Luandino Vieira – “Canção para Luanda”
15.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
José Vieira Mateus da Graça, português de nascimento, passou a juventude em Luanda. Detido pela PIDE, pela primeira vez em 1959, foi condenado a 14 anos de prisão, em 1961. Em 21 de Maio de 1965, a Sociedade Portuguesa de Escritores, então presidida por Jacinto do Prado Coelho, atribuiu-lhe o Grande Prémio de Novela pela sua obra Luuanda. Na sequência deste facto a SPE foi assaltada e destruída por elementos da polícia política PIDE. De regresso a Luanda, desempenhou vários lugares importantes. Voltou a Portugal em 1992 onde vive isolado, na quinta de um amigo. (Wikipédia)
15.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
A pergunta no ar
no mar
na boca de todos nós:
— Luanda onde está?
Silêncio nas ruas
Silêncio nas bocas
Silêncio nos olhos
– Xê
mana Rosa peixeira
responde?
— Mano
Não pode responder
tem de vender
correr a cidade
se quer comer!
«Ola almoço, ola almoçoée
matona calapau
ji ferrera ji ferrerééé»
— E você
mana Maria quitandeira
vendendo maboque
os seios-maboque
gritando
saltando
os pés percorrendo
caminhos vermelhos
de todos os dias?
«maboque m’boquinha boa
doce dócinha»
— Mano
não pode responder
o tempo é pequeno
Para vender!
Zefa mulata
o corpo vendido
baton nos lábios
os brincos de lata
sorri
abrindo seu corpo
— seu corpo-cubata!
Seu corpo vendido
viajado
de noite e dia.
— Luanda onde está?
Mana Zefa mulata
o corpo-cubata
os brincos de lata
vai-se deitar
com quem lhe pagar
– precisa comer!
Mano dos jornais
Luanda onde está?
As casas antigas
o barro vermelho
as nossas cantigas
tractor derrubou?
Meninos nas ruas
caçambulas
quigosas
brincadeiras minhas e tuas
asfalto matou?
— Manos
Rosa peixeira
quitandeira Maria
você também
Zefa mulata
dos brincos de lata
— Luanda onde está?
Sorrindo
as quindas no chão
laranjas e peixe
maboque docinho
a esperança nos olhos
a certeza nas mãos
mana Rosa peixeira
quitandeira Maria
Zefa mulata
— os panos pintados
garridos
caídos
mostraram o coração:
— Luanda está aqui!
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12.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Agora,
agora que todos os contactos estão feitos
as linhas dos telefones sintonizadas,
os espaços dos morses ensurdecidos,
os mares dos barcos violados,
os lábios dos risos esfrangalhados,
os filhos incógnitos germinados,
os frutos do solo encarcerados,
os músculos definhados
e o símbolo da escravidão determinado.
Agora,
agora que todos os contactos estão feitos,
com a coreografia do meu sangue coagulada,
o ritmo do meu tambor silenciado,
os fios do meu cabelo embranquecidos,
meu coito denunciado e o esperma esterilizado,
meus filhos de fome engravidados,
minha ânsia e meu querer amordaçados,
minhas estátuas de heróis dinamitadas,
meu grito de paz com os chicotes abafado,
meus passos guiados como passos de besta,
e o raciocínio embotado e manietado,
Agora,
agora que me estampaste no rosto
os primores da tua civilização,
eu te pergunto, Europa,
eu te pergunto: AGORA?
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11.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
E nascemos sem nós querermos,
E vivemos sem saber
A razão porque vivemos.
Onda desfeita no ar,
Esperança que brada em espuma
Contra a muralha de pedra
Dum desconhecido destino.
E a maré, vida em fermento,
Nunca cansa de bater
Contra esse muro de granito
Na ânsia de o desfazer.
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10.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Hoje não trago nada que dizer.
Sossega o teu rosto no meu peito
Repousa em mim a tua tristeza.
Ouve os segredos que te não digo
E a canção de forte esperança
Que germina e rompe devagarinho
Por todos os caminhos da vida,
Na pureza desta tarde,
Ao lusco fusco,
Abre comigo os olhos para os belos horizontes
Cada poente mistifica sempre
Uma nova madrugada.
Repousa em mim a tua tristeza.
Abre comigo os olhos para a vida.
Hoje a minha voz é de búzio
Fala baixo e em segredo
Numa canção que enche o mar, o mundo,
E germina e rompe devagarinho
Por sobre os escombros de luz
Deste poente que cai sobre o mar
Numa angústia de eternidade.
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09.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se eu dissesse que o teu corpo moreno
tem o ritmo da cobra preta deslizando
mentia.
Mentia se comparasse o teu rosto fruto
ao das estátuas adormecidas das velhas civilizações de África
de olhos rasgados em sonhos de luar
e boca em segredos de amor.
Como a minha Ilha é o teu corpo mulato
tronco forte que dá
amorosamente ramos, folhas, flores e frutos e há frutos
na geografia de teu corpo.
Teu rosto de fruto
olhos oblíquos de safú
boca fresca de framboesa silvestre
és tu.
És tu minha Ilha e minha Africa
forte e desdenhosa dos que te falam à volta.
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08.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Desfolhei um doirado malmequer,
Ao qual pedi de todo o coração
Que me dissesse ao certo: — Sim ou Não;
Se a quem adoro, mal ou bem me quer!…
Desfolhei o segundo p’ra saber
Se eram os dois da mesma opinião,
Que sendo igual a minha petição,
Me fosse verdadeiro o seu par’cer.
A derradeira pétala caída,
Deixou-me fundamente entristecida
Por confirmar a minha Dor sem fim!…
Agora dize, Amor: — Qual tem razão?
É o segundo que me disse — Não,
Ou o primeiro que me disse — Sim?!…
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05.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Pintura de António Gomes “Gonga”)
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro…
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda…
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus…
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada…
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor…
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora…
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua…
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04.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Negra gentil, carvão mimoso e lindo
Donde o diamante sai,
Filha do Sol, estrela requeimada,
Pelo calor do Pai.
Encosta o rosto, cândido e formoso,
Aqui no peito meu,
Dorme, donzela, rola abandonada
Porque te velo eu.
Não chores mais, criança, enxuga o pranto
Sorri-te para mim,
Deixa-me ver as pérolas brilhantes,
Os dentes de marfim.
No teu divino seio existe oculta
Mal sabes quanta luz,
Que absorve a tua escurecida pele,
Que tanto me seduz.
Eu gosto de te ver a negra e meiga
E acetinada cor,
Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada
Pelas chamas do amor;
Que outrora foste neve e amaste o lírio,
Pálida flor do vale,
Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te
O seio virginal.
Não chores mais, criança, a quem eu amo,
Ó lindo querubim,
O amor é como a rosa, porque vive
No campo ou no jardim.
Tu tens o amor ardente, e basta
Para ser feliz;
Ama a violeta que a violeta adora-te
Esquece a flor de lis.
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03.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Uma árvore nova à
beira da estrada. E
que mais bela prova
te seria dada?
No inverno dos
galhos só uma
flor amarela. E
que mais bela
prova que saber dela?
Uma flor que, em
silêncio, os lábios
descerra. E que
mais bela prova
dum pouco de terra?
E uma abelha que
suga o mel que
lhe deixaste. E
que mais bela
prova que tanto
vos baste?
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02.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Pintura dos Meninos de Angola)
A maré sobe
longínqua e distante,
mas sobe…
Tem a força de um atlante
e a frescura gloriosa da manhã!
Podem forjar matadoiros,
abrir veia por veia
os pulsos que não suportam algemas;
e preparar sorvedoiros
e emboscadas de atalaia
e erguer barreiras na praia
contra a onda que se alteia
para afogar nos seus braços
abismos de escuridão…
Areias louras da praia
a hora da maré cheia
cantai-a,
não há barreira que tolha
a gloriosa ascensão!
Onde o poder p’ra impedir
que a Primavera floresça?
Aconteça o que aconteça,
a Primavera há-de vir
e a maré,
longínqua e distante,
continuará a subir…
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01.02.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mãe:
Nós somos os teus filhos
Que sem vergonha
Quebraram as fronteiras do silêncio.
Os filhos sem manhãs
Que rasgaram as noites que cobriam
As carnes das tuas carnes.
Nós somos, Mãezinha,
os teus filhos,
Os pés descalços,
Esfomeados,
Os meninos das roças,
Do cais,
Os capitães d’areia,
Os meninos negros à margem da vida,
Que desperdiçaram o destino do teu ventre,
Que endireitaram os instantes
Que marcaram socalcos na terra firme,
Na profundidade das trevas da tua vida.
Nós somos, Mãezinha, os teus filhos,
Sexos que germinaram vida,
Forças que desfloraram a virgindade dos dogmas,
Fecundaram minérios de esperança,
Olhos, dinamites de amor,
Mãos que esfacelaram a espessura dos obós,
E em cujo silêncio verde
Germina a Certeza:
Mãezinha:
Nós somos os teus filhos.
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28.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ai barco que me levasse
a um rio que me engolisse
donde eu não mais regressasse
p’ra que mais ninguém me visse!
Ai barco que me levasse
sem vela ou remos, nem leme
p’ra dentro de todo o olvido
onde não se ama nem teme.
Ai barco que me levasse
aos tesouros conquistados
por entre esquinas de perigos
dos mil caminhos trilhados.
Ai — onde? — que me levasse
bem dentro de um vendaval…
Barco berço, barco esquife
onde tudo fosse igual.
Ai barco que me levasse
toda estendida em seu fundo!
Nesga de céu a bastar-me
toda a saudade do mundo!
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27.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Pintura de Alex Keller-Fonseca)
Lá no «Água Grande» a caminho da roça
negritas batem que batem co’a roupa na pedra.
Batem e cantam modinhas da terra.
Cantam e riem em riso de mofa
histórias contadas, arrastadas pelo vento.
Riem alto de rijo, com a roupa na pedra
e põem de branco a roupa lavada.
As crianças brincam e a água canta.
Brincam na água felizes…
Velam no capim um negrito pequenino.
E os gemidos cantados das negritas lá do rio
ficam mudos lá na hora do regresso…
Jazem quedos no regresso para a roça.
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25.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Então amainou fora da barra o temporal
Lá longe o negro batucou mais depressa
O barco de remos entrou salvo no pequeno porto
a nereida antiga saiu das ondas e cantou afinal.
Se há algum drama nessa noite, não interessa
porque uma estrela desceu do céu e no meu mar-morto
há a luz de Nossa Senhora para os que andam no mar!
A nereida ressurgida nasce a cantar
e a canção enche a terra como um eterno grito
que a voz adormecida atira a todo o mundo!
Então o náufrago quase perdido, aflito
ergueu os olhos do mais fundo do mar profundo
e do mar ao céu viu a luz do farol bendito
porque nessa hora, Nossa Senhora desceu do céu
A tragédia recomeçou talvez depois
mais trágica ainda do que antes de nós
mas nessa hora entre nós os dois
gerou-se um mundo dentro do mundo — tu e eu
ergueu-se, amor, aquela perdida Voz
e então alguma coisa nasceu!
(in «Itinerário»)
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25.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Das mentiras loucas que me envolvem
Vou quebrar os liames um a um
E da angústia da libertação
Nascerá um dia a paz
Do ser e do não ser.
Das mentiras vãs que me amordaçam
os véus arrancarei a um e um
Tristes despojos dum passado velho
que em mim se quis perpetuar.
E deixarei um rasto de desilusões;
Um caminho de lágrimas choradas;
Um pouco do que fui em cada dia.
Mas ficarei seguro e afirmado,
Com a serenidade dum Buda na floresta,
Com a nudez dum Cristo no redil.
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22.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como quem olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito uma alma grande
uma alma feita de adição
como 1 e 1 são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso
mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
Mas eu não me danei…
E muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!…
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco…
Quando amo a negra
sou negro…
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20.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
No quissange dolente
sentado à fogueira
o negro dedilha
som de maravilha
que ele bem sente
na brisa fagueira
que lhe afaga o rosto
depois do sol posto
quando na planície
os cazumbis passeiam
de sul a norte
feitiços de morte.
Embora ninguém visse
os cazumbis ondeiam
na brisa que passa
desliza e repassa
no quissange dolente
em que ele dedilha
som de maravilha
que ele bem sente.
Ai! que ele bem sente
na alma doente.
Quissange dolente
da alma da raça
contigo não se sente
o cazumbi que passa.
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20.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Poema de Natália Correia sobre Marcelo Rebelo de Sousa,
o tal que um dia concorreu a presidente da autarquia de Lisboa…
Marcelo, em cupidez municipal
de coroar-se com louros alfacinhas,
atira-se valoroso – ó bacanal! –
ao leito húmido das Tágides daninhas.
Para conquistar as Musas de Camões
lança a este, Marcelo, um desafio:
Jogou-se ao verso o épico? Ilusões!…
Bate-o Marcelo que se joga ao rio.
E em eleitorais estrofes destemidas,
do autárquico sonho, o nadador
diz que curara as ninfas poluídas
com o milagre do seu corpo em flor.
Outros prodígios – dizem – congemina:
ir aos bairros da lata e ali, sem medo,
dormir para os limpar da vil vérmina
e triunfal ficar cheio de pulguedo.
Por fim, rumo ao céu, novo Gusmão
de asa delta a fazer de passarela,
sobrevoa Lisboa o passarão
e perde a pena que é de galinhola.
in INÉDITOS 1979/91
Cancioneiro Joco-Marcelino,
POESIA COMPLETA
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17.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Pintura de Fernando Valentim)
Noites de luar no morro da Maianga.
Anda no ar uma canção de roda:
«Banana podre não tem fortuna,
fru-ta-tá, fru-ta-tá…»,
Moças namorando nos quintais de madeira;
velhas falando conversas antigas,
sentadas na esteira;
homens embebedando-se nas tabernas;
e os emigrados das ilhas…,
— os emigrados das ilhas
com o sal do mar nos cabelos,
os emigrados das ilhas
que falam de bruxedos e sereias
e tocam violão
e puxam faca nas brigas…
— Ó ingenuidade das canções infantis,
ó namoro de moças sem cuidado,
ó histórias de velhas,
ó mistérios dos homens,
— vida:
Proletários esquecendo-se nas tascas,
emigrantes que puxam faca nas brigas
e os sons do violão,
e os cânticos da Missão,
os homens,
os homens,
as tragédias dos homens.
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15.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Pintura de Norberto Geraldes)
Vi-te passar, longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante;
Ias de luto, doce toutinegra,
E o teu aspecto pesaroso e triste
Prendeu minha alma, sedutora negra;
Depois, cativa de invisível laço,
(O teu encanto, a que ninguém resiste)
Foi-te seguindo o pequenino passo
Até que o vulto gracioso e lindo
Desapareceu longe de mim, distante,
Como uma estátua de ébano ambulante.
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14.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para Josefa Brito
Por que te fechaste
à clara insinuação de carinho dos teus irmãos?
E a cada apelo respondeste evasivamente
com as belas mãos cerradas numa recusa formal?
Não vês que te queremos
e amamos sinceramente como nossa irmã mais nova
e que nos dói no sangue, na pele e na alma
fundamente
a tua inconcebível indiferença pela nossa voz fraterna?
Irmã de cabelos soltos ondulando
como seara de veludo acariciada pela nortada.
Irmã dos olhos lânguidos, magoados,
escuros como a noite amortalhando nossos destinos
por que te fechaste, Irmã morena
e preferiste deixar-nos de mãos vazias, inertes desiludidas
quando a esmola implorada
era pura e límpida como a verdade mais nua?
Vem! despojada dos erisses que te cegam.
E que foi simples timidez o teu gesto, diz-nos
para que confiemos em ti completamente
como só se confia no mesmo companheiro de cela
e não passemos por ti desconfiados, retraídos
como se fôssemos mutuamente estrangeiros
e não do mesmo sangue gordo de porquês
e não da mesma alma, angra de sofrimentos
e não do mesmo desespero, pão do nosso silêncio
e não da mesma ânsia, sede da nossa vida,
da mesma fome potente
e da mesma febre que nos coalha as veias luminosamente!
(in «O Brado Africano»)
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13.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
O Menino Negro Não Entrou na Roda
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas — as crianças brancas
que brincavam todas numa roda-viva
de canções festivas, gargalhadas francas…
O menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
— e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
E o menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus voos, cantando seus hinos…
E o menino negro não entrou na roda.
«Venha cá, pretinho, venha cá brincar»
— disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
o menino branco já não quis, não quis…
E o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar de cego,
ficou só, calado com voz de morto.
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12.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na cidade velha do Porto,
no primeiro andar de um restaurante,
a uma mesa de janela,
estava eu com o poeta português Andrade,
um homem seco com gestos de adolescente.
Comíamos tripas e bebíamos o vinho da sua terra
e falávamos um tanto timidamente
das literaturas dos nossos países e da França,
voltando sempre à revolução perdida,
enquanto lá em baixo brincavam os filhos dos pobres
e bolas de sabão voavam pela rua,
bola a bola passando pela nossa janela
e voltando sempre, a correr
contra o céu azul
até se desfazerem contra os muros
sombrios das casas.
[Tradução do alemão por João Barrento]
Poema de Wolfgang Bachler, ilustração de Jorge Pinheiro, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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10.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Da luz refém
como Antinoos cada noite
assim chorou
em Delphos
pelo demorado dia
Poema de Virgílio Alberto Vieira ilustração de Júlio Resende, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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08.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
sei de pintores que se inquietavam por
pressentirem uma relação entre a cor e a palavra,
era nos anos sessenta em s. lázaro, quando
a luz entardecia, muita gente se afadigava no
lento regresso a casa, as aves recolhiam e
eles sabiam que havia alguém para falar
das águas e das luas e da sombra
das cores, dos gestos entre as hastes e os farrapos
do silêncio, seria à mesa do café, numa
sala cheia de livros, num vão de escada a caminho
do atelier que lhe propunham essa
revisita das fontes, das perturbadas melancolias
que ele havia de dizer por palavras no papel,
mostravam-lhe os trabalhos, esperando as
justas perífrases, os ritmos em que haviam de rever
a sua fome do real nas artes da pintura.
era o cruzar das solidões comovidas: tudo
seria reescrito, portuense, partilhado
com uma densa, irisada exactidão, lá onde
umas pétalas da música começam
a partir de uma cor ou de um murmúrio,
de um rosto ou de uma nuvem,
de uma explosão do sol, de uma agonia,
era nos anos sessenta, era em s. lázaro.
Poema de Vasco Graça Moura, ilustração de Alberto Péssimo, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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06.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Criam as mãos os frutos e recolhem-nos –
Pousam na terra o ovo da ternura
Regam com riso e chuva e sol e lua
Com a paixão aquecem iluminam
Irradiante o caule rasga o perímetro
Abre-se em asa tinge-se de esperança
Revela então o coração da planta
Na flor da aliança o arco-lírio
E fecunda-se o rubro em ouro de alma
Em pomo em pedra em obra em plenitude
Da semente onde o tempo se confunde
E ternamente rola e ruge e canta –
Criam as mãos os frutos e deslumbram-se
Vertendo noutras mãos o rio de chama
Poema de Teresa Balté, ilustração de Álvaro Siza, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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06.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
“Madrigal tão engraçadinho”, para Eugénio de Andrade
A tua poesia não sua,
É líquida, confessa.
Não treme, nem tropeça.
A tua poesia é um eco da lua.
Modula na cabeça.
É uma estátua de pedra
Nua.
Poeta!
Quero bem à tua poesia.
Poema de Ruy Cinatti, ilustração de Carlos Marreiros, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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05.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tarde de Poesia. A Eugénio de Andrade
Estás sentado diante de nós
e o teu corpo soletra o amor
como um deus que não tem memória
e por isso não esquece, nem pode ser menos
do que é. As coisas e o nome que lhes deste
somam uma vida e nada divide ou subtrai
a melodia. Olho para ti com palavras que
tinha perdido e estão todas no teu corpo
a abrir quando estamos pobres e nos dão
ouvidos para a tua voz. A cadeira do tempo
está vazia. Tu preservas até o nome que
foi dado ao ar em que respiraste um amor antigo
ou o último adeus e por isso estás inteiro diante
de nós e é como se pedíssemos que guardes
o que perdemos todos os dias. Na tua voz
as coisas regressam e dói quando a luz
lhes bate nos olhos porque expulsámos a dor
do paraíso. Estás sentado diante de nós
e guardas os afectos que deitámos fora,
distraídos a separar o trigo do joio.
Terça, 15 de Fevereiro de 2000
Poema de Rosa Alice Branco, ilustração de Carlos Marreiros, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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03.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ao café de S. Paulo, quantas vezes,
Outrora fui buscar-te!
Sentíamo-nos ambos portugueses
E ocidentais, em arte.
Do Jardim de S. Lázaro chegava
Um apelo de tília e de açucena
E aquele aroma, cálido, embalava
A carne, loira num, no outro, morena.
Roma, Londres, Paris (talvez Nínive…)
Cercavam-nos então.
E aquelas ilusões
que nunca tive
Poisavam-me na mão…
Ó lucidez da nossa inconsciência!
Voz que, no azul do ar, se diluía…
– Eugénio? – Pedro. (Eugénio – a inteligência;
Pedro – o instinto).
E despontava o dia!
Teus versos eram, sempre, madrugada
Diáfana, tão pura!
E eu dizia-te adeus, de alma lavada,
Mergulhando, depois, na noite escura…
Poema de Pedro Homem de Melo, ilustração de Artur Bual, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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01.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Aprendíamos a amar, aprendíamos/a morrer
É no verão que se aprende a poesia,
disseste; e em cada um dos verões que a vida
nos traz, em que se aprende e desaprende
o mais certo, entre o amor e a morte,
que cada um tem de saber. No quintal,
onde já não existe a romãzeira da infância,
ouvindo o vento que sobe da terra, trazendo
um antigo furor de ervas e raízes; ou
no largo aberto para o tempo que foi,
e esse que há-de vir. Abro contigo o livro
branco de todos os lugares e de todos
os nomes: o livro da poesia, aprendida
com o desfolhar dos verões, enquanto
as mães se despedem da vida, e uma baça
adolescência se confunde com a névoa
de agosto. Leio devagar, como se
interpretasse, e um fogo embarcado
nos olhos enfunasse a mais obscura
das imaginações: o verso, aprendido
no leito da memória, no verão em
que se aprende a poesia, disseste.
paris, l-XI-99
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