Eugénio de Andrade – “Três negativos…”
01.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eugénio de Andrade, pseudónimo de José Fontinhas (Póvoa de Atalaia, 19 de Janeiro de 1923 — Porto, 13 de Junho de 2005). Apesar do seu enorme prestígio nacional e internacional, Eugénio de Andrade sempre viveu distanciado da chamada vida social, literária ou mundana, tendo o próprio justificado as suas raras aparições públicas com «essa debilidade do coração que é a amizade».
01.01.2016 | Produção e voz: Luís Gaspar
Três negativos e uma dissonância para Eugénio de Andrade
Não era o pampilho.
Mas ao acaso o poeta chama os amarelos da tarde, entre o silvo de dois
aviões, e o destino se cumpre das coisas. De todos, só ele ousará semear, frágeis assim de nome e de espécie,
minúsculas manchas de alegria no mais branco de seus cadernos.
Não trago ainda «A Vida das Abelhas».
Que mais fácil, pergunto, será o esquecer do que fazem em Maeterlinck
quantos enxames, que sentido têm seus sentidos? Leva-se o dia ocupado em descobrir da outra, da pequena vagabunda
italiana, a secreta receita para o fabrico do mel.
Não o de Domingos Peres das Eiras.
Através dele o rosto vem do poeta, erguido para a cidade essa que é uma
coroa dorida de navios encalhados. Já rio nenhum separa os dois rostos.
A voz a voz se juntou, e aos assaltantes um desafio apenas lançado: «Na cidade se está, se é. E nem mesmo o poema, por violento e de sangue,
detém a nortada de abril, o poeta, seu mês.»
Estas, as palavras, por aqui resvalam até o pó, pois que pó é o pó ou a luz?
Da cal de Tavira à bruma de agora encharcadas: insubmissas, ternas como
os animais de fogo. Um grito se pedia, nem de pomba nem de cabra, para que de palavra fosse,
sal da efémera palavra. E aí ficava também, nos versos do poeta. Quer dizer, neste tempo que temos: tão de fulgor, tão escasso.
Poema de Mário Cláudio, ilustração de Alfredo Luz, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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21.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
I
Adorada perua:
Há dias que, diante do patrão,
ando de rua em rua
não sei por que razão.
Como tu viste, o homem resolveu
fazermos em Lisboa a consoada,
para me divertir, suponho eu.
Porém, se adivinhasse esta estopada,
tinha-lhe dito logo que não vinha,
tanto mais, tanto mais, não vindo tu,
minha peruazinha,
por quem morre de amor o teu perú.
É para ver a terra? Não percebo,
pois mal ergo a cabeça para o ar
trabalha logo a cana do mancebo
e continuo a andar, a andar, a andar…
Às vezes lá paramos, mas estranho
também estas paragens,
porque me agarram certas personagens,
tomam-me o peso, notam-me o tamanho
e até (Deus me perdoe se ouço mal!)
discutem o valor,
como se eu fosse, amor,
uma coisa venal!
Adeus. Com isto não te enfado mais.
Havendo novidades
escrevo. Mil saudades
e beijos do
Perú dos Olivais
II
Meu anjo… Escrevo agora na cozinha
duma senhora muito delicada,
que me tem dado esplêndida papinha
assim como a criada.
Há pouco ainda (ora imagina, filha!)
deram-me até um copo de Bucelas
que me adoçou muitíssimo as goelas
e é uma verdadeira maravilha,
mas Deus queira, Deus queira
como só bebo água lá em casa,
que não me faça mal à mioleira
e que eu não fique com um grão na asa.
Amanhã te direi o que é passado.
Recebe mil bicadas cordiais
do teu apaixonado
Perú dos Olivais
III
Querida. Água a ferver… Uma panela
ao pé dum alguidar… tenho receio…
Fala-se em cabidela
e em perú de recheio…
Afia-se uma faca… Ó céus! Que horror!
O monco já me cai… Nunca supus…
Que é isto meu amor?
Ai Jesus! Ai Jesus!
Já tenho as pernas presas…
Tolda-se a vista… Engasgo-me… Agonizo…
Tremem-me as miudezas…
Turva-se-me o juízo…
Adeus: Recebe o último glu-glu
e os corais
do in… fe… liz
Pe… rú… dos O… li…vais
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21.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
No sítio mais fundo
do teu nome
fala o que não se pode dizer.
Que ninguém chame pelo teu nome,
que ninguém acorde o teu nome que
dorme.
Porque é o nome do homem
e o do menino,
o da vítima e o do assassino.
Poema de Manuel António Pina, ilustração de Emerenciano, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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14.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Há em Eugénio de Andrade
uma tensão extrema
substantivos e verbos trazem os elementos
respiração da terra no poema
a vida intensa a breve eternidade
e as sílabas do sul entre o verão e os ventos
Poema de Manuel Alegre, ilustração de Fernando Lanhas, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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11.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
A Eugénio de Andrade depois de ler “Os lugares do Lume”
Entre os lugares do lume acontecia que
a tua voz as músicas movia
e era outra paisagem de repente a
levantar-se como sarça ardente,
como se os prisioneiros da linguagem se
tornassem só lume, só passagem
e na terra que foi melancolia
ardesse a voz inteira da poesia.
(Mas nos lugares do lume que disseste
um pur si muove brilha e aparece.)
Poema de Luís Filipe Casreo Mendes, ilustração de Francisco Simões, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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10.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
… quanto mais envelheço, mais pueril é a luz mas essa vai comigo.
Nesses dias distantes eu vagueava pelas matas
enchia a espingarda de chumbo e disparava
contra o silêncio das árvores altas
só para assistir ao espectáculo dos pássaros em debandada
experimentava uma exaltação—de que tenho hoje pudor
perante imagens que partem:
fragmentos rápidos, passagens, segredos que se apagam
nesses dias distantes nem suspeitava
a vida pode ser interminável
o que deixaste abandonado regressa aprende-se depois
quando, por exemplo, a esquecida infância se parece com
certos cães deixados de propósito a muitos quilómetros que
ladram não se percebe como à porta da velha casa
Poema de José Tolentino Mendonça, ilustração de Jorge Ulisses, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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08.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
A Eugénio de Andrade, agradecendo “Até Amanhã”
Lembras-te da primeira vigília que fizeste,
à espera, trémulo, da madrugada nova?
Deu o meio-dia, tilintava o oiro, e
anoiteceu-nos como se a nossa amada
fosse a descer à cova.
Depois, tu esperaste sempre a
madrugada, mas sempre a noite paria
nados-mortos, sempre a esperança
espancada cada dia: frágil, de luz e de
cristal, a tua fé embaciou-se de
melancolia…
Mas tu esperas ainda – porque os
teus versos ainda são os do rapaz
maravilhado pela afogueada cor
duma romã.
E vem dele a saúde a quem se cruza
contigo, no branco litoral: «Até
amanhã».
Poema de José Fernandes Fafe, ilustração de Mário Botas, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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07.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para um barco moliceiro e para Eugénio de Andrade
É a hora que não consente sombras.
Dardos procuram o teu dorso, ou labaredas. Tudo
conheces da água, mas a sede é a corrente
insone que te fere e te impele.
Persistes em singrar, embora só: tua imagem não a
encontro senão em teu próprio reflexo. Porém, não
crias nunca solidão nem carência: quem te olha
decifra o esplendor do azul secreto.
Que destino, ser barco!: escrever ao magoar as
ondas com o sangue que sobre ti é o vento,
sabendo que as palavras agonizam nas sílabas
apenas brotam, e a espuma é o seu eco.
Uma noite extenuada, rente a um juncal ou um rosto,
já só tronco insubmisso, hás-de apagar-te, lento. Mas
em teu cerne o fogo que hoje te persegue continuará
a doer-nos, puríssimo, desperto.
Poema de José Bento, ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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04.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Trouxe-te um ramo de frésias (não
eram essas as flores dos jardins de
Castelo Branco?)
embrulhadas em celofane por causa do
frio Trouxe-te um ramo de frésias já
que não te podia trazer um rio
Primavera 84
Poema de Jorge de Sousa Braga, ilustração de Jorge Martins, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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03.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Esta água vesperal que sobe em ti
e escorre em regos por areias campos
de verde negro crespas cabeleiras
levando flores vai e estrias brancas
do que tão chamas cal no ardor de tê-las.
Rumor de secos ramos e de olhares,
visões que os dedos têm tocando os troncos
e os caules duros por momentos longos,
correndo vai essa água transportando-os
a um mar que ondas recurva silenciosas.
Descendo pelo tempo que o desejo
anseia seja uma demora tensa
ante um passado a dissolver-se agudo –
essa água véspera de ser-se é tarde
pousando na paisagem das palavras.
Silêncio de só gestos que elas dizem
menos que dizem lembram ou contentam
na solidão sem rosto da nudez –
esta água corre escorre pedra em pedras
e sobe em ti como ervas sobre a terra
em que ninguém nos fita ou já nos vê.
Poema de Jorge de Sena, ilustração de Júlio Resende, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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02.12.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Outrora várias vezes versos esperei
onde ficava fechada a amizade e vinham
num jogo de acalmia os instrumentos
de desenhar esse grão de penumbra. Enquanto
a casa e o corpo me protegiam.
Hoje tenho esta certeza de dizer-lhe
que nem a poesia é uma casa, nem faz senão
expor-nos ao banal num corpo já
entregue a bisturis, apenas o espera cada
cinza.
A claridade a que tento escrever-lhe
é tumefacta como um órgão ferido,
está sujeita numa cortina suja
e é à salgação da morte
que na janela adormecem os contornos.
Passámos na vida pelas nossas vidas
e, sabe que é raro, tudo esteve certo.
Agora é esperar o canto enfermo,
o banimento,
nem um abraço ficará
de nenhum de nada de nós.
Talvez nessa altura fogos presos nos
acendam em barcos as palavras,
estrondos surdos de luz cruzem a água
diante da qual por algum tempo a mão de
alguém fará lembrar esses focos da noite,
esquivos, impossíveis de tocar.
E nessas brasas de tanta cor outros
escutam o desaparecimento.
Poema de Joaquim Manuel Guimarães, ilustração de Gustavo Matos, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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30.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Naufrágio que le Prince Charmant sofreu ao tempo do
Livro de Navegações de São Brandão.
Procura ainda a vida que
podes viver quando reflecte
da floresta a sombria folha
que
no primeiro capítulo foi perdida.
Procura a proporção do que
cresce dentro e fora da casa –
o corpo,
no seu existir dia a dia
similiter tui domine
deus. Procura
a vibração do mar e da terra e
desce
na cavidade medida
o mais profundo golpe.
[Para Eugénio, o único poema que escrevi em 1999]
Poema de João Miguel Fernandes Jorge, ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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27.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Intensamente te leio e reconheço
esplendor que me religa
para sempre aos teus olhos, adâmicos
e indemnes à usura
das palavras do mundo. Nessa nudez
celebras a fuga
de um corcel travestido de cinzas
no rito do poema nascido.
Poema de Inês Lourenço, ilustração de Armando Alves, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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25.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Escutamos o Porto: os passos dados sobre lajes; vozes soltas, feridas; falas num português perdido.
Descemos da Sé para a Ribeira. Essas mulheres que gritam estão vivendo entre pedras ainda. Caminhamos no lixo. Vamos atentos à solidão das pedras, à forma destas casas que deveriam estar apodrecidas. A redução da luz conserva as suas tintas, embora mortas, vivas. Cores indecifráveis, vermelhos espessos, obscurecidos. Amparam cheiros fétidos, penumbras. E o rio resume tudo isto: mulheres lavam na água destruída: roupa, sabão e cascas de laranja; em torno, a água grande, verde e íntima.
Agua estreita, granito, como a Vila. Na Rua de Cimo de Vila começamos o caminho de Domingos Peres das Eiras. É esse o nome, o verdadeiro nome de Eugénio de Andrade? Que nos conduz na sordidez e no esplendor da Vila. Tu duca, tu segnore, e tu maestro.
Sem culto, a Igreja de São Francisco é uma gruta de talha onde se deslocam aves, as mesmas que Eugénio de Andrade vê junto ao cais, sobre barcaças negras. Depois, aquele muro branco, dele e de José Rodrigues, diverso dos muros brancos do sul, escuro, parede de uma rua onde vozes de crianças – tão exteriores ou interiores a nós, que são repentinamente as de William Blake – jogam.
E ao teu encontro vem
a grande ponte sobre o rio.
É de noite, de facto, mas não estás só. O frio sobe do Douro, a cidade expõe as suas luzes. Escutamo-nos.
Poema de Gastão Cruz, , ilustração de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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21.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
… Os meus olhos, o espírito e as mãos
pegam em cada imagem de uma flor,
em cada dia de visão e ganho. Mas a
perda, enfim, virá somar tudo igual a
si mesmo, uno, passado. E, de
repente, uma flor de palavras muito
branca chega até mim, e é esta
estação, nesse florir de goivos. Uma
carta traz-me inscrita as palavras de
Eugénio, goivos, e o seu eflúvio. Esta
transcreve-a ele de Pessanha, diante
de tão nítidos canteiros. Grata,
prendo-me a esses elos vivos da
corrente de vozes, que se oferecem aos
ouvintes, depois de recolherem o real,
o findo, o que foi amado. […]
Poema de Fiama Hasse Pais Brandão, ilustração de Lagoa Henriques, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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20.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
São coisas muito frágeis – uma sede
a transformar-se em água ou num sorriso
aberto à flor dos lábios,
a música de um corpo enquanto é verão
e sobretudo a chama de um olhar
que se entrega à primeira alegria,π
ao primeiro desejo.
Ele sabe, sempre soube que é difícil ser
fiel ao esplendor de tudo isso, à
melodia ou ao rumor do sangue. É um
segredo roubado à terra ou à infância
como se a voz dançasse.
Confidente das aves quando chegam
do sul
ou cúmplice da luz que se demora
à passagem do vento,
mal o vejo daqui
e a sombra que se move entre os seus olhos
é a lição do dia quando morre,
esse rasto de lume que o sol deixa
a arder no mar.
Poema de Fernando Pinto do Amaral, busto de José Rodrigues, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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18.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Trouxe para as névoas da cidade
o ouro dos trigais, a brancura da cal que
os mouros deixaram por herança,
como a nora que sempre deu água ao
seu moinho. Percorreu as ilhas da
história para britar a pedra, esmiuçar
os alicerces, começando a amar as
maresias, a areia suave, as luzes das
arribas, e quando o coração se lhe
partia escrevia um poema onde o sol
entrava pelos ossos, dourava a saudade
e punha as aves negras a voarem para
longe, estrelas do desgosto que as
nuvens arrastavam para fora do
horizonte. As cintilações de Setembro
reverdecem o que a memória decantou,
o mar a que a errância da memória
sempre volta. Folhas secas aparentes,
que formam um tornado luminoso que
bate à sua porta. E a porta abre-se… o
mar está ali.
Continuando a homenagem a Eugénio de Andrade por outros poetas… Poema de Egito Gonçalves, ilustração de Lagoa Henriques, ambos retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL, coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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16.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
A delicadeza tinha ainda outras teclas
que nós não conhecíamos
E era a paixão também de subtil intensidade
a sensualidade pura
entre veios de melancolia e o fulgor da cal
E os versos levantavam-se como hastes de um azul-claro
ou fulvos e vermelhos como pequenos frutos
envolvidos ainda pela areia das dunas
Neles o mar ressoava mas como um astro de veludo
e o claro clamor do silêncio do meio-dia
Cada verso vibrava numa perfeita melodia
que era sempre de um corpo branco e nu
e tão vegetal na sua indolência oferecida
que se sentia a sede dos seus poros
e o seu sopro de apaixonada melancolia adolescente.
Era Junho ou Setembro mas sempre um mar de pálpebras
perpassando na luz de um mundo recém-aberto
e nas sílabas de um verde-claro
Enquanto caminhava ao longo de um muro antigo
numa vereda silvestre ouvia-se o rumor de uma
pequena nascente, e os versos crepitavam como vimes
acesos e abriam as minúsculas corolas da sua ténue
transparência ou deslizavam como cisnes entre o júbilo e
a melancolia como se o mundo fosse o delicado esvoaçar
de um adolescente aéreo com um torso de trigo e o seu
hálito de cravo e o odor do seu púbis azul
Poema retirado do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA, com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. O autor do poema de hoje é António Ramos Rosa e a ilustração de Augusto Gomes.
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12.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
a Eugénio de Andrade
O rosto entreaberto
pela madrugada, o
rebanho, a alada
fulguração.
O lábio tão perto do
silêncio; o calmo
balanço do tálamo; e a
canção.
Domínio obscuro
como o berço, como o
primeiro pomo, como
o alto mar.
A mão quer o duro
caroço; a semente quer
o corpo ausente; quero
louvar
o gesto perfeito na
página branca, o
duende, a dança no
precipício,
o cardo no peito, a voz
no princípio: a leve, a
difícil colheita no ar.
Londres, 1973
Poema recolhido do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. a ilustração deste poema é de Laureano Ribatua.
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09.11.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cheguei e perguntei
pelo grito do granito.
Rigor obstinado, era o
que ele dizia. Ele, o
homem do sul, e
persistia.
Deita uma palavra ao mar.
Exemplo: rio.
Abandona outra: vento, ao próprio vento.
Mas se o quiseres escutar
é melhor deixares
lá fora
o teu lamento.
“Aproximações a Eugénio de Andrade”, editado pela ASA com o patrocínio a BIAL. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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18.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Conheces as palavras que amanhecem
na sombra quase lancinantes
e vegetais brancas com um leve rumor
de pulso tão próximas do mar
Doem-te as estrelas nas obscuras portas
ou na garganta da terra ou ainda nos ombros
do dia limpo Quase preciosas
têm a elegância da água e um segredo de espuma
Há nelas sempre o perfume que desce do crepúsculo das colinas
Têm o torso leve o peito aéreo e um branco aroma
e sabem a cal e a limão e a madeira verde
Não são sonhos mas é sempre a sede ou o amor
que rompe a pedra
ou ainda a solidão que busca a última estrela
Procuras sempre a luz e no sonho te acendes
e na luz germina a tua sombra
No fulgor das vogais ou já no seio da terra
encontras a alegria e o abandono das águas
Onde a chama canta paciente e alta
é o leve círculo o último e o primeiro
onde a luz desenha a inocência da nudez
Poema de António Ramos Rosa e ilustração de Carlos Carneiro retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. Patrocínio da BIAL.
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16.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Poema de António Osório e ilustração de Júlio Pomar.
O que de seu tem,
o que tem de mais belo
é grego ou toscano.
A mesma forma
infrangível
de receber as nuvens,
alegria
de estar na terra lavrada,
de tê-la entre as mãos
friável,
de encontrar um corpo na noite.
O mesmo gosto de água soterrada, a mesma paixão pela vida.
Obstinada.
10 de Dezembro de 1972
Poema de António Osório e ilustração de Júlio Pomar retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade”, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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13.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Bom dia, Eugénio.
Cocteau dizia que há homens de coração de diamante que apenas reagem ao fogo e a outros diamantes e negligenciam o resto. É junto destas raras vocações de sarça ardente que me sinto em família, o que equivale a explicar que quase sempre estou só. Mas não posso queixar-me: os acasos da vida ou o facto de navegar, por instinto, na direcção certa, fizeram que encontrasse, de longe em longe, Açores e Madeiras no vazio das ondas, Wolfram Schútte, Marisa Blanco, Eugénio de Andrade, vulcões de camaradagem exigente e limpa, ilhas fraternas de rigorosa ternura, abrigos de pedra suave onde encostar a inquietação da febre, pessoas que nos reconciliam com a noite mais escura da alma de que Scott escrevia, por dela nos trazerem vestígios da manhã. E é de Eugénio de Andrade que falo hoje, perpétua varanda de basalto em chamas de frente para o mar.
Chamam-lhe o amigo mais íntimo do sol: de acordo, se o sol for obstinado e severo. Chamam-lhe poeta: de acordo, se as palavras nos trazem notícia da veemência do sangue. Chamam-lhe difícil: de acordo, se notarem a bondade de menino na pomba do sorriso que de tempos a tempos acende os passos seus e os nossos e nos mostra a única vereda que caminha a direito, macieiras fora, na direcção do rio. Não conheço ninguém com gestos tão longos e com uma tão aguda inteligência da alma. Onde poisa a atenção do ouvido tudo se torna búzio. Onde descansa os dedos tudo se torna gato comedido e atento. Onde os olhos lhe nascem aprendemos com ele o intransigente júbilo do mundo. E no entanto que geografia de dor no país do seu rosto, que discreção no sofrimento, que impiedosa dignidade medida em cada sílaba. A total ausência de vaidade do seu orgulho foi o que, ao encontrá-lo pela primeira vez, mais profundamente me comoveu. José Cardoso Pires, que não tinha a admiração fácil, contou-me do poema que Eugénio de
Andrade compôs na morte de José Dias Coelho, quando os heróis retrospectivos se calavam de medo nos anos de alcatrão sujo da ditadura. Não um panfleto, não um manifesto, não um grito: apenas a serena voz de um homem falando de outro homem, fitando-nos da sua altura terrena e, por consequência, desmedida. Um dos seus livros intitula-se “Rente ao Dizer” e esse rente ao dizer, despido do que não é corpo, devolve-nos a nós mesmos na condição de bichos sublimes em que nas páginas que acede a publicar nos tornamos.
Ainda que em guerra Eugénio reconcilia-nos connosco ao deixar entrever os degraus que nos faltam subir para estarmos lá em baixo, no lugar que é o nosso, manchados da comovida urina e dos líquidos obscuros que nos protegem ao nascer e nos esperam, na sombra da morte, a fim de nos ajudarem a partir, pobres criaturas mudas vestidas de ranho e de poeira celeste. Para além da amizade que nele é dura e nobre, isto lhe devo também: o retrato da minha condição e a certeza de que algo para além de mim continuará nos seus versos, seja pássaro, nuvem ou laranja madura. Escrevi um dia que quando o coração se fecha faz mais barulho que uma porta. Não imagina como lhe agradeço, Eugénio, que o seu se mantenha calado num vigilante desvelo, convidando-me a entrar onde uma máscara de bronze nos aguarda para ficar connosco, naquela sala aberta rumo às palmeiras da Foz.
9.12.1999
Outro texto dedicado a Eugénio de Andrade, por António Lobo Antunes com ilustração de Carlos Carneiro. Texto e imagem retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves. Patrocínio da BIAL.
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09.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nesse dominado obscuro me perdi
tão dominado em sombra e claridade
Que bom sorver os frutos e as raízes
eternos e perfeitos sem idade
Nascem da terra e é como se de uma pomba
do ar viesse: e rouba-lhe sementes
que vai lançar no mar em sol e som
e onde ligeiros barcos nas correntes
singram velozes tais as nuvens puras
que um terno vento azul impele empurra
E lá no fundo audaz onde maior
o mar conduz o seu mistério ao alto
surge o amor: a contemplar a cor
que lhe define o seu domínio intacto
Poema de António Salvado e ilustração de Martins Correia retirados do livro “Aproximações a Eugénio de Andrade, das Edições ASA. Coordenação de José da Cruz Santos e Direção gráfica de Armando Alves.
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07.10.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Textos e imagens retiradas da obra “Aproximações a Eugénio de Andrade”, editada pela ASA, com coordenação de José da Cruz Santos e direção gráfica de Armando Alves. Patrocínio da Bial
Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas ê sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.
No teu rosto começa a madrugada.
luz abrindo,
de rosa em rosa,
transparente e molhada.
Melodia
distante mas segura;
irrompendo da terra,
quente, redonda, madura.
Mar imenso,
praia deserta, horizontal e calma.
Sabor agreste.
Rosto da minha alma.
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10.06.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não é o tempo magoado
da tua ausência
Não é o vento percorrendo
o meu corpo solitário
Não são as palavras que sibilam baixinho
no meu pensamento
Não é o cheiro de maresia
nos meus cabelos revoltos
Não é o orvalho que sinto escorrer
pelo rosto embaciando-me o olhar.
É o tempo das manhãs claras.
Da gargalhada solta.
Das tuas mãos nas minhas.
Da tua voz sussurrante na minha boca.
Da magia que me empurra para ti.
São estes momentos que me fazem falta.
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03.06.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quanto mais envelhecia,
quanto mais insípidas me pareciam as pequenas satisfações que a vida me dava,
tanto mais claramente compreendia onde eu deveria procurar a fonte das alegrias da vida.
Aprendi que ser amado não é nada, enquanto amar é tudo (…).
O dinheiro não era nada, o poder não era nada.
Vi tanta gente que tinha dinheiro e poder, e mesmo assim era infeliz.
A beleza não era nada.
Vi homens e mulheres belos, infelizes, apesar da sua beleza.
Também a saúde não contava tanto assim.
Cada um tem a saúde que sente.
Havia doentes cheios de vontade de viver e havia sadios que definhavam
angustiados pelo medo de sofrer.
A felicidade é amor, só isto.
Feliz é quem sabe amar.
Feliz é quem pode amar muito.
Mas amar e desejar não é a mesma coisa.
O amor é o desejo que atingiu a sabedoria.
O amor não quer possuir.
O amor quer somente amar.
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27.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
João Soares Coelho (1200-1278) foi um Rico-homem e cavaleiro medieval do Reino de Portugal e do conselho real do rei D. Afonso III.
Foi senhor do senhorio da vila de Souto de Riba-Homem por doação régia datada de 1254. Foi como Rico Homem e cavaleiro que acompanhou o Rei D. Afonso III de Portugal nas guerras que este monarca travou para a conquista do Algarve, particularmente em 1249. Foi por esses serviços que o rei lhe fez couto da Quinta do Souto em 1254.
O poema “Luzia Sanchez”, é um típico exemplo da Poesia Medieval Portuguesa e foi gravado para o livro eletrónico “Coletânia de Poesia Portuguesa – I Volume”, disponível aqui: https://itunes.apple.com/pt/book/coletanea-poesia-portuguesa/id554261638?mt=11
Luzia Sánchez, estais em grande falta
comigo, que nom fodo mais nada senão
uma vez; e, pois fodo, se Deus me valer
fique disso afrontado bem por três dias.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.
Vejo-vos deitar comigo muito defraudada,
Luzia Sánchez, porque não fodo nada;
mas se eu com isso vos satisfizesse,
pois eu foder não posso, peidar-vos-ia.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.
Deu-me o Demo esta pissuça cativa,
que já nem pode cuspir saíva
e, de certo, parece mais morta que viva,
e se lh’ardess’a casa, não s’ergueria.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.
Deitaram-vos comigo para mal dos meus pecados;
pensais de mi coisas tão desconcertadas,
cuidais dos colhões, que tragu’inchados,
porque o são com foder e é com doenças
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.
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26.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eis o centro do corpo
o nosso centro
onde os dedos escorregam devagar
e logo tornam onde nesse
centro
os dedos esfregam – correm
e voltam sem cessar
e então são os meus
já os teus dedos
e são meus dedos
já a tua boca
que vai sorvendo os lábios
dessa boca
que manipulo – conduzo
pensando em tua boca
Ardência funda
planta em movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde
E todo o corpo
é esse movimento
que trepa e fende fundidas
já no tempo
calando o grito nos pulmões da tarde
E todo o corpo
é esse movimento
em torno
em volta
no centro desses lábios
que a febre toma
engrossa
e vai cedendo a pouco e pouco
nos dedos e na palma
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25.05.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar
Cecília, és libérrima e exacta
Como a concha.
Mas a concha é excessiva matéria,
E a matéria mata.
Cecília, és tão forte e tão frágil
Como a onda ao termo da luta.
Mas a onda é água que afoga:
Tu, não, és enxuta.
Cecília, és, como o ar,
Diáfana, diáfana.
Mas o ar tem limites:
Tu, quem te pode limitar?
Definição:
Concha, mas de orelha;
Água, mas de lágrimas;
Ar com sentimento.
– Brisa, viração
Da asa de uma abelha.
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