Weber – “Coro dos Caçadores”
27.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP. Texto e seleção musical de Luís Pinto.
27.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP. Hoje, Weber
O som do clarinete é um convite ao sonho, à reflexão e aos sentimentos românticos.
Por isso não nos devemos admirar da importância que este instrumento, a par de outros, fosse tão utilizado por Weber. Este compositor alemão percursor da ópera alemã em detrimento do usual idioma italiano, foi um homem romântico e as suas composições são influenciadas pela sua própria natureza.
Nasceu em Novembro de 1786, mas não foi um menino prodígio, contrariamente ao que a família pretendia. Tinha três anos quando começou a receber lições dum seu meio-irmão que lhe chegou a dizer “Poderás vi a ser muita coisa, mas nunca serás músico”. Estava enganado porque Weber – que tinha ainda uma excelente voz – recebe a primeira encomenda de uma ópera aos vinte anos de idade. Deste seu primeiro trabalho pouco resta.
Com 26 anos aceitou o convite para exercer funções de director da Ópera de Praga onde veio a conhecer Caroline sua futura mulher tão romântica quanto ele. Vivendo quase sempre com grandes dificuldades económicas apenas se puderam casar dois anos depois quando foi nomeado director da Ópera de Dresden.
“O Caçador Furtivo” cuja área “Coro de Caçadores” para coral vos oferecemos hoje, foi um êxito retumbante.
O mesmo veio a acontecer com a ópera “Oberon” estreada em Londres em 12 de Abril de 1826.
Sofrendo de tuberculose desde 1818 Weber foi aconselhado a não continuar com as viagens e a sua febril actividade, mas dois meses após a estreia de “Oberon” o compositor foi encontrado morto no seu quarto.
Ouvimos música para quem gosta de POP: hoje com Weber
(Coro e orquestra da Ópera de Budapeste, dirigida por Josif Conta)
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20.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Acordo para mais um dia. Custa a respirar.
O sol já não brilha como dantes. O horizonte marca-se a cinza.
Já nada faz sentido. Os segundos arrastam-se no relógio. Até o tempo marca passo.
Não te vejo. Somos uma sombra do que fomos. Outrora…
Sempre fomos tão errados um para o outro. Água e azeite.
Mas fazes parte de mim. Como o Sol e a Lua, jogando às escondidas.
Talvez por isso, já não falamos. Já mal olhamos um para o outro
Como o Sol e a Lua somos eclipse. E mesmo assim…
És o meu mundo. Sem ti, nada funciona.
Os dias arrastam-se. Não vejo, Não ouço. Não sinto o gosto da vida.
Falta-me o equilibrio. Falta-me o ar. Faltam-me as palavras.
Falta-me a coragem para te abraçar, com medo que me rejeites.
E mesmo assim…amo-te.
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19.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História tradicional Portuguesa gravada em 2 de Fevereiro de 2006.
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17.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História tradicional Portuguesa gravada em 23 de Janeiro de 2.006.
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16.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Repondo um a história gravada em 2.006.
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15.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Música para quem gosta de POP.
Já aqui falámos de Giuseppe Verdi quando transmitimos a ária “Va Pensiero” da ópera Nabuco.
Hoje voltamos a ouvir um dos maiores compositores do teatro lírico de todos os tempos.
Verdi veio ao mundo no dia 9 de Outubro de 1813 num lugarejo praticamente desconhecido no Ducado de Parma e, como a região ainda se encontrava dominada pela administração francesa, foi baptizado com um nome francês (Joseph Fortunin François). Às portas do seu primeiro ano de vida a sua existência foi seriamente abalada e, se não fora sua mãe esconder-se com ele no alto duma torre, tinha perecido às mãos da soldadesca áustro-russa que entrou de rompante na sua aldeia natal, expulsou os Franceses e dizimou a população civil.
Talvez este episódio tivesse incutido na criança um espírito de revolta. Havia que unificar a sua Itália e o compositor identificou-se com o “Movimento pela Unidade Italiana”.
O grito de guerra “VIVA VERDI” escreveu-se pelas paredes de todas as aldeias e cidades do norte de Itália dominado pelos Austríacos. Estes não se aperceberam que esta bonita frase não era propriamente para aclamar o compositor, mas o rei que Itália inteira queria no trono: Vittorio Emmanuele Re D’Italia – “V.E.R.D.I.”
Hoje vamos ouvir uma ária para coral da ópera “O Trovador”, estreada no Teatro Apolo de Roma em 19 de Janeiro de 1853. A estreia triunfal deste trabalho foi rodeada por um episódio quase absurdo. Os censores eclesiásticos alarmados histericamente com o suicídio de Leonora não se calavam; e foi retirada a cena onde a principal personagem feminina bebia o veneno muito bem guardado no seu anel. Remédio santo.
Ouvimos, Música para quem gosta de POP, hoje com Verdi.
(Coro e Orquestra de Budapeste, conduzida por Josif Conta)
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14.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Versão do “Capuchinho Vermelho” em história tradicional Portuguesa.
Gravada em 2006.
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13.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História tradicional Portuguesa gravada em 2006
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12.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História tradicional Portuguesa, gravada e disponibilizada em 5 de Janeiro de 2006.
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10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Soldado raso
ao cimo da calçada
em guarda
de flor e farda
a flor que te damos
é pão da madrugada
É pão amassado
sem liberdade
é gesto de guerra
em nome da paz.
É flor de canção
em terra mar e ar
rubra flor popular
num só cano de espingarda
Soldado raso
em sentido na memória
lembra-te de novo e sempre
a flor que te damos
é da terra é do povo
é pão da madrugada.
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10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Este é o meu canto civil
canto cívico graduado
desde um tempo antigo que vivi
entre poemas de aço camuflados e algemas de silêncio
Esse era o tempo do assalto às casernas
mas já então eu escrevia o que devia:
a cartilha da guerrilha do amor e da paz
para ser ensinada à luz das lanternas
nas escolas nas igrejas na parada dos quartéis
Este é o meu canto civil
canto cívico desfardado
escrito a vinte e oito de Abril
do ano passado à noite
de punho cerrado com alegria e sem espanto
canto para ser cantado de dia
por todos por muitos por mim ou por ninguém
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10.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira
Espero-a inteira
Como frutos à beira
Da fome de alguém
Espero-a inteira
Nesta fome que vem
Só das tuas para as minhas mãos
Minhas mãos geladas
Minhas mãos suadas
Em rebentos de cada esforço
Descarnadas mãos
De que já riu a ferrugem das grades
Minhas mãos abertas para que creias
Mãos suadas e novamente suadas
Mãos capazes de enxertar veias
A polpa secreta
Das tuas mãos
Espero-a inteira inteira
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09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O tempo é um velho corvo
de olhos turvos, cinzentos.
Bebe a luz destes dias só dum sorvo
como as corujas o azeite
dos lampadários bentos.
E nós sorrimos,
pássaros mortos
no fundo dum paul
dormimos.
Só lá do alto do poleiro azul
o sol doirado e verde,
o fulvo papagaio
(estou bêbedo de luz,
caio ou não caio?)
nos lembra a dor do tempo que se perde.
Carlos de Oliveira, in “Colheita Perdida”
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09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Os dentes, porque são dentes,
iniciais. Na espuma,
porque não são saliva
estas ondas
pouco mordentes; este
sal que sobe quase
doce; donde?
Numa espécie
de fogo: amor é fogo
que arde sem se ver;
porque não é
de facto fogo este frio aceso;
da saliva à lava
passa pela espuma.
Só os dentes.
Duros, ácidos, concentram-se
tacteando a pele,
tatuando signos sempre
moventes
de fúria. Mordida
a pele cintila; espelho
dos dentes, do seu esmalte voraz;
suavemente.
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09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.
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09.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Para ti, meu amor, é cada sonho
de todas as palavras que escrever,
cada imagem de luz e de futuro,
cada dia dos dias que viver.
Os abismos das coisas, quem os nega,
se em nós abertos inda em nós persistem?
Quantas vezes os versos que te dou
na água dos teus olhos é que existem!
Quantas vezes chorando te alcancei
e em lágrimas de sombra nos perdemos!
As mesmas que contigo regressei
ao ritmo da vida que escolhemos!
Mais humana da terra dos caminhos
e mais certa, dos erros cometidos,
foste de novo, e sempre, a mão da esperança
nos meus versos errantes e perdidos.
Transpondo os versos vieste à minha vida
e um rio abriu-se onde era areia e dor.
Porque chegaste à hora prometida
aqui te deixo tudo, meu amor!
Carlos de Oliveira, in “Poesias”
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07.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
História 177 – O Mocho e o Lobo
O lobo andava no mato e o mocho estava em cima de um pinheiro no ninho.
O lobo enroscou o rabo no pinheiro como quem o queria serrar. O mocho de cima disse-lhe:
— ó compadre, não me serres o pinheiro, senão os meus
filhos caem abaixo e morrem.
Responde o lobo:
— Pois se não queres que eu serre o pinheiro, anda tu cá
abaixo.
O mocho não queria, mas afinal sempre veio vindo de galho em galho, e depois disse para o lobo:
Lobo, o que queres de mim?
O lobo respondeu:
Anda cá mais abaixo, que quero dizer-te um recado.
O mocho respondeu:
Diz daí, que eu ouço bem.
O lobo tornou a dizer:
Anda cá, que eu não te faço mal.
O mocho descuidou-se e desceu, e o lobo passou-lhe os dentes e meteu-o na boca.
O mocho de dentro da boca do lobo disse:
— Eh! Compadre, não me comas, que eu quero fazer testamento!
O lobo disse-lhe:
— Não, mas agora no galheiro estás tu.
Diz o mocho:
— Então deixa-me ir despedir-me lá acima da árvore dos
meus filhos.
O lobo disse:
— Não, que, depois, nunca mais voltavas.
Disse então o mocho:
— Olha, ao menos hás-de dizer três vezes, que é para eles
saberem: Mocho comi.
O lobo disse muito baixinho, para não abrir a boca: Mocho comi.
O mocho disse-lhe:
— ó compadre, fala mais alto, senão não ouvem.
O lobo tornou a repetir: Mocho comi, já mais alto. Responde o mocho:
— Mais alto, senão eles não ouvem.
Nisto o lobo escachou a boca para gritar mais alto e dizer: Mocho comi.
O mocho, mal apanhou a boca aberta, abalou para cima do pinheiro e disse-lhe:
— Outro sim, que não a mim.
Ouvimos a História 177, o Mocho e o Lobo.
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03.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Espantoso mal me atingiu
um dia, quando não esperava;
tudo o que é Lei infringiu,
toda a Razão me fugiu
e hoje, do Amor sou escrava.
Vou entrar em confidências:
resposta para este Amor
fui procurar nas Ciências;
interrogar sapiências
de físico e pensador.
Ai de mim! Para mal meu,
não explicam esta paixão
nem Freud, nem Galileu,
nem Einstein, nem Ptolomeu,
nem mesmo o próprio Platão!
Corri então os poetas,
li romances com afã;
vidas de heróis e ascetas;
teatro de marionetas,
de Molière e de Rostand…
Continuei, pressurosa;
li Voltaire, li Descartes,
Nietzsche, Cervantes, Espinoza…
Qualquer poesia ou prosa,
filosofia ou arte.
Corri todos os museus,
exposições e concertos.
Vi Picasso, admirei Zeus,
ouvi Wolfgang Amadeus –
obras completas e excertos…
Estudei as religiões,
tantas quantas achar pude;
e fiz peregrinações,
jejuns e meditações…
Li a Bíblia e o Talmude.
O Alcorão li também,
e, para salvar a alma,
dei esmolas, fiz o bem;
mas não pude encontrar quem
me restituísse a calma…
Procurei na Biblioteca,
do Mar Morto, os manuscritos;
mas, mesmo virada a Meca,
não me surgiu um Eureka!
da leitura desses escritos…
Estudo a Pedra de Roseta,
já sei Sânscrito e Latim,
vão correndo a ampulheta
e a clépsidra obsoleta
nesta pesquisa sem fim…
Quer de noite, quer de dia,
devoro, afincadamente,
Matemática, Poesia…
História e Antropologia
leio até ficar doente…
Já ninguém me reconhece,
nem pais, nem primos, nem tias.
O tino já me falece,
já tenho a espinha em s
e subi dez dioptrias!
Ao microscópio analiso
as lágrimas que chorei…
E um relatório conciso
cada noite realizo
das penas que suportei.
E, telescópio na mão,
noite alta, no firmamento,
procuro a constelação
que se encontra em conjunção
com Vénus, nesse momento…
Infelizmente, porém,
não ponho fim neste enigma;
não resolvo esta equação;
e, nem por integração,
acho alfa, gama ou sigma…
Desde a Relatividade
à Teoria do Eu,
procurei com ansiedade
descobrir uma Verdade
que me tirasse do breu.
Já vi no televisor
tudo o que é curso em cassette;
sei operetas de cór;
fui para o computador
e liguei-me à Internet…
Apesar desta procura,
continuei ignorante;
de Amor, o mal não tem cura
e eu, que era tão segura,
vivo hoje periclitante…
E, fartas do turbilhão
que me avassala por dentro,
a Cabeça e a Razão
ordenam ao Coração
que mate este sentimento.
O Coração, no entanto,
responde: “Procurai mais!
Apesar desse quebranto
não me tireis deste encanto
em que também navegais…”
E presa nestes dilemas,
vasculho as Enciclopédias,
equaciono problemas,
demonstro leis, teoremas,
leio farsas e tragédias…
Com tanto estudo, afinal,
tirei três licenciaturas:
Quântica Medieval,
Genética Sideral
E Fisio-Literaturas!!!
E, apesar de não achar
para meu mal solução,
vou, para me graduar,
em breve, tentar tirar
Doutoramento em Paixão…
1994
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02.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Andavam pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Respiravam exaustos como se tivessem
nascido da terra
de dentro das sementeiras.
Beijavam-se magoados
até se magoarem mais.
Um no outro eram prisioneiros um do outro
e livres libertavam-se
para a vida e para o amor.
Vivendo a própria morte
voltavam a andar pela casa amando-se
no chão e contra as paredes.
Então era a música, como se
cada corpo atravessasse o outro corpo
e recebesse dele nova presença, agora
serena e mais pobre mas avidamente rica
por essa pobreza.
A nudez corria-lhes pelas mãos
e chegava aonde tudo é branco e firme.
Aquele fogo de carne
era a carne do amor,
era o fogo do amor,
o fogo de arder amando-se e por toda a casa,
contra as paredes, no chão.
Se mais não pressentissem bastaria
aquela linguagem de falar tocando-se
como dormem as aves.
E os olhos gastos
por amor de olhar,
por olhar o amor.
E no chão
contra as paredes se amaram e
pela casa andavam como
se dentro das sementeiras respirassem.
Prisioneiros libertados, um
no outro eram livres
e para a vida e para o amor se beijaram
magoando-se mais, até ficarem magoados.
E uma presença rica,
agora nova e mais serena,
avidamente recebeu a música que atravessou de
um corpo a outro corpo
chegando às mãos
onde toda a nudez é branca e firme.
Com uma carne de fogo,
incarnando o amor,
incarnando o fogo,
contra o chão das paredes se amaram
pressentindo que
andando pela casa bastaria tocarem-se
para ficarem dormindo
como acordam as aves.
(in ‘Inéditos’)
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02.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não adoro o passado
não sou três vezes mestre
não combinei nada com as furnas
não é para isso que eu cá ando
decerto vi Osíris porém chamava-se ele nessa altura Luiz
decerto fui com Isis mas disse-lhe eu que me chamava João
nenhuma nenhuma palavra está completa
nem mesmo em alemão que as tem tão grandes
assim também eu nunca te direi o que sei
a não ser pelo arco em flecha negro e azul do vento
Não digo como o outro: sei que não sei nada
sei muito bem que soube sempre umas coisas
que isso pesa
que lanço os turbilhões e vejo o arco íris
acreditando ser ele o agente supremo
do coração do mundo
vaso de liberdade expurgada do menstruo
rosa viva diante dos nossos olhos
Ainda longe longe essa cidade futura
onde «a poesia não mais ritmará a acção
porque caminhará adiante dela
»
Os pregadores de morte vão acabar?
Os segadores do amor vão acabar?
A tortura dos olhos vai acabar?
Passa-me então aquele canivete
porque há imenso que começar a podar
passa não me olhas como se olha um bruxo
detentor do milagre da verdade
a machadada e o propósito de não sacrificar-se não construirão ao sol
coisa nenhuma
nada está escrito afinal
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01.12.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genuflectia. E ao acordar
Eu diria “abençoada sejas!”
Sabendo como pretensiosa era a bênção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro …
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro…
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa …
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A planície já pôs sua roupagem
nocturna. Agora dorme, sem sentir,
um sono entre acordada e a dormir.
À noite, o Alentejo é a paisagem
dum brando sonho: a lua mira os olho
ao espelho nos pegos das ribeiras.
Há malteses deitados pelas eiras,
além, uma queimada nos restolhos.
Ouvem-se as rãs nos poços coaxar.
Um cão vigia os gados ao relento
e o pastor dorme à porta da cabana.
Cheio de vultos, grilos e luar
e de rumores e de encantamento,
oh, como é grande a noite alentejana!
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando nós éramos crianças e morria
alguém amigo ou de família, o avô, lembro,
punham-nos uma tarja preta na manga
verde-axadrezada do bibe mais bonito.
Era o fumo no braço – sinal de finados.
O distintivo, o rótulo para certo tempo de luto,
conforme o grau de parentesco, a proximidade.
Era proibido rir, cantar e assobiar,
como se a morte castrasse o sentimento,
ou as lágrimas da vontade despida de chorar.
Não se sabia que não há luto por um grande amigo.
Não se sabia que a dor pode vestir aliviado,
verde, de todas as cores, vermelho e azul,
e pode, naturalmente, chorando, apetecer cantar.
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29.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O que a minha mãe dizia
Não pode ser bem verdade:
Que uma vez emporcalhada
Nunca passa a sujidade.
Se isto não vale pra a roupa
Também não vale pra mim.
Que o rio lhe passe por cima
Breve fica branca, assim.
Como qualquer pataqueira
Aos onze anos já pecava.
Mas só ao fazer catorze
O meu corpo castigava.
A roupa já estava parda,
No rio a fui mergulhar.
No cesto está virginal
C’mo sem ninguém lhe tocar.
Sem ter conhecido algum
Já eu tinha escorregado.
Fedia aos Céus, como uma
Babilónia de pecado.
A roupa branca no rio
Enxaguada à roda, à roda,
Sente que as ondas a beijam:
«Volta-me a brancura toda».
Quando o primeiro me amou
Abracei-o eu também.
Senti no ventre e no peito
Ir-se a maldade pra além.
Assim acontece à roupa
E a mim acontecerá.
A água corre depressa,
Sujidade diz: Vem cá!
Mas quando os outros vieram
Um ano mau começou.
Chamaram-me nomes feios,
Coisa feia agora sou.
Com poupanças e jejuns
Nenhuma mulher se acalma.
Roupa guardada na arca,
Na arca se não faz alva.
E veio depois um outro
No ano que se seguiu.
Vi que me fazia outra
Com o tempo que fugiu.
Mete-a na água e sacode-a!
Há sol, cloreto e vento!
Usa-a, dá-a de presente:
Fica fresquinha a contento.
Bem sei: Muito pode vir
‘Té que nada por fim, fica.
Só quando ninguém a usa
A roupa se sacrifica.
E uma vez que apodreça
Nenhum rio a embranquece.
Leva-a consigo em farrapos.
Um dia assim te acontece.
(in “Canções e Baladas”)
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22.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas
não me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a flor de espiga que desfias,
a água que de súbito
jorra na tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
por vezes com os olhos
cansados de terem visto
a terra que não muda,
mas quando o teu riso entra
sobe ao céu à minha procura
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, na hora
mais obscura desfia
o teu riso, e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
Perto do mar no outono,
o teu riso deve erguer
a sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero o teu riso como
a flor que eu esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
curvas da ilha,
ri-te deste rapaz
desajeitado que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando os meus passos se forem,
quando os meus passos voltarem,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas o teu riso nunca
porque sem ele morreria.
Pablo Neruda, in “Poemas de Amor de Pablo Neruda
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Hoje acordei egípcia
e só ando de lado,
função que com perícia,
pratico há um bocado.
Ando de tanga às riscas,
sandálias de bambu,
um colar de ametistas,
o resto… tudo a nu.
Ao meu pequeno-almoço,
sentada num tripé,
bebi chá de tremoço
e papas de rapé.
Enquanto meu abutre
cantava no quintal,
dei banho a Tot-A-Mut,
minha cobra coral.
Sentei-me numa esteira
a estudar hieroglifos,
mas deu-me uma soneira
e sonhei com três grifos.
Chegou o meu amante,
que me trouxe do Nilo
um colar de diamante
e unhas de crocodilo.
Chamámos dois felás
p´ra nos levarem, às costas,
a casa de Al-Faissaz,
comer umas lagostas,
e, para terminar,
e como era Domingo,
salada de nenúfar,
e um bife de flamingo!
Voltámos para a sesta,
até ao pôr-do-sol,
mas foi tamanha a festa,
rasgámos o lençol…
Acordámos, enfim,
e fomos, num repente,
dançar para o jardim,
uma Dança do Ventre!
À hora em que Amon-Rá
se põe lá em Gizé,
degustámos maná,
fumámos narguilé.
Rezámos a Osiris,
cantámos a Horus,
tomámos banho de íris,
tomilho e alcaçuz.
Pusemos os unguentos
que fazem delirar:
ele, sândalo bento,
eu, rosa e almíscar,
enquanto a serva núbia,
nos ia embalando,
uma ária da Aida
numa lira ensaiando…
E assim aperaltados
lá fomos p´ró banquete,
por Cleópatra chamados
– pois fazia dezassete
aninhos, a menina…
E levámos, de prenda,
um escravo, uma ocarina
e um soutien de renda
todo em crepe da China !!!
Aspásia 99
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se quiseres dedicar
uma estrofe à namorada,
se quiseres (en)levar
a sogra, o primo, a criada…
não tens mais que encomendar:
sou poetisa encartada,
versifico qualquer tema,
faço trova, ode ou poema,
rimo por tudo e por nada.
Faço versos a granel,
ao litro, ao metro, ao quilate,
ternos bolinhos de mel,
bravos galos de combate…
Numa folha de papel,
escrevo tese ou disparate,
em letrinhas de hidromel,
de cicuta ou erva-mate…
Peço a Lili p´ró Manel,
trato divórcio ou engate,
do velho faço donzel,
fel transformo em chocolate…
Da choupana faço hotel;
do albardeiro, alfaiate;
o tolo armo em bacharel,
o recruta em coronel,
e ao Rei… dou xeque-mate.
(Tenho encomendas a rodos,
não posso fazer mais nada…
Poetas querem ser todos
que é casta mui ilustrada…
E lá lhes mostro bons modos,
para aumentar a mesada
à custa dos meus engodos
de poesia alugada…)
Amigo, amiga, não esperes,
deixa o teu nome e morada,
irei ter onde estiveres,
com a caneta afiada…
Se dinheiro não tiveres,
aceito a alma empenhada,
se os versos não entenderes,
faço versão ilustrada…
Ponho em verso o que quiseres,
cativo homens e mulheres,
arranjo empregos, mesteres,…
e não pagas quase nada!…
Leonor 1998
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15.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Estava a sonhar, sabes?,
que éramos dois meninos aí da mesma idade,
de bibes azuis, joelhos esfolados,
e morávamos no mesmo bairro da grande cidade…
Um pouco tontos do sol da manhã,
brincávamos às escondidas e à apanhada
e lanchávamos, a meias, tarte de maçã.
Tu eras para o gorducho e pachorrento,
não eras assim lá muito de pressas…
e eu, magrizela e matreira,
ganhava quase sempre sem grandes chatices.
Então gostava de puxar-te os caracóis
e chamar-te “meu grande paspalhão”,
mas com um certo medo que tu descobrisses
que afinal já eras, entre os meus heróis,
o Principezinho do meu coração.
Às vezes, parecia que me olhavas desconfiado
com uns olhinhos doces por trás duns grandes óculos
e os caracóis colados à testa suada.
Aí, eu disfarçava, tirava o pente do bolso
e penteava-te dizendo: “Então que foi?”
E tu resmungavas: “Não foi nada. É do calor”,
com o teu arzinho sério e atrapalhado.
Então eu derretia, não tanto do calor,
talvez mais, se calhar,
da tua expressão de “homem cheio de azar”…
E murmurava-te ao ouvido, para te consolar,
a mais super-secreta declaração de amor:
“Deixa lá, meu pateta! Amanhã deixo-te ganhar.”
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14.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deixei as certezas na praia
Quando a última onda te levou
E as gaivotas choraram a perda.
Em cada grão de areia
Uma estrela te acolheu
No sal que deixaste preso a mim.
Foste a maré que me trouxe aqui
A saudade de quem parte para a tempestade.
Foste a minha plenitude, a minha verdade.
As marés não pararam o seu balanço.
As gaivotas continuam à tua procura
Na espuma de cada onda que beija a costa.
E eu fico sentado, ali, chorando cada lágrima
Como se mais uma memória tua me sorrisse
E me banhasse na nossa história.
Por fim viajo em mais uma fase da Lua
Regressando sempre ao mesmo lugar
Esta saudade minha e tua será sempre nossa
Seremos sempre nós a navegar.
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