Nota biográfica

Sofia de Melo Breyner Andresen (Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004) foi uma das mais importantes poetisas portuguesas do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da língua portuguesa, o Prémio Camões, em 1999.

Sofia de Mello B. e Andresen – “Para atravessar…”

02.12.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo Ao
lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo Minha
rápida noite meu silêncio Minha pérola
redonda e seu oriente Meu espelho minha
vida minha imagem E abandonei os jardins
do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua E
ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste E
aprendi a viver em pleno vento

Sofia de Mello B. Andresen – ” Noturno da Graça”.

25.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um rumor de bosque no pequeno jardim

Um rumor de bosque no canto dos cedros

Sob o íman azul da lua cheia

O rio cheio de escamas brilha.

Negra cheia de luzes brilha a cidade alheia.

Brilha a cidade dos anúncios luminosos 

Com espiritismo bares cinemas Com 

torvas janelas e seus torvos gozos

Brilha a cidade alheia.

Com seus bairros de becos e de escadas De 

candeeiros tristes e nostálgicas Mulheres 

lavando a loiça em frente das janelas Ruas 

densas de gritos abafados Castanholas de passos

pelas esquinas Viragens chiadas dos carros

Vultos atrás das cortinas Ciclopes alucinados.

De igreja em igreja batem a hora os sinos

E uma paz de convento ali perdura

Como se a antiga cidade se erguesse das ruínas

Com sua noite trémula de velas

Cheia de aventurança e de sossego.

Mas a cidade alheia brilha Numa 

noite insone De luzes fluorescentes

Numa noite cega surda presa Onde
soluça uma queixa cortada.

Sozinha estou contra a cidade alheia.

Comigo

Sobre o cais sobre o bordel e sobre a rua

Límpido e aceso

O silêncio dos astros continua.

Sofia de Mello B. Andressen – “Quando”

17.11.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta 

Continuará o jardim, o céu e o mar, E como hoje 

igualmente hão-de bailar As quatro estações à 

minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar Em

que eu tantas vezes passei, Haverá 

longos poentes sobre o mar, Outros 

amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa, 

Será o mesmo jardim à minha porta, E 

os cabelos doirados da floresta, Como 

se eu não estivesse morta.

Sophia de Mello Breyner e Andresen – “Um dia”

17.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um dia, gastos, voltaremos
A viver livres como os animais
E mesmo tão cansados floriremos
Irmãos vivos do mar e dos pinhais.

O vento levará os mil cansaços
Dos gestos agitados irreais
E há de voltar aos nosso membros lassos
A leve rapidez dos animais.

Só então poderemos caminhar
Através do mistério que se embala
No verde dos pinhais na voz do mar
E em nós germinará a sua fala.

Sophia de Mello B. e Andresen – “Pátria”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.