Nota biográfica

Sofia de Melo Breyner Andresen (Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Sophia de Mello B. Andresen – “Com fúria e raiva”

03.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

assembleia

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas”

Sofia de Mello B. Andresen – “Catarina Eufémia”

30.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

catarina

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça E eu
penso nesse instante em que ficaste exposta Estavas
grávida porém não recuaste Porque a tua lição é esta:
fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea Eras
a inocência frontal que não recua Antígona poisou a sua mão
sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da Justiça continua

Sophia de Mello B. Andresen – “Camões e a Tença”

21.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença Seja

paga na data combinada Este país te mata 

lentamente País que tu chamaste e não

responde País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram Calúnias 

desamor inveja ardente E sempre os

inimigos sobejaram A quem ousou seu ser 

inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram 

Porque estavam curvados e dobrados

Pela paciência cuja mão de cinza Tinha 

apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente

Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

Sofia de Mello B. e Andresen – “Para atravessar…”

02.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo Ao
lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo Minha
rápida noite meu silêncio Minha pérola
redonda e seu oriente Meu espelho minha
vida minha imagem E abandonei os jardins
do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua E
ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste E
aprendi a viver em pleno vento

Sofia de Mello B. Andresen – ” Noturno da Graça”.

25.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um rumor de bosque no pequeno jardim

Um rumor de bosque no canto dos cedros

Sob o íman azul da lua cheia

O rio cheio de escamas brilha.

Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.

Brilha a cidade dos anúncios luminosos 

Com espiritismo bares cinemas Com 

torvas janelas e seus torvos gozos

Brilha a cidade alheia.

Com seus bairros de becos e de escadas De 

candeeiros tristes e nostálgicas Mulheres 

lavando a loiça em frente das janelas Ruas 

densas de gritos abafados Castanholas de passos

pelas esquinas Viragens chiadas dos carros

Vultos atrás das cortinas Ciclopes alucinados.

De igreja em igreja batem a hora os sinos

E uma paz de convento ali perdura

Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas

Com sua noite trémula de velas

Cheia de aventurança e de sossego.

Mas a cidade alheia brilha Numa 

noite insone De luzes fluorescentes

Numa noite cega surda presa Onde
soluça uma queixa cortada.

Sozinha estou contra a cidade alheia.

Comigo

Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua

Límpido e aceso

O silêncio dos astros continua.

Sofia de Mello B. Andresen – “Quando”

17.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

panteao

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 

Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje 

igualmente hão-de bailar As quatro estações à 

minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar Em

que eu tantas vezes passei, Haverá 

longos poentes sobre o mar, Outros 

amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 

Será o mesmo jardim à minha porta, E 

os cabelos doirados da floresta, Como 

se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner e Andresen – “Um dia”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello B. e Andresen – “Pátria”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.