Eduarda Chiote – “Os passos da Poesia”
20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Eduarda Chiote nasceu em Bragança, em 1930. Licenciada em Ciências Histórico-Filosóficas e trabalhou na área da Psicotecnia. Além dos livros, Eduarda Chiote tem publicação dispersa por vários jornais, revistas e antologias, desde o final dos anos setenta.
20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Deslizas pela delicadeza
com teus pés magoados.
Por que caminhas agora sobre vidros,
por que exiges de ti essa aguda cautela?
Os céus teriam sido a morada, as areias finas
do nosso desencontro?
Soubera-o eu e ter-te-ia ajudado a não descalçar os sapatos.
As meias também.
Deixar-te ficar com elas, durante o amor,
tem sido (foi sempre) um motivo de deleite.
De carinho.
Uma inclinação natural
de proteger-te.
Se te pintara, numa imensa e clara tela, começaria
por essa mancha: estremecida.
Estremecida!
Ia jurar que nunca te apercebeste de como posso,
em discrição, exceder-lhe os pormenores
– convocar o fascínio,
a cor, a textura; pressagiar-lhe os passos de um suor doloroso.
Por que permiti, então, o caminhares por lugares
penosos?
Não mo perdoo.
Agora que os aperfeiçoas na fuga, espero bem poder acolhê-los
como pombas,
lavar-tos com a imaginação perfumada
das nuvens,
o olhar atento ao delicado equilíbrio, no quadro,
da moldura.
Anunciavam já, no tempo em que ao meu encontro
corriam, esse enredo de minuciosas
dores? – Quais? As de viver? O competente espaço
onde os acolho para a frescura da relva
por nascer?
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20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ó rosa dos sete ventos, por sete ventos
rodada,
defende-me
dos ladrões,
dos espantos doidos,
dos ventos,
e de mim. De mim também
e dos meus ventos
chorados.
Ó rosa dos sete espinhos
e no rochedo
cravados,
limpa o mar de todo o sangue, limpa a praia marinheira
das ondas do meu
pecado.
Limpa o coração deserto e a inocência do menino
trespassada pelo vidro da garrafa
arremessada
por veleiro sobre areia
adormecida,
por soltos cabelos
de água.
Ó rosa dos sete espinhos, por sete espinhos
rodada, traz-me o frio do céu limpo,
as nuvens da trovoada,
nos olhos do meu amor
e nas ruínas
abertas
de uma casa destelhada
ó rosa dos sete estrelos, por sete estrelos
rodada,
traz contigo todo o luto
desta música
inventada
no seu boné de marujo
ou no corpo não impresso de uma nota
descuidada.
Ó rosa dos sete estrelos, ó silêncio enevoado,
leva contigo
o Poema, leva contigo
a palavra.
Leva contigo
o Poeta
numa pérola de neve
e pela dor
fustigada
ó rosa clara de morte
ó nome do meu
amado.
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20.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
António Manuel Couto Viana (Viana do Castelo, 24 de Janeiro de 1923 – Lisboa, 8 de Junho de 2010) foi um encenador, tradutor, poeta, dramaturgo e ensaísta português. Tem mais de uma centena de livros publicados e a sua poesia está traduzida em francês, inglês, espanhol e chinês.
Dizem de mim que sou poeta,
Que escrevo versos com pudor,
Sem revelar a voz secreta
Para ninguém a ter de cor.
Que me contento co’a discreta
Fama exigida plo censor
E uso a caneta do esteta
Pra disfarçar o amor e a dor.
Tudo é verdade e é mentira
(A vida é esta condição),
Embora a alma me prefira
Entre o pecado e o perdão,
Pra o singular da minha lira
Do lado oposto ao coração.
(foi meu “ensaiador” de Teatro na Escola Comercial Veiga Beirão)
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Em sonho me dependurei no luar.
O luar quis acordar os nossos cios.
Ali estavas, desnudada no meu olhar,
Encandeando meus olhos luzidios.
Os sonhos soçobram ao acordar…
O luar distende o sonho em atavios.
Ai!, sereia espraiada no meu mar,
Esperando as águas dos meus rios…
Luar!, tapa-me os olhos e os dias:
Antes cego, que acordar e não ter,
Do que ver, e não ter o que vias….
Prendo, no sono, o sonho para te ver,
Fico cego se em mim não te sentir,
Fios de seda – não te deixem partir!
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quando tu e eu saltávamos em andamento,
Numa corrida estreita, para a existência,
Havia um brilho, intenso, que cegava a escuridão externa.
Falávamos em língua redonda,
Imperceptível,
Que nos deixava latejar à distância do universo das palavras.
Éramos nada!
Éramos tudo!
Frequentávamos os mesmos colégios ricos,
Onde a riqueza se media pelo contágio,
Em resultado das vidas passadas.
Fazíamos parte de um grupo,
Sem forma,
Grandes aos sentidos,
E sabíamos que iríamos viajar em busca da luz.
Éramos uma luz ténue…
E procurávamos um brilho permanente.
Entrámos por uma porta estreita
Onde formas sem luz
Reproduziam uma língua quadrada,
Sem nexo, herança de uma Torre de Babel,
Que tivemos de aprender.
Estamos a ficar cansados!
Não importa…
Tomámos o caminho recto e certo
E partiremos na luz…
Falta pouco meu amor.
Uma eternidade nos espera…
Lisboa, 30 de Abril de 2009
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Venho dos limites do tempo
De uma galáxia qualquer
Já fui mar, já fui vento
Agora sou pensamento
Aparado em dado momento
No ventre de uma mulher!
Meu corpo é magistral!
Brutal! Perfeito! Soberbo!
De inicio não era verbo
Agora sou o verbo ser
Tenho comigo segredos
Segredos do Universo
Transporto no corpo recados
Escrevo em forma de versos.
Venho dos limites do tempo
Não sei o que fui e sou:
Deserto? Nascente?
Já fui Norte, já fui Sul
Pó astral, mar azul!
Luar, estrela cadente.
Eu vou-me.. vou partir!
Partirei num cometa qualquer
E serei novamente pôr-do-sol.
cor-de-rosa, aloendro, malmequer!
Voltei…Já cá estou
Agora sou pensamento
Nascido em dado momento
Do ventre de uma mulher!
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Quisera andar de carrossel
Com um sorriso de criança que ri
Rosto rebuçado, melaços de mel
Laivos da festa que resta em ti…
Num dedo prendo o balão,
Com outro seguro o corcel
Soco a bola com a mão
As mãos, o rosto e a testa
Besunto-me todo com mel.
Solta-se dos dedos o balão
Que voa a caminho do céu
-Mãe! Vai-me apanhar
Um sorriso igual ao seu…
-Meu filho a mãe não sabe!
Ler, nunca aprendeu:
A mãe vai procurar
O balão que se perdeu…
-Mãe que sabe escutar,
Meus choros em seu coração
Abençoada o seja minha mãe
Por tudo o que foi e me deu!
Rodopiam as lembranças da festa
Pára o movimento ondulante
Sujo-me de novo a cada instante…
Sem rebuçados com sabor a mel
Mas… Brinquei tanto no carrossel….
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Este verde impossível de se ver,
Que alegre o camponês cultiva o prazo,
Não dá sequer para me aborrecer
Na extensão sem fim do campo raso.
Sem fim, a vida, deixa se correr
Lisa e fatal, serena, sem acaso.
E acontece o que tem de acontecer
Como quem já da vida não faz caso.
Nada se passa aqui de extraordinário:
Tudo assim, como peixe no aquário,
Sem relevo, sem isto, sem aquilo;
Muito bucólico a favor da besta,
O campo, sim, é esta coisa fresca…
Coaxar de rãs, a música do estilo.
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
o barco vem
português vai
português vem
o corpo cai
o corpo dói
português vai
português cai
o barco vai
o barco vem
português vai
português vem
o país cai
o país dói
o tempo vai
o tempo dói
português cai
português vai
português sai
português dói
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Chiar de bois,
milho amarelo,
suor na gente,
sestas na terra,
poços sem água,
os dias grandões!
Veio o estio, Cacilda!
Leva ao monte o almoço do teu home
e beija-lhe a testa suada
se ainda souberes!
Olha o campo doirado,
as espigas inchadas,
os pássaros no figo,
os moscardos no gado,
os meninos despidos!
Veio o estio, Cacilda!
Guarda o sono para o inverno
que é preciso encher o lar!
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19.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O cão que juntos vimos numa esquina.
O peixe que agonizava à nossa frente.
A onda na direção de nossas filhas,
a quem pedimos não quebrasse sobre elas.
O cacto que te comprei na feira
e que te faz sorrir
quando o entrego
ainda hoje nos meus pensamentos.
Tudo isso farei eterno,
se me confias teu corpo sem ruído,
se sufocas teu grito para que não nos ouçam
as crianças no quarto contíguo,
para que não descubra o tempo
o cão, a onda, o cacto,
teu corpo jugulado e inconsentido.
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18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Poeta chinês (1128 – 1191)
No último dia da duodécima lua
o deus do Lar volta para o Céu
para contar o que viu cá na Terra.
Antes de o queimarem e em fumo o tornarem
toda a família lhe dá de comer
para que fique com o ventre farto.
Leitão bem assado, peixe mui gostoso,
bolos aloirados, frutos bem maduros,
o vinho um regalo, não se olha a despesas.
O deus do Lar esquece as querelas,
as palavras insolentes, as faltas de todos.
Sobe ao Céu bêbado e satisfeito.
O que é preciso depois é arranjar outro deus.
(tradução de António Ramos Rosa)
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18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau…
Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.
Desbaratei-te, amor, com palavras.
Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seiscentos anos de lava
Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.
Ficou para trás, quente, a vida,
a marca colorida dos meus olhos, o tempo
em que ardiam no fundo de cada vento
mãos vivas, cercando-me…
Ficou a carícia que não encontro
senão entre dois sonos, a infinita
minha sabedoria em pedaços. E tu, palavra
que transfiguravas o sangue em lágrimas.
Nem sequer um rosto trago
comigo, já traspassado em outro rosto
como esperança no vinho e consumado
em acesos silêncios…
Volto sozinha
entre dois sonos lá ’trás, vejo a oliveira
rósea nas talhas cheias de água e lua
do longo inverno. Torno a ti que gelas
na minha leve túnica de fogo.
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18.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Muda-se o tema, onde o mar começa.
A aventura é o mar ou essa forma
que se forma depois, que vai viver
na memória dos dias? De uma ilha lembro
onde o mar me levou e do conhecimento
várias portas me abriu. O oceano
começava antes, acabava depois, ali
só prosseguia, embalando-me em noites
de velame abatido, de fáceis ananases,
de alta mastreação tocada de saudade
lucilante como a esteira do luar.
Mais tarde soube que estava sem trabalho
pois não havia Índias nem de infantas
o prémio de um sorriso. Mas combates
havia para outros, torpedos e canhões
longe não andavam. Daquela guerra
eu só fingia ser. Ancorado veleiro
eu pensaria a ilha, verde como o slogan,
nela não enjoava como, sobre o mar,
me acontecia nos navios da Insulana.
Marinheiro, eu não era. O mundo antigo
vivia-se nos livros, reproduções offset
multiplicavam os atlas, alguns poetas
banhariam na Grécia os seus poemas. Eu,
estava ali, parado no tempo, onde
o mar começava e acabava, esperando
que na praça da Matriz o relógio do sono
badalasse o regresso.
A minha casa
estava a oriente, ali acabaria
para mim o mar, e só quando da praia
o visse, a imaginação poderia segredar-me
que os meus pés começava e da viagem
seria excluído. Um rosto sem segredos
que as marés negras adoecem, e me acena
quando o avião desce e os motores destroçam
um mar de nuvens que se desfaz e recomeça.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Percorro o dia, que esmorece
Nas ruas cheias de rumor;
Minha alma vã desaparece
Na muita pressa e pouco amor.
Hoje é Natal. Comprei um anjo,
Dos que anunciam no jornal;
Mas houve um etéreo desarranjo
E o efeito em casa saiu mal.
Valeu-me um príncipe esfarrapado
A quem dão coroas no meio disto,
Um moço doente, desanimado
Só esse pobre me pareceu Cristo.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens
coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim … o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
… Mas … diz-me a ordenança …
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens…
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei a de mim com paciência:
Fechada de marés, a sonhos e a lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhadosa de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta pelo vento, as salas frias.
A minha casa… Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na melancolia de teus olhos
Eu sinto a noite se inclinar
E ouço as cantigas antigas
Do mar.
Nos frios espaços de teus braços
Eu me perco em carícias de água
E durmo escutando em vão
O silêncio.
E anseio em teu misterioso seio
Na atonia das ondas redondas
Náufrago entregue ao fluxo forte
Da morte.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Invades-me a alma
Num beijo molhado
Que me aquece o corpo
E me leva à entrega absoluta.
Já não sei quem sou
Perco-me nas partículas
Que te cobrem, envolvem,
E abarco-te com volúpia
No íntimo de mim.
Já não sei onde estou
Em ondas uníssonas e ritmadas,
Entre gritos e gemidos,
Salivamos torrentes de amor
Que se quedam eternas.
Já não sei de mim
O colapso final surge
Entre ejaculações e contracções
E palavras de amor
No declínio da tensão.
Já não somos dois
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O meu corpo
Tem toque de veludo
Na entrega carnal
Dos afectos
E desejos incontidos
Que não escondo
Atrás de máscaras
De menina decente.
Sou mulher,
Inteira, completa,
E quero-te
Ávido de mim,
Sedento dos meus seios
E ansioso
Pelo roçar das minhas coxas
Que se abrem para te receber.
Completa-me e mistura-te
Com os fluidos lascivos
Que se unificam
Em matéria
Que anseio receber
Dentro de mim
Vem
Sou tua!
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Caem as letras, uma a uma…
Cai a nossa roupa, espalha-se pelo chão,
Rebolam os versos nos nossos corpos
Em alegre sintonia.
Sinto-te na minha carne, quente…
Entras devagar, dentro de mim
E sacias-me a fome e o querer.
Transpiras-me,
Inspiras-me!
Realizo-te as fantasias mais loucas
Numa entrega indiscreta,
E quente, ardente…
Tomo-te e imaginas-me tua.
Inventamos caminhos indecentes
Para percorrermos juntos
E chegarmos, loucamente, ao fim
Inspiras-me!
Transpiras-me!
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não temas amar-me
Nem receies os calafrios que te provoco.
São meros sentimentos
E o egoísmo fica-te mal…
Sou mulher, sou inteira
E amo-te assim,
De uma forma que jamais entenderás.
Não tentes entrar no azul dos meus olhos
Porque te afogarias.
A tua alma já está possuída
Pelo meu coração…
Mesmo que não queiras!
Não me ouças a dormir
Se te sussurro num lamento
Quando estás aqui
E me viras as costas.
Provocas-me e atiças-me,
Afastas-me…
Saberás o que queres?
Eu sei…
Quero-te a ti!
Não sorrias…
Não sejas convencido!
Não fujas,
Escondida ando eu…
Mas apenas de mim.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Companheira dos homens
I
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes
poesia tão pessoal como uma escova dos dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
II
O medo faz calar as aves nas florestas densas
mas as canções dos homens faze-as mais largas, mais intensas,
mais impetuosas, mais rudes, canções que ferem e espantam
pois com o medo as aves calam-se e os homens gritam e cantam.
E a canção é um homem que percorre o Mundo lés a lés
gesticulando com os seus próprios braços, andando com os seus próprios pés,
grito que vai de continente em continente implacável e forte
e que passa as fronteiras sem precisar de passaporte.
Canções robustas e lavadas que se levantam cedo
e bebem a madrugada e têm o fôlego dos atletas,
porque enquanto as aves se calam, estranguladas pelo medo,
o medo, como uma faca, rasga os corações dos poetas.
III
E os poetas dão-se as mãos como se encontram as poesias
e se encontram as exigências de duas refeições todos os dias.
Que todos temos os mesmos problemas, as mesma fúrias e dores,
e todos pagamos o mesmo juro nas casas de penhores,
e todos falamos a mesma língua terrena, viva, saborosa e agreste
e deixamos aos anjos a linguagem celeste,
e todos transportamos tijolos para a casa começada
e lhe rasgamos as janelas e a desejamos arejada,
e todos temos um estômago e temos um coração
que bate compassadamente a mesma inquietação.
Inquietação presente nas coisas, nos gestos e no ar,
inquietação que remexe ou que paira, ameaçadora e tamanha,
como um polvo que se revolve no fundo do mar
ou um grão de dinamite incrustado na montanha.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Depois daquela noite os teus seios incharam;
as tuas ancas alargaram-se;
e os teus parentes admiraram-se
e falaram, falaram…
Porque falaram duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural?
Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
Mas tudo terminou porque falaram.
Tu fraquejaste e tudo terminou.
– Os teus seios desincharam;
só a tristeza ficou.
Ficou a tristeza duma coisa tão bela,
tão simples, tão natural…
– Tu não parias uma estrela,
nem uma noite de vendaval…
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Na hora que vem de longe,
cresce e vem, cresce e vem,
– os que tiverem frio hão-de lançar os meus versos ao lume,
e a chama há-de subir…
– os que tiverem fome hão-de lançar os meus versos à terra,
como se fossem estrume,
e a terra há-de florir…
Os meus poemas de tragédia são degraus
da hora que vem,
– cresce e vem,
– cresce e vem… –
Nos meus poemas cresceu, e sofreu, e aprendeu
nos meus poemas revoltos,
por isso vem de longe, nua, nua,
e traz os cabelos soltos…
Hora que vens de longe,
de longe vens, de rua em rua:
– hás-de passar e hás-de parar por toda a parte,
nua, formosamente, nua,
– para que já não possam desnudar-te.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Boa noite
A zebra quis
ir passear
mas a infeliz
foi para a cama
— teve que se deitar
porque estava de pijama.
A Caminhada
Nessa mata ninguém mata
a pata que vive ali,
com duas patas de pata,
pata acolá, pata aqui.
Pata que gosta de matas
visita as matas vizinhas,
com as suas duas patas
seguidas de dez patinhas.
E cada patinha tem,
como a pata lá da mata,
duas patinhas também
que são patinhas de pata.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Oh doce noite! Oh cama venturosa!
Testigos do prazer e da alegria,
dizei-me que julgais vós da porfia
daquela dama doce e amorosa.
Como se me mostrava rigorosa!
Como de minhas mãos ela fugia!
Como duas mil injúrias me dizia,
minha doce inimiga cautelosa!
Porém, como depois me deleitava,
prendendo-me em seus braços amorosos,
e abrindo aquelas pernas delicadas!
Com que brandura seus meneios dava!
Que beijos me of’recia, tão gostosos!
E que palavras tão açucaradas!
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Esse chegar de repente e abraçá-la,
esse pôr-se a lutar ele com ela,
esse cruzar suas pernas com as dela,
aquele poder mais ele e derrubá-la;
aquele vir abaixo, e ele sobre ela,
e ela cobrir-se e ele destapá-la,
esse pegar na lança e espetá-la,
e esse teimar dele até metê-la;
esse jogo de lombos e cadeiras,
e as palavras tão meigas e amorosas
que um ao outro murmuram, apressados;
esse voltar e andar de mil maneiras,
e fazer neste transe outras mil coisas
nas legítimas perdem os casados.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
– Que fazeis, bela? – Olho-me a este espelho.
– E porquê nua? – Pra melhor olhar-me.
– E em vós que vedes? – Que quero gozar-me.
– E porque não vos gozais? – Sem aparelho?
– O que vos falta? – Quem seja em amor velho.
– Pois, que sabe esse fazer? – Sab’rá forçar-me.
– E como vos forçará? – Com abraçar-me,
sem esperar licença nem conselho.
– E não resistireis? – Bem pouca coisa.
– Para quê tanto? – Menos que aqui digo;
que ele me saberá vencer, se é atilado.
– E se foge, por ver-vos pudorosa?
– Hei-de ter esse tal por inimigo,
vil, parvo, mole, pouco abonado.
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17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Primeiro é abraçá-la e apalpá-la,
e num instante com beijos entretê-la.
Primeiro é provocá-la e encendê-la.
depois lutar com ela e derrubá-la.
Primeiro é insistir e arregaçá-la,
as pernas pondo entre as pernas dela.
Primeiro é acabar isto com ela,
depois vem o deleite de gozá-la.
Não fazer, como soem os casados,
mais que chegar e achá-la preparada:
de tão doce, dá fome verdadeira.
Hão-de ser os deleites desejados;
se não, não dão prazer nem valem nada,
pois não há quem o barato comprar queira.
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