Nota biográfica

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill (Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986), ou simplesmente Alexandre O'Neill, descendente de irlandeses, foi um importante poeta do movimento surrealista.

Alexandre O’Neill – “Portugal”

27.03.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã, não há
“papo-de-anjo” que seja o meu derriço, galo que
cante a cores na minha prateleira, alvura
arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém, perdigueiro
marrado e sem narizes, sem perdizes, rocim
engraxado, feira cabisbaixa, meu remorso, meu
remorso de todos nós…

Alexandre O’neill – “Cão” (sem música)

09.08.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema…

Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O’Neill – “Um Adeus Português” (sem música)

24.07.2013 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos teus olhos altamente perigosos

vigora agora o mais rigoroso amor

a luz dos ombros puros e a sombra

de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo

à roda em que apodreço

apodrecemos

a esta pata ensanguentada que vacila

quase medita

E avança mugindo pelo túnel

de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira

onde passo o dia burocrático

o dia a dia da miséria

que sobe aos olhos vem às mãos

aos sorrisos

ao amor mal soletrado

à estupidez ao desespero sem boca

ao medo perfilado

à alegria sonâmbula à vírgula maníaca

do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo

em trânsito mortal até ao dia sórdido

canino

policial

até ao dia que não vem da promessa

puríssima da madrugada

mas da miséria de uma noite gerada

por um dia igual

Não podias ficar presa comigo

à pequena dor que cada um de nós

traz docemente pela mão

a esta pequena dor à portuguesa

tão mansa quase vegetal

Mas tu não mereces esta cidade não mereces

esta roda de náusea em que giramos

até à idiotia

esta pequena morte

e o seu minucioso e porco ritual

esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira

da cidade onde o amor encontra as suas ruas

e o cemitério ardente

da sua morte

tu és da cidade onde vives por um fio

de puro acaso

onde morres ou vives não de asfixia

mas às mãos de uma aventura de um comércio puro

em a moeda falsa do bem e do mal.

Nesta curva tão terna e lancinante

que vai ser que já é o teu desaparecimento

digo te adeus

e como um adolescente

tropeço de ternura

por ti.

Alexandre O’Neill – “Velha fábula…”

08.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

( Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe…)

Alexandre O’Neill – “O cheiro a cera e a incenso”

07.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O cheiro a cera e a incenso sobe da infância e é recordado

pelo olfacto da memória. Há certos cheiros que persistem

vida fora. O cheiro da relva recém-cortada frente à casa, o

cheiro-maçã de esperma nos lençóis, o cheiro dos cavalos

depois duma caminhada, o cheiro-estalido da lenha na 

lareira, o cheiro de roupa de linho no estendal por detrás da 

casa, o cheiro silvestre da minha primeira namorada, o

cheiro dos velhos álbuns de fotografias (cheiro de morte,

mas com cheiro de vida lá dentro) sobretudo quando se sabe

que o almirante navega há muitos anos num mar para

colorir. Um avô almirante que eu nunca vi numa pose de 

leão dos mares para a fotografia (um cheiro a vaidade, que 

se perdoa tanto tempo depois,) o cheiro da catequista da 

igreja de S. Jorge de Arroios por quem eu estava

apaixonado, cheiro de castos lençóis, provavelmente os mesmos de
Camilo Pessanha. O cheiro de santidade, o cheiro de 

inveja que se desprende de certa gente malina e de certos lugares

aziago o cheiro a guarda-chuva molhado e abandonado 
como um
pássaro morto. O cheiro de flores apodrecidas
em 
amarelentos solitários. O cheiro a corpo queimado que 

anuncia a presença do demo esse que vem cheirar os cheiros

que são muito nossos para roubar a memória do que fomos

sendo nos laços e lacetes da existência.

Alexandre O’Neill – “Dai-nos, meu Deus…”

07.06.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja.

Dai-nos, meu Deus, um pequeno absurdo quotidiano que seja,
que o absurdo, mesmo em curtas doses,
defende da melancolia e nós somos tão propensos a ela!
Se é verdade o aforismo faca afia faca
(não sabemos falar senão figuradamente
sinal de que somos pouco capazes de abstracção).
Se faca afia faca,
então que a faca do absurdo
venha afiar a faca da nossa embotada vontade,
venha instalar-se sobre a lâmina do inesperado
e o dia a dia será nosso e diferente.
Aflições? Teremos muitas não haja dúvida.
Mas tudo será melhor que este dia a dia.
Os povos felizes não têm história, diz outro aforismo.
Mas nós não queremos ser um povo feliz.
Para isso bastam os suíços, os suecos, que sei eu?
Bom proveito lhes faça!
Nós queremos a maleita do suíno,
a noiva que vê fugir o noivo,
a mulher que vê fugir o marido,
o órfão que é entregue à caridade pública,
o doente de hospital ainda mais miserável que o hospital
onde está a tremer, a um canto, e ainda ninguém lhe ligou
nenhuma. Nós queremos ser o aleijado nas ruas, a pedir esmola, a
a

bardalhar-se frente aos nossos olhos. Queremos ser o pai


desempregado que não sabe que NatalDai-nos, meu Deus…
há-de dar aos seus.
Garanti-nos, meu Deus, um pequeno absurdo cada dia.
Um pequeno absurdo às vezes chega para salvar.

Alexandre O’Neill – “Daqui”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Daqui, desta Lisboa compassiva,
Nápoles por suíços habitada,
onde a tristeza vil e apagada
se disfarça de gente mais activa;

daqui, deste pregão de voz antiga,
deste traquejo feroz de motoreta
ou do outro de gente mais selecta
que roda a quatro a nalga e a barriga;

daqui, deste azulejo incandescente,
da soleira de vida e piaçaba,
da sacada suspensa no poente,
do ramudo tristolho que se apaga;

daqui, só paciência, amigos meus!
Peguem lá o soneto e vão com Deus…

Alexandre O’Neill – “Fala”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fala a sério e fala no gozo
Fá la pela calada e fala claro
Fala deveras saboroso
Fala barato e fala caro
Fala ao ouvido fala ao coração
Falinhas mansas ou palavrão
Fala à miúda mas fá la bem
Fala ao teu pai mas ouve a tua mãe
Fala francês fala béu béu
Fala fininho e fala grosso
Desentulha a garganta levanta o pescoço
Fala como se falar fosse andar
Fala com elegância muito e devagar.

Alexandre O’Neill – “Duas moscas ou a mesma?”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

1
 
– Onde já vi esta mosca?
– Mas em toda a parte, filha,
desde o bolo de noivado
à minha tépida v’rilha!
 
2
 
Eis a mosca popular
aferroada aos miúdos,
avioneta escolar
para fugir aos estudos!

Alexandre O’Neill – “Fados literários”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As fatrasias, versos anfigúricos (ou sem sentido) de fábrica popular (dói-me a barriga nas costas, / o coração nas orelhas; / não posso cantar dum braço / por causa das sobrancelhas), encontram correspondentes eruditos, entre outros, nos chamados fados «literários», à feitura dos quais não devia ser alheio o compadrio entre o espírito da boémia e a boémia do espírito que em alguns meios académicos (Coimbra, p. ex.) animou, como pôde, a vida portuguesa neles represada. Menos soltos imaginativamente que as fatrasias, os fados «literários» parece que têm, em contrapartida, uma capacidade de demolição do discurso que as primeiras desconhecem. Os elencos vocabulares e os mecanismos que os põem em movimento são deliberadamente artificiosos (como se vê nos nossos dois exemplos, especialmente no fado zombeteiro) e querem mostrar, pelo menos no segundo, parece-me, como o discurso pode assumir o ridículo de ser importante. É o falar caro que todos nós gozamos, mas que, sectorialmente, pode representar uma forma sisuda de manter classe …
Na ocasião em que, «para a Europa», a nacional-indigência não inventou nada de melhor que as nado-mortas letras das oito canções finalistas, será um exercício de auto-reanimação dar-vos a conhecer, ou a relembrar, um fado «esdrúxulo» dedicado à zombaria e um fado «tautofónico» todo entregue ao respeito:

Zombaria

Eu zombo de homens teutónicos,
Eu zombo dos argentários,
Eu zombo dos pitagóricos,
Eu zombo dos usurários.
Eu zombo dos dialécticos,
Eu zombo até dos sofísticos,
Eu zombo dos casuísticos,
Eu zombo já dos magnéticos;
Eu zombo dos cinegéticos,
Eu zombo dos bons eufónicos;
Eu zombo dos sons harmónicos,
Eu zombo dos bons topázios,
Eu zombo dos tais pascácios,
Eu zombo de homens teutónicos.
Eu zombo já dos gramáticos,
Eu zombo dos elegíacos,
Eu zombo desses siríacos,
Eu zombo dos esquipáticos;
Eu zombo até dos didácticos,
Eu zombo dos santanários;
Eu zombo dos proletários,
Eu zombo dos económicas;
Eu zombo dos pobres cómicos,
Eu zombo dos argentários.
Eu zombo dos privilégios,
Eu zombo dos sacrifícios;
Eu zombo dos artifícios,
Eu zombo dos sortilégios
Eu zombo dos sacrilégios’,
Eu zombo dos tais históricos;
Eu zombo dos alegóricos;
Eu zombo até já dos clínicos
Eu zombo dos próprios cínicos,
Eu zombo dos pitagóricos.
Eu zombo dos patológicos.
Eu zombo dos fidelíssimos;
Eu zombo dos modestíssimos.
Eu zombo dos mitológicos;
Eu zombo dos pedagógicos,
Eu zombo dos breviários;
Eu zombo dos perdulários,
Eu zombo dos cabalísticos;
Eu zombo dos humorísticos,
Eu zombo dos usurários.

Respeito

Respeito o poder do galo.
Respeito a voz do leão,
Respeito as tetas da vaca,
Respeito a pele do cação.
Respeito o ferrão da abelha,
Respeito as penas do pato,
Respeito as unhas do gato,
Respeito as cãs duma velha;
Respeito o velo da ovelha,
Respeito o nobre cavalo,
Respeito o rim-rim do ralo,
Respeito o fim da baleia,
Respeito a voz da sereia,
Respeito o poder do galo.
Respeito o mau papagaio,
Respeito o bom pintarroxo,
Respeito a forma do mocho,
Respeito o verde do gaio,
Respeito o fino garraio,
Respeito as pernas do anão,
Respeito os pés do pavão,
Respeito a velha serpente,
Respeito a língua da gente,
Respeito a voz do leão.
Respeito a cor da rolinha,
Respeito o zum do besoiro,
Respeito as armas do toiro,
Respeito o fel da pombinha,
Respeito o pôr da galinha.
Respeito o mal da macaca,
Respeito o pêlo da alpaca.
Respeito a tal cegarrega.
Respeito o bico da pega.
Respeito as tetas da vaca.
Respeito as asas do grilo,
Respeito a feia minhoca,
Respeito o berro da foca,
Respeito o vil crocodilo,
Respeito o curso do esquilo,
Respeito o ser tubarão,
Respeito os dentes do cão.
Respeito os coices da mula.
Respeito o gosto da lula
Respeito a pele do cação.

E muito obrigado pela atenção que nos dispensaram!

Alexandre O’Neill – “Sigamos o cherne”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

(Depois de ver o filme “O Mundo do Silêncio”, de
Jacques-Yves Cousteau)
 
Sigamos o cherne, minha Amiga!
Desçamos ao fundo do desejo
Atrás de muito mais que a fantasia
E aceitemos, até, do cherne um beijo,
Senão já com amor, com alegria…”
 
Em cada um de nós circula o cherne,
Quase sempre mentido e olvidado.
Em água silenciosa do passado
Circula o cherne: traído
Peixe recalcadox
 
Sigamos, pois, o cherne, antes que venha,
Já morto, boiar ao lume de água,
Nos olhos rasos de água,
Quando, mentido o cherne a vida inteira,
Não somos mais que solidão e mágoax
 
No Reino da Dinamarca, 1958

Alexandre O’Neill – “Um adeus português”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora agora o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
Ee avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia a dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta casa comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal.

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.

Alexandre O’Neill – “Há palavras que nos beijam”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.

Alexandre O’Neill – “Sei os teus seios”

08.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.
Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.
Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.
Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!
Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!
Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p’la manhã?
Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?
Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!
Quantos seios ficaram por amar?
Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!
Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!
Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas…
Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.
Seios que vão à escola p’ra de lá saírem
Direitinhos p’ra casa…
Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!
Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer…
O amor excessivo dum poeta:
“E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio”
Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!
Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.
Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!
Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!
“Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos”
Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p’la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
(“É isto que amas?”)
De repente a podridão do seio.
Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios…
Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá…
Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou…
Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!
Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.
Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.