David Mourão-Ferreira – “E por vezes”
24.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
David de Jesus Mourão-Ferreira (24 de Fevereiro de 1927 — 16 de Junho de 1996) foi um escritor e poeta lisboeta licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1951, onde mais tarde, em 1957, foi professor, tendo-se destacado como um dos grandes poetas contemporâneos do Século XX.
24.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
E por vezes as noites duram meses E por
vezes os meses oceanos E por vezes os
braços que apertamos nunca mais são os
mesmos E por vezes
encontramos de nós em poucos meses o
que a noite nos fez em muitos anos E por
vezes fingimos que lembramos E por
vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos só o
sarro das noites não dos meses lá no
fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah e por vezes
num segundo se evolam tantos anos
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09.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
conheço um poeta
que diz que não sabe se a fome dos outros
é fome de comer
ou se é só fome de sobremesa alheia.
a mim o que me espanta
não é a sua ignorância:
pois estou habituado a que os poetas saibam muito de si
e pouco ou nada dos outros.
o que me espanta
é a distinção que ele faz:
como se a fome da sobremesa alheia
não fosse
fome de comer
também.
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09.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
não tussa madame
reprima a tosse
não espirre madame
reprima o espirro
não soluce madame
reprima o soluço
não cante madame
reprima o canto
não arrote madame
reprima o arroto
não cague madame
reprima a merda
e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?
ok, monsieur.
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06.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
O pequeno filho-da-puta
é sempre
um pequeno filho-da-puta;
mas não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho-da-puta.
no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
Grandes e filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos,diz ainda
o pequeno filho-da-puta.
o pequeno
filho-da-puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho-da-puta.
no entanto,
o pequeno filho-da-puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho-da-puta.
todos os grandes
filhos-da-puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
dentro do
pequeno filho-da-puta
estão em ideia
todos os grandes filhos-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho-da-puta,
diz o pequeno filho-da-puta.
o pequeno filho-da-puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho-da-puta.
é o pequenofilho-da-puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho-da-puta,
diz o
pequeno filho-da-puta.
de resto,
o pequeno filho-da-puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho-da-puta:
o pequeno filho-da-puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho-da-puta,
e não há filho-da-puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
no entanto,
há filhos-da-puta
que já nascem grandes
e filhos-da-puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho-da-puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho-da-puta.
por isso
o grande filho-da-puta
tem orgulho em ser
o grande filho-da-puta.
todos
os pequenos filhos-da-puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho-da-puta,
diz o grande filho-da-puta.
dentro do
grande filho-da-puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos-da-puta,
diz o
grande filho-da-puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos-da-puta,
diz
o grande filho-da-puta.
o grande filho-da-puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho-da-puta.
é o grande filho-da-puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho-da-puta,
diz o
grande filho-da-puta.
de resto,
o grande filho-da-puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho-da-puta:
o grande filho-da-puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho-da-puta.
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06.05.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deixai-os vir a mim, os que lidaram;
Deixai-os vir a mim, os que padecem;
E os que cheios de mágoa e tédio encaram
As próprias obras vãs, de que escarnecem…
Em mim, os Sofrimentos que não saram,
Paixão, Dúvida e Mal, se desvanecem.
As torrentes da Dor, que nunca param,
Como num mar, em mim desaparecem. –
Assim a Morte diz. Verbo velado,
Silencioso intérprete sagrado
Das cousas invisíveis, muda e fria,
É, na sua mudez, mais retumbante
Que o clamoroso mar; mais rutilante,
Na sua noite, do que a luz do dia.
Antero de Quental, in “Sonetos”
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24.04.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
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02.04.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
Quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales
—
Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
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27.03.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
se conseguires entrar em casa e
alguém estiver em fogo na tua cama
e a sombra duma cidade surgir na cera do soalho
e do tecto cair uma chuva brilhante
contínua e miudinha – não te assustes
são os teus antepassados que por um momento se
levantaram da inércia dos séculos e vêm visitar-te
diz-lhes que vives junto ao mar onde
zarpam navios carregados com medos
do fim do mundo – diz-lhes que se consumiu
a morada de uma vida inteira e pede-lhes
para murmurarem uma última canção para os olhos
e adormece sem lágrimas – com eles no chão
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27.03.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu não sei muitas coisas, é verdade.
Apenas falo do que tenho visto.
E já vi:
que o berço do homem o embalam com histórias,
que os gritos de angústia do homem os afogam com histórias,
que o pranto do homem o tapam com histórias,
que os ossos do homem os enterram com histórias,
e que o medo do homem…
inventou todas as histórias.
Sei muito poucas coisas, é verdade,
mas adormeceram-me com todas as histórias…
e sei todas as histórias.
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20.03.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Toques de telemóvel (ringtones) podem ser adquiridos, grátis, na Loja da Raposa.
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15.03.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não me pergunte o que não sei,
porque só sei daquilo que vivo
e vivo sem saber o porquê.
Não me ame como se eu fosse a única,
pois em mim vivem várias,
a pura,
a puta,
a filha,
a mãe,
e em nenhuma delas sou verdadeiramente eu.
Não tente me entender,
não compreendo meus passos,
apenas caminho,
e tiro de cada gota de vida
o que preciso para viver.
Não me odeie,
pois a linha que separa
o ódio da paixão,
é tênue demais,
e a paixão é fogo que não queima,
mas consome aos poucos o amor.
Não pense em mais nada !
Cala tua boca na minha
e viva em mim os teus desejos.
No meu hoje não existe amanhã.
A noite já se vai tão alta…
Não preciso saber mais nada.
Nunca saberei.
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14.03.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Dum lado os bonzinhos
com o seu ar sisudo
andando aos passinhos
dentro do veludo.
Do outro os malvados
cabelos ao vento
de fatos coçados
por bom e mau tempo.
Dum lado os bonzinhos
gordinhos, gulosos
comendo pratinhos
muito apetitosos.
Do outro os malvados
a ferrar o dente
em grandes bocados
de chouriço ardente.
Dum lado os bonzinhos
com muito cuidado
a dar beijinhos
com dia aprazado.
Do outro os malvados
a fazer amor
sem dias marcados
com frio ou calor.
Dum lado os bonzinhos
muito estudiosos
dizendo versinhos
em salões ranhosos.
Do outro os malvados
gritando na rua
que os braços estão dados
que a esperança está nua.
Dum lado os bonzinhos
metidos na cama
tomando chazinhos
molhando o pijama.
Do outro os malvados
os que dormem nus
sonhando acordados
com feixes de luz.
Dum lado os bonzinhos
batendo nos tectos
sempre que os vizinhos
são mais incorrectos.
Do outro os malvados
que fazem barulho
despreocupados
ao som do vasculho.
Teremos por certo
os gostos trocados
detesto os bonzinhos
adoro os malvados.
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
A tua voz é um néctar que eu bebo bem devagarzinho… Melodia doce que me embala, levando meu pensamento por caminhos nunca desvendados. Não quero teu corpo, nem teu amor! Viajo no espaço, de olhos fechados, escutando o som doce e envolvente da tua voz, que desperta em mim todos os sentidos e me faz sonhar inarráveis loucuras. Penetras no mais profundo do meu mundo e ocupas todos os vazios. São minutos de prazer e imaginação, quando te ouço… Não preciso falar, muito menos te permitir saber o que sinto. És a fuga errada de um caminho sempre certo, a revolta calada da igual rotina, o segredo escondido na minha vontade que não podes alterar. Eu só quero a tua voz no meu pensamento, dentro da minha vida, por minutos, por horas, por tempo indefinido, o que isso importa? Nada deve ser mudado, nada deve ser dito! Te amo sem amar e te quero sem querer, misto de uma estranha paixão com sabor ao maior e mais gostoso pecado, irreal e passageiro que não merece nome, prisioneiro invisível da minha mente. Proibido e incógnito, te dou o direito de existir dentro de Mim, mas nunca te libertarei para fora do meu misterioso mundo, para não existir a possibilidade de sermos Nós…
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Jogo através do vento, as dúvidas secretas do meu destino e como sombra sorrateira, procuro nelas a sina escrita do meu amor. Atravesso a ilusão da eternidade e descubro que a labareda ardente que nos consumia, não me queima mais. Metamorfose lenta e imperceptível de um sentimento quente embalado nos braços de uma amizade morna, que o reduziu a uma pequena brasa que agora agoniza chorando dentro do meu peito. Sopro com força a brasa incolor que ruboriza tímida, sem ter a certeza se quer acender. No espelho da alma, a saudade me culpa o coração inconstante de vontade rebelde que não sabe amar. Olhando o teu rosto, mergulho neste sentimento tépido e questiono o porquê da minha quente paixão ter-se esvaecido no balanço monótono do tempo. Sobressalto o meu coração para acordá-lo, mas é tarde demais e me rendo sem luta a esse sono profundo de um sentimento morno a que o condenei!
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
A minha mão percorre deslizando, a pele bronzeada pelo sol. Desenha riscos imaginários que deliciam teu corpo moreno e aquecem meu desejo de mulher. Escultura esbelta e quente, que povoa meus sonhos e os transforma em filme colorido exibido só para mim. Teus olhos brilham, mergulhando no fogo ardente dos meus, aumentando a labareda alta do prazer! O teu perfume, que conheço sem precisar te ver, acorda todos os meus sentidos, ao deixar transbordar a vontade de te possuir. Meu corpo estremece numa entrega total, se abandonando ao sabor louco e selvagem de sensações incontáveis que nunca serão iguais. Sou presa fácil e espontânea de um comando que vem de ti, numa voz macia e rouca, que me fala em silêncio, com a força de um grito! Minutos de êxtase, pedacinhos soltos de sedução, que escreverão na memória, uma folha de vida para não mais esquecer. Tatuagem profunda que rasgou a minha pele, marcando para sempre meu corpo com o teu amor!
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Embriago-me com o néctar do teu corpo nu! Como num cálice valioso, encosto os lábios quentes e sorvo aos poucos, bem devagar, o sabor tão doce que se desprende de ti. Permito sem lutar, que os efeitos etílicos se espalhem sem pudor por todos os meus inebriados sentidos. Perdida no lascivo mergulho…e já bêbada de ti, em êxtase, prisioneira e algoz, te uso e me entrego a esse mágico encantamento de uma insidiosa e desmedida paixão, que transforma o vermelho do meu sangue no precioso néctar que roubo de ti.
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Chiiiiuu… Não fales, somente escuta… Escuta o silêncio que se desprende dos olhares, dos gestos disfarçados, das palavras não ditas. Escuta os sentimentos que não necessitam de som para serem ouvidos. Afasta a errónea ideia de que o certo é o que foi estabelecido por outros, que assim seria. Entrega-te sem reservas ao que as batidas do teu coração sussurram docemente. Grita como desabafo no alto de um monte e permite que a brisa morna carregue no seio os teus segredos. A seguir fecha os olhos, abstrai-te e mentaliza um mundo invisível de mistério, onde todos os problemas têm um final feliz. Escuta o teu espírito livre das correntes do corpo e deixa que ele voe pelos campos da vida. Não o amarres, nem dês a ninguém o poder de fazê-lo. Escuta os pássaros, que na sua sabedoria não falam, atravessam a vida cantando… Permite que a gargalhada ecoe na claridade do teu dia, apesar da opressão do escuro da noite anterior. Acredita, acredita sempre que tudo é possível, até que o impossível bata na porta e entre sem ser convidado. Chora quando for preciso, com a condição de que essas lágrimas limpem e vertam até extinguir todo o sofrimento em cada gota. …Mas acima de tudo ….não fales agora, somente escuta….
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13.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Coloca tua mão sobre a minha cabeça, afaga meus cabelos e conta-me uma história bonita com final feliz. Sussurra-me no ouvido uma doce música de ninar até o sono se aproximar de mansinho. Afasta para bem longe o lobo mau e todos os outros vilões que teimam em atormentar a minha vida. Faz com que o amor desenhado no teu sorriso puro, seja a bandeira da nossa antiga história. Sê meu príncipe encantado, montado num cavalo branco, bramindo uma espada que brilha à luz do sol e ofusca com valentia as minhas dúvidas e medos. Não permitas que a sombra se esgueire pelo labirinto da claridade dos meus sentimentos. Defende-me de todos os males e agruras… Defende-me principalmente de mim!!
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10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Longínquas paragens irás sozinho
Nas tuas asas pairo, sou penas e sou garras
Que finco em teus flancos de aventuras…
Estarei presente em todos os suspiros, olhares
Amores, parte da tua carne que devoro
E em fino mármore se transforma
Quando em ti penso e te envolvo em meu abraço!
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10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Só mais uma vez esta emoção
Que acelera o passo e faz bater mais rápido
No peito…o coração!
Que o mundo adoça e traz essa imensa alegria
Como sinos festivos nos ouvidos
Rosas no regaço
E pura doçura de amar o mundo!
Só mais uma vez esse olhar
Que cruza o teu e te abrasa
Vertigem dourada e amor que abraças
Tão leve e jovem, sem idade nem conta
O espaço é tua pertença o mundo espera
E o teu amado sussurra no vento breve
A brisa que passa e te afaga o rosto!
Esquecer tudo e ser apenas o sorriso
Essa chama breve que marca
O começo…e o fim do mundo!
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10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não sou. Sinto-me, sem corpo rósea fímbria
De pensamento que suspira. Entre ais e enfado
Burilado por insatisfeitos desejos
Que sinto e toco, na redonda forma de teus seios
Enrugados no prazer que te adivinha, quando te penso
Construindo a tua mão que me agarra
Naufraga de sonhos e desencontros
Que sinto e sofro neste casulo sozinha!
Esta casa de sombras e de medos
Como caderno de segredos
Dia a dia junto e escrevo
Me desenho e decoro, lição marcada
Por um mestre que me castiga
Quando omito…
Viver é obrigação que carrego, goste ou não
Pergunto-me o que faço nesta hora
Em que sentir está lá fora… e não sei se vai entrar!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando me abres assim os teus braços
E eu entro na tua alma tudo se rejuvenesce.
É assim, o amor, são os laços
É o calor que cresce.
E quando tu vens assim, calma, maravilhosa
Devias saber
Seres a minha alma
Sem o saber!
Quando eu te abro assim os meus braços
E entras na minha alma, tudo resplandece.
É assim a paixão, os abraços,
É a paixão que cresce.
E quando eu vou assim, devagar,
Sei que sou a tua alma,
Sem o saber!
Quando nos envolvemos assim,
E as nossas almas se encontram,
Nascem estrelas no céu,
Nasce música no ar,
Nasce a sensação
De que afinal,
estamos a
Amar!!!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Paixão é arder o coração.
No frio ter calor,
Na noite ver-te assim, num clarão,
No peito sentir essa dor!
Paixão é sentir um calor,
Um arrepio, uma emoção,
Pensar que é dor
Olhar-te e perder a Razão!
Paixão é o que sinto,
Quando vens num abraço,
E nisso não minto,
És o meu embaraço.
Paixão, é querer contente,
Um alegre, um triste,
Quando a saudade se sente,
Como quando tu partiste.
Paixão é assim uma flor,
Que cresce rapidamente
E não vai, não fica,
Mas nos marca,
E fica em nós,
Profundamente!
.
Paixão é uma escuro,
um clarão!!!
Paixão é um sim,
ou um não!!!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
E tu vieste assim…
Devagar, lentamente, como uma folha
Que cai devagar, com medo de tocar o chão!
E assim me despertaste, como a aragem da manhã,
E me envolveste nos teus braços
E tu vieste assim,
Como quem quer sentir somente o calor
De chegar a casa e descansar
Nos braços de alguém!
E tu vieste assim,
Como quem
Quer um lar
Para o coração!
E ficaste, em mim!
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03.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
“¿Y si Dios fuera una mujer?”
Juan Gelman
E se Deus fosse uma mulher?
Indaga Juan sem pestanejar
Ora, ora se Deus fosse mulher
É possível que agnósticos e ateus
Não disséssemos não com a cabeça
E disséssemos sim com as entranhas
Talvez nos aproximássemos de sua divina nudez
Para beijar seus pés não de bronze,
Seu púbis não de pedra,
Seus peitos não de mármore,
Seus lábios não de gesso.
Se Deus fosse mulher a abraçaríamos
Para arrancá-la de sua distância
E não haveria que jurar
Até que a morte nos separe
Já que seria imortal por antonomásia
E em vez de transmitir-nos Aids ou pânico
Nos contaminaria de sua imortalidade
Se Deus fosse mulher não se instalaria
Solitária no reino dos céus
Mas nos aguardaria no saguão do inferno
Com seus braços não cerrados,
Sua rosa não de plástico,
E seu amor não de anjo
Ai meu Deus, meu Deus
Se até sempre e desde sempre
Fosses uma mulher
Que belo escândalo seria,
Que afortunada, esplêndida, impossível,
Prodigiosa blasfêmia!
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo
que te despedaça os ombros e te verga para a terra,
deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio,
sobre as verdes ervas duma vala,
na solidão morna do teu quarto,
tu acordares
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio,
a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu,
a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunta-lhes que horas são:
São horas de te embriagares!
Para não seres como os escravos martirizados do tempo,
embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Certa tarde no Monte Sinai,
Moisés escrevia as sete tábuas,
E veio um velho com um cordeiro ao pescoço,
Que Moisés não conhecia.
E o velho falou-lhe:
“Porque escreves na lama mesquinha?”
E Moisés disse-lhe:
“Porque tudo o que é mesquinho,
“Deve atrofiar, como a palavra “deve”,
“E depois sucumbir.
“E o barro a que chamas mesquinho,
“Permite fazer leis que duram cinco mil anos.”
E o velho retorquiu:
“Não escrevas isso, pratica-o,
“E impõe pecados mortais.
“Porque senão vão rir-se de ti, e não te ouvem.”
E Moisés praticou-o,
E pôs o povo todo a rir, mas logo o aplacou?
Não! Partiu as tábuas,
E desobedeceu a Deus por cinco mil anos.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que espuma são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.
Se eu ao menos soubesse por que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátári vibrante de corneta.
Se eu soubesse o que são, por que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desalinho,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deram-te um nome.
Um homem tem de ter um nome:
João ou Pedro ou Manuel.
À pedra damos nome de pedra
que o é antes da pedra
e a si se basta.
Às flores chamamos flores,
o nome próprio que lhes dá a cor.
Um homem tem de ter um nome:
José ou Mário ou António,
para caminhar dentro dele.
Quando pegas na pedra,
pensas no nome pedra
e ele te diz da sua substância.
Quando cheiras a flor,
pensas o nome flor
e é ele que te inunda.
Quando olhas um homem,
Afonso ou Jorge ou Joaquim,
vês o seu nome,
a sua marca de água,
o oceano onde navegará
até ao fim do medo.
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
É ser capaz de abraçar a tranquilidade do por de sol que me deste.
Aparto-me do corpo,
Abandonando a voz num grácil descanso.
Eu sou o teu silêncio.
Sente,
Devagar…
Como me enleio pela tua imaginação,
Como se de ti fizesse parte.
Dela,
Não te separarias por nada!
E porque a saberias fina,
Delicada,
Qual folha de papel de arroz,
Apartar-te-ias do corpo,
Abandonando a voz num não menos dócil emudecimento…
E assim,
Incorpóreos,
Existiríamos!
Seríamos de quando em vez
Movimento,
De quando em vez
Tacteio leve…
Era assim que nos víamos,
Quando no céu deste lugar
Nos contámos do que iríamos fazer,
Quando por fim nos encontrássemos!
Estamos juntos…
Acendamos a magia deste momento
E sob a luz doce que dela imana,
Vamos emocionar-nos,
Vamos tocamo-nos sem nos tocar,
Causando com que a pergunta que nos fizemos,
Se deite,
E adormeça, feliz.
Vamos ser a certeza de nos termos,
Deitando fora a distancia,
Saboreando o prazer de ver a resposta acordar
Espalhando-se por nós,
Tornando-se na nossa pele,
Tal como este por de sol que vem aquecer-nos,
Depondo no parapeito do desejo
A certeza de que o amanhã é agora
Tão certo,
Tão vivo,
Tão quente,
E tão só nosso!
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