Nota biográfica

Nasceu em Lisboa em Janeiro de 1974 e reside na Amadora. Escreve com assiduidade no seu blogue.

Vera Silva – “Amante sensual”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Abre a boca
E devora-me a língua
Em gestos soltos e precisos
Como se não te chegasse o tempo
Para me amares com loucura.
Enrosca-te nas minhas coxas
E prova o meu néctar de mulher.
Deixa-me gritar
E leva-me ao céu,
Entra em mim
Profundo,
Em movimentos perfeitos
De amante sensual,
E no fim
Sacia-me a sede
Do teu vigor.

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Teixeira Pascoaes – “Elegia do amor”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti …
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos …
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória …
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.
Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos …
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim …
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste … Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor,
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,
Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos …
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia …
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve – sim! -,
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.
Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
Amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
– Que incêndio!
– E eu, a rir, Disse-te:
– É a lua cheia! …
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei, sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo;
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu …
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

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Teixeira Pascoaes – “Deslumbramento”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A vida é sonho, amor, exaltação.
Flama a irromper de eterna escuridão.
É lume a flor e a sombra amanhecente.
A terra é carne, a luz é sangue ardente.
Gira líquida chama em cada veia
E que alegria as nuvens incendeia!
Contemplai, sob os raios matinais,
O delírio e a vertigem dos cristais,
Entre cintilações, gritando e rindo,
Abrasados de luz, tremeluzindo!
No alvor da aurora, as aves resplandecem,
No coração do orvalho, sóis florescem,
No coração dos homens solitários,
Há Cristos a subir ermos cal vários.
Cantam as fontes, doidas de ternura;
Seu canto veste os montes de verdura!
E esse infinito Vácuo tenebroso,
Quando o sensibiliza o sol radioso,
Sente grande prazer, grande alegria
E assim nos comunica a luz do dia!
E que loucura as ondas alevanta,
Quando o luar misterioso canta!
Ó mar, à luz do luar! Ó mar profundo,
Em choros que se espalham sobre o mundo!
Ó anjo imenso que, na mão, sustentas
O cálix da amargura e das tormentas!
Tudo é sonho e desejo; céu e inferno.
Abrasa tudo o mesmo fogo eterno.
Vive uma estrela oculta no rochedo,
Crepita a seiva ardente do arvoredo.
Têm pétalas de chama a rosa, o lírio.
A substância das cousas é o delírio.
A vida não é mais que sentimento;
Grande incêndio ateado pelo vento
Do mistério sem fim que esconde Deus
E enluta de negrume o azul dos céus!
A vida é uma rajada esplendorosa,
Perpassando e animando cada cousax
É doido torvelinho, que se eleva
E rasga, de alto a baixo, a fria treva,
Desvendando figuras repentinas,
Formas do amor, aparições divinas!
Poetas, cantai, banhados no clarão,
Que alvorece da infinda comoção,
Que de estrelas orvalha a Imensidade
E em meus olhos é lágrima e saudade …
Poetas, cantai a vida, o bem e o mal!
Consumi-vos no incêndio universal,
Que enche de labaredas o Infinito!
E é Deus, talvez, num desespero!
Um grito De Deus! Grito de dor incandescente,
Na eterna escuridão, eternamente!

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Sophia de Mello B. e Andresen – “Pátria”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Por um país de pedra e vento duro
Por um país de luz perfeita e clara
Pelo negro da terra e pelo branco do muro

Pelos rostos de silêncio e de paciência
Que a miséria longamente desenhou
Rente aos ossos com toda a exactidão
Dum longo relatório irrecusável

E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas
Palavras sempre ditas com paixão
Pela cor e pelo peso das palavras
Pelo concreto silêncio limpo das palavras
Donde se erguem as coisas nomeadas
Pela nudez das palavras deslumbradas

– Pedra rio vento casa
Pranto dia canto alento
Espaço raiz e água
Ó minha pátria e meu centro

Me dói a lua me soluça o mar
E o exílio se inscreve em pleno tempo.

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Sidónio Muralha – “Menina fútil”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental…
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal…

– Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental…

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela …
– Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela …

… e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela …
Promessas … porque o resto era pecado
e pecar não é com ela …
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela … )

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental…
Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

– e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental…

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Século de Ouro Espanhol – “Jardim”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quem não sabe de amor e seus efeitos·
não se intrometa e cale o que vier,
pois aqui só falamos com discretos.

Qualquer que o seja, ou sê-lo quiser,
terá licença de olhar minhas flores
e delas escolher as que quiser.

Mas os escrupulosos grunhidores
não quero nem consinto que as vejam,
pois não são para néscios os amores.

As damas e donzelas que desejam,
bem que não sendo belas, ser amadas,
sempre este livro leiam e revejam.

E as que de formosura são dotadas,
porque não basta só a formosura,
aqui verão mil graças derramadas.

Aqui não há enigmas nem figura,
rodeios, circunlóquios, indirectas,
mas claridade inteligente e pura.

Espero contentar mesmo as discretas;
e se alguma fugir de minhas flores,
é uma das mofinas indiscretas.

Se não, mostre-nos ela outras melhores,
ou, ao menos, confesse se na cama
contente ficaria com piores.

Termino com dizer que eu é que chamo
Jardim de Vénus a este meu livrinho,
no qual não acharão nem um só ramo
que não tenha de gozo algum pouquinho.

Sec. XVI e XVII

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Sebastião da Gama – “Apareces tão pouco”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A pareces tão pouco nos meus sonhos
que quando os sonho chego a ter saudades tuas.

E entretanto tu és ainda a mesma continuas
a pôr cravos e rosas ao pé do meu retrato,
a idealizar uma casa ao rés das ondas
(mal pensas nela, riem nos teus ouvidos nossos filhos)
e a fazer da Vida precisamente a ideia
que fizeste de mim desde a primeira hora.

Era assim, boa e simples, que antigamente chegavas aos meus [sonhos.
E como eu, pela minha, calculava a tua pressa,
fazia-te chegar rosada e ofegante, exausta de correr da tua porta à porta da minha fantasia.

O tempo era o das flores …
E tu colheras uma no caminho e vinhas dá-la
ao maior e melhor de todos os poetas.
Eu fingia fingir acreditar no que de mim julgavas,
e era já acordado que beijava as tuas mãos,
pois desceras comigo do sonho e à minha volta
o estremecer alegre e o perfume suavíssimo do ar
e um silêncio igualzinho ao que se faz quando te calas
eram tua presença verdadeira …
Por que não vens agora?
Todo o tempo é o tempo das flores, para os poetas …
E tu pensas de mim o que pensaste sempre
e bordas nos lençóis as nossas iniciais.
Por que não vens?
Chegarias ainda rosada e ofegante.
Não virias molhar de lágrimas meus sonhos,
porque não sabes nada … Nem sequer
que até esqueci a cor e o corte do vestido
que tu estreaste (há quantas Primaveras?)
no último sonho em que sonhei contigo …

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Sebastião da Gama – “Companheira”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não te busquei, não te pedi: vieste.
E desde que eu nasci houve mil coisas
que a meus olhos se deram com igual
simplicidade: o Sol, a manhã de hoje,
essa flor que é tão grácil que a não quero, o milagre
das fontes pelo Estio …
Vieste (O Sol veio também, a flor,
a manhã de hoje, as águas … ). Alegria,
mas calada alegria, mas serena,
entendimento puro, natural
encontro, natural como a chegada
do Sol, da flor, das águas, da manhã,
de ti, que eu não buscara nem pedira.
E o Amor? E o Amor? E o Amor?
-Vieste.

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Sebastião da Gama – “Elegia para a minha campa”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Agora, só,
que é o meu corpo terra confundida
na terra desta Serra minha Mãe;
agora, só,
a minha voz que sempre cantou mal
ao Céu se eleva…
Agora, só,
que no ventre da Serra minha Mãe repousa
meu corpo de Poeta,
de Poeta mudo em vida, por ausente
do ventre maternal os nove meses;
agora, só, claríssima se eleva
a minha voz-louvor,
a minha voz-carícia a minha Mãe,
ao Céu…
Agora, só,
que os meus lábios são terra de onde nascem
as moitas de folhado e de alecrim,
a minha voz saudosa de cantar
se elevará
até aonde o Céu tem cor e fim.
Se elevará a minha voz, perfume
desprendido, suavíssimo, dos matos
que surgiram de mim…

Agora, só,
que sou terra na terra misturada,
que a minha voz é voz de rosmaninho, eu poderei tratar por tu
a meu Irmão Frei Agostinho… Agora, só, a meu Irmão,
que comigo nasceu naquele Dia
em que ao Céu se entregou,
ébria de Sol e Maresia,
nossa Mãe Serra…

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Sebastião da Gama – “Elegia para uma gaivota”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Morreu no mar a gaivota mais esbelta,
a que morava mais alto e trespassava
de claridade as nuvens mais escuras com os olhos.

Flutuam quietas, sobre as águas, suas asas.
Água salgada, benta de tantas mortes angustiosas,
aspergiu-a.
E três pás de ar pesado para sempre as viagens lhe vedaram.

Eis que deixou de ser sonho apenas sonhado. É
finalmente sonho puro,
sonho que sonha finalmente, asa que dorme voos.

Cantos de pescadores, embalai-a! Versos dos poetas, embalai-a!
Brisas, peixes, marés, rumor das velas, embalai-a!

Há na manhã um gosto vago e doce de elegia,
tão misteriosamente, tão insistentemente,
sua presença morta em tudo se anuncia.

Ela vai, sereninha e muito branca.
E a sua morte simples e suavíssima
é a ordem-do-dia na praia e no mar alto.

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Salvador Pliego – “Beijar-te inteira”

14.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Contarei trezentas e vinte vezes trezentos
para beijar-te toda.
Deslizarei do alto até os pés,
dos penhascos às grutas,
de asa em asa, de pluma em pluma,
à tua sombra e em teus odores,
e para além do que me disse a aurora
da qual nunca me acercara.

Começarei do Este para o Oeste,
fixando um ponto à frente.
Contarei, ponto a ponto,
lento e languidamente,
pois há beijos que valem ouro
e serão pousados quietos sobre teu dorso.
Há beijos que são de encanto
e estes os ponho juntinhos,
para que se amontoem
soprando leves sobre teu doce ventre.
Há beijos que se hipnotizam,
rodam tontos e depois caem como flechas,
perdem-se no teu seio e vibram.

Há beijos e muitos beijos.
Hei-de contá-los sem pressa.
E conto-os, conto-os infindáveis,
só para eriçar tua pele e que te agites.

E quando chego a duzentos e trinta,
sem que percebas,
finjo-me de louco para começar de novo
a partir do zero:
trezentos e vinte trezentas vezes.
De Oeste a Este para deter-me
e inundar de beijos esses vazios
que me escaparam de Este a Oeste.

Trezentas vezes para que sonhes.
Trezentas vezes para que vibres.
Trezentas vezes, pra que me beijes também.
De Este a Oeste, envolvendo-te inteira,
para alentar-te, e arrebatar-te,
a fim de que sintas a primavera
que brotará do teu ventre.
(Tradução: Maria José Limeira)

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Sá de Miranda – “Quando eu, senhora…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho,
e vejo o que não vi nunca, nem cri
que houvesse cá, recolhe,se a alma a si
e vou tresvaliando, como em sonho.

Isto passado, quando me desponho,
e me quero afirmar se foi assi,
pasmado e duvidoso do que vi,
m’ espanto as vezes, outras m’ avergonho.

Que, tornando ante vós, senhora, tal,
quando m’era mister tant’outr’ajuda,
de que me valerei, se alma não vaI?

Esperando por ela que me acuda,
e não me acode, e está cuidando em aI,
afronta o coração, a língua é muda.

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Algernon Charles Swinburne – “Deitado…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deitado a dormir entre os afagos da noite
Vi o meu amor debruçar-se sobre o meu leito triste,
Pálida como a mais escura folha do lírio ou corola
De pele macia e escura, o pescoço nu para ser mordido,

Transparente de mais para corar, tão quente para ser branca,
Apenas de uma cor perfeita sem branco nem vermelho.
E os lábios abriram-se-lhe amorosamente e disseram
Nem sei bem o quê, excepto uma palavra Deleite.

E a face dela era toda mel na minha boca,
E o corpo dela todo pasto a meus olhos;
Os braços longos e lentos, as mãos quentes de fogo,

As ancas frementes, o cabelo a cheirar a Sul,
os pés leves luzentes, as coxas esplêndidas e dóceis
E as pálpebras fulgentes com o desejo da minha alma.

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Zuleika Lintz – “Só”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Jamais alguém o amou. Jamais sua alma pura
Despertou vibrações na alma alheia extasiada …
Parecia que, ao vir ao mundo, alguma fada
Condenara sua alma à perpétua clausura.

Sem palavras de amor, sem risos de ternura
Dia a dia viveu. Sua ingrata jornada
Não teve a suavizá-la o encanto da pousada,
Nem tampouco a emoção da imprevista aventura

Foi em vão, sempre em vão, que sua alma de opala
Aos seres ofertou. Nenhum quis aceitá-la …
E, cansado afinal de uma inútil quimera,

Para a morte voltou-se em derradeiro instinto;
E a morte acalentou seu coração faminto,
Seu coração que a vida não quisera.

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Unno Ahl – “Nuvens”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

rapariga

Lá em cima
as nuvens da minha infância sobrevivem.

Ganhei e perdi.
Amei.
E aos trinta anos
sinto que sou o senhor do mundo.
Dia a dia contemplo as nuvens
e digo para mim:
só o desejo é eterno.

Sou feliz a meu modo.
Junto do muro branco
uma rapariga beija-me
os seus olhos parecem perguntar me
se o nosso amor vai durar
toda a vida.

Eu sorrio
mas não lhe digo
que só o desejo é eterno.
Todas as manhãs me olho no espelho:
para trás ficou a primavera da minha vida
mas ainda sou o dono do mundo.
E continuarei a sê lo
enquanto no céu
não se esfumarem as nuvens da minha infância
e não se apagarem
os velhos desejos.

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Nicolás Guillén – “Palavras fundamentais”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.

(Tradução de Albano Martins)

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Miguel Hernández – “Teu ventre”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Menos teu ventre,
tudo é confuso.
menos teu ventre,
tudo é futuro
fugaz, passado
baldio, turvo.
menos teu ventre,
tudo é oculto.
menos teu ventre,
tudo inseguro,
tudo já último
um pó sem mundo.
Menos teu ventre
tudo é escuro.
menos teu ventre
claro e profundo.

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Manuel Bandeira – “Poemeto erótico”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho (Recife, 19 de abril de 1886 — Rio de Janeiro, 13 de outubro de 1968) foi um poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.

Teu corpo é tudo o que brilha
Teu corpo é tudo o que cheira
Rosa, flor de laranjeira
Teu corpo, claro e perfeito
Teu corpo de maravilha
Quero possui-lo no leito estreito da redondilha
Teu corpo, branco e macio
É como um véu de noivado.
Teu corpo é pomo doirado,
Rosal queimado de estio
Desfalecido em perfume
Teu corpo é a brasa do lume
Teu corpo é a chama
E flameja como à tarde os horizontes
É puro como nas fontes a água clara que serpeja,
Que em cantigas se derrama, volúpia da água e da chama
Teu corpo é tudo o que brilha,
Teu corpo é tudo o que cheira.
A todo momento o vejo
Teu corpo, a única ilha no oceano do meu desejo.

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Luís Graça – “Semen de poeta…”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há quem derrame prosa como sémen
ignorando a tesão da Literatura
pois a criação é casta como a neve

A esses beijo apenas a inocência
de não saber mais do que o banal
e nunca ejacular mais do que sílabas

São milhões como um exército de larvas
e bebem cálices de orgulho e preconceito
no luar tenebroso das certezas

Sabei, senhores, e digo-vos de borla
escrever assim não é raiz do amanhã
é somente parir monstros sem cabeça

Vós padeceis de mal muito antigo
ignorais sem maldade e por desleixo
que Literatura é mais do que punheta

O sémen verdadeiro dos poetas
bebe-se às taças como manjar de semi deuses
e frutifica em arco íris de ternura.

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João de Deus – “Dia de anos”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

anos

Com que então caiu na asneira
De fazer na quinta feira
trinta e nove anos, que tolo!
Ainda se os desfizesse,
Mas fazê-los não parece
De quem tem muito miolo!

Não sei quem foi que me disse
Que fez a mesma tolice
Aqui o ano passado…
Agora o que vem, aposto,
Como lhe tomou o gosto,
Que faz o mesmo. Coitado!

Não faça tal; porque os anos
Que nos trazem? Desenganos
Que fazem a gente velho:
Faça outra coisa; que, em suma,
Não fazer coisa nenhuma,
Também não lhe aconselho.

Mas anos, não caia nessa!
Olhe que a gente começa
Às vezes por brincadeira,
Mas depois se se habitua,
Já não tem vontade sua,
E fá-los queira ou não queira!

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Iosif Brodskii – “Anjo”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Há um anjo branco como algodão
que tem estado pendurado, até hoje, na despensa,
num cabide de metal. Graças a ele
nunca nada de mal, em todos estes anos,
me aconteceu — a mim ou, mais importante, à própria casa.
O raio é modesto, pode dizer se, mas a circunferência
está bem desenhada. Como não foram criados
à nossa imagem e semelhança
— são seres incorpóreos —, os anjos possuem
apenas cor e velocidade. Esta última permite lhes estar
em toda a parte. É por isso que ainda estás
comigo. As asas e as correias dos ombros
não precisam de um tronco para funcionar,
nem para apreciar o anonimato ou deixar que o corpo
expanda de felicidade o seu diâmetro algures na amena
Califórnia.

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Guerra Junqueiro – “Água de Lourdes”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se ergueis uma capela à água milagrosa,
Esse elixir divino,
Então erguei também um templo à caparrosa
E outro templo ao quinino.

Se a água faz milagres, o que eu vos não discuto,
E por isso a adorais,
Ajoelhemos então em face do bismuto
e doutras drogas mais.

Façamos da magnésia e clorofórmio e arnica
As hóstias do sacrário;
Transformemos o templo enfim numa botica,
E Deus num boticário

Que a vossa água opere imensas maravilhas
Eu não duvido nada:
É o Espírito Santo engarrafado em bilhas,
É o milagre à canada.

Desde que se espalhou pelo universo o eco
Do milagre feliz,
Tartufo nunca mais encheu o seu caneco
Em outro chafariz

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Gottfried Benn – “Ciclo”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O molar solitário de uma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.

(1912)
(tradução de João Barrento)

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Giuseppe Gioachino Belli – “A vida do homem”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Nove meses no fedor, depois nas faixas,
por entre crostas, beijocas, lagrimonas,
depois à trela, na andadeira, em camisinha,
pára turras na testa, cueiros por calções.

Depois começa o tormento da escola,
o á bê cê, a vergasta e as frieiras,
a rubéola, a caca na cagadeira
e um pouco de escarlatina e de bexigas.

Depois o ofício, o jejum, a trabalheira,
a pensão a pagar, as prisões, o governo,
o hospital, as dívidas, a crica,

o sol no Verão, a neve no Inverno…
E por último – e que Deus nos abençoe –
vem a morte, e acaba no inferno.

Tradução de Alexandre O’Neill

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Eugénio de Andrade – “As palavras”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória
Inseguras navegam:
barcos, beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

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Edson Bueno de Camargo – “Anespirais”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

espirais cobrem meu corpo
despencam helicoidais
ideogramas/nanquim/pincéis
tatuagens
não breves sinais

rufar de tambores
febre cerebral/enxaquecas
furor
humor e tumor
dores fatais

não sei quanto tempo
sentado na praça
contando cachaça
bebendo desgraça

sem você
sou vazio e sem cenho
criança sem colo da mãe

me lembro quando amar
não doía
pérola na língua
vermelho carmim

agora carrego um olhar flutuante
choro lendo hai kais

chuva sobre bambuais

tensão de garoa
uma lata vazia flutua no ar

um dia ouvi alguém que esqueci
sussurrou

em japonês
amor
se diz “ai”

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Dámaso Alonso – “Como era”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

A porta, aberta.
Veio calma e suave.
Nem matéria nem espírito. Trazia
uma ligeira inclinação de nave
e uma luz matinal de claro dia.

De ritmo não era, ou de harmonia,
nem de cor. O coração a sabe,
mas dizer como era não poderia
pois não é forma, nem na forma cabe.

Língua, barro mortal, cinzel inepto,
deixa a flor intacta do conceito
na clara noite desta minha boda,

e canta mansamente, humildemente,
a sensação, a sombra, o acidente,
enquanto Ela me enche a alma toda!.

(Tradução de José Bento)

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Carlos Edmundo de Ory – “Minha esposa”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

DESCRIÇÃO DE MINHA ESPOSA COM ACOMPANHAMENTO DE TIMBALES

Ela é meu escaravelho sagrado
Ela é minha cripta de ametista
Ela é minha cidade lacustre
Ela é meu pombal de silêncio
Ela é minha cerca de jasmins
Ela é meu gafanhoto de ouro
Ela é meu caramanchão de música
Ela é meu leite de malaquite
Ela é minha medusa dourada
Ela é meu caracol de seda
Ela é meu quarto de rainúnculos
Ela é meu topázio amarelo
Ela é minha Anadiomena marinha
Ela é minha Ageronia atlantis
Ela é minha porta de auricalco
Ela é meu palanquim de folhas
Ela é minha sobremesa de ameixas
Ela é meu pentagrama de sangue
Ela é meu oráculo de beijos
Ela é minha estrela boreal.

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D. Diniz (Rei) – “Joan Bol’anda mal desbaratado”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Joan BoI’ anda mal desbaratado
e anda trist’ e faz muit’ aguisado,
ca perdeu quant’ avia guaanhado
e o que lhi leixou a madre sua:
um rapaz, que era seu criado,
levou-lh’ o rocin e leixou-lh’ a mua.

Se el a mua quisesse levar
a Joan BoI’ e o rocin leixar,
non Ihi pesara tant’, a meu cuidar,
nen ar semelhara cousa tan crua;
mais o rapaz, por lhi fazer pesar,
levou-lh’ o rocin e leixou-lh’ a mua.

Aquel rapaz que Ih’ o rocin levou,
se lhi levass’ a mua que lhi ficou
a Joan Bolo, como se queixou,
non se queixar’, andando pela rua;
mais o rapaz, por mal que lhi cuidou,
levou-lhe o rocin e leixou-lh’ a mua.

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Bertolt Brecht – “O tanque”

13.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O Vosso tanque general
É um carro forte
Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
Precisa de um motorista
O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
Precisa de um piloto.
O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
Sabe pensar.

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