Leonor Alvim – “Medusa”
10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Leonor Alvim - Entre Portugal e o Brasil vai deixando a sua Arte que se desdobra entre a pintura e a poesia.
10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Longínquas paragens irás sozinho
Nas tuas asas pairo, sou penas e sou garras
Que finco em teus flancos de aventuras…
Estarei presente em todos os suspiros, olhares
Amores, parte da tua carne que devoro
E em fino mármore se transforma
Quando em ti penso e te envolvo em meu abraço!
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10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Só mais uma vez esta emoção
Que acelera o passo e faz bater mais rápido
No peito…o coração!
Que o mundo adoça e traz essa imensa alegria
Como sinos festivos nos ouvidos
Rosas no regaço
E pura doçura de amar o mundo!
Só mais uma vez esse olhar
Que cruza o teu e te abrasa
Vertigem dourada e amor que abraças
Tão leve e jovem, sem idade nem conta
O espaço é tua pertença o mundo espera
E o teu amado sussurra no vento breve
A brisa que passa e te afaga o rosto!
Esquecer tudo e ser apenas o sorriso
Essa chama breve que marca
O começo…e o fim do mundo!
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10.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não sou. Sinto-me, sem corpo rósea fímbria
De pensamento que suspira. Entre ais e enfado
Burilado por insatisfeitos desejos
Que sinto e toco, na redonda forma de teus seios
Enrugados no prazer que te adivinha, quando te penso
Construindo a tua mão que me agarra
Naufraga de sonhos e desencontros
Que sinto e sofro neste casulo sozinha!
Esta casa de sombras e de medos
Como caderno de segredos
Dia a dia junto e escrevo
Me desenho e decoro, lição marcada
Por um mestre que me castiga
Quando omito…
Viver é obrigação que carrego, goste ou não
Pergunto-me o que faço nesta hora
Em que sentir está lá fora… e não sei se vai entrar!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando me abres assim os teus braços
E eu entro na tua alma tudo se rejuvenesce.
É assim, o amor, são os laços
É o calor que cresce.
E quando tu vens assim, calma, maravilhosa
Devias saber
Seres a minha alma
Sem o saber!
Quando eu te abro assim os meus braços
E entras na minha alma, tudo resplandece.
É assim a paixão, os abraços,
É a paixão que cresce.
E quando eu vou assim, devagar,
Sei que sou a tua alma,
Sem o saber!
Quando nos envolvemos assim,
E as nossas almas se encontram,
Nascem estrelas no céu,
Nasce música no ar,
Nasce a sensação
De que afinal,
estamos a
Amar!!!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Paixão é arder o coração.
No frio ter calor,
Na noite ver-te assim, num clarão,
No peito sentir essa dor!
Paixão é sentir um calor,
Um arrepio, uma emoção,
Pensar que é dor
Olhar-te e perder a Razão!
Paixão é o que sinto,
Quando vens num abraço,
E nisso não minto,
És o meu embaraço.
Paixão, é querer contente,
Um alegre, um triste,
Quando a saudade se sente,
Como quando tu partiste.
Paixão é assim uma flor,
Que cresce rapidamente
E não vai, não fica,
Mas nos marca,
E fica em nós,
Profundamente!
.
Paixão é uma escuro,
um clarão!!!
Paixão é um sim,
ou um não!!!
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05.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
E tu vieste assim…
Devagar, lentamente, como uma folha
Que cai devagar, com medo de tocar o chão!
E assim me despertaste, como a aragem da manhã,
E me envolveste nos teus braços
E tu vieste assim,
Como quem quer sentir somente o calor
De chegar a casa e descansar
Nos braços de alguém!
E tu vieste assim,
Como quem
Quer um lar
Para o coração!
E ficaste, em mim!
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03.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
“¿Y si Dios fuera una mujer?”
Juan Gelman
E se Deus fosse uma mulher?
Indaga Juan sem pestanejar
Ora, ora se Deus fosse mulher
É possível que agnósticos e ateus
Não disséssemos não com a cabeça
E disséssemos sim com as entranhas
Talvez nos aproximássemos de sua divina nudez
Para beijar seus pés não de bronze,
Seu púbis não de pedra,
Seus peitos não de mármore,
Seus lábios não de gesso.
Se Deus fosse mulher a abraçaríamos
Para arrancá-la de sua distância
E não haveria que jurar
Até que a morte nos separe
Já que seria imortal por antonomásia
E em vez de transmitir-nos Aids ou pânico
Nos contaminaria de sua imortalidade
Se Deus fosse mulher não se instalaria
Solitária no reino dos céus
Mas nos aguardaria no saguão do inferno
Com seus braços não cerrados,
Sua rosa não de plástico,
E seu amor não de anjo
Ai meu Deus, meu Deus
Se até sempre e desde sempre
Fosses uma mulher
Que belo escândalo seria,
Que afortunada, esplêndida, impossível,
Prodigiosa blasfêmia!
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Devemos andar sempre bêbados.
Tudo se resume nisto: é a única solução.
Para não sentires o tremendo fardo do tempo
que te despedaça os ombros e te verga para a terra,
deves embriagar-te sem cessar.
Mas com quê?
Com vinho, com poesia ou com virtude, a teu gosto.
Mas embriaga-te.
E se alguma vez, nos degraus de um palácio,
sobre as verdes ervas duma vala,
na solidão morna do teu quarto,
tu acordares
com a embriaguez já atenuada ou desaparecida,
pergunta ao vento, à onda, à estrela, à ave, ao relógio,
a tudo o que se passou, a tudo o que gemeu,
a tudo o que gira, a tudo o que canta, a tudo o que fala,
pergunta-lhes que horas são:
São horas de te embriagares!
Para não seres como os escravos martirizados do tempo,
embriaga-te, embriaga-te sem cessar!
Com vinho, com poesia, ou com a virtude, a teu gosto.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Certa tarde no Monte Sinai,
Moisés escrevia as sete tábuas,
E veio um velho com um cordeiro ao pescoço,
Que Moisés não conhecia.
E o velho falou-lhe:
“Porque escreves na lama mesquinha?”
E Moisés disse-lhe:
“Porque tudo o que é mesquinho,
“Deve atrofiar, como a palavra “deve”,
“E depois sucumbir.
“E o barro a que chamas mesquinho,
“Permite fazer leis que duram cinco mil anos.”
E o velho retorquiu:
“Não escrevas isso, pratica-o,
“E impõe pecados mortais.
“Porque senão vão rir-se de ti, e não te ouvem.”
E Moisés praticou-o,
E pôs o povo todo a rir, mas logo o aplacou?
Não! Partiu as tábuas,
E desobedeceu a Deus por cinco mil anos.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se eu ao menos soubesse o que são as palavras,
de que espuma são feitas, o que escondem por dentro,
havia de comê-las, melhor, saboreá-las,
mastigá-las, sem medo de traição ou veneno.
Como quem morde um pastel, tomar-lhe o gosto.
Depois de deglutir, lamber os beiços, dizer:
Estava bom, o sal na conta, a fritura no ponto.
Se eu ao menos soubesse por que são as palavras,
havia de as trazer no bolso do casaco,
embrulhadas em plumas, não fosse magoar
uma sílaba tónica e a tornasse muda,
incapaz, coitadita, de se fazer ouvir,
sem se arrimar a outra bem aberta
como um tátári vibrante de corneta.
Se eu soubesse o que são, por que são as palavras,
tomaria a brandura do amor em tempo certo,
a quentura da flor que só pede o deserto,
a vibração contida da asa do condor,
e então, em riso, em soluço, em desalinho,
daria à luz palavras, torrentes de palavras,
como quem mata a fome ainda que se mate.
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02.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deram-te um nome.
Um homem tem de ter um nome:
João ou Pedro ou Manuel.
À pedra damos nome de pedra
que o é antes da pedra
e a si se basta.
Às flores chamamos flores,
o nome próprio que lhes dá a cor.
Um homem tem de ter um nome:
José ou Mário ou António,
para caminhar dentro dele.
Quando pegas na pedra,
pensas no nome pedra
e ele te diz da sua substância.
Quando cheiras a flor,
pensas o nome flor
e é ele que te inunda.
Quando olhas um homem,
Afonso ou Jorge ou Joaquim,
vês o seu nome,
a sua marca de água,
o oceano onde navegará
até ao fim do medo.
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
É ser capaz de abraçar a tranquilidade do por de sol que me deste.
Aparto-me do corpo,
Abandonando a voz num grácil descanso.
Eu sou o teu silêncio.
Sente,
Devagar…
Como me enleio pela tua imaginação,
Como se de ti fizesse parte.
Dela,
Não te separarias por nada!
E porque a saberias fina,
Delicada,
Qual folha de papel de arroz,
Apartar-te-ias do corpo,
Abandonando a voz num não menos dócil emudecimento…
E assim,
Incorpóreos,
Existiríamos!
Seríamos de quando em vez
Movimento,
De quando em vez
Tacteio leve…
Era assim que nos víamos,
Quando no céu deste lugar
Nos contámos do que iríamos fazer,
Quando por fim nos encontrássemos!
Estamos juntos…
Acendamos a magia deste momento
E sob a luz doce que dela imana,
Vamos emocionar-nos,
Vamos tocamo-nos sem nos tocar,
Causando com que a pergunta que nos fizemos,
Se deite,
E adormeça, feliz.
Vamos ser a certeza de nos termos,
Deitando fora a distancia,
Saboreando o prazer de ver a resposta acordar
Espalhando-se por nós,
Tornando-se na nossa pele,
Tal como este por de sol que vem aquecer-nos,
Depondo no parapeito do desejo
A certeza de que o amanhã é agora
Tão certo,
Tão vivo,
Tão quente,
E tão só nosso!
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não deixamos cair Outonos
Sobre as mãos
Nem adiamos Estios
Quando habitamos juntos
Acerco-me da maior janela
Para desfrutar da mais bela paisagem
A realidade a perder de vista…
E enquanto te procuro
Ouço a voz
O tilintar do orvalho sobre os pastos
O canto das flores em correrias
Cabriolando sobre carreiros verdes
E quando te vejo
Ainda com o aroma do acordar nos ombros
Estendo os meus olhos
Até te alcançar os passos
Até te tocar de leve
Até te acompanhar
Sentindo a frescura beliscar leve as nossas frontes
E quando já de volta
Me dás o braço
Trazendo ramos de satisfação
Que vens pôr
Como serenatas
Debaixo da nossa janela
Não deixamos cair Outonos
Nem adiamos Estios
Apenas nos sentamos
Calmos
Em bancos de Primaveras
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Foi depressa que devagar nos percorremos,
Foi devagar que depressa corremos o nosso corpo,
Cobrindo-nos da felicidade
Que ia caindo como fiapos de acalento,
Dos meus e dos teus dedos…
Ah, não somos capazes de mais,
A não ser gotejar anseios
Para enobrecer os gestos
Com que nos saciaremos,
Logo mais,
Quando de novo nos inventarmos!
Pensemos no bem-querer que teremos
Quando demorar a vontade,
Que pinga, em nós, açucarada
Sobrevoemos o prazer de estarmos,
De sentir o calor da arena da pele,
E então, sim,
Surpreendamo-nos com a extravagância:
Será depressa que devagar nos percorreremos
Será demorada a pressa de nos invadirmos,
Mas será tão notável o prazer que sempre teremos,
Quer seja ontem,
Quer seja hoje,
Ou amanhã,
De esvoaçar sobre o diadema do nosso desejo.
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tinha dito,
em jeito atabalhoado
que havia arrumado a palavra.
Mas vi-te usá-la com tal cuidado
que me escondi no silêncio.
Não te zangues,
nem deixes de me olhar
como só tu fazes,
com esses olhos juvenis,
ouso dizer, de criança,
de menina de tranças…
Olhei-te
enquanto a embalavas.
De ti,
guardo o aroma
este cheiro doce que me viste roubar
do ninho onde cuidas as palavras bonitas.
Mas não me basta,
sabes que não!
Por isso corro,
escondo-me aqui,
o mais próximo de que sou capaz,
para te poder ver,
sem que me vejas.
Não te escrevo…
Não sei escrever cartas de amor,
pois que te disse que não pegaria mais nas palavras.
Maternas as tuas mãos
Maternos os teus braços
Maternos teus beijos, teus sorrisos,
Maternas até tuas lágrimas,
quando por mim choras,
querendo por tudo tirar-me do caminho,
as palavras feias em que agora pego…
Tu és tão bonita!
Comovem-se as minhas mãos,
soluçam,
embarga-se-lhes a voz
a ponto de não conseguirem responder-te!
Pudesse eu escrever uma carta de amor!…
Pudesse eu embalar-te até que adormecesses!…
Pudesse eu, e, ao aroma que guardo de ti,
juntava uma cor, um olhar,
esse teu, que sei de cor!
Traria três palavras bonitas,
dessas que alimentas
sempre que me mimas.
Pudesse eu,
e faria uma frase
para ir por depois, de novo
No parapeito do teu abraço.
Mas eu vou
devagarinho…
sem que me vejas, eu vou!
Dorme, meu anjo.
São tuas, mas vou usá-las,
fazê-las minhas,
só por um instante,
suficiente para te dar uma espécie de flor.
Quando acordares,
promete que olharás a janela
que saberás que fui eu que ta adornei
com um raminho feito de uma frase.
Voltarei sempre para cuidar dela,
Prometo-te!
Não sei escrever cartas de amor,
sabes que não,
mas esta frase é como se o fosse,
enquanto me escondi no silêncio
para te olhar,
sem que me visses,
e este:
Gosto de Ti,
cor do que sinto
sempre que estou contigo,
fica tão belo no teu regaço!
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Noite após noite,
Colocaram-se nuvens no céu-da-boca.
Estudaram-se os segredos,
Enquanto sentíamos a chuva
Nas nossas línguas.
Imaginei os reflexos
Dos pirilampos que viriam
Servir-te de ponto,
Espalhando restos de luz,
Sobre a galeria de vidas que encenámos…
Conhecíamos a razão
Do pousio das palavras,
Da angústia de sentir descer
Sobre elas o pano…
Os aplausos eram apenas o eco
De ver uma nova personagem surgir,
Sobre o horizonte da minha garganta.
Por isso decorei todos os silêncios,
Essa ante estreia de uma outra estação,
O escuro de um Inverno,
Sabendo dos reflexos de chuva
Que teria ainda de conhecer.
Tentámos fingir,
Mas não era esse o ponto forte!
O ponto alto?
Foram os obstáculos,
As sementes de tempestade
Escondidas nas nuvens
Do céu das nossas bocas,
Que fomos suportando.
Entrámos.
Eu sentei-me na primeira fila,
Para ter a absoluta certeza de que me verias,
Ainda que fosse eu, a tua única espectadora.
Não aplaudi, no fim.
Já sentia o lago de lágrimas,
No meio de um público,
No meio de mim…
Esperei que todas as luzes se apagassem.
E, então, sim,
Chorei, no escuro,
Para que nenhuma porção minha me visse.
E depois fugi
Daquele lugar,
Fugi de mim,
Tropeçando nos soluços,
Chegando quase a cair,
Naquela tão triste forma de amar!
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
és símbolo químico
que brota da terra
água fresca tatuada na rocha
dás vida à vida
discreta quando habitas nas nuvens,
no horizonte és energia
e fonte do ser.
ouves-me nos desejos
da palavra que não é escrita
circulas no meu sangue e vibras,
deixas que te sinta no coração.
imóvel olho-te
mostras-te rainha no mar,
princesa encantada no rio
que aquece a alma, nos lagos
da tua voz escorrem
hesitantes ternas sombras
olho a tua tonalidade
sinto o desperdício da humanidade
hoje és lágrima
no meu rosto…
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
escutei a tua voz, dentro da melodia
chegou transparente, agarrada à emoção
foi arte pendida num mistério precioso
golfada fresca num trabalho de beleza
foi matéria atenta,
júbilo inesquecível.
potência da razão resplandecente
veio abraçada às palavras,
ritmada, pausada,
foi símbolo delicado que fez luz,
loucura desabrochada de esplendor
viajou triunfante nos textos
sem medos, onde a música se fundiu
até à dilatação no éter do fascínio
irrompeu ramificada
na inocência dos sentires.
debruçou-se inundada
sobre o leve peso dos sonhos,
reclamou à sabedoria
a teia dos gestos etéreos
foi profunda, misteriosa, tocante..
a tua voz vibrou
fez crescer a palavra dita!
(Este poema foi dedicado ao “Lugar aos Outros” do Estúdio Raposa)
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
bate à porta o silêncio, mando-o entrar,
nas paredes, as sombras reflectidas por um candeeiro
de mesa, tomam cor. arrepio-me, sinto frio. cinzento, o
silêncio senta-se ao meu lado, segura as minhas mãos
gélidas e roxas, sente o meu medo e acaricia-me.
descubro nas sombras, um rosto delineado, parece-me
o teu, com os olhos cheios de brilho, num tom esverdeado.
és tu o silêncio!
o silêncio que escuto e me abraça.
irrompem no meu corpo palavras tuas, misturadas com
o tilintar do frio que há dentro de mim.
entramos no nevoeiro dos sonhos, eu e o silêncio,
de mãos dadas perseguimos um rasto de luz, construído
de objectos de um tempo que cresce.
procuro esse tempo, a luz do teu olhar mostra-mo
murcho, disforme e carregado de sentires.
flutuamos unidos, no crepúsculo embriagado
das noites de ninguém. pressenti nos teus gestos o quanto amei
e embalamo-nos a dor sem medo de nos destruirmos.
fico para sempre ligada ao silêncio como um pacto de
sangue, alimentamo-nos de secretos desejos.
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
a noite entrou, encantada
adormeceu-me o corpo
envolveu-se nos meus sonhos
fez-me sentir-te em ti
tremer junto ao teu corpo
beijar teus lábios demoradamente
descobrir o teu gosto
com meu corpo inteiro
fomos sombras ocultas
cheias de movimento
desejos penetrantes e agitados
fomos nós num momento
da duvida que sonha a certeza
o desequilíbrio na infame consciência
a noite fez-nos sentir
o silêncio vestido de branco
a ausência irreal
em forma de sonho
viajámos juntos em sentimentos
e o teu corpo fundiu no meu
de alto a baixo
o suspiro violento
numa voraz paixão
que nos alimentou as veias
da noite que cresceu como louca,
brotavam palavras, nas entrelinhas
um intenso amo-te
no duelo de quem ama
a noite acordou-me
abandonou-me sem sonhos
tu não te encontravas lá
só a cama, branca, amarrotada…
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ouço-te num qualquer outro registo de dança
Onde pensares e sentires são devolvidos em contracapa
Nua, de cor única e vazia de espelhos
Olho-te e não te vejo
Só os esboços estudados da dança
Permanecem em meus ouvidos como inconstância
De desafios musicados
E de suspiros
E de muros levantados
E de búzios fendidos
Por onde se escapa o que nem a brisa alcança
Olho-te por entre o arvoredo de um mar salgado
Agitando formas de cotovelos apoiados nas águas
Numa outra de mim que o registo fez parte
Quando fendiam as paredes da casa
Agora brancas, imaculadas
Pelo silêncio sorridente e ameno das asas
Que descubro serenamente e destapo
Nas cores luzentes das sonoridades
Que enfeitam e alegram o espaço
No repouso cantante, suave
Do regaço que eleva e embala
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando amanhece
fecho os olhos serenos
e no vazio procuro o som do silêncio
que ansioso me aguarda
Mergulho nas águas tépidas e cristalinas do voo
e a voz que me canta
acontece
Quão breve instante…
Que adianta!
Fogem as letras espavoridas
e se escondem tímidas
num espaço
que para já não alcanço
nem agarro
Desperto muda
silenciada e crua
pelas vozes rodeantes que me falam
da atenção exigida
da futilidade do dia
e do espanto
Então parto
para outra estória
outra vida
em breve-longa pausa
E sobre a água teço passos
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nos teus braços de palavras
Me enrolam carícias mudas
Qual rosa rubra despontada
Que seu doce aroma espalha
E pelo espaço perdura
Soltam-se pelas cidades, inter muros
Os pontos que no Tudo abarcam
Estilhaços esvaídos em leve fumo
Quando em ti me lês nos traços
Desprendidos, planos, profundos
Sob as longas raízes criadas
Me enfeitas e desnudas
A serenidade dos passos
O beijo que o vento permuta
Esse encontro inesperado
Num qualquer presente-passado
Feito de essência e candura
Assim me enlaçam palavras
Fragrâncias de rosa rubra
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01.02.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
(Poema dedicado à filha, grávida, de gémeos)
Mãe
Escuta a brisa que meu ventre abre
Na terra dos sonhos o canto das pequeninas coisas
De braços estendidos o enlevo do sorriso que as afaga
Aquele murmurejar de água soletrando o rio
Plácido
Mãe
Sente os dois mundos que em mim trago
Saboreando o néctar das coisas invisíveis e cândidas
Entre a música e a leveza da dança
No balanço certo das outonais cores
Em folhas irisadas e suaves
Seis meses, mãe, são caminhados
Na voz das pequeninas coisas
Sob o azul da luz e o verde dos laços
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27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)
É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pénis.
Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pénis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.
E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda húmidos de sémen,
estes segredos de cama.
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27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.
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27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
No corpo feminino, esse retiro
— a doce bunda — é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.
Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento… Então, se ponho e tiro
a mão em concha — a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,
me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.
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27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Era bom alisar seu traseiro marmóreo
e nele soletrar meu destino completo:
paixão, volúpia, dor, vida e morte beijando-se
em alvos esponsais numa curva infinita.
Era amargo sentir em seu frio traseiro
a cor do outro final, a esférica renúncia
a toda aspiração de amá-la de outra forma.
Só a bunda existia, o resto era miragem.
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27.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica.
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora — murmura a bunda — esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda
redunda.
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18.01.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Alguns números respeitantes ao ano de 2012:
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