Nota biográfica

A primeira página de grandes obras da literatura.

“A casa do incesto”, de Anaïs Nin

18.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

sonho

Escrito em 1949, este pequeno livro (conto) gira em torno de Sabina, personagem que reaparecerá nos romances da escritora, por exemplo “Uma Espia na Casa do Amor”. Sabina é inspirada em June Miller, segunda mulher de Henry Miller, e que inspirou a este último a sua Mona, personagem de, entre outros, “Trópico de Câncer” e “Sexus”.
Esta enigmática mulher, corrupta e obscura em Miller, é, em Anaïs Nin uma heroína, autêntica beauty queen descrita e vivida com toda a beleza e sensibilidade.
(Do blogue, Camel & Coca Cola)

A minha primeira visão da terra foi através da água. Pertenço à raça de homens e mulheres que olham todas as coisas através desta cortina de mar e os meus olhos são a cor da água.
Olhava com olhos de camaleão a face mutável do mundo e considerava anonimamente o meu ser incompleto.
Lembro o meu primeiro nascimento na água. À minha volta a transparência sulfurosa e os meus ossos moviam-se como se fossem de borracha. Oscilo e flutuo nas pontas sem ossos dos meus pés atenta aos sons distantes, sons para além do alcance de ouvidos humanos, vejo coisas que são para além do alcance dos olhos. Nasço cheia das memórias dos sinos da Atlântida. Sempre à espera de sons perdidos e à procura de perdidas cores, permanecendo para sempre no limiar como alguém perturbado por recordações, corto o ar a passo largo com largos golpes de barbatana e nado através de quartos sem paredes. Expulsadas de um paraíso de ausência de som, catedrais ondulam à passagem de um corpo, como música sem som.
Esta Atlântida só podia ser novamente encontrada à noite pelo caminho do sonho. Logo que o sono cobria a rígida cidade nova e a rigidez do novo mundo, abriam-se os portais mais pesados deslizando em gonzos oleados e entrava-se na ausência de voz que pertence ao sonho. Era o terror e a alegria de homicídios conseguidos em silêncio, um silêncio de calhas e de escovas. O lençol de água cobrindo tudo e abafando a voz. E um monstro trouxe-me, por acaso, à superfície.
Perdida dentro das cores da Atlântida, cores que vão dar a outras e se misturam sem fronteiras. Peixes feitos de veludo, de organdi com dentes de rendas, feitos de tafetá, recamados de lantejoulas, peixes de seda e penas e plumas, com flancos lacados e olhos de cristal de rocha, peixes de couro curtido com olhos de groselha, olhos como o branco de um ovo. Flores palpitando-lhes nas hastes como corações de mar. Nenhum deles sentindo o seu próprio peso, o cavalo marinho movendo-se como uma pena…
Era como um longo bocejo. Eu amava a facilidade e a cegueira e as mansas viagens na água transportando-nos através de obstáculos. A água estava ali para nos transportar como um abraço gigante; havia sempre a água para nos repousar, e que nos transmitia as vidas e os amores, as palavras e os pensamentos.
Eu dormia muito abaixo do nível das tempestades. Movia-me dentro da cor e da música como dentro de um diamante-mar. Não havia correntes de pensamentos, apenas a carícia-fluxo-desejo misturando-se, tocando, afastando, vagueando — no abismo infinito da paz.
Não me lembro de ali estar frio, nem calor. Nenhuma dor provocada pelo frio ou pelo calor. A temperatura do sono, sem febre e sem arrepio. Não me lembro de ter tido fome. Era-se alimentado através de poros invisíveis. Não me lembro de ter chorado.
Sentia apenas a carícia de mover-me — de passar para um outro corpo — absorvida e perdida dentro da carne de outrem, embalada pelo ritmo da água, pela lenta palpitação dos sentidos, pelo deslizar de seda.
Amando sem consciência, movendo-me sem esforço, numa corrente branda de água e de desejo, respirando num êxtase de dissolução.
Acordei de madrugada, atirada para uma rocha, esqueleto de um barco sufocado nas suas próprias velas.
(Tradução de Isabel Hub Faria – Edição, Assírio & Alvim)

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Manuel Bandeira – “Vou-me embora pra Pasárgada”

11.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

pasargada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcaloide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

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Alberto Caeiro – “O Guardador de Rebanhos/V”

10.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

deus

Há metafísica bastante em não pensar em nada.

O que penso eu do mundo?
Sei lá o que penso do mundo!
Se eu adoecesse pensaria nisso.

Que ideia tenho eu das coisas?
Que opinião tenho sobre as causas e os efeitos?
Que tenho eu meditado sobre Deus e a alma
E sobre a criação do Mundo?
Não sei. Para mim pensar nisso é fechar os olhos
E não pensar. E correr as cortinas
Da minha janela (mas ela não tem cortinas).

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.

Metafísica? Que metafísica têm aquelas árvores?
A de serem verdes e copadas e de terem ramos
E a de dar fruto na sua hora, o que não nos faz pensar,
A nós, que não sabemos dar por elas.
Mas que melhor metafísica que a delas
Que é a de não saber para que vivem
Nem saber que o não sabem?

“Constituição íntima das cousas”…
“Sentido íntimo do Universo”…
Tudo isto é falso, tudo isto não quer dizer nada.
É incrível que se possa pensar em coisas dessas.
É como pensar em razões e fins
Quando o começo da manhã está raiando, e pelos lados das árvores
Um vago ouro lustroso vai perdendo a escuridão.

Pensar no sentido íntimo das coisas
É acrescentado, como pensar na saúde
Ou levar um copo à água das fontes.
O único sentido íntimo das coisas
É elas não terem sentido íntimo nenhum.

Não acredito em Deus porque nunca o vi.
Se ele quisesse que eu acreditasse nele.
Sem dúvida que viria falar comigo
E entraria pela minha porta dentro
Dizendo-me, Aqui estou!

(Isto é talvez ridículo aos ouvidos
De quem, por não saber o que é olhar para as coisas,
Não compreende quem fala delas
Com o modo de falar que reparar para elas ensina).

Mas se Deus é as flores e as árvores
E os montes e sol e o luar,
Então acredito nele,

Então acredito nele a toda a hora,
E a minha vida é toda uma oração e uma missa,
E uma comunhão com os olhos e pelos ouvidos.

Mas se Deus é as árvores e as flores
E os montes e o luar e o sol,
Para que lhe chamo eu Deus?
Chamo-lhe flores e árvores e montes e sol e luar;
Porque, se ele se fez, para eu o ver,
Sol e luar e flores e árvores e montes,
Se ele me aparece como sendo árvores e montes
E luar e sol e flores,
É que ele quer que eu o conheça
Como árvores e montes e flores e luar e sol.

E por isso eu obedeço-lhe,
(Que mais sei eu de Deus que Deus de si próprio?),
Obedeço-lhe a viver, espontaneamente,
Como quem abre os olhos e vê,
E chamo-lhe luar e sol e flores e árvores e montes,
E amo-o sem pensar nele,
E penso-o vendo e ouvindo,
E ando com ele a toda a hora.

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Alberto Caeiro – “O piano”

09.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

piano

Aquela senhora tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem…

Para que é preciso ter um piano?
O melhor é ter ouvidos E amar a
Natureza.

(Do “Guardador de rebanhos”)

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Álvaro de Campos – “Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa”

08.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

esmola

Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe
tudo quanto tinha
(Excepto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago
mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar…).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida.
Às normas reais ou sentimentais da vida –
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento de justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque têm razão para chorar lágrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-me com a humanidade!

Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se há uma razão exterior para ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser 

pedinte.

Tudo mais é estúpido como um Dostoievski ou um Gorki.
Tudo mais é ter fome ou não ter que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.
Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal, moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo.
E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!

Que bom poder revoltar-me num comício dentro da minha alma!
Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido.
Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido.

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Álvaro de Campos – “Dactilografia”

07.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

teclado

Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projecto, aqui isolado. Remoto até de quem eu
sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tic-tac estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjecção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância)
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho, Eram
grandes paisagens do Norte, explícitas de neve. Eram
grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora…

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro, O
tic-tac estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo só na outra…

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Se, desmeditando, escuto,
Ergue a voz o tic-tac estalado das máquinas de escrever.

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Sophia de Mello B. Andresen – “Com fúria e raiva”

03.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

assembleia

Com fúria e raiva acuso o demagogo
E o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
Que de longe muito longe um povo a trouxe
E nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
O homem soube de si pela palavra
E nomeou a pedra a flor a água
E tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
Que se promove à sombra da palavra
E da palavra faz poder e jogo
E transforma as palavras em moeda
Como se fez com o trigo e com a terra

Sophia de Mello Breyner Andresen, in “O Nome das Coisas”

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Fernando Pessoa – “…de não cumprir um dever”

01.07.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

oculos

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refugio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que
não vinha. Sou livre, contra a sociedade organizada
e vestida. Estou nu, e mergulho na água da minha
imaginação. É tarde para eu estar em qualquer dos dois
pontos onde
estaria à mesma hora.
Deliberadamente à mesma hora…
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida! Até não
consigo acender o cigarro seguinte… Se é um gesto, Fique
com os outros, que me esperam, no desencontro que é
a vida.

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Sofia de Mello B. Andresen – “Catarina Eufémia”

30.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

catarina

O primeiro tema da reflexão grega é a justiça E eu
penso nesse instante em que ficaste exposta Estavas
grávida porém não recuaste Porque a tua lição é esta:
fazer frente

Pois não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea Eras
a inocência frontal que não recua Antígona poisou a sua mão
sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da Justiça continua

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Fernando Pessoa – “Dá surpresa de ser”

27.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

mulher

Dá a surpresa de ser. É alta,
de um louro escuro. Faz
bem só pensar em ver Seu
corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem (Se ela
estivesse deitada) Dois
montinhos que amanhecem Sem
ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco Do
seu relevo tapado.

Apetece como um barco. Tem
qualquer coisa de gomo. Meu Deus,
quando é que eu embarco? Ó fome,
quando é que eu como?

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Jorge de Sena – “Cabecinha romana de Milreu”

25.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

milreu

Esta cabeça evanescente e aguda,
tão doce no seu ar decapitado,
do Império portentoso nada tem:
nos seus olhos vazios não se cruzam línguas,
na sua boca as legiões não marcham,
na curva do nariz não há os povos
que foram massacrados e traídos.
É uma doçura que contempla a vida,
sabendo como, se possível, deve
ao pensamento dar certa loucura,
perdendo um pouco, e por instantes só,
a firme frieza da razão tranquila.
É uma virtude sonhadora: o escravo
que a possuía às horas da tristeza
de haver um corpo, a penetrou jamais
além de onde atingia; e quanto ao esposo,
se acaso a fecundou, não pensou nunca
em desviar sobre el’ tão longo olhar.
Viveu, morreu, entre colunas, homens,
prados e rios, sombras e colheitas,
e teatros e vindimas, como deusa.
Apenas o não era: o vasto império
que os deuses todos tornou seus, não tinha
um rosto para os deuses. E os humanos,
para que os deuses fossem, emprestavam
o próprio rosto que perdiam. Esta
cabeça evanescente resistiu:
nem deusa nem mulher, apenas ciência
de que nada nos livra de nós mesmos.

Araraquara, 12/Janeiro/1963

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Mário Cesariny – “A um rato morto encontrado num parque.”

23.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

rato

Este findou aqui sua vasta carreira de rato vivo e escuro ante as
constelações a sua pequena medida não humilha senão aqueles que
tudo querem imenso e só sabem pensar em termos de homem ou
árvore pois decerto este rato destinou como soube (e até como não
soube) o milagre das patas — tão junto ao focinho! — que afinal
estavam justas, servindo muito bem para agatanhar, fugir, segurar o
alimento, voltar atrás de repente,
quando necessário

Está pois tudo certo, ó «Deus dos cemitérios pequenos»?
Mas quem sabe quem sabe quando há engano
nos escritórios do inferno? Quem poderá dizer
que não era para príncipe ou julgador de povos
o ímpeto primeiro desta criação
irrisória para o mundo — com mundo nela?
Tantas preocupações às donas de casa — e aos médicos — ele dava!
Como brincar ao bem e ao mal se estes nos faltam?
Algum rapazola entendeu sua esta vida tão ímpar
e passou nela a roda com que se amam
olhos nos olhos — vítima e carrasco

Não tinha amigos? Enganava os pais?
Ia por ali fora, minúsculo corpo divertido e
agora parado, aquoso, cheira mal.

Sem abuso
que final há-de dar-se a este poema?
Romântico? Clássico? Regionalista?
Como acabar com um corpo corajoso humílimo
morto em pleno exercício da sua lira?

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Natália Correia – “A defesa do poeta”

20.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

natalia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto.

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim.

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes.

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei.

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição.

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis.

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além.

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa.

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

in “A defesa do poeta”, Poesia Completa, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2000, pág. 330 e seg. (nota em rodapé: “Compus este poema para me defender no Tribunal Plenário de tenebrosa memória. O que não fiz a pedido do meu advogado que sensatamente me advertiu de que essa insólita leitura no decorrer do julgamento comprometeria a defesa, agravando a sentença.”

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Vinícius de Moraes – “Dia da Criação”

18.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

mundo

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há um tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento do consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

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Manuel Bandeira – “Madrigal melancólico”

16.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

bandeira

O que eu adoro em ti,
Não é a tua beleza.
A beleza, é em nós que ela existe.
A beleza é um conceito.
E a beleza é triste.
Não é triste em si,
Mas pelo que há nela de fragilidade e de incerteza.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua inteligência.
Não é o teu espírito subtil,
Tão ágil, tão luminoso,
– Ave solta no céu matinal da montanha.
Nem é a tua ciência
Do coração dos homens e das coisas.

O que eu adoro em ti,
Não é a tua graça musical,
Sucessiva e renovada a cada momento,
Graça aérea como o teu próprio pensamento,
Graça que perturba e que satisfaz.

O que eu adoro em ti, Não é a
mãe que já perdi. Não é a
irmã que já perdi. E meu pai.

O que eu adoro em tua natureza, Não é o
profundo instinto maternal Em teu flanco
aberto como uma ferida.

Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.

11 de Julho de 1920

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Manoel de Barros – “Ao ver o abandono…”

13.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

casa-abandonada

Ao ver o abandono da velha casa: o mato a
crescer das paredes
Ao ver os desenhos de mofo espalhados nos
rebocos carcomidos
Ao ver o mato a subir no fogão, nos retratos,
nos armários
E até na bicicleta do menino encostada no
batente da casa
Ao ver o musgo e os limos a tomar conta do
batente
Ao ver o abandono tão perto de mim que dava
até para lamber
Pensei em puxar o alarme
Mas o alarme não funcionou.
A nossa velha casa ficou para os morcegos e
os gafanhotos.
E os melões-de-são-caetano que subiram pelas
paredes já estão dando seus frutos vermelhos.

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Miguel Torga – “Não passarão”

10.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

nuvens

Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
Aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!

Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
Que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
Entre o sangue vertido
E o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
De traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
Que na tua tragédia se redime.

Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
Nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação.
Não morre um Povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
As forças que te querem jugular
Não poderão passar
Sobre a dor infinita desse não
Que a terra inteira ouviu
E repetiu:
Não passarão!

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Álvaro Feijó – “Os dois sonetos de amor da hora triste”

09.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

hora-triste

I
Quando eu morrer – e hei-de morrer primeiro 

do que tu – não deixes fechar-me os olhos 

meu Amor. Continua a espelhar-te nos meus olhos

e ver-te-ás de corpo inteiro

como quando sorrias no meu colo.

E, ao veres que tenho toda a tua imagem 

dentro de mim, se, então, tiveres coragem 

fecha-me os olhos com um beijo.

Eu, Marco Pólo,

farei a nebulosa travessia

e o rastro da minha barca 

segui-lo-ás em pensamento. Abarca

nele o mar inteiro, o porto, a ria…

E, se me vires chegar ao cais dos céus,

ver-me-ás, debruçado sobre as ondas, 

para dizer-te adeus

II
Não um adeus distante

ou um adeus de quem não torna cá,

nem espera tornar. Um adeus de até já,

como a alguém que se espera a cada instante.

Que eu voltarei. Eu sei que hei-de voltar

de novo para ti, no mesmo barco 

sem remos e sem velas, pelo charco 

azul do céu, cansado de lá estar.

E viverei em ti como um eflúvio, uma recordação.

E não quero que chores para fora,

Amor, que tu bem sabes que quem chora

assim, mente. E se quiseres partir e o coração

to peça, diz-mo. A travessia é longa… Não atino

talvez na rota. Que nos importa, aos dois, ir sem destino?

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Miguel Hernández – “Menos o teu ventre”

06.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

ventre

Menos teu ventre, tudo
é confuso. Menos teu
ventre, tudo é futuro
fugaz, passado baldio,
turvo. Menos teu
ventre, tudo é oculto.
Menos teu ventre, tudo
inseguro, tudo já
último um pó sem
mundo. Menos teu
ventre tudo é escuro.
Menos teu ventre claro
e profundo.

(Tradução de José Bento)

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António Gedeão – “Enquanto.”

05.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

abandonadas

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer, e o mais que se não diz por ser
verdade, enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia, o poeta
escreverá com alcatrão nos muros da cidade:
ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

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“O general no seu labirinto”, de Gabriel García Márquez

04.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

garcia-marques-general

“O general no seu labirinto”, é uma obra de Gabriel García Márquez, retratando os últimos dias do General Simón Bolívar – O Libertador.
O general é apresentado como doente, enfraquecido, embora portador de um passado deveras poderoso e cheio de glória. Seu corpo físico está morrendo, mas seu espírito mostra-se enérgico. Acompanhado de José Palácios, mordomo fiel a servi-lo sem questionar suas ordens, parte da Venezuela rumo à Europa, para deixar finalmente sua pátria. Após muito fugir do povo (uns o chamam de volta ao poder, outros o injuriam), do tempo, e de si mesmo, abandona esta vida rodeado de fiéis companheiros de guerra e de vida.

José Palácios, o seu servidor mais antigo, encontrou-o a flutuar nas águas depurativas da banheira, nu e com os olhos abertos, e julgou que se tinha afogado. Sabia que aquela era uma das suas muitas formas de meditar, mas o estado de êxtase em que jazia à deriva parecia o de alguém que já não era deste mundo. Não se atreveu a aproximar-se, mas chamou-o em voz baixa de acordo com a ordem de o acordar antes das cinco horas para viajar com as primeiras luzes. O general emergiu do encantamento, e viu na penumbra os olhos azuis e diáfanos, o cabelo encrespado cor de esquilo, a majestade impávida do seu mordomo de todos os dias segurando na mão a xícara com a infusão de papoilas com goma. O general agarrou-se sem forças às pegas da banheira, e surgiu das águas medicinais com um ímpeto de golfinho que não era de esperar num corpo tão enfezado.
— Vamos — disse. — Voando, que aqui ninguém nos quer.
José Palácios tinha-o ouvido dizer isto tantas vezes e em ocasiões tão diferentes, que ainda não pensou que fosse verdade, apesar das recuas estarem preparadas nas cavalariças e a comitiva oficial começar a reunir-se. Ajudou-o a secar-se de qualquer maneira, e colocou-lhe o capote dos paramos sobre o corpo nu, porque a xícara abanava com o tremor das suas mãos. Meses antes, ao vestir uma calças de pele de camurça que não usava desde as noites babilónicas de Lima, ele tinha descoberto que à medida que perdia peso, ia diminuindo de estatura. Até a sua nudez era diferente, pois tinha o corpo pálido e a cabeça e as mãos como que crestadas pelo excesso de exposição à intempérie.
Tinha feito quarenta e seis anos no último mês de Julho, mas já os seus ásperos cabelos caribenhos se haviam tornado cinzentos e tinha os ossos desconjuntados pela decrepitude prematura, e todo ele se apresen-tava tão abatido que não parecia capaz de perdurar até ao Julho seguinte. No entanto, os seus gestos decididos pareciam ser de alguém menos danificado pela vida, e caminhava sem parar à volta de nada. Bebeu a tisana em cinco sorvos ardentes que por pouco não lhe empolaram a língua, fugindo dos seus próprios rastos de água, nas esteiras esfiapadas do chão, e foi como se bebesse o filtro da ressurreição. Mas não disse uma palavra enquanto não soaram as cinco horas na torre da catedral próxima.
Sábado, oito de Maio do ano trinta, dia da Santíssima Virgem, Medianeira de Todas as Graças — anunciou o mordomo. — Está a chover desde as três da madrugada.
Desde as três da madrugada do século dezassete — disse o general com a voz ainda perturbada pelo hálito acre da insónia. E acrescentou a sério: — Não ouvi os galos.
Aqui não há galos — disse José Palácios.
Não há nada — disse o general. — É terra de infiéis.
(…)

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António Ramos Rosa – “O boi da paciência”

03.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

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Noite dos limites e das esquinas nos ombros
noite por de mais aguentada com filosofia a mais
que faz o boi da paciência aqui?
que fazemos nós aqui?
este espectáculo que não vem anunciado
todos os dias cumprido com as leis do diabo
todos os dias metido pelos olhos adentro
numa evidência que nos cega
até quando?
Era tempo de começar a fazer qualquer coisa
os meus nervos estão presos na encruzilhada
e o meu corpo não é mais que uma cela ambulante
e a minha vida não é mais que um teorema
por de mais sabido!

Na pobreza do meu caderno
como inscrever este céu que suspeito
como amortecer um pouco a vertigem desta órbita
e todo o entusiasmo destas mãos de universo
cuja carícia é um deslizar de estrelas?

Há uma casa que me espera
para uma festa de irmãos
há toda esta noite a negar que me esperam
e estes rostos de insónia
e o martelar opaco num muro de papel
e o arranhar persistente duma pena implacável
e a surpresa subornada pela rotina
e o muro destrutível destruindo as nossas vidas
e o marcar passo à frente deste muro
e a força que fazemos no silêncio para derrubar o muro
até quando? até quando?
Teoricamente livre para navegar entre estrelas
minha vida tem limites assassinos
Supliquei aos meus companheiros: Mas fuzilem-me!
Inventei um deus só para que me matasse
Muralhei-me de amor
e o amor desabrigou-me
Escrevi cartas a minha mãe desesperadas
colori mitos e distribuí-me em segredo
e ao fim e ao cabo
recomeçar
Mas estou cansado de recomeçar!
Quereria gritar: Dêem-me árvores para um novo recomeço!
Aproximem-me a natureza até que a cheire!
Desertem-me este quarto onde me perco!
Deixem-me livre por um momento em qualquer parte
para uma meditação mais natural e fecunda
que me afogue o sangue!
Recomeçar!

Mas originalmente com uma nova respiração
que me limpe o sangue deste polvo de detritos
que eu sinta os pulmões como duas velas pandas
e que eu diga em nome dos mortos e dos vivos
em nome do sofrimento e da felicidade
em nome dos animais e dos utensílios criadores
em nome de todas as vidas sacrificadas
em nome dos sonhos
em nome das colheitas em nome das raízes
em nome dos países em nome das crianças
em nome da paz

que a vida vale a pena que ela é a nossa medida
que a vida é uma vitória que se constrói todos os dias
que o reino da bondade dos olhos dos poetas
vai começar na terra sobre o horror e a miséria
que o nosso coração se deve engrandecer
por ser tamanho de todas as esperanças
e tão claro como os olhos das crianças
e tão pequenino que uma delas possa brincar com ele

Mas o homenzinho diário recomeça
no seu giro de desencontros
A fadiga substituiu-lhe o coração
as cores da inércia giram-lhe nos olhos
Um quarto de aluguer
Como preservar este amor
ostentando-o na sombra?
Somos colegas forçados
Os mais simples são os melhores
Nos seus limites conservam a humanidade
Mas este sedento lúcido e implacável
familiar do absurdo que o envolve
com uma vida de relógio a funcionar
e um mapa da terra com rios verdadeiros
correndo-lhe na cabeça
como poderá suportar viver na contenção total
na recusa permanente a este absurdo vivo?

Ó boi da paciência que fazes tu aqui?
Quis tornar-te amável ser teu familiar
fabriquei projectos com teus cornos
lambi o teu focinho acariciei-te em vão

A tua marcha lenta enerva-me e satura-me
as constelações são mais rápidas nos céus
a terra gira com um ritmo mais verde que o teu passo
Lá fora os homens caminham realmente
Há tanta coisa que eu ignoro
e é tão irremediável este tempo perdido!
Ó boi da paciência sê meu amigo!

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António Ramos Rosa – “Ode propiciatória”

02.06.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

ramos-rosa

Abrir o pulso das árvores, alcançar espaço,
caminhar desprendendo, concentrando abrir,
ordenar os campos, demarcar as fronteiras.
Ainda não sabemos, ainda não saímos, ainda não começámos.
Vamos para o cerne, para a raiz do dia.
Olhar agora para a nascente branca. Olhar
para ver sem olhar. Receber a pura força
da força, irrigar os campos,
acariciar o sopro, respirar pelos olhos.
O deuses vivos e amados, ó configurações
que só esperam o reconhecimento da palavra!
Ó brancura aérea, ó âmbito contemplado!
Que o exercício desperte a lucidez dos lábios
e os animais do corpo ondulem soltos e transparentes.
Abrir os vasos do tempo, libertar as essências subtis,
rodar, rodar a esfera, abrir a terra,
acender a rotação, pousar na aura com os nomes,
limpar, limpar as raízes da lua,
penetrar na espessura onde o mundo se arredonda,
mover os opacos membros da deusa da montanha,
estar, estar no indolente ofício da sabedoria,
ir até ao fundo mais íntimo da pedra,
avivar os veios das máquinas vegetais,
gravar a ascensão dos grãos na gravidez silenciosa,
consagrar a lentidão que culmina nas abóbadas,
manter a herança do fogo na deriva,
contemplar o fulgor do sono na penumbra dos arbustos
e regressar ao desejo, à coroa do repouso.
Agora sustentar a trave, alargar a esfera,
contemplar o estremecimento dos volumes, aderir
à superfície densa, purificar as águas, estar atento
à distracção da transparência, pesar as formas
inteiras nos músculos repousados, crescer
animalmente na liberdade do espaço.
(Faro, 1924)

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António Barahona – “CANTOS/II”

29.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

O início és tu: magra e fecunda deitada

sobre as folhas do Outono o ritmo

perfeito do amor no gesto esguio, na

glíptica cabeça, te concede a qualidade

de divina nua ascenderes dentro da noite

Corto a pedra onde modelo para 

sempre a tua posição: desenho de 

luz inquietante, sombra de animal

na montanha culta de agilidade e insónia

E penso na paisagem que habitas: 

roupa de perfume nas cadeiras, o

urso polar, brinquedos, crianças, 

solidão aérea de ausência tanta e a

presença da casa, alva barca 

calada no mar ou na doca plana

Dás tudo ao homem que o homem quer:

irmã necessária, tépida e exacta, inclinada

sobre o filho és mãe numa hora, nos meus 
braços
oculta, filha fugidia Oh descantado

assombro da beleza inúmera, mulher, minha 

esposa toda a vida

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Álvaro de Campos – “Acordar da cidade de Lisboa…”

26.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras,

Acordar da rua do Ouro,

Acordar do Rossio, às portas dos cafés,

Acordar

E no meio de tudo a gare, que nunca dorme,

Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar,

Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo.

À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se 

Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, 

E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne,

Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha,

Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode
acontecer de bom, 

São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada,
Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes,

Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste,
Seja.

A mulher que chora baixinho

Entre o ruído da multidão em vivas…

O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito.

Cheio de individualidade para quem repara…

O arcanjo isolado, escultura numa catedral,

Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã

Tudo isto tende para o mesmo centro,

Busca encontrar-se e fundir-se 

Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas

E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.

Tenho pela vida um interesse ávido

Que busca compreendê-la sentindo-a muito.

Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,

Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas,

Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio

E a minha ambição era trazer o universo ao colo

Como uma criança a quem a ama beija.

Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras,

Não nenhuma mais do que outra, mas, sempre mais as que

estou vendo

Do que as que vi ou verei.

Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações.

A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos.

Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

Dá-me lírios, lírios

E rosas também.

Dá-me rosas, rosas, 

E lírios também, 

Crisântemos, dálias,

Violetas, e os girassóis 

Acima de todas as flores…

Deita-me às mancheias, 

Por cima da alma.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também…

Meu coração chora

Na sombra dos parques,

Não tem quem o console

Verdadeiramente,

Excepto a própria sombra dos parques

Entrando-me na alma,

Através do pranto.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também…

Minha dor é velha

Como um frasco de essência cheio de pó.

Minha dor é inútil

Como uma gaiola numa terra onde não há aves,

E minha dor é silenciosa e triste

Como a parte da praia onde o mar não chega.

Chego às janelas

Dos palácios arruinados

E cismo de dentro para fora

Para me consolar do presente.

Dá-me rosas, rosas,

E lírios também…

Mas por mais rosas e lírios que me dês,

Eu nunca acharei que a vida é bastante.

Faltar-me-á sempre qualquer coisa,

Sobrar-me-á sempre de que desejar.

Como um palco deserto.

Por isso, não te importes com o que eu penso,

E muito embora o que eu te peça

Te pareça que não quer dizer nada,

Minha pobre criança tísica,

Dá-me das tuas rosas e dos teus lírios,

Dá-me rosas, rosas,
E lírios também…

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Sophia de Mello B. Andresen – “Camões e a Tença”

21.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Irás ao Paço. Irás pedir que a tença Seja

paga na data combinada Este país te mata 

lentamente País que tu chamaste e não

responde País que tu nomeias e não nasce

Em tua perdição se conjuraram Calúnias 

desamor inveja ardente E sempre os

inimigos sobejaram A quem ousou seu ser 

inteiramente

E aqueles que invocaste não te viram 

Porque estavam curvados e dobrados

Pela paciência cuja mão de cinza Tinha 

apagado os olhos no seu rosto

Irás ao Paço irás pacientemente

Pois não te pedem canto mas paciência

Este país te mata lentamente

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D. Dinis – “Ai, flores”

18.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Português moderno

Ai flores, ai flores do verde pinho,
Se sabedes novas do meu amigo!
Ai Deus, e u é?
Ai flores, ai flores do verde ramo,
Se sabedes novas do meu amado!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amigo
Aquel que mentiu do que pôs comigo!
Ai Deus, e u é?
Se sabedes novas do meu amado,
Aquel que mentiu do que mi á jurado!
Ai Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’ amigo,
E eu ben vos digo que é san’e vivo.
Ai Deus, e u é?
Vós me perguntades polo voss’ amado,
E eu ben vos digo que é viv’e sano.
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é san’ e vivo
E será vosso ante o prazo saído.
Ai Deus, e u é?
E eu ben vos digo que é viv’ e sano
E será vosso antes o prazo passado.
Ai Deus, e u é?

Português antigo

As flores, ay flores, do uerde pinho,
se sabedes nouas do meu amigo!
ay Deus, e hu é?
Ay flores, ay flores do uerde ramo,
se sabedes nouas do meu amado!
ay Deus, e hu é?
Se sabedes nouas do meu amigo,
aquel que mentiu do que pôs comigo!
ay Deus, e hu é?
Se sabedes nouas do meu amado,
aquel que mentiu do que mh-á iurado!
ay Deus, e hu é?
Vós me preguntades polo uoss’ amigo,
e eu ben uos digo que é san’ e uiuo:
ay Deus, e hu é?
Vós me preguntades polo uoss’ amado,
e eu ben uos digo que é uiu’ e sano :
ay Deus, e hu é?
E eu ben uos digo que é san’ e uiuo
e seerá vose’ant o prazo saydo:
ay Deus, e hu é?
B eu ben uos digo que ê uiu’ e sano
e seerá vose’ant’ o prazo passado:
ay Deus, e hu é?

A adaptação ao Português moderno foi de Deana Barroqueiro. Este poema faz parte da “Coletânea de Poesia Portuguesa – I volume – Poesia Medieval”, disponível no iTunes – https://itunes.apple.com/pt/book/coletanea-poesia-portuguesa/id554261638?mt=11

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Miguel Torga – “Ode à Poesia”

16.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Vou de comboio…
Vou
Mecanizado e duro como sou 
Neste dia; 
— E mesmo assim tu vens, tu me visitas! 
Tu ranges nestes ferros e palpitas 
Dentro de mim, Poesia! 

Vão homens a meu lado distraídos 
Da sua condição de almas penadas; 
Vão outros à janela, diluídos 
Nas paisagens passadas… 
E porque hei-de ter eu nos meus sentidos 
As tuas formas brancas e aladas? 

Os campos, imprecisos, nos meus olhos, 
Vão de braços abertos às montanhas; 
O mar protesta contra não sei quê; 
E eu, movido por ti, por tuas manhas, 
A sonhar um painel que se não vê! 

Porque me tocas? Porque me destinas 
Este cilício vivo de cantar? 
Porque hei-de eu padecer e ter matinas 
Sem sequer acordar? 
1
Porque há-de a tua voz chamar a estrela 
Onde descansa e dorme a minha lira? 
Que razão te dei eu 
Para que a um gesto teu 
A harmonia me fira? 

Poeta sou e a ti me escravizei, 
Incapaz de fugir ao meu destino. 
Mas, se todo me dei, 
Porque não há-de haver na tua lei 
O lugar do menino 
Que a fazer versos e a crescer fiquei? 

Tanto me apetecia agora ser 
Alguém que não cantasse nem sentisse! 
Alguém que visse padecer, 
E não visse… 

Alguém que fosse pelo dia fora 
Neutro como um rapaz 
Que come e bebe a cada hora 
Sem saber o que faz… 

Alguém que não tivesse sentimentos, 
Pressentimentos, 
E coisas de escrever e de exprimir… 
Alguém que se deitasse 
No banco mais comprido que vagasse, 
E pudesse dormir… 

Mas eu sei que não posso. 
Sei que sou todo vosso, 
Ritmos, imagens, emoções! 
Sei que serve quem ama, 
E que eu jurei amor à minha dama, 
À mágica senhora das paixões. 

Musa bela, terrível e sagrada, 
Imaculada Deusa do condão: 
Aqui vou de longada; 
Mas aqui estou, e aqui serás louvada, 
Se aqui mesmo me obriga a tua mão!

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Airas Nunes – “Bailemos”

14.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Em Português moderno:

Bailemos nós já todas três, ai, amigas,
sob estas avelaneiras floridas
e quen for bonita, como nós, bonitas,
se amigo amar,
sob estas avelaneiras floridas
virá bailar.

Bailemos nós já todas três, ai, irmãs,
sob este ramo destas aveleiras,
e quem for louçã, como nós, louçãs,
se amigo amar,
sob este ramo destas aveleiras
virá bailar.

Por Deus, ai amigas, enquanto mais não fazemos,
sob este ramo florido bailemos,
e quem bem parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
sob este ramo sob o que nós bailemos
virá bailar.

A adaptação ao Português moderno é de Diana Barroqueiro. Por curiosidade aqui fica o texto original:

Baylemos nós já todas três, ay amigas,
so aquestas auelaneyras frolidas
e quen for uelida, como nós, uelidas,
se amigo amar,
se aquestas auelaneyras frolidas
uerrá baylar.

Bailemos nós já todas três, ay irmanas,
so aqueste ramo destas auelanas,
e quen for louçana, como nós, louçanas,
se amigo amar,
so aquesto ramo destas auelanas
uerrá baylar.

Par Deus, ay amigas, mentr’al non fazemos,
so aqueste ramo frolido bailemos,
e quen ben parecer como nós parecemos,
se amigo amar,
so aqueste ramo so lo que nós bailemos
uerrá bailar.

Este poema faz parte do livro “Coletânea de Poesia Portuguesa – I Volume”, disponível aqui: https://itunes.apple.com/pt/book/coletanea-poesia-portuguesa/id554261638?mt=11

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José Gomes Ferreira – “Panfleto…”

12.05.2014 | Produção e voz: Luís Gaspar

Sofro, noite!

Não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas 

para enfeitarem a fome da aristocracia das nuvens.

Não o terror súbito de nos vermos sozinhos na terra 

sem uma voz nos astros que nos diga: “Cá estamos nós

também!”

Não a tortura de saber se existe ou não existe 

um Deus de carne igual à nossa a dar ordens às pedras.

Não a agonia dos lamentos que saem dos poços para o céu 

e erram de árvore em árvore, de monte em monte, de corola

em corola 

com lobos voadores nos uivos dos vendavais.

Não o suor dos anjos na via láctea. O anseio do infinito. A

angústia da sombra

sem raízes.

Não o sufocar da treva no corredor cada vez mais estreito,

cada vez mais

estreito, cada vez mais estreito… 

Não o assombro dos lírios negros. O gemer das almas nos

cruzeiros 

e todos os sofrimentos da lua habitada por fantasmas…

… Mas por outras razões mais desesperadamente vis,

mais limitadamente exíguas e diretas,

como esta mulher de xaile aqui na minha frente

a sofrer o mistério da fome

perdida na noite imensa,

na noite inquieta,

na noite absurda

cheia de crianças a chorar

lágrimas para além das estrelas,

ah! mas mais profundas e eternas

do que todos os mistérios do universo

com o céu e o inferno dentro da cabeça dos homens.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de crianças espantadas de haver olhos sem lágrimas

na vida.

Lágrimas de carne humana a rasgarem o frio dos penedos 

e a molharem de lume o clamor dos bichos

presos à solidão da terra.

Lágrimas, ouviste?

Ah! poetas: não olhemos mais para o céu.

Deixemos os mistérios para depois

quando não houver na noite 

outras razões de sofrer mais vis.

Não olhemos mais para o céu!

Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea 

e todo esse espectáculo de luzes 

como um candelabro de cometas 

a iluminar a festa da miséria

no palácio do mundo.

Abaixo os astros! Essas caricaturas das lágrimas dos homens

de propósito belas e suspensas

para nos esquecermos das outras

que nos doem, nos olhos,

a inutilidade de chorara.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de grito!

Lágrimas de beber!

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