores 

fos­silizadas, estrato acumulado em anos de que estou
ausente,

caminhos sem aberturas.

Outros em que me reconheço nos marcos que limitam 

a paisagem, nos rápidos sorrisos que os olhos velavam,

na mudez de interrogações não formuladas.

Leira onde se expõem momentos fugidios hoje
inflorescentes, 

grão intacto onde a inocência se mantinha à espera 

do solo.

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“Relatório em forma fechada” de Gastão Cruz.

15.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os estragos da noite foram vastos,
inversos ao pulsar da primavera:
há tempo em que se luta pelos gastos
rastos da vida e o tempo novo gera
desilusão somente, esse viscoso
correr da insónia como se já água
as lágrimas não fossem e no fosso
há pouco aberto qualquer outra água
de natureza opaca suspendesse
a sua interminável queda; voltas
por fim à noite espessa que já tece
a madrugada com as linhas soltas
da minha vida, versos que transformam
em realidade as sílabas que os formam


– Gastão Cruz, em “A moeda do tempo”.
Lisboa: Assírio & Alvim, 2006.

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“Vinha dizer adeus” de Rosa Lobato Faria.

14.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vinha dizer adeus, mas reparei
Que na faia do pátio era Setembro
Vinha dizer adeus, mas encontrei
Um livro na cadeira do alpendre

Vinha dizer adeus, mas as maçãs
Estavam no forno a assar e esse cheiro
Fez-me parar na porta das manhãs
A relembrar o nosso amor inteiro

Vinha dizer adeus, mas o teu cão
Veio lamber-me os dedos hesitantes
Vinha dizer adeus, mas vi no chão
A manta, ao pé do lume, como dantes

Vinha dizer adeus, mas senti fome
Ao ver a mesa posta para dois
Dálias e o guardanapo com o meu nome
Sem ter havido antes nem depois

Vinha dizer adeus, mas que surpresa
Apassionata… o último andamento
Como se tu tivesses a certeza
Que eu ia chegar nesse momento

Vinha dizer adeus, mas nesse olhar
Vi tanta solidão, tantos abraços
Tantas amendoeiras ao luar
Que me escondi, chorando nos teus braços

Vinha dizer que já não estou contigo
Que este amor singular já não é nosso
Vinha dizer adeus, mas já não digo
Vinha dizer adeus, mas já não posso!

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“De Amor nada Mais Resta que um Outubro” de Natália Correia

13.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

Natália Correia, in “Poesia Completa”

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“Gozo e Dor” de Almeida Garrett.

11.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se estou contente, querida,

Com esta imensa ternura

De que me enche o teu amor?

— Não, ai, não! Falta-me a vida, 

Sucumbe-me a alma à ventura:

O excesso de gozo é dor.
Dói-me a alma, sim, e a tristeza 

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Não sei se morro ou se vivo, 

Porque a vida me parou.
É que não há ser bastante

Para este gozar sem fim 

Que me inunda o coração. 

Tremo dele, e delirante 

Sinto que se exaure em mim

Ou a vida ou a razão.

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“Autópsia do Amor”, poema de Gomes Leal.

10.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Amor — essa paixão romanesca e fagueira —
que os vates têm cantado em bemol comovido,
é, na forma, uma coisa assaz brusca e grosseira,
como o assalto da fera e o ataque do bandido.

Tal e qual como o lobo assalta a cordeira,
a empolga e lhe crava o colmilho atrevido,
assim ataca o Amor. — São da mesma maneira
o Espasmo, a Fúria, o Uivo, o Estertor, o Rugido.

Nas contorsões do Cio e os seus enlaçamentos,
há o ardor da Serpente, a enroscar-se nas preias,
e a estrangular o touro enorme e mugidor.

E quer cheire ao sertão, ou da Lais aos unguentos,
Nos rosais, num covil, ou de Nero nas ceias,
— são sempre os mesmos ais, o Pranto, o Espasmo, a Dor.

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“Na rua”, poema de Manuel Laranjeira.

09.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ninguém por certo adivinha como 

essa Desconhecida, 

entre estes braços prendida, 

jurava ser toda minha…

Minha sempre! — E em voz baixinha:

— «Tua ainda além da vida!…» 

Hoje fita-me, esquecida

do grande amor que me tinha.

Juramos ser imortal

esse amor estranho e louco…

E o grande amor, afinal,
(Com que desprezo me lembro!) 

foi morrendo pouco a pouco,

— como uma tarde em Setembro…

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“Nascemos para amar” de Bocage.

08.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nascemos para amar; a humanidade
Vai tarde ou cedo aos laços de ternura:
Tu és doce atractivo, ó formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão n’alma se apura
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abismou nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre;
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre.

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“Ah, um soneto…”, poema de Álvaro de Campos.

07.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meu coração é um almirante louco
que abandonou a profissão do mar
e que a vai relembrando pouco a pouco em
casa a passear, a passear…

No movimento (eu mesmo me desloco nesta
cadeira, só de o imaginar)
o mar abandonado fica em foco
nos músculos cansados de parar.

Há saudades nas pernas e nos braços. Há
saudades no cérebro por fora.
Há grandes raivas feitas de cansaços.

Mas — esta é boa! — era do coração
que eu falava… e onde diabo estou eu agora
com almirante em vez de sensação? …

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Poema (sem título), de Egito Gonçalves.

06.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sinto sob a nuca o pulsar

das tuas ancas. Escrevo

no puro azul do ar

a fórmula do teu nome,

o destino, este fogo. A calma 

da manhã dá-me

o silêncio suave de te ter,

de esquecer a fronteira…

Estás, longe do luto, da cidra

solitária. Uma ave

— cegonha ou garça? — agita

o céu da gândara, as linhas

da ternura. Um outono

de orvalho, comovido, 

veste-me — ou é

a água dos teus lábios?

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“Já?” de Alberto Pimenta.

04.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

já tentaste praticar o bem
fazendo mal?
já tentaste praticar o mal
fazendo bem?
já tentaste praticar o bem
fazendo bem?
já tentaste praticar o mal
fazendo mal?
já tentaste praticar o bem
não fazendo nada?
já tentaste praticar o mal
fazendo tudo?
já tentaste praticar tudo
não fazendo nada?
e o contrário, já tentaste?
já?
seja qual for a tua resposta,
não sei que te diga.

Alberto Pimenta, in ‘Prodigioso Acanto’

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“Chega Através” de Álvaro de Campos.

02.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Chega através do dia de névoa alguma coisa
do esquecimento, 

Vem brandamente com a tarde a oportunidade
da perda.

Adormeço sem dormir, ao relento da vida.


É inútil dizer-me que as ações têm
consequências. 

É inútil eu saber que as ações usam
consequências.

É inútil tudo, é inútil tudo, é inútil tudo.


Através do dia de névoa não chega
coisa nenhuma.


Tinha agora vontade
De ir esperar ao comboio da Europa o viajante
anunciado, 

De ir ao cais ver entrar o navio e ter pena de tudo.

Não vem com a tarde oportunidade nenhuma.

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“Queria falar contigo” de Eugénio de Andrade.

01.09.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

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“Morangos” de Rui Pires Cabral.

31.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

No começo do amor, quando as cidades
nos eram desconhecidas, de que nos serviria
a certeza da morte se podíamos correr
de ponta a ponta a veia eléctrica da noite
e acabar na praia a comer morangos
ao amanhecer? Diziam-nos que tínhamos

a vida inteira pela frente. Mas, amigos,
como pudemos pensar que seria assim
para sempre? Ou que a música e o desejo
nos conduziriam de estação em estação
até ao pleno futuro que julgávamos

merecer? Afinal, o futuro era isto.
Não estamos mais sábios, não temos
melhores razões. Na viagem necessária
para o escuro, o amor é um passageiro
ocasional e difícil. E a partir de certa altura
todas as cidades se parecem.

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“Heroísmos” de Cesario Verde.

30.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu temo muito o mar, o mar enorme,
Solene, enraivecido, turbulento,
Erguido em vagalhões, rugindo ao vento;
O mar sublime, o mar que nunca dorme.

Eu temo o largo mar rebelde, informe,
De vítimas famélico, sedento,
E creio ouvir em cada seu lamento
Os ruídos dum túmulo disforme.

Contudo, num barquinho transparente,
No seu dorso feroz vou blasonar,
Tufada a vela e n’água quase assente

E ouvindo muito ao perto o seu bramar,
Eu rindo, sem cuidados, simplesmente,
Escarro, com desdém, no grande mar!

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“Vaidade” de Florbela Espanca.

27.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sonho que sou a Poetisa eleita, 

Aquela que diz tudo e tudo sabe, 

Que tem a inspiração pura e perfeita, 

Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade

Para encher todo o mundo! E que deleita

Mesmo aqueles que morrem de saudade!

Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo… 

Aquela de saber vasto e profundo,

Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,

E quando mais no alto ando voando.

Acordo do meu sonho… E não sou nada!.

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Poema de Daniel Faria – (sem nome)

26.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Homens que são como lugares mal situados

Homens que são como casas saqueadas

Que são como sítios fora dos mapas

Como pedras fora do chão

Como crianças órfãs

Homens sem fuso horário

Homens agitados sem bússola onde repousem

Homens que são como fronteiras invadidas

Que são como caminhos barricados

Homens que querem passar pelos atalhos sufocados

Homens sulfatados por todos os destinos

Desempregados das suas vidas

Homens que são como a negação das estratégias

Que são como os esconderijos dos contrabandistas

Homens encarcerados abrindo-se com facas

Homens que são como danos irreparáveis

Homens que são sobreviventes vivos

Homens que são como sítios desviados

Do lugar

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“As Pedras” de Maria Alberta Menéres.

25.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,
que todas as coisas sabem
uma história que não calam.

Debaixo dos nossos pés
ou dentro da nossa mão
o que pensarão de nós?
O que de nós pensarão?

As pedras cantam nos lagos
choram no meio da rua
tremem de frio e de medo
quando a noite é fria e escura.

Riem nos muros ao sol,
no fundo do mar se esquecem.
Umas partem como aves
e nem mais tarde regressam.

Brilham quando a chuva cai.
Vestem-se de musgo verde
em casa velha ou em fonte
que saiba matar a sede.

Foi de duas pedras duras
que a faísca rebentou:
uma germinou em flor
e a outra nos céus voou.

As pedras falam? pois falam.
Só as entende quem quer,
que todas as coisas têm
um coisa para dizer.

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“Não estou pensando em nada” de Álvaro de Campos.

24.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não estou pensando em nada
E essa coisa central, que é coisa nenhuma,
É-me agradável como o ar da noite,
Fresco em contraste com o verão quente do dia,

Não estou pensando em nada, e que bom!

Pensar em nada
É ter a alma própria e inteira.
Pensar em nada
É viver intimamente
O fluxo e o refluxo da vida…
Não estou pensando em nada.
É como se me tivesse encostado mal.
Uma dor nas costas, ou num lado das costas,
Há um amargo de boca na minha alma:
É que, no fim de contas,
Não estou pensando em nada,
Mas realmente em nada,
Em nada…

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

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“Quando o Homem Atinge” de Cruzeiro Seixas

23.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar


Quando o homem atinge
aproximadamente a sua medida
rebentam as lágrimas nas mais altas serranias
e assim nasce
algures um povo
um espelho de prata
na vastidão de um leito.
Uma espécie de descoberta
inútil
mas que sempre será celebrada
como uma imensa revoada de pombos.
Nada a fazer
o palhaço
está caído entre os seus símbolos
a gritar para além do vidro
à chuva
sobre a evidência da terra empapada.
Um homem
um fruto
ou melhor
um minúsculo som
engaiolado na janela
aberta
na tua carne fremente.

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“Anjo de Deus, Anjo do Inferno” de António Pedro

21.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem és?
Para que vieste?
Porque não és como eles?
Porque não falas a linguagem deles?
Até parece que já estiveste
aqui antes
não há psiquiatras
nem psicólogos
que expliquem
os teus delírios
a tua loucura
a tua louca sabedoria
o dinheiro nada te diz
nem o ganhar a vida
amas as mulheres belas
canta-las
queres derrubar o Império
para chegar ao Paraíso
já em menino eras assim
puro
justo
bondoso
mas se te fazem mal
vingas-te
estátuas, castelos caem
à tua passagem
provocas
anjo de Deus
anjo do inferno.

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“A nossa vez” de Rui Pires Cabral

19.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

É o frio que nos tolhe ao domingo
no Inverno, quando mais rareia
a esperança. São certas fixações
da consciência, coisas que andam
pela casa à procura de um lugar

e entram clandestinas no poema.
São os envelopes da companhia
da água, a faca suja de manteiga
na toalha, esse trilho que deixamos
atrás de nós e se decifra sem esforço
nem proveito. É a espera

e a demora. São as ruas sossegadas
à hora do telejornal e os talheres
da vizinhança a retinir. É a deriva
nocturna da memória: é o medo
de termos perdido sem querer

a nossa vez.

Rui Pires Cabral, in ‘Longe da Aldeia’

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“Primavera” de Urbano Tavares Rodrigues

18.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

A Primavera vem dançando
com os seus dedos de mistério e turquesa

Vem vestida de meio dia e vem valsando
entre os braços de um vento sem firmeza

Nu como a água o teu corpo quieto e ausente

Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso
Loiro o rosto o olhar não sei se mente
se de tão negro e parado é um aviso
do destino que me fixa finalmente

Ai, a Primavera vai passando
com os seus dedos de mistério e de turquesa
Segue Primavera vai cantando
Que será do nosso amor nesta praia de incerteza.

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“Meditação” de Natália Correia

18.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

A carne é flor ou consequência do seu perfume?
Seja o que for
é intensidade que a flor resume.
A mão é gesto que a ultrapassa. O gesto é além.
Porque a mão toca o horizonte
que o gesto da mão contém.
O homem canta.
E enquanto canta o homem dura.
Porque o seu canto é perceber
que a voz prevalece à criatura.

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“Como te amo” de Fernando Pessoa

16.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como te amo? Não sei de quantos modos vários
Eu te adoro, mulher de olhos azuis e castos;
Amo-te com o fervor dos meus sentidos gastos;
Amo-te com o fervor dos meus preitos diários.

É puro o meu amor, como os puros sacrários;
É nobre o meu amor, como os mais nobres fastos;
É grande como os mares altisonos e vastos;
É suave como o odor de lírios solitários.

Amor que rompe enfim os laços crus do Ser;
Um tão singelo amor, que aumenta na ventura;
Um amor tão leal que aumenta no sofrer;

Amor de tal feição que se na vida escura
É tão grande e nas mais vis ânsias do viver,
Muito maior será na paz da sepultura!

Fernando Pessoa, “Inéditos – Poemas de Lança-Pessoa – Manuscrito (Junho/1902)

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“Mãe” de Miguel Torga

13.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Mãe:

Que desgraça na vida aconteceu,

Que ficaste insensível e gelada? 

Que todo o teu perfil se endureceu 

Numa linha severa e desenhada?

Como as estátuas, que são gente nossa

Cansada de palavras e ternura.

Assim tu me pareces no teu leito, 

Presença cinzelada em pedra dura,

Que não tem coração dentro do peito.

Chamo aos gritos por ti – não me respondes.

Beijo-te as mãos e o rosto – sinto frio.

Ou és outra, ou me enganas, ou te escondes

Por detrás do terror deste vazio.

Mãe:

Abre os olhos ao menos, diz que sim!

Diz que me vês ainda, que me queres. 

Que és a eterna mulher entre as mulheres.

Que nem a morte te afastou de mim!

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“Cruz na porta da tabacaria” de Álvaro de Campos

12.08.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cruz na porta da tabacaria!
Quem morreu? O próprio Alves? Dou

Ao diabo o bem-estar que trazia.

Desde ontem a cidade mudou.


Quem era? Ora, era quem eu via. 

Todos os dias o via. Estou
Agora sem essa monotonia.

Desde ontem a cidade mudou.


Ele era o dono da tabacaria.
Um ponto de referência de quem sou

Eu passava ali de noite e de dia.

Desde ontem a cidade mudou.


Meu coração tem pouca alegria,
E isto diz que é morte aquilo onde estou.

Horror fechado da tabacaria!
Desde ontem a cidade mudou.


Mas ao menos a ele alguém o via,
Ele era fixo, eu, o que vou,
Se morrer, não falto, e ninguém diria.

Desde ontem a cidade mudou.

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