Nota biográfica

Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre (Lisboa, 31 de outubro de 1750 — Benfica, 11 de outubro de 1839) foi uma nobre e poetisa portuguesa. Conhecida como "Alcipe".

Marquesa de Alorna – “Esperanças”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Esperanças de um vão contentamento,
por meu mal tantos anos conservadas,
é tempo de perder-vos, já que ousadas
abusastes de um longo sofrimento.

Fugi; cá ficará meu pensamento
meditando nas horas malogradas,
e das tristes, presentes e passadas,
farei para as futuras argumento.

Já não me iludirá um doce engano,
que trocarei ligeiras fantasias
em pesadas razões do desengano.

E tu, sacra Virtude, que anuncias,
a quem te logra, o gosto soberano,
vem dominar o resto dos meus dias.

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Marquesa de Alorna – “Sozinha no bosque”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sozinha no bosque
com meus pensamentos.
calei as saudades,
fiz trégua aos tormentos.
Olhei para a Lua,
que as sombras rasgava,
nas trémulas águas
seus raios soltava.
Naquela torrente
que vai despedida,
encontro, assustada,
a imagem da vida.
Do peito, em que as dores
já iam cessar,
revoa a tristeza,
e torno a pensar.
Como está sereno o céu,
como sobe mansamente
a Lua resplandecente
e esclarece este jardim!
Os ventos adormeceram;
das frescas águas do rio
interrompe o murmúrio
de longe o som de um clarim.
Acordam minhas ideias,
que abrangem a Natureza;
e esta nocturna beleza
vem meu estro incendiar.
Mas, se à lira lanço a mão,
apagadas esperanças
me apontam cruéis lembranças,
e choro em vez de cantar.
Eu cantarei um dia da tristeza
por uns termos tão ternos e saudosos,
que deixem aos alegres invejosos
de chorarem o mal que lhes não pesa.
Abrandarei das penhas a dureza,
exalando suspiros tão queixosos,
que jamais os rochedos cavernosos
os repitam da mesma natureza.
Serras, penhascos, troncos, arvoredos,
ave, ponte, montanha, flor, corrente,
comigo hão-de chorar de amor enredos.
Mas ah! que adoro uma alma que não sente!
Guarda, Amor, os teus pérfidos segredos,
que eu derramo os meus ais inultimente.

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Marquesa de Alorna – “Oferenda aos mortos”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Aquele outeiro sombrio
está de névoas coberto;
escorre entre canas, perto,
fraco e murmurando, um rio.
Naquele negro pinhal,
como tocha funeral,
brilha modesta candeia,
que ao pastor pobre alumeia
com a luz embaciada.
Vem por corvos arrastada
a Tarde.
A luz apenas das estrelas arde!…
Que pavor
espalha em todo o campo a minha dor!…
Das frestas dos edifícios
vergonhoso mocho voa,
e com seus uivos atroa
os Génios dos malefícios;
saem Fadas peregrinas
a dançar sobre ruínas,
e vêm por entre perigos
gnomos, trasgos, inimigos.
Alumeia
o pirilampo incerto esta coreia.
Que pavor
espalha em todo o campo a minha dor!…
Estão todas apagadas
as luzes da Outra-Banda;
pelas praças ninguém anda,
vagam as sombras caladas.
Naquele triste convento
dobra o sino sonolento;
o ar cos sons esmorece.
O horizonte empalidece:
o vapor autumnal
cobre-o de um véu fatal,
sombrio.
Suspira o vento e nasce o calafrio
Que pavor
espalha em todo o campo a minha dor!…
(…)
Com teu clarão moderado
que objecto me estás mostrando,
que me estás afigurando,
crepúsculo descorado?
Sombra majestosa e cara,
que nas mãos da Parca avara
enches todo o meu sentido!
Es tu, Armínio querido?
Se te retrata a saudade,
apaga as cores a realidade.
Entretanto,
o teu túmulo lava este meu pranto.
Que pavor
espalha em todo o campo a minha dor!…
Sobre o teu marmóreo altar,
onde oculto me magoas,
de plátano cinco c’roas
venho hoje depositar.
Recebe Armínio a mais pura;
duas leve-as a ternura,
de meu pranto comovida,
a Márcia, a Lília querida;
aos dois penhores
dos nossos tristes, doces amores,
condoída,
of’reço duas, of’recera a vida.
Que pavor
espalha em todo o campo a minha dor!…

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Luís Pinto – “Paráfrase”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Paráfrase sobre a “Canção das Canções”

Desce a noite. Despedi-me dos pastores.
Inebriado pelo perfume do mosto olho para a minha amada.
Surge-me como a aurora, bela como a lua, brilhante como o sol.
Desperta no leito de cedro coberta de penas de pomba.
A mais bela de todas as mulheres extasia-se ao ver-me.
E pelo seu corpo verdejante como floresta perfumada
Pastam rebanhos de gazelas, corços, veados saltaricando na sombra dos seus cabelos.
A sua voz doce de favos, reclama-me e extasia-me.
– Leva-me contigo, meu amado. Ou deita-te a meu lado e canta-me
amores.
Sou morena. Sou formosa. Sou tua. Ponho no meu pescoço
O colar de pérolas que exala o perfume do nosso vinho.
Repousa a tua cabeça nos meus seios, no meu ventre de lírios,
Na doçura da minha boca de frutos silvestres,
Quero desfalecer de amor nos teus braços fortes. Conforta-me.
Como és encantador e belo, meu amor. Vamos para o festim da floresta
Que já entoa a chegada da Primavera.
E introduz-me uvas passas na minha boca que espera a tua.
Saboreia a minha saliva e ouve a minha voz que te segreda palavras de conforto
Porque esta noite procurei-te e não te encontrei. Desejo ser tua
Como na primeira vez quando nos encontrámos nos outeiros.
Quero conceber dum amor frenético, penetrante, quente, aromático.
Oh! meu amado amigo e esposo. Os ninhos já estão prontos.
Escolhamos o nosso.
E faz-me ouvir a tua voz desfalecida quando me abraças e me possuis.
Como são deliciosos os teus afagos, as tuas carícias,
Os beijos com que cobres o meu corpo inteiro. O aroma que vem de ti
Excede o de todos os aromas.
Desfaleço de amor. Os teus lábios são lírios, que destilam a mirra mais preciosa.
Bebe do nosso vinho perfumado, sacia a tua sede de desejo e toma-me.
Leva-me.
Desfaleço de amor mas não tenhamos pressa.
Quando regressarem os pastores
Estamos escondidos na ilha dos amores.

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Judith Teixeira – “Perfis decadentes”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Através dos vitrais
ia a luz a espreguiçar-se
em listas faiscantes,
sob as sedas orientais
de cores luxuriantes!

Sons ritmados dolentes,
num sensualismo intenso,
vibram misticismos decadentes
por entre nuvens de incenso.

Longos, esguios, estáticos,
entre as ondas vermelhas do cetim,
dois corpos esculpidos em marfim
soergueram-se nostálgicos,
sonâmbulos e enigmáticos…

Os seus perfis esfingicos,
e cálidos
estremeceram
na ânsia duma beleza pressentida,
dolorosamente pálidos!
Fitaram-se as bocas sensuais!

Os corpos subtilizados,
femininos,
entre mil cintilações
irreais,
enlaçaram-se
nos braços longos e finos!

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Jorge Sousa Braga – “As árvores e os livros”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As árvores como os livros têm folhas
     e margens lisas ou recortadas,
     e capas (isto é copas) e capítulos
     de flores e letras de oiro nas lombadas. 
E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras. 
As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas». 
É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras.

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Jorge Sousa Braga – “Portugal”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Captura de ecrã 2016-07-19, às 18.20.50

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combatera doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira, que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente.
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo Anda na consulta externa do Júlio de Matos Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador Portugal
Se tivesse dinheiro comprava um Império e dava-to
Juro que era capaz de fazer isso só para te ver sorrir Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete, Salazar estava no poder, nada de ressentimentos
o meu irmão esteve na guerra, tenho amigos que emigraram, nada de ressentimentos
um dia bebi vinagre, nada de ressentimentos
Portugal depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fossemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos? São castanhos como os da minha mãe Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente na boca

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Gustave Flaubert – “Ele estava de joelhos…”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Ele estava de joelhos, à frente dela; e rodeava-lhe a cintura com os dois braços, a cabeça para trás, as mãos errantes; as argolas de ouro que lhe pendiam das orelhas luziam sobre o seu pescoço bronzeado; corriam-lhe dos olhos grossas lágrimas semelhantes a globos de prata; suspirava de modo carinhoso, e murmurava palavras vagas, mais leves do que uma brisa e suaves como um beijo.
Salammbô era invadida por um langor no qual perdia toda a consciência de si mesma. Qualquer coisa em simultâneo íntimo e superior, uma ordem de Deus, forçava-a a abandonar-sei sustinham-na nuvens, e, sentindo-se desfalecer, lançou-se para a cama, sobre os pêlos do leão. Mâtho prende-lhe os calcanhares, a corrente de ouro rebenta, e as duas pontas, levantando voo, batem no pano como duas víboras trepidantes. O manto cai, envolve-o; ela vislumbra a figura de Mâtho inclinando-se sobre o seu peito.
– Moloch, tu queimas-me! – e os beijos do soldado, mais devoradores do que as chamas, percorriam-na; ela estava como que elevada por um furacão, prisioneira da força do sol.
Ele beijou-lhe todos os dedos das mãos, os braços, os pés, e, de uma ponta à outra, as longas tranças dos cabelos.

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Florbela Espanca – “A um moribundo”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não tenhas medo, não! Tranquilamente,
Como adormece a noite pelo Outono,
Fecha os teus olhos, simples, docemente,
Como, à tarde, uma pomba que tem sono …

A cabeça reclina levemente
E os braços deixa-os ir ao abandono,
Como tombam, arfando, ao sol poente,
As asas de uma pomba que tem sono …

O que há depois? Depois? .. O azul dos céus?
Um outro mundo? O eterno nada? Deus?
Um abismo? Um castigo? Uma guarida?

Que importa? Que te importa, ó moribundo?
– Seja o que for, será melhor que o mundo!
Tudo será melhor do que esta vida!. ..

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Florbela Espanca – “Charneca em flor”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Enche o meu peito, num encanto mago,
O frémito das coisas dolorosas …
Sob as urzes queimadas nascem rosas …
Nos meus olhos as lágrimas apago …

Anseio! Asas abertas! O que trago
Em mim? Eu oiço bocas silenciosas
Murmurar-me as palavras misteriosas
Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,
Dispo a minha mortalha, o meu burel,
E já não sou, Amor, Soror Saudade …

Olhos a arder em êxtases de amor,
Boca a saber a sol, a fruto, a mel:
Sou a charneca rude a abrir em flor

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Florbela Espanca – “Frémito do meu corpo”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Frémito do meu corpo a procurar-te,
Febre das minhas mãos na tua pele
Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel,
Doido anseio dos meus braços a abraçar-te,

Olhos buscando os teus por toda a parte,
Sede de beijos, amargor de fel,
Estonteante fome, áspera e cruel,
Que nada existe que a mitigue e a farte!

E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma
Junto da minha, uma lagoa calma,
A dizer-me, a cantar que me não amas …

E o meu coração que tu não sentes,
Vai boiando ao acaso das correntes,
Esquife negro sobre um mar de chamas …

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Florbela Espanca – “Horas rubras”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas …

Ouço as olaias rindo desgrenhadas …
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p’las estradas …

Os meus lábios são brancos como lagos …
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras …

Sou chama e neve branca misteriosa …
E sou talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

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Florbela Espanca – “Os versos que te fiz”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixe dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer !
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Tem dolencia de veludo caros,
São como sedas pálidas a arder…
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer !

Mas, meu Amor, eu não te digo ainda…
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz !

Amo-te tanto ! E nunca te beijei…
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz.

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Florbela Espanca – “Se tu viesses ver-me, hoje, à tardinha”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços …

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca … o eco dos teus passos .
O teu riso de fonte … os teus abraços .
Os teus beijos … a tua mão na minha .

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca ..
Quando os olhos se me cerram de desejo .
E os meus braços se estendem para ti. ..

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Eugénio de Andrade – “Terra de minha mãe”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A minha relação com as terras baixas e interiores da Beira é materna, quero eu dizer: poética. A tão grande distância do tempo em que ali vivi os primeiros oito anos da minha vida, o rosto da minha mãe confunde-se com a cor doirado do restolho e daquela terra obscura onde emergem uns penedinhos com giesta á roda, e alguns sobreiros de passo largo a caminho do Alentejo. Mas também os olivais de muros baixos de pedra solta me chegam nas suas falas, as dela e as de toda essa gente de Póvoa de Atalaia, camponeses na sua quase totalidade; e quando o não eram, o seu ofício era ainda o de uma relação privilegiada com as coisas da terra: pedreiros, carpinteiros, ferreiros. Fora destes mesteres, o restante da população activa lavrava, semeava, sachava, colhia. Ou pastava o gado, e fabricava queijo, azeite, vinho, pão. Lembro-me do cheiro dos lagares, das queijarias, do forno, das forjas – eram cheiros que entravam pelas narinas como tantos outros, mas só esses se infiltravam no sangue e aí ficaram depositados em sucessivas camadas, para sempre, como ficou o aroma da esteva e do feno. E ainda o das folhas secas dos castanheiros, trazidos ás carradas e despejados ao lado do balcão – eu já as esperava e precipitadamente atirava-me sobre o montão da folhagem, com restos ainda do verão de S. Martinho; outros corpos caíam, um até sobre o meu, quente, demasiado quente, a boca próxima da minha, um beijo quase; voltávamos a subir os degraus do balcão, e o prazer e os gritos repetiam-se até que minha mãe chamava por mim: anoitecera, o avô já chegara, os tios também, toda a gente, por carreiros e quelhas de sombras, havia já regressado dos campos e o cheiro a coentros não tardaria a subir da panela. Ouvia a voz de minha mãe ralhar com doçura, enquanto me despia e mergulhava na selha.
Um porquinho, era o que eu era, um porquinho sem emenda – no dia seguinte regressaria ao montão de folhas, ou aos montes de feno, ou de palha, no canto da eira, tanto faz porque todos serviam para nos escondermos uns dos outros ou uns com os outros.
Depois da ceia arrumada a cozinha, às vezes a minha mãe sentava-se ao balcão e cantava. Cantava um desses romances de que entendia melhor o ritmo do que as palavras. E não tardava que outras vozes se misturassem com a sua, e não raramente se lhes juntava o som ácido de um realejo, ou do harmónio menos acidulado.
E foram esses ritmos, essas palavras de misterioso significado que me cativaram e passaram aos meus versos, mas isso só o soube mais tarde, depois de percorrer em livros outros caminhos. Porque esta é a poesia que sempre foi a minha: uma voz que no corpo se faz alma para que noutras almas regresse ao corpo. Essa poesia teve origem nestas terras, entre a luz esfarelada e a poeira levantada por cabras e ovelhas, rompeu na boca e no olhar daquela gente, despertou com o calor de outros corpos em enxergas de folhelho ou sobre a palha rala de alguma choça de pastor, quando eu anos mais tarde ali vinha ritualmente passar as férias grandes – grandes, grandes, grandes, porque então nem os dias nem as noites tinham fim. Será preciso dizer que foi também nestas terras que os sentidos despertaram e se abandonaram ao desejo de outro corpo?
Mas não foi só o amor, também a desordem e a morte foi aqui que primeiramente as toquei ou pressenti: às vertentes da poesia e da morte chega-se da mesma maneira. Lembro-me com rigor do nosso primeiro encontro, da primeira vez que nos fitámos nos olhos. Eu devia ter uns cinco anos e andava com a mãe e as tias no lameiro: elas regavam e eu chafurdava nos regos de água entre o milho alto e os feijoeiros pesados. De repente, minha mãe disse-me vem aí o teu pai.
Era impossível que não tivesse já ouvido aquela palavra, mas a mim sempre me pareceu que a escutara então pela primeira vez. Olhei: no caminho que passava rente às nossas terras, ele ia-se aproximando a cavalo, a mãe dele ao lado, na égua; certamente fora esperá-lo à estação, haviam atravessado a Póvoa, e agora ali estavam, cada vez mais próximos, a caminho do «monte do Ribeiro», de que ela era soberana e ele vassalo obediente. Eu estava em cima de um cômoro, na minha frente o senhorito parava o cavalo. Olhava-me sem se apear para um beijo ou uma festa. Também não me mexi, nem disse uma palavra. Por fim ouvi-lhe a voz: – Andas descalço? Foi minha mãe, que não estava longe, sem contudo ter interrompido o trabalho, quem lhe respondeu. – Diz-lhe que te compre umas botas, que tem obrigação disso. – Então, ele meteu a mão no bolso do colete, tirou umas moedas, talvez fossem escassas, pediu ajuda à mulher do lado, que se desculpou de não ter dinheiro consigo, aproximou-se mais, a mão estendida. Recusei virando-lhe as costas. Sem uma palavra, corri para a minha mãe: só ela era meu pai, o homem que vinha de ver pela primeira vez ia recusá-lo a vida inteira. Inteiramente.


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Eugénio de Andrade – “Procuro-te”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Procuro a ternura súbita,
os olhos ou o sol por nascer
do tamanho do mundo,
o sangue que nenhuma espada viu,
o ar onde a respiração é doce,
um pássaro no bosque
com a forma de um grito de alegria.

Oh, a carícia da terra,
a juventude suspensa,
a fugidia voz da água entre o azul
do prado e de um corpo estendido.

Procuro-te: fruto ou nuvem ou música.
Chamo por ti, e o teu nome ilumina
as coisas mais simples:
o pão e a água,
a cama e a mesa,
os pequenos e dóceis animais,
onde também quero que chegue
o meu canto e a manhã de maio.

Um pássaro e um navio são a mesma coisa
quando te procuro de rosto cravado na luz.
Eu sei que há diferenças,
mas não quando se ama,
não quando apertamos contra o peito
uma flor ávida de orvalho.

Ter só dedos e dentes é muito triste:
dedos para amortalhar crianças,
dentes para roer a solidão,
enquanto o verão pinta de azul o céu
e o mar é devassado pelas estrelas.

Porém eu procuro-te.
Antes que a morte se aproxime, procuro-te.
Nas ruas, nos barcos, na cama,
com amor, com ódio, ao sol, à chuva,
de noite, de dia, triste, alegre — procuro-te.

Eugénio de Andrade, in “As Palavras Interditas”

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Eugénio de Andrade – “Adeus”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

separação

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.

Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos seio peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor…,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
Não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

(Fotografia de Luís Gaspar)

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Eugénio de Andrade – “Mãe”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

mae14

No mais fundo de ti.
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos…
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha, queres ouvir-me?:
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos..
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura..

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal…
Mas – tu sabes! – a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu…
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas…

Boa noite. Eu vou com as aves!

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Eugénio de Andrade – “As mães”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

alentejo

Quando voltar ao Alentejo as cigarras já terão morrido. Passaram o verão todo a transformar a luz em canto – não sei de destino mais glorioso. Quem lá encontraremos, pela certa, são aquelas mulheres envolvidas na sombra dos seus lutos, como se a terra lhes tivesse morrido e para todo o sempre se quedassem órfãs. Não as veremos apenas em Barrancos ou em Castro Laboreiro, elas estão em roda a parte onde nasça o sol: em Cória ou Catânia, em Mistras ou Santa Clara del Cobre, em Varchats ou Beni Mellal, porque elas são as Mães. O olhar esperto ou sonolento, o corpo feito um espeto ou mal podendo com as carnes, elas são as Mães. A tua; a minha, se não tivera morrido tão cedo, sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.
Provavelmente estão aí desde a primeira estrela. E como duram! Feitas de urze ressequida, parecem imortais. Se o não forem, são pelo menos incorruptíveis, como se participassem da natureza do fogo. Com mãos friáveis teceram a rede dos nossos sonhos, alimentaram-nos com a luz coada pela obscuridade dos seus lenços. Às vezes encostam-se à cal dos muros a ver passar os dias, roendo uma côdea ou fazendo uns carapins para o último dos netos, as entranhas abertas nas palavras que vão trocando entre si; outras vezes caminham por quelhas e quelhas de pedra solta, batem a um postigo, pedem lume, umas pedrinhas de sal, agradecem pela alma de quem lá têm, voltam ao calor animal da casa, aquecem um migalho de café, regam as sardinheiras, depois de varrerem o terreiro. Elas são as Mães, essas mulheres que Goethe pensa estarem fora do tempo e do espaço, anteriores ao Céu e ao Inferno, assim velhas, assim terrosas, os olhos perdidos e vazios, ou vivos como brasas assopradas. Solitárias ou inumeráveis, aí as tens na rua frente, graves, caladas, quase solenes na sua imobilidade, esquecidas de que foram o primeiro orvalho do homem, a primeira luz.
Mas também as podes ver seguindo por lentas veredas de sombra, as pernas pouco ajudando a vontade, atrás de uma ou duas cabras, com restos de garbo na cabeça levantada, apesar das tetas mirradas. Como encontrarão descanso nos caminhos do mundo?
Não há ninguém que as não tenha visto com umas contas nas mãos engelhadas rezando pelos seus defuntos, rogando pragas a uma vizinha que plantou à roda do curral mais três pés de couve do que ela, regressando da fonte amaldiçoando os anos que já não podem com o cântaro, ou debaixo de uma oliveira roubando alguma azeitona para retalhar.* E cheiram a migas de alho, a ranço, a aguardente, mas também a poejos colhidos nas represas, a manjerico quando é pelo S. João. E aos domingos lavam a cara, e mudam de roupa, e vão buscar à arca um lenço de seda preta, que também põem nos enterros. E vede como, ao abrir, a arca cheira a alfazema! Algumas ainda cuidam das sécias que levam aos cemitérios ou vendem nas feiras, juntamente com um punhado de maçãs amadurecidas no aroma dos fenos. E conheço uma que passa as horas vigiando as traquinices de um garoto que tem na testa uma estrelinha de cabrito montês – e que só ela, só ela vê.
Elas são as Mães, ignorantes da morte mas certas da sua ressurreição.

*Nota: Devido a lamentável gralha, a frase em itálico, não consta da versão sonora deste texto. Pedimos desculpa pelo facto.

Este texto foi considerado por Manuel Hermínio Monteiro como um dos mais belos da língua Portuguesa, daí o ter incluído na famosa obra de que foi Director Editorial, “Rosa do Mundo – 2001 poemas para o futuro”, edição da Assírio & Alvim.

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Eugénio de Andrade – “Pequena elegia de Setembro”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.

Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.

Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?

Queria falar contigo,
dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.

Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem
parcimoniosamente, no meio de sombras?

Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.

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Eugénio de Andrade – “Havia vento”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Era um mês incerto, havia vento,
eu não teria nascido ainda,
ou já teria morrido.
A fronteira entre luz e sombra
era muito difusa. Então
estranhamente o sol pousou
naquele corpo. Corpo que nunca
vira despido, que cheirava
a maçãs maduras,
com brilhos que desciam
às negras sementes da vida.
Estranhamente o sol demorou-se
nos seus ombros. Um último
brilho, ou suspiro, desprendeu-se.
O ar tremia — apesar disso eu era feliz,
tinha dez ou mil anos, já não sei.

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Cesariny – “Pastelaria”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante!
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício
Não é verdade, rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

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Cesarini – “Discurso ao Principe de Epaminondas, mancebo de grande futuro”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Despe-te de verdades
das grandes primeiro que das pequenas
das tuas antes que de quaisquer outras
abre uma cova e enterra-as
a teu lado
primeiro as que te impuseram eras ainda imbele
e não possuías mácula senão a de um nome estranho
depois as que crescendo penosamente vestiste
a verdade do pão a verdade das lágrimas
pois não és flor nem luto nem acalanto nem estrela
depois as que ganhaste com o teu sémen
onde a manhã ergue um espelho vazio
e uma criança chora entre nuvens e abismos
depois as que hão-de pôr em cima do teu retrato
quando lhes forneceres a grande recordação
que todos esperam tanto porque a esperam de ti
Nada depois, só tu e o teu silêncio
e veias de coral rasgando-nos os pulsos
Então, meu senhor, poderemos passar
pela planície nua
o teu corpo com nuvens pelos ombros
as minhas mãos cheias de barbas brancas
Aí não haverá demora nem abrigo nem chegada
mas um quadrado de fogo sobre as nossas cabeças
e uma estrada de pedra até ao fim das luzes
e um silêncio de morte à nossa passagem

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Carlos Queiroz – “Canção grata”!

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por tudo o que me deste:
– Inquietação, cuidado,
(Um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como louco …
– Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão.
(Embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
Eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
– Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado …
Sem ironia, amor: – Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

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Carlos de Oliveira – “O fundo das águas”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Adensam-se as formas vagas, surdindo tumultuariamente de não
sei quê desesperado ainda como o mundo dos princípios; adensam-
-se os elementos, os vendavais, a aspereza do ferro, do cálcio, da lava,
a fereza biológica dum fundo que não tem outro destino senão
explodir.
Estou a sentir na sombra: um rumor de larvas e sementes, o
amor de que sou capaz pela vida e pelos outros; o esboçar dalguma
flor negra acordando, ao ritmo dos versos; caprichos da botânica ou
desvios da alma; o vento da harmonia submerso entre caules sanguí-
neos e rugosos; a breve tempestade das conchas e dos peixes, a grande solidariedade que vos devo.
O que me espanta é a aceitação de cada dia. E desta angústia
vou tecendo as palavras, desta água salgada e doce como as lágrimas
e o sangue. Tecendo escuramente as palavras.

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António Gedeão – “Poema do homem só”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sós,
irremediavelmente sós,
como um astro perdido que arrefece. 

Todos passam por nós
e ninguém nos conhece.

Os que passam e os que ficam.
Todos se desconhecem.
Os astros não se explicam:
arrefecem.

Nesta envolvente solidão compacta,
quer se grite ou não se grite,
nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.
Quem sente o meu sentimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem sofre o meu sofrimento
sou eu só, e mais ninguém.
Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

Dão-se os lábios, dão-se os braços, 
dão-se os olhos, dão-se os dedos,
bocetas de mil segredos
dão-se em pasmados compassos;
dão-se as noites, dão-se os dias,
dão-se aflitivas esmolas,
abrem-se e dão-se as corolas 
breves das carnes macias; 
dão-se os nervos, dá-se a vida, 
dá-se o sangue gota a gota, 
como uma braçada rota 
dá-se tudo e nada fica.
Mas este íntimo secreto
que no silêncio concentro, 
este oferecer-se de dentro 
num esgotamento completo, 
Este ser-se sem disfarce,
virgem de mal e de bem, 
este dar-se, este entregar-se, 
descobrir-se e desflorar-se, 
é nosso, de mais ninguém.

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António Gedeão – “Domingo”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

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“Aos domingos as ruas estão desertas
e parecem mais largas.
Ausentaram-se os homens à procura
de outros novos cansaços que os descansem.
Seu livre arbítrio algremente os força
a fazerem o mesmo que fizeram
os outros que foram fazer o que eles fazem.
E assim as ruas ficaram mais largas,
o ar mais limpo, o sol mais descoberto.
Ficaram os bêbados com mais espaço para trocarem as pernas
e espetarem o ventre e alargarem os braços
no amplexo de amor que só eles conhecem.
O olhar aberto às largas perspectivas
difunde-se e trespassa
os sucessivos, transparentes planos.

Um cão vadio sem pressas e sem medos
fareja o contentor tombado no passeio.

É domingo.
E aos domingos as árvores crescem na cidade,
e os pássaros, julgando-se no campo, desfazem-se a cantar empoleirados nelas.
Tudo volta ao princípio.
E ao princípio o lixo do contentor cheira ao estrume das vacas
e o asfalto da rua corre sem sobressaltos por entre as pedras
levando consigo a imagem das flores amarelas do tojo,
enquanto o transeunte,
no deslumbramento do encontro inesperado,
eleva a mão e acena
para o passeio fronteiro onde não vai ninguém.”

de, António Gedeão in “Novos Poemas Póstumos”, “Poesia Completa”, pág. 188

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António Gedeão – “Pedra filosofal”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa dos ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

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António Gedeão – “Máquina do tempo”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.

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António Gedeão – “A um ti que eu inventei”

09.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pensar em ti é coisa delicada.
É um diluir de tinta espessa e farta
e o passá-la em finíssima aguada
com um pincel de marta.

Um pesar grãos de nada em mínima balança,
um armar de arames cauteloso e atento,
um proteger a chama contra o vento,
pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,
um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,
um planar de gaivota como um lábio a sorrir.

Penso em ti com tamanha ternura
como se fosses vidro ou película de loiça
que apenas com o pensar te pudesses partir.

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