Nota biográfica

António Victor Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924 - Lisboa, 23 de Setembro de 2013), poeta português, ainda reconhecido como desenhador. Fez parte do MUD Juvenil. O seu nome foi dado à Biblioteca Municipal de Faro.

António Ramos Rosa – “Aqui mereço-te”

06.01.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

O sabor do pão e da terra
e uma luva de orvalho na mão ligeira.
A flor fresca que respiro é branca.
E corto o ar como um pão enquanto caminho entre searas.
Pertenço em cada movimento a esta terra.
O meu suor tem o gosto das ervas e das pedras.
Sorvo o silêncio visível entre as árvores.
É aqui e agora o dilatado abraço das raízes claras do sono.
Sob as pálpebras transparentes deste dia
o ar é o suspiro dos próprios lábios.
Amar aqui é amar no mar,
mas com a resistência das paredes da terra.

A mão flui liberta tão livre como o olhar.
Aqui posso estar seguro e leve no silêncio
entre calmas formas, matérias densas, raízes lentas,
ao fogo esparso que alastra ao horizonte.
No meu corpo acende-se uma pequena lâmpada.
Tudo o que eu disser são os lábios da terra,
o leve martelar das línguas de água,
as feridas da seiva, o estalar das crostas
o murmúrio do ar e do fogo sobre a terra,
incessante alimento que percorre o meu corpo.
Aqui entre o poço e o muro,
as claras ervas, as pedras vivas, os pequenos animais,
os alimentos puros,
as espessas e nutritivas paredes do sono,
o teu corpo com todo o vagar da sua massa,
todo o peso das coisas e a ligeireza do ar.

Ao flexível volante trabalhado pelas seivas
a minha mão alia-se: bom dia, horizonte.
Uma saúde nova vai nascer destes ombros.
A lâmpada respira ao ritmo da terra.
Sei os caminhos da água pelas veredas,
as mãos das ervas finas embriagadas de ar,
o silêncio donde se ergue a torre do canto.

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este o reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.
Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.
É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.
É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hálito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.

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“O Corsário dos Sete Mares”, de Diana Barroqueiro

29.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fernão Mendes Pinto é o exemplo vivo do aventureiro português do século XVI, que embarcava para o Oriente com o fito de enriquecer. Curioso, inteligente, ardiloso e hábil, capaz de todas as manhas para sobreviver, vai tornar-se num homem dos sete ofícios, sendo embaixador, mercador, médico, mercenário, marinheiro, descobridor e corsário dos sete mares – Roxo, da Arábia, Samatra, China, Japão, Java e Sião – por onde, durante vinte anos, navegou e naufragou, ganhou e perdeu verdadeiros tesouros, fez-se senhor e escravo, amou e foi amado, temido e odiado.
(…)
Em sete mares se divide o romance, por onde o leitor, na pele das personagens, fará uma intrigante viagem no Tempo, ao encontro de si próprio e de mundos e povos antigos, tão diferentes e ao mesmo tempo tão semelhantes, uma peregrinação na busca incessante de fortuna, encarnada na demanda da mítica Ilha do Ouro.

Carta d’el-rei D. Manuel I ao Papa Leão X:
(…) Com a ajuda de Deus, descobrimos aquele poderosíssimo chefe dos índios e etíopes cristãos, o Preste João, senhor da Província da Abissínia. (…) Nossos antepassados esforçaram-se por descobrir novas terras, mais para benefício da cristandade do que em proveito próprio; nós, seguindo seus passos, fomos melhor afortunados do que eles e descobrimos a índia e muitas outras províncias. A nós coube unirmo-nos com este grande e poderoso príncipe, que muito desejava nossa amizade e aliança e há alguns anos enviou um embaixador com cartas e presentes e um bocado do lenho da verdadeira cruz.
(…) Finalmente a nossa armada chegou agora às praias e portos do Preste João, e depois de ter sabido alguma cousa daquela gente e distrito, tanto quanto o permitia a brevidade do tempo, e assinar um tratado, e enviar ao Preste João seu próprio embaixador com alguns dos nossos homens, para investigar devidamente os costumes, religião e outros particulares da província. (…)
Lisboa, 8 de Maio de 1521
Dezasseis anos tinham passado sobre a carta jubilosa acima transcrita, que el-rei D. Manuel enviara ao Papa Leão X com a notícia da descoberta do reino do Preste João das índias, pouco tempo antes da morte de ambos e da chegada a Lisboa de Fernão Mendes Pinto, aos dez anos de idade. Se, então, alguém lhe tivesse dito que haveria de visitar o encoberto imperador cristão da Abássia, tomá-lo-ia como chiste ou zombaria, por lhe parecer coisa impossível, contudo, a realidade que se desdobra ante os seus olhos confirma-o.
Fernão sente nas costas a dureza redonda do mastro onde se apoiou, em busca da sombra protectora da vela, para contemplar à sua guisa Daqhano, o porto de Arquico, no mar Roxo, que se acerca velozmente
de encontro ao focinho da Silveira. Com a fusta a correr sobre as ondas como um corcel em campo aberto, reconhece quão grande era a sua ignorância das coisas do Oriente que, ao ver pela primeira vez aquele tipo de embarcação à sua chegada a Diu, o levara a desdenhá-la por lhe parecer fraca e perigosa.

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“Afrodite”, de Isabel Allende

15.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Depois de se arrepender de todas as guloseimas que rejeitou por vaidade e as oportunidades de fazer amor que rechaçou por atitude puritana ou outros compromissos, a escritora chilena Isabel Allende tenta redimir-se com seu livro Afrodite: contos, receitas e outros afrodisíacos. A escritora, famosa por romances como A casa dos espíritos e De amor e de sombras, conta as coisas que aconteceram em sua vida de nómada com doses cavalares de fantasia. E assim, nas suas obras, desfilam avós etéreas que se comunicam com fantasmas, tias virando anjos e tios que decidem que é melhor ser faquir, dentre outras personagens, que seriam membros da sua família.

Arrependo-me das dietas, dos pratos deliciosos rejeitados por vaidade, tanto como lamento as ocasiões de fazer amor que deixei passar por estar ocupada em tarefas pendentes ou por virtude puritana. Passeando pelos jardins da memória, descubro que as minhas recordações estão associadas aos sentidos. A minha tia Teresa, a que se foi transformando em anjo e morreu com indícios de asas nos ombros, está para sempre ligada ao cheiro dos rebuçados de violeta. Quando esta dama encantadora aparecia de visita com o seu vestido cinzento e a sua cabeça de rainha coroada de neve, nós as crianças corríamos ao seu encontro e ela abria com gestos rituais a sua velha mala, sempre a mesma, tirava uma pequena caixa de lata pintada e dava-nos um rebuçado cor de malva. E a partir de então, todas as vezes que o aroma inconfundível de violetas se insinua no ar, a imagem dessa tia santa, que roubava flores nos jardins alheios para levar aos moribundos do hospital, regressa intacta à minha alma. Quarenta anos depois eu soube que era esse o selo de Josefina Bonaparte, que confiava cegamente no poder afrodisíaco daquele aroma fugidio que tão depressa assalta com uma intensidade quase nauseabunda, como desaparece sem deixar rasto para logo voltar com renovado ardor. As cortesãs da Grécia antiga usavam-no antes de cada encontro amoroso para perfumar o hálito e as zonas erógenas, porque misturado com o odor natural da transpiração e as secreções femininas, alivia a melancolia dos mais velhos e agita de forma insuportável o espírito dos homens novos. No Tantra, filosofia mística e espiritual que exalta a união dos opostos em todos os planos, desde o cósmico até ao mais ínfimo, e na qual o homem e a mulher são espelhos de energias divinas, o violeta é a cor da sexualidade feminina, e por isso o adoptaram alguns movimentos feministas. O cheiro penetrante do iodo não me traz imagens de cortes ou cirurgias, mas sim de ouriços, essas estranhas criaturas do mar inevitavelmente relacionadas com a minha iniciação no mistério dos sentidos. Tinha eu oito anos quando a mão rude de um pescador pôs uma língua de ouriço na minha boca. Quando vou ao Chile, procuro a oportunidade de ir à costa para provar novamente ouriços recém-extraídos do mar, e de todas as vezes me oprime a mesma mistura de terror e fascínio que senti naquele primeiro encontro íntimo com um homem. Os ouriços são para mim inseparáveis desse pescador, do seu saco escuro de mariscos a escorrer água do mar e o meu despertar para a sensualidade.

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Eugénio de Andrade – “Tempo em que se morre”

05.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Agora é verão, eu sei.
Tempo de facas, tempo em
que perdem os anéis as
cobras à míngua de água.
Tempo em que se morre de
tanto olhar os barcos.

É no verão, repito.
Estás sentada no terraço
e para ti correm todos os meus rios.
Entraste pelos espelhos:
mal respiras.
Vê-se bem que já não sabes respirar,
que terás de aprender com as abelhas.

Sobre os gerânios
te debruças lentamente.
Com rumor de água
sonâmbula ou de arbusto decepado
dás-me a beber
um tempo assim ardente.

Pousas as mãos sobre o meu rosto,
e vais partir
sem nada me dizer,
pois só quiseste despertar em mim
a vocação do fogo ou do orvalho.

E devagar, sem te voltares, pelos
espelhos entras na noite.

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Eugénio de Andrade – “Adeus (Como se houvesse…)”

03.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Como se houvesse uma tempestade

escurecendo os teus cabelos, ou se preferes,

a minha boca nos teus olhos 

carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega 

aos tropeções dentro de ti, eu falei em 

neve, e tu calavas a voz onde contigo

me perdi.

Como se a noite viesse e te levasse, eu 

era só fome o que sentia; digo-te 

adeus, como se não voltasse ao país

onde o teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens, e 

sobre as nuvens mar perfeito, ou se

preferes, a tua boca clara singrando 

largamente no meu peito.

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Sofia de Mello B. e Andresen – “Para atravessar…”

02.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo Ao
lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo Minha
rápida noite meu silêncio Minha pérola
redonda e seu oriente Meu espelho minha
vida minha imagem E abandonei os jardins
do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua E
ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste E
aprendi a viver em pleno vento

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“Peregrinação” – Fernão Mendes Pinto

01.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fernão Mendes Pinto, na “Peregrinaçã” (publicada postumamente em 1614) deixou-nos um relato tão fantástico do que viveu, que durante muito tempo não se acreditou na sua veracidade; de tal modo que até se fazia um jocoso dito com o seu nome: Fernão Mendes Minto, ou então ainda: Fernão, mentes? Minto! 
Esta ideia de que o que contava era demasiado fantasioso para poder ter-lhe realmente acontecido parte do princípio que se pode julgar um texto do séc. XVI com os critérios de hoje, mas na verdade o texto é uma inestimável fonte de informação para conhecermos o que sucedia aos navegadores e aventureiros que iam a caminho do extremo-oriente nas caravelas portuguesas, mesmo que nem todas essas coisas tenham acontecido realmente a Fernão Mendes Pinto e que ele tenha compilado alguns relatos que ouviu durante a sua vida de aventuras.

Quando às vezes ponho diante dos olhos os muitos e grandes trabalhos e infortúnios que por mim passaram, começados no princípio da minha primeira idade, e continuados pela maior parte e melhor tempo da minha vida, acho que com muita razão me posso queixar da ventura que parece que tomou por particular tenção e empresa sua perseguir-me e maltratar-me, como se isso lhe houvera de ser matéria de grande nome, e de grande glória: porque vejo que não contente de me pôr na minha pátria, logo no começo da minha mocidade, em tal estado, que nela vivi sempre em misérias e em pobreza, e não sem alguns sobressaltos e perigos da vida, me quis também levar às partes da índia, onde em lugar do remédio que eu ia buscar a elas, me foram crescendo com a idade os trabalhos e os perigos.
Mas por outra parte quando vejo que, do meio de todos estes perigos e trabalhos, me quis Deus tirar sempre em salvo, e pôr-me em seguro, acho que não tenho tanta razão de me queixar por todos os males passados, quanta de lhe dar graças por este só bem presente, pois me quis conservar a vida, para que eu pudesse fazer esta rude e tosca escritura, que por herança deixo a meus filhos (porque só para eles é minha tenção escrevê-la) para que eles vejam nela estes meus trabalhos, e perigos da vida que passei no discurso de vinte e um anos, em que fui treze vezes cativo, e dezassete vendido, nas partes da índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra, e outras muitas províncias daquele oriental arquipélago dos confins da Ásia, a que os escritores Chins, Siamês, Gueus e Léquios nomeiam nas suas geografias por pestana do mundo, como ao diante espero tratar muito particular e muito difusamente, e daqui por uma parte tomem os homens motivo de se não desanimarem com os trabalhos da vida, para deixarem de fazer o que devem, porque não há nenhuns, por grandes que sejam, com que não possa a natureza humana ajudada do favor divino, e por outra me ajudem a dar graças ao Senhor omnipotente, por usar comigo da sua infinita misericórdia, apesar de todos os meus pecados, porque eu entendo e confesso que deles me nasceram todos os males que por mim passaram, e dela as forças, e o ânimo para os poder passar, e escapar deles com vida.

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Carlos de Oliveira – Look back in anger”

28.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

guerra

Podia ser a névoa habitual da noite, os charcos cintilantes, o luar trazido por um golpe de vento às trincheiras da Flandres, mas não era. Quando acordou mais tarde num hospital da retaguarda, ensinaram-no a respirar de novo. Lentas infiltrações de oxigénio num granito poroso, durante anos e anos, até à imobilidade pulmonar das estátuas.
Hoje, um dos seus filhos sobe ao terraço mais obscuro da cidade em que vive e olha o passado com rancor. O sangue bate, gota a gota, na pedra hereditária dos brônquios e ele sabe que é o mar contra os rochedos, a pulsação difícil das algas ou dos soldados mortos nessa noite da Flandres.
As imagens latentes, penso eu, porque sou eu o homem na armadilha do terraço difuso, entrego-as às palavras como se entrega um filme aos sais da prata. Quer dizer: numa pura suspensão de cristais, revelo a minha vida.

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Sofia de Mello B. Andresen – ” Noturno da Graça”.

25.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um rumor de bosque no pequeno jardim

Um rumor de bosque no canto dos cedros

Sob o íman azul da lua cheia

O rio cheio de escamas brilha.

Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.

Brilha a cidade dos anúncios luminosos 

Com espiritismo bares cinemas Com 

torvas janelas e seus torvos gozos

Brilha a cidade alheia.

Com seus bairros de becos e de escadas De 

candeeiros tristes e nostálgicas Mulheres 

lavando a loiça em frente das janelas Ruas 

densas de gritos abafados Castanholas de passos

pelas esquinas Viragens chiadas dos carros

Vultos atrás das cortinas Ciclopes alucinados.

De igreja em igreja batem a hora os sinos

E uma paz de convento ali perdura

Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas

Com sua noite trémula de velas

Cheia de aventurança e de sossego.

Mas a cidade alheia brilha Numa 

noite insone De luzes fluorescentes

Numa noite cega surda presa Onde
soluça uma queixa cortada.

Sozinha estou contra a cidade alheia.

Comigo

Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua

Límpido e aceso

O silêncio dos astros continua.

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“Pantagruel” de, Rabelais

24.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Françhois Rabelaiche (Chinon, 1494 — Paris, 9 de abril de 1553) escritor, padre e médico francês do Renascimento, que usou, também, o pseudónimo Alcofribas Nasier (um anagrama de seu verdadeiro nome).
Ficou para a posteridade como o autor das obras primas cómicas Pantagruel e Gargântua, que exploravam lendas populares, farsas, romances, bem como obras clássicas. O escatologismo é usado para condenação humorística. A exuberância da sua criatividade, do seu colorido e da sua variedade literária asseguram a sua popularidade.

Já que nos sobeja o tempo, não será de todo inútil nem ocioso revelar a origem e extracção do bom Pantagruel. Foi assim que, nas suas crónicas, procederam todos os bons historiógrafos, não só árabes, bárbaros e latinos, mas também gregos, que foram borrachos de primeira, e os autores das Santas Escrituras, S. Lucas e S. Mateus.
Sabei pois que, nos alvores do mundo (quer dizer há mais de quarenta quarentenas de noites, se contarmos como os antigos druidas), pouco depois de Abel ter sido morto por seu irmão Caim, a terra, regada com o sangue do justo, vicejou e floresceu como um vero paraíso. Dos seus flancos, cresciam todas as árvores e havia fruta a dar com um pau. Sobretudo nêsperas. Dessa época ficou o dizer-se «ano das nêsperas gordas», porque três pesavam um alqueire.
Nesse ano também se descobriram as calendas nos breviários dos gregos, e viu-se então que Março calhava na quaresma e os meados de Agosto em pleno mês de Maio. Em Outubro, se bem me lembro, ou em Setembro, se não me engano (Deus me livre!) correu a semana ditosa entre as ditosas, tão afamada nos anais e hoje conhecida pela semana dos nove dias, porque o ano era bissexto: o sol desandou da direita para a canhota, a lua mudou de cinco toesas o seu curso e viu-se perfeitamente o tremelicar das estrelas fixas no firmamento. Foi então que uma das Três Marias, mandando as outras à fava, deu uma carreirinha até o Equinócio e a Espiga deixou a Virgem para se encafuar na Balança. Foram coisas tão pasmosas, tão terríveis e difíceis que os astrólogos quedaram estarrecidos, sem poderem meter o dente em tão especiosa matéria. De resto, só com dentes de cavalo chegariam até lá.
Sabei pois que o mundo inteiro apanhava grandes barrigadas de nêsperas, porque eram lindas de se verem e gostosas ao paladar. Mas, tal como Noé, santo entre os santos a quem devemos a plantação da vinha de onde nos vem este licor deleitável, delicioso, precioso, celestial e divino que se chama vinho, foi enganado ao bebê-lo, ignorante da sua virtude e força, as mulheres e os homens desse tempo empanzinaram-se à porfia com esse belo e sumarento fruto. O que foi motivo de muitas e diversas moléstias, sendo a mais importante um horrível inchaço nas partes mais inesperadas do corpo.

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Jorge de Sena – “Envelhecer”

18.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

I
Nesta claridade silenciosa e pálida os vultos

deslizam como sombras no entanto nítidos e 

contornados por um brilho que entontece o 

olhar.

Há uma distância incomensurável entre nós. E 

dir-se-ia que nenhum gesto é bastante para os 

atingir. O tempo se fez distância.

Paralisado em transparência gélida eu não

mudei porém. Pelo contrário é como se

contido o ardor fosse maior.

E doloroso mais. Porque de antigamente o

não-ter e o perder ainda eram certeza de 

atingir, senão de amor.
II
De amor eu nunca amei senão desejo visto ou 

pressentido. Um corpo. Um rosto. Um gesto. E

nunca de paixão sujei o meu prazer ou o de 

alguém. Por isso posso

mesmo as audácias recordar sem culpa. 

Tudo o que fiz ou quis que me fizessem o

paguei comigo ou com dinheiro. E só 

lamento as vezes que perdi

retido por algum respeito. Errei

por certo — mas foi nisso. O que me dói

não é tristeza de quem dissipou

no puro estéril quanto esperma pôde gastar
assim. O que me mata agora é este frio que

não está em mim.

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“Ensaio sobre a lucidez” de José Saramago.

18.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Num país qualquer, num dia chuvoso, poucos eleitores compareceram para votar, durante a manhã. As autoridades eleitorais, preocupadas, chegaram a supor que haveria uma abstenção gigantesca. À tarde, quase no encerramento da votação, centenas de milhares de eleitores compareceram aos locais de votação. Formaram-se filas quilométricas, e tudo pareceu normal. Mas, para desespero das autoridades eleitorais, houve quase setenta por cento de votos em branco. Uma catástrofe. Evidentemente que as instituições, partidos políticos e autoridades, haviam perdido a credibilidade da população. O voto em branco fora uma manifestação inocente, um desabafo, a indignação pelo descalabro praticado por políticos pertencentes aos partidos da direita, da esquerda e do meio. Políticos de partidos diferentes, mas de atuações iguais, usufruindo de privilégios que afrontavam a população. Os eleitores estavam cansados, revoltados.(Wikipédia)

Mau tempo para votar, queixou-se o presidente da mesa da assembleia eleitoral número catorze depois de fechar com violência o guarda-chuva empapado e despir uma gabardina que de pouco lhe havia servido durante o esbaforido trote de quarenta metros desde o lugar onde havia deixado o carro até à porta por onde, com o coração a saltar-lhe da boca, acabava de entrar. Espero não ter sido o último, disse para o secretário que o aguardava um pouco recolhido, a salvo das bátegas que, atiradas pelo vento, alagavam o chão. Ainda falta o seu suplente, mas estamos dentro do horário, tranquilizou o secretário, A chover desta maneira será uma autêntica proeza se cá chegarmos todos, disse o presidente enquanto passavam à sala onde se realizaria a votação. Cumprimentou primeiro os colegas da mesa que actuariam como escrutinadores, depois os delegados dos partidos e seus respectivos suplentes. Teve o cuidado de usar para todos as mesmas palavras, não deixando transparecer na cara nem no tom de voz quaisquer indícios que permitissem perceber as suas próprias inclinações políticas e ideológicas. Um presidente, mesmo de uma assembleia eleitoral tão comum como esta, deverá guiar-se em todas as situações pelo mais estrito sentido de independência, ou, por outras palavras, guardar as aparências.

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Sofia de Mello B. Andresen – “Quando”

17.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

panteao

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 

Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje 

igualmente hão-de bailar As quatro estações à 

minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar Em

que eu tantas vezes passei, Haverá 

longos poentes sobre o mar, Outros 

amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 

Será o mesmo jardim à minha porta, E 

os cabelos doirados da floresta, Como 

se eu não estivesse morta.

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Jorge de Sena – “A cidade feliz”

14.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei porque não falam disto.
Será porque falar ameaça no hálito tão ténue
a flor lindíssima que o menor sopro mata?
Falando todavia, tudo se suspende;
e que não existe para sempre mesmo depois das palavras?

Cidade ensolarada, fumegante a meus pés:
telhados, vozes, pombas, trepadeiras…
De longe se não vê que toda a gente luta, se
devora e desvairadamente contempla que a sua
flor, lindíssima, resista.

Como, poesia, quando suspenso o tempo,
se cadencia em passos de palavras,
quando a memória, a angústia, a esperança, a própria vida,
se ordenam em cortejo e vêm passando em frente
do olhar que as bebe, de um tremor, de um pranto,
como não dizes também da flor que defendemos?
Será que não é difícil, que não é esquiva,
uma flor que um gesto, o mesmo amor destrói?

Ah fidelidade, coisa humilde, coisa que não basta,
coisa que não vive, como te chamo flor? O Sol e o
ar sobre a cidade passam. Do alto as pombas na
cidade pousam. Como te chamo flor? Por que te
chamo flor? Como até nisto eu posso atraiçoar-te?

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Vitorino Nemésio – “Canção do búzio velho.”

13.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixem-me ouvir no búzio velho, 

Que me ofereceram por escárnio,

O grito da ave que no espelho Do 

longo mar partiu a asa: E meu 

coração — descarne-o Seu bico 

ardente como uma brasa.


Deixem-me ouvir nesse antigo

Búzio de sala (que agora Os

sobrados são o mar) As vozes que 

ele traz consigo Como o relógio dá a

hora Sem a gente lhe tocar.

Búzio ridículo, malhado, Casa onde 

nunca entro, Assim torcido,

conservado Com frio e barulho 

dentro: Se me falasses em voz alta 

Todos ouviam o que eu ouço 

Quando uma simples areia salta No

bafo estreito do teu poço, Búzio

velho, Meu começo e meu destroço.
Já que ninguém te aproveita,

Búzio de bicho comido,



Sejas meu

Aqui e em todo o lugar

Onde a minha mão te deita

Com o que soube e esqueceu,

Como um pouco de céu velho,

Búzio relho,

Minha boca e meu ouvido.

Ai!
Esta canção do búzio desusado,

Como a posso acabar dentro de mim,

Se eu sou o bicho dele despegado?

Talvez só cante lá para o fim,

Como o cisne agoniado…

Antes mais tarde, antes assim!

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Pedro Mexia – “Funerais”

12.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos funerais encontramos a família.
Nunca fomos tão claros
como no luto
e nas memórias anedóticas
que amenizam o morto.
Que sangue é o teu
para que o meu se assemelhe?
Alguns velhos trazem flores
que já ofereceram nos casamentos
e entre eles decidem
que somos uma família,
conhecem os primos que não
conheço, lamentam a sorte
daqueles cuja sorte é conhecida,
são ainda mais graves
do que nós, e usam
diminutivos carinhosos.
O meu nome far-se-á pó
com o meu corpo, pensa
uma mulher que já é viúva,
há irmãos completamente mudos
e as crianças jogam à cabra-cega.
Seguimos em cortejo
compondo as gravatas,
o vento não percebe que morreu gente.
Dez pessoas acompanham o padre,
os outros já não se lembram
das orações,
dez pessoas pensam
no que têm pela frente,
os outros acompanham o caixão.
O coveiro mais novo
dentro de pouco tempo
enterrará o mais velho.



in Menos por Menos – Poemas Escolhidos, 2011


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“Naná” de Émile Zola

11.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Integrante de um ciclo de vinte romances, “Naná” descreve a trajetória da filha de uma lavadeira que, corrompida na adolescência, transforma-se na mais poderosa cortesã do Segundo Império francês. Escrito em 1880, provavelmente este seja o romance mais popular de Émile Zola, e um dos perfis de mulher mais explorados pelo cinema e pela literatura.

Às nove horas a plateia do Teatro das Variedades estava ainda vazia. Alguns espectadores, no balcão e na orquestra, esperavam, como que tresmalhados por entre as poltronas de veludo vermelho, na branca claridade do lustre a meia-luz. Uma sombra inundava a grande mancha vermelha do pano; e nem um ruído chegava da cena, estando a ribalta às escuras e as estantes dos músicos esbandalhadas. Somente em cima, no galinheiro, em redor da rotunda do tecto onde mulheres e crianças nuas tomavam o seu voo num céu averdungado pelo gás, os chamamentos e os risos sobressaíam por entre um falazar contínuo, e cabeças entoucadas ou embarretadas se mostravam, como que dispostas em degraus, sob as largas clarabóias redondas, de molduras douradas.
Por momentos aparecia uma arrumadora, azafamada, de bilhetes na mão, conduzindo na sua frente um cavalheiro acompanhado de uma senhora, que se sentavam, o homem de casaca, a senhora elegante e esbelta, olhando a sala com lentidão. Na orquestra, apareceram dois jovens. Conservaram-se de pé, observando.
— Não te dizia eu, Heitor — exclamou o mais velho dos dois, um rapagão de bigode negro — que chegávamos muito cedo?… Mais valera que me tivesses deixado acabar o meu charuto.
Passava uma arrumadora.
Oh! senhor Fauchery — disse ela familiarmente. — Isto não vem a principiar antes de meia hora.
Nesse caso, porque anunciam eles para as nove horas? — murmurou o Heitor, cujo rosto magro e comprido tomou uma expressão aborrecida. — Ainda esta manhã, a Clarisse, que entra na peça, me garantiu que principiaria às nove em ponto.
Calaram-se um momento, levantando a cabeça e perscrutando a sombra dos camarotes.

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Mário de Sá-Carneiro – “Cinco horas”

07.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Minha mesa no Café,

Quero-lhe tanto… A garrida

Toda de pedra brunida 

Que linda e que fresca é!

Um sifão verde no meio 

E, ao seu lado, a fosforeira

Diante ao meu copo cheio

Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores

Que acho pouco ornamentais: 

Os xaropes têm cores

Mais vivas e mais brutais).

Sobre ela posso escrever 

Os meus versos prateados, 

Com estranheza dos criados

Que me olham sem perceber..

Sobre ela descanso os braços 

Numa atitude alheada,

Buscando pelo ar os traços 

Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,

— Pois há um ano que fumo
-
Imaginário presumo

Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente

Uma linda mulher brilha,

O fumo da cigarrilha

Vai beijá-la, claramente…).

Um novo freguês que entra

E novo actor no tablado, 

Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

E o carmim daquela boca

Que ao fundo descubro, triste,

Na minha ideia persiste 

E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades

A minha recordação,
E destes vislumbres são

As minhas maiores saudades…

(Que história d’Oiro tão bela

Na minha vida abortou:

Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou…).

Nos Cafés espero a vida

Que nunca vem ter comigo:

— Não me faz nenhum castigo,

Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito, 

Ideal que só me resta: 

Pra mim não há melhor festa, 

Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,

Sois hoje — que galardão!
— 
Todo o meu campo de acção

E toda a minha cobiça.

Paris – Setembro 1915

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Fernando Pessoa – “Súbita mão…”

06.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão nocturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.

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Mário de Sá-Carneiro – “Como eu não possuo”

04.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Olho em volta de mim. Todos possuem -

Um afecto, um sorriso ou um abraço. 

Só para mim as ânsias se diluem

E não possuo mesmo quando enlaço.

Roça por mim, em longe, a teoria 

Dos espasmos golfados ruivamente; 

São êxtases da cor que eu fremiria,

Mas a minh’alma pára e não os sente!

Quero sentir. Não sei… perco-me todo…

Não posso afeiçoar-me nem ser eu: 

Falta-me egoísmo pra ascender ao céu,
Falta-me unção pra me afundar no lodo.

Não sou amigo de ninguém. Pra o ser
Forçoso me era antes possuir 

Quem eu estimasse – ou homem ou mulher,

E eu não logro nunca possuir!…

Castrado d’alma e sem saber fixar-me, 

Tarde a tarde na minha dor me afundo… 

– Serei um emigrado doutro mundo

Que nem na minha dor posso encontrar-me?.

Como eu desejo a que ali vai na rua,

Tão ágil, tão agreste, tão de amor… 

Como eu quisera emaranhá-la nua,

Bebê-la em espasmos d’harmonia e cor!…

Desejo errado… Se a tivera um dia, 

Toda sem véus, a carne estilizada

Sob o meu corpo arfando transbordada, 

Nem mesmo assim – ó ânsia! – eu a teria.



Eu vibraria só agonizante 

Sobre o seu corpo d’êxtases dourados, 

Se fosse aqueles seios transtornados, 

Se fosse aquele sexo aglutinante…

De embate ao meu amor todo me ruo,

E vejo-me em destroço até vencendo: 

E que eu teria só, sentindo e sendo 

Aquilo que estrebucho e não possuo.

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“As Mil e Uma Noites”

03.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

As histórias que compõe as Mil e uma noites tem várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe uma versão definida da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como uma série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando-as matar na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites – as mil e uma do título – ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.
(Wikipédia)

Conta-se — mas Alá é mais sábio e justo, mais poderoso e bom — que, quando decorria a antiguidade do tempo e o passado da idade e do momento, havia nas ilhas da índia e da China, um rei dos reis de Sássan. Era senhor de muitos exércitos, ministros, servidores, e numeroso séquito. Tinha dois filhos, um mais velho e outro mais novo. Eram ambos heróicos cavaleiros; mas o mais velho era mais valoroso que o mais novo. Reinou este mais velho naqueles países, governando os homens com justiça; por isso os habitantes daquele país e reino o estimavam. E o nome dele era rei Schahriar. Quanto a seu irmão mais novo, o seu nome era rei Schahzaman e reinava em Samarcanda.
Mantendo-se este dito estado de coisas, ambos residiam em seus países; e, cada um em seu reino, foram os dois justos governantes de suas greis pelo espaço de vinte anos. E ambos o foram até ao limite do mais dilatado desenvolvimento.
E deste jeito se mantiveram ambos até ao dia em que o mais velho desejou ardentemente visitar o irmão mais novo. Ordenou então ao vizir que se pusesse a caminho e ali lhe trouxesse seu irmão. Ao que lhe respondeu o vizir: «Escuto e obedeço!»
E assim partiu, e com a graça de Alá, chegou em bem: entrou em casa do outro irmão e saudou-o com o saiam. Informou-o de que o rei Schahriar desejava ardentemente vê-lo e que o fim daquela sua viagem tinha como finalidade convidá-lo a visitar seu irmão mais velho. Tendo o rei Schahzaman respondido: «Escuto e obedeço!» Ordenou os preparativos da viagem, mandando que se aprontassem tendas, camelos, machos, servidores e ministros. Elevou depois o seu próprio vizir a governante do país e partiu em demanda das terras do irmão.
Mas ia a noite em meio, lembrou-se de uma coisa que no palácio lhe ficara esquecida e que vinha a ser o presente que destinava a seu irmão. E, voltando atrás, entrou no palácio. E achou a esposa deitada em sua cama, muito abraçada a um preto retinto, seu escravo.

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Humor – “Os noivos”

31.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Autor desconhecido

O noivo escreveu um poema para noiva pouco antes do casamento:
 
Que feliz sou, meu amor!
Domingo estaremos casados,
O café da manhã na cama,
Um bom sumo e pães torrados
 
Com ovos bem mexidinhos
Antes de ir p’ ró trabalho
Tudo pronto bem cedinho
P’ra inda ires ao mercado
 
Depois regressas a casa
Rapidinho arrumas tudo
E corres pro teu trabalho
Para começares o teu turno
 
Tu sabes bem que, de noite
Gosto de jantar bem cedo
De te ver toda bonita
Com sorriso ledo e quedo
 
Pela noite mini-séries
Cineminhas dos baratos
E nada, nada de shoppings
Nem de restaurantes caros
 
E vais cozinhar p’ra mim
Comidinhas bem caseiras
Pois não sou dessas pessoas
Que só comem baboseiras…
 
Já pensaste minha querida
Que dias gloriosos?
Não te esqueças, meu amor
Qu’em breve seremos esposos!
 
Como resposta, a noiva escreveu um poema para o noivo
 
Que sincero meu amor!
Que linguagem bem usada!
Esperas tanto de mim
Que me sinto intimidada
 
Não sei de ovos mexidos
Como tua mãe adorada,
Meu pão torrado se queima
De cozinha não sei nada!
 
Gosto muito de dormir
Até tarde, relaxada
Ir ao shopping fazer compras
de Visa, tarjeta dourada
 
Sair com minhas amigas,
Comprar roupa da melhor
Sapatos só exclusivos
E as lingeries p’ró amor
 
Pensa bem… ainda há tempo
A igreja não está paga
Eu devolvo o meu vestido
E tu o fato de gala
 
E domingo bem cedinho
Em vez de andar aos “AIS”,
Ponho aviso no jornal
Com letras bem garrafais:
 
HOMEM JOVEM E BONITO
PROCURA ESCRAVA BEM LERDA
PORQUE A EX-FUTURA ESPOSA
DECIDIU MANDÁ-LO À MERDA!

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Mito da Criação – segundo o povo Fulani

30.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fulani, grupo pastoral que habita o oeste da África (Mali)

No princípio existia uma enorme gota de leite.
Então chegou Doondari e criou a pedra.
A pedra criou o ferro;
E o ferro criou o fogo;
E o fogo criou a água;
E a água criou o ar.
Então Doondari desceu pela segunda vez.
Juntou os cinco elementos
E moldou-os num homem,
Mas o homem era orgulhoso.
Então Doondari criou a cegueira e a cegueira derrotou o homem.
Mas quando a cegueira se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou o sono, e o sono derrotou a cegueira;
Mas quando o sono se tornou demasiado orgulhoso,
Doondari criou a preocupação, e a preocupação derrotou o sono;
Mas quando a preocupação se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari criou a morte, e a morte derrotou a preocupação.
Quando a morte se tornou demasiado orgulhosa,
Doondari desceu pela terceira vez.
E ele veio como Gueno, o Eterno,
E Gueno derrotou a morte.

Trad.: Vasco David

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“O Nome da Rosa” de Umberto Eco

29.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Umberto Eco sugere n’O Nome da Rosa, um ambiente no qual as contradições, oposições, querelas e inquisições, no início do século XIV, justificam ações humanas, as virtudes e os crimes dos personagens, monges copistas de uma abadia cuja maior riqueza é o conhecimento de sua biblioteca. Para as personagens, a discussão do essencial e do particular, do espiritual e da realidade material, do poder secular e da insurreição, dos conceitos e das palavras entranham pelo mundo uma teia de inter-relações das mais conflituosas. A representação, a palavra e o texto escrito passam a ter uma importância vital na organização da abadia beneditina, gestando o microcosmo do narrador.

Era uma bela manhã de fim de Novembro. De noite tinha nevado um pouco, mas a fresca camada que cobria o terreno não era superior a três dedos. Às escuras, logo depois de laudas, tínhamos ouvido missa numa aldeia do vale. Depois tínhamo-nos posto a caminho para as montanhas, ao despontar o Sol.
Como trepávamos pelo carreiro íngreme que serpenteava em torno do monte, vi a abadia. Não me espantaram as muralhas que a cingiam por todos os lados, semelhantes a outras que vi em todo o mundo cristão, mas a mole daquilo que depois soube que era o Edifício. Esta era uma construção octogonal que à distância parecia um tetrágono (figura perfeitíssima que exprime a solidez e a inexpugnabilidade da Cidade de Deus), cujos lados meridionais se erguiam no planalto da abadia, enquanto os setentrionais pareciam crescer das próprias faldas do monte, nas quais se encaixavam a pique. Digo que em certos pontos, de baixo, parecia que a rocha se prolongava para o céu, sem solução de tons nem de matéria, e se tornava a certa altura um maciço torreão (obra de gigantes que tivessem grande familiaridade com a terra e com o céu). Três ordens de janelas diziam o ritmo ternário da sua elevação, de modo que aquilo que era fisicamente quadrado sobre a terra era espiritualmente triangular no céu. Ao aproximarmo-nos mais, percebia-se que a forma quadrangular gerava, em cada um dos seus ângulos, um torreão heptagonal, cujos cinco lados se adiantavam para o exterior — quatro portanto dos oito lados do octógono maior, gerando quatro heptágonos menores, que do exterior se manifestavam como pentágonos. E não há quem não veja a admirável concórdia de tantos números santos, revelando cada um um subtilíssimo sentido espiritual.

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António Gedeão – “Declaração de Amor”

28.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Excita-me a tua presença, ó Árvore – ó Árvores todas!

Desejo-te (desejo-vos) como se fosses Carne, e eu Desejo.

Como se eu fosse o vento que preside às tuas bodas,

e te cicia em redor, e te fecunda num aliciante beijo.
Ponho os olhos em ti e entretenho-me a pensar que sou mãos,

todo mãos que te envolvem o tronco e te sacodem convulsivamente.

Requebras-te com volúpia, e os teus emaranhados cabelos louçãos

fustigam o ar como látegos, com toda a força que este amor me consente.
Ó árvore minha débil! Ó prazer dos meus olhos extáticos!

Ó filtro da luz do Sol! Ó refresco dos sedentos!

Destila nos meus lábios as gotas dos teus ésteres aromáticos,

unge a minha epiderme com teus macios unguentos.
Desnuda-me a tua intimidade, ó Árvore! Diz-me a que segredos recorres

para te desenrolares em flores e em frutos num cíclico desvario.

Porque é que tudo morre à tua volta e tu não morres,

e aceitas sempre o Amor com renovado cio.
Inicia-me nos teus mistérios, ó feiticeira dos cabelos verdes!

Ensina-me a transformar um raio de Sol em suculenta carnadura,

e nesses perfumes subtis que a toda a hora perdes,

prolongando o teu ser no ar que te emoldura.
É através de ti, ó Árvore, que celebro os esponsais entre mim e a Natureza.

É através de ti que bebo a nuvem fresca e mordo a terra ardente.

É de ti que recebo as leis do Amor e da Beleza.

Amo-te, ó Árvore, apaixonadamente!

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Fernando Pessoa – “Terrível bebé” – carta a Ofélia.

27.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Terrível Bebé:
Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o Bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telefono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na boca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a boca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu ombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ofelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fosse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece impossível ser escrito por um ente humano, mas é escrito por mim.

“Cartas de amor de Fernando Pessoa e Ofélia Queirós “ de Manuela Parreira da Silva – Assírio & Alvim

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Fernando Pessoa – “Deixa-me…” (Sem música)

23.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixa-me ouvir o que não ouço…

Não é a brisa ou o arvoredo;

É outra coisa intercalada…

É qualquer coisa que não posso

Ouvir senão em segredo,

E que talvez não seja nada…

Deixa-me ouvir…
Não fales alto!
Um momento…
Depois o amor,

Se quiseres…
Agora cala!

Ténue, longínquo sobressalto

Que substitui a dor,

Que inquieta e embala…

O quê? Só a brisa entre a folhagem?

Talvez…Só um canto pressentido?

Não sei, mas custa amar depois…

Sim, torna em mim, e a paisagem

E a verdadeira brisa, ruído…

Vejo-te, somos dois…

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Cecília Meireles – “Retrato de mulher triste”

21.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vestiu-se para um baile que não há.
Sentou-se com suas últimas jóias.
E olha para o lado, imóvel.

Está vendo os salões que se acabaram,
embala-se em valsas que não dançou,
levemente sorri para um homem.
O homem que não existiu.

Se alguém lhe disser que sonha,
levantará com desdém o arco das sobrancelhas,
Pois jamais se viveu com tanta plenitude.

Mas para falar de sua vida
tem de abaixar as quase infantis pestanas,
e esperar que se apaguem duas infinitas lágrimas.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1942-1959)’

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Cecília Meireles – “A velhice pede desculpas”

21.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tão velho estou como árvore no inverno,
vulcão sufocado, pássaro sonolento.
Tão velho estou, de pálpebras baixas,
acostumado apenas ao som das músicas,
à forma das letras.

Fere-me a luz das lâmpadas, o grito frenético
dos provisórios dias do mundo:
Mas há um sol eterno, eterno e brando
e uma voz que não me canso, muito longe, de ouvir.

Desculpai-me esta face, que se fez resignada:
já não é a minha, mas a do tempo,
com seus muitos episódios.

Desculpai-me não ser bem eu:
mas um fantasma de tudo.
Recebereis em mim muitos mil anos, é certo,
com suas sombras, porém, suas intermináveis sombras.

Desculpai-me viver ainda:
que os destroços, mesmo os da maior glória,
são na verdade só destroços, destroços.

Cecília Meireles, in ‘Poemas (1958)’

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António Skármeta – “O carteiro de Pablo Neruda”

19.10.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Carteiro de Pablo Neruda deu origem a duas versões cinematográficas sendo a segunda um estrondoso êxito. Filme realizado por Michael Radford sobre a amizade entre o poeta chileno Pablo Neruda e um humilde carteiro que deseja aprender a fazer poesia.
Baseado no livro “Ardiente Paciencia” de Antonio Skármeta. O roteiro foi adaptado por Anna Pavignano, Michael Radford, Furio Scarpelli, Giacomo Scarpelli e Massimo Troisi que também interpretou o carteiro. Uma primeira versão do roteiro, feita por Troisi já havia sido realizada em 1983. O livro e a primeira versão do roteiro passavam-se  no Chile, por volta de 1970, quando Neruda vivia na Ilha Negra. Na segunda versão passa-se na Itália nos anos 50.
O Carteiro de Pablo Neruda é vencedor de um Oscar® da academia em 1996 tendo sido nomeado para 5 estatuetas.
(Wikipédia)

Em Junho de 1969 dois motivos tão afortunados como triviais levaram Mário Jiménez a mudar de ofício. Primeiro, o seu desamor pelas lides da pesca que o arrancavam da cama antes do amanhecer, e quase sempre quando sonhava com amores audaciosos, protagonizados por heroínas tão abrasadoras como as que via no écran do cinematógrafo de San António. Este talante, juntamente com a sua consequente simpatia pelas constipações, reais ou fingidas, com que se escusava em média todos os dias a preparar os apetrechos do bote do seu pai, permitia-lhe retouçar debaixo das nutridas mantas chilenas, aperfeiçoando os seus oníricos idílios, até o pescador José Jiménez voltar do mar, encharcado e faminto, e ele aliviava o seu complexo de culpa preparando-lhe um almoço de estaladiço pão, sediciosas saladas de tomate com cebola, mais salsa e coentros, e uma dramática aspirina que engolia quando o sarcasmo do seu progenitor o penetrava até aos ossos.
Arranja trabalho. – Era a concisa e feroz frase com que o homem concluía um olhar acusador, que podia durar até dez minutos, e que de qualquer modo nunca durou menos de cinco.
Sim, pai – respondia Mário, limpando as narinas com a manga do colete.
Se este motivo foi o trivial, o afortunado foi a posse de uma alegre bicicleta marca Legnano, valendo-se da qual Mário trocava todos os dias o diminuto horizonte da calheta dos pescadores pelo quase mínimo porto de San António, mas que em comparação com o seu casario o impressionava como faustoso e babilónico. A simples contemplação dos cartazes do cinema com mulheres de bocas turbulentas e duríssimos parentes de havanos mastigados entre dentes impecáveis, deixava-o num transe do qual só saía após duas horas de celulóide, para pedalar desconsolado de volta à sua rotina, às vezes sob uma chuva marítima que lhe inspirava épicas constipações. A generosidade do pai não chegava ao ponto de fomentar a moleza, de modo que vários dias da semana, falto de dinheiro, Mário Jiménez tinha de conformar-se com incursões às lojas de revistas usadas, onde ajudava a manusear as fotos das suas actrizes preferidas.
Foi num desses dias de desconsolada vagabundagem que descobriu um aviso na janela dos correios a que, apesar de estar escrito à mão e numa modesta folha de caderno de contas, matéria em que não se tinha distinguido durante a escola primária, não conseguiu resistir.
Mário Jiménez nunca tinha usado gravata, mas antes de entrar endireitou o colarinho da camisa como se tivesse uma e tentou, com algum êxito, disfarçar com duas passagens de pente a sua cabeleira, herdada de fotos dos Beatles.
– Venho pelo anúncio – declamou ao funcionário, com um sorriso que emulava o de Burt Lancaster.
– Tem bicicleta? – perguntou aborrecido o funcionário.
O seu coração e os lábios disseram em uníssono:
– Sim.
Bom – disse o empregado, limpando as lentes, – trata-se de um lugar de carteiro para a Ilha Negra.
– Que coincidência – disse Mário. – Eu vivo mesmo ao lado, na calheta.
– Ainda bem. Mas o que está mal é que só há um cliente.
– Um e mais ninguém?
– Sim, claro. Na calheta são todos analfabetos. Não sabem ler nem as contas.
– E quem é o cliente?
– Pablo Neruda.
Mário Jiménez engoliu o que lhe pareceu um litro de saliva.
– Mas esse é formidável.
– Formidável? Recebe quilos de correspondência todos os dias. Pedalar com a sacola às costas é o mesmo que levar um elefante aos ombros. O carteiro que o servia reformou-se marreco que nem um camelo.
– Mas eu tenho só dezassete anos.
– E és saudável?
– Eu? Sou de ferro. Nem uma constipação em toda a vida!
O funcionário deixou escorregar os óculos pela cana do nariz e fitou-o por cima do guichet.
– O salário é uma merda. Os outros carteiros ainda se arranjam com as gorjetas. Mas só com um cliente, mal te vai chegar para o cinema uma vez por semana.
– Quero o lugar.
– Está bem. Eu chamo-me Cosme.
– Cosme.
– Tens de dizer «Don Cosme».
– Sim, Don Cosme.
– Sou o teu chefe.

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