Nota biográfica

Charles-Pierre Baudelaire (Paris, 9 de abril de 1821 — Paris, 31 de agosto de 1867) foi um poeta e teórico da arte francesa. É considerado um dos precursores do Simbolismo e reconhecido internacionalmente como o fundador da tradição moderna em poesia, juntamente com Walt Whitman, embora tenha se relacionado com diversas escolas artísticas.

Charles Baudelaire – “Hino à beleza” (sem música)

17.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Virás do céu profundo ou surges do abismo,


Beleza?! o teu olhar, infernal e divino, 


Gera confusamente o crime e o heroísmo, 


E podemos, por isso, comparar-te ao vinho.

Conténs no teu olhar o poente e a aurora; 


Expandes os teus odores qual noite de trovoada; 


Teus beijos são um filtro e uma ânfora, a boca,


Tornando o herói cobarde e a criança arrojada.

Vens da treva mais negra ou descerás dos astros? 


Encantado, o Destino é um cão que te segue;


Semeias ao acaso alegrias, desastres, 


E por dominares tudo é que nada te interessa.

Caminhas sobre os mortos, que são o teu gozo;


Das tuas joias, o Horror é das que mais fascina, 


E entre tais enfeites, o próprio Assassínio


Vai dançando feliz no teu ventre orgulhoso.

O insecto, deslumbrado, procura-te a chama, 


Arde, crepita e diz: Benzamos esta luz! 


O apaixonado trémulo, aos pés da sua dama, 


Parece um moribundo a afagar o sepulcro.

Mas que venhas do céu ou do inferno, que importa, 


Beleza! monstro ingénuo, assustador, excessivo! 


Se o teu olhar, teus pés, teu riso, abrem a porta 


De um Infinito que amo e nunca conheci?

De Satanás ou Deus, que importa? 


Anjo ou Sereia, Se tu tornas – ó fada de olhos de veludo,


Ritmo, perfume, luz, ó rainha perfeita! 


-Mais leve cada instante e menos feio o mundo?

(Tradução de Fernando Pinto do Amaral)

Facebooktwittermailby feather

Alberto Caeiro – “O guardador de rebanhos” (Sem música)

14.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.
Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.
Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.
Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.
Não tenho ambições nem desejos.
Ser poeta não é uma ambição minha,
É a minha maneira de estar sozinho.
E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita coisa feliz ao mesmo tempo),
É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
Quando me sento a escrever versos
Ou, passeando pelos caminhos ou pelos atalhos,
Escrevo versos num papel que está no meu pensamento,
Sinto um cajado nas mãos
E vejo um recorte de mim
No cimo dum outeiro,
Olhando para o meu rebanho e vendo as minhas ideias,
Ou olhando para as minhas ideias e vendo o meu rebanho,
E sorrindo vagamente como quem não compreende o que se
diz E quer fingir que compreende.
Saúdo todos os que me lerem,
Tirando-lhes o chapéu largo
Quando me vêem à minha porta
Mal a diligência levanta no cimo do outeiro.
Saúdo-os e desejo-lhes sol,
E chuva, quando a chuva é precisa,
E que as suas casas tenham
Ao pé duma janela aberta
Uma cadeira predilecta
Onde se sentem, lendo os meus versos.
E ao lerem os meus versos pensem
Que sou qualquer coisa natural –
Por exemplo, a árvore antiga
A sombra da qual quando crianças
Se sentavam com um baque, cansadas de brincar,
E limpavam o suor da testa quente
Com a manga do bibe riscado.

Facebooktwittermailby feather

“Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago

14.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O livro conta uma história humanizada da vida de Jesus e alude a uma sua eventual relação com Maria Madalena (no livro, foi com ela que Jesus “conheceu o amor da carne e nele se reconheceu homem”). Ao adoptar essa perspectiva, de humanização de Cristo, distante da representação tradicional do Evangelho e evidenciando o seu caráter frágil e vulnerável, Saramago coloca que a propagada histórica da crucificação de Jesus, “um revulsivo forte, qualquer coisa capaz de chocar as sensibilidades e arrebatar os sentimentos”, resultou na imposição de “uma história interminável de ferro e de sangue, de fogo e de cinzas, um mar infinito de sofrimento e de lágrimas”, de acordo com a sua visão de mundo, segundo a qual “por causa e em nome de Deus é que se tem permitido e justificado tudo, principalmente o mais horrendo e cruel”, e que, “no fundo, o problema não é um Deus que não existe, mas a religião que o proclama. Denuncio as religiões, todas as religiões, por nocivas à Humanidade. São palavras duras, mas há que dizê-las”. Isso levou a que o livro fosse considerado ofensivo por diversos sectores da comunidade católica, a que ele sofresse perseguição religiosa em seu próprio país, e a que o governo português, pressionado pela Igreja Católica e por meio do então Subsecretário de Estado da Cultura de Portugal, Sousa Lara, vetasse este livro de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu por “atentar contra a moral cristã”.
Em reacção a este acto do Subsecretário de Estado, que considerou censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir na ilha de Lanzarote, Ilhas Canárias, onde permaneceu até à sua morte.
(Wikipédia)

O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de aguda luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite, lançando pela boca aberta um grito que não poderemos ouvir, pois nenhuma destas coisas é real, o que temos diante de nós é papel e tinta, mais nada. Por baixo do sol vemos um homem nu atado a um tronco de árvore, cingidos os rins por um pano que lhe cobre as partes a que chamamos pudendas ou vergonhosas, e os pés tem-nos assentes no que resta de um ramo lateral cortado, porém, por maior firmeza, para que não resvalem desse suporte natural, dois pregos os mantêm, cravados fundo. Pela expressão da cara, que é de inspirado sofrimento, e pela direcção do olhar, erguido para o alto, deve de ser o Bom Ladrão. O cabelo, todo aos caracóis, é outro indício que não engana, sabendo-se que anjos e arcanjos assim o usam, e o criminoso arrependido, pelas mostras, já está no caminho de ascender ao mundo das celestiais criaturas. Não será possível averiguar se este tronco ainda é uma árvore, apenas adaptada, por mutilação selectiva, a instrumento de suplício, mas continuando a alimentar-se da terra pelas raízes, porquanto toda a parte inferior dela está tapada por um homem de barba comprida, vestido de ricas, folgadas e abundantes roupas, que, tendo embora levantada a cabeça, não é para o céu que olha. Esta postura solene, este triste semblante, só podem ser de José de Arimateia, que Simão de Cirene, sem dúvida outra hipótese possível, após o trabalho a que o tinham forçado, ajudando o condenado no transporte do patíbulo, conforme os protocolos destas execuções, fora à sua vida, muito mais preocupado com as consequências do atraso para um negócio que trazia aprazado do que com as mortais aflições do infeliz que iam crucificar.
Ora, este José de Arimateia é aquele bondoso e abastado homem que ofereceu os préstimos de um túmulo seu para nele ser depositado o corpo principal, mas a generosidade não lhe servirá de muito na hora das santificações, sequer das beatificações, pois não tem, a envolver-lhe a cabeça, mais do que o turbante com que sai à rua todos os dias, ao contrário desta mulher que aqui vemos em plano próximo, de cabelos soltos sobre o dorso curvo e dobrado, mas toucada com a glória suprema duma auréola, no seu caso recortada como um bordado doméstico.
De certeza que a mulher ajoelhada se chama Maria, pois de antemão sabíamos que todas quantas aqui vieram juntar-se usam esse nome, apenas uma delas, por ser ademais Madalena, se distingue onomasticamente das outras, ora, qualquer observador, se conhecedor bastante dos factos elementares da vida, jurará, à primeira vista, que a mencionada Madalena é esta precisamente, porquanto só uma pessoa como ela, de dissoluto passado, teria ousado apresentar-se, na hora trágica, com um decote tão aberto, e um corpete de tal maneira justo que lhe faz subir e altear a redondez dos seios, razão por que, inevitavelmente, está atraindo e retendo a mirada sôfrega dos homens que passam, com grave dano das almas.

Facebooktwittermailby feather

“Cem Anos de Solidão” de Gabriel García Márquez

11.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

cem

Cem Anos de Solidão é uma obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, Prémio Nobel da Literatura em 1982, e é considerada uma das obras mais importantes da literatura latino-americana. Esta obra é das mais lidas e traduzidas de todo o mundo. Durante o IV Congresso Internacional da Língua Espanhola, realizado em Cartagena, na Colômbia, em Março de 2007, “Cem Anos de Solidão” foi considerada a segunda obra mais importante de toda a literatura hispânica, ficando apenas atrás de “Dom Quixote de la Mancha”. Utilizando o estilo conhecido como realismo mágico, “Cem Anos de Solidão” cativou milhões de leitores e ainda atrai milhares de fãs à literatura constante de Gabriel García Márquez.
A primeira edição foi publicada em Buenos Aires, Argentina, em Maio de 1967, pela editora Editorial Sudamericana, com uma tiragem inicial de 8.000 exemplares.

(Wikipedia)

(Texto do excerto, não disponível. Leitura gravada em 9 de Setembro de 2005)

Facebooktwittermailby feather

“D. Quixote de La Mancha”, de Miguel de Cervantes.

10.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dom Quixote de La Mancha (Don Quijote de la Mancha em castelhano) é um livro escrito pelo espanhol Miguel de Cervantes y Saavedra (1547-1616). O título e ortografia originais eram El ingenioso hidalgo Don Qvixote de La Mancha, com sua primeira edição publicada em Madrid no ano de 1605. É composto por 126 capítulos, divididos em duas partes: a primeira surgida em 1605 e a outra em 1615. É considerada a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola. Em princípios de maio de 2002, o livro foi escolhido como a melhor obra de ficção de todos os tempos. A votação foi organizada pelo Clubes do Livro Noruegueses e participaram escritores de reconhecimento internacional.

Vivia, não há muito, numa aldeia da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, um fidalgo dos de lança em armeiro, escudo velho, pileca escanzelada e galgo veloz. Dissipavam-lhe três partes dos bens um cozido, de vaca um pouco mais que de carneiro; salpicão as mais das noites; rabugices e lazeiras aos sábados; lentilhas ás sexta-feiras; algum borracho, de melhoria, aos domingos. Saio de velarte, calças de veludo para as festas; pantufos do mesmo; velori do mais fino, com que se 
honrava nos dias de semana, davam-lhe cabo dos sobejos. Tinha em casa uma patroa que passava dos quarenta, uma sobrinha que não chegava aos vinte, e um criado de fora e de dentro, que tanto lhe selava a besta, como manejava o podão. Calhava a idade do nosso fidalgo com os cinquenta anos; era de compleição robusta, seco de carnes, enxuto de rosto, grande madrugador e amigo da caça. Querem dizer que tinha o sobrenome de Quijada ou Quesada (no que há alguma dife
rença nos autores que deste caso escrevem) ainda que por conjeturas verosímeis se deixe perceber que se chamava Quijana; porem isto pouco importa ao nosso conto; basta que a narração dele não saia um ponto da verdade. Nos espaços em que estava ocioso (que eram os mais do ano) é de saber que este sobredito fidalgo se ocupava em ler livros 
de cavalarias, com tanto gosto e a ferro, que olvidou quase totalmente o exercício da caça, e até o amanho da sua fazenda. E a tal ponto chegou a curiosidade e desvario que vendeu muitas nesgas de terra de semeadura, para comprar livros de cavalaria em que ler, e assim levou para casa quantos pôde encontrar. E a nenhuns achava tão bem como aos que compôs o famoso Feliciano de Silva: porque a clareza da prosa, e aquelas intrincadas razões lhe pareciam de pérolas; e mais quando chegava a ler aqueles requebros e carteis, onde em muitas partes achava escrito: «a razão da sem-razão que á minha razão se faz, de tal maneira a minha razão enfraquece que com razão me queixo da vossa formosura»; e também quando lia: «os altos céus que de vossa divindade divinamente com as estrelas vos fortificam, e vos fazem merecedora do merecimento que merece a vossa grandeza».
Perdia o juízo o pobre cavaleiro com estas e semelhantes razões, e disvelava-se em compreende-las e decifrar-lhes o sentido, que não lhes arrancara o próprio Aristóteles, nem as percebera se para isso ressuscitasse.

(Texto retirado de uma edição de 1905 da Guimarães & Cª com atualizações de algumas palavras)

Facebooktwittermailby feather

Boris Vian – “Se os poetas fossem menos patetas”

07.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se os poetas fossem menos patetas
E se fossem menos preguiçosos
Faziam toda a gente feliz.
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Construíam casas amarelas
Com grandes jardins à frente
E árvores cheias de zaves,
De mirliflautas e licores,
De melfiarufos e toutiverdes
De plumuchos e picapães
E pequenos corvos vermelhos
Que soubessem ler a sina.
Havia grandes repuxos
Com luzes por dentro.
Havia duzentos peixes
Desde o crusco ao ramussão
Da libela ao papamula
Da orfia ao rara curul
E da alvela ao canissão.

Havia um ar novo
Perfumado do odor das folhas

Comia-se quando se quisesse
E trabalhava-se sem pressa
A construir escadarias
De formas antes nunca vistas
Com madeiras raiadas de lilás
Lisas como ela sob os dedos.

Mas os poetas são uns patetas.
Escrevem para começar
Em vez de se porem a trabalhar.
E isso traz-lhes um remorso
Que conservam até à morte
Encantados de ter sofrido tanto.
Dedicam-lhes grandes discursos
E são esquecidos num dia.
Mas se trabalhassem mais
Só seriam esquecidos em dois.

Boris Vian, in “Não Queria Patear”
Tradução de Irene Freire Nunes / Fernando Cabral Martin

Facebooktwittermailby feather

Golgona Anghel – “Vim porque me pagavam…”

02.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vim porque me pagavam,

e eu queria comprar o futuro a prestações.

Vim porque me falaram de apanhar cerejas

ou de armas de destruição em massa.

Mas só encontrei cucos e mexericos de feira,

metralhadoras de plástico, coelhinhos da Páscoa e pulseiras

de lata.

A bordo, alguém falou de justiça

(não, não era o Marx).

A bordo, falavam também de liberdade.

Quantos mais morríamos,

mais liberdade tínhamos para matar.

Matava porque estavas perto,

porque os outros ficaram na esquina do supermercado

a falar, a debater o assunto.

Com estas mãos levantei a poeira

com que agora cubro os nossos corpos.

Com estas pernas subi dez andares
para assim te poder olhar de frente.

Alguém se atreve ainda a falar de posteridade?

Eu só penso em como regressar a casa;

e que bonito me fica a esperança

enquanto apresento em directo

a autópsia da minha glória.

[in Vim porque me pagavam, Mariposa Azual, 2011]

Facebooktwittermailby feather

Eugénio de Andrade – “Poesia” (Sem música)

25.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A poesia não vai à missa,
não obedece ao sino da paróquia,
prefere atiçar os seus cães
às pernas de deus e dos cobradores
de impostos.
Língua de fogo do não,
caminho estreito
e surdo da abdicação, a poesia
é uma espécie de animal
no escuro recusando a mão
que o chama.
Animal solitário, às vezes
irónico, às vezes amável,
quase sempre paciente e sem piedade.
A poesia adora
andar descalça nas areias do Verão.

Facebooktwittermailby feather

Edson Bueno de Camargo – “Gelo entre os dedos”

23.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

aqui enterrei meus mortos
nesta cidade de telhas claras
e a linha o céu não se define no cinza
onde o oco da terra abriga
coleções de esqueletos brancos

ali plantei uma árvore de carne
(em homenagem ao pai mais antigo que o outro)
que serviu de suporte a meus ossos parcos
e nela jaz enforcado um cão ainda em agonia
todo o sangue obliquo de crianças vingadas
e cabelos de cascatas de cometas

há um grito surdo de mortes precoces
inocências imoladas em campos de batalha
aqueles que carregam pedras de gelo entre os dedos
e uma agonia antiga e intacta entre os dentes

um barril repleto de braços amputados, mãos
e orelhas e narizes decepados a facão
ampulhetas de linfa coagulada e reduzida a pó
pedras de peixe ( fortuna escondida no porão)
retratos de lordes emoldurados com pele humana.

há um urro indolente de tesouras de aço enferrujado
prata e ouro enredados em fina tapeçaria
um coro de choros incontroláveis de mães em praça pública
em cidades sitiadas
em muros de vergonha
e campos sem cultivo
que na falta de justiça se referem a vingança com graça e apreço
há um rio que corre destes olhos
água agourenta e salgada
que devora como ácido
toda a alegria e esperança

Facebooktwittermailby feather

Carlos Poças Falcão – “Em linguagem…”

23.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em linguagem clara o abandono é o amor.

Quando a hora chega e o tempo se consuma

as mãos podem estar tranquilas

que o olhar vê tudo bem e o coração desprende


a nuvem exaltada. Disto muitos querem prova.

Estende-lhes a taça para sua provação

pois só quem faz a prova conhece este sabor.


Abelha no açúcar e ave no pomar

som inicial duma canção fraterna

noite que ascende a uma estação mais pura

– ah, como escandaliza aquele que não ama

ver o amor provado do que todo se abandona!

Facebooktwittermailby feather

Álvaro de Campos – “Opiário”

22.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

É antes do ópio que a minh’alma é doente.
Sentir a vida convalesce e estiola
E eu vou buscar ao ópio que consola
Um Oriente ao oriente do Oriente.

Esta vida de bordo há-de matar-me.
São dias só de febre na cabeça
E, por mais que procure até que adoeça,
Já não encontro a mola pra adaptar-me.


Em paradoxo e incompetência astral
Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,
Onda onde o pundonor é uma descida
E os próprios gozos gânglios do meu mal.


É por um mecanismo de desastres,
Uma engrenagem com volantes falsos,
Que passo entre visões de cadafalsos
Num jardim onde há flores no ar, sem hastes.


Vou cambaleando através do lavor
Duma vida-interior de renda e laca.
Tenho a impressão de ter em casa a faca
Com que foi degolado o Precursor.


Ando expiando um crime numa mala,
Que um avô meu cometeu por requinte.
Tenho os nervos na forca, vinte a vinte,
E caí no ópio como numa vala.

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes
Ergue-se a lua como a minha Sina.


Eu, que fui sempre um mau estudante, agora
Não faço mais que ver o navio ir
Pelo canal de Suez a conduzir
A minha vida, cânfora na aurora.


Perdi os dias que já aproveitara.
Trabalhei para ter só o cansaço
Que é hoje em mim uma espécie de braço
Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.


E fui criança como toda a gente.
Nasci numa província portuguesa
E tenho conhecido gente inglesa
Que diz que eu sei inglês perfeitamente.


Gostava de ter poemas e novelas
Publicados por Plon e no Mercure,
Mas é impossível que esta vida dure.
Se nesta viagem nem houve procelas!


A vida a bordo é uma coisa triste,
Embora a gente se divirta às vezes.
Falo com alemães, suecos e ingleses
E a minha mágoa de viver persiste.

Eu acho que não vale a pena ter
Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.
A terra é semelhante e pequenina
E há só uma maneira de viver.


Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.


Fumo. Canso. Ah, uma terra aonde, enfim,
Muito a leste não fosse o oeste já!
Pra que fui visitar a Índia que há
Se não há Índia senão a alma em mim?


Sou desgraçado por meu morgadio.
Os ciganos roubaram minha Sorte.
Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte
Um lugar que me abrigue do meu frio.


Eu fingi que estudei engenharia.
Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.
Meu coração é uma avozinha que anda
Pedindo esmola às portas da Alegria.


Não chegues a Port-Said, navio de ferro!
Volta à direita, nem eu sei para onde.
Passo os dias no smoking-room com o conde –
Um escroc francês, conde de fim de enterro.

Volto à Europa descontente, e em sortes
De vir a ser um poeta sonambólico.
Eu sou monárquico mas não católico
E gostava de ser as coisas fortes.


Gostava de ter crenças e dinheiro,
Ser vária gente insípida que vi.
Hoje, afinal, não sou senão, aqui,
Num navio qualquer um passageiro.


Não tenho personalidade alguma.
É mais notado que eu esse criado
De bordo que tem um belo modo alçado
De laird escocês há dias em jejum.


Não posso estar em parte alguma. A minha
Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.
O comissário de bordo é velhaco.
Viu-me co’a sueca… e o resto ele adivinha.


Um dia faço escândalo cá a bordo,
Só para dar que falar de mim aos mais.
Não posso com a vida, e acho fatais
As iras com que às vezes me debordo.


Levo o dia a fumar, a beber coisas,
Drogas americanas que entontecem,
E eu já tão bêbado sem nada! Dessem
Melhor cérebro aos meus nervos como rosas.


Escrevo estas linhas. Parece impossível
Que mesmo ao ter talento eu mal o sinta!
O facto é que esta vida é uma quinta
Onde se aborrece uma alma sensível.


Os ingleses são feitos pra existir.
Não há gente como esta pra estar feita
Com a Tranquilidade. A gente deita
Um vintém e sai um deles a sorrir.


Pertenço a um género de portugueses
Que depois de estar a Índia descoberta
Ficaram sem trabalho. A morte é certa.
Tenho pensado nisto muitas vezes.

Leve o diabo a vida e a gente tê-la! 
 


Nem leio o livro à minha cabeceira. 
                            
Enoja-me o Oriente. É uma esteira 
                             


Que a gente enrola e deixa de ser bela.
                            
Caio no ópio por força. Lá querer 
                            
Que eu leve a limpo uma vida destas 
                            
Não se pode exigir.  Almas honestas 
                            
Com horas pra dormir e pra comer,
                            
Que um raio as parta!  E isto afinal é inveja. 
                            
Porque estes nervos são a minha morte. 
                            
Não haver um navio que me transporte 
                            
Para onde eu nada queira que o não veja!
                            
Ora!  Eu cansava-me o mesmo modo. 
                            
Qu’ria outro ópio mais forte pra ir de ali 
                            
Para sonhos que dessem cabo de mim 
                            
E pregassem comigo nalgum lodo.
                            
Febre!  Se isto que tenho não é febre, 
                            
Não sei como é que se tem febre e sente. 
                            
O facto essencial é que estou doente. 
                            
Está corrida, amigos, esta lebre.
                            
Veio a noite.  Tocou já a primeira 
                            
Corneta, pra vestir para o jantar. 
                            
Vida social por cima!  Isso!  E marchar 
                            
Até que a gente saia pla coleira!
                            
Porque isto acaba mal e há-de haver 
                            
(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim 
                            
Deste desassossego que há em mim 
                            
E não há forma de se resolver.
                            
E quem me olhar, há-de-me achar banal,
A mim e à minha vida…Ora! Um rapaz… 
                            
O meu próprio monóculo me faz 
                            
Pertencer a um tipo universal.
                            
Ah quanta alma viverá, que ande metida 
                            
Assim como eu na Linha, e como eu mística! 
                            
Quantos sob a casaca característica 
                            
Não terão como eu o horror à vida?
                            
Se ao menos eu por fora fosse tão 
                            
Interessante como sou por dentro! 
                            
Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro. 
                            
Não fazer nada é a minha perdição.
                            
Um inútil.  Mas é tão justo sê-lo! 
                            
Pudesse a gente desprezar os outros 
                            
E, ainda que co’os cotovelos rotos, 
                            
Ser herói, doido, amaldiçoado ou belo!
                            
Tenho vontade de levar as mãos 
                            
À boca e morder nelas fundo e a mal. 
                            
Era uma ocupação original 
                            
E distraía os outros, os tais sãos.
                            
O absurdo, como uma flor da tal Índia 
                            
Que não vim encontrar na Índia, nasce 
                            
No meu cérebro farto de cansar-se. 
                            
A minha vida mude-a Deus ou finde-a …
                            
Deixe-me estar aqui, nesta cadeira, 
                            
Até virem meter-me no caixão. 
                            
Nasci pra mandarim de condição, 
                            
Mas falta-me o sossego, o chá e a esteira.
                            
Ah que bom que era ir daqui de caída 
                            
Pra cova por um alçapão de estouro! 
                            
A vida sabe-me a tabaco louro. 
                            
Nunca fiz mais do que fumar a vida.
                            
E afinal o que quero é fé, é calma, 
                            
E não ter estas sensações confusas. 
                            
Deus que acabe com isto!  Abra as eclusas — 
                            
E basta de comédias na minh’alma!
                               
(No Canal de Suez, a bordo)

Facebooktwittermailby feather

António Botto – “Nem sequer podia…”

19.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

chuvinha

Nem sequer podia
Ouvir falar no teu nome.
E se fixava o teu vulto,
Irritava-me, sofria
Por não poder insultar-te…
Até que um dia,
– Foi no inverno, anoitecia.
Chuviscava; – uma chuvinha
Impertinente e gelada
Como sorriso de ironia
Numa boca desejada.

Já não sei o que disseste;
Nem me lembro do que disse…

A chuva continuava.
Atravessámos um jardim. E à
luz fosca Dum candeeiro,
Segredaste ao meu ouvido:
Quero entregar-te o meu corpo.
E eu acrescentei: – Pois sim.

A chuva tornou-se densa. Eu ia
todo encharcado. Por fim,
chegámos; entrei…

Um marinheiro descia
Ajeitando a camisola
E compondo os caracóis.
Era uma casa vulgar,
Aonde o amor
– Oculto a todos os sóis,
Se vendia a troco da “real mola”.

Arrependi-me. Blasfemei…
Mas quando abandonei os teus braços
Senti que tinha mais alma!

E nunca mais te encontrei.

Facebooktwittermailby feather

José Gomes Ferreira – “Viver sempre também cansa”

18.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O sol é sempre o mesmo e o céu azul
ora é azul, nitidamente azul,
ora é cinzento, negro, quase-verde…
Mas nunca tem a cor inesperada.

O mundo não se modifica.
As árvores dão flores,
folhas, frutos e pássaros
como máquinas verdes.

As paisagens também não se transformam.
Não cai neve vermelha,
não há flores que voem,
a lua não tem olhos
e ninguém vai pintar olhos à lua.

Tudo é igual, mecânico e exacto.

Ainda por cima os homens são os homens.
Soluçam, bebem, riem e digerem
sem imaginação.
E há bairros miseráveis sempre os mesmos,
discursos de Mussolini,
guerras, orgulhos em transe,
automóveis de corrida…
E obrigam-me a viver até à Morte!

Pois não era mais humano
morrer por um bocadinho,
de vez em quando,
e recomeçar depois,
achando tudo mais novo?

Ah! se eu pudesse suicidar-me por seis meses,
morrer em cima dum divã
com a cabeça sobre uma almofada,
confiante e sereno por saber
que tu velavas, por mim, meu amor do Norte.

Quando viessem perguntar por mim,
havias de dizer com teu sorriso
onde arde um coração em melodia:
“Matou-se esta manhã.
Agora não o vou ressuscitar por uma bagatela.”
E virias depois, suavemente,
velar por mim, subtil e cuidadosa,
pé ante pé, não fosses acordar
a Morte ainda menina no meu colo…

Facebooktwittermailby feather

Cristina Guedes – “Aqui jaz: saudade” (Sem música)

16.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Antigamente era fácil
falar de rotinas ou de cansaços,
de olheiras e de corpos partidos,
porque nada disso me deixava mal.
Na segurança do amor ou no escaldar
da paixão não cabem queixas ou indagações.
É um quebrar de corpos sem dor,
um esgotar de horas nocturnas
onde a rotina do teu suor na minha pele
causava dependência do prazer,
mamilos espetados furando a palma das tuas mãos,
ancas viciadas no samba dos teus quadris,
num ir e vir, beijos que caíam,
desabavam por pescoços e bocas por coxas e olhos.
Equiparava as tuas palavras sussurradas e
sedutoras aos murmúrios de fundo das conchas do mar,
á brisa redentora do final da tarde na colina,
antigamente eras o mel que me adoçava os dias.

É por isto que escrevo, com receio
de que as minhas memórias se percam
no fundo do mar que já não somos,
numa demência de rituais e febres,
num transladar de novas direcções e objectivos.
Sou eu a praguejar, ainda viva, ainda presente
nos meus deslumbramentos acerca de ti.
Ainda presa a momentos de luxo
nesse tal planeta de afectos onde o teu nome
em néon ilumina corredores e salões,
esquinas e ruas convexas.
Se te doer o presente, grava-me editada em mp3,
pra que possas continuar a viver do passado que já fomos, tu e eu.
Mas nesse dia jorra-me pétalas em cima
e beija o rosto já manchado de humidade,
logo abaixo onde diz : Aqui jaz Saudade.

Facebooktwittermailby feather

António Gedeão – “Domingo” (sem música)

15.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

“Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio alegremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.
Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.
É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.”

de, António Gedeão in “Novos Poemas Póstumos”, “Poesia Completa”, pág. 188

Facebooktwittermailby feather

Fernando Assis Pacheco – “A tua nudez inquieta-me”

11.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há dias em que a tua nudez
é como um barco subitamente entrado pela barra.
Como um temporal. Ou como
certas palavras ainda não inventadas,
certas posições na guitarra
que o tocador não conhecia.

A tua nudez inquieta-me. Abre o meu corpo
para um lado misterioso e frágil.
Distende o meu corpo. Depois encurta-o e tira-lhe
contorno, peso. Destrói o meu corpo.
A tua nudez é uma violência
suave, um campo batido pela brisa
no mês de Janeiro quando sobem as flores
pelo ventre da terra fecundada.

Eu desgraço-me, escrevo, faço coisas
com o vocabulário da tua nudez.
Tenho «um pensamento despido»;
maturação; altas combustões.
De mão dada contigo entro por mim dentro
como em outros tempos na piscina
os leprosos cheios de esperança.
E às vezes sucede que a tua nudez é um foguete
que lanço com mão tremente desastrada
para rebentar e encher a minha carne
de transparência.

Sete dias ao longo da semana,
trinta dias enquanto dura um mês
eu ando corajoso e sem disfarce,
ilumindo, certo, harmonioso.
E outras vezes sucede que estou: inquieto.
Frágil.
Violentado.

Para que eu me construa de novo
a tua nudez bascula-me os alicerces.

(in “A Musa Irregular”)

Facebooktwittermailby feather

Maria do Rosário Pedreira – “Na tua boca”

11.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Na tua boca cantou subitamente uma voz. E, ao dizeres 

o meu nome na rede de um abraço, o rio que outrora 

bordava o campo emudeceu com as suas pedras lisas.

Então, foi possível

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas e os 

lagartos recolherem-se nos veios dos muros e o sol 

ferir-se nos espinhos das roseiras.

Sobre a colina quente passou uma nuvem

e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte
-
por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão 

escorregou pela inclinação do sol e veio contar as 

sombras no meu decote.

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

(de O Canto do Vento nos Ciprestes)

Facebooktwittermailby feather

Afonso Lopes Vieira – “Pois bem”

08.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem!
Se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
Fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
Fui eu que t’as cedi num dote de princesa.
E para te ensinar a ser correcto já,
Coloquei-te na mão a xícara de chá…
 
E se for um francês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
De ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
Fui eu que as depenei primeiro, e às gloriosas
O Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
Por essa Espanha acima, até casa a coxear.
 
E se um Yankee for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem!
Quando um dia arribei à orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
– eu era então o João Fernandes Labrador…
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.
 
Se for um Alemão que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor…
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.
 
Se for um Japonês que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: – Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!
Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!
Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
Belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
Foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.
Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
E penso que não são oceanos, continentes,
As pérolas em monte e os diamantes ardentes,
Que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
– São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
Extasiado fixou pela primeira vez…
Estrelas coroai meu sonho Português!
 
P.S. A um Espanhol, claro está, nunca direi: – Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

Facebooktwittermailby feather

Afonso Calçada – “Estou vivo”

05.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fuzilem-me estou vivo
nu das maiores e pequenas vinganças
nu de raiva e de ciúmes
nu de ingratidões
nu de armas
nu de respostas
nu de remorsos
nu de insultos.
Fuzilem-me assim
estou pronto
estou seguro
estou firme
no meu posto.

Já levei os pontapés regulamentares
já ensinei cantigas e obscenidades
já experimentei no corpo
as nódoas roxas que me sobraram da alma
já conheci a lei
e as sanções da lei
e a lei da lei
e a falta de lei da lei.

Estou vivo
não vão é dizer que me matei
não vão é desculpar-se com as hierarquias
as altas a desculparem-se com as baixas
as baixas a desculparem-se com as altas
não vão é dizer que colaborei
que morri camonianamente devagar
de fome e chatice.

Fuzilem-me com pulgas familiares
no refego dos mantos
na bainha das calças
na ponta dos cabelos
fuzilem-me com cuidado
com fúria
com amor
com vontade
sem vontade.

Estou vivo
não vão é dizer que me matei.

Facebooktwittermailby feather

António Lobo Antunes – “O bolero do coronel” (Sem música)

04.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

prostituta14

Eu que me comovo

Por tudo e por nada

Deixei-te parada

Na berma da estrada

Usei o teu corpo

Paguei o teu preço

Esqueci o teu nome

Limpei-me com o lenço

Olhei-te a cintura

De pé no alcatrão

Levantei-te as saias

Deitei-te no banco

Num bosque de faias

De mala na mão

Nem sequer falaste

Nem sequer beijaste

Nem sequer gemeste,

Mordeste, abraçaste

Quinhentos escudos

Foi o que disseste

Tinhas quinze anos

Dezasseis, dezassete

Cheiravas a mato

À sopa dos pobres

A infância sem quarto


A suor, a chiclete

Saíste do carro

Alisando a blusa

Espiei da janela

Rosto de aguarela

Coxa em semifusa

Soltei o travão

Voltei para casa

De chaves na mão

Sobrancelha em asa

Disse: fiz serão

Ao filho e à mulher

Repeti a fruta

Acabei a ceia

Larguei o talher

Estendi-me na cama

De ouvido à escuta
E perna cruzada

Que de olhos em chama

Só tinha na ideia

Teu corpo parado

Na berma da estrada

Eu que me comovo

Por tudo e por nada

Facebooktwittermailby feather

Fernando Pessoa – “Cartas a Ofélia” e “Cartas de amor”

03.09.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meu Bebé pequeno e rabino:

Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa coisa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra.
Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti. Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da caça
aos pombos; e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada…
Foi agradável hoje o nosso passeio — não foi? Tu estavas bem disposta, e eu estava bem disposto, e o dia estava bem disposto também (O meu amigo, não. A. A. Crosse: está de saúde — uma libra de saúde por enquanto, o bastante para não estar constipado).
Não te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. Há para isso duas razões. A primeira é a de este papel (o único acessível agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda é a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto esplêndido, de que abri uma garrafa, de que já bebi metade. A terceira razão é haver só duas razões, e portanto não haver terceira razão nenhuma. (Álvaro de Campos, engenheiro).
Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo… Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para…
(e depois o Bebé é mau e bate-me…) «Corpinho de tentação» te chamei eu; e assim continuarás sendo, mas longe de mim.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho… Vem… Estou tão só, tão só de beijinhos…
Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades de mim a valer. Ao menos isso era uma consolação… Mas tu, se calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo, e no D. A. F. e no guarda-livros da C. D. & C.! Má, má, má, má, má…!!!!!
Açoites é que tu precisas.
Adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os grandes homens — pelo menos quando têm — 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça.
Um beijo só durando todo o tempo que ainda o mundo tem que durar, do teu, sempre e muito teu
 
Fernando (Nininho).
 
MÚSICA

Todas as cartas de amor são

Ridículas.

Não seriam cartas de amor se não fossem

Ridículas.



Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,

Ridículas.



As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser

Ridículas.

Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram

Cartas de amor

É que são

Ridículas.



Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso

Cartas de amor

Ridículas.



A verdade
é que hoje

As minhas memórias

Dessas cartas de amor

É que são

Ridículas.



(Todas as palavras esdrúxulas,

Como os sentimentos esdrúxulos,

São naturalmente

Ridículas.)

(Álvaro de Campos)

Facebooktwittermailby feather

Almada Negreiros – “A Flor”

30.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

crianca

Pede-se a uma criança. Desenhe uma flor! Dá-se-lhe papel e lápis. A criança vai sentar-se no outro canto da sala onde não há mais ninguém.
Passado algum tempo o papel está cheio de linhas. Umas numa direcção, outras noutras; umas mais carregadas, outras mais leves; umas mais fáceis, outras mais custosas. A criança quis tanta força em certas linhas que o papel quase que não resistiu.
Outras eram tão delicadas que apenas o peso do lápis já era demais.
Depois a criança vem mostrar essas linhas às pessoas: Uma flor!
As pessoas não acham parecidas estas linhas com as de uma flor!
Contudo, a palavra flor andou por dentro da criança, da cabeça para o coração e do coração para a cabeça, à procura das linhas com que se faz uma flor, e a criança pôs no papel algumas dessas linhas, ou todas. Talvez as tivesse posto fora dos seus lugares, mas são aquelas as linhas com que Deus faz uma flor!

Facebooktwittermailby feather

Mário de Sá-Carneiro – “Serradura” (sem música)

28.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha vida sentou-se 

E não há quem a levante, 

Que desde o Poente ao Levante 

A minha vida fartou-se.

E ei-la, a mona, lá está, 

Estendida, a perna traçada,

No infindável sofá 

Da minha Alma estofada.

Pois é assim; a minhAlma 

Outrora a sonhar de Rússias, 

Espapaçou-se de calma,

E hoje sonha só pelúcias.

Vai aos Cafés, pede um bock, 

Lê o “Matin” de castigo, 

E não há nenhum remoque 

Que a regresse ao Oiro antigo!

Dentro de mim é um fardo 

Que não pesa, mas que maça: 

O zumbido dum moscardo, 

Ou comichão que não passa.

Folhetim da “Capital” 

Pelo nosso Júlio Dantas -

Ou qualquer coisa entre tantas 

Duma antipatia igual…

O raio já bebe vinho, 

Coisa que nunca fazia,

E fuma o seu cigarrinho 

Em plena burocracia!…

Qualquer dia, pela certa, 

Quando eu mal me precate, 

É capaz dum disparate, 

Se encontra uma porta aberta…

Isto assim não pode ser…

Mas como achar um remédio? 

– Pra acabar este intermédio 

Lembrei-me de endoidecer:

O que era fácil – partindo 

Os móveis do meu hotel, 

Ou para a rua saindo 

De barrete de papel

A gritar: “viva a Alemanha”…

Mas a minhAlma, em verdade, 

Não merece tal façanha, 

Tal prova de lealdade.

Vou deixá-la – decidido 

-No lavabo dum Café,

Como um anel esquecido. 

É um fim mais raffiné.

Paris – setembro 1915

Facebooktwittermailby feather

Irene Lisboa – “Escrever”

26.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se eu pudesse havia de… de…
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressoante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não… ou sim.
E, como isto, continuando…
E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a bravezdo jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava…
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse…
fino e sem cor… medroso…
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito.
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos…
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente…
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

Facebooktwittermailby feather

Fernando Pessoa/Álvaro de Campos – “A Tabacaria”

20.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim…
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno – não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, in “Poemas”
Heterónimo de Fernando Pessoa

Facebooktwittermailby feather

Ruy Belo – “Uma forma de me despedir” (Sem música)

18.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há o mar há a mulher
quer um quer o outro me chegam em acessíveis baías
abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos
Oiço chamar mas não de uma forma qualquer
chamar mas de uma certa maneira
talvez um apelo ou uma presença ou um sofrimento
Ora eu que no fundo
apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas
dos dicionários
bem vistas as coisas disponho somente de duas
palavras desde a primeira manhã do mundo
para nomear só duas coisas
apenas preciso de as atribuir
Não sei se gosto mais do mar
se gosto mais da mulher
Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher
e quando digo o mar a mulher
não digo mar ou mulher só por dizer
Ao dizer o mar a mulher
há penso eu um certo tom na minha voz sinto um certo
travo na boca
que mostram que mais que palavras usadas para falar
dizer como eu digo a mulher o mar
mar mulher assim ditos
são uma maneira talvez de gostar
e a consciência de que se gosta
e um prazer em o dizer
um gosto afinal em gostar
Enfim o mar a mulher
pode num dos casos ser a/mar a mulher
mera forma talvez de uniformizar o artigo
definido do singular
Há ondas no mar
o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos
cabelos da mulher
que ela faz ondular melhor de tarde
em tarde no mês de setembro nas marés vivas
O melhor da mulher talvez o olhar
é para mim o mar da mulher e à mulher
que um só dia encontro na vida
de passagem um simples momento num sítio qualquer
talvez a muitos quilómetros do mar
mas mulher que não mais consigo esquecer
mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados
a essa mulher qualquer
eu chamo mulher do mar
Nos fins de setembro quando eu partir
de uma cidade seja ela qual for
quando eu pressentir que alguém morre
que alguma coisa fica para sempre nos dias
e ou nuns olhos ou numa água num pouco de água
ou em muita água
onda do mar lágrima ou brilho do olhar
eu recear seriamente vir-me a submergir
direi alto ou baixo conforme puder
com a boca toda ou já a custar-me a engolir
as palavras mar ou mulher
com certo vagar e cada vez mais devagar
mulher mar
depois quase já só a pensar
o mar a mulher
Não sei mas será
talvez mais que outra coisa qualquer
uma forma de me despedir

Facebooktwittermailby feather

Camilo Pessanha – “Porque o melhor…”

16.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Porque o melhor, enfim, É
não ouvir nem ver…
Passarem sobre mim E nada me doer!

— Sorrindo interiormente,
Co’as pálpebras cerradas, Às
águas da torrente Já tão
longe passadas. —

Rixas, tumultos, lutas, Não
me fazerem dano… Alheio
às vãs labutas, Às estações
do ano.

Passar o estio, o outono,
A poda, a cava, e a redra,
E eu dormindo um sono
Debaixo duma pedra.

Melhor até se o acaso O
leito me reserva No prado
extenso e raso Apenas sob a
erva
Que Abril copioso ensope…
E, esvelto, a intervalos
Fustigue-me o galope
De bandos de cavalos.

Ou no serrano mato,
A brigas tão propício,
Onde o viver ingrato
Dispõe ao sacrifício

Das vidas, mortes duras
Ruam pelas quebradas, Com
choques de armaduras E
tinidos de espadas…

Ou sob o piso, até,
Infame e vil da rua,
Onde a torva ralé
Irrompe, tumultua,

Se estorce, vocifera,
Selvagem nos conflitos,
Com ímpetos de fera
Nos olhos, saltos, gritos…
Roubos, assassinatos! Horas
jamais tranquilas, Em brutos
pugilatos Fracturam-se as
maxilas…

E eu sob a terra firme,
Compacta, recalcada, Muito
quietinho. A rir-me De não
me doer nada.

Facebooktwittermailby feather

Alberto Pimenta – “Civilidade” (sem música)

12.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

não tussa madame
reprima a tosse

não espirre madame
reprima o espirro

não soluce madame
reprima o soluço

não cante madame
reprima o canto

não arrote madame
reprima o arroto

não cague madame
reprima a merda

e quando estourar
que seja devagarinho
e sem incomodar, ok madame?

ok, monsieur.

Facebooktwittermailby feather

Vasco Miranda – “Recusa” (sem música)

10.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta triste, esquivo,
Com medo de apertar a mão aos poetas da cidade
E de me sentar com eles
À mesa do Café.
Não falarei de minha poesia.
Não rimarei minha angústia
Com a solenidade de suas questões.
A poesia não está na discussão.
A poesia não está no não estar com este ou com aquele.
A poesia está em matar esta morte
Que anda dentro de nós
Para que a vida renasça.
A poesia está em gritar do alto dos arranha-céus
E das planuras e concavidades sertanejas
Que o mundo vai acabar
Que o mundo está maduro para o sangue
Que o mundo perverso e caótico vai vagar.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo defendendo sua solidão
De todos os truques de todos os ódios de todas as invejas.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar
E exigir a expulsão imediata
Do último vendilhão do Templo,
Em nome da religião,
Em nome da estética,
Em nome da dignidade amarfanhada,
Em nome da polícia se preciso for.
Serei sempre um poeta provinciano.
Um poeta esquivo anunciando a verdade
A repassar de gelo os corações narcotizados.
Os poetas rendilheiros não perdoarão.
Os poetas vaidosos vão barafustar,
Porque o fim do mundo está próximo.
Os poetas rendilheiros e os poetas vaidosos estão maduros para o sangue.
Já estão cevados para a morte.
Eles esquecem (perdão, não é blasfémia!) a sentença do Cristo:
— «Destruí este Templo e eu o reedificarei em três dias.»

(in A Vida Suspensa, 1953)

Facebooktwittermailby feather

Alexandre O’neill – “Cão” (sem música)

09.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Facebooktwittermailby feather