Sophia de Mello Breyner e Andresen – “Um dia”
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Sofia de Melo Breyner Andresen (Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.
O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.
Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.
Podcast: Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Neste dia sem luz que me anoitece,
Que me sepulta inteiro,
Até de mim a minha dor se esquece
Para que eu seja um morto verdadeiro.
Chove tristeza fria no telhado
Do castelo do sonho; nua, nua
A calçada que subo, já cansado
De tanto andar perdido nesta rua.
Duma olaia caiu, morta, amarela,
Qualquer coisa que foi princípio e fim;
E bem olhada, bem pensada, é ela
Aquela folha que lutou por mim…
Sozinho e morto ouço cantar alguém,
Mas é longe de mais a melodia…
E o ouvido que vai nunca mais vem
Trazer me a luz que falta no meu dia.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Outro natal,
Outra comprida noite
De consoada
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve
Recitado
Pela neve
Ao cair, ao de leve,
No telhado.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões, Virgílio, Shelley, Dante
o meu amigo está longe e a distância é bastante.
Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões, Virgílio, Shelley, Dante!
o meu amigo está longe e a tristeza é bastante.
Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões, Virgílio, Shelley, Dante:
o meu amigo está longe e a saudade é bastante!
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eu que às vezes encontro sem saber porquê
um simples não sei quê em estátuas retratos antigos
de límpidas mulheres desconhecidas
eu que de súbito à primeira vista me apaixono adolescentemente
por essas mulheres mortas mas contemporâneas
de um pobre poeta português do século vinte
levadas até ele talvez por um discreto gesto
às formas e às cores impresso por um homem
que na arte encontrava a única razão de vida
abro a pasta e deparo com o teu retrato
um retrato de passe anos atrás tirado
no sítio suburbano onde primeiro vivemos
e juntos
suportámos com surpresa a solidão
de sermos dois
e ela só vergar os ombros onde os dias nos poisavam
Conheço outros retratos teus onde também estás viva
um deles bem me lembro estava à minha espera em saint-malo
uma tarde ao voltar do monte saint michel
nesse verão bretão onde então procurava
justificação por mínima que fosse para a vida
numa das muitas fugas de mim próprio
que às vezes empreendo embora antecipadamente certo
de que só pela morte enfim me encontrarei comigo
com todos quantos verdadeiramente amei
alguns desconhecidos e alguns mesmo inimigos
sobretudo sedentos de justiça
de que depois somente de bem morto hei-de dispor daquela paz
que sempre apeteci mas nunca procurei
até por não ter tempo para isso nem sequer para saber
coisas simples como saber quem sou porque ao certo só sei
que muito mais passei naquilo em que fiquei
nem que fossem os filhos ou os versos
que fiquei muito mais naquilo onde passei
como passos na areia no inverno ou repentinas sensações
de me sentir de súbito sensivelmente bem
encher o peito de ar sentir-me vivo
São retratos diferentes de quem foste um breve
instante
e nele floriste e apenas não murchaste
por haveres ficado um pouco mais em tais fotografias
Mas há em todos eles uma graça inesperada
a surpresa da corça ou restos dessa raça
que há em ti talvez um pouco mais que nas demais mulheres
expressão sempre surpreendente da surpresa
mesmo até para quem te conhece tão bem como eu te conheço
Se nuns mais do que noutros sem excepção desponta
a madrugada que era e é esse teu riso claro
quem primeiro falou de riso claro
talvez houvesse ouvido a água quando corre sobre os seixos de
um ribeiro
talvez a houvesse visto branca e fresca
mas teve de inventar pra conquistar essa metáfora
quando eu que te ouvi rir não fiz mais do que ouvir
e sei que o som da água imita o teu sorriso
Talvez dentro de séculos se não fale já de ti
coisa aliás sem maior importância
que a de não ter alguém deixado o teu retrato
em qualquer dos museus esparsos pelo mundo
Eu estarei morto e pouco poderei fazer
por ti simples mulher da minha vida
Mas isso não importa importa esta manhã
este bar de milão onde olho o teu retrato
enquanto espero o meu pequeno almoço
saboreio as cervejas em jejum tomadas
e começam de súbito a chegar aos meus ouvidos
inesperados os primeiros acordes do concerto imperador
Se um dia penso porventura te perder
mulher simples recôndita e surpreendente
sobre quem recaiu o peso do meu nome
só então saberei quanto valias verdadeiramente
Estás presente em mim como ninguém
m
e sabes quão terrivelmente amei e amo outras mulheres
além de ti além de minha mãe
Mas tu tens o meu nome clara rilke tu trocaste
a tua alegre vida irrequieta
no único infeliz dos teus negócios
por um poeta pobre velho e feio como eu
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhaste súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já hoje a minha única viúva
Não posso dar-te mais do que te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Bons dias maria teresa até depois
preciso de tomar o meu pequeno almoço
a cerveja era boa mas é bom comer
como come qualquer homem normal
e me poupa ao perigo de até pela idade
me converter subitamente num sentimental
Poema Elogio a Maria Teresa, de Rui Belo
Maria Teresa era Mulher de Ruy Belo
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Contigo aprendi coisas tão simples como
a forma de convívio com o meu cabelo ralo
e a diversa cor que há nos olhos das pessoas
Só tu me acompanhastes súbitos momentos
quando tudo ruía ao meu redor
e me sentia só e no cabo do mundo
Contigo fui cruel no dia a dia
mais que mulher tu és já a minha única viúva
Não posso dar-te mais do te dou
este molhado olhar de homem que morre
e se comove ao ver-te assim presente tão subitamente
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas a dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é um certo espanto que no espelho de manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser a solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter te apenas quanto poder ver-te
e ao ver te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver na minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
e penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontros
em que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos
junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e não me vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão da escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido.
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Morreu a mais bela mulher do mundo
tão bela que não só era assim bela
como mais que chamar-lhe marilyn
devíamos mas era reservar apenas para ela
o seco sóbrio simples nome de mulher
em vez de marilyn dizer mulher
Não havia no fundo em todo o mundo outra mulher
mas ingeriu demasiados barbitúricos
uma noite ao deitar-se quando se sentiu sozinha
ou suspeitou que tinha errado a vida
ela de quem a vida a bem dizer não era digna
e que exibia vida mesmo quando a suprimia
Não havia no mundo uma mulher mais bela mas
essa mulher um dia dispôs do direito
ao uso e ao abuso de ser bela
e decidiu de vez não mais o ser
nem doravante ser sequer mulher
O último dos rostos que mostrou era um rosto de dor
um rosto sem regresso mais que rosto mar
e toda a confusão e convulsão que nele possa caber
e toda a violência e voz que num restrito rosto
possa o máximo mar intensamente condensar
Tomou todos os tubos que tinha e não tinha
e disse à governanta não me acorde amanhã
estou cansada e necessito de dormir
estou cansada e é preciso eu descansar
Nunca ninguém foi tão amado como ela
nunca ninguém se viu envolto em semelhante escuridão
Era mulher era a mulher mais bela
mas não há coisa alguma que fazer se certo dia
a mão da solidão é pedra em nosso peito
Perto de marilyn havia aqueles comprimidos
seriam solução sentiu na mão a mãe
estava tão sozinha que pensou que a não amavam
que todos afinal a utilizavam
que viam por trás dela a mais comum imagem dela
a cara o corpo de mulher que urge adjectivar
mesmo que seja bela o adjectivo a empregar
que em vez de ver um todo se decida dissecar
analisar partir multiplicar em partes
Toda a mulher que era se sentiu toda sozinha
julgou que a não amavam todo o tempo como que parou
quis ser até ao fim coisa que mexe coisa viva
um segundo bastou foi só estender a mão
e então o tempo sim foi coisa que passou.
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente tem saúde e assistência cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
o português paga calado cada prestação
Para banhos de sol nem casa se precisa
E cai-nos sobre os ombros quer a arma quer a sisa
e o colégio do ódio é a patriótica organização
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
o meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e o povo em vão requer
curvado o que de fronte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
De onde vim?
Queres saber de mim?
Cheio de ego absurdo,
sou altivo e peludo;
como chamam por mim?
Tareco ou Moisés?
Miiinhão! Que o caminho é dos pés,
e se aterro num quintal
é a comida que é igual
à fome dura que me fez!
Noutro dia chamei “pechincha”
a uma gatinha que reliiiincha,
quando sente em sua sela o manto
do meu trote bravio e manso!
Mas miiiinhaaaaau…
Sou um gatinho fedorento…
sou um gatinho pachorrento!
Paciente com a vida,
inconsciente da saída!
E se noutra vida não for gato não sei…
se não serei de uma selva humana
El-Rei!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Piano de fundo,
é Jarrett em Viena,
um murmúrio
na roupa
que largamos em cena…
Umas mãos saudosas,
suaves e quentes,
invadem
teus espaços
incandescentes…
A boca de nós dois
resolve o mistério
por detrás
do sabor
de um beijo sério…
As verdades que vestimos
deixámos à porta,
que aqui dentro,
o momento,
é só o que importa…
Tens na pele
marcado
o mestrado da vida
e eu tenho na minha
suavidade contida…
Gritas e gemes
no teu mar revolto,
arrepios
atravessam-te
quando te volto…
Com as mãos na parede
eu entro em teu corpo,
vês que na verdade
ele tem estado
morto…
As mãos saudosas,
que agarram o arrepio,
são vivas lembranças
do teu rodopio…
Deixaste-me o corpo,
escorrendo prazer,
encontrei-te
nas nuvens
e refiz-te Mulher…
Se o orgasmo que soltas
for um grito infinito,
nós dois cantaremos
no prazer
deste calor…
bendito.
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se eu nunca disse que os teus dentes
São pérolas,
É porque são dentes.
Se eu nunca disse que os teus lábios
São corais,
É porque são lábios.
Se eu nunca disse que os teus olhos
São d’ónix, ou esmeralda, ou safira,
É porque são olhos.
Pérolas e ónix e corais são coisas,
E coisas não sublimam coisas.
Eu, se algum dia com lugares-comuns
Houvesse de louvar-te,
Decerto que buscava na poesia,
Na paisagem, na música, Imagens transcendentes
Dos olhos e dos lábios e dos dentes.
Mas crê, sinceramente crê,
Que todas as metáforas são pouco
Para dizer o que eu vejo.
E vejo lábios, olhos, dentes.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Que de nós dois
O mais sensato sou eu,
– É uma forma delicada
De dizeres que sou mais velho.
Ora é verdade
Ser eu quem tem mais idade.
Mas daí a ter juízo
Vai um abismo tão grande
Que é preciso,
Com certeza,
Que o digas com ironia
E nenhuma simpatia
Pelo engano em que vivo.
O engano de ter rugas
E nunca fitar um espelho …
Vê lá tu que eu não sabia
Que sou dos dois o mais velho.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Senhora de olhos cansados,
Porque a fatiga o tear?
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Vamos, senhor pensativo,
Olhe o cachimbo a apagar.
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
Anda bem triste um amigo,
Uma carta o fez chorar.
– O soldadinho não volta
Do outro lado do mar.
A Lua, que é viajante,
É que nos pode informar.
– O soldadinho já volta,
Do outro lado do mar.
O soldadinho já volta,
Está quase mesmo a chegar.
Vem numa caixa de pinho.
Desta vez o soldadinho
Nunca mais se faz ao mar.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Aos domingos, iremos ao jardim.
Entediados, em grupos familiares,
Aos pares,
Dando-nos ares
De pessoas invulgares,
Aos domingos iremos ao jardim.
Diremos, nos encontros casuais
Com outros clãs iguais,
Banalidades rituais,
Fundamentais.
Autómatos afins,
Misto de serafins
Sociais
E de standardizados mandarins,
Teremos preconceitos e pruridos,
Produtos recebidos
Na herança
De certos caracteres adquiridos.
Falaremos do tempo,
Do que foi, do que já houve …
E sendo já então
Por tradição
E formação
Antiburgueses
– Solidamente antiburgueses.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Claro que você conhece a história do Capuchinho Vermelho. Aliás, conhece várias histórias do Capuchinho Vermelho incluindo algumas menos recomendáveis. (Não precisa de confirmar.) Mas diga-me lá: conhece a verdadeira história? A primeira? A que apareceu, pela primeira vez, em livro? Sabe quem foi o seu autor?
Então, preste atenção: A história do Capuchinho vermelho aparece, pela primeira vez num livro para crianças de autoria de um senhor francês de seu nome Charles Perrault. Esta história era acompanhada de outras, também nossas conhecidas, como “A bela adormecida”, o “Barba-Azul” o “Gato das Botas”, a “Gata borralheira” e o “Polegarzinho”.
Charles Perrault nasceu em Paris em Janeiro de 1628. Exacto: 1628 e viveu os reinados de Luis XIII e Luís XIV. Na altura o esplendor das letras francesas e a sua condição de académico não lhe permitiram assumir a autoria da obra. Disse ser um trabalho de um dos seus filhos. Só na segunda edição, em 1707 se soube, pela editora, ser ele o verdadeiro autor.
Por curiosidade sempre lhe digo que durante a vida de Charles Perrault, em Portugal, reinava o senhor D. Pedro II e era um tempo de fanatismo e ignorância em que a Inquisição tomava novo alento e os autos-de-fé eram espectáculo rotineiro.
Em 1697 morre o Padre António Vieira que até ao fim dos seus dias tentou chamar a atenção do poder para o “miserável estado do reino”…sem que as suas palavras fossem ouvidas, como, aliás, ainda hoje se prova.
Mas vamos ao texto da primeira versão da história do “Capuchinho Vermelho”. Chamo já a sua atenção para a “Moralidade” que o autor pretende tirar da história.
Eis a história, como a escreveu Charles Perrault por volta do ano de 1.650
O CAPUCHINHO VERMELHO
Era uma vez uma garota da aldeia, a mais bonita que jamais se viu: sua mãe era doida por ela e a senhora sua avó mais doida ainda. Esta boa mulher mandou-lhe fazer um capuchinho vermelho e tão bem ele lhe ficava, que por toda a parte lhe chamavam o Capuchinho Vermelho.
Um dia, depois de ter preparado e cozido um folar, disse-lhe a mãe:
– Vai lá ver como é que está a senhora tua avó, pois me disseram que estava doente. Leva-lhe este bolo e esta tigelinha de manteiga.
E logo o Capuchinho Vermelho se pôs a caminho até casa da senhora sua avó, que morava numa outra aldeia. Ao passar por uma mata, encontrou o compadre lobo, que bastante vontade teve de a comer; mas não se atreveu, por causa de uns lenhadores que por ali andavam na mata. Perguntou-lhe onde ia ela. A pobre menina, que não sabia quão perigoso é dar ouvidos a um lobo, disse-lhe:
– Vou ver a minha avozinha e levar-lhe um bolo, mais uma tigelinha de manteiga que a minha mãe aqui lhe manda.
– E ela mora muito longe? – perguntou-lhe o lobo.
– Oh se mora! – disse o Capuchinho Vermelho. Mora lá por detrás do moinho que vedes lá longe, na primeira casa da aldeia.
– Pois bem! – disse o lobo.
– Eu também lá quero ir vê-la; vou aqui por este caminho e tu por esse; e vamos a ver quem chega primeiro.
O lobo desatou a correr com toda a força pelo caminho que era mais curto e a garota lá foi pelo mais comprido, entretendo-se a apanhar avelãs, a correr atrás das borboletas e a fazer raminhos com as flores que ia vendo.
Não tardou o lobo a chegar à casa da avozinha; bate à porta: truz, truz.
– Quem é?
– É a sua netinha, o Capuchinho Vermelho – disse o lobo, imitando-lhe a voz – que aqui lhe traz um bolo e uma tigelinha com manteiga que a minha mãe lhe manda.
A boa da avozinha, que estava na cama por se sentir um tanto doente, gritou-lhe:
– Puxa pela guitinha que alevantas a tranquinha.
O lobo puxou pela guitinha e a porta abriu-se. Atirou-se à pobre mulher e devorou-a num abrir e fechar de olhos, pois há mais de três dias que não comia.
A seguir fechou a porta e foi deitar-se na cama da avozinha, à espera do Capuchinho Vermelho que, daí a pouco, batia à porta: truz, truz.
– Quem é?
Ao ouvir a voz grossa do lobo, o Capuchinho Vermelho assustou-se, mas julgando que a avozinha estava constipada, respondeu:
– É a sua netinha, o Capuchinho Vermelho, que aqui lhe traz um bolinho e uma tigelinha de manteiga, que a minha mãe lhe manda.
Gritou-lhe o lobo, fazendo a voz um pouco mais fina:
– Puxa pela guitinha que alevantas a tranquinha. O Capuchinho Vermelho puxou a guitinha e a porta abriu-se.
Vendo-a entrar, disse-lhe o lobo escondendo-se dentro da cama por baixo do cobertor:
– Põe o bolinho e a tigelinha com manteiga em cima da arca e vem deitar-te aqui ao meu lado.
O Capuchinho Vermelho despe-se e trata de se meter na cama, onde muito espantada fica, ao ver como é a avozinha em camisa de dormir. E diz assim para ela:
– Que grandes braços que tem, avozinha!
– É para melhor te abraçar, minha filha!
– Que grandes pernas que tem, avozinha!
– É para melhor correr, minha filha!
– Que grandes orelhas, que tem avozinha!
– É para melhor ouvir, minha filha!
– Que grandes olhos que tem, avozinha!
– É para melhor ver, minha filha!
– Que grandes dentes que tem, avozinha!
– É para te comer!
E dizendo estas palavras, o malvado do lobo atirou-se ao Capuchinho Vermelho e comeu-o.
MORALIDADE
Assim se vê que a pequenada. Meninas. principalmente.Sendo gentis e engraçadas.Mal andam em dar crédito a toda a gente. Depois não é de admirar se o lobo vier e as papar.Eu digo o lobo. pois os ditos. Nem todos são iguaizinhos: Há uns que são mais mansinhos. Quietos, ternos, sossegados.
Os quais, brandos, recatados.Vão perseguindo as donzelas até casa e às vezes até se deitam com elas.
Quem não vê. pois. que os lobos carinhosos de todos são decerto os mais perigosos?
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vieste de manhã, meu amor. Logo de manhã.
Tão cedo, que a noite ainda adormecia.
Não deste tempo, sequer, a que te abrisse a porta.
Entraste
por onde entra o fumo e o nevoeiro.
Trazias os cabelos orvalhados,
e na boca
aquele aroma fresco a hortelã.
Corremos juntos a acordar o dia
debruçando o nosso amor sobre a varanda.
O breve, o infinito, o todo verdadeiro
estava ali.
Nos corpos dados, unimos a alegria.
E assim rezámos uma oração pagã.
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Um dia
vou dizer-te palavras bordadas a bilros
traçando um labirinto que tu procuras percorrer com os lábios.
Vou olhar-te com olhos que te falem de mim
e onde as promessas dançam tangos de paixão.
Um dia, um dia…
Vou ensinar-te a percorrer os caminhos que levam ao meu colo
onde descansas a cabeça das intempéries da vida.
Passo a passo
gesto a gesto
carícia a carícia
quebras as barreiras e teces a teia dos desejos.
Um dia
vou surpreender-te e pôr a alma nua nos contornos do teu e do meu
corpo.
O desenho dela vai cantar-te baladas
e as tuas mãos dançarão nas curvas dos meus seios
ao afundar-se em mim como um cisne morrendo.
Um dia
tu vais olhar as minhas rendas pretas e desnudar-me os ombros.
Murmurarás palavras ciciadas, urdindo um feitiço enquanto o sol se
põe.
E inevitavelmente beberás dos meus lábios
a magia que te entardece os dias e inebria as noites.
Saio de madrugada ao teu encontro
a boca tremendo
o coração louco
a pele fervendo na espera do teu toque.
Um dia
vou contar-te este meu sonho.
Talvez quem sabe…um dia.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Amei-te? Sim. Doidamente!
Amei-te com esse amor
Que traz vida e foi doente…
À beira de ti, as horas
Não eram horas: paravam.
E, longe de ti, o tempo
Era tempo, infelizmente…
Ai! esse amor que traz vida,
Cor, saúde… e foi doente!
Porém, voltavas e, então,
Os cardos davam camélias,
Os alecrins, açucenas,
As aves, brancos lilases,
E as ruas, todas morenas,
Eram tapetes de flores
Onde havia musgo, apenas…
E, enquanto subia a Lua,
Nas asas do vento brando,
O meu sangue ia passando
Da minha mão para a tua!
Por que te amei?
— Ninguém sabe
A causa daquele amor
Que traz vida e foi doente.
Talvez viesse da terra,
Quando a terra lembra a carne.
Talvez viesse da carne
Quando a carne lembra a alma!
Talvez viesse da noite
Quando a noite lembra o dia.
— Talvez viesse de mim.
E da minha poesia…
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Andamos nus, apenas revestidos
Da música inocente dos sentidos.
Como nuvens ou pássaros passamos
Entre o arvoredo, sem tocar nos ramos.
No entanto, em nós, o canto é quase mudo.
Nada pedimos. Recusamos tudo.
Nunca para vingar as próprias dores
Tiramos sangue ao mundo ou vida às flores.
E a noite chega! Ao longe, morre o dia…
A Pátria é o Céu. E o Céu, a Poesia…
E há mãos que vêm poisar em nossos ombros
E somos o silêncio dos escombros.
Ó meus irmãos! em todos os países,
Rezai pelos amigos infelizes!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na branca praia, hoje deserta e fria,
De que se gosta mais do que de gente,
Na branca praia, onde te vi um dia
Para sonhar, já tarde, eternamente,
Achei (ia jurá-lo!) à nossa espera,
Intacto o rasto dos antigos passos,
Aquela praia, inamovível, era
Espelho de pés leves, depois lassos!
E doravante, imploro, em testamento,
Que, nesta areia, a espuma seja a tiara
Do meu cadáver, preso ao teu e ao vento…
— Vaivém sexual, que o mar lega aos defuntos? —
Se em vida, agora, tudo nos separa
Ó meu amor, apodreçamos juntos!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Era a mulher — a mulher nua e bela,
Sem a impostura inútil do vestido
Era a mulher, cantando ao meu ouvido,
Como se a luz se resumisse nela…
Mulher de seios duros e pequenos
Com uma flor a abrir em cada peito.
Era a mulher com bíblicos acenos
E cada qual para os meus dedos feito.
Era o seu corpo — a sua carne toda.
Era o seu porte, o seu olhar, seus braços:
Luar de noite e manancial de boda,
Boca vermelha de sorrisos lassos.
Era a mulher — a fonte permitida
Por Deus, pelos Poetas, pelo mundo…
Era a mulher e o seu amor fecundo
Dando a nós, homens, o direito à vida!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Estejas onde estiveres, nesse mundo fantasia, quero-te nas profundezas do amor e nas intimidades do acto consumado, para que saibas que a paixão é um mero caminho para a consolidação dos corpos extasiados pela magna noção da épica condição do Ser.
Quero-te despida de preconceitos na magia do luar que abrilhanta a nossa condição de dois amantes da vertente lunática do mundo que gira em movimentos iguais, e nós, em gestos ritmados fugimos a esse mundo em viagens lunares como dois elementos da terra prometida. Procuramos, em segredo, construir o nosso próprio paraíso.
Quero-te sedenta de palavras, as que embalo para oferecer-te como uma flor ou como um castelo para que possas viver nesse mundo principesco das maratonas da fantasia.
Ainda que o tempo, esse marasmo que se apodera das nossas horas perdidas nos afaste dos nossos desejos, nos invada com barreiras reais que a vida nos faz nascer, ainda que os atropelos possam protelar a nossa conquista feita de persistência, ainda assim, quero-te enquanto souber que poderás existir escondida num corpo qualquer, enquanto sentir que também me queres, Musa vestida de amor, despida pela carícia cor do sol, serás o meu luar das minhas noites de solidão, enquanto o nosso caminho não se cruzar na utopia do segredo em sequências mágicas que adornam o nosso querer.
Quero-te x Musa vestida de poetisa nesse corpo de mulher!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Estou ancorado ao porto
de abrigo demente
sou um barco pirata
de créditos efémeros
em que trago
tripulantes da espada
perdida.
Pompeio bandeiras do nunca
em esmeradas lacunas
sou um sonho perseguido
sou um acto por cumprir
Envolvo-me nas marés
percorrendo um mundo imaginário
de lés a lés
entre as mazelas do sempre
e as apatias da solidão negada
sou um pirata
discordante
disfarçado
Aguardo o assalto ao tempo
o momento oportuno
de resgatar ao mundo!
Meu tesouro profundo!
Sou o abrigo pirata
o barco demente
vestido de pomposa
anormalidadex
Sou o pirata do mundo!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Navego no rio cor de fogo
sinto-te
nessa árdua ausência
e o pôr-do-sol
foge-me das mãos
como este dia enigmático.
Navego só
com a solidão das águas moribundas
por ora,
sinto-me assim
preso nos desejos
no seio das inépcias
o que tiver que acontecer
só o amanhã dirá!
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Procurei o dono do mundo
queria saber quem manda
na alegria
na emoção contida
na razão
na ilusão de cada dia
Queria conhecer
tão poderoso
que comanda a vida
que decide entre o sim e o não
E os caminhos que percorri
levaram-me
(a pergunta)
trouxeram-me
(a resposta)
na simplicidade das coisas
descobri
O dono do mundo
é o coração
mas quem manda aqui
é o pensamento
que compõe o querer
de cada um
Em cada coração
em cada pensamento
entre muitos, corpos
há um dono do mundo
(do seu mundo)
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio…
Que a música que eu ouço ao longe, seja linda, ainda que triste.
Que a mulher que eu amo seja para sempre amada, mesmo que distante.
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor, apenas respeitadas, como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos.
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço.
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada.
Porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.
Que o espelho reflita em meu rosto, um doce sorriso que me lembro ter dado na infância.
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito.
E que o teu silêncio me fale cada vez mais.
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta, mesmo que ela não saiba.
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer.
Porque metade de mim é plateia e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada.
Porque metade de mim é amor e a outra metade…também.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
festejar no teu corpo a liberdade
que a dobra desta noite pronuncia
sobre o nervo da voz força de alarme
garganta milimétrica de abril
um cravo da coronha de um soldado
no carmo há meia hora ainda em sentido
para o gesto tão fundo tão volável
infância já da luz dentro do sismo
jornais não censurados no tapete
uma fábula fértil de fogueiras
crepitando onde rola o som da estampa
interior ao rumo a labareda
o desenho final do nosso beijo
na premissa mais livre do meu sangue
Podcast: Download
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Maldito invento dum baronete
Que dos cruzados neto não é.
É mais terrível que o voltarete,
Que a vermelhinha, que o lasquinet.
Dá mais partido para o banqueiro
Do que a roleta, que o dá copioso,
Haver não pode, no mundo inteiro,
Jogo mais certo, mais engenhoso.
Praga maldita, praga danada,
Maior que todas as pragas do Egito.
Que esta cidade traz devastada,
Triste e delgada, como um palito.
Pobre cidade, pacata outrora
Que só jogava o burro, a bisca,
E mais a víspora; hoje a devora
A jogatina, que tudo arrisca.
Joga o velho, joga o moço,
Joga o menino, a menina,
Joga a parda do caroço,
Joga a dama papa-fina,
Joga o Saco-do-Alferes
E o fidalgo Botafogo,
Jogam homens e mulheres,
Todos jogam; tudo é jogo!
Joga-se à luz meridiana,
À do gás e da candeia,
Joga-se toda a semana
Sem receio da cadeia.
Joga-se tudo bem descarado,
Roleta, solo, truco, manilha,
Marimbo, pocker, roleta, dado,
E o sete-e-meio e a rapa-pilha.
Porém dos jogos, mil e quinhentos,
Que nos assolam com seus caprichos,
Figura impávida, aos quatro ventos,
O pavoroso jogo dos bichos.
Se tem virtudes, altas e belas,
Dizer bem pode muitos magnatas,
Alvins, Ribeiros e Cabanelas,
E outros ilustres bicharocratas.
Em balde a nossa fina polícia,
Que tem às vezes um bom capricho,
Emprega força, tino e malícia
Não lhe é possível “matar o bicho”.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download
17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, em maldições e preces,
Como se, a arder, no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal, padeces;
E, rolando num vórtice vesano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas das virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E, no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.
Podcast (estudio-raposa-audiocast): Download