Fernando Pessoa – “Não venhas…”
02.04.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa, 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português. É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões.
02.04.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não venhas sentar-te à minha frente, nem a meu lado;
Não venhas falar, nem sorrir.
Estou cansado de tudo, estou cansado,
Quero só dormir.
Dormir até acordado, sonhando
Ou até sem sonhar,
Mas envolto num vago abandono brando
A não ter que pensar.
Nunca soube querer, nunca soube sentir, até
Pensar não foi certo em mim.
Deitei fora entre urtigas o que era a minha fé,
Escrevi numa página em branco, «Fim».
As princesas incógnitas ficaram desconhecidas,
Os tronos prometidos não tiveram carpinteiro.
Acumulei em mim um milhão difuso de vidas,
Mas nunca encontrei parceiro.
Por isso, se vieres, não te sentes a meu lado, nem fales.
Só quero dormir, uma morte que seja
Uma coisa que me não rale nem com que tu te rales
—
Que ninguém deseja nem não deseja.
Pus o meu Deus no prego. Embrulhei em papel pardo
As esperanças e ambições que tive,
E hoje sou apenas um suicídio tardo,
Um desejo de dormir que ainda vive.
Mas dormir a valer, sem dignificação nenhuma,
Como um barco abandonado,
Que naufraga sozinho entre as trevas e a bruma
Sem se lhe saber o passado.
E o comandante do navio que segue deveras
Entrevê na distância do mar
O fim do último representante das galeras,
Que não sabia nadar.
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30.11.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro …
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar…
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no facto de haver coro…
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel…
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa …
Fernando Pessoa, in “Cancioneiro”
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03.02.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Acordo de noite subitamente.
E o meu relógio ocupa a noite toda.
Não sinto a Natureza lá fora,
O meu quarto é uma coisa escura com paredes vagamente brancas.
Lá fora há um sossego como se nada existisse.
Só o relógio prossegue o seu ruído.
E esta pequena coisa de engrenagens que está em cima da minha mesa
Abafa toda a existência da terra e do céu…
Quase que me perco a pensar o que isto significa,
Mas estaco, e sinto-me sorrir na noite com os cantos da boca,
Porque a única coisa que o meu relógio simboliza ou significa
É a curiosa sensação de encher a noite enorme
Com a sua pequenez…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.
De aqui a tão pouco
A vida acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.
E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.
Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vâ
Toda esta viagem
Até onde quis.
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Vem a voz da radiofonia e dá
A notícia num arrastamento vão:
«A seguir
Un soir à Lima»…
Cesso de sorrir…
Pára-me o coração…
E, de repente,
Essa querida e maldita melodia
Rompe do aparelho inconsciente.
Numa memória súbita e presente
Minha alma se extravia….
O grande luar da África fazia
A encosta arborizada alvinitente.
A sala em nossa casa era ampla, e estava
Posta onde, até ao mar, tudo se dava
À clara escuridão do luar ingente…
Mas só eu, à janela.
Minha mãe estava ao piano
E tocava.
Exactamente
«Un Soir à Lima».
Meu Deus, que longe, que perdido, que isso está!
Que é do seu alto porte?
Da sua voz continuamente acolhedora?
Do seu sorriso ‘carinhoso e forte?
O que hoje há
Que mo recorda é isto que oiço agora
Un Soir à Lima.
Prossegue na radiofonia
A mesma, a mesma melodia
O mesmo
«Un Soir à Lima».
Seu cabelo grisalho era tão lindo
Sob a luz
E eu que nunca julguei que ela morresse
E me deixasse entregue a quem eu sou!
Morreu, mas eu sou sempre o seu menino.
Ninguém é homem para a sua mãe!
(…)
Onde é que a hora, e o lar e o amor está
Quando, mãe, mãe, tocavas
Un Soir à Lima?
E num recanto de cadeira grande
Minha irmã,
Pequena e encolhidinha
Não sabe se dorme se não.
(…)
Meu padrasto
(Que homem! que alma! que coração!)
Reclinava o seu corpo basto
De atleta sossegado e são
Na poltrona maior
E ouvia, fumando e cismando,
E o seu olhar azul não tinha cor.
A minha irmã, criança,
No recanto da sua poltrona
Enrolada, ouvia a dormir
E a sorrir
Que estava alguém tocando
Se calhar uma dança.
E eu, de pé, ante a janela
Via todo o luar de toda a África inundar
A paisagem e o meu sonhar.
Onde tudo isto está!
Un Soir à Lima,
Quebra-te, coração!
17 – 9 – 1935
In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. 2006
Fernando Pessoa
[UN SOIR Ã LIMA]
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
Duas de lado a lado
Jaz morto, e arrefece.
Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
e cego os céus perdidos.
Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“o menino da sua mãe”
Caiu lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe.
Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.
De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embaínhada
De um lenço…
Dera-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há prece:
“Que volte cedo e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»
«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo …
Tenho dó delas.
Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?
Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir …
Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão
Qualquer coisa assim
Como um perdão?
Boiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.
Boiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.
Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.
4/8/1930
Fernando Pessoa
Cancioneiro
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.
Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.
És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma cousa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo …
Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo …
Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,
Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas …
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também que coisa é que faria?
Fosse a que fosse, estava errada.
De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.
E após a noite e irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
É boa!
Se fossem malmequeres!
E é uma papoula
Sozinha, com esse ar de “queres?”
Veludo da natureza tola.
Coitada!
Por ela
Saí da marcha pela estrada.
Não a ponho na lapela.
Oscila ao leve vento, muito
Encarnada a arroxear.x
Deixei no chão o meu intuito.
Caminharei sem regressar.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Do meio da rua
x(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito…
Como se no braçox
Me tocasse alguém,
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.
Outrora em criançax
0 mesmo pregão… xNão lembres…
Descansa,
Dorme, coração!…
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Meus versos são meu sonho dado,
Quero viver, não sei viver,x
Por isso anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.
0 que soubemos, o perdemos.x
0 que pensamos já o fomos.x
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.
Se alguém souber sentir meu cantox
Meu canto eu saberei sentir.x
Viverei com minha alma tanto,
Tanto quanto antes vivi.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida,
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Enfia a agulha,
E ergue do colo,
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha Com desconsolo).
Não ouviste nada.
Os meus poemas, este
E os outros que tenho
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho,
Que ouças sem pensar.
Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo quadro.
Dá-me um certo enleio…
E ler é esquecer.
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!
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15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar
O som do relógio
Tem a alma por fora
Só ele é a noite
E a noite se ignora.
Não sei que distância
Vai de som a som
Soando, no tique,
Do taque do som.
Mas oiço de noite
A sua presênça
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser
Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa
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