António Gouveia – “Gosto de ti”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gosto de ti
Não por seres linda ou por seres feia.
Gosto de ti
Pela cor indefinida dos teus olhos
Na qual há uma mistura de todas as cores.
Nem sei mesmo se gosto dos teus olhos
Mas gosto de ti,
Por seres a dona de tais olhos.
Gosto de ti
Pela cor garça dos teus olhos …
Nem azuis, nem verdes, nem cinzentos …
Duma luz vaga, indefinida, incerta,
Como incerta e indefinida e vaga
É a minha vida
E a vida de toda a gente
Na hora que passa.
E é por isso,
Por essa identificação da minha vida
Com a cor incerta dos teus olhos,
Que eu gosto de ti.

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Ruy Belo – “Cinco Palavras, Cinco Pedras”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Antigamente escrevia poemas compridos
Hoje tenho quatro palavras para fazer um poema
São elas: desalento prostração desolação desânimo
E ainda me esquecia de uma: desistência
Ocorreu-me antes do fecho do poema
E em parte resume o que penso da vida
Passado o dia oito de cada mês
Destas cinco palavras me rodeio
E delas vem a música precisa
Para continuar. Recapitulo:
desistência desalento prostração desolação desânimo
Antigamente quando OS deuses eram grandes
Eu sempre dispunha de muitos versos
Hoje só tenho cinco palavras cinco pedrinhas

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Rosa Lobato Faria – “Armadilha”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

E de novo a armadilha dos abraços.
E de novo o enredo das delícias.
O rouco da garganta, os pés descalços
a pele alucinada de carícias.
As preces, os segredos, as risadas
no altar esplendoroso das ofertas.
De novo beijo a beijo as madrugadas
de novo seio a seio as descobertas.
Alcandorada no teu corpo imenso
teço um colar de gritos e silêncios
a ecoar no som dos precipícios.
E tudo o que me dás eu te devolvo.
E fazemos de novo, sempre novo
o amor total dos deuses e dos bichos.

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Rosa Lobato Faria – “Se eu morrer amanhã”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

amanhecer

Se eu morrer de manhã
abre a janela devagar
e olha com rigor o dia que não tenho.

Não me lamentes. Eu não me entristeço:
ter tido a morte é mais do que mereço
se nem conheço a noite de que venho.

Deixa entrar pela casa um pouco de ar
e um pedaço de céu
– o único que sei.

Talvez um pássaro me estenda a asa
que não saber voar
foi sempre a minha lei.

Não busques o meu hálito no espelho.
Não chames o meu nome que eu não venho
e do mistério nada te direi.

Diz que não estou se alguém bater à porta.
Deixa que eu faça o meu papel de morta
pois não estar é da morte quanto sei.

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Reinaldo Ferreira – “Quero um cavalo”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.
Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu.
Quero-a evasiva – nimbos e cerros
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo,
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho,
Mas como posso partir sozinho
Sem um cavalo de várias cores?

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Raul de Carvalho – “Serenidade, és minha”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.

Vem, serenidade!
Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
Carrega para a cama dos desempregados
todas as coisas verdes, todas as coisas vis
fechadas no cofre das águas:
os corais, as anémonas, os monstros sublunares,
as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.

Vem, serenidade,
com o país veloz e virginal das ondas,
com o martírio leve dos amantes sem Deus,
com o cheiro sensual das pernas no cinema,
com o vinho e as uvas e o frémito das virgens,
com o macio ventre das mulheres violadas,
com os filhos que os pais amaldiçoam,
com as lanternas postas à beira dos abismos,
e os segredos e os ninhos e o feno
e as procissões sem padre, sem anjos e, contudo
com Deus molhando os olhos
e as esperanças dos pobres.

Vem, serenidade,
com a paz e a guerra
derrubar as selvagens
florestas do instinto.
Vem, e levanta
palácios na sombra.
Tem a paciência de quem deixa entre os lábios
um espaço absoluto.
Vem, e desponta,
oriunda dos mares,
orquídea fresca das noites vagabundas,
serena espécie de contentamento,
surpresa, plenitude.

Vem dos prédios sem almas e sem luzes,
dos números irreais de todas as semanas,
dos caixeiros sem cor e sem família,
das flores que rebentam nas mãos dos namorados
dos bancos que os jardins afogam no silêncio,
das jarras que os marujos trazem sempre da China,
dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam
a chegada da força e da vertigem.

Vem, serenidade,
e põe no peito sujo dos ladrões
a cruz dos crimes sem cadeia,
põe na boca dos pobres o pão que eles precisam,
põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.

Vem nos bicos dos pés para junto dos berços,
para junto das campas dos jovens que morreram,
para junto das artérias que servem
de campo para o trigo, de mar para os navios.

Vem, serenidade!
E do salgado bojo das tuas naus felizes
despeja a confiança,
a grande confiança.
Grande como os teus braços,
grande serenidade!

E põe teus pés na terra,
e deixa que outras vozes
se comovam contigo
no Outono, no Inverno,
no Verão, na Primavera.

Vem, serenidade,
para que se não fale
nem da paz nem da guerra nem de Deus,
porque foi tudo junto
e guardado e levado
para a casa dos homens.

Vem, serenidade,
vem com a madrugada,
vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua,
com as nuvens que proíbem o céu,
vem com o nevoeiro.

Vem com as meretrizes que chamam da janela,
o volume dos corpos saciados na cama,
as mil aparições do amor nas esquinas,
as dívidas que os pais nos pagam em segredo,
as costas que os marinheiros levantam
quando arrastam o mar pelas ruas.

Vem, serenidade,
e lembra-te de nós,
que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio,
um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos,
desta roupa de imagens que me cobre
o corpo silencioso,
das noites que passei perseguindo uma estrela,
do hálito, da fome, da doença, do crime,
com que dou vida e morte
a mim próprio e aos outros.

Vem, serenidade,
e acaba com o vício
de plantar roseiras no duro chão dos dias,
vicio de beber água
com o copo do vinho milagroso do sangue.

Vem, serenidade,
não apagues ainda
a lâmpada que forra
os cantos do meu quarto,
o papel com que embrulho meus rios de aventura
em que vai navegando o futuro.

Vem, serenidade!
E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe,
mais úmida que a pele marítima do cais,
mais branca que o soluço, o silêncio, a origem,
mais livre que uma ave em seu voo,
mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo,
mais humana e alegre que o sorriso das noivas,
do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.

Vem, serenidade,
para perto de mim e para nunca.

De manhã, quando as carroças de hortaliça
chiam por dentro da lisa e sonolenta
tarefa terminada,
quando um ramo de flores matinais
é uma ofensa ao nosso limitado horizonte,
quando os astros entregam ao carteiro surpreendido
mais um postal da esperança enigmática,
quando os tacões furados pelos relógios podres,
pelas tardes por trás das grades e dos muros,
pelas convencionais visitas aos enfermos,
formam, em densos ângulos de humano desespero,
uma nuvem que aumenta a vã periferia
que rodeia a cidade,
é então que eu te peço como quem pede amor:

Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis,
vem, serenidade!

Com as horas maiúsculas do cio,
com os músculos inchados da preguiça,
vem, serenidade!

Vem, com o perturbante mistério dos cabelos,
o riso que não é da boca nem dos dentes
mas que se espalha, inteiro,
num corpo alucinado de bandeira.

Vem, serenidade,
antes que os passos da noite vigilante
arranquem as primeiras unhas da madrugada,
antes que as ruas cheias de corações de gás
se percam no fantástico cenário da cidade,
antes que, nos pés dormentes dos pedintes,
a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos,
a revolta semeie florestas de gritos
e a raiva vá partir as amarras diárias.

Vem, serenidade,
leva-me num vagão de mercadorias,
num convés de algodão e borracha e madeira,
na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes,
na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe
deste bíblico espaço,
desta confusão abúlica dos mitos,
deste enorme pulmão de silêncio e vergonha.
Longe das sentinelas de mármore
que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão,
conversando com velhos tripulantes descalços,
crianças criminosas fugidas à policia,
moços contrabandistas, negociantes mouros,
emigrados políticos que vão
em busca da perdida liberdade,

Vem, serenidade,
e leva-me contigo.
Com ciganos comendo amoras e limões,
e música de harmónio, e ciúme, e vinganças,
e subindo nos ares o livre e musical
facho rubro que une os seios da terra ao Sol.

Vem, serenidade!
Os comboios nos esperam.
Há famílias inteiras com o jantar na mesa,
aguardando que batam, que empurrem, que irrompam
pela porta levíssima,
e que a porta se abra e por ela se entornem
os frutos e a justiça.

Serenidade, eu rezo:
Acorda minha Mãe quando ela dorme,
quando ela tem no rosto a solidão completa
de quem passou a noite perguntando por mim,
de quem perdeu de vista o meu destino.

Ajuda-me a cumprir a missão de poeta,
a confundir, numa só e lúcida claridade,
a palavra esquecida no coração do homem.

Vem, serenidade,
e absolve os vencidos,
regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos
e dá-lhes nomes novos,
novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas,
as mentiras da fé, os amigos medrosos,
os assombros da índia imaginada,
o espanto aprendiz da nossa fala,
ainda nossa, ainda bela, ainda livre
destes montes altíssimos que tapam
as veias ao Oceano.

Vem, serenidade,
e faz que não fiquemos doentes, só de ver
que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos,
e não cedas demais ao vislumbre de vermos
a nossa idade exacta
outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso
da melancolia,
e põe ordem no caos e carne nos espetros,
e ensina aos suicidas a volúpia do baile,
e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem,
e não apagues nunca o fogo que os consome.
o impulso que os coloca, nus e iluminados,
no topo das montanhas, no extremo dos mastros
na chaminé do sangue.

Serenidade, assiste
à multiplicação original do Mundo:
Um manto terníssimo de espuma,
um ninho de corais, de limos, de cabelos,
um universo de algas despidas e retráteis,
um polvo de ternura deliciosa e fresca.

Vem, e compartilha
das mais simples paixões,
do jogo que jogamos sem parceiro,
dos humilhantes nós que a garganta irradia,
da suspeita violenta, do inesperado abrigo.

Vem, com teu frio de esquecimento,
com tua alucinante e alucinada mão,
e põe, no religioso ofício do poema,
a alegria, a fé, os milagres, a luz!

Vem, e defende-me
da traição dos encontros,
do engano na presença de Aquele
cuja palavra é silêncio,
cujo corpo é de ar,
cujo amor é demais
absoluto e eterno
para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal,
para sempre obscena,
para sempre inocente,

Serenidade, és minha.

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Quadras populares

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho dentro do meu peito
duas escadas de flores
por uma descem saudades
por outra sobem amores

Quando eu morrer, meu amor
(há quem à noite resista?)
mesmo debaixo da terra
quero estar à tua vista.

Se o meu amor fora António
mandava-o engarrafar
em garrafinhas de vidro
para o sol o não queimar

Com um fio de retrós verde
quero, amor, que me cosais
o meu coração ao vosso,
que se não desate mais.

Meu amor, meu amorzinho,
quem te atirara mil tiros
com uma pistola de prata
carregada de suspiros!

Os olhos da minha amada
são biquinhos de alfinetes;
fechados são dois botões,
abertos dois ramalhetes.

O meu coração é sala
onde passeia a açucena;
amei-te com tanto gosto,
deixei-te com tanta pena.

No meio daquele mar
está uma cadeira de vidro
onde o meu amor se assenta
quando vem falar comigo.

Eu tenho dentro do peito
um canivete dourado
para cortar o pão da lua
no dia do meu noivado.

O meu coração é sala
onde passeia a açucena;
amei-te com tanto gosto,
deixei-te com tanta pena.

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Poesia indiana – “25 a 50”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Poesia erótica escrita há 1.000 anos atribuída a Bilhana, poeta que terá vivido no sec XI, em Caxemira.
Estes poemas têm atrás de si uma lenda. Diz-se que Bilhana os declamou enquanto subia para o cadafalso onde ia pagar com a vida a ousadia de se ter apaixonado pela filha do Rei

25·
Mesmo agora recordo o seu corpo 

Ardendo de desejo a sua pele 

Colada à minha como roupa molhada 

Como poderia esquecê-la digna
Agora de compaixão privada do seu amante
26
Mesmo agora sonho com ela 

A mais bela entre as mais belas

Filha de rei criada para ser o receptáculo do amor 

Incapaz de suportar a separação
27
Mesmo agora sabendo que a cada 

Instante a morte se aproxima 

O meu espírito abandona o culto dos deuses

E persegue a minha amada
28
Mesmo agora assalta-me a recordação 

Desses olhos de corça assustada

Dessa voz trémula das lágrimas que lhe invadiam 

A face da cabeça vergada sob o peso da amargura 

Quando escutou a minha sentença
29
Mesmo agora por mais que me esforce

Não me recordo de alguma vez ter contemplado 

Um rosto como o seu
A sua beleza 

Eclipsa a da deusa do amor e a da lua
30
Mesmo agora recordo o seu púbis 

Os lábios dessa vulva que me protegiam 

Da insolação do desejo Veneno 

Na separação momentânea no reencontro 

Uma taça cheia de néctar
31
Mesmo agora atormenta-me o espírito 

Recordar como os soldados do rei 

Semelhantes aos mensageiros da morte 

Com braços terríveis me arrancaram do seu leito 

E o que ela não fez para me defender
32
Mesmo agora o meu coração sofre noite 

E dia por nunca mais poder voltar 

A ver nem que seja por um instante

Esse rosto belo como a lua cheia 

Cuja frescura faz empalidecer os jasmins
33
Mesmo agora o meu espírito vagueia 

À procura da minha amada 

Nunca ninguém colheu melhor 

Os frutos dos seus verdes anos 

Que 
Ela me possua em cada nova reincarnação
34·
Mesmo agora ressoa com força no meu 

Espírito o tilintar das suas pulseiras 

Nuvens de abelhas cobriam-lhe o rosto 

Atraídas pelo lótus em flor da sua boca 

Recordo o modo como com os dedos 

Tentava afastá-las dos cabelos
35·
Mesmo agora recordo a embriaguez 

Causada pelo mel que a minha língua 

Sorvia da sua boca e as marcas das

Minhas unhas nos seus seios eriçados de prazer 

Que ela guardava como um tesouro
36·
Mesmo agora recordo o seu ar agastado 

Perante a eminência da minha partida

A impaciência com que em silêncio

Me oferecia os lábios
Abraçava-a

E caía a seus pés como um escravo
37
Mesmo agora o meu espírito regressa 

Ao seu leito Rio e danço entre as suas 

Companheiras estreitando os seus corpos

Graciosos perdendo-me por fim 

Entre as coxas da minha amada
38.
Mesmo agora ignoro se ela é parecida com Xiva

Ou alguma criatura criada pela maldição de lndra 

Ou a esposa de Krisna ou se Brahma

Lhe deu vida para enfeitiçar o mundo 

Ou para ver entre as jovens um clarão
39·
Mesmo agora ignoro se alguém neste mundo 

Poderia descrever esse corpo 

Que só a mim se desvendou
Quem 
Quisesse descrever essas formas voluptuosas 

Só se conhecesse alguém que a igualasse
40·
Mesmo agora vejo os seus olhos 

Escurecidos pelo antimónio 

Os lábios ardentes os brincos 

Agitando-se nas orelhas o corpo 

Curvado devido ao peso dos seios 

Sem que eu a possa possuir
41
Mesmo agora se pudesse 

Beijaria sem cessar esse rosto transparente

Como a lua de Ourono capaz de roubar 

O coração dum eremita
Como não 
De ter roubado o meu
42.
Mesmo agora sacrificaria tudo 

Se me fosses permitido regressar 

A esse santuário de prazer 

Perfumado com essência de flores de lótus 

Húmido ainda de esperma perante 

O qual se prostrou o deus do amor
43·
Mesmo agora neste mundo

Onde os sinais de beleza se defrontam 

Encarniçadamente o meu coração 

Acredita que ninguém conseguirá 

Eclipsar a beleza da minha amada
44·
Mesmo agora sobre as ondas frementes

Do rio do meu espírito a minha amada desliza 

Como um cisne real imputando 

Às carícias fugidias dos grãos de pólen 

A sua ligeira fadiga
45·
Mesmo agora sonho com essa princesa 

Filha do mais nobre dos reis 

Com os seus olhos ardentes de desejo 

Criança que um dia desceu dos céus 

Filha dos músicos celestes dos génios dos cantores 

Divinos dos deuses e da serpente-virgem
46.
Mesmo agora não consigo esquecê-la 

Ao acordar curvando-se perante o altar

Os seios como cântaros cheios de néctar

O corpo com adornos coloridos
47·
Mesmo agora recordo a beleza doirada 

Do seu corpo sugerindo fadiga 

Para não parecer impudica 

Perturbada pelos meus beijos apaixonados 

E pelo contacto das nossas coxas 

Ela deixava – como uma planta por onde 

Sobe a seiva – que o desejo a possuísse
48.
Mesmo agora recordo como era implacável 

Na batalha sem armas do amor 

Como nós apesar de enlaçados 

Nos conseguíamos levantar e deitar 

Sem o apoio das mãos
Recordo 
O sangue das mordeduras nos seus lábios 

E dos arranhões nas suas coxas
49·
Mesmo agora não consigo imaginar 

Como poderia suportar a dor da separação 

Só a morte – que ela chegue depressa _ 

Poderá dissipar essa dor
50·
Mesmo agora Xiva não rejeita o negro veneno 

A tartaruga transporta no dorso a terra 

O mar alberga terríveis fogos 

A mim só me resta cumprir o prometido

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Pedro Homem de Mello – “Povo”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Bebendo em malga que esconda
O beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão…
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso,
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

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Paulo Afonso – “Carta de amor”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Querida,
Acordei agora e encontrei-te ao meu lado, senti um mesclado de alívio e saudade. Alívio por ver-te serena e bem juntinha a mim, saudade por terem passado algumas horas sem trocar qualquer palavra contigo, sem ver o teu sorriso, sem sentir a tua expressão afectiva e amiga. A noite foi longa, houve momentos que troquei o meu sono pela oportunidade de olhar para ti, bela adormecida, momentos de magia em que pensei agradecer a ARTÊMIS por tu existires, agradecer a AFRODITE por seres tão bela e cheia de amor, a APOLO pela luz que se fez na minha vida ao cruzar os nossos destinos e a HÉSTIA pela harmonia que existe no nosso lar. O meu agradecimento foi direccionado a ZEUS.
Quando acordares, não saberás destes meus rituais, nem tão pouco irei contar-te, não será de todo necessário, porque o importante é existir entre nós a química do sentimento e a telepatia da comunicação, como sinais de fumo ou as trocas de olhares, como as expressões faciais que tão bem conhecemos.
Querida, é tudo isto, e muito mais, que ambiciono dizer-te diariamente e que, por inúmeras razões, nunca te chego a dizer. Hoje decidi escrever-te esta carta para que não passe mais um dia. Tento, por gestos ou atitudes diárias, expressar-te tudo isto, espero que com sucesso.
Se quiseres resumir tudo isto, numa palavra, poderei dizer sempre AMO-TE.

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Padre António Vieira – “O estatuário”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

(…)“…Arranca o estatuário uma pedra dessas montanhas, tosca, bruta, dura, informe e, depois que devastou o mais grosso, toma o maço e o cinzel na mão e começa a formar um homem; primeiro membro a membro, e depois feição por feição, até à mais miúda: ondeia-lhe os cabelos, alisa-lhe a testa, rasga-lhe os olhos, afila-lhe o nariz, abre-lhe a boca, avulta-lhe as faces, torneia-lhe o pescoç o. estende-lhe os braços, espalma-lhe as mãos, divide-lhe os dedos, lança-lhe os vestidos; aqui desprega, ali arruga, acolá recama e fica um homem perfeito, talvez um santo, que se pode pôr no altar…”

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Olga Gonçalves – “Qual…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

qual de nós dois se esquece qual isola
os arquivos do sonho contra a dor
qual se descobre e encobre noutro tempo
já sono e morte já despojamento

qual sente mais o frio qual de nós
resgata o vento com força maior
qual se reparte e parte na corrente
já combinado ao sangue do silêncio

qual sente o rosto intenso do desgosto
de nada e de ninguém vestindo as coisas
pulso nocturno a projectar o gesto

qual redesenha o fim qual de nós dois
prende o amor nos fachos da memória
qual de nós dois se esquece e se enternece

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Olavo Bilac – “Um beijo”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior…Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto….

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Millor Fernandes – “A paixão da matemática”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base…
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
“Quem és tu?” indagou ele
Com ânsia radical.
“Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode me chamar de Hipotenusa.”
E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos entre si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Retas, curvas, círculos e linhas senoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclideanas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
e pitagóricas.
E, enfim, resolveram-se casar
Constituir um lar.
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissetriz.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E se casaram e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até aquele dia
Em que tudo, afinal,
Vira monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum…
Freqüentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
Tanto chamado amoroso.
Desse problema ela era a fração
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu
Relatividade.
E tudo que era expúrio passou a ser
Moralidade

Como aliás, em qualquer
Sociedade.

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Miguel Torga – “Adeus”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

É um adeus …
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus …
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada.

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Mário-Henrique Leiria – “Triângulo”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Eu sei que as túlipas
são os olhos de todos os aviões perdidos

Eu sei que as cidades
são os esqueletos das aves de rapina

Eu sei que os candeeiros ardendo de noite
são os pulmões dos peixes-voadores

Eu sei que o mistério
é uma dentadura abandonada

Eu sei que a loucura
é um braço solitário sorrindo eternamente

Eu sei que os meus olhos
são as tuas pernas frementes

Eu sei que os teus cabelos
são o meu acendedor de pirilampos

Eu sei que a tua boca
é o meu uivo solar

Eu sei que o teu peito e o teu sexo
são a minha água profundamente azul
onde se encontram todos os fantasmas
já perdidos há séculos.

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Mário Dionísio – “Elegia ao Companheiro Morto”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meu companheiro morreu às cinco da manhã
Foi de noite ao fim da noite às cinco em ponto da manhã

Ah antes fosse noite noite apenas noite
sem a promessa da manhã

Ah antes fosse noite noite noite apenas noite
e não houvesse em tudo a promessa da manhã

Deitado para sempre às cinco da manhã

Agora que sabia olhar os homens com força
e ver nas sombras que até aí não via a promessa risonha da manhã

Mas quem se vai interessar amigos quem
por quem só tem o sonho da manhã?

E uma vez de noite ao fim da noite mesmo ao cabo da noite
meu companheiro ficou deitado para sempre
e com a boca cerrada para sempre
e com os olhos fechados para sempre
e com as mãos cruzadas para sempre
imóvel e calado para sempre

E era quase manhã
E era quase amanhã

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Maria Judite de Carvalho – “As portas que batem…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As portas que batem 
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.

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Márcia Maia – “Sou mera ilusão de ótica”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou mera ilusão de ótica
imagem virtual
formada atrás do espelho
em que te olhas.
Tu não me vês nunca.
Às vezes me adivinhas
pressentes
no teu quarto
no teu corpo
etérea.
E eu rio da
tua cara de bobo
olhando as tuas mãos vazias
que eu afago
e a tua boca
que eu beijo
todo dia
sem que me vejas.

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Manuela Nogueira – “O amante esbelto”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Queria que o meu amante esbelto
me trouxesse o amor fecundo
antes do caos que criou o mundo
plantando as centelhas do início;
queria o âmago do amor
mesmo fictício.

No abraço do amante esbelto
a promessa da fidelidade sagrada
o começo da explosão e implosão
o nada reduzido à planície primeira
onde a ungida flor abrisse ao Sol.

Esqueçamos o amante esbelto
e a inútil promessa herdada
somos apenas a humana raça
pendurada num imenso estendaI
erguida em fria madrugada.

Fixemos apenas o espasmo visceral
que celebra o que chamam amor
depois do acto, chegue a velha ama
para não mais deixar de nos embalar
o mar acolherá nossas lágrimas de sal.

E na imensidão do mar profundo
a luz penetrada é quilha de prata
antes do caos que criou o mundo
era eu a eleita por ele amada …
do amante esbelto esqueci o nome.

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Manuel da Fonseca – “Estradas”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não era noite nem dia.
Eram campos, campos, campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era a hora do poente,
quase noite e quase dia.
E nos campos, campos, campos
abertos num sonho quieto,
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, para lá do morro,
na curva desaparecia.
Já da noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
Entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.
– Ó Nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te havera de acudir?
Sob o corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.
– Vai-te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.
Mas já a noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
– como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!. ..
Ai que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Ai como a boca de Nena
se entreabre fria, fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu …
Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca …
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos, campos, campos
abertos de espanto e sonho …

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Manuel António Pina – “Sou o pássaro que canta…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serva para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

E ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.

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Luiza Neto Jorge – “Difícil poema de amor”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou.

Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas.
Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste
maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois “quero-Te” gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então virás vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes. Conheces-me. Não me tens amor
Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me afundar.
Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou
que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!
Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu. Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci – assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separámos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.
Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço
nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é
porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras. Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite ela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu
nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.
Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!

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Luís Graça – “Meu falo…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meu falo, touro
em ponta, desembolado
alfange, mouro, em ronda
sempre excitado

Eu calo, rouco
e tu zonza, nua num estrado
que range, pouco
numa onda, sodomizado

Meu halo, louco
é santo divinizado
abrange in loco e conta
que é castrado

Empalo, touro
meu falo, desembolado
alfange, mouro, em ronda
foi sepultado

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Luís Graça – “Afectos”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fiquei a saber num destes fins-de-tarde
que se podia estar subnutrido de ternura
e afoguei-me no desânimo que me acenava do horizonte
 
Caiu-me uma pérola húmida do olhar
pensei apenas em guardar em mim
a saudade das carícias tecidas em silêncio
 
Não foi possível, acendeste-me o desejo dos teus dedos
apetecia-me beijar-te como quem afaga um charuto com os lábios
vendo subir aos céus o fumo do teu cio
 
Fiquei a saber numa destas noites de lua cheia
que se podia estar subnutrido de ternura
caiu-me uma pérola húmida do olhar
 
Apesar dos lobisomens
não se poderem dar ao luxo de cultivar mágoas
nas plantações do estio que passa
 
Apenas lhes é concedido o grato subterfúgio
de uivar nas trevas como quem urde um poema
às escondidas de Deus
 
Fiquei a saber numa destas manhãs de trovoada
que o teu corpo era feito de raios e coriscos
e que os teus pais não te deixavam fazer amor sozinha
 
Por terem medo
dos teus gritos de prazer
na hora de te sentires mulher
 
Mesmo assim fazias amor sozinha
dispensando-me o teu corpo
em marés de luz
 
Fiquei a saber numa destas madrugadas de fogo
que a ternura está guardada num baú
disfarçado de cofre à prova de sentimentos
 
Nessa mesma hora
senti o meu ser
a dissolver-se devagar

Ao longe, muito ao longe
lembro-me de ter sentido um arrepio na alma
como se tivesses pintado o teu sorriso no meu peito
(Paxion)

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Luís Castro Mendes – “Soneto da infidelidade”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Toda a poesia é feita de traição
e ao que somos fiéis já não sabemos:
da terra de que vimos só retemos
memórias que nos duram sem razão.

Escondemos na poesia o que não sabe
seu nome nem seu canto na memória:
escondemos na poesia não vitória,
mas restos de viver, o que não cabe

na fria tábua rasa da experiência
destilando sem fim na consciência
o mais fino licor da emoção.

É infiel ao verso a poesia:
nela se apura a noite contra o dia
e a nós mesmos nos trai no coração.

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Judite de Carvalho – “As portas que batem…”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As portas que batem
nas casas que esperam.
Os olhos que passam
sem verem quem está.
O talvez um dia
Aos que desesperam.
O seguir em frente.
O não se me dá.

O fechar os olhos
a quem nos olhou.
O não querer ouvir
quem nos quer dizer.
O não reparar
que nada ficou.
Seguir sempre em frente
E nem perceber.

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José Régio – “Soneto de amor”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma… Abre me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas…
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua…, – unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar se.

Depois… – abre os teus olhos, minha amada!
Enterra os bem nos meus, não digas nada…
Deixa a Vida exprimir se sem disfarce!

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José Régio – “Adeus”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vai-te, que os meus abraços te magoaram,
E o meu amor não beija!, arde e devora.
Foram-se as flores do meu jardim.
Ficaram Raízes enterradas, braços fora …

Vai-te! O luar é para os outros; e os afagos
São para os outros … , os que ensaiam serenatas.
Já a lua que nos lagos bóia pérolas e pratas
Não nasce para mim, que estou sem lagos.

Quando me nasce, é como um reluzir da treva,
Um riso da escuridão,
Que na minh’alma ecoa, e que ma leva
Por lonjuras de frio e solidão …

Vai-te, como vão todos; e contentes, de libertos
Do peso de eu lhes não querer trautear mentiras.
Como serias tu, flébil flor de olhos de safiras,
Que me acompanharias nos desertos?

Vai-te! não me supliques que te minta!
Beijo-te os pés pelo que me oferecias.
Mas teu amor, e tu, e eu, e quanto eu sinta,
Que somos nós mais do que fantasias?

Sim, amor meu: em mim, teu amor era doce.
Premir na minha mão a concha nácar do teu seio
Era-me um bem suave enleio …
Era … – se o fosse.

Vai-te!, que eu fui chamado a conquistar
Os mundos que há nos fundos do meu nada.
Talvez depois reaprenda a inocência de amar …
Talvez … mas ai!, depois de que alvorada?

Porque até Lá, é longe, e é tão incerto,
Tão frio, tão sublime, tão abstracto, tão medonho …
Como dar-te a sonhar este sonho dum sonho?

– Vai-te! a tua casa é perto.

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José Régio – “Cântico Negro”

12.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

cantico_negro

“Vem por aqui” dizem me alguns com olhos doces,
Estendendo me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui!”
Eu olho os com olhos lassos,
(Há nos meus olhos ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…
A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
Que eu vivo com o mesmo sem vontade
Com que rasguei o ventre a minha Mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos…
Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
Porque me repetis: “Vem por aqui”?
Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.
Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?
Corre nas vossas veias sangue velho dos avós.
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…
Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto a como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.
Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
Sei que não vou por aí!

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