Vasco Graça Moura – “salmo 136″

20.04.2015 | Produção e voz: Luís Gaspar

poetas13

não são muitos, são muito poucos, os poetas
que inventam a poesia portuguesa
como radical abalo do mundo, ou metáfora
a estremecer que o refigura, ou como

crispação do destino e subversão,
no risco visceral da sua própria vida.
Assim, e porque toda a liberdade reenvia
ao necessário exílio, eles atrevem-se

a atravessar sem rede o vão por sobre o abismo:
prendem-se a quanto é neles explosão, remorso,
erros, desequilíbrios, amores, visões, enganos,
nuvens de forma humana, pela palavra queimam

contradições passadas e presentes, peregrinam
em sarça que arde, enovelada, a fogo escuro,
iluminando a fronteira dúplice: os reflexos intermitentes
entre os vultos amalgamados de uma greda pobre

e uma sua imagem a lo divino feita;
não são muitos os que enfrentam o real, retesando a
percepção no meio dos salgueiros, em desapego
crepuscular dos instrumentos bíblicos:

flautas e cítaras sobre a terra tão áspera,
que tocam e rejeitam e tocam,
entre a decepção e o declive, no fio bambo
sobre os rios que vão por babilónia.

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Vasco Graça Moura – “Soneto do Amor e da Morte”

11.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer 

fica junto de mim, não queiras ver 

as aves pardas do anoitecer 

a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer, 

e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer, 

sempre a doer de tanta perfeição 

que ao deixar de bater-me o coração 

fique por nós o teu inda a bater, 

quando eu morrer segura a minha mão.

in “Antologia dos Sessenta Anos”

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Vasco Graça Moura – “blues da morte de amor”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

já ninguém morre de amor, eu uma vez
andei lá perto, estive mesmo quase,
era um tempo de humores bem sacudidos,
depressões sincopadas, bem graves, minha querida.
mas afinal não morri, como se vê, ah, não,
passava o tempo a ouvir deus e música de jazz,
emagreci bastante, mas safei-me à justa, oh yes,
ah, sim, pela noite dentro, minha querida.

a gente sopra e não atina, há um aperto
no coração, uma tensão no clarinete e
tão desgraçado o que senti, mas realmente,
mas realmente eu nunca tive jeito, ah, não,
eu nunca tive queda para kamikaze,
é tudo uma questão de swing, de swing minha querida,
saber sair a tempo, saber sair, é claro, mas saber,
e eu não me arrependi, minha querida, ah, não, ah, sim.

há ritmos na rua que vêm de casa em casa,
ao acender das luzes, uma aqui, outra ali,
mas pode ser que o vendaval um qualquer dia venha
no lusco-fusco da canção parar à minha casa,
o que eu nunca pedi, ah, não, manda calar a gente,
minha querida, toda a gente do bairro,
e então murmurarei, a ver fugir a escala
do clarinete: – morrer ou não morrer, darling, ah, sim.

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Vasco Graça Moura – “Balada do bom cavaquista”

10.01.2012 | Produção e voz: Luís Gaspar

que eu sempre fui bom cavaquista
nem é preciso repeti-lo:
anos depois já só se avista
tanto canário, tanto grilo,
tanto gorjeio, tanto trilo
que de promessas se guarnece:
um mundo e outro, isto e aquilo,
e o povo tem o que merece.
vi engrossar de boys a lista,
vi saltitar mais do que esquilo,
de galho em galho ser artista,
e armar o estado em crocodilo.
voracidade? era do estilo.
economia? ai que arrefece!
vi portugal vendido ao quilo
e o povo tem o que merece.
vi muito pássaro na pista
já de asa murcha e intranquilo,
já sem alface nem alpista
e já sem grão dentro do silo,
secou a teta e o mamilo,
chegou a hora, chega o stress.
há vários anos que eu refilo,
e o povo tem o que merece.
senhor, na entrada deste asilo,
mordeu-se a isca da benesse
e o povo tem o que merece.

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