Nota biográfica

Álvaro de Campos (Tavira ou Lisboa, 13 ou 15 de Outubro de 1890 — ?) é um dos heterónimos mais conhecidos de Fernando Pessoa. Era um engenheiro de educação inglesa e origem inglesa, mas sempre com a sensação de ser um estrangeiro em qualquer parte da África.

Álvaro de Campos – “Dá-me lírios”

21.03.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Dá-me lírios, lírios,
E rosas também.
Mas se não tens lírios
Nem rosas a dar-me,
Tem vontade ao menos
De me dar os lírios
E também as rosas.
Basta-me a vomtade,
Que tens, se a tiveres,
De me dar os lírios
E as rosas também,
E terei os lírios –
Os melhores lírios –
E as melhores rosas
Sem receber nada,
a não ser a prenda
Da tua vontade
De me dares lírios
E rosas também.

(PESSOA: 1888-1935) Poesia

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Fernando Pessoa – “Vão breves…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vão breves passando
Os dias que tenho.
Depois de passarem
Já não os apanho.

De aqui a tão pouco
A vida acabou.
Vou ser um cadáver
Por quem se rezou.

E entre hoje e esse dia
Farei o que fiz:
Ser qual quero eu ser,
Feliz ou infeliz.

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Fernando Pessoa – “Poeta fingidor”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração

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Fernando Pessoa – “Não digas nada”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não digas nada!
Não, nem a verdade!
Há tanta suavidade
Em nada se dizer
E tudo se entender
Tudo metade
De sentir e de ver…
Não digas nada!
Deixa esquecer.

Talvez que amanhã
Em outra paisagem
Digas que foi vâ
Toda esta viagem
Até onde quis.
Ser quem me agrada…
Mas ali fui feliz…
Não digas nada.

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Fernando Pessoa – “Un soir à Lima”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vem a voz da radiofonia e dá

A notícia num arrastamento vão:

«A seguir

Un soir à Lima»…

Cesso de sorrir…

Pára-me o coração…

E, de repente, 

Essa querida e maldita melodia 

Rompe do aparelho inconsciente. 

Numa memória súbita e presente

Minha alma se extravia…. 

O grande luar da África fazia 

A encosta arborizada alvinitente. 



A sala em nossa casa era ampla, e estava 

Posta onde, até ao mar, tudo se dava 

À clara escuridão do luar ingente…

Mas só eu, à janela.

Minha mãe estava ao piano

E tocava. 

Exactamente 
«Un Soir à Lima». 



Meu Deus, que longe, que perdido, que isso está! 

Que é do seu alto porte? 

Da sua voz continuamente acolhedora? 

Do seu sorriso ‘carinhoso e forte? 

O que hoje há 

Que mo recorda é isto que oiço agora 
     
Un Soir à Lima.

Prossegue na radiofonia 

A mesma, a mesma melodia 
O mesmo
«Un Soir à Lima». 



Seu cabelo grisalho era tão lindo 

Sob a luz 

E eu que nunca julguei que ela morresse 

E me deixasse entregue a quem eu sou! 

Morreu, mas eu sou sempre o seu menino. 

Ninguém é homem para a sua mãe! 


(…)



Onde é que a hora, e o lar e o amor está 

Quando, mãe, mãe, tocavas 

Un Soir à Lima? 


E num recanto de cadeira grande

Minha irmã, 

Pequena e encolhidinha 

Não sabe se dorme se não.

(…)





Meu padrasto 

(Que homem! que alma! que coração!)

Reclinava o seu corpo basto

De atleta sossegado e são 

Na poltrona maior 

E ouvia, fumando e cismando,

E o seu olhar azul não tinha cor. 

A minha irmã, criança,

No recanto da sua poltrona

Enrolada, ouvia a dormir

E a sorrir 

Que estava alguém tocando

Se calhar uma dança.



E eu, de pé, ante a janela 

Via todo o luar de toda a África inundar

A paisagem e o meu sonhar. 



Onde tudo isto está! 

Un Soir à Lima, 

Quebra-te, coração! 


17 – 9 – 1935

In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. 2006
Fernando Pessoa
[UN SOIR À LIMA]

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Fernando Pessoa – “O menino da sua mãe”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

menino13

No plaino abandonado
Que a morna brisa aquece,
De balas trespassado
Duas de lado a lado
Jaz morto, e arrefece.

Raia-lhe a farda o sangue.
De braços estendidos
Alvo, louro, exangue,
Fita com olhar langue
e cego os céus perdidos.

Tão jovem! que jovem era!
(Agora que idade tem?)
Filho único, a mãe lhe dera
Um nome e o mantivera:
“o menino da sua mãe”

Caiu lhe da algibeira
A cigarreira breve.
Dera-lha a mãe.
Está inteira
E boa a cigarreira.
Ele é que já não serve.

De outra algibeira, alada
Ponta a roçar o solo,
A brancura embaínhada
De um lenço…
Dera-lho a criada
Velha que o trouxe ao colo.
Lá longe, em casa, há prece:

“Que volte cedo e bem!”
(Malhas que o Império tece!)
Jaz morto, e apodrece,
O menino da sua mãe.

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Fernando Pessoa – “Mostrengo”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
A roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
 E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso.
«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:
«El-Rei D. João Segundo!»

Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,
E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo,
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!» 

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Fernando Pessoa – “Tenho dó…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Tenho dó das estrelas
Luzindo há tanto tempo,
Há tanto tempo …
Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço
Das coisas,
De todas as coisas,
Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,
De ser,
Só de ser,
O ser triste brilhar ou sorrir …

Não haverá, enfim,
Para as coisas que são,
Não a morte, mas sim
Uma outra espécie de fim,
Ou uma grande razão
Qualquer coisa assim
Como um perdão?

Boiam leves, desatentos,
Meus pensamentos de mágoa,
Como, no sono dos ventos,
As algas, cabelos lentos
Do corpo morto das águas.

Boiam como folhas mortas,
À tona de águas paradas.
São coisas vestindo nadas,
Pós remoinhando nas portas
Das casas abandonadas.

Sono de ser, sem remédio,
Vestígio do que não foi,
Leve mágoa, breve tédio,
Não sei se pára, se flui;
Não sei se existe ou se dói.

4/8/1930
Fernando Pessoa
Cancioneiro

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Fernando Pessoa – “Gato…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Gato que brincas na rua
Como se fosse na cama,
Invejo a sorte que é tua
Porque nem sorte se chama.

Bom servo das leis fatais
Que regem pedras e gentes,
Que tens instintos gerais
E sentes só o que sentes.

És feliz porque és assim,
Todo o nada que és é teu.
Eu vejo-me e estou sem mim,
Conheço-me e não sou eu.

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Fernando Pessoa – “Fosse eu…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Fosse eu apenas, não sei onde ou como,
Uma cousa existente sem viver,
Noite de Vida sem amanhecer
Entre as sirtes do meu dourado assomo …

Fada maliciosa ou incerto gnomo
Fadado houvesse de não pertencer
Meu intuito gloriola com ter
A árvore do meu uso o único pomo …

Fosse eu uma metáfora somente
Escrita nalgum livro insubsistente
Dum poeta antigo, de alma em outras gamas,

Mas doente, e, num crepúsculo de espadas,
Morrendo entre bandeiras desfraldadas
Na última tarde de um império em chamas …

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Fernando Pessoa – “De aqui a pouco…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

De aqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também que coisa é que faria?
Fosse a que fosse, estava errada.

De aqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para o contar o coração.

E após a noite e irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?

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Fernando Pessoa – “É boa…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

papoula13

É boa!
Se fossem malmequeres!
E é uma papoula
Sozinha, com esse ar de “queres?”

Veludo da natureza tola.
Coitada!
Por ela
Saí da marcha pela estrada.

Não a ponho na lapela.
Oscila ao leve vento, muito
Encarnada a arroxear.
Deixei no chão o meu intuito.
Caminharei sem regressar.

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Fernando Pessoa – “Do meio da rua…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Do meio da rua
x(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito…

Como se no braçox
Me tocasse alguém,
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem.

Outrora em criançax
0 mesmo pregão… xNão lembres…
Descansa,
Dorme, coração!…

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Fernando Pessoa – “Meus versos são…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Meus versos são meu sonho dado,
Quero viver, não sei viver,x
Por isso anónimo e encantado,
Canto para me pertencer.

0 que soubemos, o perdemos.x
0 que pensamos já o fomos.x
Ah, e só guardamos o que demos
E tudo é sermos quem não somos.

Se alguém souber sentir meu cantox
Meu canto eu saberei sentir.x
Viverei com minha alma tanto,
Tanto quanto antes vivi.

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Fernando Pessoa – “Se tudo o que há é mentira”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.

Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.

Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida,
Como a rosa posta ao peito.

Mais vale é o mais valer,
Que o resto urtigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.

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Fernando Pessoa – “Agulha”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Enfia a agulha,
E ergue do colo,
A costura enrugada.
Escuta: (volto a folha Com desconsolo).
Não ouviste nada.

Os meus poemas, este
E os outros que tenho
São só a brincar.
Tu nunca os leste,
E nem mesmo estranho,
Que ouças sem pensar.

Mas dá-me um certo agrado
Sentir que tos leio
E que ouves sem saber.
Faz um certo quadro.
Dá-me um certo enleio…
E ler é esquecer.

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Fernando Pessoa – “Natal”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
 
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
‘Stou só e sonho saudade.
 
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

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Fernando Pessoa – “Som do relógio”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

O som do relógio
Tem a alma por fora
Só ele é a noite
E a noite se ignora.

Não sei que distância
Vai de som a som
Soando, no tique,
Do taque do som.

Mas oiço de noite
A sua presênça
Sem ter onde acoite
Meu ser sem ser

Parece dizer
Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa

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Fernando Pessoa – “Pela rua…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Pela rua já serena
Vai a noite
Não sei do que tenho pena,
Nem se é pena isto que tenho…

Pobres dos que vão sentindo
Sem saber do coração!
Ao longe, cantando e rindo,
Um grupo vai sem razão…

E a noite e aquela alegria
E o que medito a sonhar
Formam uma alma vazia
Que paira na orla do ar…

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Fernando Pessoa – “As lentas nuvens…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

As lentas nuvens fazem sono
O céu azul faz bom dormir.
Bóio num íntimo abandono,
À tona de me não sentir.

E é suave, como o correr de água,
O sentir que não alguém,
Não sou capaz de peso ou mágua.
Minha alma é aquilo que não tem.

Que bom. à margem do ribeiro
Saber que é ele que vai indo…
E só em sono eu vou primeiro,
E só em sonho eu vou seguindo.

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Fernando Pessoa – “Não sei ser triste a valer”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Não sei ser triste a valer
Nem ser alegre deveras.
Acreditem: não sei ser.
Serão as almas sinceras
Assim também, sem saber?

Ah, ante a ficção da alma
E a mentira da emoção,
Com que prazer me dá calma
Ver uma flor sem razão
Florir sem ter coração!

Mas enfim não há diferença.
Se a flor flore sem querer,
Sem querer a gente pensa.
0 que nela é florescer
Em nós é ter consciência.

Depois a nós como a ela.
Quando o Fado a faz passar,
Surgem as patas do deuses
E a ambos nos vem calcar.

‘Stá bem, enquanto não vêm
Vamos florir ou pensar.

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Fernando Pessoa – “Se sou alegre ou sou triste…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se sou alegre ou sou triste?…
Francamente não sei.
A tristeza em que consiste?
Da alegria o que farei?

Não sou alegre nem triste.
Verdade não sei que sou.
Sou qualquer alma que existe
E sente o que Deus fadou.

Afinal, alegre ou triste?
Pensar nunca tem bom fim…
Minha tristeza consiste
Em não saber bem de mim…
Mas a alegria é assim…

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Fernando Pessoa – “Paisagens”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Paisagens, quero as comigo.
Paisagens, quadros que são…
Ondular louro do trigo,
Faróis de sóis que sigo,
Céu mau, juncos, solidão…

Paisagens, todas pintadas
Umas pelas mãos de Deus,
Outras pelas mãos das fadas,
Outras por acasos meus,
Outras por lembranças dadas…

Paisagens…recordações,
Porque até o que se vê
Com primeiras impressões
Algures foi o que é
No ciclo das sensações.

Paisagens…Enfim, o teor
Da que está aqui é a rua
Onde o sol bole do torpor
Que na alma se me insinua
Não vejo nada melhor.

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Fernando Pessoa – “Sou um evadido”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Porque não se cansar?

Minha alma procura me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu é não ser.
Viverei fingindo
Mas vivo a valer

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Fernando Pessoa – “Noite serena”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Que noite serena!
Que lindo luar!
Que linda barquinha
Bailando no mar!

Suave, todo o passado o que foi aqui de Lisboa me surge…

O terceiro andar das tias, o sossego de outrora,
Sossego de várias espécies,
A infância sem o futuro pensado,
O ruído aparentemente contínuo da máquina de costura delas,

E tudo bom e a horas,
De um bem e de um a horas próprio, hoje morto.

Meu Deus, que fiz eu da vida?

Que noite serena, etc.

Quem é que cantava isso?
Isso estava lá.
Lembro me mas esqueço.
E dói, dói, dói…

Por amor de Deus, parem com isso dentro da minha cabeça.

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Fernando Pessoa – “Um dia, no restaurante…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo,
Serviram me o amor como dobrada fria.
Disse delicadamente ao missionário da cozinha
Que a preferia quente,
Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria.

Impacientaram se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua.

Quem sabe o que isto quer dizer?
Eu não sei, e foi comigo…

(Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim,
Particular ou público, ou do vizinho.
Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje).

Sei isso muitas vezes,
Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram
Dobrada à moda do Porto fria?
Não é prato que se possa comer frio,
Mas trouxeram mo frio.
Não me queixei, mas estava frio,
Nunca se pode comer frio, mas veio frio.

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Fernando Pessoa – “Carta a Ofélia”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

ofelia

Bebezinho do Nininho-ninho.
Oh!
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
E também tive muma pena de não tá ó pé do Bebé pã le dá jinhos. Oh! O Nininho é pequinininho!
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia s’ha
via carros, combinei tá aqui às seis o’as.
Amanhã, a não sê qu’ o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia (isto é a meia das cinco e meia).
Amanhã, o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
Jinhos, jinhos e mais jinhos
Fernando
31 de Maio de 1920

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Fernando Pessoa – “Estou cansado…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem de estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabe lo,
Pois o cansaço fica na mesma,
A ferida dói como dói
E não em função da causa que o produziu.
Sim. estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer mesmo no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

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Fernando Pessoa – “Se, depois de eu morrer…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha
biografia,
Não há nada de mais simples.
Tem só duas datas a da minha nascença e a da minha
morte.
Entre uma e outra coisa todos os dias são meus.

Sou fácil de definir.
Vi como um danado.
Amei as coisas sem sentimentalidade nenhuma.
Nunca tive um desejo que não pudesse realizar,
porque nunca ceguei.
Mesmo ouvir nunca foi parar mim senão um
acompanhamento de ver.
Compreendi que as coisas são reais e todas
diferentes umas das outras;
Compreendi isto com os olhos, nunca com o
pensamento.
Compreender isto com o pensamento seria achá-las
todas iguais.
Um dia deu me o sono como a qualquer criança.
Fechei os olhos e dormi.
Além disso fui o único poeta da Natureza.

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Fernando Pessoa – “Deixa-me ouvir…”

15.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

Deixa me ouvir o que não ouço…
Não é a brisa ou o arvoredo;
É outra coisa intercalada…
É qualquer coisa que não posso
Ouvir senão em segredo,
E que talvez não seja nada…

Deixa me ouvir…Não fales alto!
Um momento…Depois o amor,
Se quiseres…Agora cala!
Ténue, longínquo sobressalto
Que substitui a dor,
Que inquieta e embala…

O quê? Só a brisa entre a folhagem?
Talvez…Só um canto pressentido?
Não sei, mas custa amar depois…
Sim, torna em mim, e a paisagem
E a verdadeira brisa, ruído…
Vejo te, somos dois…

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