José Saramago – “Maria Magdala”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

de O Evangelho Segundo Jesus Cristo , Editorial Caminho, Lisboa, 1991.
[…]
como te chamas, 

Jesus, foi o que respondeu, e não disse de Nazaré, porque já antes o tinha declarado, 

como ela, por ser aqui que vivia, não disse de Magdala, quando, ao perguntar-lhe ele, por sua vez nome, respondeu que Maria. 

Com tantos movimentos e observações, acabou Maria de Magdala de fazer o penso ao pé dorido de Jesus, rematando-o com uma sólida e pertinente atadura,
Aí tens, disse ela. 
Como te devo agradecer, perguntou Jesus, e pela primeira vez os seus olhos tocaram os olhos dela, negros, brilhantes como carvões de pedra, mas onde trespassava, como uma água corresse, uma espécie de voluptuosa velatura que atingiu em cheio o corpo secreto de Jesus. 

A mulher não respondeu logo, olhava-o, por sua vez, como se o avaliasse, a pessoa que era, que de dinheiros bem se via que não estava provido o pobre moço,
e por fim disse, Guarda-me na tua lembrança, nada mais,
e Jesus, Não esquecerei a tua bondade, 
e depois, enchendo-se de ânimo, Nem te esquecerei a ti,
Porquê, sorriu a mulher,
Porque és bela,
Não me conheceste no tempo da minha beleza,
Conheço-te na beleza desta hora.
O sorriso dela esmoreceu, extinguiu-se,
Sabes quem sou, o que faço, de que vivo,
Sei,
Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo,
Não sei nada,
que sou prostituta,
Isso sei,
Que me deito com homens por dinheiro,
Sim,
Então é o que te digo, sabes tudo de mim,
Sei só isso,
A mulher sentou-se junto dele, passou-lhe suavemente a mão pela cabeça, tocou-lhe na boca com a ponta dos dedos,
Se queres agradecer-me, fica este dia comigo,
Não posso,
Porquê,
Não tenho com que pagar-te,
Grande novidade,
Não te rias de mim,
Talvez não creias, mas olha que mais facilmente me riria de um homem com a bolsa cheia,
Não é só a questão do dinheiro,
Que é, então.
Jesus calou-se e voltou a cara para o lado.
Ela não o ajudou, podia ter-lhe perguntado, És virgem, mas deixou-se ficar calada, à espera.
Fez-se silêncio, tão denso e profundo, que parecia que apenas os dois corações soavam,
mais forte e rápido que o dele, o dela inquieto com a sua própria agitação.
Jesus disse, Os teus cabelos são como um rebanho de cabras descendo das vertentes pelas montanhas de Galaad.
A mulher sorriu e ficou calada.
Depois Jesus disse. Os teus olhos são como as fontes de Hesebon, junto à porta de Bat-Rabim.
A mulher sorriu de novo, mas não falou.
Então Jesus voltou lentamente o rosto para ela e disse, Não conheço mulher.
Maria segurou-lhe as mãos, Assim temos de começar todos, homens que não conheciam mulher, mulheres que não conheciam homem, um dia o que sabia ensinou, o que não sabia aprendeu,
Queres tu ensinar-me,
Para que tenhas de agradecer-me outra vez,
Dessa maneira, nunca acabarei de agradecer-te,
E eu nunca acabarei de ensinar,
Maria levantou-se, foi trancar a porta do pátio, mas primeiro dependurou qualquer coisa do lado de fora, sinal que seria de entendimento, para os clientes que viessem por ela, de que se havia cerrado a sua fresta porque chegara a hora de cantar,
Levanta-te, vento do norte, vem tu, vento do meio-dia, sopra no seu jardim e coma dos seus deliciosos frutos.
Depois, juntos, Jesus amparado, como fizera antes, ao ombro de Maria, esta prostituta de Magdala que o curou e o vai receber na sua cama,
entraram em casa, na penumbra propícia de um quarto fresco e limpo.
A cama não é aquela rústica esteira estendida no chão, com um lençol pardo por cima, que Jesus viu sempre em casa dos pais enquanto lá viveu, esta é um verdadeiro leito como o outro de que alguém disse, Adornei a minha cama com cobertas, com colchas bordadas de linho do Egipto, perfumei o meu leito com mirra, aloés e cinamono.
Maria de Magdala conduziu Jesus até junto do forno, onde o chão era de ladrilhos de tijolo, e ali, recusando o auxilio dele, por suas mãos o despiu e lavou, às vezes tocando-lhe o corpo, aqui e aqui, e aqui, com as pontas dos dedos, beijando-o de leve no peito e nas anca, de um lado e do outro.
Estes roces delicados faziam estremecer Jesus, as unhas da mulher arrepiavam-no quando lhe percorriam a pele.
Não tenhas medo, disse Maria de Magdala.
Enxugou-o e levou-o pela mão até à cama,
Deita-te, eu volto já.
Fez correr um pano numa corda, novos rumores de águas se ouviram, depois uma pausa,
o ar de repente tornou-se perfumado e Maria de Magdala apareceu, nua.
Nu estava também Jesus, como ela o deixara, o rapaz pensou que assim é que devia estar certo, tapar o corpo que ela descobrira teria sido como uma ofensa.
 Maria parou ao lado da cama, olhou-o com uma expressão que era, ao mesmo tempo, ardente e suave, e disse,
És belo, mas para seres perfeito, tens de abrir os olhos.
Hesitando, Jesus abriu-os, imediatamente os fechou, deslumbrado, tornou a abri-los e nesse instante soube o que em verdade queriam dizer aquelas palavras do rei Salomão:
As curvas dos teus quadris são como jóias, o teu umbigo é uma taça arredondada, cheia de vinho perfumado, o teu ventre é um monte de trigo cercado de lírios, os teus seios são como dois filhinhos gémeos de uma gazela,
mas soube-o ainda melhor, e definitivamente, quando Maria se deitou ao lado dele, e tomando-lhe as mãos, puxando-as para si, as fez passar, lentamente, por todo o seu corpo, os cabelos e o rosto, o pescoço, os ombros, os seios, que docemente comprimiu, o ventre, o umbigo, o púbis, onde se demorou, a enredar e a desenredar os dedos, o redondo das coxas macias, e enquanto isto fazia, ia dizendo em voz baixa, quase num sussurro,
Aprende, aprende o meu corpo.
Jesus olhava as suas próprias mãos, que Maria segurava, e desejava tê-las soltas para que pudessem ir buscar, livres, cada uma daquelas partes, mas ela continuava, uma vez mais, outra ainda, e dizia,
Aprende o meu corpo, aprende o meu corpo.
Jesus respirava precipitadamente, mas houve um momento em que pareceu sufocar, e isso foi quando as mãos dela, a esquerda colocada sobre a testa, a direita sobre os tornozelos, principiaram uma lenta carícia, na direcção, uma da outra, ambas atraídas ao mesmo ponto central, onde, quando chegadas, não se detiveram mais do que um instante, para regressarem com a mesma lentidão ao ponto de partida, donde recomeçaram o movimento.
Não aprendeste nada, vai-te, dissera o Pastor, e quiçá quisesse dizer que ele não aprendera a defender a vida.
Agora Maria de Magdala ensinara-lhe,
Aprende o meu corpo, e repetia, mas doutra maneira, mudando-lhe uma palavra, e ele ai o tinha, o seu corpo, tenso, duro, erecto, e sobre ele estava, nua e magnífica, Maria de Magdala, que dizia,
Calma, não te preocupes, não te movas, deixa que eu trate de ti,
então sentiu que uma parte do seu corpo, essa, se sumira no corpo dela, que um anel de fogo o rodeava, indo e vindo, que um estremecimento o sacudia por dentro, como um peixe agitando-se, e que de súbito se escapava gritando,

impossível, não pode ser, os peixes não gritam, ele, sim, era ele quem gritava, ao mesmo tempo que Maria, gemendo, deixava descair o seu corpo sobre o dele, indo beber-lhe da boca o grito, num sôfrego e ansioso beijo que desencadeou no corpo de Jesus um segundo e interminável frémito.

[…]

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J. T. Parreira – “A tarefa do poeta”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Le poète a fini sa tâche”
Paul Verlaine

 
O poeta acabou a sua tarefa.
A época não foi de rosas
nem de sonetos que batem
como o coração das amadas
nem de salmos que são a língua
instrumental dos anjos.

A tarefa do poeta não é o desenho
de uma harpa no vento
de uma rosa no papel
irrespirável.

O poeta acabou o seu tempo.
Cansaço dos sonhos que irrigam
o cérebro, com as alegrias
alguns desencontros? o poeta
acolhe o fim com as mãos lentas
da tranquilidade.

O poeta pousou as armas.
Embora o dia continue a subir
na revolução ardente do sol
embora a poesia
continue a nascer, o poeta
cansado, pousou as palavras.

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J. T. Parreira – “A mão direita do poerta”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

«The riches of the poet are equal to is poetry
Delmore Schwartz

A mão direita do poeta é pesada
mas flutua sobre as nossas cabeças
como a água que derrama
claridade sobre a mesa, a mão
direita do poeta é a sua riqueza.
A mão direita do poeta puxa
o mundo para cima, o poeta sonha
com a sua mão direita.
Quando o vento agita cortinas na janela
e põe gelo nos vidros, a mão direita
do poeta conta a mais pequena sílaba,
o gelo do vento nos vidros
é um gume de silêncio.
Não é frívola, preciosa, ou fraca
é apenas a mão direita
do poeta, poderosa
mão cega excepto para deter
a redonda ternura
de uma lágrima.

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Helder Moura Pereira – “As coisas…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As COISAS passaram-se assim: meu avô
teve um desgosto de amor, quis matar-se.
Atirou-se do Castelo de S. Filipe
mas não se marou, ficou ali, primeiro
a gemer e depois inconsciente, julgava
que rinha morrido. Um pastor de ovelhas
encontrou-o e levou-o para o hospital.
No hospital meu avô percebeu
que não rinha morrido, a irmã da regente
interessou-se por ele e casaram.
Do casamento nasceram três filhos,
meu pai foi um deles. Sou portanto neto
do acaso e o acaso é o meu pai.

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Vasco Graça Moura – “blues da morte de amor”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali,
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: – morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

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Vasco Graça Moura – “Balada do bom cavaquista”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista
tanto canário, tanto grilo,
tanto gorjeio, tanto trilo
que de promessas se guarnece:
um mundo e outro, isto e aquilo,
e o povo tem o que merece.
vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,
de galho em galho ser artista,
e armar o estado em crocodilo.
voracidade? era do estilo.
economia? ai que arrefece!
vi portugal vendido ao quilo
e o povo tem o que merece.
vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,
já sem alface nem alpista
e já sem grão dentro do silo,
secou a teta e o mamilo,
chegou a hora, chega o stress.
há vários anos que eu refilo,
e o povo tem o que merece.
senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse
e o povo tem o que merece.

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Fernando Assis Pacheco – “Seria o amor português”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Variações sobre um fado

Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
figas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar jornais,
ou cartas, de amizade um pouco
– tanto pó sobre os móveis tua ausência.

Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.

Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.
Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
«Que me importa que batam à porta … »
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.

Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.

Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta?

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Encandescente – “Um dia final de um mês qualquer”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Encontraram-se num jardim num dia aprazado
Um dia final, de um mês qualquer.
Ela riu:
– Estás ridículo nesse fato. Mas era o combinado.
Ele disse:
– E tu és só camisola e gola alta. Como tinhas prometido.
Sentaram-se num banco ao acaso
Porque o acaso os juntara
No acaso caminharam
E o acaso os levara àquele banco, áquele jardim
Onde trocando vidas riram dos sucessos e riram dos fracassos
E riram dos medos e das perdas
E das esperanças e das desilusões
Ele apertado num fato caro, a viola ao lado
Ela camisola de gola alta e caneta na mão.
Trocaram também silêncios porque a amizade
Não é só feita de palavras
Mas de compassos
De dar tempo ao tempo
De sabe esperar.
Ela disse:
– Anoiteceu, está lua cheia! Como tínhamos combinado.
Ele respondeu:
– Pedi hoje à lua o brilho como te tinha prometido.
E juntos caminharam até à ponte acordada
Onde entoaram trovas à lua
Cantos de vida
Gritos de revolta
Ele de fato novo e uma viola que ria
Ela de gola alta e caneta arma na mão.
E a noite era deles, porque única, prometida
Porque era a noite de rindo de si
Rir da vida
Porque era a noite de soltar pranto
Grito e voz.
E a cidade parou para ouvir o canto
E a cidade surpresa olhou com espanto
Quem ousava quebrar o silêncio da cidade morta
Quem se suspendia na ponte que separa as margens
Entre a vida igual e a vida prometida.
E em baixo o rio era corrente contínua
Nunca antes quebrada, inalterável, monótona.
E na ponte prometida olharam a corrente
E na ponte prometida deram um passo em frente
Ele de fato novo, ela de gola alta.

E no dia seguinte a cidade viu assombrada
No rio parado que separa as margens contínuas da vida
Um fato novo que tocava uma guitarra
E uma camisola cara empunhando uma caneta e dizendo palavras
inauditas.
Nunca se encontrou quem a roupa vestiu
Quem no banco do acaso ao acaso se sentou
Quem com um passo em frente ousou rindo da vida
Rindo de si
Parar o rio
Quebrar as correntes
Estender a mão
E guardar liberdade.

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Encandescente – “Palavras-caravela”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Podia escrever,
(Se para ai estivesse virada ou tal coisa me apetecesse).
As palavras de amor mais belas,
Que altaneiras como caravelas,
Vogariam no mar de encontros e desencontros que é o amor.
E ficar vendo da minha janela,
As minhas,
E outras palavras-caravela,
Tomando rumo e partir.
Ou poderia em vez disso inventar um novo desporto,
E tentar da minha janela
Ou de um local qualquer do porto,
De onde partem todas as palavras de amor,
(Que sei que existe mas não onde fica).
Todas as palavras têm um porto
Onde permanecem,
Até que prontas podem partir.
E eu escondida,
Á janela ou num canto do porto,
Dispararia para as velas das palavras-caravela
Com uma daquelas espingardas de chumbos com que brincava em criança,
E uma a uma vê-las-ia afundar.
E uma a uma vê-las-ia sucumbir.
Mas sei que por cada palavra que afundasse uma outra surgiria
E não teria mãos nem chumbos,
Para todas fazer naufragar.
Ah…. Tanta palavra de amor se sente e se escreve.
Que a única paisagem que vejo da minha janela,
São palavras-caravela
Procurando um rumo,
Procurando um nome.
O nome que sonha
Quem no mar as lançou.

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Cíntia Barreto – “Fale Mentiras”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Desarme suas queixas.
Seja forte!
Sufoque os medos
adjacentes.
Revele a mentira
verossímil
dos pensamentos
mórbidos.

Experimente o gosto
do seu gozo!
Sinta a carne trêmula
sob seu nervo teso.
Mostre seu sorriso
agridoce que saliva
veneno e fale…
Fale mentiras!!!

Preciso ouvir suas
verdadeiras mentiras…
para desvendar…
seu gosto.

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Chico Buarque de Holanda – “Ano Novo”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo

Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo

A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar

E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo

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Armando Silva Carvalho – “Também as pedras morrem”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Também as pedras morrem, disse Vieira
a pensar na eternidade do ser.
Aqui são mais humanas as pedras
no seu rosto inclinado para o sofisma
da água.

Miram-se nela mas não são seduzidas
pela sua passagem;
uma passagem volúvel de quem tem o mar à espera
como um sonho previsto
na loucura encrespada de algum barco.

Os homens servem-se delas para os seus aparatos;
não as deixam limpas no seu pensar
– terrível – e que obrigou Vieira
a dar-lhes sangue
para que nada faltasse ao sacrifício.

Trago de cor a sua vermelha companhia.
E obedeço.
Pisei-as como convém ao meu destino
de pequena coisa transumante.
Não me baixei para elas num beijo
de suborno.

Agora descrevo-as como posso e quero.
Pedras mortais
que se tornam mentais
e são a substância de um panorama surdo,
espessa melancolia,
a solidez da ausência que esmaga
o desespero.

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António Patrício – “Tenho saudades do teu corpo”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

António Patrício (Porto, 7 de Março de 1878 – Macau, 4 de Junho de1930) foi um escritor e diplomata português.
Em 1908 conclui o curso de Medicina na Escola Médica do Porto. No ano de 1911 ingressa na carreira diplomática ao ser nomeado cônsul em Cantão, falecendo no ano de 1930, em Macau, quando ia tomar posse como ministro de Portugal emPequim. A sua obra foi profundamente marcada pelas influências de Nietzsche, Maeterlinck e D’Annunzio, bem como pelas correntes literárias do simbolismo, do decadentismo e do saudosismo.

Tenho saudades do teu corpo: ouviste
correr-te toda a carne e toda a alma
o meu desejo – como um anjo triste
que enlaça nuvens pela noite calma? …

Anda a saudade do teu corpo (sentes? .. )
Sempre comigo: deita-se ao meu lado,
dizendo e redizendo que não mentes
quando me escreves: «vem, meu todo amado … »

É o teu corpo em sombra esta saudade …
Beijo-lhe as mãos, os pés, os seios~sombra:
a luz do seu olhar é escuridade …

Fecho os olhos ao sol para estar contigo.
É de noite este corpo que me assombra …
Vês?! A saudade é um escultor antigo!

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António José Forte – “Libertação”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Descerão por paredes sangrentas
e subirão do asfalto
ganindo com um prego na língua
com os pulsos atados às patas
sobre pulmões raivosos em barcos de esterco
e não olharão nem para baixo nem para
o alto mas para a frente
para o horizonte de fatias vermelhas
e para trás
para os afogados sem mar sem terra natal
[sem paisagens marinhas
cada um com um buraco em seu peito
esguichando palavras estridentes
descerão atravessando gargantas
e subirão pela espinha a golpes de jejum
descerão empurrando palavras
transportando~as ao pescoço como cintos
[de salvação
abrindo crateras nas cabeças queridas
e olhos nos olhos dos aflitos
subirão do asfalto
transparentes e feridos
com os olhos nas mãos
a cabeça no sangue
chegarão aos pares ligados pela boca
com um estandarte negro seguro nos dentes
e descerão sempre cada vez mais
[e cada vez mais alto
até chegarem à orla do inferno chorarem
[as últimas lágrimas e partirem de vez.

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Hermann Hesse – “O lobo”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

lobo13

Lobo das Estepes sou, errando, errando,
Em volta a neve, na vastidão do mundo,
O corvo na bétula abre as asas para voar
Mas nem lebre ou corça vejo para amar!
As corças trazem-me tão enamorado,
Uma que fosse, não mais, desejo ver!
Tomá-la-ia nas mãos, nos dentes,
Oh! maravilha sem fim, igual não pode haver.
Amá-la-ia de todo o coração,
A sua carne delicada seria meu alimento,
O seu sangue vermelho-vivo minha bebida
E depois ulularia solitário pela noita adentro.
Uma lebre só, não mais queria,
Como é doce a sua carne quente na noite fria
Ah! ter-se-ão apartado para longe de mim
As coisas que dão encanto e sabor à vida?
O pêlo da minha cauda vai sendo grisalho
Os olhos também já não me deixam ver bem
Já há muito morreu a minha esposa amada.
E agora, só e errante, com corças sonho,
Ando só e errante, com lebres sonho,
Ouço o vento soprar na noite de Inverno,
De neve sacio a minha goela ardente,
E a minha pobre alma ao diabo entrego.

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Hermann Hesse – “O homem de cinquenta anos”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

50anos13

Do berço ao esquife
distam cinquenta anos,
depois começa a morte.
Tornamo-nos imbecis, embrutecemos,
tornamo-nos labregos, desleixamo-nos
e os cabelos vão para o diabo.
Também os dentes damos por perdidos
e em vez de, em deleite,
apertarmos uma moça contra o peito,
lemos um livro de Goethe.

Mas uma vez mais, antes do fim,
quero ter uma dessas pequenas
de olhos claros e caracóis encrespados,
tomá-la nas minhas mãos,
beijar-lhe boca, seios e face,
despir-lhe saia e calcinhas.
E depois, em nome de Deus,
a morte pode levar-me. Ámen.

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Frank O’Hara – “Ontem lá em baixo no canal”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dizes que tudo é muito simples e interessante
Isso torna me muito melancólico, como se lesse um grande romance Russo
Estou tão aborrecido
É quase como ver um mau filme
Se não for, mais frequentemente, como ter uma doença aguda no rim
Valha nos deus que não é nada do coração
Nada relacionado com gente mais interessante do que eu
Yak yak
Que pensamento divertido
Como pode alguém ser mais divertido que o próprio
Como pode alguém não ser
Podes emprestar me o teu quarenta e cinco
Só preciso de uma bala de preferência de prata
Se não se pode ser interessante pelo menos que seja uma lenda
(mas odeio esta trampa toda)

(tradução de José Alberto Oliveira)

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Firmino Rocha – “Deram um fusil ao menino”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Adeus luares de Maio.
Adeus tranças de Maria.
Nunca mais a inocência,
nunca mais a alegria,
nunca mais a grande música
no coração do menino.
Agora é o tambor da morte
rufando nos campos negros.
Agora são os pés violentos
ferindo a terra bendita.
A cantiga, onde ficou a cantiga?
No caderno de números,
o verso ficou sozinho.
Adeus ribeirinhos dourados.
Adeus estrelas tangíveis.
Adeus tudo que é de Deus.
DERAM UM FUZIL AO MENINO.

(Este poema encontra se hoje gravado em placa de bronze, na sede da ONU (Organização das Nações Unidas). Este mesmo poema foi publicado numa colectânea sobre a paz editada pela ONU e distribuída em todo mundo.)

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Otília Martel – “Cálida”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cálida,
a noite vem nos teus olhos
quando a lua se descobre
e a promessa dos teus beijos
me estremece.
As tuas mãos,
que não tocaram meu corpo nestes dias sem tempo,
viajam no sonho e nas palavras,
florescendo no corpo húmido que se agita no desejo.
Desvendo os sons sentidos no silêncio
e neles quebro meu olhar que se espraia no horizonte,
como nuvem em dia de chuva.
Embalo-me como estrela cadente
ritmada em suave toque,
onde te imagino
percorrendo-me, gota a gota,
sorvida calidamente no desejo dos
teus lábios sôfregos,
que circulam em cada pedaço da
[minha pele … ]
És.
Sou.
Imaginação
e
Fim.

(Do livro “Menina Marota – Um desnudar de alma”)

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Ruy Cinatti – “Lembranças”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Chorar pelos vivos que falecem
é natural – coisa lacrimal.
A carne sente a falta do costume
às tantas … tem fome.
Não choro ninguém.

Quando digo chorar é outra pressa
de chegar a tempo
da conversa atenta com um amigo
que nos quer bem.

Chorar por ninguém é chorar pelos vivos
que já morreram, sem o saber,
e vivem no seu presídio.

O resto, repito, é fisiologia
provocada, e ainda bem, pelo riso,
ou pela dor que temos de já ter nascido
e sermos chorados por alguém.

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Rudyard Kipling – “Se”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se podes conservar o teu bom senso e a calma,
Num mundo a delirar, p´ra quem o louco és tu,
Se podes crer em ti, com toda a força d´alma,
Quando ninguém te crê, se vais faminto e nu,
Trilhando sem revolta um rumo solitário,
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder, subindo o teu calvário,
Com lágrimas de amor e bênçãos de perdão.
Se podes dizer bem de quem te calunia,
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor,
Mas sem a afectação de um Santo que oficia
Nem pretensões de um sábio a dar lições de amor,
Se podes esperar sem fatigar a esperança,
Sonhar mas conservar-te acima do teu sonho,
Fazer do pensamento um arco de aliança
Entre o clarão do inferno e a luz do céu risonho.
Se podes encarar com indiferença igual,
O triunfo e a derrota, eternos impostores,
Se podes ver o bem oculto em todo o mal,
E resignar sorrindo o amor dos teus amores,
Se podes resistir à raiva ou à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega, eivadas de peçonha,
Com falsas intenções que tu jamais lhes deste.
Se és homem para arriscares todos os teus haveres
Num lance corajoso alheio ao resultado
E, calando em ti mesmo a mágoa de perderes,
Voltas a palmilhar todo o caminho andando,
Se podes ver por terra as obras que fizeste
Vaiadas por malsins, desorientando o povo
E sem dizer palavra, e sem um termo agreste
Voltas ao princípio, a construir de novo.
Se podes obrigar o coração e os músculos
A renovar o esforço, há muito vacilante
Quando já no teu corpo afogado em crepúsculo,
Só existe a vontade a comandar avante!
Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre,
Ou vivendo entre os réus conservas a humildade,
Se inimigo ou amigo, o poderoso e o pobre
São iguais para ti, à luz da eternidade.
Se quem conta contigo, encontra mais que a conta,
Se podes empregar os sessenta segundos
Dum minuto que passa, em obras de tal monta,
Que o minuto se espraia em séculos fecundos,
Então, ó ser sublime, o mundo inteiro é teu
Já dominaste os Reis, os tempos e os espaços
Mas ainda para além um novo Sol rompeu
Abrindo um infinito ao rumo dos teus passos.
Pairando numa esfera acima deste plano
Sem recear jamais que os erros te retomem
Quando nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um HOMEM!…

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Maria do Rosário Pedreira – “Foi sempre tão incerto o caminho até ti…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Foi sempre tão incerto o caminho até ti:
tantos meses de pedras e de espinhos, de
maus presságios, de ramos que rasgavam a
carne como forquilhas, de vozes que me
diziam que não valia a pena continuar, que
o teu olhar era já uma mentira; e o meu

coração sempre tão surdo para tudo isso,
sempre a gritar outra coisa mais alto para
que as pernas não pudessem recordar as
suas feridas, para que os pés ignorassem
as penas da viagem e avançassem todos
os dias mais um pouco, esse pouco que
era tudo para te alcançar. Foi por isso que,

ao contrário de ti, não quis dormir nessa
noite: os teus beijos ainda estavam todos
na minha boca e o desenho das tuas mãos
na minha pele. Eu sabia que adormecer
era deixar de sentir, e não queria perder os
teus gestos no meu corpo um segundo que
fosse. Então sentei-me na cama a ver-te
dormir, e sorri como nunca sorrira antes
dessa noite, sorri tanto. Mas tu falaste de
repente do meio do teu sono, estendeste o
braço na minha direcção e chamaste baixinho.
Chamaste duas vezes. Ou três. E sempre tão
baixinho. Mas nenhuma foi pelo meu nome.

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Maria do Rosário Pedreira – “Dizem os ventos…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.

A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu

estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.

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Maria do Rosário Pedreira – “Cheguei tarde…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cheguei tarde, e os que sabiam de mim
notaram que o meu corpo ja nao me
pertencia. E perguntaram. Porque ardia
a tua boca nos meus labios mais do que
a fogueira do segredo, respondi-lhes

que o ceu, afinal , era mesmo azul, e o
verao uma estaçao maior que o tempo,
e o tempo nada se o teu corpo estava
junto desse corpo que todos ja sabiam
que nao vinha comigo- e que Deus,
Deus fechava os olhos e existia. Riram

os que te tinham conhecido noutra noite
com outra pele vestida; os outros foram
para muito mais longe que o seu rosto
magoado dizer ao proprio ouvido que eu
mentia. Mas os que ainda queriam saber

de mim pediram-me que lhes contasse
quem eras, o teu nome. E eu mordi essa
boca vermelha que deixara contigo para
nao ter de dizer que nem o perguntara.”

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Maria do Rosário Pedreira – “Guarda tu agora…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Guarda tu agora o que eu, subitamente, perdi
talvez para sempre – a casa e o cheiro dos livros,
a suave respiração do tempo, palavras, a verdade,
camas desfeitas algures pela manhã,
o abrigo de um corpo agitado no seu sono. Guarda-o

serenamente e sem pressa, como eu nunca soube.
E protege-o de todos os invernos – dos caminhos
de lama e das vozes mais frias. Afaga-lhe
as feridas devagar, com as mãos e os lábios,
para que jamais sangrem. E ouve, de noite,
a sua respiração cálida e ofegante
no compasso dos sonhos, que é onde esconde
os mais escondidos medos e anseios.

Não deixes nunca que se ouça sozinho no que diz
antes de adormecer. E depois aguarda que,
na escuridão do quarto, seja ele a abraçar-te,
ainda que te tenha revelado uma só vez que o queria.

Acorda mais cedo e demora-te a olhá-lo à luz azul
que os dias trazem à casa quando são tranquilos.
E nada lhe peças de manhã – as manhãs pertencem-lhe;
deixa-o a regar os vasos na varanda e sai,
atravessa a rua enquanto ainda houver sol. E assim

haverá sempre sol e para sempre o terás,
como para sempre o terei perdido eu, subitamente,
por assim não ter feito.

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Maria do Rosário Pedreira – “Quando eu morrer…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema – como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu,
trazem entre as penas a saudades de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite – porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.”

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Maria do Rosário Pedreira – “Mãe…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Mãe, eu quero ir-me embora – a vida não é nada
daquilo que disseste quando os meus seios começaram
a crescer. O amor foi tão parco, a solidão tão grande,
murcharam tão depressa as rosas que me deram –
se é que me deram flores, já não tenho a certeza, mas tu
deves lembrar-te porque disseste que isso ia acontecer.

Mãe, eu quero ir-me embora – os meus sonhos estão
cheios de pedras e de terra; e, quando fecho os olhos,
só vejo uns olhos parados no meu rosto e nada mais
que a escuridão por cima. Ainda por cima, matei todos
os sonhos que tiveste para mim – tenho a casa vazia,
deitei-me com mais homens do que aqueles que amei
e o que amei de verdade nunca acordou comigo.

Mãe, eu quero ir-me embora – nenhum sorriso abre
caminho no meu rosto e os beijos azedam na minha boca.
Tu sabes que não gosto de deixar-te sozinha, mas desta vez
não chames pelo meu nome, não me peças que fique –
as lágrimas impedem-me de caminhar e eu tenho de ir-me
embora, tu sabes, a tinta com que escrevo é o sangue
de uma ferida que se foi encostando ao meu peito como
uma cama se afeiçoa a um corpo que vai vendo crescer.

Mãe, eu vou-me embora – esperei a vida inteira por quem
nunca me amou e perdi tudo, até o medo de morrer. A esta
hora as ruas estão desertas e as janelas convidam à viagem.
Para ficar, bastava-me uma voz que me chamasse, mas
essa voz, tu sabes, não é a tua – a última canção sobre
o meu corpo já foi há muito tempo e desde então os dias
foram sempre tão compridos, e o amor tão parco, e a solidão
tão grande, e as rosas que disseste um dia que chegariam
virão já amanhã, mas desta vez, tu sabes, não as verei murchar.”

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Luís de Camões – “Erros meus…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Erros meus, má fortuna, amor ardente
Em minha perdição se conjuraram;
Os erros e a fortuna sobejaram,
Que para mim bastava amor somente.

Tudo passei; mas tenho tão presente
A grande dor das cousas que passaram.
Que as magoadas iras me ensinaram
A não querer já nunca ser contente.

Errei todo o discurso de meus anos:
Dei causa (a) que a Fortuna castigasse
As minhas mal fundadas esperanças.

De amor não vi senão breves enganos.
Oh, quem tanto pudesse que fartasse
Este meu duro génio de vinganças!

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Luís de Camões – “Sete anos de pastor Jacob servia…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando-se com vê-la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: – Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

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Luís de Camões – “Amor é um fogo que arde sem se ver…”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

fogo13

Amor é um fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

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