Nota biográfica

Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, (São Martinho de Anta, 12 de Agosto de 1907 — Coimbra, 17 de Janeiro de 1995) foi um dos mais importantes poetas e escritores portugueses do século XX. Destacou-se como poeta, contista e memorialista, mas escreveu também romances, peças de teatro e ensaios.

“A largada”, poema de Miguel Torga.

25.01.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Foram então as ânsias e os pinhais
Transformados em frágeis caravelas
Que partiam guiadas por sinais
Duma agulha inquieta como elas…

Foram então abraços repetidos
À Pátria-Mãe-Viúva que ficava
Na areia fria aos gritos e aos gemidos
Pela morte dos filhos que beijava.

Foram então as velas enfunadas
Por um sopro viril de reacção
Às palavras cansadas
Que se ouviam no cais dessa ilusão.

Foram então as horas no convés
Do grande sonho que mandava ser
Cada homem tão firme nos seus pés
Que a nau tremesse sem ninguém tremer.

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“Abdicação”, poema de Fernando Pessoa.

24.01.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços

E chama-me teu filho.
Eu sou um rei

Que voluntariamente abandonei

O meu trono de sonhos e cansaços.
Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mãos viris e calmas entreguei,

E meu ceptro e coroa – eu os deixei 

Na antecâmara, feitos em pedaços.

Minha cota de malha, tão inútil, 

Minhas esporas, de um tinir tão fútil, 

Deixei-as pela fria escadaria.
Despi a realeza, corpo e alma,

E regressei à noite antiga e calma

Como a paisagem ao morrer do dia.

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“Dói-me quem sou” de Fernando Pessoa.

21.01.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dói-me quem sou. E em meio da emoção
Ergue a fronte de torre um pensamento
É como se na imensa solidão
De uma alma a sós consigo, o coração
Tivesse cérebro e conhecimento.

Numa amargura artificial consisto,
Fiel a qualquer ideia que não sei,
Como um fingido cortesão me visto
Dos trajes majestosos em que existo
Para a presença artificial do rei.

Sim, tudo é sonhar quanto sou e quero.
Tudo das mãos caídas se deixou.
Braços dispersos, desolado espero.
Mendigo pelo fim do desespero,
Que quis pedir esmola e não ousou.

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“Não tenho ambições nem desejos”, de Fernando Pessoa.

20.01.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não tenho ambições nem desejos.

ser poeta não é uma ambição minha.

É a minha maneira de estar sozinho. 



Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz

E corre um silêncio pela erva fora.



Porque quem ama nunca sabe o que ama

Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar…



Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo…

Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,

Porque eu sou do tamanho do que vejo

E não do tamanho da minha altura…



A mim ensinou-me tudo.

Ensinou-me a olhar para as coisas.

Aponta-me todas as coisas que há nas flores.

Mostra-me como as pedras são engraçadas

Quando a gente as tem na mão

E olha devagar para elas.

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“Fotografia”, poema de Adélia Prado.

19.01.2022 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando minha mãe posou

para este que foi seu único retrato,

mal consentiu em ter as têmporas curvas.

Contudo, há um desejo de beleza no seu rosto

que uma doutrina dura fez contido.

A boca é conspícua,

mas as orelhas se mostram.

O vestido é preto e fechado.

O temor de Deus circunda seu semblante,

como cadeia. Luminosa. Mas cadeia.

Seria um retrato triste

se não visse em seus olhos um jardim.

Não daqui. Mas jardim.



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“Um pouco mais”, poema de Casimiro de Brito.

22.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Esta manhã não lavei os olhos –
pensei em ti.

Se o teu ouvido se fechou à minha boca
poderei escrever ainda poemas de amor?
A arte de amar não me serve para nada.

Um fogo em luz transformado.
Subitamente, a sombra.

Há dias em que morro de amor.
Nos outros, de tão desamado,
morro um pouco mais.

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“Não canto porque sonho”, poema de Eugénio de Andrade.

21.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não canto porque sonho.
Canto porque és real.
Canto o teu olhar maduro,
o teu sorriso puro,
a tua graça animal.


Canto porque sou homem.
Se não cantasse seria
o mesmo bicho sadio
embriagado na alegria
da tua vinha sem vinho.


Canto porque o amor apetece.
Porque o feno amadurece
nos teus braços deslumbrados.
Porque o meu corpo estremece
por vê-los nus e suados.

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“Hoje proíbo”, poema de José Gomes Ferreira.

20.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Hoje proíbo as rosas de nascerem diante de mim!
Proíbo as deusas de dançarem nos olhos das crianças
proíbo os corpos das mulheres de terem outro destino
que a morte!

Sim, proíbo!
E (baixinho, em sonho) aos gritos no mundo
ordeno aos homens
que venham para a rua descalços
para sentirem nos pés nus
o silêncio da terra
e o terror de viverem num planeta
onde os fuzilados não ressuscitam,
nem os malmequeres protestam com flores de luto
contra este sol que continua a fabricar primaveras mecânicas
e este cheiro tão bom a mulheres novas nas árvores com cio!


Em memória das vítimas do massacre do cemitério de Santa Cruz, em Timor.

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“Bagagens”, poema de Adélia Prado.

17.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Uma noite de lua pálida e gerânios

ele viria com boca e mãos incríveis

tocar flauta no jardim.

Estou no começo do meu desespero

e só vejo dois caminhos:

ou viro doida ou santa.

Eu que rejeito e exprobro

o que não for natural como sangue e veias

descubro que estou chorando todo dia,

os cabelos entristecidos,

a pele assaltada de indecisão.

Quando ele vier, porque é certo que vem,

de que modo vou chegar ao balcão sem juventude?

A lua, os gerânios e ele serão os mesmos

— só a mulher entre as coisas envelhece.

De que modo vou abrir a janela, se não for doida?

Como a fecharei, se não for santa?

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“O camarim”, poema de Gonçalves Crespo.

16.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

A luz do sol afaga docemente
As bordadas cortinas de escumilha;
Penetrantes aromas de baunilha
Ondulam pelo tépido ambiente.

Sobre a estante do piano reluzente
Repousa a Norma, e ao lado uma quadrilha;
E do leito francês nas colchas brilha
De um cão de raça o olhar inteligente.

Ao pé das longas vestes, descuidadas
Dormem nos arabescos do tapete
Duas leves botinas delicadas.

Sobre a mesa emurchece um ramalhete,
E entre um leque e as luvas perfumadas
Cintila um caprichoso bracelete.


Publicado no livro Miniaturas (1871).

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“Não saibas, imagina”, poema de Miguel Torga.

15.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não saibas: imagina…
Deixa falar o mestre, e devaneia…
A velhice é que sabe, e apenas sabe
Que o mar não cabe
Na poça que a inocência abre na areia.
Sonha!
Inventa um alfabeto
De ilusões…
Um á-bê-cê secreto
Que soletres à margem das lições…
Voa pela janela
De encontro a qualquer sol que te sorria!
Asas? Não são precisas:
Vais ao colo das brisas,
Aias da fantasia…

“Instrução Primária”, Poema de Miguel Torga, in Diário IX

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“Está envenenada a terra”, poema de Eduardo Galeano.

14.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Está envenenada a terra que nos enterra ou desterra.

Já não há ar, só desar.

Já não há chuva, só chuva ácida.

Vista do crepúsculo no final do século



Já não há parques, só parkings.

Já não há sociedades, só sociedades anónimas.

Empresas em lugar de nações.

Consumidores em lugar de cidadãos.

Aglomerações em lugar de cidades.

Não há pessoas. Só públicos.

Não há visões. Só televisões.

Para elogiar uma flor, diz-se: “parece de plástico”.

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“Noites Gélidas”, poema de Cesário Verde.

13.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,

Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada, 

Mais alva que o luar de Inverno que me esfria,

Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,

Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,

Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia

De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

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“Sonho”, poema de Luís Castro Mendes.

11.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Numa casa de vidro te sonhei.

Numa casa de vidro me esperavas.

Num poço ou num cristal me debrucei.

Só no teu rosto a morte me alcançava
.

De quem a morte, por terror de mim?

De quem o infinito que faltava?

Numa casa de vidro vi meu fim.

Numa casa de vidro me esperavas.


Numa casa de vidro as persianas

desciam lentamente e em seu lugar

a noite abria o escuro das entranhas

e o teu rosto morria devagar.


Numa casa de vidro te sonhei.

Numa casa de vidro me esperavas.

Fiz do teu corpo sonho e não olhei

nas palavras a morte que guardavas.


Descemos devagar as persianas,

deixámos que o amor nos corroesse

o íntimo da casa e as estranhas

cerimónias do dia que adoece.


Numa casa de vidro. Num espelho.

Na memória, por vezes amargura,

por vezes riso falso de tão velho,

cantar da sombra sobre a selva escura.


Numa casa de vidro te sonhei.

No vazio dessa casa me esperavas.

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“Resposta”, poema de Luís Filipe Castro Mendes.

10.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sim, andei por fora,
por vezes não reconheço as ruas da minha cidade
e há rostos que me envelhecem o coração.
Mas não tenho dúvidas, não precisa de fazer perguntas,
de ficar atento aos meus mínimos movimentos,
de esboçar por dentro de si o desenho
daquilo a que chama a minha alma.
Os comboios param em estações abandonadas, noite dentro,
e nós saímos, passageiros estremunhados e engelhados pelo frio
para cidades desconhecidas, belas e desertas
como todo o tempo que passou.
Sim, eu sei que estava a fugir ao assunto.
Importa-se de repetir a sua pergunta?

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“Árvore em fogo” poema de Berthold Brecht.

09.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na ténue névoa vermelha da noite

Víamos as chamas, rubras, oblíquas

Batendo em ondas contra o céu escuro.

No campo em morna quietude

Crepitando

Queimava uma árvore.

Para cima estendiam-se os ramos, de medo estarrecidos

Negros, rodeados de centelhas

De chuva vermelha.

Através da névoa rebentava o fogo.

Apavorantes dançavam as folhas secas

Selvagens, jubilantes, para cair como cinzas

Zombando, em volta do velho tronco.

Mas tranquila, iluminando forte a noite

Como um gigante cansado à beira da morte

Nobre, porém, em sua miséria

Erguia-se a árvore em fogo.

E subitamente estira os ramos negros, rijos

A chama púrpura a percorre inteira

Por um instante fica erguida contra o céu escuro

E então, rodeada de centelhas

Desaba.

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“Que importa?…”, poema de Florbela Espanca.

08.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu era a desdenhosa, a indif’rente. 

Nunca sentira em mim o coração

Bater em violências de paixão 

Como bate no peito à outra gente.

Agora, olhas-me tu altivamente.

Sem sombra de Desejo ou de emoção, 

Enquanto a asa loira da ilusão

Dentro em mim se desdobra a um sol nascente.

Minh’alma, a pedra, transformou-se em fonte;

Como nascida em carinhoso monte

Toda ela é riso, e é frescura, e graça!

Nela refresca a boca um só instante…

Que importa?… Se o cansado viandante 

Bebe em todas as fontes… quando passa?…

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“Mea Culpa”, poema de Antero de Quental.

07.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não duvido que o mundo no seu eixo
Gire suspenso e volva em harmonia;
Que o homem suba e vá da noite ao dia,
E o homem vá subindo insecto o seixo.

Não chamo a Deus tirano, nem me queixo,
Nem chamo ao céu da vida noite fria;
Não chamo à existência hora sombria;
Acaso, à ordem; nem à lei desleixo.



A Natureza é minha mãe ainda.
É minha mãe… Ah, se eu à face linda
Não sei sorrir: se estou desesperado;

Se nada há que me aqueça esta frieza;
Se estou cheio de fel e de tristeza…
É de crer que só eu seja o culpado!


Antero de Quental, in “Sonetos”

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“Ofício”, poema de Gastão Cruz.

03.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Os poemas que não fiz não os fiz porque estava
dando ao meu corpo aquela espécie de alma
que não pôde a poesia nunca dar-lhe


Os poemas que fiz só os fiz porque estava
pedindo ao corpo aquela espécie de alma
que somente a poesia pode dar-lhe


Assim devolve o corpo a poesia
que se confunde com o duro sopro
de quem está vivo e às vezes não respira.


– Gastão Cruz, em “Escarpas”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2010.

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“Livro do Desassossego – Fragmento” de Bernardo Soares.

02.12.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

O cansaço de todas as ilusões e de tudo que
há nas ilusões – a perda delas, a inutilidade de
as ter, o antecansaço de ter que as ter para
perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha
intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
A consciência da inconsciência da vida é o
mais antigo imposto à inteligência. Há
inteligências inconscientes – brilhos do
espírito, correntes do entendimento, mistérios
e filosofias – que têm o mesmo automatismo
que os reflexos corpóreos, que a gestão que o
fígado e os rins fazem de suas secreções.

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“Cabo da Roca”, poema de Mário Castrim.

30.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deste ponto do hotel vê-se qualquer coisa

que logo desde o início se entendeu

não poder ser outra coisa além do Cabo da Roca.

Daqui donde estou se vê que o Cabo é

perfeitamente ocidental o mais

ocidental possível.



Mais do que ele, só os nossos olhos.
Eles, para quem a terra não acaba nunca.

Eles, que tocam o ponto exacto onde

um sol de fogo prova que ela é redonda.
A única diferença é o farol. Mas se fores tu

de noite a olhar o mar, os barcos

podem ir à confiança.
Obrigado, Alice.

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“Andar? Não me custa nada.” poema de Natália Correia-

29.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Andar? Não me custa nada!…
Mas estes passos que dou
Vão alongando uma estrada
Que nem sequer começou.
Andar na noite?! Que importa?…
Não lenho medo da noite
Nem medo de me cansar;
Mas na estrada em que vou.
Passo sempre a mesma porta…
E começo a acreditar
No mau feitiço da estrada:
Que se ela não começou
Também não foi acabada!
Só sei que, neste destino,
Vou atrás do que não sei.
E já me sinto cansada
Dos passos que nunca dei.

em “Rio de Nuvens”

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“Poema para iludir a vida”, poema de Fernando Namora.

26.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tudo na vida está em esquecer o dia que passa.
Não importa que hoje seja qualquer coisa triste,
um cedro, areias, raízes,
ou asa de anjo
caída num paul.
O navio que passou além da barra
já não lembra a barra.
Tu o olhas nas estranhas águas que ele há-de sulcar
e nas estranhas gentes que o esperam em estranhos portos.

Hoje corre-te um rio dos olhos
e dos olhos arrancas limos e morcegos.
Ah, mas a tua vitória está em saber que não é hoje o fim

e que há certezas, firmes e belas,
que nem os olhos vesgos
podem negar.
Hoje é o dia de amanhã.

Fernando Namora, in “Mar de Sargaços”

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“Um fado palavras minhas”, poema de Pedro Támen.

25.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Palavras que disseste e já não dizes
palavras como um sol que me queimava,
olhos loucos de um vento que soprava
em olhos que eram meus e mais felizes
Palavras que disseste e que diziam
segredos que eram lentas madrugadas
promessas imperfeitas, murmuradas
enquanto os nossos beijos permitiam
Palavras que dizias ,sem sentido,
sem as quereres, mas só porque eram elas
que traziam a calma das estrelas
à noite que assomava ao meu ouvido
Palavras que não dizes, nem são tuas,
que morreram, que em ti já não existem
– que são minhas, só minhas, pois persistem
na memória que arrasto pelas ruas

” Antologia Provisória”, ed. 1983

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“Horas Mortas”, poema de Florbela Espanca.

24.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Horas mortas… Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido… e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não choreis! Olhai e vede:
– Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!

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“Larva”, poema de Herberto Hélder

23.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pelo tempo chamado do Outono,
quando a beleza é mais oculta e calma
e na face das coisas pesa o sono
das águas do desejo, fecho a alma
e fico sem estrelas e sem nome.
Humilde, vou tecendo meu destino
futuro de palavras e de fome.
Nesse tempo do Outono meu latino
esplendor é uma cinza paciente.
Meu espírito, um lago verde. Quente,
porém, a gota que leveda ao fundo
do silêncio. Depois serei o Dia,
e com poemas e sangue e alegria
nascerei, incontido, sobre o mundo!…

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“Lua Adversa”, poema de Cecília Meireles.

22.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho fases, como a lua,
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua…
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha.
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua…).
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua…
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu…

Cecília Meireles , in ‘Vaga Música’

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“Linha para um retrato…”, poema de Eduíno de Jesus.

19.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Este poema é das saudades e do sol-posto.

E da procissão do Senhor, de colchas nas varandas.

E de quando eu tinha as mãos postas

que a minha mãe veio e me pôs umas asas brancas.



E das horas gastas esperando o teu regresso.

E das idas clandestinas e do caminho andado.

E da janela, aberta para os muros, que enchia

de sombras as recordações do meu quarto.


Este poema é dos vidros partidos

pelas pedras que atirei aos meus amigos

nos combates havidos nas travessas.


E da chuva que caiu nas colchas das varandas.

E das mãos que vieram tirar-me as asas brancas.

E dos olhos de minha mãe, quando eu parti para 
longes terras…

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“Os Gatos”, poema de Manuel António Pina.

18.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um deus único e secreto
em cada gato inconcreto
governando um mundo efémero
onde estamos de passagem
Um deus que nos hospeda
nos seus vastos aposentos
de nervos, ausências, pressentimentos,
e de longe nos observa
Somos intrusos, bárbaros amigáveis
e compassivo o deus
permite que o sirvamos
e a ilusão de que o tocamos

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“Ladainha dos póstumos Natais” de David Mourão-Ferreira.

17.11.2021 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito

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