História 163 – “A Lebre e a Tartaruga”

21.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A Lebre andava sempre ligeira, quase a correr como o vento, e fazia-lhe nervoso ver a pachorrenta da Tartaruga a caminhar vagarosamente para onde quer que fosse. Chovesse ou fizesse sol, houvesse perigo ou não, a Sra. Tartaruga não passava do seu passo habitual, pausado e sossegado.
Nos dias de festa, enquanto a bicharada combinava sair junta e todos se punham a andar, era certo e sabido que a velha Tartaruga ficava à cauda do rancho, a fechar a marcha, a andar compassada, tão mole, tão mole, que a Lebre tomava fôlego, andava pelas duas e punha-se à frente de todos, a correr, como lebre que era.
E um belo dia não se conteve e disse para a Tartaruga: — E se eu fosse como a senhora, já tinha morrido de aborrecimentos. Eu podia cá andar nesse passinho de enterro! Eu sempre queria vê-la a correr comigo, a ver se espertava.
Muito bem — respondeu a Tartaruga, pacatamente. — Vamos lá experimentar isso. Fazemos uma corrida de cinco quilómetros, e aposto quem vai ganhá-la sou eu.
Bonita aposta! — respondeu a Lebre — Vamos já sair de dúvidas.
Convidaram a Raposa para juiz e ambas partiram para a corrida. A Lebre, como sempre, largou veloz como um foguete e em pouco tempo se perdeu de vista. A Tartaruga, como era seu costume, deixou-se ficar a andar lentamente, a andar… a andar… pela estrada fora.
Depois de correr um bocado, a Lebre voltou-se para trás e, não avistando a Tartaruga, deu uma gargalhada.
— A esta hora ainda ela está dando as primeiras passadas. Nem me vale a pena andar mais por agora. Até tenho tempo de dormir uma soneca enquanto espero por essa papa-açorda.
E deitou-se na relva fresquinha e apetitosa que havia à beira do caminho, principiando logo a dormir. Dormiu, sonhou, ressonou… e entretanto a Tartaruga, que vinha a andar devagar, muito devagarinho, mas sem perder um momento, passou junto dela, viu como a sua contendora dormia descuidadamente, sorriu-se e continuou o seu caminho.
Quando a Lebre acordou voltou a olhar para trás.
«Ainda não há-de vir a meio caminho — pensou. — Agora em quatro pulos chego ao fim e ganhei a aposta.»
Mas quando olhou para diante viu a Tartaruga, que acabava de chegar naquele instante ao lugar combinado para o fim da corrida. Tinha ganho a aposta!
E a Lebre, abatida no seu orgulho de boa corredora, ficou a pensar:
«Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo».

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Joaquim Manuel de Magalhães – “Amarelo quebrado”

19.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As casas ganham um ar mais mortal
na tristeza depois de não ter havido coito.
Vão depressa as nuvens, tão depressa, levam pombos
e telhados agudos com ardósia quebram
em radiações de treva na água aprisionada.

Já tínhamos falado de tudo na véspera,
do adiamento, da sufocação,
mas senti que não seria assim.
Com a garganta ao contrário da Holanda,
seca, incapaz de falar.

Vi os gráficos do sangue empresarial.
Na floração das vendas, o risco suspendia
câmbios de gasolina sobre mim.
Ao som do telefax, um visor de números
era agora o teu rosto.

Por cima do casaco hesitavam as mãos
de novo perdidas no medo de prender-se
ao metal tecido de milagre da saliva.
Eram mãos que não sabiam pousar.

A experiência agora é esta: chamar desamor
à emoção que não entende o que deseja,
confunde os sentimentos numa aridez tão pesada
que nem eu percebo como deixa voar um avião
por este sem fim de céu que traz o fim.

Mas foi horas antes que findou.
Ia a noite avançando, escurecia o hotel
e as mãos ficaram presas. Tanto tempo,
tanto tempo nenhum.

As Escadas não têm Degraus
Livros Cotovia

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José Carlos González – “O Malabarista”

19.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na praça deserta que o vento devasta
ficou solitário esquecido do povo

na praça em que a noite se arrasta
surdos equilíbrios intenta de novo

ficou sem mais nada que a dor de viver
fantasma no vento da noite esquecido

três lágrimas nuas para ninguém ver
resvalam no fato já velho cosido

três gritos de alerta suspendem a noite
três ecos respondem três armas apontam

e a espada do vento renova o açoite
nas faces já frias que os dedos encontram.

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Luís Filipe Castro Mendes – “Sonho”

19.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Num poço ou num cristal me debrucei.
Só no teu rosto a morte me alcançava.

De quem a morte, por terror de mim?
De quem o infinito que faltava?
Numa casa de vidro vi meu fim.
Numa casa de vidro me esperavas.

Numa casa de vidro as persianas
desciam lentamente e em seu lugar
a noite abria o escuro das entranhas
e o teu rosto morria devagar.

Numa casa de vidro te sonhei.
Numa casa de vidro me esperavas.
Fiz do teu corpo sonho e não olhei
nas palavras a morte que guardavas.

Descemos devagar as persianas,
deixámos que o amor nos corroesse
o íntimo da casa e as estranhas
cerimónias do dia que adoece.

Numa casa de vidro. Num espelho.
Na memória, por vezes amargura,
por vezes riso falso de tão velho,
cantar da sombra sobre a selva escura.

Numa casa de vidro te sonhei.
No vazio dessa casa me esperavas.

Luís Filipe Castro Mendes, in “Os Amantes Obscuros”

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História 162 – O Rato da Cidade e o Rato do Campo

19.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Sr. Rato da Cidade foi um dia visitar o seu amigo Rato do Campo, que o tinha convidado a passar uma tarde com ele. Habituado ao conforto da casa da cidade em que vivia, o Sr. Rato da Cidade não gostou do buraco pobre, sem tapetes nem asseio, em que morava o seu amigo Rato do Campo. Este, coitado, bem fez tudo para lhe agradar, mas o Rato da Cidade mostrava-se cada vez mais enjoado com o que via.
Ao jantar, o Rato do Campo trouxe-lhe o que tinha de melhor: uns pedacinhos de queijo velho, uns bocados de pão, uma batata, raízes e alguma fruta. Ofereceu tudo ao amigo e ele pôs-se a roer uma palha dura e a aproveitar as migalhas que caíam.
Depois de comer, o Rato da Cidade disse ao amigo, com ar importante:
— Sabes que mais? Não sei como podes viver assim. Aqui não há comer, não há nada. Eu, no teu lugar, dizia adeus a esta miséria e ia para a cidade. Lá é que é viver! Com boa comida e boa toca; é um vida regalada!
O pobre Rato do Campo, envergonhado com a sua pobreza e seduzido com as belezas de que o amigo lhe falava, resolveu ir com ele para a cidade.
Quando lá chegou e entrou na casa onde o Rato da Cidade tinha a sua toca, ficou admirado com a riqueza que via e com os tapetes em que se afundava ao passar. Por toda a parte havia boas comidas e com fartura.
Contentíssimo, o Rato do Campo regalou-se a comer do melhor que encontrava, e o outro ria-se de o ver tão palerma no meio daquilo tudo.
Estavam os dois no melhor da festa, a comer e a rir, quando aparece um grande gato, que se atira a eles de um pulo. O da casa depressa enfiou para o seu buraco e fugiu ao gato. Mas o do campo, coitadinho! Aos saltos e às corridas, sem conhecer a casa, lá se escondeu do gato conforme pôde.
Quando o gato desistiu de apanhá-los e o susto passou, o pobre ratinho saiu do seu esconderijo e foi falar com o outro à porta da casa dele.
— Vou-me embora, amigo. Isto pode ser muito bom e muito bonito, melhor do que a minha casa pobrezinha, mas é perigoso.
Lá na minha casa como do que posso e quando há, mas estou descansado. Passa muito bem, que eu contento-me com o que tenho. Antes magro no mato do que gordo na boca do gato.
E voltou a correr para a sua casa.

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Luís Miguel Nava – “A Noite”

17.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A noite veio de dentro, começou a surgir do interior
de cada um dos objectos e a envolvê-los no seu halo negro.
Não tardou que as trevas irradiassem das nossas próprias
entranhas, quase que assobiavam ao cruzar-nos os poros.
Seriam umas duas ou três da tarde e nós sentíamo-las
crescendo a toda a nossa volta. Qualquer que fosse a pers-
pectiva, as trevas bifurcavam-na: daí a sensação de que,
apesar de a noite também se desprender das coisas, havia
nela algo de essencialmente humano, visceral. Como ins-
tantes exteriores que procurassem integrar-se na trama
do tempo, sucediam-se os relâmpagos: era a luz da tarde,
num estertor, a emergir intermitentemente à superfície das
coisas. Foi nessa altura que a visão se começou a fazer
pelas raízes. As imagens eram sugadas a partir do que
dentro de cada objecto ainda não se indiferenciara da luz
e, após complicadíssimos processos, imprimiam-se nos
olhos. Unidos aos relâmpagos, rompíamos então a custo
a treva nasalada.

Vulcão I Poesia Completa – Publicações D. Quixote

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Pedro Sena-Lino – “Alguns Poemas”

16.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

entre a porta e a mão que bate à porta
vai a distância da carne à madeira
a distância do corpo que toca esse pedaço de árvore
à existência da própria árvore
toca a mão na madeira (direi porta?)
como se tocasse toda a substância da casa
o seu vento as suas vozes os seus cheiros
os seus objectos a totalidade do espaço que se adivinha para além das janelas e das paredes
bate na tarde à porta a mão
na tarde ou talvez pela manhã
acompanhando a solidão que transforma o tempo
à porta a mão identifica todo o corpo que no exterior toca bate acorda
tarde à porta bate a voz da montanha
não apenas pássaro ou árvore pedra ou riacho
mas toda a pedra repetida no interior da sombra e do som dos pássaros na escada
toda a terra concentrada na mão que bate à porta
acariciando o retrato da inquietação e do inverno
entre a porta e o interior da casa
dos livros
reúne cor e ramagem frio e alimento
viagens como naufrágios ou inscrições
registadas na habitação
da tristeza
 (para o clóvis artur)
 
(in Arquitectura do Silêncio, Difel, 2000)

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Rui Knopfli – “O Escriba Acocorado”

16.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sentado na pedra de ti próprio,
não tens rosto, senão o que,
de anónimo, a ela afeiçoou
a mão que assim te quis. Do resto,
do que de individualidade, porventura,

em ti existiria, se encarregou
a persistente erosão dos dias. De vago,
neutro olhar sem órbitas, permaneces
hirto, fitando sempre mais além
da morna penumbra que te envolve

no halo intemporal que é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar
de não ver tudo se inscreve,
repensa e adivinha: teus limites
e, ainda, o que excederia tua humana

estatura. Sem contornos, em sombra
e sono te diluis no que, de ti,
nunca saberemos. Porém, límpida
e escorreita, até nós chega a laboriosa
escrita que no papiro ias lavrando.

Rui Knopfli, in “O Corpo de Atena”

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Saúl Dias – “Amei-te”

16.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Amei-te
porque o teu olhar numa tarde se encheu de lágrimas,
e falaste em morrer, e tremeste de medo.

Contudo
não eras mais que uma flor corrupta,
dessas que a vida enleia e usa
e depois atira para uma sarjeta lamacenta.

Mas, para mim, eras toda inocência, toda pureza branca.
Porque a inocência é um dom de Deus,
o dom só concedido
àqueles que mais ama.
Por isso, os homens só aparentemente sujam
as pequeninas rosas.

Ah! tivesse eu forças para seguir-te,
embora de longe, mas atentamente,
ajudando-te a subir o agreste calvário!

Saúl Dias, in “Sangue (Inéditos)

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José Tolentino Mendonça – “Estações”

14.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A velha ponte de madeira
entre estações
os caminhos que fizemos pelo bosque
marcas luminosas
eventuais
longe de tudo

estendemos minuciosas reservas
mesmo ao que se revela de súbito
cercas em redor das casas
a multiplicação dos ancoradouros
os baldios vigiados da torre
no meio do silêncio

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José Tolentino Mendonça – “Coisas tão felizes”

14.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Entre amigo e amigo
jamais se afastam
coisas tão felizes
os instantâneos silêncios de certas formas
os protestos inocentes à nossa passagem
a natureza fortuita, dizia eu
imortal, dizias tu
do vento?

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Daniel de Sá – “Ao amor – em homenagem a Natália Correia”

14.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A ilha me perdeu, sou de nenhuma.
Saudade amor de mim, pedra que móis
Meu trigo que ceifei por outros sóis
Onde o suor não se evapora em bruma.

Sou valquíria que escolhe os seus heróis.
Minha paixão sou eu. Não me consuma
Outra paixão, amor. Bebo uma a uma
As gotas do veneno com que dóis.

Se as ilhas fossem gente, eu era o Pico,
De coração só feito de mistérios
E os longes das paisagens onde fico.

Das arribas do ser, a vida tomba
E os amores do Amor a morte fere-os.
Não libertem por mim nenhuma pomba.

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Eduardo Montepuez – “Trago na máscara diária…”

14.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Trago na máscara diária o meu Carnaval
E nos dias a minha folia de ventos quentes
Sou muito mais quando consigo ser todo
Até nas horas das noites desertas
Ainda e muito, caminho de pé
Vertical aos meus sentidos – único modo
Onde a paz transpira e respira
Porque também é vida
Eis os meus passos – de pegadas longas
Em ritmos desenhados
Expostos na minha passagem.

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Reinaldo Ferreira – “Rosie”

13.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu, Rosie, eu se falasse eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
De um par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh…
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une – é estarmos ausentes.

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Ricardo Vercesi Picoto – “Puto”

13.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Puto
Hoje acordas para mais um dia sem sol.
Puto
Para quem todas as ruas são camas
E os eléctricos são viagens ao mundo dos homens
Sombras de uma vida sem risos, sem esperança
Nos olhos baços dos putos que nunca chegaram a ser crianças.
Tu, puto
Que tratas as putas e os chulos por tu
E para quem todas as pedras são brinquedos
Todas os brinquedos são armas
Todas as emoções são medos.
Tu, puto
Todos os sonhos do mundo são teus.
Que hoje vagueias por mais uns trocos perdidos
E o cheiro da cola se confunde com a humilhação e os sentidos.
Tu, que tens o chão onde dormes por amigo, o cartão por abrigo
Tens o mundo por inimigo.
Puto
Quando olhas, o que vês?
E os olhares indiferentes de quem passa?
E os dias que passam sem nada de novo se passar
E os ventos que te adormecem e te escondem do perigo.
Puto
Todos os perigos do mundo são teus.


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António Osório – “Nascente”

12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando sinto de noite
o teu calor dormente
e devagar
para que não despertes
digo: cedro azul,
terra vegetal,
ou só
amor, amor;
quando te acaricio
e devagar
para que não despertes
tomo na mão direita
as duas fontes, iguais, da vida,
procuro a nascente
e adormeço
nela essa mão depositando.

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António Osório – “Os Loucos”

12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

velha13

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.

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Alberto Lacerda – “Lourenço Marques Revisited”

12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A água que murmura espectros lentos

O que houve e não houve e não volta nunca mais

Os quartos sem esperança que os guardasse

As casas sem anjo da guarda

A luz intensa bela e dolorosa

A adolescência dilacerada

A ternura dezoito anos recusada

Na casa dos Átridas

O crime horroroso que não houve

Mas as feridas abriram manaram um sangue

Que penetra implacável as fendas do sono

E me deixa acordado à beira da estrada

Com lágrimas que percorrem

Trinta e quatro anos

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Paio Soares Taveirós – “Cantiga de Guarvaía”

12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na escrita atual:

No mundo não conheço

ninguém igual a mim,

enquanto acontecer o

que me aconteceu,

pois eu morro por vós e ai!

Minha senhora alva e rosada,

quereis que vos lembre

que já vos vi na intimidade!

Em mau dia eu me levantei

Pois vi que não sois feia!
E, minha senhora

desde aquele dia, ai!

Venho sofrendo de um grande mal

enquanto vós, filha de dom Paio

Muniz, a julgar forçoso

que eu lhe cubra com o manto

pois eu, minha senhora

nunca recebi de vós

a coisa mais insignificante.

Na escrita da época.

No mundo non me sei parelha,

mentre me for’ como me vay,

ca já moiro por vos – e ay!

mia senhor branca e vermelha,

queredes que vos retraya

quando vus eu vi en saya!

Mao dia me levantei,

que vus enton non vi fea!
E, mia senhor, des aquel di’ay!

me foi a mi muyn mal,

e vos, filha de don Paay

Moniz, e ben vus semelha

d’aver eu por vos guarvaya,

pois eu, mia senhor, d’alfaya

nunca de vos ouve nen ei

valia d’a correa.

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Otília Martel – “Sonho-te”

12.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me,
em teus braços,
mil beijos sussurrados

Sonho-te
e sonhando-me
amo-te
no rasgar da pele
buscando
carícias longas
entregando-me

Sonho-te
no abraço incontido
corpo entregue
vencido
em noites de vendaval

E esse perfume errante
– seiva quente –
dá vida, dá alento
mesmo que não passando
de ilusão,
que se desfaz em nada,
tal qual nuvem
em tarde de Verão.

Sonho-te
que sonhando-me
sonhas-me …
amando-te …

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D. Sancho I – Cantiga de amigo

11.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ai eu, coitada, como vivo em gram cuidado

por meu amigo que ei alongado!

Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

Ai eu, coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo!

Muito me tarda
o meu amigo na Guarda!

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Eduíno de Jesus – “Com as mãos”

05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Com as mãos
construo
a saudade do teu corpo,
onde havia

uma porta,
um jardim suspenso,
um rio,
um cavalo espantado à desfilada.

Com as mãos
descrevo o limiar,
os aromas subtis,
os largos estuários,

as crinas ardentes
fustigando-me o rosto,
a vertigem do apelo nocturno,
o susto.

Com as mãos procuro
(ainda) colher o tempo
de cada movimento do teu corpo
em seu voo.

E por fim destruo
todos os vestígios (com as mãos):
Brusca-
mente.

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Fátima Maldonado – “A Adoração dos Magos”

05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aquela noite a três
foi como desenhar a maçarico
numa chapa de ferro
um vento fóssil, um vítreo monograma,
o rasto ao exceder o voo de uma carriça
cativo flutua no vidro de uma jarra.
Suspensos percorriam na polpa da vertigem
léguas sobre o abismo.
Pendentes do zinco da manhã
à espera do início
do seguinte espectáculo
dispersaram o sémen
nas chaminés da noite leprosa.
Nos terraços da luta percorreram
as danças mais funestas da ternura.
Num combinar astuto de referências
abriram-se os portais
e despediram galopes penitentes
os animais libertos
das tecidas mansões.
O unicórnio branco depôs sua cabeça
nos braços da senhora,
compadecida dama,
e lhe tocou fiando suas lãs
entre as unhas crivadas por metralha.
Sinto-lhes o assédio,
em cada joelho poisam
um queixo armadilhado,
a barba já cresceu desde o jantar.
«É a adoração dos magos» murmuras tu –
fincando na ravina os dedos imanados
enquanto o tronco investe
a pele percorrida por venosas nascentes.
Olho por sobre um ombro
e surpreendo a treva
ofendida esgueirar-se
entre os dedos da porta.
O noctívago galgo
devora a escuridão às cegas no recinto.
Em breve a luz envolve
de opalinas unções as cabeleiras.
Iminentes desenham-se as saídas,
o croissant no prato, o garoto no copo,
o revestir a pele doutros fatos
a tragédia jazente nos horários.
Aquela noite a três foi sem remédio.

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Fernando Castro Branco – “O céu das gruas”

05.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lázaro Inocêncio do Nascimento,
manobrador de gruas na auto-estrada
transmontana sai do túnel do Marão
para a negra luz do desemprego
e das carências em família. Manobrou

com perícia a cegonha de ferro no céu
da montanha, dialogou com Deus
e com os pássaros sociáveis; olhou
para o fundo de si e concluiu que na terra
ou nas nuvens a vida é sempre abismo

onde a altura é uma questão menor. Hoje
desceu de vez as escadas íngremes,
findou a concessão do troço e do capital,
agora está entregue a si que o mesmo é dizer
ao destino de ninguém. Lázaro do

Nascimento diz que com esta descida
à terra morreu um pouco, e assim à terra
descerá definitivamente em tempo certo
sem estranheza de maior. Não carece
pois o Mestre o ressuscitar por mais

que alastre o pranto das irmãs
e os direitos da quadra. Na ferrugem
definitiva dos materiais o sinal perene
de que não vale a pena o esforço
de retirar os panos uma e outra vez.

(Este poema foi publicado no Jornal “Público” em 25 de Fevereiro de 2012)

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Agostinho Neto – “A quitanda”

04.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Muito sol
e a quitandeira
à sombra da mulemba.
Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!
A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca em corações aflitos
o jogo da cabra cega.
A quitandeira que vende fruta
Vende-se.
Minha senhora laranja,
laranjinha boa!
Compra laranja doces
Compra-me também o amargo
desta tortura da vida sem vida.
Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa que não abriu
princípio impelido ainda para um início.
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos com que chorava
eu já não choro.
E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor embebido nos fios de algodão
que me cobrem.
Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.
Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.
Tudo tenho dado.
Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
Entreguei-a aos poetas.
Agora vendo-me eu própria.
Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
sangue.
Talvez vendendo-me
eu me possua.
Compra laranjas!

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Rosa Maria – “Morri ontem, meu amor…”

04.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Morri ontem meu amor…vesti de cinza o meu corpo noite

Percorri os farrapos dos meus sonhos…amordacei os gestos

Vesti o meu olhar de estrelas cadentes…tentei enganar a morte

Prendi nas mãos a penumbra…caminhei sobre os meus restos



Morri ontem meu amor…docemente fechei as mãos ao cansaço

Caminhei sem mim…serenamente deixei correr todas as lágrimas

Adormeci no esquecimento…perdida entre o tempo e o espaço

Despi da noite o luar…desfolhei as rosas…bebi todas as mágoas



Morri ontem meu amor…o crepúsculo venceu a madrugada

Meu olhar tocou a mágoa…o meu corpo frio afagou a morte

Enlaçou nas mãos a eternidade…caminhou rumo à alvorada

Despido de ternura…adormeceu sereno nos braços da noite



Morri ontem meu amor…tão cansada de ser…tão nua…tão noite

Tão perdida de estar…tão ausente de viver…tão despida de sentir

Folha solta ao vento…nuvem negra vagando na sombra da morte

Por entre rosas…por entre cardos…deixa-me meu amor partir



Morri ontem meu amor…despida da dor que me cobre o corpo

Perdida dos sonhos que teci…rasgando os silêncios que gritei

Num tanger de viola…num sussurro quase mudo…quase rouco

Na minha alma quase branca…na eternidade que chamei



Morri ontem meu amor…no aconchego do teu corpo ausente 

Envolta na solidão…ficou a lembrança duma lágrima perdida

Poisa em mim a noite…a noite negra…tangendo um canto dolente

Num murmúrio em silêncio…chamo por mim…choro pela vida

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Teresa Cunha – “Dos meus lábios…”

02.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dos meus lábios

ao teu beijo,

vai um sorrir,



Do teu corpo

ao meu desejo,

uma carícia,



Da minha paixão

ao teu furor,

vai um olhar,



Um roçar que seja,

embebido de malícia,

chega para nos transbordar,



Chega para nos verter

na profunda delícia,

de sentir.



Do primeiro momento

à hora de te deixar,

vai um instante,



Fica-nos o passo

a ensaiar partidas,

curto e relutante, na despedida,



Do meu querer ao teu gostar,

vai um carinho, grande e sereno,

…sempre a partir,



Viaja entre nós,

calma,…a certeza,



de um amor feliz.


(Bósnia 1996)

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História 161 – “A lenda do convento das Mercês”

29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 161 – “A lenda do Convento das Mercês.

Uma história que é uma lenda contada por Fernanda Frazão na sua obra “Lendas Portuguesas”.

Na ilha da Madeira houve em tempos um convento de capuchinhos, a cuja fundação está ligada uma lenda cheia de milagres e maravilhas.
Havia na ilha uma rica proprietária, D. Isabel de França — casada com Gaspar Berenguer de Andrade —, que se confessava habitualmente ao padre Ribeiro. Este há muito que tinha na ideia a fundação de uma casa de religiosas, em certo local deserto da ilha, e pediu à sua confessada que subsidiasse a obra.
D. Isabel, porém, alegava que só poderia contribuir com os terrenos, uma vez que tudo o resto era administrado pelo marido, homem avarento e pouco piedoso. Era sincera a senhora e, por isso, ficou preocupada por não poder satisfazer aquele desejo do religioso.
Uma noite aconteceu-lhe sonhar e ter uma visão de Nossa Senhora das Mercês. Dizia-lhe a Virgem:
– Isabel, quero o meu convento!…
Ó minha Nossa Senhora, não tenho dinheiro para dar, bem o sabeis!
Faz como quiseres, Isabel, dá até a tua camisa, mas faz-me esse convento!…
Antes que a senhora pudesse replicar, a Virgem desapareceu do seu sonho. Impressionadíssima com aquela aparição, D. Isabel decidiu ir contra a vontade do marido e aplicar na obra pedida todos os seus rendimentos pessoais.
O Demo, porém, estava apostado em impedir a fundação daquele mosteiro e, por intermédio de D. Gaspar, arranjou modos de mover o governador do bispado a dificultar, senão proibir, aquela obra. Assim, quando foi pedida autorização para iniciar a pia obra, o projecto foi recusado.
A Virgem das Mercês veio então em auxílio de D. Isabel e do padre Ribeiro: indo o bispo de viagem a Porto Santo, fez levantar um tão medonho temporal no mar que a embarcação esteve em via de se afundar.
O clérigo, meio morto de pavor, lembrou-se subitamente da sua recusa em autorizar a fundação do mosteiro e, logo ali, prometeu proteger o projecto se o mar amainasse. Nossa Senhora, que estava à espera disto mesmo, imediatamente ordenou ao mar que se acalmasse e este tornou-se num lago remançoso, espelhado de sol.
O clérigo cumpriu a sua promessa, mas o Demo não desistiu de levar a sua avante. Uma vez aplainadas as dificuldades de carácter religioso, começaram as seculares: o governador da ilha recusou terminantemente a autorização do convento.
Novamente vem a Virgem em auxílio do seu projecto. Este governador da Madeira era considerado herege por alguns senhores da ilha, mas, até então, a sua autoridade era indiscutível e ninguém se atrevera a contestá-la. De súbito, os grandes senhores da Madeira puseram-se de acordo quanto aos abusos de autoridade perpetrados pelo governador e tramaram uma conjura para o afastarem do cargo. Mandaram então uma embaixada ao Rei, em Portugal, e tão bem conduziram o assunto que o governador foi afastado do seu cargo.
Entretanto, a construção do edifício tora iniciada e as obras corriam em bom andamento. O Demo, desesperado, fez a terceira tentativa para frustrar a obra das Mercês: acabaram-se os recursos materiais de D. Isabel. A senhora deu voltas à cabeça, fez contas e mais contas com os feitores, mas não conseguiu nem mais uma moeda dos seus rendimentos.
Novamente os sonhos, provocados pela patrona da obra, vieram em auxílio de D. Isabel. Certa noite em que estava nestas aflições, adormeceu de cansaço e sonhou que em determinado local do seu jardim havia ouro enterrado, o suficiente para terminar a obra do mosteiro.
Na manhã seguinte, com o coração em alvoroço, dirigiu-se ao cantinho do sonho e começou a cavar às escondidas de toda a gente. Tão absorvida estava nesse trabalho que nem reparou que D. Gaspar se aproximava pé ante pé para ver o que estava ela fazendo, precisamente na altura em que a enxada batia num objecto bem sólido e sonante.
D. Gaspar percebeu rapidamente, com aquela intuição própria dos avaros, que o objecto em que tocara a enxada era um cofre, sem dúvida cheio de ouro, e apressou-se a exigi-lo para si.
Apanhada de surpresa, D. Isabel entregou o cofre ao marido, que, estupefacto, o encontrou cheio de carvão. D. Gaspar desiludido com o fraco achado, virou costas e foi à sua vida. Imediatamente o carvão se tornou em ouro e a devora senhora o entregou ao padre Ribeiro para a conclusão da obra.
Assim que tudo ficou pronto, instalaram-se as freiras e convocaram o capítulo para assentarem na regra a seguir.
Prestes a optarem por uma ordem rica, nova maravilha veio decidir a sorte do convento das Mercês: a terra começou a rugir e a tremer ameaçando destruir a obra que tantos sacrifícios custara. E as freiras, convictas de que era vontade de Deus, optaram então por uma regra de pobreza, ordem esta que durou enquanto o convento se manteve em funcionamento.
Conta-se ainda, deste convento que existiu na Madeira, que uma certa personagem de grande virtude vira durante muitas noites, naqueles sítios ermos, uma luz alumiando uma Virgem esplendorosa assaltada por legiões de demónios.

Ouvimos a lenda do Convento das Mercês, escrita por Fernanda Frazão.

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João Cabral do Nascimento – “Natal Africano”

29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não há pinheiros nem há neve,
Nada do que é convencional,
Nada daquilo que se escreve
Ou que se diz… Mas é Natal.

Que ar abafado! A chuva banha
A terra, morna e vertical.
Plantas da flora mais estranha,
Aves da fauna tropical.

Nem luz, nem cores, nem lembranças
Da hora única e imortal.
Somente o riso das crianças
Que em toda a parte é sempre igual.

Não há pastores nem ovelhas,
Nada do que é tradicional.
As orações, porém, são velhas
E a noite é Noite de Natal.

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José Rui Teixeira – “Trago dentro de mim…”

29.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

trago dentro de mim um mar imenso

feito de vagas tristes

e sonhos vagos

o horizonte é uma manhã

que eu quis minha para ser eu
e para porto de abrigo escolhi uma tarde

que soubesses chorar a morte do sol

 
de Quando o Verão Acabar Vila Nova de Famalicão, Quasi edições 2002


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