Nota biográfica

Adélia Luzia Prado Freitas (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935) é uma escritora brasileira. Os textos retratam o quotidiano com perplexidade e encanto, norteados pela fé cristã e permeados pelo aspecto lúdico, uma das características o estilo único.

Adélia Prado – “Para perpétua memória”

09.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Depois de morrer, ressuscitou
e me apareceu em sonhos muitas vezes.
A mesma cara sem sombras, os graves da fala
em cantos, as palavras sem pressa,
inalterada, a qualidade do sangue,
inflamável como o dos touros.
Seguia de opa vermelha, em procissão,
uma banda de música e cantava.
Que cantasse, era a natureza do sonho.
Que fosse alto e bonito o canto, era sua matéria.
Aconteciam na praça sol e pombos
de asa branca e marron que debandavam.
Como um traço grafado horizontal,
seu passo marcial atrás da música,
o canto, a opa vermelha, os pombos,
o que entrevi sem erro:
a alegria é tristeza,
é o que mais punge.

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Herberto Hélder – “Sobre um Poema” (1ª versão)

08.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

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Lenda – “A Origem do Universo”

08.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

América do Norte, Cahuillas

ORIGEM DO UNIVERSO
Reinavam as trevas sobre o universo. Ocasionalmente, ouviam-se estrondos e ruídos. Certa vez, as cores branca, azul, vermelha e castanha envolveram-se numa espiral e uniram-se num ponto distante e imensurável do qual surgiu uma grande bola de fogo. Esta continuou a rodopiar sobre si até que se condensou numa placenta que se dividiu em dois embriões. O universo começava a agitar-se. Prematuramente, as crianças rasgaram o embrião e morreram, pelo que o universo voltou a contrair-se e a imobilizar-se.
As cores voltaram a juntar-se, repetiu-se o processo, mas, desta vez, as crianças sobreviveram. O universo, que então já respirava, cedo começou a ser disputado por duas crianças; Mukat e Temaiyauit combatiam entre si para decidirem quem era o mais velho e quem teria assim direito a governar sobre as coisas do cosmos. A disputa prometia durar eternamente, mas os dois irmãos acabaram por decidir separar-se e dividir a criação entre si. Porém, Temaiyauit quis levar consigo a terra e os céus, regiões estas que não estavam contempladas no acordo estabelecido. Mukat colocou então um joelho sobre a terra, segurando com uma mão o céu e com a outra as demais criaturas. Deste gesto nasceram os vales, as montanhas, as fendas dos rios e as águas que os enchem. Derrotado, Temaiyauit rasgou a superfície da terra de forma a levar para o mundo crónico os seres que criou. Desde então, a terra tem este aspecto acidentado e irregular.

Trad.: Manuel João Magalhães
Música de Luís Pedro Fonseca

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Mário de Sá-Carneiro – “Como eu não possuo”

02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olho em volta de mim. Todos possuem –

Um afecto, um sorriso ou um abraço.

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria 

Dos espasmos golfados ruivamente;

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo… 

Não posso afeiçoar-me nem ser eu: 

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu, 

Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser 

Forçoso me era antes possuir 

Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me, 

Tarde a tarde na minha dor me afundo… 

– Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?.

Como eu desejo a que ali vai na rua, 

Tão ágil, tão agreste, tão de amor…

Como eu quisera emaranhá-la nua, 

Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia, 

Toda sem véus, a carne estilizada 

Sob o meu corpo arfando transbordada, 

Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria.



Eu vibraria só agonizante 

Sobre o seu corpo d’êxtases dourados,

Se fosse aqueles seios transtornados,

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo: 

E que eu teria só, sentindo e sendo

Aquilo que estrebucho e não possuo.

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Garcia Lorca – “Cacilda da mulher deitada”

02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ver-te despida é recordar a terra.
A terra lisa, limpa de cavalos.
A terra sem um junco, forma pura
ao futuro cerrada: confim de prata.

Ver-te despida é perceber a ânsia
da chuva a procurar um débil talo,
ou a febre do mar de rosto imenso
sem encontrar a luz da sua face.

O sangue soará pelas alcovas,
chegará com espada fulgurante,
porém tu não saberás onde se esconde
o coração do sapo ou a violeta.

O teu ventre é uma luta de raízes,
os teus lábios, aurora sem contorno,
sob as cálidas rosas duma cama
os mortos gemem esperando turno.

(Tradução de Eugénio de Andrade)

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António Gedeão – “Poema do homem-rã”

02.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou feliz por ter nascido
no tempo dos homens-rãs
que descem ao mar perdido
na doçura das manhãs.
Mergulham, imponderáveis,
por entre as águas tranquilas,
enquanto singram, em filas,
peixinhos de cores amáveis.
Vão e vêm, serpenteiam,
em compassos de ballet.
Seus lentos gestos penteiam
madeixas que ninguém vê.
Com barbatanas calçadas
e pulmões a tiracolo,
roçam-se os homens no solo
sob um céu de águas paradas.
Sob o luminoso feixe
correm de um lado para outro,
montam no lombo de um peixe
como no dorso de um potro.
Onde as sereias de espuma?
Tritões escorrendo babugem?
E os monstros cor de ferrugem
rolando trovões na bruma?
Eu sou o homem. O Homem.
Desço ao mar e subo ao céu.
Não há temores que me domem
É tudo meu, tudo meu.

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António Gedeão – “Mãezinha”

01.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A terra de meu pai era pequena
e os transportes difíceis.
Não havia comboios, nem automóveis, nem aviões, nem misséis.
Corria branda a noite e a vida era serena.

Segundo informação, concreta e exacta,
dos boletins oficiais,
viviam lá na terra, a essa data,
3.023 mulheres, das quais
45 por cento eram de tenra idade,
chamando tenra idade
à que vai do berço até à puberdade.

Vinte e oito por cento das restantes
eram senhoras, daquelas senhoras que só havia dantes.
Umas, viúvas, que nunca mais (oh! nunca mais!) tinham sequer sorrido
desde o dia da morte do extremoso marido;
outras, senhoras casadas, mães de filhos
(De resto, as senhoras casadas,
pelas suas próprias condições,
não têm que ser consideradas
nestas considerações.)

Das outras, 10 por cento,
eram meninas casadoiras, seriíssimas, discretas,
mas que por temperamento,
ou por outras razões mais ou menos secretas,
não se inclinavam para o casamento.

Além destas meninas
havia, salvo erro, 32,
que à meiga luz das horas vespertinas
se punham a bordar por detrás das cortinas
espreitando, de revés, quem passava nas ruas.

Dessas havia 9 que moravam
em prédios baixos como então havia,
um aqui, outro além, mas que todos ficavam
no troço habitual que o meu pai percorria,
tranquilamente no maior sossego, às horas em
que entrava e saía do emprego.

Dessas 9 excelentes raprigas
uma fugiu com o criado da lavoura;
5 morreram novas, de bexigas;
outra, que veio a ser grande senhora,
teve as suas fraquezas mas casou-se
e foi condessa por real mercê;
outra suicidou-se
não se sabe porquê.

A que sobeja
chama-se Rosinha.
Foi essa que o meu pai levou à igeja.
Foi a minha mãezinha.

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Graça Pires – “Quero uma casa…”

30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

casa

Quero uma casa com paredes azuis,
com varandas vidradas sobre a noite.
Um abrigado lugar no eixo do silêncio.
Um espaço intemporal. Sagrado.
Ancorado perto de um signo lunar,
ou preso a um verão inesperado.
Quero dançar dentro das palavras líquidas:
água, rio, mar, Lágrimas,
talvez o orvalho que escorre pelas árvores de madrugada.
Quero atravessar uma crónica de viagem,
conspirando contra os profetas de marés sobressaltadas,
para não morrer sufocada na engrenagem do medo.
Quero ficar seduzida de uma espera,
no imaginário dos que sonham,
e gritar a idade circular de qualquer afecto.
Quero amar o pretexto branco dos meus olhos
sem precipitar a cor translúcida das raízes
que prendem a noite à palidez do sol na sedução do amanhecer,
e deixar, depois, que um azul extenuado me denuncie.

(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)

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Graça Pires – “No meu país havia…”

30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No meu país havia marinheiros
com braços de tempestade.
Havia um cais e um sonho
ateado em cada mastro.
E havia no vento o chamamento do mar.
Havia no meu país o voo antigo dos pássaros
para adivinhar a sina dos homens.
0 mistério do sangue e do parto
e o uivo das fêmeas em noites com Lua
havia também no meu país.
No meu país havia a terra e a memória
e os cantares de amigo
e a pressentida eternidade das palavras.

(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)

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Graça Pires – “Nocturno”

30.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

À noite vou por aí,
ociosamente.
Percorro um ritual lilás
feito de violetas de pedra
e traço cada pausa
no retorno da lua inicial.
Aqui a memória é lenta
como as angústias.
Muitas vezes vejo árvores
com frutos azuis,
ou animais em nudez perfeita
respirando o vento.
A escuridão é o subterfúgio
inesperado do coração
quando o olhar aquece
e o orvalho é de cetim.
Há máscaras de búzios e limos
na cara de quem passa.
Nas suas vozes ouço o itinerário
das manhãs siderais
e nasce nos meus passos
o rumo da via láctea.
Ninguém me conhece.
Venho do arco-íris
e trago nos dedos
o ângulo transparente da noite.

(“Poemas Escolhidos – 1990-2011” Ed. da Autora)

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Maria Andresen – “Piano”

14.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há seres assim que se encerram
nos mais rasos e
desabridos campos onde
placas negras de xisto e rosa
ou grandes massas de pedra por vezes
entreabrindo laminadas estrias acres
sem brandura
esse é o teu hirto gesto
o corpo reduzido a que
suporte apenas o rictus de um olhar
sonâmbulo e fixo e seu
trabalho dobrado sobre
as mãos escusas
já não carne: apenas
o espírito desse vento descampado
em tão cerrada e rente
soletração do tempo
tudo o mais é acre e breve riso
palavras ociosas e agitadas
(como se por elas
de tão brancas terras
te afastasses)

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Maria Andresen – “Olhar”

14.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olhá-los-ás sempre iluminados e partidos
aquele que te quer
e querendo te não quer
mesmo que queira
passareis assim num passeio ao longe
por tua altivez criados e ausentes
tal como uma luz certeira e crua
te ordena
à inclinação que as horas determinam
e no entanto suspendeste
por vezes a olhar como se
inquebrado
alguém irrompesse contra a luz:
a sua queda e sua ordenação
nunca e sempre será
um tempo sem baínha
quando ter-te e não te ter
tão perto e longe

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Amadeu Baptista – “A noite cai”

10.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A noite cai e o poeta parte para a cidade.

O alforge vai cheio de sedimentações, beringelas,

leiras de feijão, e um potente holofote,

para iluminar o tempo.

Recém-chegado da província, cabe-lhe 

manusear o livro, o alfa, o ómega, ainda que 

abomine tanto tumulto, tantos carros que 

passam, tanto grito,

e se creia um centauro nas avenidas novas. Os

bairros, as áleas rectilíneas, ampliam a 

indiferença, havendo em tudo um poder

infernal de crateras sobre os muros, destroços

nas janelas, marchas forçadas,
 farpas.

(Do livro “Atlas das Circussntâncias” . Ed. “Lua de Marfim”)

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Maria Teresa Dias Furtado – “Relógio com caixa”

10.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Para Isabel Wolmar)

Numa caixa se guarda
o tempo do mundo
e os ponteiros deslizam
sobre os meridianos.
A flor-de-lis circunda
o tempo medido.
No bordo da tampa
dromedários e palmeiras
narram um percurso;
Na cercadura de baixo
as flores do deserto
aproximam-nos da água.
Avança a hora para o infinito
serenamente, sem rumor nem grito:
A cada um o seu tempo, a ser vivido desperto.
Momentos passados dourados, dobrados,
circum-navegação e nova rotação
transladando figuras e cenários.
E livremente pulsa o coração
mergulhado no centro a cada hora, minuto, segundo,
tic-tac do mundo.
Tempo dado, doado
para viver momento a momento
a flor, o fruto, o pensamento.

(Do livro “O arco do tempo” – Ed. Lua de Marfim)

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Agripina Costa Marques – “A voz…”

09.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A voz – mensageira virtual
em sua interioridade: lugar de enigmas.
E suas margens para o desconhecido
o exterior de si:
istmo que a conduz
ao mundo intermédio da audição
onde ela se revela ou clarifica
como o sol rompendo a região da sombra
até a aurora.
Por vezes é apenas um murmúrio de água
e pelo silêncio se reverte à contemplação.

(Do livro “Morada Recôndita” – Ed. Lua de Marfim)

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Rossini – “Abertura da ópera Guilherme Tell”

07.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP

Hoje vamos ouvir um dos grandes trabalhos de Rossini.
Trata-se da abertura da ópera Guilherme Tell, uma ópera romântica estreada em Paris no ano de 1829.
Rossini foi um apaixonado pela ópera e transpôs para o teatro lírico o seu temperamento de homem alegre que soube aproveitar toda a beleza da vida.
Tinha nove anos quando começou a receber lições de trompa dadas por seu pai trompetista na Academia de Bolonha. Mais tarde, um cónego de grandes conhecimentos também ensinou música ao futuro compositor, nos intervalos das suas obrigações sacerdotais.
E Rossini não se fez rogado com as lições que recebeu; aos 14 anos entrou para a escola de música de Bolonha e compôs a sua primeira ópera, Demetrio e Policio.
Guilherme Tell foi a última grande obra do compositor que lhe requereu mais energia e esforço do que qualquer outro trabalho.
Fiquemos com esta tão conhecida “abertura”.
Ouvimos “Música para quem gosta de POP. Hoje, com Rossini.

Execução da London Festival Orchestra, conduzida por Alfred Scholz.

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Pedro Barão de Campos – “Fronteira impossível”

06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acorda-me o chilrear primaveril
E a noite já passou
Mais uma que ficou guardada na prateleira de velharias dispersas e indiferentes
À deriva do tempo.

Dei voltas à cabeça
Em murmúrios inocentes
No céu, um balão de ar quente colorido, chama por mim
Mas as minhas asas estão estragadas
Tenho a esperança rasgada
E não acredito mais na força do vento
Acho que ficarei por aqui.
Nada mais faria sentido!

Amanhã, quando acordar de novo
Poderei ter algo mais para sonhar
Se sonhar contigo, terei certamente um sorriso a procurar…

Linhas arbitrárias de nuvens no céu
Dão voltas a um azul de fundo
Onde o esboço do teu semblante acontece

Acontece porque estou a olhar o céu
E o teu semblante, na verdade, está dentro de mim
Não está no céu nem nas nuvens,
Está em mim.

Porque é que existem linhas que nos desmontam em pedaços?
Para quê a força do muro ou o frio do betão?
Se existem fronteiras de impossível mais gélidas e sombrias…
Que nos impedem de existir.

De relance, fito o horizonte.
Ao fundo do céu azul há um jardim infantil com crianças a saltar e há cães a correr atrás de bolas, pássaros a esvoaçar com a delicadeza de uma bailado sublime e baloiços em movimento com almas em estridente harmonia… e a relva verde… brilhante… com a banda sonora de gritos felizes…
E eu… longe… não encontro limites à alegria…
A não ser em mim.

Ao menos, se eu pudesse ser de novo uma criança pequena e brincar livremente com os outros meninos
… Aprender a saltar, a dançar, a ser alegre como os outros meninos são.
E poder, quando caio do cavalinho de madeira,
Ir correr a chorar, ao encontro da paz tranquilizante do colo da minha mãe.

Gostava de ter sido como todos os outros são.
E agora, certamente estaria a dar-te a mão, a olhar para ti,
Em vez de ser um poeta isolado, diferente e vazio.

Amanhã, soltar-me-ei dessa fronteira impossível
Serei estrangeiro ainda
Mas só na memória dos sonhos.

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Pedro Barão de Campos – “Deslumbre”

06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deslumbre
Em ti, sublime
Afasto-me ao aproximar-te de mim.

A cada cortina de vento
O esboço ondulante do teu cabelo
Contornos de tudo
E a paisagem do mundo
É o que encontro em ti.

Na boca invento uma janela
Nos olhos, a doçura selvagem do teu sentir
A pele é a fronteira
De um universo inteiro
Por descobrir
E as mãos
Sempre as tuas mãos
Divagantes, voadoras, agitando a alegria pelo ar vazio
Como asas
Como melodia
De um som
Impossível para mim…

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Pedro Barão de Campos – “Cavalinho de brincar”

06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

No meu cavalo de brincar
Sempre em frente
Cavalgo sem parar
Não tem fome nem tem sede
Alimenta-se de pensar!
É assim…
O meu cavalinho de brincar.

No recreio da escola
Sempre de um lado ao outro
A galope, a galope
Impossível de parar
Acompanha-me o vento
Nesta corrida de sonhar!
É assim…
O meu cavalinho de brincar.

Perto da porta da tua sala
A trote, resguardo a dança no limite.
Crinas esvoaçando, orelhas caídas,
Deslumbrante o teu olhar.
É sorridente, o meu semblante,
Perto de ti, contornando barreiras invisíveis…
Sou assim, à tua porta,
No meu cavalinho de brincar.

Num salto imaginário
Até ao início do nada
Nuvens de algodão embelezam de claridade o teu lugar!
Corcel de arco-íris…
Percorre cada passada a relinchar
E eu, assim, só a procurar por ti, no silêncio…
Cavalgando… cavalgando…
No meu cavalinho de brincar.

Fruto da tua cor
Imerso no teu paraíso interior
Adormeço com esse passeio no meu pensamento!

Feito da tua imaginação
Um mensageiro atravessa reinos num teatro de alegria
Por bosques, riachos, desertos e montes,
Transpondo declives e rochedos
Com os seus cascos de ventania.

Sei que amanhã já não haverá cavalinho.
Amanhã, terei sofrido demasiado para poder brincar.
Amanhã, terá desaparecido a tua imaginação.
E longe, impossível de alcançar…
Caminharei apenas…
À frente da porta da sala onde antes estavas
Ficarei ali, imóvel, estarrecido, a procurar… e a sonhar
Que a pessoa imaginada, em frente ao quadro branco,
Eras tu a cuidar
Do nosso cavalinho de brincar.

Olhei em redor,
Procurei melhor,
Não, não eras tu,
Era só o passado a regressar.

Era só eu a acreditar.
Em ti.
Acabou.

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Pedro Barão de Campos – “Liberta-me de tudo”

06.10.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Solta-te
Liberta-me de tudo
E deixa-me vazio…
Um recipiente abandonado
Numa estrada por onde a guerra já passou.

Solta-te
Deixa-te ir num fluir que já não há
Ser talvez o que já não podes ser
E acontecer-te nunca e sempre
Numa espera que não alcança.

O que faço aqui, a olhar para ti?
Foi sempre assim?

Percorri tantas vezes o caminho mais difícil para te encontrar
Escondi-me tantas vezes
Fugi…!
Para quê?
Porquê?

Talvez, na sombra, entenda melhor o efeito da luz sobre os corpos
Talvez, ao relento, com o vento a massajar-me o pensamento
Encontre o inevitável fascínio
De uma montanha em aguarela colorida
E a tua figura como medida
Da excitação fulgurante e febril…
Do teu sorriso sublime.

Mas, porquê?
Porquê, gostar assim tanto de ti?

Solta-me, pensamento cruel!
Liberta-me de tudo!
Deixa de existir em mim!

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Loja da Raposa

28.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Com uma rija festa, virtual, entenda-se, abriu ontem, 27 de Setembro de 2012, a Loja da Raposa, braço comercial, logo interesseiro, deste Estúdio, onde tudo é gratuito. Mais de meia centena de amigas e amigos, participaram nos festejos da inauguração e, claro, da abertura de portas ao público
Porém, o que lá se pode adquirir, não encontra aqui. Por exemplo, já pode comprar a “Coletânea de Poesia Portuguesa I volume – Poesia Medieval” em formatos populares (PDF, ePub e MOBI). A edição do iBook, assim como das versões mais acessíveis, é um excelente trabalho de André Gaspar, editor oficial Apple e Amazon. Por isso recomendo-lhe uma visita à Loja da Raposa. Encontra-a aqui

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“Coletânea de Poesia Portuguesa – I volume”

28.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há várias semanas que foi publicado o iBook “Coletânea de Poesia Portuguesa -I volume – Poesia Medieval”. Este livro eletrónico, vendido no iTunes-Book Store, só pode ser “lido” e “ouvido” (contém 35 declamações de poemas de autores medievais) num iPad, o que limita o número de possíveis leitores. Conto, brevemente, disponibilizar o livro em formatos mais acessíveis (PDF, ePub e MOBI), embora de menor qualidade técnica, uma vez que os iBook, são o melhor que se produz, atualmente.

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Tchaikovsky – “Concerto nº 1 para piano, OP. 23”

21.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky
Muito se escreveu sobre o compositor Tchaikovsky nascido na Rússia no ano de 1840. Educado pelos modelos convencionais da classe média da época, cedo demonstrou aptidão para o piano tendo recebido – a par dos seus estudos na Faculdade de Direito – lições de música no Conservatório de São Petersburg até aos 22 anos de idade. Aos 25 anos realizou o seu primeiro concerto em público.
A música de Tchaikovsky não se identificava com quaisquer outras dos grandes compositores contemporâneos – Borodin, Mussorgsky, Rimsky-Korsakov – e nos tempos de agora parte da sua obra podia considerar-se original.
A sua personalidade introvertida repudiava firmemente a ideia de qualquer contacto intimo com outras pessoas embora fosse propenso a estados apaixonados.
Durante treze anos correspondeu-se com uma viúva abastada, de meia idade, que lhe correspondia com grande paixão. A determinada altura passou a conceder-lhe uma pensão de 6000 rublos anuais (opcinal; algum ouvinte faça a conta de quanto podia equivaler esta fortuna nos dias de hoje) que dava e sobejava para o compositor viver folgadamente. Mas a viúva nunca conheceu pessoalmente o compositor nem este mostrou interesse numa relação com a sua mecenas.
Um dia Tchaikovsky já com 37 anos, recebeu uma carta de amor de uma sua aluna que tinha apenas 20 anos de idade; Antonina Milyukova. O compositor passou a ser bombardeado com cartas arrebatadores e Antonina não vendo da parte do músico qualquer reacção às suas suplicas de amor ameaçou suicidar-se. Casaram-se, mas o casamento foi um desastre; Tchaikovsky na primeira noite da lua-de-mel achou-a fisicamente repulsiva e abandonou-a.
Tempos mais tarde Antonina deu entrada num manicómio.
Falaremos mais sobre este músico em futuros programas, mas fiquemos hoje com o seu famoso Concerto nº 1 para piano, Op. 23, interpretado por Ida Czernecka, ao piano.
Ouvimos música para quem gosta de POP. Hoje Tchaikovsky

Orquestra do Festival de Londres conduzida por Laurance Siegel

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Guerra Junqueiro – “A moleirinha”

19.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pela estrada plana, toque, toque, toque, 

Guia o jumentinho uma velhinha errante.

Como vão ligeiros, ambos a reboque, Antes 

que anoiteça, toque, toque, toque, A 

velhinha atrás, o jumentito adiante!…

Toque, toque, a velha vai para o moinho, 

Tem oitenta anos, bem bonito rol!… E 

contudo alegre como um passarinho, Toque, 

toque, e fresca como o branco linho, De 

manhã nas relvas a corar ao sol.

Vai sem cabeçada, em liberdade franca, O 

jerico ruço duma linda cor; Nunca foi
ferrado, nunca usou retranca, Tange-o, 

toque, toque, a moleirinha branca Com o

galho verde duma giesta em flor.

Vendo esta velhita, encarquilhada e benta, 

Toque, toque, toque, que recordação! Minha

avó ceguinha se me representa… Tinha eu 

seis anos, tinha ela oitenta, Quem me fez o 

berço fez-lhe o seu caixão!…

Toque, toque, toque, lindo burriquito, Para

as minhas filhas quem mo dera a mim! Nada

mais gracioso, nada mais bonito! Quando a 

virgem pura foi para o Egipto, Com certeza 

ia num burrico assim.

Toque, toque, é tarde, moleirinha santa!

Nascem as estrelas, vivas em cardume…

Toque, toque, toque, e quando o galo canta, 

Logo a moleirinha, toque, se levanta, Pra 

vestir os netos, pra acender o lume…

Toque, toque, toque, como se espaneja, Lindo 

jumentinho pela estrada chã! Tão ingénuo e

humilde, dá-me, salvo seja, Dá-me até vontade 

de o levar à igreja, Baptizar-lhe alma, prà 

fazer cristã!

Toque, toque, toque, e a moleirinha antiga, 

Toda, toda branca, vai numa frescata… Foi 

enfarinhada, sorridente amiga, Pela mó da 

azenha com farinha triga, Pelos anjos loiros 

com luar de prata!…

Toque, toque, como o burriquito avança! Que

prazer doutrora para os olhos meus! Minha 

avó contou-me quando fui criança, Que era

assim tal qual a jumentinha mansa Que adorou

nas palhas o menino Deus…

Toque, toque, é noite… ouvem-se ao longe os sinos,

Moleirinha branca, branca de luar!… Toque, toque,

e os astros abrem diamantinos, Como 

estremunhados querubins divinos, Os olhitos

meigos para a ver passar…

Toque, toque, e vendo sideral tesoiro, Ente 

os milhões d’astros o luar sem véu, O 

burrico pensa: Quanto milho loiro! Quem 

será que mói estas farinhas d’oiro Com a 

mó de jaspe que anda além no Céu!

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Liszt – “Rapsódia Húngara nº 3”

10.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP

Franz Liszt tinha apenas nove anos quando deu o seu primeiro concerto público, deixando a assistência aristocrática e melómana fascinada pelo menino prodígio.
Foi tal o êxito que criaram um fundo para financiar os estudos de Liszt. Seu pai – que tocava na perfeição vários instrumentos – abandonou a ocupação de administrador de uma grande herdade para viajar com o filho para Viena.
Chamavam-lhe “Mozart ressuscitado” pela extraordinária facilidade com que arrancava sons mágicos ao piano.
No final duma grande digressão pela Inglaterra, Liszt – de saúde débil – ficou esgotado e teve que cancelar alguns concertos para um merecido descanso, mas seria seu pai a falecer de febre tifóide numa viagem de “cura marítima” que quis proporcionar ao seu filho.
Frantz Liszt casa com Marie d’Agoult da qual veio a ter três filhos, mas a sua figura esbelta deu-lhe fama de irresistível, produzindo aquilo que se propagou pela Europa inteira; a “Lisztamania”
É dessa vida amorosa que falaremos num dos próximos programas.
Por hoje apreciem a Rapsódia Húngara nº 3 interpretada pela Orquestra Sinfónica da Rádio de Ljubljana.
Ouvimos, música para quem gosta de POP. Hoje, Liszt.

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História 176 – “As lebres e as rãs”

09.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

História 176 – “As lebres e as rãs”

Andando a passear um grupinho da família das Lebres, desencadeou-se uma tempestade tão repentinamente que todos os bichinhos que andavam fora das suas casas correram a abrigar-se, enquanto o céu escurecia, o vento sacudia as árvores e a chuva caía em torrentes.
Assustadiças como eram, as meninas Lebres gritaram e puseram-se a correr tão apavoradas, que nem sabiam para onde iam. Correndo como loucas, quase se afogaram numa poça enorme que havia num descampado e onde vivia uma família de rãs. Andavam elas cá fora, a dar uma volta para abrir o apetite para o jantar, quando viram as Lebres aproximar-se em grande correria. Julgaram que iam ser atacadas e tiveram tal medo que, de um salto, umas dezenas delas se atiraram para a água e foram esconder-se bem no fundo da poça.
À vista daquele quadro inesperado, as Lebres pararam e puseram-se a olhar umas para as outras, cheias de pena.
— Coitadas das rãs! — comentaram. — Tiveram tanto medo de nós, como se nós fizéssemos mal a alguém, e afogaram-se! Afinal, para metermos medo a alguém, é porque há quem seja mais medroso do que nós…
Entretanto, a tempestade passou, o sol brilhou no céu e as árvores começaram a agitar os ramos brandamente. Voltara a calma e, ao regressarem a casa, as meninas Lebres admiravam-se de se terem assustado com tão pouco.

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Fernan Fernandez Cogomilho

02.09.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar


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Verdi – “Nabuco”

28.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Música para quem gosta de POP

Falemos hoje de Verdi, do grande Giuseppe Verdi.
Já aos 12 anos este génio tocava órgão numa igreja de Le Roncole pequena aldeia no norte de Itália, enquanto estudava flauta, clarinete baixo, trompa e piano.
Em 1839, no Teatro de La Scala estreou com grande êxito a sua primeira ópera “Oberto”.
Entretanto passou por terríveis contratempos; a morte dos seus dois filhos e da própria mulher que adorava.
A depressão abalou profundamente o compositor, mas o director do Scala encomenda-lhe  uma ópera baseada num episódio bíblico relacionado com o cativeiro dos judeus nos tempos de Nabucodonosor. Assim nasceu “Nabuco” que o tornou famoso de um dia para o outro.
Giuseppe Verdi não brincava aos “corais” e nesse tema para coral e orquestra que hoje vamos ouvir (Vai, pensamento, sobre asas douradas), é bem audível a força brutal dum conjunto de 4 vozes (Sopranos, Mezzos, Tenores e Baixos) onde não existem estrelas; apenas muitas vozes que se complementam.
Falaremos ainda deste compositor numa próxima oportunidade para notarmos da importância do nome “VERDI” num grito nacionalista que levou à unificação da Itália.
Antes de morrer Giuseppe pediu a maior simplicidade nas suas exéquias, mas a multidão que invadiu o cemitério milanês entoou este comovente coro de Nabuco.
Fiquemos pois com “Va pensiero” interpretado pelo coro e orquestra de Budapeste.

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João Soares Coelho – “Luzia Sanchez”

27.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

João Soares Coelho (1200-1278) foi um Rico-homem e cavaleiro
medieval do Reino de Portugal e do conselho real do rei D. Afonso III.

Luzia Sánchez, estais em grande falta
comigo, que nom fodo mais nada senão
uma vez; e, pois fodo, se Deus me valer
fique disso afrontado bem por três dias.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Vejo-vos deitar comigo muito defraudada,
Luzia Sánchez, porque não fodo nada;
mas se eu com isso vos satisfizesse,
pois eu foder não posso, peidar-vos-ia.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deu-me o Demo esta pissuça cativa,
que já nem pode cuspir saíva
e, de certo, parece mais morta que viva,
e se lh’ardess’a casa, não s’ergueria.
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

Deitaram-vos comigo para mal dos meus pecados
pensais de mi coisas tão desconcertadas,
cuidais dos colhões, que tragu’inchados,
porque o são com foder e é com doenças
Por Deus, Luzia Sánchez, Dona Luzia,
se eu vos pudesse foder, foder-vos-ia.

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Jorge Aguiar – “Coração que repousavas”

27.08.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Alcaide-mor da fortaleza de Zagala, por carta de nomeação de
14/03/1478, Jorge de Aguiar foi capitão de uma armada que
partiu para a Índia, em 1508, e se perdeu nas ilhas Tristão da
Cunha.

Esforça meu coração,
não te mates, se quiseres:
lembra-te que são mulheres.
Lembra-te qu’está por nascer
uma que não errasse;
lembra-te que seu prazer,
por bondade e merecer,
não vi quem dele gostasse.
Pois não te dês a paixão,
toma prazer, se puderes
lembra-te que são mulheres.
Descansa, triste, descansa,
que seus males são vinganças;
tuas lágrimas amansa,
deix’ as suas esperanças;
porque, pois nascem sem razão,
nunca por ela lh’ esperes;
lembra-te que são mulheres.

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