Nota biográfica

Nasceu no Porto, no dia 21 de Setembro de 1974. Licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

José Rui Teixeira – “A morte é azul…”

29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A morte é azul como o solstício de inverno.
Dizes: não hei-de sobreviver ao incêndio
dos celeiros. Mas nunca soubeste o nome
dos lírios nem o rumor que precede o dilúvio
no interior do teu ventre.

In “Para Morrer”
(Nocturnos, Parte 1)

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Paula Raposo – “Carta de paixão”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Escrevo-te:
mais uma carta de paixão.
Conto-te do desejo,
do incontornável calor
do teu corpo e do meu,
da saudade vincada de ti,
da cama, do suor, do orgasmo.
É: uma carta de paixão
(esta), a que te escrevo,
com palavras que escorrem
no envelope.
Vem hoje;
para que eu me venha, também.

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Paula Raposo – “Aquece”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não deixes arrefecer,
aproveita a imaginação
e no vento frio,
que nos gela,
aquece comigo a noite.
Deixa que a madrugada
regresse a casa
e o calor se faça sentir,
como a memória,
agora ausente,
do que fomos;
nas entranhas
os únicos sobreviventes.

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Paula Raposo – “Atrasos”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sempre olhavas o relógio
E as horas marcadas
Para estar em casa
Quando começava
A despir-me
Olhavas-me cobiçoso
E tocavas-me
Onde sabias
As horas ficavam para trás
(Mas nunca te atrasavas
Em casa)
Atrasavas-te só em mim
No reboliço
Em que deixávamos
Metade de nós

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Paula Raposo – “Canção do amor”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gosto das canções de amor
Embaladas na tua voz
Como se a música
Chovesse prateada
Em torno do meu corpo
Emudecido
Gosto de te ouvir
Nas canções de amor
Que a tua vida não calou
E que cantas ainda
Sob um feixe de luz
Na madrugada aquecida
De um quarto de hotel
Adormeces-me em desvario
Quando assim me embalas
E a chuva é prateada
E o vento se torna poema
Na tua canção de amor.

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Paula Raposo – “O Tempo Errado”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tanta palavra dita e redita
Esquecida e magoada
Falada no silêncio
Fechada no tempo
De não ser nada.
Palavras repetidas
Como se fossem verdade
Como se as quisesse ouvir
Só para que a minha voz
Ecoe e eu a escute
Para que as palavras
Sejam as da minha solidão
As da minha vontade
Aquelas que se entregam
Sem troca alguma.
Ditas e reditas
Enterradas no dia
Do tempo errado…

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Pedro Tamen – “Arca de Noé”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pronto, pronto, eu faço. Dá um trabalhão
mas faço. Corto madeira, arranjo pregos,
gasto o martelo. E o pior também:
correr o mundo a recolher os bichos, 
coisas de nada como formigas magras,
e os outros, os grandes, os que mordem
e rugem. E sei lá quantos são!
Em que assados me pões. Tu
gastaste seis dias, e eu nunca mais acabo.
Andar por esse mundo, a pé enxuto ainda,
a escolher os melhores, os de melhor saúde,
que o mundo que tu queres não há-de nascer torto.
Um por um, e por uma, é claro, é aos pares
– o espaço que isso ocupa.

Mas não é ser carpinteiro,
não é ser caminheiro,
não é ser marinheiro o que mais me inquieta.
Nem é poder esquecer
a pulga, o ornitorrinco.
O que mais me inquieta, Senhor,
é não ter a certeza,
ou mais ter a certeza de não valer a pena,
é partir já vencido para outro mundo igual.
 
(Analogia e Dedos, 2006)

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Pedro Tamen – “Íamos à Barca”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Íamos à Barca. Não que navegasse:
descia lentamente até ao rio
toda milho e marulhar de pássaros.
Lá perto as pedras recebiam
carícias de água fria coruscante
e verde. O sol crescia.
Não que navegasse: era campo
de pão bordado de latadas.
Vamos à Barca, dizia o meu avô.
E o tempo não tinha dimensão,
ou se a tinha não a tem agora:
foto quadrada a preto
e baço. Onde espreita porém
o brilho agudo que me pergunta ainda
se o que não esquece é fogo
quando aquece, mas que se apaga logo.

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Renata Correia Botelho – “a mesa…”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

a mesa está posta de ervas
para dois, esperam-nos
melros e canteiros.

no jardim, sabem que fomos
com o musgo, com os grilos,
para o colo da terra,

somos agora parte
da primavera, nunca estivemos

tão chegados ao mundo

tão dentro de casa.

(in Revista de Poesia “Telhados de Vidro” n.º2 – Maio 2004)

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Renata Correia Botelho – “Arqueiro”

27.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

em quantas dores se reparte
um corpo, o espaço
húmido de boca a boca,
centro exacto do fim
para onde apontas
a seta

és o teu arqueiro.

(in Revista de Poesia “Telhados de Vidro” n.º2 – Maio 2004)

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Ruy Belo – “Vat 69”

25.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

vat_69

Era depois da morte herberto helder
Ia fazer três anos que morreramos
três anos dia a dia descontados no relógio
da torre que de sombra nos cobriu a infância:
rodas no adro, gira a borboleta que se atira ao ar
o jogo do berlinde o trinta e um pedradas
nas cabeças nos ninhos nas vidraças
Foi quando verdadeiramente começou
a conspiração dos líquenes cabelos e avencas
na mina onde molhámos nossos jovens pés
e tirámos retratos pra morrer mais uma vez
Os nossos filhos “nós outra vez crianças”
comiam e gostavam das laranjas essas mesmas laranjas
que mordemos em tempos ao chegar nas férias de natal
no quintal que as máximas mãos deixaram já depois abandonado
Era a seguir à morte meu poeta
era na meninice havia festa e na sala da entrada
pensávamos na morte “nunca mais” pela primeira vez
Trincávamos cheirávamos maçãs no muro sobre a praia
roubávamos o balde ou íamos atrás do homem dos robertos
Era nas férias havia o mar e íamos à missa
ouvíamos a campainha e o padre voltava-se pra nós
“orate fartes” ou íamos ao cemitério apesar do catitinha
Era depois da morte sobre a plana infância
o primeiro natal o cheiro do jornal
lido na adega ou na casa do forno
sentados pensativos sobre a terra húmida
Era na infância o sol caía enquanto água corria
entre os pés de feijão e os buracos de toupeiras
calcados prontamente pelas botas
soprava o vento e vinha a moinha da eira
o cão comia o bolo e morria debaixo da figueira
e teria sepultura com enterro e cruz e muitas flores
Havia casamentos o meu pai falava
e os noivos deitavam-nos confeitos das carroças
E os registos mistério tempo da prenhez
Era talvez no outono havia asma
havia a festa da azeitona havia os fritos
ao domingo havia os bêbados estendidos pelas ruas
havia tanta coisa no outono havia o cristovam pavia
Era a primavera o rio rápido subia
os barcos navegavam entre a vinha
e alastrava a sombra e a tarde adensava-se
num espesso e branco nevoeiro de algodão
noite dos candeeiros sombras nas paredes
e minha mãe pegava na espingarda ia à janela
e ouvia-se o chumbo no telhado lá ao longe
O leovigildo o marcolino o sítio do miguel
a sesta a monda das mulheres
a queda do bizarro exposto na igreja
isso e o almoço a saber mal
quando vinham da escola pra saber significados
Eram as despedidas de coelhos e galinhas antes das viagens
Eram as festas era o roubo dos melões
era a menstruação oculta da criada
Era talvez em tempos de tormenta
havia ferros entre a palha por baixo da galinha
que chocava os ovos dentro de um velho cesto
eram as nossas casas em adobe
e era o carnaval os bailes os cortejos
Íamos para a praia e eu lia camilo
ouvia o mar bater sem conseguir compreender
como podia estar ali se tinha estado noutro sítio
Era o tempo dos primeiros amores
eu via o pavão, adoecia e só muito mais tarde lia
o trecho que me competia entre as amadas raparigas
A casa não ficava muito longe dos montes
não havia a cidade nem os outros
punham ainda em causa o meu reino de deus
senhor de tudo o que depois não tive
Era depois da morte ou era antes da morte?
Mas haveria a morte verdadeiramente?
Lia o paulo e virgínia chorava e perguntava
se tudo aquilo tinha acontecido
Era o meu pai era esse sonhador incorrigível
sem nunca mais saber que havia de fazer dos dias
Eram as folhas novas eram os perdigotos
saídos não há muito ainda da casca
Era era tanta coisa
Seria realmente após a morte, herberto helder?

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Palavras 159 – “Em memória…”

23.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um “Palavras de Ouro” dedicado à memória que não se quer perdida dos atores António Silva, Vasco Santana e dos homens da rádio Igrejas Caeiro e Carlos Pinto Coelho. Memória a partir do trabalho de divulgação de Álvaro José Ferreira.

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Daniel Camacho – “Beijo”

22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um beijo despe a valentia,
afasta o medo que há em nós,
vagueia no desejo ardente que nos guia
que nos tira os pés do chão
e nos dá um nó na voz.

Um beijo afaga a alma incompleta
ampara as margens adormecidas na dor
penetra o íntimo amor que desperta
na pétala vadia de uma flor.

Um beijo rompe as ruas desertas
amansa o olhar que chora incerto
lambe as pingas da chuva e cava no pensamento
que rouba tempo ao tempo.

Um beijo adoça o vento leve que nos cobre o rosto
acorda a noite perdida de desgosto
e algures no meio do nada,
rompe uma estrada.

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Daniel Camacho – “Máscaras”

22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Prefiro fingir que não vi o fim da humanidade,
esconder-me no sonho desumano de máscaras idolatradas,
perder-me no vento que sinto soprar em cada esquina da cidade,
naquele silêncio que se ilude e se arrasta pelos muros do disfarce
como que fingindo não sentir as dementes vertigens
que jorram sufocadas nos peitos virgens,
nos cemitérios urbanos que choram ironias aos soluços
e temem a morte que a mente humana um dia desenhou.
Prefiro balançar noutra sala mais selvagem,
suspender-me sob um feixe luminoso de esperança
num desafio carpido no prisma oculto de uma noite que se cansa
e que adormece o olhar lançado sobre o mar e suas chamas de cora
gem.
Prefiro vencer o ódio que tresanda em cada roupa,
em cada boca…louca,
e suspender os medos que passeiam nas ruas eternas do amanhã
aos empurrões, sem descanso, repetidamente a toda a hora no ecrã…
…que se diz mágico, dia após dia,
sempre que algo trágico principia!
Prefiro colocar a máscara e murmurar por gestos,
para não ferir o lado ignorante e inocente
desta ilusão que cabe na minha mão cheia de restos
escondidos numa fresta de caminhos rectos e pedras firmes.

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Arnaldo Fonseca – “Que linda canção…”

22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que linda canção o mar está cantando
Bela melodia, correndo no ar
Parei um bocado e pus-me escutando
E sobre o penedo que eu estava pisando
Penedo de sonhos de histórias passadas
Ali fiquei, e pus-me pensando e pus-me a sonhar
Pensei na Rainha Isabel que aqui veio chorar
As mágoas que o Rei D. Diniz tanto a fez sofrer
Pensei em outras Rainhas que sem terem coroas
Tanto aqui choraram… tanto aqui passaram
Só para eu as ver.
Penedo da Saudade de sonhos vividos
De sonhos passados
Abre-me os teus braços, deixa-me ficar
E tu ó farol que estás a meu lado
Vai me iluminando para eu me guiar.

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Cruz e Sousa – “Naufrágios”

22.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
O Mar! O mar! Quem nunca viajasse…
Quem nunca dentre dúvidas sentisse
O coração e aí, nunca embarcasse…
Oh! quem do mar as cóleras punisse!

Ora o mar e sereno, e calmo, e manso,
As vagas são melódicos arpejos
Dando à embarcação leve balanço,
Como um afago maternal de beijos.

Ora o mar franco, livre e transparente,
Tão tranquilo que está, tão brando, rindo,
Que até parece, que até cuida a gente
Que os corações podem boiar, dormindo.

Ora ferve, rebenta, estoura, estala,
Rude, feroz, em convulsões; profundo,
Abrindo a corpos pavorosa vala
E mundos de agonia num só mundo!

II
Filho! Filho! Adeus, querido,
Vou viajar para além,
Sejas de Deus protegido…
Que sempre me queiras bem.

Vou deixar-te nesta terra,
Entregue aos destinos teus;
Filho, o que este adeus encerra
Só o pode saber Deus.

Levo as crenças em pedaços,
Como pedaços de céus.
Vou ver mar, vou ver espaços
Ver temporais, escarcéus.

Filho amado, vou deixar-te
Cá na terra, pelo mar;
Porem, crê, de qualquer parte,
Crê, meu filho, hei-de voltar.

III
Adeus, noiva, vou-me embora,
Vou-me com Deus, é preciso.
Que colhas em cada aurora
Muita messe de sorriso.

Sou soldado, o meu destino
É viver bem longe, é certo,
Longe do canto divino
Da tua voz, sol aberto.

Custa bem esta partida
A mim que entanto sou forte.
Ninguém sabe o que é a vida
Para quem vive da morte.

Da morte, sim, pomba amada;
Que as minhas crenças já mortas
Tu, com essa alma estrelada
Nem tu sequer me confortas.

Perdi pai, perdi carinhos
De mãe, de irmãos e de todos.
Eu sou como a flor de espinhos
Nascida por entre lodos.

Tu vieste, ó noiva, apenas,
Como um íris de esperanças,
Dar-me alvoradas serenas,
Encher-me de confianças.

Só em ti confio, espero
Com ardor, com fé veemente,
Pomba de luz que eu venero,
Doce Vésper do Oriente.

Adeus, pois chegou a hora,
Vou-me com Deus, minha filha;
Não chores, que o mar não chora:
Olha, vê que canta e brilha.

IV
Adeus, esposa estremosa,
Vou-me, não sei para quando
Voltar minh’alma saudosa
Por meus filhos vai chorando.

Ficam-te eles no entretanto
Pra tirarem-te os pesares,
Para enxugarem-te o pranto
Que há de ser maior que os mares.

Maior que os mares, não minto,
Não exagero tão pouco,
Porque ai, só tu e só eu sinto
O nosso amor como é louco.

Vou-me às viagens, aos dias
Passados entre horizontes
E mares e ventanias
Sem arvoredos, sem montes.

Os dias de céus eternos
E de mar ilimitado,
Com tempo de atroz infernos
Com tempo de sol doirado.

Adeus! Cá dentro do peito
Há dois corações unidos;
Sobre um o mar tem direito,
Sobre outro os filhos queridos.

V
Eis as canções e adeuses de saudade
Que as desgraçadas almas palpitantes
Soluçam na sombria imensidade
Desta vida de angústias lacerantes.

Ao mar! Ao mar! Frescas aragens puras
Afiam nas ondas maviosamente.
Que balada de plácidas venturas,
Que sinfonias, que gemer dolente!

Os céus abertos, claros, luminosos
Lembram a candidez branda das virgens.
Vítreos ares, magníficos, radiosos
Onde o sol arde em férvidas vertigens.

Lindíssimos painéis, bela paisagem
Abre na vista do viajante o ouro
Da luz que salta como uma homenagem
De oriental, esplêndido tesouro.

Vai bem, vai muito bem, mesmo, o navio.
As vagas desenrolam-se de leve.
Parece um berço por de sobre um rio
Manso, prateado, espúmeo, cor de neve.

Vive-se a bordo como em terra. As vagas
Nunca foram tão doces e tão meigas,
Como em desertas, viridentes plagas
É doce e meigo o mole chão das veigas.

Viver assim, na realidade, é gozo
Que até parece não haver na terra!
Tão belo é o mar, tão calmo e bonançoso,
Tal confiança nos semblantes erra!

Vogando assim a embarcação, quem pensa
Ir acordado afora pela Vida?!
Tudo é um sonho de esperança imensa
Um bom sonho de aurora indefinida.

VI
Súbito os ares enchem se de noite
E grita e zune, zargunchando o vento
Que esbraveja, morde com rijo acoite
O mar que espuma e empola num momento.

Não estrugem os raios pela treva
Não há trovões bravios rebentando
Como canhões que estouram, mas se eleva
Do oceano um vendaval que vai urrando

Com fúrias e com cóleras enormes
Como potros sanhudos relinchando
Em pinotes e berros desconformes.

Caiu talvez no mar o etéreo espaço,
Toda a cúpula azul tombou, quem sabe?
Céus! há lutas ali, de braço a braço.
Horror! Crível será que o mundo acabe?

Ninguém calcula o que será tudo isso…
Mas os ventos eléctricos, largados
Nas amplidões do mar antes submisso,
Rugindo vão como desesperados.

Deus, ó meu Deus, todas as bocas gritam,
E se afervora mais e mais a crença.
Mas, onde os astros muita vez palpitam
No céu, há noite cada vez mais densa.

Ah! que mudez de túmulo nos ares.
Nada responde, oh! nada então responde;
Mas onde está o grande Deus dos mares
E da terra, onde está, aonde, aonde?

Tudo está mudo a natureza inteira,
Tudo emudece e não responde nada;
E só os vendavais têm a maneira
De responder dando uma gargalhada.

Gargalhada de lágrimas atrozes,
De lágrimas de morte e de agonia
Que abafa e extingue na garganta as vozes,
Gera a coragem que é a luz do dia.

Ó valentes e rudes marinheiros
Vindos da pátria para pátria nova,
Que sepultais amores verdadeiros
Do tão profundo coração na cova;

Ó viajantes de longe, de países
Onde a vida cintila e canta alerta
Como um turbilhão de aves felizes
Numa campina de rosais, deserta;

Ó vós todos que vindes lá do oceano,
Entre as mais bruscas e hórridas tormentas.
Lá do mar, alto, a vela, a todo o pano,
Com as almas ansiosas e sedentas,

De chegar cedo ao porto desejado,
Calculai, calculai o quanto é triste
Ver dar à praia um pobre desgraçado
Em cuja carne a podridão existe!

À praia! À praia! Dai à praia, morto,
Rejeitado por ondas convulsivas,
Indo encontrar na sepultura o porto,
Deixando ao mundo as ilusões mais vivas.

O eterno amor de mãe, de filho, esposa,
Tanta fé, tanto riso de alegria,
Tanta coisa dourada, ai tanta coisa
Que ao recordar toda a nossa alma esfria.

Morrer no mar, os nervos contraídos,
Numa asfixia atroz, cerrando os dentes,
Num abismo de cores e gemidos,
De maldições e de uivos de descrentes;

Morrer no mar, sem o farol amigo,
Esse farol que os náufragos anima,
Fora de protecção, fora de abrigo,
Sem sequer uma luz no espaço, em cima;

Morrer no mar, sem astros no infinito,
Na solidão das águas, fria, imensa,
Enquanto a treva aura de granito,
Ri se de tudo, com indiferença;

Morrer no mar, só e desamparado
E num terror que não acaba nunca,
Vendo rasgar o corpo enregelado
O desespero como garra adunca.

É horrível! Bem sei! Mas ai daqueles
Que morrem mesmo assim lá no mar fundo
Sem ter alguém que ao menos neste mundo
Derrame uma só lágrima por eles!

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Manuel Gusmão – “Havia Séculos”

21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Havia séculos
e eram florestas sobre florestas escritas.
O canto cantava: era o incêndio do vento

folheando a memória da terra

    essa maranha de raízes aéreas que nasciam enterrando
mais fundo as árvores anteriores;
    essa teia nocturna de troncos e lianas, de ramos e folhas,
nervuras que os versos enervam irrespiráveis;
    esse mapa em relevo lavrado pela paciência da luz
que atrasando-se recorta
    estas estranhas esculturas do tempo:
os poemas selvagens

o máximo excesso de uma rosa aquática e frágil
sempre a nascer desfiladeiros
e falésias, fendas, quebradas, ravinas
vulcões que deflagram em écrans sucessivos

Havia séculos
e o cinema dos astros
acendia ampolas e bagas, campânulas, cápsulas, lâmpadas;
punha em música a infinita noite dos versos que longamente
escutam
aqueles que muito antes ou muito depois vieram ou virão
até estes anfiteatros que os desertos invadem.

Havia séculos
e / atravessando as ruínas dessa terra quente, as páginas
de água dessa rosa alucinada / havia esse:
o comum de nós que dos seus se dividindo, verso
a verso, procura ainda alguém. E assim
era de novo o início.

A grande migração das imagens — havia séculos —
desde há muito começara, desde sempre, já.
E sem cessar migrávamos nós, inquietos e perdidos

sem paz e sem lei, sem amos nem destino.

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Manuel Gusmão – “Música num espelho longe”

21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O espelho está lá mas ninguém lá está
É uma cena deserta. O piano e a estante de música
estão vazios; são contornos da sombra
Do lado direito de quem olha daqui, há
uma ampla porta-janela que dava para
uma varanda que daria para uma selva imaginada.

A música que ouves não vem desta sala
Nasce e vem do maciço de árvores escuras
que brilham mais no escuro da noite ultramarina.
Vem do mar que está depois da selva que
está a seguir às árvores de um parque
que é uma memória de pedra que já começou a ruir.

É uma música poderosa mas lenta; feroz e densa
e voraz; selvagem mas não primitiva.
Nos arredores do império, num condomínio
colonial antigo e novíssimo, podes pela música
que sem resgate os dissolveu imaginá-los. Fora
pouco antes de desaparecerem

Eram já extremos conspiradores sem conspiração,
de si mesmo exilados, perdida a juventude,
perdidos dessa selva em que teriam sido feras
e fora já a sua própria memória. A maturidade
apodreceu-nos como uma floresta que se desfaz
na água nostálgica do desejo. A música

essa música num espelho longe foi o que sobrou
fala de um crime passional em que ninguém afinal
morreu, de um segredo partilhado e sem sentido
que ouves uma vez mais nessa voz abafada ou
rouca – como se diz? – nessa voz que te transporta
a essa cena deserta onde nunca terás estado.

No espelho longe num oriente extremo não podes ver-te:
não é a tua história; não é a história de ninguém. Mas
podes ver a música que através deles te envenena o sangue.

(Migrações do Fogo)

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Rui Diniz – “Ode aos declamadores”

21.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não há poesia sem declamador.
É o declamador que faz a poesia; é ele quem constrói o mito,
é ele que lê o Ouro nas palavras que uns lêem vulgares,
outros nem tanto, seja em voz alta para os outros
ou para si em pensamento…
sim, porque não se pode declamar no pensamento?
Nada o impede.
Na ligação que tudo une, um pensamento faz a diferença!
Destrinça-se dos outros, marca a cadeia quiçá infinita
de rolantes modas, media e medianas…
Mas só um pensamento, dito ou pensado,
na pureza da postura de quem se faz mártir por opção
e decide ser veículo para o que tanto embebedou o poeta
pode ser marcante, pode de facto ser divino!
O declamador é como um ourives.
Ele labuta dentro de si os fios da sua própria existência
fundindo-os com os da existência de outrem
em jóias caras distribuídas a troco de nada.
O poeta dá o ouro cru, a pedra lascada,
o declamador dá tudo, a vida,
a voz, o pensamento, a alma
e no fim é quem fica com nada.
Fica com nada porque já de seu tinha dado tudo…
ao poeta.
O poeta é o mineiro,
o declamador é o artista.
Bem ditos sejam os artistas!

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Manoel de Barros – “A poesia está guardada nas palavras…”

20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A poesia está guardada nas palavras – e é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não entender quase tudo.
Prepondero a sandeu.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não cultivo conexões com o real.
Para mim, poderoso não é aquele que descobre ouro,
poderoso para mim é aquele que descobre as insignificâncias:
(do mundo e nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei muito emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.
Nasci para administrar o à-toa
o em vão
o inútil.
Pertenço de fazer imagens.
Opero por semelhanças.
Retiro semelhanças de pessoas com árvores
de pessoas com rãs
de pessoas com pedras
etc etc.
Retiro semelhanças de árvores comigo.
Não tenho habilidade pra clarezas.
Preciso de obter sabedoria vegetal.
(Sabedoria vegetal é receber com naturalidade uma
rã no talo.)
E quando esteja apropriado para pedra, terei
também sabedoria mineral.

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Carlos Queirós – “Apelo à Poesia”

20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Porque vieste? – Não chamei por ti!
Era tão natural o que eu pensava,
(Nem triste, nem alegre, de maneira
Que pudesse sentir a tua falta…)
E tu vieste,
Como se fosses necessária!

Poesia! nunca mais venhas assim:
Pé ante pé, cobardemente oculta
Nas ideias mais simples,
Nos mais ingénuos sentimentos:
Um sorriso, um olhar, uma lembrança…
– Não sejas como o Amor!

É verdade que vens, como se fosses
uma parte de mim que vive longe,
Presa ao meu coração
Por um elo invisível;
Mas não regresses mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Saudade!

De súbito, arrebatas-me, através
De zonas espectrais, de ignotos climas;
E, quando desço à vida, já não sei
Onde era o meu lugar…
Poesia! nunca mais venhas assim
– Não sejas como a Loucura!

Embora a dor me fira, de tal modo
Que só as tuas mãos saibam curar-me,
Ou ninguém, se não tu, possa entender
O meu contentamento…
Não venhas nunca mais sem que eu te chame,
– Não sejas como a Morte!

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Edson Bueno de Camargo – “Contas de vidro”

20.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

doses de amargo
quebram as pétalas das flores
em agridoce semelhança com a vida
(mas ainda assim desigual)
 
pagar o dízimo
das contas de vidro perdidas
entre os dentes
e caídas
dos dedos senis e trémulos
 
o amor é uma construção permanente
o cimento que une o universo
e há mais metafísica
em olhares adolescentes apaixonados
(e seu brilho doentio)
do que nos arcanos
das esferas orbitais de Júpiter
e contornos oculares de Galileu
(suas derradeiras ferramentas)
 
o ósculo da matéria
cinco segundos antes da destruição total
nos revelará de vez
a verdadeira verdade
 
mas ai será tarde

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Cláudia Marczak – “Quero um homem”

19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quero um homem
que toque minha alma, 

que entre pelos meus olhos 

e invada meus sonhos.

Quero que me possua inteira, 

corpo e alma,

fazendo dos meus desejos 

breves segundos de êxtase 

o prazer do encontro total.

Quero sentir seus braços longos 

envolvendo meu abraço, 

seus lábios mudos 

calando o meu silêncio 

sem precisar nada dizer… 

apenas me olhando 

com olhos negros e húmidos 

e me tomando devagar, 

como o mar avança na praia, 

como eu sei que tem que ser 

e sei que um dia será.

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Cláudia Marczak – “Teia”

19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Teci teu rosto em minha memória
durante imensas noites insones.
Chamei teu nome em sonhos,
vã tentativa de tornar-te real.
Sofri imensamente o adeus que não houve.
Padeci diante dos meus fracassos.
Estavas distante demais.
Miragem…
impossível te tocar.
Tornei-te um objeto inalcansável.
O nunca me parece tão longe…
será difícil te esquecer.
É tão real a solidão
e tão triste deixar de te amar
sabendo que tudo não passou de uma ilusão.

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Encandescente – “Prescrição para males de amor”

19.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Amor é fogo que arde sem se ver; E
ferida que dói e não se sente; É um
contentamento descontente; É dor que
desatina sem doer”

Ah Camões
Se vivesses hoje em dia
Tomavas uns anti-piréticos
Uns quantos analgésicos
E Xanax ou Prozac para a depressão
Compravas um computador
Consultavas a página do Murcon
E descobririas
Que essas dores que sentias
Esses calores que te abrasavam
Essas mudanças de humor repentinas
Esses desatinos sem nexo
Não eram feridas de amor
Mas somente falta de sexo.

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Popol Vuh – “Mito da Criação (excerto)”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No idioma quiché: Popol – reunião, comunidade, casa comum, junta a Vuh que significa livro. Popol Vuh é um dos poucos livros que restaram da civilização Maia. Trata-se de uma compilação de diversas lendas provenientes de grupos étnicos da atual Guatemala ao sul da península de Lucatã.

Esta é a história do princípio,
quando não existia nenhum pássaro,
nenhum peixe,
nenhuma montanha.
Apenas o céu.
Apenas o mar.
Não existia mais nada,
nenhum som, ou movimento.
Apenas o céu e o mar.
Apenas o Coração-do–Céu, sozinho.
E este era o seu nome: o modelador e criador,
Kukulkan, e o Tufão.

Todavia não existia ninguém para pronunciar o seu nome.
Não existia ninguém para louvar a sua glória.
Não existia ninguém para alimentar a sua grandeza.
Então, Coração-do-Céu pensava,
«Quem é que existe para me louvar?
como construirei a madrugada?»

Então ele apenas diz a palavra:
«Terra»,
e a terra ergue-se, como uma bruma vinda do oceano.
Ele apenas pensa nisso,
e aí está.
Pensa em montanhas,
e elas surgem, enormes.
Pensa em árvores,
e elas crescem da terra.
Então Coração-do-Céu diz:
«A nossa tarefa está a correr bem.»
Planeja então as criaturas da floresta
pássaros, veados, jaguares e cobras.
A cada um é dada uma casa.
«Tu veado, dormirás aqui ao pé dos rios.
Vocês os pássaros, os vossos ninhos estão nas árvores.
Multipliquem-se e espalhem-se»,
diz-lhes ele.
Depois, diz-lhes também:
«Falem, louvem-me.»
Mas as criaturas só podem grasnar.
Elas só conseguem uivar.
Elas não falam como os humanos
elas não louvam Coração-do-Céu.

Os animais destinam-se a ser submissos.
Eles servirão aqueles que venerarem Coração-do-Céu.
E ele tenta de novo.
Tenta criar alguém que o respeite.
Tenta criar alguém que o louve.
Aqui está a nova criação,
feita de lama e de terra.

Não parece grande coisa.
Ou fica mole, ou esmigalha-se.
Parece retorcido, pendente.
Não diz nada que faça sentido.
Não se consegue multiplicar.
Então Coração-do-Céu dissolve o que acabou de fazer.
Estabelece de novo outros planos.
O nosso Avô e a nossa Avó são convocados.
Eles são os espíritos mais sábios.
«Descubram se devemos esculpir as pessoas da madeira”,
diz Coração-do-Céu.

Eles passam as mãos pelos grãos de milho.
Passam as mãos pelas sementes de coral.
«O que é que podemos fazer que fale e louve?»
pergunta o nosso avô.
«O que é que podemos fazer que nos alimente e estime?»
pergunta a nossa avó.
Contam os dias,
em lotes de quatro,
esperando encontrar uma resposta para o Coração-do-Céu.
Dão então a resposta,
“E bom esculpir as pessoas em madeira.
Eles irão falar o teu nome.
Eles irão caminhar e multiplicar-se-ão.””
«Assim seja», responde Coração-do-Céu. –
E enquanto profere estas palavras,
assim se vai fazendo.
Os homens-bonecos são criados
com os rostos esculpidos em madeira.
Mas não possuem sangue,
nem têm suor.
Não têm nada na cabeça.
Não têm respeito por Coração-do-Céu.
Limitam-se a vaguear pela terra,
mas não realizam nada.
«Não era isto que eu tinha em mente»,
diz Coração-do-Céu.
Então decide destruir
esta gente de madeira.
O Tufão produz um dilúvio.
Chove dia e noite.
Surge uma enorme cheia
a terra fica escurecida.
As criaturas da floresta
abrigam-se nas casas dos homens de madeira.
«Perseguiram-nos nas nossas casas
por isso vamos ficar com as vossas»,
rugem eles.
E os cães e perus dizem,
«Abusaram de nós,
agora vamos comer-vos!»
Até os seus potes e as suas mós falavam,
«Vamos queimar-vos e moer-vos
como nos fizeram a nós!»
Os homens de madeira fogem para a floresta.
Os seus rostos são esmagados
e eles são transformados em macacos.
É por isto que os macacos são parecidos com os homens.
Eles são o que resta do que veio antes,
uma experiência na criação do homem.

(Tradução de Vasco David)
Música de Luís Pedro Fonseca

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David Mourão-Ferreira – “Que louro cabelo”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

IV
Que louro o cabelo 

Tão ouro por dentro

Azuis olhos verdes
de mar de arvoredo

Ó branca e vermelha 

desde os tornozelos 

até às alturas
dos ombros da nuca

Nem saia nem manto 

Só te quero nua

Os teus e os meus dedos

do mesmo tamanho 

algemas trocando 

mais fortes que tudo

Ó branca no peito

vermelha na boca

Ó branca e vermelha 

na rosa do corpo

de rubra incendeias 

de branca me assombras

E branca e vermelha 

deitada a meu lado 

só nua desejas 

vibrar no retrato

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David Mourão-Ferreira – “Nádegas”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entre as duas nádegas

o pávido sulco
tem aroma de áfricas 

e de uvas de outubro

Dirias que fora

um silvo de morte 

a penetrar toda
a nocturna flora
até hoje intacta
que ainda aí tinhas


Respira Não fales

Murmura Não grites

Que travo
de amoras

Que túnel escuro
Que paz no que sofres

por mais uns minutos

o pescoço vergas 

submissa e frágil

tal o de uma
égua 
que vai beber
água
mas encontra a
lua 


E junto da cama
a rosa viúva
com lágrimas brancas
já pede os meus dedos

sacudido apoio
para a viuvez
em que a deixo hoje

Muito mais a
norte 
os queixumes
calas
E nem gemes Gozas

enquanto te invade
o suco da vara 

vertido no sulco

Vê como foi fácil

Respira mais
fundo

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David Mourão-Ferreira – “Pequenos poemas”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem foi que à tua pele conferiu esse papel

de mais que tua pele ser a pele da minha pele?

Cintilação de luas

assim que te desnudas

às escuras

Diante do teu ventre

como não dizer “sempre”

novamente.

Ó lâmina e bainha

de outra espada ainda

Tua língua

Ruge. Reprende. Arrasa

Desde que sempre o faças

com as asas

Vem dos arcanos de outro tempo

ou dos anéis de outra galáxia
esta espessura transparente

que só na cama as almas ganham

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David Mourão-Ferreira – “Sobre mim cavalgas…”

14.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sobre mim cavalgas

cingindo-me os flancos 

Colhes à passagem
a luz do instante

De dentes cerrados

ondulas, avanças, 

retesas os braços,

comprimes as ancas.

Depois para a
frente 

inclinas-te olhando
o que entre dois ventres

ocorre entretanto,
e o próprio galope

em que vais lançada

Que lua te empolga

Que sol te embriaga

Lua e sol tu és 

enquanto cavalgas 

amazona e égua 

de espora cravada
no centro do corpo 


Centauresa alada 

com os seios soltos

como feitos de água.

Queria bebê-los 

quando mais te dobras

Os cabelos esses 

sorvê-los agora

Mas de cada vez
que o rosto aproximas 

já é outra a sede
que me queima a língua:
A de nos teus olhos 

tão perto dos meus
descobrir o modo 

de beber o céu.

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